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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Árvores gigantes de florestas tropicais superam limites físicos para transportar água até o topo

 

O pesquisador Arne Scheire, um dos autores do artigo, escala um dipterocarpo de 67 metros na Malásia (imagem: Arne Scheire/University Exeter)

Estudo publicado na Science mostra que espécies com altura equivalente à de prédios de 30 andares desenvolveram adaptações internas e – ao contrário do que se pensava – não são mais vulneráveis a secas do que a vegetação mais baixa.

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Contrariando um paradigma da botânica, uma pesquisa divulgada hoje (02/07) na revista Science revelou que as árvores gigantes das florestas tropicais – com altura equivalente à de prédios de 20 ou 30 andares – não têm dificuldade em transportar água da raiz até o topo e tampouco são mais vulneráveis à seca do que as menores. O trabalho detalha o mecanismo de sobrevivência dessas espécies ainda pouco compreendidas pela ciência, embora essenciais para a regulação do clima por sua capacidade de armazenar carbono.

Pesquisas anteriores sugeriam que, conforme as árvores ganham altura, a capacidade de mover água até o alto poderia ser prejudicada pela maior distância entre raízes e folhas e pelos efeitos da gravidade. Isso reduziria a fotossíntese, limitaria o crescimento e aumentaria a vulnerabilidade à seca.

Mas, de acordo com o novo artigo, as árvores gigantes desenvolveram adaptações internas que compensam os desafios de transportar água até os galhos mais altos. Além disso, testes realizados durante secas severas mostraram que elas não tiveram declínio acentuado de crescimento em comparação com árvores menores, contrariando a hipótese de que espécimes muito altos seriam mais suscetíveis ao estresse hídrico.

Os pesquisadores descobriram que ajustes dos conduítes do xilema (“tubos” microscópicos que a planta usa para conduzir água e nutrientes até as folhas), com diâmetros maiores conforme fica mais alta, compensaram o aumento da resistência ao fluxo de água durante o trajeto. Na prática, é como se a árvore precisasse de uma mangueira maior para levar água mais longe. Essas adaptações complexas são capazes de reduzir a chance de falhas no transporte hídrico quando a planta está em situações de seca.

No caso das folhas, o efeito da gravidade as obriga a funcionar com menor hidratação (potencial hídrico mais negativo), levando-as a ficar murchas e ter que fechar o estômato (estrutura microscópica que funciona como “poros”) mais cedo, reduzindo sua fotossíntese. O estudo mostra, porém, que as árvores gigantes aumentam a tolerância a essas condições, sem prejuízo ao seu funcionamento.

Esses achados avançam na biologia das árvores gigantes, ajudando a explicar como conseguem superar limitações físicas e fisiológicas para conduzir água e continuar crescendo; aprimoram olhares sobre o papel das florestas nas mudanças climáticas e geram evidências para orientar ações de conservação, visando manter o equilíbrio do ciclo de carbono, de chuvas e da biodiversidade.

“Existem poucos dados sobre como as funções hidráulicas de uma planta mudam conforme ela cresce. É aceito que árvores maiores têm dificuldade em transportar água e, por isso, podem morrer mais em função de secas. Ficamos muito surpresos com o resultado do nosso estudo, verificando que elas têm um mecanismo interno de ajuste”, diz à Agência FAPESP o autor correspondente do artigo, Paulo Bittencourt, professor da Escola de Ciências da Terra e Ambiente da Universidade Cardiff (Reino Unido) e pesquisador colaborador do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Segundo o ecólogo, 1% das maiores árvores do planeta armazena mais da metade do carbono em ecossistemas florestais tropicais, além de contribuir com o ciclo de chuvas pela evapotranspiração.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio de um projeto Jovem Pesquisador concedido ao biólogo Peter Groenendijk, que assina o artigo com Rafael Oliveira, ambos do Centro de Ecologia Integrativa do IB-Unicamp.

(Esquerda) Palasiah Jotan, pesquisadora, usa câmara de pressão para medir o potencial hídrico de folhas de dipterocarpo antes do nascer do sol, quando as árvores estão bem hidratadas; (centro) vista de um dipterocarpo de grande porte; (direita) autores do artigo diante de um dipterocarpo: da esquerda para a direita Arne Scheire, Palasiah Jotan, Martin Svátek, David Burslem e Paulo Bittencourt (créditos: Palasiah Jotan/Czech University of Life Sciences Prague e Lindsay Banin /UK Centre for Ecology & Hydrology))

‘Escalando a floresta’

Para realizar o estudo, que levou mais de dois anos, o grupo utilizou uma amostra de 38 árvores da família Dipterocarpaceae, de cinco espécies, localizadas na Reserva Florestal Kabili-Sepilok (Malásia), na ilha asiática de Bornéu. A reserva é mundialmente conhecida por abrigar centros de conservação, inclusive o primeiro criado no mundo para reabilitação de orangotangos.

Essas árvores, variando de 7,1 a 71 metros, são consideradas as mais altas com flores dos trópicos.

O trabalho de campo foi possível com a contribuição de escaladores treinados por Jamiludding Jami, arborista ligado à Parceria de Pesquisa da Floresta Tropical do Sudeste Asiático (SEARPP, na sigla em inglês). Jami foi responsável, em 2018, por escalar e medir um dipterocarpo (meranti amarelo, Shorea faguetiana) de 100,8 metros, considerado a árvore tropical mais alta encontrada até agora.

Escalar uma árvore de mais de 70 metros é um trabalho muito especial, que pouquíssimos fazem no mundo. São pessoas que conseguem, no meio da floresta, passar uma corda em uma árvore da altura de um prédio de 20 a 30 andares, subir e coletar galhos, por exemplo. Algumas coletas tiveram de ser sem sol, à noite. Não é só saber passar a corda e ter condicionamento físico. Precisa ver se tem vespeiro, saber se aquele galho é bom, se a madeira é forte, não é uma coisa trivial”, relata Bittencourt.

Essa expertise foi levada a escaladores no Amapá, pertencentes a comunidades ribeirinhas no Estado, que, após o treinamento, contribuíram com a coleta de material para pesquisa semelhante na floresta amazônica. Parte desses resultados deve ser divulgada até o final de 2026.

Há alguns anos, esse grupo de cientistas vem estudando gigantes da Amazônia na região do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e da Floresta Nacional do Amapá, para onde já foram realizadas algumas expedições. O projeto busca entender reações fisiológicas da floresta amazônica às mudanças climáticas. É liderado pela ecóloga britânica Lucy Rowland, da Universidade de Exeter, com quem Bittencourt trabalhou diretamente quando estava na instituição e que também é autora da pesquisa publicada na Science.

Estimativa apresentada em outro estudo liderado por Robson Borges de Lima, da Universidade do Estado do Amapá, e do qual Bittencourt e Groenendijk fizeram parte, indica que a Amazônia brasileira tem cerca de 55,5 milhões de árvores gigantes, mas a distribuição geográfica é desigual. Apenas 1% da área de floresta concentra 14% delas e metade está localizada em aproximadamente 11% do bioma. Ficam principalmente em Roraima e no Escudo das Guianas (formação geológica que inclui parte do Amapá), onde a disponibilidade de água é alta.



Impactos das mudanças climáticas

Para analisar como os dipterocarpos reagem ao estresse hídrico, os pesquisadores mediram as taxas de crescimento dos troncos antes, durante e depois do forte período de seca associado ao El Niño em 2023-2024. Fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial, o El Niño de 2023-2024 foi considerado um dos cinco mais intensos já medidos. Classificado no limite da categoria “muito forte”, elevou as temperaturas em cerca de 2°C acima da média, com diferentes impactos no clima de vários países.

No estudo, os resultados da comparação entre os períodos não mostraram declínios na taxa de crescimento associada à altura das árvores durante a seca severa. Ou seja, as maiores foram tão afetadas quanto as menores, sofrendo impactos semelhantes das mudanças climáticas.

Nossos achados demonstram que os sistemas hidráulicos de dipterocarpos muito altos evoluíram de forma a se adequar perfeitamente à sua altura, não devendo sofrer mais do que os de menor porte expostos às mesmas condições de seca”, afirma Rowland, por meio de comunicado à imprensa.

Nesse sentido, a pesquisa sugere que diferenças na capacidade das árvores de evitar bolhas de ar (embolia) que interrompem a circulação interna de água durante a seca podem estar mais relacionadas ao microclima da copa e ao sombreamento do que à altura.

