segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

BIODIVERSIDADE - Inventário da flora nas montanhas da Amazônia descobre espécies inéditas


O pesquisador Gustavo Martinelli coleta plantas na base do Pico da Neblina Foto: Divulgação/ Ricardo Azoury


Não há oceano no entorno. Em vez disso, uma mata densa e áreas de igarapés alagadas transformam montanhas com quase três mil metros de altitude em ilhas territoriais. Nessa porção de terra onde as fronteiras de Brasil, Guiana e Venezuela se encontram, no extremo norte da Floresta Amazônica, reside um laboratório vivo da biologia, cercado por lendas e protegido pelo isolamento.

Foi nesse cenário que um grupo de pesquisadores do Jardim Botânico do Rio, de diferentes áreas de estudo, desbravou — de barco, de helicóptero e a pé — as serras Grande, do Aracá e da Mocidade, o Pico da Neblina e o Monte Caburaí em busca de um elo verde perdido. Em cinco expedições, entre 2011 e 2014, num total de 50 dias de pesquisa em campo, foram coletadas quatro mil amostras de plantas que, agora, estão sendo identificadas e catalogadas por botânicos. Entre elas, encontram-se oito registros inéditos para a ciência, 52 exemplares encontrados pela primeira vez em solo brasileiro e outras dezenas conhecidas antes pela equipe apenas por ilustrações e exemplares conservados em herbários.

A empreitada, ao custo de R$ 1,7 milhão, foi uma ousadia em muitos sentidos, e deu origem a um livro a ser lançado no próximo dia 19. As regiões escolhidas sequer tinham um inventário prévio de plantas, ou somente listagens reduzidas, e tratam-se de áreas inóspitas e distantes até mesmo de um vilarejo ribeirinho ou de uma aldeia indígena, além de estarem sujeitas a mudanças bruscas nas condições climáticas.

Tal qual a Galápagos de Charles Darwin, as montanhas que fazem parte do Escudo das Guianas — formação geológica mais antiga da América do Sul — apresentam uma rica biodiversidade, preservada após eras de evolução. Seus picos conhecidos como tepuis, palavra indígena para “morada dos deuses”, são individualmente isolados em vez de constituírem uma cadeia montanhosa, ambiente que propicia o desenvolvimento de espécies únicas. E, até então, permaneciam praticamente inexplorados por botânicos.

Adentrar uma área inacessível, e portanto mais preservada, é um caminho para encontrar respostas a questões sobre como detectar a ameaça de extinção e como algumas espécies sobrevivem sob determinadas condições.

— Catalogar biodiversidade é o primeiro passo para qualquer tipo de estudo futuro. No momento já estamos realizando estudos com genética de populações para entender melhor como foi a evolução desses ecossistemas de montanhas ao longo do tempo — afirma o pesquisador do Jardim Botânico Marcus Nadruz, coordenador do projeto, que teve patrocínio da Natura.

Caixas com dezenas de plantas extraviadas pela companhia aérea, fotógrafo perdido na mata e princípio de incêndio na estufa montada no barco. A primeira expedição do grupo, muito além de conquistas de cumes e trechos alagados, representou um batismo de percalços prosaicos, a começar pela logística envolvida em toda incursão à floresta amazônica.

— A cada expedição fomos aprendendo. Na primeira, colocávamos as espécies em caixas de papelão, o que não conserva tão bem, e não fazíamos uma lista do que estava em cada uma. Perder orquídeas e bromélias para cultivo no trajeto de avião até o Rio foi um custo muito alto, mas aprendemos a nos precaver — lembra a pesquisadora Denise Pinheiro da Costa.

Equipamentos de geolocalização também foram incluídos na lista de precauções depois de um susto na equipe.

— Eu aproveitava a tarde para circular perto do acampamento. Fui andando, mas perdi a referência, embora a vegetação não fosse alta. Já me perdi na Amazônia, é uma situação muito incômoda. Na segunda vez, já estava com GPS. E depois a equipe levou aparelhos de emergência para localizar e pedir resgate — lembra o fotógrafo Ricardo Azoury.

Em média, as expedições contabilizavam bagagens de até uma tonelada, quase 200kg por membro. Além dos itens básicos de qualquer trilheiro — lanterna, barraca, sacos de dormir, itens de farmácia, facões etc. —, o kit de sobrevivência dos botânicos incluía vidros para a coleta de amostras, álcool para secagem, sílica gel para extração de DNA, cintas e grades de madeira para a prensagem das plantas. Somavam-se a isso vários botijões de gás para o funcionamento de uma estufa móvel e para uso na cozinha.

— Cozinhar no acampamento tem uma logística complexa. É preciso improvisar. Na primeira expedição nós mesmos cozinhamos, mas depois levamos um cozinheiro. Não é luxo. É uma questão de aproveitar a luz do fim do dia para trabalhar — explica Rafaela Forzza, curadora do herbário do Jardim Botânico.

No cardápio, arroz, feijão, carne-seca, salame, frutas, goiabada, castanhas, queijos duros e café.

— Chocolate derrete todo. O brigadeiro é que salva — conta ela, lembrando que alguns mateiros experimentaram pela primeira vez a iguaria. — Farinha não pode faltar senão rola uma insurreição. Para a trilha, os mateiros fazem paçoca de farinha e carne-seca. Sanduíche ou barrinha de cereal não têm vez. Nas panelas, o cozinheiro Waldir Xurimã, descendente indígena que improvisava nos utensílios enquanto embalava os integrantes da expedição com clássicos do jazz.

