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sábado, 24 de outubro de 2026

Cenários e Custos da Transição Ecológica no Brasil


Se a transição ecológica é possível, o que impede que ela aconteça? Estudo do CEBRAP e ClimaInfo aponta caminhos para essa mudança

A crise climática deixou de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade que já afeta economias, ecossistemas e a vida das pessoas. Ao mesmo tempo, o cenário internacional passa por uma profunda reorganização dos sistemas produtivos, marcada por crescentes instabilidades geopolíticas e pelo avanço da descarbonização.

Nesse contexto, o Brasil pode ter futuros completamente distintos se optar por seguir pelo caminho em que estamos agora, com uma transição energética parcial e focada apenas nas emissões, ou se reconhecer as interdependências dos sistemas energético e agroalimentar e optar por uma transição ecológica.


O estudo Cenários e custos da transição ecológica no Brasil – As interdependências entre a transição energética e a transição agroalimentar e os riscos de um neoextrativismo verde, publicado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e o Climainfo, analisa a urgência, os custos e a interdependência entre transição energética e transição no sistema agroalimentar no Brasil.

O documento mostra que a transição ecológica representa uma oportunidade estratégica para produzir respostas à crise climática, mas também para reposicionar a economia brasileira em um cenário internacional marcado pela descarbonização, pela reorganização das cadeias produtivas e pela crescente valorização de ativos ambientais.

Para acessar o estudo completo.

No Brasil, essa transição precisa ser pensada de forma sistêmica. Os sistemas energético e agroalimentar compartilham recursos, cadeias produtivas e dinâmicas territoriais. A expansão da bioenergia, a produção de alimentos, o uso da terra, a conservação da biodiversidade e a exploração de minerais críticos fazem parte de um sistema interligado, no qual as decisões tomadas produzem efeitos simultâneos sobre o crescimento econômico, a segurança energética, a segurança alimentar e nutricional, a competitividade e a sustentabilidade.

Essa interdependência também significa que os custos de não agir tendem a crescer. A manutenção do modelo atual pode ampliar as perdas decorrentes do agravamento de eventos climáticos extremos, da degradação ambiental e da redução da produtividade agrícola, além de aumentar os custos de produção, os conflitos pelo uso da terra e da água, a vulnerabilidade a barreiras comerciais, a insegurança energética e a exposição da economia brasileira a riscos geopolíticos. Em outras palavras, adiar a transição significa acumular custos ecológicos, biofísicos, econômicos, sociais e fiscais cada vez maiores.

Mais do que uma questão tecnológica, portanto, a transição ecológica envolve escolhas econômicas, políticas e territoriais. O desafio não é apenas desenvolver novas tecnologias ou substituir determinadas fontes de energia. É decidir quais atividades queremos incentivar, onde queremos investir, quais territórios queremos proteger e quais caminhos de desenvolvimento queremos construir para as próximas décadas.

Limites Planetários vs. Valores Atuais


Os benefícios dessa transformação, entretanto, não serão automáticos. Eles dependerão das escolhas institucionais e políticas que serão feitas nas próximas décadas e da incorporação explícita de critérios de justiça. O desafio não é apenas reduzir emissões e desenvolver novas tecnologias, mas construir um novo padrão de desenvolvimento capaz de combinar competitividade econômica, conservação ambiental e inclusão social. Uma transição ecológica justa precisa gerar oportunidades econômicas, proteger direitos e reduzir as pressões sobre a natureza.

Isso significa enfrentar contradições que já estão diante de nós. Ao mesmo tempo em que o Brasil se apresenta como uma potência ambiental e climática, seguimos discutindo a expansão da exploração de petróleo e gás e convivendo com o desmatamento e a pressão sobre territórios indígenas e comunidades tradicionais. É justamente nesse ponto que a transição ecológica deixa de ser apenas um debate sobre tecnologias e passa a ser um debate sobre escolhas e prioridades.

Comparação dos cenários de transição


O Brasil tem condições de fazer essa transição. O que está em disputa é a capacidade política de transformar essas condições em um novo caminho de desenvolvimento.

É a partir desse desafio que este estudo propõe pensar a transição ecológica como uma transformação mais ampla do modelo de desenvolvimento brasileiro — capaz de articular energia, agricultura, uso da terra, proteção ambiental e justiça social.

Custos de fazer a transição


O Brasil não precisa esperar o futuro para começar. Muitas das soluções já existem. O que falta é transformar experiências, conhecimento e possibilidades em escolhas políticas capazes de mudar a direção do desenvolvimento.

O estudo parte justamente desse desafio: pensar a transição ecológica como uma transformação mais ampla do modelo de desenvolvimento brasileiro — uma transformação capaz de articular energia, agricultura, uso da terra, proteção ambiental e justiça social.

Fonte: ClimaInfo




sexta-feira, 16 de outubro de 2026

5º leilão do Eco Invest Brasil tem R$ 49,95 bilhões homologados para seis setores produtivos

Iniciativa é voltada ao fortalecimento da inovação tecnológica e ao desenvolvimento de cadeias estratégicas para a competitividade brasileira. - Foto: Yasin Hemmati

Bradesco, HSBC, Itaú e Santander foram selecionados para estruturar fundos e operações de crédito nas áreas contempladas

Os ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Fazenda homologaram, nesta quarta-feira (7/10), o resultado do 5º leilão do Programa Eco Invest Brasil. A iniciativa é voltada ao fortalecimento da inovação tecnológica e ao desenvolvimento de cadeias estratégicas para a competitividade brasileira.

Foram apresentadas 23 propostas por seis instituições financeiras, totalizando uma demanda de R$ 181,3 bilhões para fundos de inovação e crédito corporativo. Desse total, R$ 49,95 bilhões foram homologados e serão destinados a investimentos em seis cadeias produtivas estratégicas ligadas à inovação e à transformação ecológica, por meio de fundos, crédito corporativo e recursos não reembolsáveis.
 
Nesta rodada, o leilão combinou três instrumentos financeiros: Fundos de Inovação Eco Invest, Instrumentos de Crédito Corporativo e Fomento à Pesquisa e ao Empreendedorismo de Base Tecnológica. As instituições financeiras disputaram cada cadeia estratégica conforme sua capacidade de mobilizar capital privado.

A alavancagem global foi de aproximadamente 3,8 vezes, considerando a soma dos recursos públicos e privados em relação ao capital catalítico. Ou seja, para cada R$ 1 aportado pelo Tesouro Nacional, serão mobilizados cerca de R$ 3,80 em investimentos privado.

Participaram da disputa Bradesco, Citibank, HSBC, Itaú, Santander e Banco do Brasil. Ao final do processo, Bradesco, HSBC, Itaú e Santander foram selecionados para estruturar fundos e operações nas seis cadeias estratégicas.

As instituições financeiras selecionadas serão responsáveis pela constituição dos fundos e pela oferta de crédito corporativo às empresas aptas a ampliar sua produção. Como contrapartida, também deverão destinar recursos não reembolsáveis à pesquisa aplicada e ao empreendedorismo de base tecnológica.

Como parte das contrapartidas, as propostas homologadas preveem aproximadamente R$ 249,8 milhões em recursos não reembolsáveis no primeiro ano para ações de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e empreendedorismo de base tecnológica. As propostas também preveem destinação de 10,25% a 20% dos investimentos dos Fundos de Inovação a projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) em cooperação com universidades e Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs).

Recursos priorizam seis cadeias estratégicas

Nesta edição, o Programa Eco Invest Brasil contemplou seis cadeias produtivas ligadas à inovação e à transformação ecológica:
  • Circularidade de resíduos minerais e industriais para insumos;
  • Automação e inteligência artificial (IA) aplicada a processos produtivos e tecnológicos;
  • Fertilizantes verdes, bioinsumos e proteínas alternativas;
  • Biomateriais e química verde;
  • Beneficiamento de minerais críticos, baterias e mobilidade elétrica;
  • Combustíveis verdes avançados, biogás e biometano.
O principal destaque foi a cadeia de circularidade de resíduos minerais e industriais, que concentrou o maior volume homologado, com R$ 11 bilhões, o equivalente a cerca de 22% do total dos investimentos.

O Bradesco foi selecionado para estruturar os fundos da cadeia de circularidade de resíduos minerais e industriais, além das áreas de fertilizantes verdes, bioinsumos e proteínas alternativas, com R$ 9 bilhões, e de biomateriais e química verde, com R$8,5 bilhões.