Para Oliveira, os resultados sinalizam a necessidade de entender melhor os mecanismos que determinam a mortalidade das árvores gigantes durante secas extremas. “Em vez de assumir que a altura por si só aumenta a vulnerabilidade hidráulica, os achados apontam que existem outros mecanismos fisiológicos e anatômicos que podem ser igualmente ou mais importantes para explicar a sobrevivência dessas árvores às mudanças climáticas. Essa nova perspectiva pode ajudar o desenvolvimento de modelos mais realistas sobre o funcionamento das florestas e suas respostas a climas cada vez mais secos”, afirma Oliveira à Agência FAPESP.

Groenendijk reforça a importância de compreender as taxas de crescimento dessas espécies. “Entender quais idades as gigantes atingem, como crescem e como se comportam frente à variabilidade climática são questões cruciais que estamos tentando responder usando sensores automatizados e a análise de anéis de crescimento”, completa.

No Brasil, um grupo internacional de cientistas está coletando dados na Reserva Florestal Adolfo Ducke, em Manaus (AM), para quantificar e mapear as causas e os fatores de morte de árvores tropicais altas. O “Projeto Gigante” vem sendo desenvolvido por integrantes do Cary Institute of Ecosystem Studies Millbrook (Estados Unidos) em cooperação com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Oliveira destaca que, provavelmente, um mecanismo que compensa a resistência a secas está ligado à capacidade das folhas mais altas de absorver orvalho e neblina. “Pesquisas anteriores que fizemos mostraram que fontes atmosféricas podem ser importantes para manter a hidratação de plantas em geral, mesmo as de folhas muito grandes”, conclui.

O artigo Height does not impair the hydraulic system of the tallest tropical Dipterocarp trees pode ser lido em: science.org/doi/10.1126/science.aea9013.

Fonte: Agência FAPESP



terça-feira, 30 de junho de 2026

Expansão de ciclovias e parques estimula paulistano a pedalar mais


Vários estudos demonstram benefícios da prática de exercícios para a saúde mental, com reduções nas taxas de depressão e ansiedade, acompanhadas de ganhos em bem-estar psicológico e qualidade de vida (imagem: Phelipe Janning/Agência FAPESP).

Estudo acompanhou 1,5 mil moradores por uma década e constatou que infraestrutura a até 500 metros de casa é decisiva para a adoção do transporte ativo. Desigualdade na distribuição da malha cicloviária, porém, ainda é desafio na capital

Elton Alisson | Agência FAPESP – A implantação de novas ciclovias, parques e outros equipamentos de uso público na cidade de São Paulo estimulou a prática de atividades físicas relacionadas ao transporte e promoveu ganhos à saúde coletiva, segundo um estudo que analisou o comportamento de 1,5 mil moradores da metrópole entre os anos de 2014 e 2024. Os pesquisadores constataram que a presença de ciclovias a menos de 500 metros de distância de casa, por exemplo, foi um fator determinante para manter os paulistanos em movimento, estimulando o ciclismo.

“Estamos observando um experimento natural em São Paulo: o aumento da oferta de espaços públicos evidencia como as mudanças urbanas estimulam o deslocamento ativo, a exemplo do ciclismo”, diz à Agência FAPESP Alex Florindo, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coordenador da pesquisa.

Os resultados do trabalho, apoiado pela FAPESP, foram descritos em artigo publicado em abril no Journal of Transport & Health.

O período analisado na pesquisa foi marcado por uma expansão expressiva da oferta de ciclovias na cidade. De acordo com dados da prefeitura, entre 2014 e 2024, a malha cicloviária de São Paulo saltou de 242 para 743 quilômetros (km) e a cidade ganhou 15 novos parques municipais.

Na avaliação dos pesquisadores, a ampliação desses espaços públicos abertos na cidade não apenas estimulou o deslocamento ativo, mas gerou impactos na saúde coletiva. Para fundamentar essa inferência, eles argumentam que a atividade física é um determinante central de saúde, cuja prática regular está comprovadamente associada à redução dos riscos de doenças cardiovasculares e câncer, por exemplo. Também há vários estudos que demonstram benefícios da prática de exercícios para a saúde mental, com reduções nas taxas de depressão e ansiedade, acompanhadas de ganhos em bem-estar psicológico e qualidade de vida.

Sob essa ótica, os autores sustentam que a integração de ciclovias, por exemplo, no planejamento urbano não é apenas uma escolha logística, mas uma estratégia de saúde pública. Segundo o estudo, essas intervenções contribuem para o desenvolvimento de cidades mais saudáveis ao reduzir a dependência de automóveis, a poluição do ar e os sinistros de trânsito, servindo, consequentemente, como um importante mecanismo de mitigação das mudanças climáticas.


Aumento das ciclovias

Entre 2014 e 2024, um estudo longitudinal utilizou entrevistas presenciais e telefônicas para monitorar os níveis de atividade física relacionada ao ciclismo (pedalar ao menos dez minutos por dia) e as condições de saúde relatadas por paulistanos residentes em todas as regiões da cidade.

Os dados foram cruzados com indicadores de acesso dos participantes a espaços públicos abertos existentes no entorno de suas residências em um raio de 500 metros – distância média que um adulto pode caminhar em dez a 15 minutos. Essas informações foram obtidas a partir de um conjunto de dados georreferenciados de ruas de São Paulo, disponibilizados pela plataforma Geosampa.

Gerida pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, essa plataforma disponibiliza dados atualizados anualmente de parques, praças, ciclovias, estações de trem e metrô, entre outros equipamentos públicos instalados na cidade.

“Com base no cruzamento dessas informações, foi possível estabelecer relações para verificar se o acesso das pessoas a esses espaços públicos abertos ao longo dos anos está contribuindo ou não para mudar determinados comportamentos ou desfechos em saúde”, explica Florindo.

Os resultados das análises indicaram que as ciclovias tiveram o maior crescimento em São Paulo entre 2014 e 2024, com a proporção de domicílios acompanhados na pesquisa próximos a esses novos equipamentos saltando de 22% para 33,2%. Já os parques registraram um aumento moderado no mesmo período, de 9,4% para 12,7%, enquanto as praças apresentaram estabilidade, variando de 68,4% para 69,3%.

Embora o uso da bicicleta para o deslocamento tenha apresentado queda na população participante do estudo como um todo ao longo da década, o grupo com acesso a dois ou três espaços públicos abertos próximos de casa permaneceu estável.

“Esses espaços passaram a atuar como um fator de proteção contra a diminuição do uso da bicicleta ao longo do tempo", avalia Danilo Dias Santana, pós-doutorando no Grupo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física e Saúde da EACH-USP e primeiro autor do artigo.

Distribuição desigual

Segundo Santana, o biênio 2014-2015 foi estabelecido como o marco inicial do estudo longitudinal porque em julho de 2014 foi aprovado o novo Plano Diretor de São Paulo.

Algumas das metas do plano foram aumentar a oferta de equipamentos urbanos em áreas com altos déficits de infraestrutura e ampliar a lista de parques públicos, beneficiando regiões menos arborizadas.

A despeito do aumento dos espaços públicos abertos promovido pelo plano, a expansão de ciclovias, por exemplo, ficou mais concentrada nas regiões mais ricas da cidade, ponderam os pesquisadores.

“Estamos apresentando os dados para secretarias da prefeitura e para a Câmara Municipal de São Paulo e estabelecendo diálogos além do meio acadêmico com o objetivo de reorientar algumas políticas. É preciso implantar mais ciclovias não só na região central, como também na centro-oeste e nas zonas leste e sul, onde há menor presença dessas infraestruturas”, diz Florindo.

As ciclovias, contudo, não são a única solução para estimular o uso de bicicleta em São Paulo e em outras capitais do país. São necessárias outras intervenções, como abrir ruas de lazer, ampliar o sistema de compartilhamento de bicicletas, implantar estacionamentos de bicicletas em grandes estações de transporte, além de realizar intervenções com famílias e disponibilizar locais para banho em rotas de trabalho e de estudo. Além disso, são necessárias mudanças não relacionadas diretamente ao planejamento urbanístico, pondera o pesquisador.

“Identificamos que, mesmo com a implantação de mais ciclovias, o ciclismo na cidade de São Paulo não está aumentando muito por uma série de razões. A bicicleta ainda é cara no Brasil e o ciclismo é uma atividade física praticada principalmente por homens.”

Estudos anteriores conduzidos por Florindo indicaram que as ciclovias têm sido usadas em São Paulo não somente para o tráfego de bicicletas, mas também para práticas de exercícios físicos como caminhadas e corridas, dada a escassez de espaços públicos abertos na cidade. “As ciclovias são estratégicas para promover essas atividades”, afirma.