— Ele é uma figura. Morou em Nova York, no Bronx, por dois anos. Fala inglês, espanhol, ianomâmi, português. É um ser global, com todas as vivências da selva. Além de ser engraçado e espirituoso — define Azoury.

A jornada começava por volta das 7h e durava até as 23h. Pela manhã, as equipes se dividiam em duplas ou trios para cobrir uma área maior de pequisa. Logo depois do almoço, iniciava-se o trabalho de descrição, prensagem e secagem do material.

— Nos revezávamos para tomar conta da estufa. As plantas ficam envoltas em papelão para a secagem, é fácil pegar fogo. Um dia resolvemos deixá-la ligada durante a noite e tivemos um pequeno acidente — conta o pesquisador Gustavo Martinelli, há 44 anos no Jardim Botânico.

Nem de longe, porém, o momento mais tenso do projeto na Serra da Mocidade. Na viagem de barco para o local, boa parte da equipe passou quatro dias lutando contra uma febre de 40°C. Vencida a infecção, dois integrantes embarcaram num helicóptero para realizar a primeira coleta no topo da montanha. Quando já se aproximava do chão, a aeronave foi empurrada por uma corrente de ar para perto de um precipício. Missão abortada.

— É muito frustrante. Podíamos ver as plantas da cabine — lembra Martinelli.

Diz-se que o local recebeu esse nome pois só os que estão no vigor da idade podem chegar lá. O conjunto de montanhas ainda permanece uma incógnita para a ciência.

Gratas surpresas também fizeram parte das expedições. Ponto mais alto do país, o Pico da Neblina está inteiramente inserido na área indígena ianomâmi. Ele é chamado de Yaripo, local onde viveria o “espírito de abano’’, responsável pela ventania constante do lugar, cujo acesso só é garantido a pesquisadores após delicadas negociações com lideranças da etnia.

Com um ano de antecedência, Nadruz começou a levantar a documentação necessária em órgãos como Ibama e Funai e contatos com as lideranças por telefone — um orelhão da aldeia, diga-se.

— Não adiantava termos todas as autorizações, ajuda do helicóptero da Aeronáutica, a última palavra é da comunidade indígena — conta o pesquisador. — Aprendemos que não dá para negociar por telefone, tem que ser pessoalmente. Tivemos que convencê-los de que a pesquisa não iria interferir na cultura deles.

Negociações superadas, o grupo seguiu de helicóptero rumo ao Pico acompanhado pelo ianomâmi Armindo Góes, como parte do acordo. A parceria, porém, foi além, e os pesquisadores foram convidados durante a estadia na região para uma cerimônia de pajelança na aldeia natal do índio. Alguns meses depois do retorno ao Rio, Armindo foi ao Jardim Botânico ver o destino das amostras colhidas.

— O chamávamos de “embaixador dos ianomâmis”. Foi uma troca importante: fomos para a realidade dele e o trouxemos para a nossa. Pudemos mostrar que não se tratava apenas de coletar plantas, mas de acessar e compartilhar esse conhecimento — aponta Rafaela Forzza.

Acessar picos de grande altitude era um dos objetivos do grupo, já que poucos organismos estão adaptados a essas condições extremas.

— As montanhas são um dos grandes pilares da pesquisa em botânica porque traduzem um isolamento geográfico, uma evolução independente — ressalta Martinelli, que em 2007 relacionou 112 serras, montes e chapadas brasileiras carentes de pesquisa botânica. — O Brasil não tem definição conceitual que caracterize com propriedade as montanhas, tampouco uma política pública que as proteja. É onde nasce a água do mundo, onde a agricultura floresce.

Dentre as montanhas amazônicas brasileiras, os picos no Parque Estadual da Serra do Aracá eram um dos poucos a já contar com uma lista de espécies. Publicado em 1991, após expedições do botânico e ecologista britânico Ghillean Prance, o inventário incluiu cerca de 250 espécies, uma gota na diversidade total de uma área de 1.818.700 hectares (equivalente a mais de 2,4 milhões de campos de futebol) e altitudes que variam entre 44 e 2.121 metros.

— Sabíamos que há lacunas no conhecimento, e a chave para identificar está lá. É um centro de biodiversidade e, por isso, concentra muitas espécies — afirma Denise.

A partir das incursões do grupo do Jardim Botânico, a listagem do Aracá aumentou em mais de 50% o número de espécies, com mais de 430 novas coletas. E pela primeira vez listou as briófitas do local, foco de estudo de Denise, e que funcionam como um bioindicador da saúde da floresta.

— A partir dessa identificação surge um novo pacote de espécies que o Brasil tem que cuidar e preservar. Para unidades de conservação, ter uma lista das que ocorrem ali é fundamental — destaca Rafaela.

O processo de identificação de uma planta não é simples. Primeiro, é preciso que na coleta haja flor ou fruto. Por isso, o mês de pesquisa define quais exemplares poderão ser catalogados. Além disso, é necessário comparar as amostras com espécies já conhecidas, através de literatura ou especialista, a fim de defini-la. Tudo isso pode levar anos no caso de exemplares raros, endêmicos ou inéditos.

— As expedições acabaram, mas as pesquisas a partir dessas amostras não. Elas ficarão guardadas por séculos e o que não enxergamos hoje podemos perceber daqui a 20 anos. Há os frutos imediatos e os futuros — projeta Rafaela.

Fonte original: Jornal Extra
Fonte: Portal Amazônia







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