O Itaú ficou responsável pela cadeia de automação e inteligência artificial aplicada a processos produtivos e tecnológicos, com R$ 9,75 bilhões em investimentos. O Santander venceu a cadeia de beneficiamento de minerais críticos, baterias e mobilidade elétrica, com R$ 6,5 bilhões, enquanto o HSBC foi selecionado para combustíveis verdes avançados, biogás e biometano, com R$ 5,2 bilhões.

Entre as atividades priorizadas pelos bancos, destacam-se reciclagem e valorização de resíduos (R$ 8,8 bilhões), automação, robótica e manufatura inteligente (R$ 8,11 bilhões), biofertilizantes, bioinsumos e biodefensivos (R$ 7,2 bilhões) e baterias e sistemas de armazenamento de energia (R$ 4,55 bilhões).

Dos recursos públicos de capital catalítico, R$ 9 bilhões serão destinados aos fundos de inovação e R$ 4,2 bilhões às operações de crédito corporativo. Os critérios do leilão também favoreceram propostas com maior participação de capital estrangeiro e maior proporção de investimentos em projetos desenvolvidos em parceria com universidades e ICTs, bem como iniciativas voltadas à aquisição e à internalização de tecnologias de empresas internacionais de base tecnológica.

Programa Eco Invest Brasil

O Programa Eco Invest Brasil integra o Plano de Transformação Ecológica, e tem como objetivo mobilizar capital privado nacional e internacional para projetos com impacto econômico, social e ambiental.

A iniciativa combina instrumentos financeiros inovadores, mecanismos de redução de riscos e atração de investimentos de longo prazo para acelerar a transição ecológica brasileira.

Com os cinco leilões realizados, o Programa Eco Invest Brasil já mobilizou mais de R$ 190 bilhões e reúne 13 instituições financeiras credenciadas.

Os documentos e demais informações referentes ao 5º leilão estão disponíveis no site do Programa Eco Invest Brasil.

Fonte: MMA





terça-feira, 13 de outubro de 2026

Congresso será mais hostil ao meio ambiente e clima

Reabertura dos trabalhos no Congresso, em fevereiro de 2026. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom

Sete em cada dez parlamentares da próxima Legislatura se posicionam contra a agenda socioambiental, mostra análise do OC

O Congresso piorou para a agenda ambiental e climática no país. Análise feita pelo GT Congresso do Observatório do Clima mostra que 68,9% dos parlamentares que vão compor a 58ª Legislatura (2027-2031) possuem baixa convergência ambiental. Os números foram divulgados nesta terça-feira (6).

O índice de convergência ambiental indica o quanto a atuação e os votos dos deputados e senadores se aproximam das agendas de clima e meio ambiente: quanto maior a convergência, maior o alinhamento com essas pautas.

No Senado, o quadro é pior: 64 dos 81 senadores (79%) da próxima Legislatura estão nas faixas Baixa ou Muito Baixa de convergência ambiental. Na Legislatura passada (2023-2027), eram 58 parlamentares (71,6%). Apenas 17 senadores (21%) estão nas faixas Boa ou Muito Boa de convergência.

A piora decorre do crescimento de partidos de extrema direita na Casa, que historicamente apresentam convergência ambiental muito baixa — o Partido Liberal (PL) passou de 15 para 28 cadeiras (34,6%) — e da baixa performance ambiental dos novos senadores.

Na Câmara, o cenário também não é favorável às agendas: 345 dos 513 deputados (67,3%) estão nas faixas de convergência Baixa ou Muito Baixa. Na Legislatura anterior, eram 63%. O grupo nas faixas Boa ou Muito Boa caiu de 181 para 168 deputados. Também nesta Casa, o PL ampliou sua bancada, de 98 para 121 deputados (23,6%).

Segundo Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, a piora trazida pelas urnas, especialmente no Senado, pode colocar em risco parte importante da proteção ambiental do país e facilitar a aprovação de retrocessos como o enfraquecimento da atuação dos órgãos ambientais, a redução ou extinção de áreas protegidas, a diminuição da proteção às florestas e aos biomas brasileiros e a anistia a grileiros. Para ela, o potencial para liderar pautas socioambientais vem de alguns parlamentares da Câmara, já que há deputados progressistas alinhados à agenda que conquistaram votações expressivas.

“Este quadro evidencia quatro anos de muito esforço para aqueles que atuam em clima e meio ambiente, e muita preocupação tanto com graves retrocessos quanto com as terríveis consequências disso tudo para a crise climática. Somando com um governo negacionista de Flávio Bolsonaro, isso significará o caos ambiental”, afirma.

Metodologia – A análise para a determinação do Índice de Convergência Ambiental considerou a composição e o perfil socioambiental dos parlamentares – como se posicionaram em votações sobre temas como licenciamento ambiental, comércio de emissões, terras indígenas, transição energética, proteção aos biomas e vetos presidenciais a dispositivos ambientais.

Prioritariamente, e sempre que disponíveis, foram utilizados os dados do Farol Verde, plataforma do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). Complementarmente, foi usada a média da convergência de cada partido político apurada pela mesma plataforma. Além disso, o histórico de cada nome foi analisado individualmente, com base na atuação em cargos públicos, políticas implementadas e posicionamentos relacionados à agenda socioambiental. Foram priorizadas fontes oficiais, como Câmara, Senado, assembleias legislativas e governos, com uso também de matérias publicadas na imprensa quando necessário. As faixas de convergência consideradas foram: Muito Baixa (0 a 25%), Baixa (26 a 50%), Boa (51 a 69%) e Muito Boa (70 a 100%).

Acesse a análise completa aqui.

Fonte: Observatório do Clima



terça-feira, 6 de outubro de 2026

Europa Ocidental teve verão mais quente da história, com calor extremo, seca e incêndios

Uma mulher com um leque perto da Torre Eiffel durante onda de calor em Paris, em 20 de junho de 2026. — Foto: REUTERS/Sarah Meyssonnier

Segundo o observatório europeu Copernicus, 52% do continente enfrentou níveis muito fortes de estresse térmico. Rios tiveram os menores fluxos de água em mais de 30 anos.

Por Roberto Peixoto, g1

A Europa Ocidental registrou em 2026 o verão mais quente de sua história, em uma temporada marcada por ondas de calor persistentes, seca, incêndios florestais e níveis excepcionalmente baixos nos principais rios do continente, mostram dados do observatório europeu Copernicus.

Considerando toda a Europa, este foi o terceiro verão mais quente já registrado.

As altas temperaturas começaram mais cedo que o normal em algumas áreas, com uma grande onda de calor atingindo o oeste europeu ainda no fim de maio, e permaneceram ao longo dos meses seguintes.

Na Europa Ocidental, a temperatura média entre junho e agosto chegou a 21,7°C, 2,5°C acima da média de 1991 a 2020. O resultado superou o recorde anterior, registrado em 2003.

O calor também se espalhou por uma área maior e persistiu por mais tempo. Ao longo de 2026, foram registrados 17 dias em que pelo menos 60% da Europa Ocidental teve temperaturas acima de 30°C. Em 2003, haviam sido 11 dias, e, em 2025, sete.

Além das temperaturas do ar, o levantamento mostra que o calor provocou forte impacto sobre o corpo humano.

Até o fim do verão, 52% da Europa havia enfrentado pelo menos condições classificadas como "muito fortes" de estresse térmico, associadas a temperaturas percebidas de 38°C ou mais.

ENTENDA: O estresse térmico mede como condições de calor, umidade, vento e radiação afetam o corpo humano. Em níveis elevados, aumenta o risco de problemas como desidratação e insolação.

Entenda o que é o fenômeno El Niño

Na Europa Ocidental, foram registrados em média 41 dias de estresse térmico forte, um recorde para a região e cinco dias a mais que em 2003.

Os episódios classificados como muito fortes chegaram a 13 dias, também o maior número já registrado.

"A Europa enfrentou um verão de extremos climáticos combinados em 2026", afirmou Samantha Burgess, líder de Estratégia Climática do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), responsável pelo serviço climático do Copernicus.

Segundo ela, o calor recorde ocorreu ao mesmo tempo que condições secas generalizadas, níveis excepcionalmente baixos nos rios e mares muito quentes, com consequências para a disponibilidade de água, produção de energia, transportes, ecossistemas e saúde humana.



Rios tiveram menor fluxo em mais de 30 anos

A seca prolongada também deixou marcas nos rios europeus. De acordo com o Copernicus, o continente teve em 2026 o verão com os menores fluxos de água desde o início da série histórica, em 1992.

Níveis recordes ou próximos de recordes de baixa foram observados simultaneamente em grandes rios, como Reno, Danúbio, Pó, Loire, Ródano e Sena, principalmente em julho e agosto.