Da moto para a bicicleta

O caso do fotógrafo Marcelo Heim de Andrada e Silva, de 40 anos, ilustra com exatidão os achados do estudo da EACH-USP. Há dois anos, após sofrer um acidente de moto e quebrar o ombro, ele decidiu mudar drasticamente sua rotina de transporte. Largou o veículo motorizado e adotou a bicicleta convencional ("analógica", em oposição à elétrica, como define com bom humor) para fazer o trajeto diário de 10 km entre a sua casa, no Butantã, e a avenida Paulista, onde trabalha.

Para ele, a decisão de consolidar a bicicleta como meio de transporte definitivo dependeu diretamente da chegada de nova infraestrutura urbana na sua região.

“Fizeram uma ciclopassarela do lado da ponte do Jockey para o shopping Eldorado [na zona oeste de São Paulo]. Isso foi determinante. Antes, eu teria de fazer um desvio enorme, entrar na USP [na Cidade Universitária], ir lá para o outro lado para conseguir atravessar a ponte e voltar pela Faria Lima. Quando fizeram essa ponte, eu fiquei só esperando ficar pronta para começar a vir direto de bicicleta. Achei uma linha reta”, conta o fotógrafo.

Além do deslocamento diário, o morador da zona oeste também passou a utilizar a bicicleta para o lazer nos fins de semana, frequentando espaços como as unidades do Sesc.

A percepção dele sobre o espaço urbano também dialoga diretamente com os alertas dos pesquisadores sobre os desafios futuros do planejamento em São Paulo. Embora note um aumento expressivo no fluxo de ciclistas – chegando a pegar "trânsito de bicicletas" na região do largo da Batata e da avenida Faria Lima –, ele ressalta os novos conflitos gerados pelo crescimento do modal e pela falta de espaço nas vias.

“Há muita gente usando, mas a rua continua sendo pensada para o carro; 90% da via é para o automóvel e não sobra quase nada para o resto", aponta Silva, que também destaca a vulnerabilidade dos ciclistas tradicionais diante do aumento de bicicletas elétricas que andam acima do limite de velocidade ou na contramão. O desafio da segurança na capital, contudo, vai além do trânsito: recentemente, o fotógrafo teve sua bicicleta roubada dentro do campus da USP, um reflexo de que a experiência do ciclista na cidade ainda demanda melhorias em segurança pública e infraestrutura de estacionamento.

O artigo A decade-long study on public open spaces and transport-related cycling in the largest Brazilian city pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2214140526000721.





TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL - Apenas 13% dos municípios têm plano climático publicado

Transcrevemos, a seguir, texto publicado pelo site da organização Transparência Internacional Brasil, sobre estudo realizado sobre os planos climáticos municipais no Brasil. 

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Adaptação climática nos municípios: apenas 13% têm plano publicado

As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 deixaram um rastro de destruição em municípios como Canoas — que, segundo dados coletados em 2025, mais de um ano após a tragédia, ainda não tinha Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil publicado. Imagem: Reprodução/TV Brasil.

Nota técnica da Transparência Internacional – Brasil avaliou 233 municípios em oito estados em 2025 e encontrou lacunas graves em planejamento, participação e comunicação climática.

RESUMO:
  • Em 2025, 233 municípios de oito estados foram avaliados quanto à transparência em adaptação climática
  • 75,1% dos municípios avaliados concentram-se nas faixas “ruim” e “péssimo”
  • Apenas 30 dos 233 municípios avaliados (12,9%) possuem e publicam Plano de Adaptação à Mudança do Clima
  • 92,3% dos municípios avaliados não têm registros de audiências ou consultas públicas sobre mudanças climáticas
  • A nota técnica traz recomendações para prefeituras e organizações da sociedade civil
Alagamentos, deslizamentos, ondas de calor, secas prolongadas. Os eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes e mais intensos no Brasil, e são os municípios que respondem diretamente à população quando eles ocorrem. Mas o quanto as prefeituras planejam, comunicam e abrem espaço para a participação da sociedade nessa agenda?

Em contextos de baixa transparência e fragilidade institucional desses entes, aumentam os riscos de má gestão de recursos, ineficiência e corrupção, comprometendo a capacidade do poder público de antecipar riscos, coordenar respostas e proteger a população.

Análise da Transparência Internacional – Brasil, produzida com dados coletados em 2025, avaliou 233 municípios em oito estados e a resposta é preocupante: a maioria tem desempenho classificado como “ruim” ou “péssimo” em transparência e governança climática (acesse a nota técnica no final do texto). Os resultados não representam um retrato de todo o país, mas apontam tendências relevantes em territórios de diferentes portes, regiões e realidades institucionais.

Os dados foram apresentados no Diálogos ITGP, webinar realizado na manhã desta terça-feira (2 de junho), que reuniu servidores públicos, membros de órgãos de controle, especialistas e representantes da sociedade civil para debater caminhos concretos para fortalecer a adaptação climática nos municípios brasileiros. Participaram do evento Natália Aguiar Mol, da Plataforma Climativa, que apoia prefeituras na construção de sua governança climática; Pedro Christ, analista do Departamento de Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, que apresentou exemplos do apoio oferecido a municípios por meio da plataforma AdaptaCidades; e Flávia Burmeister Martins, auditora do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, que trouxe a perspectiva de quem fiscaliza os entes públicos — incluindo a experiência gaúcha com as enchentes de abril e maio de 2024.

A nota técnica Transparência em Adaptação Climática em Governos Municipais foi apresentada durante o Diálogos ITGP de junho/2026.

O que foi avaliado

A nota técnica Transparência em Adaptação Climática em Governos Municipais tem como referência o Índice de Transparência e Governança Pública – Executivo Municipal, ferramenta da Transparência Internacional – Brasil que avalia e ranqueia a transparência, integridade e governança das prefeituras brasileiras com base em mais de 100 critérios, atribuindo notas de 0 a 100.

Em 2025, o índice incorporou pela primeira vez um módulo temático dedicado à adaptação climática, composto por 22 indicadores organizados em duas dimensões: Transparência e Governança, que verifica a existência e a publicação de planos, estruturas institucionais e sistemas de alerta; e Comunicação e Participação, que avalia colegiados, audiências públicas, núcleos comunitários e comunicação digital.

Os dados foram coletados entre março e setembro de 2025 a partir dos portais oficiais das prefeituras avaliadas, em oito estados das regiões Norte, Nordeste, Sul e Sudeste — Bahia, Espírito Santo, Pará, Piauí, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. A aplicação da metodologia foi conduzida por oito organizações da sociedade civil parceiras da Transparência Internacional – Brasil. Por se tratar da edição inaugural do módulo, os resultados de 2025 constituem a linha de base a partir da qual o progresso dos municípios avaliados será aferido nas edições seguintes.
O módulo mede transparência e práticas de governança publicadas nos portais municipais no período de coleta. Práticas existentes, mas não publicadas, não são capturadas pelo índice. Nota alta não implica política climática efetiva, assim como nota baixa não implica ausência de ação — apenas ausência de publicidade sobre ela.
Nota “ruim”: o diagnóstico geral

Os resultados de 2025 mostram desempenho médio de 27,6 pontos de 100 possíveis, com mediana de 23,5 — classificação “ruim” pela metodologia do índice. Três quartos dos municípios avaliados (75,1%) concentram-se nas faixas “péssimo” e “ruim”. Apenas seis municípios (2,6%) atingiram a classificação “ótimo” e 22 (9,4%) zeraram todos os 22 indicadores do módulo.

Base: 233 municípios avaliados no módulo Adaptação Climática.
Gráfico: Transparência Internacional - Brasil. Fonte: Índice de Transparência e Governança Pública 2025. Incorporar Download da imagem. Criado com Datawrapper

O padrão que emerge da análise revela um desequilíbrio entre as duas dimensões avaliadas. A dimensão Transparência e Governança registrou média de 39,6 pontos; a dimensão Comunicação e Participação ficou em apenas 15,7 pontos.