A redução afetou o transporte de cargas e aumentou a pressão sobre sistemas de irrigação, geração hidrelétrica, abastecimento de água e resfriamento de reatores nucleares.

As condições secas, combinadas às sucessivas ondas de calor, também favoreceram os incêndios florestais.

Até 2 de setembro, a área queimada na União Europeia era quase duas vezes maior que a média registrada entre 2006 e 2025 para o mesmo período, segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais. Espanha e França estiveram entre os países mais afetados.

Dados do Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus mostram ainda que as emissões provocadas pelos incêndios na Europa ficaram entre as dez maiores registradas desde 2003, expondo milhões de pessoas a níveis perigosos de poluição do ar.

Navios cargueiros navegam pelo rio Reno, com o nível da água baixo e a Catedral de Colônia ao fundo, na Alemanha, nesta segunda-feira (3). — Foto: Thilo Schmuelgen/Reuters

Mares europeus também tiveram calor excepcional

Aliado a tudo isso, o calor também atingiu os mares ao redor do continente. Durante o verão, foram registradas temperaturas recordes ou próximas de recordes na superfície do oceano em grande parte da costa atlântica europeia e nas regiões oeste e central do Mar Mediterrâneo.

Essas águas excepcionalmente quentes vieram acompanhadas de ondas de calor marinhas fortes a excepcionais, períodos prolongados em que a temperatura do oceano permanece muito acima do normal.

ENTENDA: Ondas de calor marinhas são períodos persistentes de temperaturas anormalmente elevadas no oceano. Além de afetarem os ecossistemas marinhos, elas podem aumentar o calor nas regiões costeiras.

Segundo o Copernicus, mares mais quentes dificultam o resfriamento durante a noite e aumentam a umidade do ar perto da costa, o que pode agravar o estresse térmico enfrentado pela população.

Para Burgess, a combinação observada neste verão mostra como diferentes extremos podem ocorrer ao mesmo tempo e ampliar seus impactos.

"À medida que o clima continua aquecendo, eventos como esses reforçam a importância de aumentar a resiliência diante de riscos climáticos cada vez mais interligados", afirmou.

Fonte: G1




domingo, 5 de julho de 2026

The Ethical Dimension of Tackling Climate Change

 

Stephen Gardiner, autor de "A Perfect Moral Storm: Climate Change, Intergenerational Ethics and the Problem of Moral Corruption" (2008). Saiba mais sobre o autor.

The global challenge of climate change poses a perfect moral storm — by failing to take action to rein in carbon emissions, the current generation is spreading the costs of its behavior far into the future. Why should people in the future pay to clean up our mess?

By Stephen Gardiner
October 20, 2011


Sometimes the best way to make progress on a problem is to get clearer on what that problem is. Arguably, the biggest issue facing humanity at the moment is the looming global environmental crisis. Here, the problem is not that we are unaware that trouble is coming. After all, the basic science is both well known and continually being reiterated in major national and international reports. Rather, the core problem is that thus far effective action seems beyond us. We seem at best paralyzed, and at worst indifferent. Put starkly, there seems little place within our grand institutions and busy lives for what may turn out to be the defining issue of our generation.

Why? In my view, at the heart of the matter is the fact that humanity is in the grip of a profound ethical challenge that our current institutions and theories are ill-equipped to meet.

Sebastian Junger’s book The Perfect Storm tells the story of a fishing boat caught at sea during the rare convergence of three independently powerful storms. Similarly, the global crisis of climate change brings together three major challenges to ethical action — and in a mutually reinforcing way. It is genuinely global, profoundly intergenerational, and occurs in a setting where we lack robust theory and institutions to guide us. Neglect of this perfect moral storm leads us to underestimate the climate problem and fail to appreciate the wider implications in predictable ways.

Those least responsible for past emissions are likely to suffer the most serious impacts.

Conventional wisdom identifies climate change as primarily a global problem. Wherever they originate, emissions of the main greenhouse gas (carbon dioxide) quickly become mixed in the atmosphere, affecting climate everywhere. According to the standard analysis, this makes climate change a traditional “tragedy of the commons,” played out between nation states that represent the interests of their citizens in perpetuity. In Garrett Hardin’s tragedy, each herdsman prefers the collective outcome where none over-consume — so that the commons is not overburdened. Nevertheless, when acting individually each prefers to over-consume himself, no matter what the others do — with ruinous results for all.

In climate change, we are often told, states reason in the same way. Each prefers the collective outcome where none over-consume with carbon emissions — so that dangerous climate change is avoided. Yet, when acting individually, each prefers to over-consume, no matter what the others do — so overconsumption is rife. In both cases, then, we are led to an outcome that no one wants, and which is severe enough to seem tragic.

Unfortunately, this traditional model is at best dangerously incomplete. To begin with, it ignores one central spatial aspect of the climate problem. Those least responsible for past emissions are likely to suffer the most serious impacts (at least in the short- to medium-term). This is partly because the poorer nations are disproportionately located in more climate-sensitive regions, but it is also because, being poor, they lack the resources available to the rich to address negative impacts. Since it ignores this basic problem of fairness, the traditional model underestimates the nature of the relevant “tragedy.”

Even more importantly, the traditional model obscures the temporal aspect of the perfect moral storm. Once emitted, a substantial proportion of climate emissions typically remain in the atmosphere for hundreds of years, and some persist for tens — even hundreds — of thousands. This means that the current generation takes benefits now, but spreads the costs of its behavior far into the future.

Most victims of climate change cannot hold us to account, being very poor, not yet born, or nonhuman.

Worse, many of these benefits are comparatively modest (e.g., those of bigger and more powerful vehicles), and many of the projected costs are severe, even catastrophic (e.g., severe flooding and famine). Worse still, the problem is iterated: The same temptation to take modest benefits now even in the face of severe costs to the future is repeated for subsequent generations as they come to hold the reins of power. Hence, there are cumulative impacts further in the future. Worst of all, such impacts may eventually provoke the equivalent of an intergenerational arms race. Perhaps some future generations will face such appalling environmental conditions that they are entitled to emit more in self-defense, even foreseeing that this behavior makes matters even worse for their successors. And so it goes on.

The third storm exacerbates the situation. Climate change brings together many areas in which our best theories are far from robust, such as intergenerational ethics, global justice, scientific uncertainty, and humanity’s relationship to nature. The problem here is not that we do not have any guidance at all. For example, the idea that imposing catastrophe on the future for the sake of our own modest benefits is not a defensible way to behave is a relatively secure basic ethical intuition. Rather, the problem is that it is difficult to move beyond those basic intuitions to deal with the details, and we are too easily distracted by counterarguments, especially from theories that have merits in other contexts, but fail to take the future seriously enough.

For example, some influential economists claim the current generation is justified in moving slowly on climate change because future people will be richer due to economic growth, and so should pay more. But are we entitled to assume that the future will be richer even in a climate catastrophe? And even if they are, why should they pay to clean up our mess?

We face a profound challenge that current institutions and theories were not designed to meet.

This worry about distraction leads to a further important result. The intersection of the global, intergenerational and theoretical storms threatens to undermine public discourse. We in the current generation — and especially the more affluent — are in a position to continue taking modest benefits for ourselves, while passing nasty costs onto the poor, future generations, and nature. However, pointing this out is morally uncomfortable. Better, then, to cover it up with clever but shallow arguments that distort public discussion, and solutions that do little to get at the core problems. After all, most of the victims are poorly placed to hold us to account — being very poor, not yet born, or nonhuman.

Unfortunately, there is ample evidence for such shenanigans in the climate arena. If existing institutions are good at representing only the interests of their current members — or, worse, of the current generation of political and economic leaders — then we would expect agreements that reflect this. In particular, we might expect a succession of “shadow solutions” to the climate problem: processes, proposals, and agreements that pay lip service to wider ideals but ultimately deliver very little in the way of substance.

Sadly, this seems all too plausible a reading of the sorry history of international climate policy. The road from Rio to Kyoto to Bali to Copenhagen to Cancun is littered with procrastination, obfuscation, and empty promises. For example, all major countries including the United States agreed to the United Nations Framework Convention on Climate Change, which took effect in 1994, and so committed themselves to “protect the climate system for present and future generations.” However, global emissions are now up more than 40 percent since 1990, and more than 17 percent in the United States. Similarly, in 2009 in Copenhagen, the global community publicly committed itself to limiting global temperature rise to 2 degrees Celsius. However, it left the hard question of who should do what to a subsequent national pledge system that does not get close to that target, and few have any confidence such a system will actually be implemented. (Witness, for example, the U.S. pledge of a 17-percent reduction on 2005 levels by 2020, which rests on legislation that has since been abandoned.)