Os municípios avaliados têm mais sucesso em criar estruturas formais — como secretarias de meio ambiente e órgãos de defesa civil — do que em torná-las efetivas, transparentes e abertas à participação da sociedade.
Os municípios avaliados avançam de forma mais consistente na criação de estruturas institucionais formais do que na transparência sobre seu funcionamento e na abertura de espaços participativos para a sociedade.
A lacuna mais crítica: o plano de adaptação climática

O Plano Municipal de Adaptação à Mudança do Clima é o instrumento pelo qual o município identifica os riscos climáticos a que está exposto — secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor — e define ações, investimentos e responsabilidades institucionais para reduzir vulnerabilidades. Sem ele publicado, o cidadão não tem como saber se o município tem uma estratégia de adaptação, quais são suas prioridades e quem é responsável por executá-las.

Na avaliação de 2025, esse é o indicador com pior desempenho de todo o módulo: apenas 30 municípios (12,9% dos 233 avaliados) possuem e divulgam esse plano. Mais revelador ainda é o dado combinado: 179 municípios avaliados — 76,8% do total — não têm Plano de Adaptação Climática nem Plano Plurianual com metas de mudanças climáticas. Esses municípios operam sem qualquer instrumento formal de planejamento relacionado à agenda climática.

O Plano Clima – Adaptação, lançado pelo governo federal em março de 2026, estabelece que pelo menos 35% dos municípios brasileiros devem ter planos de adaptação climática até 2035. Os resultados de 2025 indicam o tamanho do esforço necessário para que essa meta seja alcançada.

Plano de adaptação e plano de contingência: qual é a diferença?

Os dois instrumentos são complementares, mas têm funções distintas. O Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil, conhecido como PLANCON, é operacional: define como o município vai responder quando um desastre já está em curso ou é iminente, com protocolos de ação, rotas de evacuação, localização de abrigos e critérios para declaração de emergência.

O Plano de Adaptação é estratégico e de médio e longo prazo: seu objetivo é reduzir as vulnerabilidades estruturais do território antes que os eventos ocorram. Na avaliação de 2025, 37,3% dos municípios avaliados publicam o PLANCON; 12,9% publicam o Plano de Adaptação.

Participação cidadã: o dado mais grave do módulo

Se o planejamento climático é deficiente, a participação cidadã é ainda mais escassa. O indicador com pior resultado de todo o módulo mede a realização e a divulgação de audiências e consultas públicas sobre mudanças climáticas e defesa civil: 92,3% dos municípios avaliados têm nota zero nesse quesito.

O dado é especialmente significativo porque o universo avaliado inclui capitais estaduais como Curitiba e Porto Alegre e municípios com estrutura administrativa consolidada. A ausência total desse tipo de mecanismo nesses contextos indica que a baixa realização de audiências públicas sobre mudanças climáticas não pode ser atribuída apenas à falta de capacidade técnica ou institucional.

Outros números do levantamento de 2025 reforçam o quadro: 
  • 86,7% dos municípios avaliados não possuem colegiado de mudanças climáticas ativo
  • 63,5% não possuem colegiado de defesa civil
  • 91% não divulgam informações sobre Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (os chamados Nupdecs)
  • 59,7% das prefeituras avaliadas não têm atividade mínima nas redes sociais sobre clima ou riscos de desastres
Estrutura existe; transparência, não

A análise de 2025 revela uma contradição recorrente: os municípios avaliados criam os órgãos, mas não publicam informações sobre eles. O órgão de meio ambiente existe em 78,1% dos municípios avaliados — o indicador com maior taxa de cumprimento de todo o módulo. O órgão de defesa civil está presente em 62,7%.

Mas a transparência sobre o funcionamento dessas estruturas é muito menor. Apenas 33,9% dos municípios com órgão de meio ambiente publicam integralmente seu organograma, funções e contato; no caso da defesa civil, esse percentual cai para 20,6%.

O mesmo padrão aparece nos colegiados: dos 58 municípios avaliados com colegiado de defesa civil ativo, 53,4% não divulgam absolutamente nenhuma informação sobre ele. O colegiado funciona, formalmente, mas o cidadão não sabe quem são os membros, quando se reúne nem como participar.

Há também uma diferença reveladora no planejamento orçamentário. O Plano Plurianual com metas de defesa civil existe em 42,1% dos municípios avaliados. Com metas explícitas de mudanças climáticas, esse percentual cai para 15%. A distância reflete que a agenda de resposta a desastres já está parcialmente incorporada ao planejamento municipal, mas a agenda de adaptação climática estrutural — com ações preventivas, de longo prazo e sistêmicas — ainda não foi traduzida em compromisso orçamentário pela grande maioria dos municípios analisados.

Recomendações para prefeituras e sociedade civil

A nota técnica apresenta um conjunto de recomendações para prefeituras e organizações da sociedade civil. Para as prefeituras, as prioridades incluem elaborar e publicar o Plano de Adaptação Climática, publicar os quatro planos setoriais com interface direta com o tema (Plano Diretor, Plano de Habitação de Interesse Social, Plano de Saneamento Básico e Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos), incorporar metas climáticas nos Planos Plurianuais, criar colegiados com participação da sociedade civil, divulgar informações sobre sistemas de alerta antecipado e manter comunicação digital ativa sobre riscos e adaptação.

Para a sociedade civil, a nota recomenda utilizar os dados do índice como ponto de partida para pedidos de acesso à informação, pressionar pela criação de colegiados climáticos com representação social e exigir a realização e a publicação de audiências públicas sobre planos de adaptação e contingência. Em municípios com pontuação zero ou muito baixa, a incidência mais efetiva começa pelos requisitos mais básicos: a publicação dos atos normativos dos órgãos de defesa civil e de meio ambiente e a divulgação de alertas antecipados de desastres.

Como o estudo foi construído

A avaliação foi conduzida por oito organizações da sociedade civil parceiras da Transparência Internacional – Brasil: Instituto Nossa Ilhéus (BA), Transparência Capixaba (ES), Observatório do Marajó (PA), Força Tarefa Popular (PI), Rede Curitiba Climática (PR), OSB São Leopoldo (RS), OSB Indaial (SC) e OSB São Paulo (SP). Cada organização aplicou a metodologia do índice nos municípios de seu território, com dados coletados entre março e setembro de 2025.

Os Diálogos ITGP são espaços de troca de experiências entre gestores públicos, sociedade civil e especialistas, baseados nas evidências produzidas pelo índice. Cada edição aprofunda um tema específico e gera recomendações práticas para estados e municípios. As edições anteriores abordaram transparência de emendas parlamentares, em dezembro de 2025, e transparência de obras públicas, em abril de 2026.

Fonte: Transparência Internacional - Brasil

Acesse o PDF do relatório.





segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sem medidas de adaptação eficazes, Europa aquece em ritmo superior à média global e tem 1.300 mortes adicionais em uma semana

Pessoas tentam se refrescar na frente de um jato d'água instalado em uma caminhonete da Defesa Civil perto do Coliseu — Foto: Andreas SOLARO / AFP

Pessoas pulam no Canal Saint-Martin durante uma onda de calor na França, em Paris — Foto: Ludovic MARIN / AFP

Continente enfrenta mudança climática ao mesmo tempo em que passa por profunda transformação demográfica, com aumento de população vulnerável

Por Amanda Scatolini

Quando a Europa enfrentou uma histórica onda de calor em 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, o episódio foi inicialmente tratado como um ponto fora da curva. Nos anos seguintes, porém, temperaturas extremas passaram a fazer parte da rotina dos verões europeus — como o deste ano, que mal começou e trouxe poderosa onda de calor em sua primeira semana, que já causou, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no domingo, mais de 1,3 mil mortes adicionais.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicou no X que "neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob um calor extremo, escolas estão fechadas e redes elétricas em colapso". Sublinhou que "o estresse pelo calor é frequentemente chamado de 'assassino silencioso', e as casas, locais de trabalho e escolas europeias não foram construídos para suportar essas temperaturas". Na França, a agência nacional de saúde pública especificou que o surto afeta principalmente pessoas com mais de 65 anos e destacou aumento de 40% nas mortes em casa.

Enquanto sucessivos recordes de altas temperaturas são registrados em diferentes países, a Europa passa por uma transformação demográfica profunda, com população cada vez mais envelhecida e, consequentemente, mais vulnerável a extremos. A combinação dos fenômenos levanta uma questão que especialistas tentam responder há anos: até que ponto a Europa realmente se adaptou para enfrentar o problema?

Apesar de altas temperaturas não serem fenômeno exatamente novo para os europeus, a frequência, a duração e a intensidade de eventos extremos aumentaram significativamente desde a década de 1980, aponta a Agência Europeia do Ambiente (EEA). Além disso, segundo o observatório climático Copernicus, o continente é o que aquece mais rapidamente no planeta. A temperatura média europeia aumentou cerca de 0,49°C por década desde 1979 e, considerando só os últimos 30 anos, o ritmo é de 0,56°C por década — mais que o dobro da média global.

Os verões mais quentes registrados na Europa — Foto: Arte/ O GLOBO


100 milhões afetados

Recordes recentes, sobretudo a partir dos anos 2010, ilustram a tendência, com o verão de 2024 sendo o mais quente da série histórica até então. Naquele ano, a temperatura média do continente foi 1,54°C acima das registradas entre 1991 e 2020. Mais de 62,7 mil mortes relacionadas ao calor foram estimadas, o que põe o verão daquele ano como o segundo mais letal, atrás do de 2003.

Ainda que seja cedo para dizer que o verão deste ano entrará para o rol dos mais quentes registrados na Europa, seus primeiros dias (a estação começou no dia 21) já são históricos para a média de junho. Parte do continente é hoje assolada por uma nova onda — provocada por uma massa de ar extremamente quente proveniente do Norte da África e mantida sobre a Europa Ocidental por um sistema de alta pressão, formando um "domo de calor" — que já quebrou recordes em diversos países, com termômetros marcando mais de 40°C em alguns locais.

De acordo com a agência AFP, pelo menos 191 milhões de pessoas enfrentaram 35°C ou mais neste domingo, com temperaturas particularmente altas na Alemanha, República Tcheca, Hungria e Polônia.

Diante do quadro alarmante, que tende a se agravar, a principal estratégia recomendada pela OMS são os chamados Planos de Ação em Saúde para o Calor (HHAP, na sigla em inglês). Eles integram serviços de meteorologia, saúde pública e defesa civil para reduzir impactos.

O guia, que foi atualizado pela OMS este ano, indica a implementação de sistemas de alerta antecipado, protocolos para hospitais e serviços de emergência, campanhas de comunicação, mecanismos de monitoramento de grupos vulneráveis e procedimentos para resposta durante episódios de calor extremo.

— As ondas de calor deixaram de ser anomalias isoladas. São uma crise recorrente que causa sofrimento, ceifa vidas e sobrecarrega sistemas e infraestrutura de saúde — afirmou o diretor da OMS Europa, Hans Kluge.

Impacto humano das ondas de calor no continente — Foto: Arte/O Globo

Contudo, apesar dos avanços, a cobertura desses mecanismos não é universal no continente. Segundo levantamento de 2024 da EEA e do Observatório Europeu do Clima e da Saúde, 10 dos 38 países analisados não têm HHAPs estabelecidos (Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Estônia, Finlândia, Islândia, Kosovo, Montenegro, Noruega, Polônia e Sérvia). Outros três ainda estão em processo de desenvolvimento (Chipre, Dinamarca e Romênia).

Noruega e Finlândia registraram onda de calor em junho de 2025, com temperaturas acima de 30°C até em áreas próximas ao Ártico. No mesmo período, Polônia e Sérvia foram atingidas pelo fenômeno, que elevou a temperatura da superfície acima de 50°C em partes da Europa Central.

Além das medidas voltadas à saúde pública, algumas cidades também passaram a investir em adaptações urbanas para tentar amenizar os efeitos do calor cada vez mais intenso. Em Paris — que sofre intensamente com a atual onda de calor —, a estratégia começou a ganhar forma em 2015, quando a prefeitura mapeou uma rede de “ilhas de frescor”, com parques, áreas verdes, piscinas, bibliotecas, museus, igrejas e espaços públicos considerados adequados para enfrentar o calor extremo. Em 2018, a capital francesa já contava com mais de 800 locais acessíveis durante o dia e cerca de 150 à noite.

Na Espanha, Barcelona lançou uma rede de abrigos climáticos em 2020, inicialmente com 70 locais, ampliada para mais de 350 espaços, entre bibliotecas, centros comunitários, parques, mercados, museus e piscinas públicas. Outras intervenções incluem a ampliação da cobertura vegetal urbana, a criação de áreas sombreadas, a adoção de materiais mais refletivos em edifícios e pavimentos e a incorporação do risco de calor ao planejamento urbano.

Porém, não parece ser suficiente. Especialistas apontam que a transformação estrutural das cidades avança em ritmo lento, uma vez que grande parte da infraestrutura urbana foi concebida para enfrentar invernos rigorosos, e não verões cada vez mais quentes como o deste ano.

— Muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e em planos de ação após 2003. Essas medidas salvaram muitas vidas, mas não são suficientes — afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha, ao jornal britânico Guardian. — Precisamos de mais investimentos em casas, cidades e infraestrutura resistentes ao calor.

Envelhecimento rápido

O arquiteto e urbanista Luiz Florence, do Grupo de Trabalho Clima e Cidade do Instituto de Arquitetos do Brasil-SP, explica que a própria formação histórica das cidades europeias impõe desafios. Antigos núcleos medievais, marcados por ruas estreitas e edificações muito próximas, favorecem áreas de sombra, mas dificultam a circulação natural do ar.

— Quando essas cidades foram criadas, o convívio muito próximo com a natureza poderia oferecer uma exposição a vetores de doenças sanitárias. Então as cidades eram uma negação da natureza — disse ao GLOBO. — Hoje, com técnicas mais avançadas e políticas de saúde pública, é possível trazer a natureza de volta.

Em meio a esse cenário, a população europeia envelhece a passos largos. Combinados, os quadros põem em evidência um dos principais desafios associados ao calor extremo, que é a proteção de grupos mais vulneráveis, especialmente os idosos.

Hoje, pessoas com 65 anos ou mais representam cerca de 21,6% da população da União Europeia, segundo o Eurostat. Com o envelhecimento, o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e responder ao estresse térmico. Idosos também apresentam maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas, que podem ser agravadas por temperaturas elevadas.

Fonte: O Globo





quinta-feira, 18 de junho de 2026

Ondas de calor causaram 120 mil mortes em duas décadas no Brasil, diz Fiocruz

Onda de calor atinge o Rio de Janeiro. Na foto, passageiros procuram se proteger do sol quente na sombra de um poste em ponto de ônibus da Avenida Presidente Vargas, na Cidade Nova — Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Cientistas cruzaram dados de óbitos com histórico de temperaturas e sugerem que situação está piorando com mudança climática; altas temperaturas explicam 0,6% da mortalidade no país

Rafael Garcia, O Globo, São Paulo.

Um estudo que cruzou históricos de temperaturas no país com dados sobre óbitos indica que, em um período de vinte anos, as ondas de calor causaram mais de 120 mil mortes no Brasil.

O trabalho, realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta que os esses períodos extensos com temperaturas extremas explicam 0,6% da mortalidade no país entre os anos de 2000 e 2019.

A pesquisa não faz uma projeção sobre quanto o fenômeno está se agravando, mas os autores do trabalho sugerem que, com a mudança climática, o peso desses eventos extremos tende a aumentar na saúde dos brasileiros.

— Quando uma pessoa está exposta a muito calor, o corpo produz uma reação fisiológica para manter a temperatura corporal interna entre 36,5°C e 37°C, que é o intervalo ótimo para nossas funções vitais — explica Beatriz Oliveira, cientista da Fiocruz coautora do trabalho. — Quando isso ocorre em conjunto com esforço físico, uso de roupas, e outros fatores, se você não consegue dissipar esse calor que está recebendo ou produzindo internamente, começa a sobrecarregar esses mecanismos de termorregulação e comprometer algumas funções, principalmente as cardiovasculares e respiratórias.

Ao mapear a variação local de temperatura em todo o país com uma precisão de 9 km, os cientistas conseguiram cruzar esses dados com informações específicas nos registros de óbitos das pessoas, para tentar enxergar o efeito do calor em problemas de saúde impactados por ele.

Como critério, o estudo considerou que uma onda de calor é um período de 48 horas no qual a temperatura está acima do percentil 95% para a média de temperatura histórica de determinado local. O estudo apontou uma relação clara entre esse tipo de evento e as mortes por causas que podem ser agravadas pelo tempo muito quente.

— Essas 120 mil mortes podem ser interpretadas como o número de mortes atribuídas a esses eventos — diz Oliveira.

O mapeamento nacional feito pelos cientistas buscou entender também como esse fenômeno variou entre as cidades e os estados, mas as diferenças sociais e etárias pareceram ser mais relevantes para identificar populações e maior risco.

Os dados mostram que os idosos, que possuem mais limitações em manter os mecanismos de homeostase corporal para controle de temperatura, foram os mais afetados pelas ondas de calor. Mais de 97 mil óbitos de pessoas com 65 anos ou mais foram associados a esses eventos, compondo 80% do total no estudo.