Most recently, we see headlines such as “Cancún deal leaves hard climate tasks to Durban summit in 2011” (in the Guardian on Dec. 14, 2010), followed by “Durban Climate Deal Impossible Say US and EU Envoys” (in the same publication on April 18, 2011). Alas, given the temptations of the global and intergenerational storms, such dithering is all too predictable, and highly convenient.

As bad as this news is, there may be worse to come. We should not expect a buck-passing strategy to limit itself to inaction and distraction, but rather to evolve over time. Given this, as the overall situation worsens, we might predict that the current generation will begin to press for a quick technological fix to hold off the worst impacts, at least until after they have exited the scene. In doing so they might even strive to seize the ethical high ground by declaring such a fix a “necessary” and “lesser” evil to prevent climate catastrophe. (Implausible? Welcome to the emerging debate about geoengineering.)

This is a grim state of affairs. However, recognizing the shape of the perfect moral storm can help us to make progress. We face a profound global and intergenerational challenge that current institutions and theories were not designed to meet. Given this, we need to move beyond the short-term economic and geopolitical framings that dominate current public discussion. We must acknowledge the global and intergenerational power that we yield and take responsibility for it, rather than taking solace in comfortable distraction. No one will stop us from exploiting that power but us. This is why ethics is at the heart of the matter.

Fonte: Yale Environmental 360



sábado, 30 de maio de 2026

RETROCESSO: Empresas não são mais obrigadas a fazer relatório de sustentabilidade

 

Foto Agência Nacional de Mineração

Mais um retrocesso no arcabouço da legislação ambiental brasileira que foi construído ao longo das últimas décadas. 

A Comissão de Valores Mobiliários - CVM, uma autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, que tem o objetivo de fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores, anunciou na noite de ontem (29 de maio), a aprovação de uma alteração da Resolução 193/2023, revogando a obrigação das empresas de capital aberto a publicarem e divulgarem os seus Relatórios de Sustentabilidade. Com o documento, as empresas tinham a obrigatoriedade de reportar as informações financeiras relacionadas à ação de sustentabilidade praticadas pela companhia. 

A Resolução 193/2023 (com as suas alterações posteriores) estabelecia que:
ART.2° Fica estabelecida, para as companhias abertas, a obrigatoriedade de elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base nas normas emitidas pelo CBPS, e aprovadas pela CVM, a partir dos exercícios sociais iniciados em, ou após, 1º de janeiro de 2026.
De acordo com a Resolução CVM 193, as empresas precisavam elaborar relatórios estruturados de acordo com as normas internacionais do ISSB (International Sustainability Standards Board), conhecidas como IFRS S1 e S2. Os relatórios seguiam a mesma periodicidade estabelecida para as respectivas demonstrações financeiras.

A aprovação da exigência pela CVM foi considerada uma inovação mesmo no âmbito internacional e tinha por finalidade enfrentar o chamado "greenwashing", maquiagem ambiental, ou o marketing enganoso de um pretenso compromisso socioambiental e ecológico corporativo, sem comprovação ou respaldo nas práticas efetivas das empresas. Com a nova Resolução CVM 244, que "reforma a CVM 193", as empresas não têm mais a obrigatoriedade de apresentar esse compromisso.

A CVM ofereceu as seguintes explicações na sua página no GOV.BR:
As alterações visam a aperfeiçoar o modelo de adoção voluntária, preservando a transparência e a comparabilidade trazidas pela necessidade de observância dos padrões contábeis, mas resgatando o necessário respeito à liberdade das entidades para estimar os custos e benefícios esperados de suas decisões sobre como usar os recursos dos investidores. 

A principal mudança é a remoção da obrigatoriedade que a versão original da norma impusera às companhias abertas, após período de adoção voluntária. Com isso, o regime aproxima-se daquele que a própria redação anterior já previa para fundos de investimento e sociedades securitizadoras, pois para tais entidades não havia previsão de adoção forçada do reporte de informações de sustentabilidade nos padrões contábeis. 

O padrão contábil internacional é mantido: as companhias que optarem por publicar informações financeiras de sustentabilidade só poderão fazê-lo se observarem as normas do CBPS e ISSB, com isso preservando a confiabilidade e aumentando a comparabilidade dessas publicações. Por outro lado, as companhias que entenderem que essa adoção não é adequada para seus negócios não terão tal obrigação, devendo apenas publicar sua opção por meio de comunicado ao mercado, em modelo de "pratique ou explique".
"Pratique ou explique"? Fui procurar saber o que era isso e, segundo o IA do Google, significa: 
O "Pratique ou Explique" é um mecanismo de autorregulação (muito utilizado pela B3 e pela CVM) onde empresas listadas na bolsa devem adotar boas práticas de governança e sustentabilidade, ou explicar publicamente o motivo de não o fazerem.
LOBBY OU TIRO NO PÉ?

Segundo o portal RESET, a CVM cedeu às pressões da Associação Brasileira das Companhias Abertas - ABRASCA, que no final de 2025, às vésperas de entrada em vigor (2026) da obrigação de contabilização os dados para divulgação em 2027, protocolou um documento pedindo a derrubada das regras ou o seu adiamento por três anos. A CVM surpreendeu o mercado, recuou na obrigação e sequer estabeleceu um prazo para retomar a obrigatoriedade.

A ABRASCA argumentou que o cumprimento da norma, ou seja, a preparação do relatório, "poderia chegar a representar 70% dos gastos de auditoria".

ORA, SE AS EMPRESAS NÃO QUEREM TER GASTOS COM UM RELATÓRIO, QUAL DEVE SER O NÍVEL DE COMPROMISSO E MOTIVAÇÃO DAS MESMAS NO CUMPRIMENTO DAS SUAS RESPONSABILIDADES AMBIENTAIS E CLIMÁTICAS? 

QUAL A COMPARAÇÃO ENTRE OS GASTOS QUE PRATICAM COM "PUBLICIDADE VERDE" E RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E O QUE EFETIVAMENTE INVESTEM EM SUSTENTABILIDADE?

Obviamente, as despesas que as empresas da ABRASCA estão reclamando não são as referentes a preparação do relatório em si, mas a obrigação de fazer as suas obrigações ambientais estabelecidas na legislação ou no licenciamento ambiental, ou ainda aquelas ações de responsabilidade socioambiental que os seus acionistas, o mercado e a sua clientela exigem.

O RESET também informou que durante os debates houve reação de outros setores como o Instituto de Auditoria Independente do Brasil (IBRACON), do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) a AMEC, APIMEC e a FIPECAFI. Alertaram que seria um "retrocesso relevante para a eficiência do mercado". O grupo de organizações alertou que tornar as normas opcionais abriria brechas estruturais para o "greenwashing involuntário ou estratégico" sem capacidade de influenciar de modo disciplinador o comportamento corporativo e o custo do capital.

Em fevereiro de 2026, a CVM havia rejeitado o pleito da ABRASCA alegando que seria injusto com empresas que já testavam o modelo, como Vale, Renner, C&A e Natura. Importante lembrar que a CVM ganhou um prêmio internacional por ser o primeiro regulador do mundo a adotar as exigências do ISSB.

Lembro-me que quando presidi (1999-2001 e 2007-2008) a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA (órgão ambiental licenciador pioneiro no país e que foi incorporado ao INEA), assinei um Termo de Ajuste de Conduta - TAC com uma empresa de capital aberto que tinha sérias pendências ambientais e recebi a visita de um estrangeiro que representava um grupo de acionistas. Estava preocupado com a performance ambiental da referida empresa. Sim, os acionistas também cobram das empresas, pois isso pode representar a qualidade da gestão ou o risco do investimento.

INTERFERÊNCIA POLÍTICA: MAIS UMA BOIADA

Mais uma vez, é o mesmo grupo da "terra arrasada" no Congresso que atua criminosamente para "passar outra boiada". A mudança de posição da CVM parece ter nome.

A mudança de direção da CVM coincide com a mudança de gestão na autarquia. Como informou o site G1, no dia 20 de maio, o Senado aprovou o nome do advogado Otto Lobo (Comissão de Assuntos Econômicos CAE, após muita polêmica, aprovou 31 votos favoráveis a 13 contrários. Posteriormente, o Plenário do Senado aprovou por 19 a 4) para assumir o cargo de novo presidente da CVM. A nomeação foi alvo de críticas devido a votos dados por Lobo em decisões envolvendo a Ambipar e o Banco Master, quando era diretor e presidente interino da autarquia, em 2025. Um dos beneficiados foi o investidor Nelson Tanure. O Tribunal de Contas da União questiona as decisões de Lobo.