O trabalho também avaliou o impacto da persistência de temperaturas altas na quantidade de internações feitas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), para alguns dos municípios estudados. Nessa outra seção do estudo, as crianças se mostraram um grupo de risco relevante, afetadas também por problemas gastrointestinais.

— As crianças são muito vulneráveis à desidratação, e o calor estimula a proliferação de micro-organismos de transmissão por via oral entre elas, tanto por alimentos que podem estar contaminados quanto pela ingestão de água não própria para o consumo — explica Oliveira.

Os problemas renais também foram uma condição médica relevante, segundo o estudo da Fiocruz e da UFBA.

Termômetro desigual

Um outro fator que pesou muito no desequilíbrio de impacto foi o grau de escolaridade das vítimas dos problemas de saúde relacionados ao calor. A quantidade de anos de estudo foi uma maneira indireta que os pesquisadores usaram para estimar tanto o acesso a ambientes com temperatura controlada (como residências com ar-condicionado) quanto à qualidade do atendimento de saúde, com hospitais privados mais bem preparados para acomodar a demanda.

A variação local foi menor do que se poderia esperar. Enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste, do país apresentaram os maiores valores de dias de ondas de calor e de duração média, as regiões Sudeste e Sul tiveram eventos relativamente mais intensos, o Nordeste teve valores intermediários.

O Amapá foi o estado que registrou o maior impacto de letalidade das ondas de calor. Ali, um total de 1,07% das mortes no período analisado foram atribuídas a esses fenômenos. Na Paraíba, o estado menos impactado, esse número foi de 0,30%. São Paulo e Rio de Janeiro tiveram números mais perto da média (0,65% e 0,61% respectivamente).

O estudo da Fiocruz também incluiu uma seção dedicada a autoridades e lideranças locais sobre como lidar com o problema que tende a se agravar no futuro.

— Uma das primeiras coisas a fazer é reconhecer que as onda de calor e o calor extremo são um risco prioritário para a saúde pública — diz Oliveira. — Em 2023 e 2024 a gente teve muitos eventos de onda de calor no país, e pouquíssimos locais declararam emergência por isso.

Além de estabelecer sistemas de monitoramento que permitam às prefeituras e o SUS anteciparem impactos, diz a cientista, é preciso que campanhas estimulem mudanças culturais na população, porque o calor ainda não é percebido como um risco relevante pela população.

— A própria população precisa entender que, em momentos de eventos extremos, a gente tem que se proteger e diminuir a exposição — defende Oliveira. — Precisamos mudar horários de fazer atividade física e evitar locais com muita exposição. Existem muitas pessoas que precisam trabalhar em baixo de sol, por exemplo, e precisam existir garantias para que esse trabalho seja intercalado com hidratação e momentos de pausa, para não sobrecarregar o sistema cardiorrespiratório das pessoas.

Oliveira afirma que uma das intenções do estudo da Fiocruz é estimular mais pesquisas na área, que possam inclusive cobrir algumas das limitações do estudo. Um dos problema foi que o trabalho só uso dados até 2019, porque a mortalidade pandemia de Covid-19 tornou difícil identificar e isolar o impacto as ondas de calor após aquele ano. Novos dados serão essenciais para guiar o poder público, diz.

Fonte: O Globo


domingo, 24 de maio de 2026

Brasil gasta três vezes mais com reconstrução do que na prevenção a desastres como as chuvas em PE e na PB

Defesa Civil em área atingida pela chuva em Pernambuco — Foto: Reprodução

Entre 2012 e 2026, a União empenhou R$ 24,36 bilhões em ações de resposta e recuperação

Bruna Lessa

Nos últimos dias, as fortes chuvas que atingiram parte de Pernambuco e da Paraíba deixaram oito mortos e um rastro de destruição, que inclui deslizamentos, inundações, infraestruturas danificadas e quase 13 mil desajolados ou desabrigados. Reconstruir as regiões atingidas exigirá vastos recursos públicos, em um esforço que poderia ser minimizado se, diante dos eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, o país optasse por se antecipar com mais eficiência aos desastres naturais.

Contudo, dados do Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União (TCU) analisados pelo GLOBO mostram que a maior parte das verbas federais continua sendo destinada à resposta e reconstrução de áreas afetadas por esse tipo de evento. Entre 2012 e 2026, a União empenhou R$ 24,36 bilhões em ações de resposta e recuperação, valor quase três vezes maior que os R$ 9,62 bilhões destinados à prevenção.

Do total empenhado em resposta e reconstrução, cerca de R$ 21,54 bilhões foram de fato pagos ou transferidos. Já nas ações preventivas, o valor pago foi de R$ 6,8 bilhões — ou seja, menos de um terço.

As despesas classificadas como resposta envolvem medidas emergenciais, como socorro e assistência às populações afetadas, incluindo distribuição de água, cestas básicas e itens de higiene, além do restabelecimento de serviços essenciais. Já as ações de recuperação dizem respeito à reconstrução de estruturas danificadas, como pontes, bueiros e pequenas obras de contenção.

Os investimentos em prevenção, por outro lado, passam por obras e empreendimentos de infraestrutura voltados a reduzir ou evitar a ocorrência de desastres. Estão nessa categoria intervenções como sistemas de drenagem, contenção de encostas e outras ações do gênero.

Comparação entre as verbas da União destinadas a ações de resposta e recuperação — Foto: Arte O Globo

Na avaliação do TCU, o predomínio desse tipo de gasto caracteriza uma estratégia “reativa” de gestão, considerada ineficaz para reduzir os impactos dos desastres. O tribunal aponta que a maior parte dos recursos é liberada após as tragédias, enquanto as ações de mitigação e preparação seguem subfinanciadas.

Além de pouco eficiente, o modelo também é mais caro. Com base em dados internacionais, a Corte de Contas destaca que cada US$ 1 investido em prevenção pode economizar até US$ 15 em reconstrução. Ainda assim, o país mantém uma lógica de gasto concentrada no pós-desastre.

A falta de coordenação entre União, estados e municípios contribui de modo decisivo para o cenário. Enquanto a prevenção depende de ações locais, a resposta tende a recair sobre o governo federal, reforçando o ciclo de reconstrução.

Além disso, dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostram que a estrutura municipal ainda é limitada: 68% da cidades não possuem mapeamento de áreas de risco, 57% não contam com sistemas de alerta, 44% não possuem setor ou pessoal responsável pelo monitoramento de eventos e 46% não têm sequer equipe capacitada no tema.

Situação de emergência

No sábado, o governo de Pernambuco decretou situação de emergência em 27 municípios afetados pelas inundações, com prazo de 180 dias. Segundo a gestão de Raquel Lyra (PSD), a medida é necessária justamente para acelerar a execução de ações emergenciais e solicitação de apoio e investimentos ao governo federal. O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, desembarcou ontem na região, por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para auxiliar nos trabalhos.

— Agora, é o momento de reconstruir e refazer estruturas que eventualmente tenham sido perdidas. Avançamos na parceria com o governo federal para que a gente consiga mais recursos para investimento em obras que garantam às nossas cidades a possibilidade de serem mais resilientes — disse Lyra ontem após encontro com o ministro.

Levantamento da CNM aponta que os desastres naturais causaram mais de R$ 730 bilhões em prejuízos entre 2013 e 2024. Os recursos destinados à prevenção, enquanto isso, permanecem limitados. Para Paulo Ziulkoski, presidente da entidade, o modelo atual sobrecarrega os governos locais, que acabam sendo os primeiros a ter contato com a população afetada:

— É um padrão equivocado e insustentável. Precisamos superar a lógica de atuação baseada apenas em créditos extraordinários durante situação de emergência ou estado de calamidade pública e avançar para o fortalecimento da política pública estruturada, contínua e orientada à prevenção.

O TCU aponta que a dependência de créditos extraordinários, liberados após calamidades, dificulta o planejamento e impede que a real necessidade de recursos seja incorporada ao Orçamento anual. Além disso, o tribunal identificou que 37% das obras federais de prevenção contratadas de 2012 a 2024 estão paralisadas ou inacabadas, em um desperdício de recursos públicos.

Para o setor produtivo, os efeitos também são significativos. Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), destaca que os eventos climáticos já provocam perdas anuais de cerca de R$ 110 bilhões

— Esse cenário reforça a importância de avançar em uma abordagem mais equilibrada, movimento que não é exclusivo do Brasil. Historicamente, a agenda climática global concentrou mais esforços em mitigação do que em adaptação, mas isso vem sendo ajustado. A COP30 foi um marco ao consolidar 59 indicadores globais voluntários de adaptação, criando uma “bússola” sobre o que é prioritário para ações na área e quais devem ser as próximas movimentações.

Investir em adaptação é, sob essa ótica, não só uma condição necessária para proteger o ambiente de negócios do país, mas também para impedir que preços mais caros cheguem ao consumidor final.

— Ações de adaptação impedem que a transmissão elétrica seja interrompida após eventos climáticos extremos, que produtores rurais tenham suas safras arruinadas, que fornecedores não consigam transportar seus produtos e que cadeias de valor sejam interrompidas — elenca Grossi.

O Globo, Edição de 05/05/2026

'Múltiplos riscos'

Especialistas apontam ainda fatores estruturais para o problema. Valdir Steinke, professor no departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB), diz que a ocupação urbana sem planejamento ampliou a exposição a riscos:

— As cidades foram expandidas desconsiderando elementos fundamentais como o relevo, as bacias de drenagem e a dinâmica hidrológica. Áreas de várzea, encostas instáveis e zonas naturalmente suscetíveis à inundação foram ocupadas sem critérios técnicos, muitas vezes por populações vulneráveis. Esse descompasso cria um cenário estrutural de risco, no qual eventos climáticos relativamente comuns passam a gerar desastres recorrentes.

Em mais um elemento de alerta, a diversidade e a complexidade do território brasileiro implicam na “coexistência de múltiplos riscos”, frisa Steinke. Isso exige, avalia o professor, políticas públicas regionalizadas, que sejam capazes de reconhecer as especificidades ambientais, climáticas e socioeconômicas de cada lugar:

— Além de enchentes e deslizamentos associados a eventos de chuva, o país enfrenta secas prolongadas, queimas, escassez hídrica e processos de degradação ambiental em diferentes biomas. Não há uma solução única para um território tão diverso.

Uma análise ano a ano mostra que o padrão de priorização de gastos com resposta a desastres se manteve ao longo de diferentes governos. Em 2019, primeiro ano da gestão de Jair Bolsonaro (PL), foram empenhados R$ 763 milhões em ações de resposta e recuperação, ante R$ 305,8 milhões em prevenção. Naquele ano, os valores pagos chegaram a R$ 799,1 milhões e R$ 406,9 milhões, respectivamente.

No último ano do governo Bolsonaro, em 2022, a diferença persistiu. Foram empenhados R$ 1,33 bilhão para resposta e reconstrução, contra R$ 335,8 milhões para prevenção. A execução, no entanto, foi menor nas ações preventivas: R$ 101 milhões pagos, ante R$ 1,08 bilhão nas despesas emergenciais.

Já em 2023, início do terceiro mandato de Lula, os gastos cresceram de forma significativa em ambas as frentes, mas a predominância da resposta foi mantida. Foram R$ 5,5 bilhões empenhados para resposta e recuperação, frente a R$ 1,57 bilhão para prevenção. Os pagamentos somaram R$ 4,58 bilhões e R$ 1,03 bilhão, respectivamente.

Em 2025, a cifra recuou, mas o padrão se repetiu: R$ 1,74 bilhão empenhado para resposta, contra R$ 611,3 milhões na prevenção. Até março de 2026, os dados mais recentes indicam R$ 481,9 milhões empenhados em ações emergenciais, e R$ 117,6 milhões em medidas preventivas.

Papel do Congresso

Para Marta Salomon, especialista sênior do Instituto Talanoa, uma das principais dificuldades para avaliar o investimento em prevenção no Brasil é a ausência de uma classificação clara no orçamento público de muitas políticas.

Também há dificuldades com o remanejamento feito pelo congresso. De acordo com o estudo da entidade, durante a tramitação do Orçamento, parlamentares ampliaram significativamente verbas para a chamada “causa animal”, que teve aumento de 98 vezes em relação à proposta original do governo, enquanto áreas diretamente ligadas à adaptação climática — como sistemas de alerta de desastres, contenção de enchentes e construção de cisternas — sofreram cortes.

— Os parlamentares tiraram dinheiro do programa de alertas do Cemaden, que contribui muito para evitar mortes em desastres climáticos, enquanto uma área que recebeu mais emenda parlamentar é a tal da emenda Pet, para cuidados de cães e gatos — pontua Salomon.

"As verbas para a criação, implementação e gestão de unidades de conservação, por exemplo, caíram de R$ 249 milhões para R$ 238 milhões. No ano passado, contou com R$ 342 milhões de gastos autorizados", diz trecho o estudo.

A falta de investimento em prevenção tende a encarecer a conta pública no longo prazo. Dados do próprio governo apontam que a falta de investimentos em adaptação e mitigação climática pode gerar um impacto econômico de até R$ 17 trilhões no Brasil até 2050. A estimativa considera efeitos como queda na produção agrícola, danos à infraestrutura e interrupções em cadeias produtivas e aumento de gastos públicos com desastres naturais.

O exemplo mais recente foi o das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. Foram empenhados R$ 111,6 bilhões para ações de recuperação da infraestrutura das cidades, estímulo à economia local e repasse às famílias e aquisição de moradias.

O Ministério das Cidades afirma que a predominância histórica de gastos em resposta está ligada à maior facilidade de execução de recursos emergenciais e a incentivos de curto prazo, que favorecem ações imediatas. Segundo a pasta, ampliar a prevenção é hoje uma prioridade do governo.

Entre as iniciativas, o ministério cita mais de R$ 26 bilhões previstos no Novo PAC para obras de prevenção de desastres, além de programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, que, ao reduzir a moradia precária, também contribuem para diminuir a exposição da população a riscos.

Apesar disso, o governo reconhece entraves para ampliar esse tipo de investimento, como a dificuldade de estados e municípios em elaborar projetos técnicos e a descontinuidade de políticas públicas.

Fonte: O Globo



sexta-feira, 22 de maio de 2026

Desmatamento na Mata Atlântica atinge menor nível histórico e confirma trajetória de desaceleração

 

Supressão total registrou queda de 28%, chegando a 40% em florestas maduras

Dois dos principais sistemas de monitoramento da Mata Atlântica apresentaram, em 2025, os melhores resultados de suas respectivas séries históricas.

O Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) Mata Atlântica, desenvolvido pela Fundação SOS Mata Atlântica, MapBiomas e Arcplan desde 2022, registrou queda de 28% no desmatamento em relação ao período anterior – de 53.303 para 38.385 hectares. Trata-se do menor índice dos quatro anos de acompanhamento.

Já o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, parceria entre a SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que desde 1985 monitora os grandes fragmentos de florestas maduras do bioma, confirma a mesma tendência com um dado ainda mais expressivo: redução de 40% na supressão, que passou de 14.366 para 8.668 hectares. Em quatro décadas de monitoramento, pela primeira vez o desmatamento anual ficou abaixo da marca de 10 mil hectares.

Taxa de desmatamento e tendência para a série histórica

O resultado se dá num ano especialmente simbólico: em 2026, a Mata Atlântica registra seu menor desflorestamento ao mesmo tempo em que a Fundação SOS Mata Atlântica completa 40 anos e a Lei da Mata Atlântica (primeira legislação específica para a proteção de um bioma brasileiro e referência internacional em conservação de florestas tropicais) chega aos 20 anos.

A redução é reflexo de pressão pública, mobilização da sociedade, políticas ambientais e ações de fiscalização – entre elas medidas como a Operação Mata Atlântica em Pé, a aplicação de embargos remotos e a restrição de crédito a áreas desmatadas ilegalmente, além da afirmação da Lei da Mata Atlântica como principal instrumento de proteção da vegetação nativa do bioma.

De acordo com o SAD, houve redução das derrubadas em 11 dos 17 estados do bioma, com destaque para Bahia e Piauí. Apesar do recuo, ambos ainda aparecem entre os maiores responsáveis pela perda florestal: Bahia (17.635 ha), Minas Gerais (10.228 ha), Piauí (4.389 ha) e Mato Grosso do Sul (1.962 ha) concentraram, juntos, 89% da área total desmatada. Nos demais estados, as perdas ficaram abaixo de 1.000 hectares. Quase toda a destruição registrada pelo sistema, 96%, foi convertida para uso agropecuário – grande parte com indício de ilegalidade.