Otto Lobo terá um mandato-tampão até julho de 2027, concluindo a gestão do ex-dirigente João Pedro Nas, que deixou o cargo em julho do ano passado. A indicação de Lobo foi encaminhada pelo governo e contrariou o então ministro da Fazenda Fernando Haddad e o atual ministro Dario Durigan e foi mal recebido também no mercado financeiro. Apesar da indicação do presidente Lula, o nome de Lobo teria sido apadrinhado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que pressionou o governo pela sua indicação. Alcolumbre nega a responsabilidade.

SUSTENTABILIDADE NAS EMPRESAS: ESG

A sustentabilidade no ambiente corporativo é uma realidade consolidada nas melhores empresas, com exemplos expressivos de boas práticas socioambientais e existem profissionais altamente qualificados trabalhando nos setores de ESG (Environment, Social and Governance). Como dirigente de órgãos ambientais, sempre tive nesses profissionais importantes aliados para o cumprimento da legislação e das licenças ambientais. Sempre acreditamos ser muito estratégico fortalecer o papel destes profissionais na governança das empresas, pois são eles que mais conhecem os desafios de sustentabilidade dessas instituições. 

Nem sempre estes profissionais são devidamente valorizados. A cobrança dos órgãos ambientais e normas como as que exigem os Relatórios de Sustentabilidade fortalecem a importância do setor de ESG na empresa, tirando-a de uma importância apenas periférica. 

A QUEM INTERESSA...?

A quem interessa o retrocesso promovido pela decisão nefasta da CVM? Interessa a aquelas empresas mais atrasadas e reativas, que não estão alinhadas com a tendência mundial de responsabilidade corporativa. Interessa a certas empresas como as que encontramos pelas COPs do clima, promovendo seus pretensos resultados ambientais, enquanto sabotam os avanços da agenda climática.

Importante lembrar que a atitude extemporânea e retrógrada acontece no momento em que se consolida o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, que tem tido reações de segmentos da economia europeia usando como um dos mais fortes argumentos o afrouxamento da legislação ambiental no Brasil e países do Mercosul, o que causaria um "dumping ambiental", ou seja, concorrência desleal pois o custo ambiental do produto brasileiro seria distorcido de forma desleal com a concorrência europeia.

CHEGA DE RETROCESSOS

Em outubro, tem eleição e é a chance de depurar a representação política no Congresso Nacional. É preciso mudar a correlação de forças que temos atualmente no Congresso e evitar a influência nefasta de grupos políticos que atual criminosamente contra a política ambiental, para garantir a continuidade dos avanços e não o triunfo do atraso. A sustentabilidade só será alcançada com a participação da sociedade como um todo e as empresas têm um papel decisivo no processo.

Axel Grael
Pré-candidato a Deputado Federal (PDT-RJ)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Presidente da FEEMA (1999-2001 e 2007-2008)




segunda-feira, 11 de maio de 2026

Santa Marta e o teste de um novo multilateralismo climático

Créditos: Ministério do Meio Ambiente da Colômbia.

Frustrados com os impasses das COPs, diplomatas e observadores buscam arenas alternativas e testam na prática o “multilateralismo em dois níveis”.

Em um momento em que choques energéticos, disputas comerciais e a política doméstica de grandes emissores voltam a tensionar a ação climática global, cresce a busca por espaços capazes de avançar onde as COPs de clima travam. O primeiro teste foi a 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, finalizada na semana passada em Santa Marta, na Colômbia. A Cúpula trouxe uma sensação pouco comum entre aqueles que acompanham a diplomacia climática contemporânea – esperança.

Acostumados com as amarrações políticas que praticamente paralisaram as negociações da Convenção de Clima (UNFCCC) nos últimos anos, os participantes do encontro na Colômbia enxergaram, com diferentes graus de otimismo, um caminho novo a ser explorado.

A sensação não é injustificada. Na COP30 de Belém, há poucos meses, vimos como os impasses entre países desenvolvidos e em desenvolvimento quase dinamitaram os resultados finais das negociações na capital paraense. A frustração das nações mais pobres e vulneráveis já era alta desde a conclusão das conversas sobre financiamento climático na COP29 de Baku, em 2024. Soma-se isso à indisposição de alguns países em discutir o nó crucial da luta contra as mudanças climáticas – a exploração e o consumo de combustíveis fósseis.

Esse foi justamente o tema central em Santa Marta. Há décadas, a ciência do clima aponta o uso crescente e continuado das fontes fósseis de energia como o principal fator por trás do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e, consequentemente, da elevação da temperatura média global.

No entanto, as Partes da UNFCCC só concordaram com uma citação aos combustíveis fósseis no documento de síntese do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris na COP28 de Dubai, em 2023. Ou seja, foram quase três décadas para os governos concordarem com o óbvio, ainda que em termos mínimos (“transicionar para longe” ao invés de “abandonar” os combustíveis fósseis). E logo – na COP seguinte, recuaram dessa constatação, inviabilizando qualquer avanço adicional.

Para quem negocia e acompanha as conversas internacionais sobre clima, está cada vez mais claro que o sistema multilateral não está sendo capaz de entregar as soluções necessárias para enfrentar o problema climático. É por essa razão que Santa Marta trouxe uma brisa fresca de novidade ao oferecer um espaço alternativo para os países (ao menos, aqueles mais dispostos) discutirem o fim dos combustíveis fósseis com muito mais liberdade e centralidade do que nas COPs.

Como destacou o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em sua última carta, estamos acompanhando o surgimento de um “multilateralismo em dois níveis”, que mantém a estrutura institucional baseada no consenso (UNFCCC), mas adiciona um novo ambiente, com uma velocidade distinta de ação e reação, focada na implementação. Esse segundo nível permite que coalizões voluntárias e atores dispostos mobilizem recursos, implementem soluções e gerem aprendizado em escala.

Nesse novo modelo de multilateralismo climático, a UNFCCC e suas COPs preservam o elemento legislativo da ação climática global, baseado nos documentos jurídicos que sustentam esse ordenamento internacional (a Convenção e o Acordo de Paris), resguardando a legitimidade, a universalidade, a clareza jurídica e a direção coletiva. Mas o sistema ONU deixa de ser o único ambiente de interlocução política internacional sobre o clima, abrindo a porta para o surgimento de outros espaços e fóruns, focados em pontos específicos – como combustíveis fósseis (como é o caso de Santa Marta), financiamento, adaptação, entre outros – e organizados de forma complementar aos processos das COPs climáticas.

A própria COP30 sinalizou essa transformação ao dar protagonismo inédito à Agenda de Ação, destacando iniciativas de atores não-governamentais e subnacionais que avançam na implementação dos compromissos climáticos dos países. Outro exemplo foi o lançamento, também em Belém, do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), capitaneado pelo Brasil e com a adesão de mais de 50 nações, como um esforço para destravar o financiamento para a proteção florestal em países tropicais.

A transformação do multilateralismo climático ainda está no começo. Em Santa Marta, por exemplo, a coalizão de cerca de 50 países que se reuniu no evento demonstrou ter disposição para consolidar o espaço como catalisador do abandono da energia fóssil, mas os próximos passos ainda são incertos e dependem de diversos fatores nacionais e internacionais. De toda forma, uma segunda conferência está marcada para 2027, em Tuvalu, co-presidida pela Irlanda.

O balanço positivo feito por participantes e observadores indica que a iniciativa pode ser promissora, especialmente para impulsionar os “mapas do caminho” para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis. Se ela progredir, é possível que outros espaços surjam para destravar mais tópicos de implementação da ação contra a mudança climática. E este movimento pode não apenas complementar as COPS, mas redefinir onde, e como, a diplomacia climática realmente acontece.

Fonte: ClimaInfo





Santa Marta é marcada por avanço político e pressão por um tratado pelo fim dos combustíveis fósseis

Divulgação: Ministério do Meio Ambiente da Colômbia

Proposta de Povos Indígenas e entidades de criar zonas livres de combustíveis fósseis é incluída nos encaminhamentos da conferência.

Há três décadas, países se reúnem anualmente em conferências da ONU para tentar frear as mudanças climáticas. Mas nunca os principais responsáveis pela crise do clima – o petróleo, o gás fóssil e o carvão – foram tratados de modo tão direto, honesto, pragmático e em todas as suas dimensões, como na 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis realizada em Santa Marta, Colômbia, na semana passada, destaca Giovana Girardi na Agência Pública.

O encontro terminou na 4ª feira (29/4) com um saldo político relevante, frisa ((o))eco, ainda que sem resultados vinculantes – aliás, este não era o objetivo. Ao operar fora do modelo tradicional das COPs do clima, a conferência funcionou como uma coalizão de países dispostos a avançar na implementação da transição energética sem depender do consenso global. Uma estratégia que busca contornar o bloqueio diplomático imposto pelos grandes produtores de combustíveis fósseis e deslocar o debate para o campo da ação.

Por isso, nos próximos meses, os 57 países reunidos em Santa Marta focarão em destravar o financiamento da transição energética – tema que também costuma travar as negociações climáticas. Os países também concordaram em coordenar a elaboração de planos nacionais e regionais para substituir os combustíveis fósseis e alinhar políticas comerciais entre as nações para fortalecer os setores verdes, detalha o Projeto Colabora.

“Por mais difícil que seja, sabemos que esta conversa não pode terminar aqui. Devemos manter o ímpeto, liderar com coragem, enfrentar o desafio e construir uma coligação de voluntários”, afirmou Irene Vélez Torres, ministra de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, que copresidiu a conferência junto com os Países Baixos. “Esta será uma ampla plataforma intergovernamental e multissetorial, complementar à UNFCCC [a Convenção do Clima da ONU], projetada para identificar os caminhos legais, econômicos e sociais necessários à eliminação gradual dos combustíveis fósseis”, reforçou.

A ampliação da coalizão para além dos países em Santa Marta também foi enfatizada pela ministra do Clima dos Países Baixos, Stientje van Veldhoven, na plenária final. “Esta é a coalizão dos dispostos; esta é a coalizão dos que fazem e queremos que ela cresça”, destacou. Ela lembrou que há uma clara tendência para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis – reforçada pela guerra no Oriente Médio, que inflou os preços do petróleo e do gás e restringiu a oferta – e é preciso aproveitar a oportunidade. “É hora de traçar um roteiro concreto que nos permita incorporar o novo e deixar o antigo para trás”, adicionou.

Colômbia e Países Baixos produziram um documento com conclusões sobre a conferência. Entre os encaminhamentos listados, está a criação de zonas livres de combustíveis fósseis – uma proposta capitaneada pelos Povos Indígenas e por várias organizações da sociedade civil. “Para limitar a expansão da extração, os países poderiam implementar planos de fechamento, zonas livres de combustíveis fósseis quando pertinente, interromper a emissão de novas licenças, gerenciar ativos encalhados, distribuir de forma justa os custos de encerramento ou leiloar, ao longo do tempo, o fechamento de instalações de produção de combustíveis fósseis”, diz um trecho do documento.

O anfitrião da próxima conferência para além dos combustíveis fósseis, já está definido: Tuvalu, país insular do Pacífico e um dos mais ameaçados pela elevação dos oceanos provocada pelas mudanças climáticas. O encontro será copresidido pela Irlanda.

Até lá, o Observatório do Clima reitera que o encontro em Santa Marta, embora tenha terminado com forte alinhamento entre países, terá como prova final de êxito o desenho de mapas do caminho nacionais. “Países que compareceram ao encontro precisam demonstrar compromisso ao entregar seus roteiros. O Brasil, lembrado em Santa Marta como iniciador da discussão sobre roadmaps, tem pecado nesse sentido, com o atraso de quase três meses na entrega das diretrizes para o próprio mapa.”

A conferência de Santa Marta e seus desdobramentos foram noticiados também por g1, Valor, Amazônia Vox, O Globo, UOL e Folha.

Em tempo: No dia seguinte ao fim da conferência de Santa Marta, o presidente designado da COP31 pela Turquia afirmou que a transição energética será um tema central na cúpula do clima, em novembro, mas que simplesmente dizer às nações para eliminarem os combustíveis fósseis "não é realista", destaca a Folha. Ao ser pressionado sobre se as palavras "combustíveis fósseis" poderiam constar de uma decisão final da COP31, Kurum disse: "Não se trata de colocar algumas palavras em um texto."

Fonte: ClimaInfo




segunda-feira, 4 de maio de 2026

Grande Muralha Verde da China: erros e acertos do plantio de 1 bilhão de árvores para conter o deserto


China’s Billion-Tree Experiment: Can Planting Forests Really Stop the Desert?



China’s Billion-Tree Experiment: Can Planting Forests Really Stop the Desert?

Across northern China, the wind still blows hard — but it no longer carries quite as much sand.

On the edge of the Tengger Desert, in Inner Mongolia and neighbouring regions, villages once braced themselves each spring for choking sandstorms. Fields vanished overnight, windows were sealed with tape, and children walked to school with scarves over their faces. Today, many of those same horizons are lined with rows of young trees, shrubs and grasses — a living barrier known as China’s “Great Green Wall”.

This vast reforestation effort, launched in the late 20th century, is one of the largest environmental engineering projects in human history. Its aim: to slow, halt, and ultimately reverse desertification.

So has it worked? The answer is complicated — and instructive for dryland restoration efforts worldwide.

What Is China’s Great Green Wall?

Often compared to the Great Wall of China, this “green wall” is not a single forest but a mosaic of shelterbelts, grasslands and restored soils stretching thousands of kilometres across northern China. Since the 1990s, government programmes have coordinated:
  • Large-scale tree planting
  • Sand dune stabilisation
  • Grazing restrictions in vulnerable areas
  • Financial incentives for local households to restore land
Chinese researchers estimate that more than one billion trees have been planted in key desertification zones over three decades.

The goal was not cosmetic greening, but climate resilience: slowing wind, anchoring soil, retaining moisture and giving ecosystems a chance to recover.

How Trees Help Slow Desertification

The science behind desert restoration is straightforward, if hard to implement at scale.
  • Trees and shrubs reduce wind speed, limiting how much sand is lifted and carried
  • Roots stabilise loose soil, preventing dunes from migrating
  • Vegetation traps sand, turning shifting surfaces into rough, stable ground
  • Moisture lasts longer, allowing grasses and native plants to establish
In practice, workers often begin by laying straw grids across dunes to break surface winds. Only then are saplings planted in careful patterns designed to interlock root systems. Water is trucked in and rationed meticulously — every tree planted by hand.

It is slow, repetitive, physically demanding work. Desert-scale change, built one hole at a time.

Measurable Successes of the Billion-Tree Programme

From satellite imagery to lived experience, there is clear evidence that parts of northern China look very different today than they did in the 1990s.

Reduced Desert Expansion

In several monitored regions, desertification has slowed, stabilised, or even reversed. Areas once dominated by bare sand now support patchy but persistent vegetation.

Fewer and Weaker Sandstorms

Major cities downwind, including Beijing, now experience fewer severe sandstorms than in previous decades. For residents, this means clearer skies, cleaner air and fewer days of disruption.

Improved Local Livelihoods

Some communities that once watched pastureland disappear now graze animals under sparse tree cover. For many families, the benefits are practical rather than symbolic: reduced crop loss, less soil erosion and greater stability.

The Limits and Failures of Mass Tree Planting

Despite these gains, China’s experience also highlights the risks of oversimplified solutions.

Water Stress and Groundwater Depletion

Early phases prioritised fast-growing tree species, such as poplars, that consumed large amounts of groundwater. In some areas, this lowered water tables, leaving ecosystems vulnerable once again.

Low Survival Rates

In harsh desert conditions, many plantations failed. Entire sections of trees died after just a few years, exposing the land beneath and wasting scarce resources.

Monocultures and Ecological Fragility

Planting single species over large areas reduced biodiversity and resilience. Uniform forests are more susceptible to disease, drought and climate stress.

Tensions with Local Communities

Grazing bans and top-down land-use plans sometimes disrupted traditional livelihoods. In places, communities felt excluded from decisions that directly affected their survival.

These shortcomings were not minor details — they forced major policy changes.



What Changed: From Tree Numbers to Ecosystem Thinking

Over time, China adapted its approach. Later programmes placed greater emphasis on:
  • Native and drought-tolerant species
  • Mixed vegetation, including shrubs and grasses
  • Natural regeneration, rather than planting everywhere
  • Monitoring groundwater, alongside tree cover
  • Local knowledge, recognising where wind, sand and water actually move

The result is not a picture-perfect forest, but a scruffy, uneven, living landscape — one that functions better than rows of identical trees ever could.

One forestry engineer in Ningxia described the turning point this way:

“First we planted trees to fight the sand. Then we realized we had to plant communities, not just trees. Different species, different heights, different roots — that’s when the land started to hold.”

Lessons for Global Desert Restoration

From the Sahel to Central Asia, governments and NGOs now look to China’s experience for guidance. The key lesson is not “plant a billion trees”, but something more nuanced:
  • Plant what belongs in that ecosystem
  • Measure success over decades, not election cycles
  • Combine trees with grasslands and human livelihoods
  • Treat water as the limiting factor it is
  • Be willing to admit mistakes and change course
There is no universal blueprint for stopping desertification. What transfers are principles, not numbers.

A Long Game with No Quick Fix

Three decades on, northern China’s landscape tells a mixed but meaningful story. The desert has not vanished — but in many places, it has paused. That alone is significant.

China’s billion-tree experiment shows what sustained political will, labour and funding can achieve — and what they cannot. It warns against chasing easy headlines about “greening deserts” while inviting us to rethink how we live with drylands rather than surrendering to them.

For organisations like Natural World Fund, the message is clear: lasting environmental change is slow, local, adaptive and deeply human. As climate change expands drylands across the globe, the real question is not whether we can plant trees — but whether we can build lasting ecosystems by adapting to help the bespoke landscapes recover for good.

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Home » Blog » China’s Billion-Tree Experiment: Can Planting Forests Really Stop the Desert?

At Natural World Fund, we recognise that land degradation and desertification are not problems that can be solved by planting trees alone. Fragile dryland ecosystems depend on a careful balance of soil, water, vegetation and human use. When that balance is disrupted — through overgrazing, water mismanagement or poorly planned interventions — landscapes become vulnerable to erosion, biodiversity loss and long-term decline. Protecting and restoring these environments requires a whole-ecosystem approach: using native plants, safeguarding water resources, supporting local communities and allowing nature to recover in ways that suit each place. Only by working with the land, rather than imposing one-size-fits-all solutions, can we build resilient landscapes that sustain both people and wildlife for generations to come.

Image sourcesgreat-green-wall (1): Wikipedia Commons
en_nw_pkg_focus_xxxx_fr2_china_desertification (1): Wikipedia Commons

Fonte: Natural World Fund


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domingo, 22 de março de 2026

Estudo inédito prova a efetividade das concessões florestais na contenção do desmatamento e na geração de emprego e renda

Foto Ascom SFB.

Florestas concessionadas na Amazônia já arrecadaram R$ 240 milhões, com alta de 62% nos empregos e 27% na massa salarial; desmatamento ficou em 2%.

O Serviço Florestal Brasileiro (SFB), em parceria com o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e a consultoria Systemiq, com apoio do UK PACT (UK Partnering for Accelerated Climate Transitions), lançou no último dia 19 de novembro, o estudo Concessões Florestais Federais na Amazônia Legal: Avanços socioeconômicos e ambientais em quase 20 anos de política pública. O documento foi apresentado durante um evento paralelo à COP 30 em Belém.

Com base em dados administrativos, geoespaciais e técnico-operacionais de plataformas públicas – como Prodes e Simex – monitoramentos, entrevistas qualificadas e evidências documentais, o levantamento concluiu que as concessões têm entregado à sociedade conservação, emprego e participação em receitas públicas. “As concessões florestais são um exemplo de solução baseada na natureza e que confirma o potencial brasileiro de ser uma liderança climática. A oportunidade agora é expandir o modelo e atrair investimentos, gerando empregos e renda, conservando a floresta”, diz Renato Rosenberg, diretor de Concessões Florestais do SFB.

Dentre os aperfeiçoamentos necessários, Rosenberg ainda destacou a necessidade de promover o processamento da madeira nos próprios municípios que sediam as concessões, a fim de impulsionar maior diversificação produtiva, com atividades de serviço e indústria, e consequente aumento do PIB e da arrecadação dessas localidades.

Segundo o diretor de Florestas e Restauração do Imaflora, Leonardo Sobral, o estudo revela avanços expressivos no campo ambiental e socioeconômico. “Analisamos dados desde a criação das concessões federais no país e a conclusão é que elas são um exemplo da agenda de implementação, de como a gestão pública eficiente e o investimento sustentável podem ser motores da transição para uma economia de baixo carbono, reunindo conservação ambiental, geração de emprego, dinamização da bioeconomia e respeito às comunidades locais”, afirma.

Principais achados

O estudo analisou dados de oito Florestas Nacionais (Flonas), que juntas somam 3.570.818 hectares. Nesses territórios, existem 22 Unidades de Manejo Florestal (UMFs), ou seja, de áreas concedidas para manejo florestal sustentável privado, perfazendo 1.254.075 hectares – aproximadamente 35% do total. Os parâmetros socioeconômicos (como emprego e massa salarial) resultam de um painel de 772 municípios, comparando dados dos que possuem concessões ativas àqueles elegíveis à concessão. Confira os principais resultados apurados:
  • Desde a criação, em 2010, até 2023 as concessões florestais federais colocaram no mercado 2,5 milhões de metros cúbicos de madeira de origem legal e rastreável, extraídos sob regime de manejo sustentável, com a conservação plena da floresta. O volume é quatro vezes maior do que o observado nos municípios sem concessão.
  • Em 75% delas, houve aumento de 62% no número de empregos e de 27% na massa salarial do setor. Em 2023, as concessões geraram 1.616 empregos diretos e 3.232 indiretos, totalizando 4.848 postos de trabalho. Elas já respondem diretamente por cerca de 7,5% dos vínculos formais das localidades concessionadas.
  • De 2010 a 2025, o poder público arrecadou R$ 240,4 milhões vindos das concessões florestais, com o maior pico de arrecadação em 2024, que correspondeu a R$ 40,5 milhões. Do valor total arrecadado, R$ 62 milhões foram destinados aos estados e municípios que sediam as respectivas concessões, ou seja, recurso chegando diretamente na ponta. O acesso aos repasses se dá mediante apresentação de planos de aplicação realizados com participação social.
  • O município de Terra Santa (PA), por exemplo, utilizou R$ 294.222,94 para construir e estruturar a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mineração (SEMMAM). Também foram arrecadados mais de R$ 6,26 milhões de recursos do mecanismo de redistribuição de renda, chamado Indicador Social. Desse total, entre 2015 e 2024, cerca de R$ 4,91 milhões já foram aplicados em infraestrutura para comunidades que vivem em Flonas sob concessão. Esse investimento destinou-se a melhorias em transporte, energia (incluindo kits de painéis solares), educação ambiental e apoio a cadeias produtivas.
Confira os estudos na íntegra:

PT: Concessões Florestais Federais na Amazônia Legal: Avanços socioeconômicos e ambientais em quase 20 anos de política pública

ENG: Federal Forest Concessions in the brazilian Amazon: Socioeconomic and Environmental Advances in Nearly 20 Years of Public Policy

Fonte: SFB


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quinta-feira, 19 de março de 2026

Cenário geopolítico faz risco ambiental perder prioridade para líderes globais

 

A preocupação ambiental está perdendo espaço no ranking de riscos considerados por líderes globais, segundo a edição 2026 do relatório Riscos Globais, publicada pelo Fórum Econômico Mundial. Dos seis riscos ambientais considerados na metodologia, quatro perderam posições para o horizonte de curto prazo (dois anos):
– Eventos climáticos extremos caiu de 2° para 4°;
– Poluição caiu de 6° para 9°;
– Mudança crítica nos sistemas da Terra caiu de 17° para 24°; e
– Perda de biodiversidade e colapso ecossistêmico de 21° para 26°.

Um subiu uma posição:
– Escassez de recursos naturais subiu de 18° para 17°.

E um risco ambiental, que não está relacionado com as questões climáticas, manteve-se estável:
– Desastres naturais não relacionados ao clima seguiu no 32° lugar.

O ranking acima foi elaborado a partir de entrevistas com 1.300 atores relevantes, na academia, nos negócios, em governos, organizações internacionais e sociedade civil. Eles foram consultados para estimar o impacto provável (severidade) de uma lista de 33 riscos no horizonte de dois e de dez anos.

As respostas sobre a possibilidade de impacto desses fatores no prazo maior de dez anos mostram que a percepção dos riscos relacionados à mudança do clima seguem altas. Isto é, são aspectos que persistem, independentemente da conjuntura.

As entrevistas foram realizadas entre 12 de agosto e 22 de setembro de 2025. Desde então, o nível de tensão geopolítica global se elevou.

O relatório também entrevista executivos sobre os riscos específicos para cada país. No caso do Brasil, os top 5 riscos identificados foram:

1. Desaceleração econômica (ex.: recessão, estagnação)
2. Serviços públicos e proteções sociais insuficientes (incluindo educação, infraestrutura, pensões)
3. Endividamento (pública, corporativa, familiar)
4. Criminalidade e atividades econômicas ilícitas
5. Inflação

O top 5 de pouquíssimos países incluem riscos ambientais.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

Fonte: Instituto TALANOA





Fundo Clima: BNDES investe R$ 150 milhões para recuperar 15 mil hectares de Mata Atlântica no Norte do RJ

Foto: Lucas Ninno/Getty Images

Projeto apoiado com recursos do Fundo Clima terá foco inicial nas cidades fluminenses de Campos dos Goytacazes, São Francisco de Itabapoana e Quissamã 

No longo prazo, a recuperação da cobertura vegetal contribuirá para proteger a biodiversidade, reduzir enchentes, mitigar a estiagem, melhorar a infiltração da água no solo e estabilizar áreas sujeitas à erosão

O financiamento reforça a posição do Brasil como referência global em restauração florestal. Desde 2023, BNDES já mobilizou mais R$ 7 bilhões para o setor

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a empresa Tree Agroflorestal S.A. (Tree+) assinaram nesta segunda-feira, 2,contrato de financiamento de R$ 151,8 milhões para apoio a restauração ecológica de 15 mil hectares de áreas degradadas do bioma Mata Atlântica. Os recursos são provenientes do Fundo Clima – Florestas Nativas e Recursos Hídricos e destinam-se ao plantio e à regeneração de vegetação nativa. Participaram da assinatura do contrato, a diretora Socioambiental do Banco, Tereza Campello e o diretor geral da Tree+, Sandro Longuinho.

A Tree+ desenvolve suas atividades inicialmente no Norte Fluminense, nos municípios de Campos dos Goytacazes, São Francisco de Itabapoana e Quissamã. O território-alvo poderá incluir áreas complementares no sul do Espírito Santo e na Zona da Mata Mineira, fortalecendo a conectividade ecológica regional. Ao longo de 2025, a Tree+ já realizou ações de recuperação em cerca de 2 mil hectares.

Foto: André Telles/BNDES

A recuperação será realizada em Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reservas Legais (RLs) e áreas voluntárias adicionais, em conformidade com o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica. Serão utilizadas exclusivamente espécies nativas do bioma, de forma a estimular a reconexão de fragmentos florestais, a recuperação de habitats e o retorno gradual da fauna silvestre.

“O governo Lula recolocou o Brasil no centro da agenda global do clima, com compromisso real com a redução do desmatamento e a restauração de florestas. A Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos e, ao mesmo tempo, mais degradados do país. Apoiar projetos de recuperação em escala é essencial para proteger a biodiversidade, enfrentar eventos climáticos extremos e gerar emprego e renda nos territórios”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

O bioma Mata Atlântica abriga cerca de 20 mil espécies vegetais — aproximadamente 35% das espécies brasileiras, muitas delas endêmicas. Segundo dados do MapBiomas, a Mata Atlântica é o bioma brasileiro com menor cobertura vegetal remanescente, cenário particularmente crítico no Norte Fluminense.

No longo prazo, a iniciativa promoverá a recuperação estrutural do solo, com melhoria significativa de suas condições físicas, biológicas e hidrológicas, ampliando a infiltração e o armazenamento de água, mitigando alagamentos sazonais e processos erosivos. O projeto adota uma abordagem integrada da paisagem, que incorpora os produtores rurais como parceiros estratégicos do negócio. Utilizando sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) como ferramenta-chave de incentivo produtivo, essa abordagem recupera a funcionalidade e produtividade das áreas de agropecuária, criando viabilidade econômica para a adesão voluntária à restauração florestal. Assim, o modelo de desenvolvimento rural se torna sustentável e alia conservação ambiental, segurança hídrica e geração de renda, além de ser um instrumento de mitigação climática.

Portanto, além dos ganhos ambientais, o projeto vai gerar impactos socioeconômicos na região. Durante a fase de implantação, a estimativa é de criação de mais de 800 empregos diretos e indiretos, com destaque para atividades de campo, viveiros, coleta de sementes, manutenção florestal e serviços técnicos especializados. A iniciativa também tem um compromisso com a inclusão de mulheres e está desenvolvendo parcerias para capacitação de mão-de-obra feminina e projetos de incentivo ao empreendedorismo local, com foco especial nesse público.

A certificação de créditos de carbono, estruturada segundo metodologias internacionais de alta integridade, associa a recuperação florestal à remoção de gases de efeito estufa e amplia o potencial de geração de receitas através de serviços ambientais. O projeto contribui ainda para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6, 13 e 15, relacionados à água, à ação climática e à vida terrestre.

“O investimento do BNDES representa um valor que vai além do econômico: é um indicativo de que a recuperação de áreas degradadas se tornou uma prioridade nacional, estimulando também o engajamento do capital privado nesse propósito. Essa parceria, além de promover ganhos ambientais por meio do restabelecimento de habitats, cria um verdadeiro hub de serviços florestais e ecossistêmicos que expressam a vocação natural do Brasil e do Norte fluminense, gerando emprego e renda a partir de seus recursos renováveis” afirmou a diretora de ESG da Tree+, Adauta Braga.

O financiamento reforça o papel do BNDES para posicionar o Brasil como referência global em restauração florestal, bioeconomia e soluções baseadas na natureza, em consonância com o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

A diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, destaca que a operação reforça o papel do Banco como indutor do desenvolvimento sustentável nos territórios. “A restauração florestal é uma política pública estratégica. Ela recupera o meio ambiente, gera trabalho, fortalece economias locais e reduz a vulnerabilidade climática. Ao apoiar projetos como este no Norte Fluminense, o BNDES contribui para diversificar a base econômica da região e construir uma nova trajetória de desenvolvimento associada à bioeconomia”, afirmou.

O apoio à Tree+ está alinhado à estratégia BNDES Florestas, que posiciona a restauração florestal e a bioeconomia de espécies nativas como eixos estruturantes do desenvolvimento sustentável. A atuação do Banco vem sendo significativamente ampliada nesse setor. Desde 2023, o BNDES já mobilizou mais de R$ 7 bilhões para a conservação e a restauração de florestas brasileiras, por meio de instrumentos reembolsáveis e não reembolsáveis, crédito, garantias, concessões e apoio produtivo. Esses recursos têm fortalecido cadeias produtivas associadas à restauração, como viveiros de mudas, redes de sementes, brigadas florestais, manejo sustentável e projetos de reflorestamento e recuperação ambiental em diferentes biomas.

Sobre o Fundo Clima – Operado pelo BNDES, o Fundo Clima é um dos principais instrumentos da Política Nacional sobre Mudança do Clima. O fundo apoia projetos voltados à mitigação e adaptação climática, à conservação e recuperação de florestas, à proteção da biodiversidade e à segurança hídrica, promovendo o desenvolvimento sustentável e a transição para uma economia de baixo carbono. O Fundo Clima é destinado a pessoas jurídicas de direito privado com sede e administração no País e oferece financiamento para atividades de restauração e mitigação climática, com foco em áreas prioritárias para biodiversidade e desenvolvimento socioeconômico.

Sobre o BNDES Florestas – O BNDES Florestas é a estratégia do Banco para impulsionar a restauração florestal e a bioeconomia de espécies nativas em escala, integrando instrumentos que se reforçam mutuamente, como o BNDES Florestas Crédito (Fundo Clima), o Floresta Viva, o Arco da Restauração, o ProFloresta+, as concessões florestais com restauro e manejo sustentável, o BNDES Floresta Inovação e o Fundo Amazônia, fortalecendo cadeias produtivas e ampliando impactos ambientais, climáticos e sociais.

Sobre a Tree+ - A Tree Agroflorestal S.A. é uma empresa brasileira do setor de bioeconomia que desenvolve projetos de restauração ecológica, manejo florestal sustentável e geração de créditos de carbono, integrados à recuperação de paisagens degradadas. A companhia desenvolve a implantação de um mosaico florestal de cerca de 50 mil hectares no Sudeste brasileiro, combinando recuperação da Mata Atlântica, sistemas agroflorestais e manejo florestal sustentável. Os investimentos totais previstos pela Tree+ ultrapassam R$ 800 milhões até 2031, com foco na conectividade ecológica, na recuperação de solos e na proteção de recursos hídricos. A Tree+ pertence ao portfólio da Lorinvest Gestora de Investimentos."

Fonte: Agência BNDES de Notícias