Para Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da SOS Mata Atlântica, os números de 2025 confirmam uma trajetória. “Políticas públicas e instrumentos de controle ambiental funcionam quando são aplicados com seriedade. A celebração, no entanto, precisa vir acompanhada de vigilância. O desmatamento continua acontecendo e, na Mata Atlântica, cada fragmento perdido faz diferença. O desafio é manter essa trajetória até zerarmos o desmatamento”, ressalta.

O desafio daqui em diante

A Mata Atlântica abriga cerca de 70% da população brasileira e sustenta mais de 80% do PIB nacional. Protegê-la é garantir segurança hídrica, estabilidade climática e produtividade agrícola para a maior parte do país.

O bioma tem condições de se tornar o primeiro no país a alcançar o desmatamento zero e avançar em uma agenda de restauração florestal em grande escala – e os dados de 2025, embora não encerrem o problema, mostram que essa direção é possível.

Esse cenário positivo, porém, convive com um risco concreto no plano legislativo. Em 2025, o Congresso Nacional aprovou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e a Lei da Licença Ambiental Especial, que enfraquecem mecanismos de controle do desmatamento justamente quando eles mostram resultados.

Uma das mudanças mais graves afeta diretamente a Mata Atlântica: o novo marco dispensa a anuência do Ibama para órgãos estaduais atuarem nas autorizações de desmatamento de vegetação primária e secundária em estágio avançado de regeneração. A supressão de vegetação nativa nesses casos é vedada pela Lei e só é permitida em casos de utilidade pública e fim social. A alteração na Lei da Mata Atlântica passa a permitir que a autorização para desmatamento seja realizada por um único órgão licenciador – incluindo municípios que, na maioria dos casos, não têm estrutura técnica para a análise dos estágios sucessionais da Mata Atlântica.

“É uma distorção que leva o Brasil na contramão do Acordo de Paris e potencializa tragédias climáticas. Os números apontam que o desmatamento cai quando a lei é aplicada com rigor e critérios técnicos. Enfraquecer os instrumentos de proteção agora é arriscar o que levamos anos construindo”, afirma Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica.


Monitoramentos complementares

O SAD Mata Atlântica detecta desmatamentos em fragmentos a partir de 0,3 hectare, com o objetivo de gerar documentação ágil e completa para cada evento de supressão. “O SAD foi desenvolvido para fechar a lacuna entre o monitoramento anual e a realidade do desmatamento no dia a dia. Quanto mais rápido um alerta chega aos órgãos responsáveis, maior a chance de interromper a destruição antes que ela se consolide”, explica Marcos Rosa, diretor da Arcplan e coordenador técnico do MapBiomas.

Em 2025, o sistema passou a contabilizar somente o desmatamento dentro do mapa de aplicação da Lei da Mata Atlântica, desconsiderando as partes de áreas suprimidas que, na fronteira com outros biomas, ultrapassem esse limite. O ajuste metodológico garante maior precisão na atribuição das perdas.

O Atlas da Mata Atlântica, por sua vez, monitora áreas a partir de três hectares e oferece uma fotografia anual da situação dos grandes fragmentos florestais do bioma – especialmente as matas maduras, que são os de maior importância para a biodiversidade e o estoque de carbono. Da cobertura original total da Mata Atlântica restam hoje cerca de 24%, sendo pouco mais da metade (12,4%) correspondente às florestas maduras.

Coordenadora técnica do Atlas pelo INPE, Silvana Amaral ressalta que 40 anos de monitoramento contínuo construíram a base que permite avaliar com precisão o que está acontecendo com os remanescentes mais valiosos da Mata Atlântica. “É essa série histórica que dá o real significado ao resultado de 2025 e comprova que estamos diante de uma mudança consistente”, avalia.

Os dados completos estão disponíveis aqui no site, nas páginas do Atlas da Mata Atlântica 2024-2025 e no painel do SAD Mata Atlântica. O Atlas pode ser baixado como PDF na página de Relatório e Balanços.

Tanto o Atlas quanto o SAD têm execução técnica da Arcplan.

Fonte: SOS Mata Atlântica




segunda-feira, 11 de maio de 2026

Amazônia e Cerrado registram queda no desmatamento em abril, indica INPE


Valor acumulado nos quatro primeiros meses do ano foi o segundo mais baixo da série histórica na Amazônia e o quarto menor para o Cerrado.

Dados do DETER, do INPE, apontam para queda nos alertas de desmatamento para Amazônia e Cerrado em abril. No caso da floresta amazônica, a área desmatada foi de 228 km² – queda de 15% em comparação a abril de 2025. Já no Cerrado, a diminuição foi de 40%, de 691 km² para 418 km², informa a Folha.

O primeiro semestre é caracterizado por taxas mais baixas devido à estação chuvosa – que dificulta a entrada de homens e máquinas na floresta-, além de maior presença de nuvens, que pode prejudicar a precisão das informações obtidas via satélite. No acumulado do ano, de janeiro a abril, a queda do desmatamento na Amazônia foi de 6%, em comparação ao mesmo período do ano passado.

É o segundo mais baixo da série histórica, que começou em 2016. Já no Cerrado, a taxa foi de 1.884 km² neste ano, com queda de 4% em comparação a 2025. É o quarto menor valor na série histórica do Cerrado, que começou em 2019.

Em contrapartida, Mato Grosso (255 km²), Roraima (117 km²) e Pará (144 km²) lideram o desmatamento na Amazônia em 2026, e Tocantins (568 km²), Maranhão (370 km²) e Bahia (225 km²) o desmate no Cerrado no mesmo período.

Os piores números ainda estão por vir. O período mais seco, de maio a setembro, deve ser intensificado pela chegada do El Niño, lembra o ICL Notícias. O fenômeno, que deve ser de moderado a forte, tende a acentuar a estiagem nas regiões Norte e Nordeste e potencializar as ondas de calor, criando o cenário propício à propagação de incêndios florestais.

Em 2024, o desmatamento foi responsável por 42% das emissões de gases do efeito estufa do Brasil, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima. O governo Lula tem como uma das promessas chegar ao desmatamento zero até 2030.

Fonte: ClimaInfo




Antes de “Super El Niño”, oceanos voltam a registrar recorde de temperatura

 


Ondas de calor marinhas recordes atravessam uma vasta região desde o centro do Pacífico equatorial até a costa oeste dos EUA e do México.

O mês de abril confirmou a tendência de aquecimento das águas superficiais dos oceanos com o registro da segunda maior temperatura da história — perdendo apenas para 2024. Os dados são do serviço Copernicus, da União Europeia, e foram divulgados na 6ª feira (8/05).

Na média global, março costuma ser o mês mais quente nos oceanos, mas abril registrou temperatura média da superfície dos oceanos de 21°C. Do centro do Pacífico equatorial até a costa oeste dos EUA e do México foram registradas ondas de calor recordes, relata o Phys.org.

A variável, que exclui as regiões polares, é um indicador importante do aquecimento global. Cerca de 90% do excesso de calor gerado pela ação humana é absorvido pelos oceanos.

Segundo o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), abril também foi o terceiro ano mais quente globalmente, marcando temperatura média de 14,89°C – 0,52°C acima da média do mês verificada entre 1991 e 2020, informa a Folha.

O mês foi marcado por diversos eventos climáticos extremos, como ciclones tropicais no Pacífico, inundações devastadoras no Oriente Médio e na Ásia, assim como secas no sul da África, lista o g1.

“[São] sinais característicos de um clima cada vez mais marcado por extremos”, declarou Samantha Burgess, líder do ECMWF.

No Ártico, a extensão de gelo marinho ficou 5% abaixo da média, registrando o segundo pior valor para essa época do ano (em 2019, o valor foi de menos 6%). Na Antártica, a extensão de gelo marinho ficou 10% abaixo da média de abril, próxima a valores observados nos últimos dois anos, contam France 24, Euronews e Financial Times.

O cenário se formando sugere que 2026 siga por caminho parecido ou ainda pior do que em 2024, o ano mais quente já registrado. Zeke Hausfather, meteorologista do instituto independente Berkeley Earth, projeta que 2027 superará o recorde de 2024. O efeito sobre a temperatura média do planeta é observado, geralmente, no ano seguinte ao seu surgimento – ou seja, 2027 pode ser um ano de muitos recordes ruins para o clima, o meio ambiente e a humanidade.

Fonte: ClimaInfo



domingo, 10 de maio de 2026

PARQUES BRASILEIROS TEM RECORDE DE VISITAÇÃO, MOVIMENTAM A ECONOMIA E GERAM EMPREGOS

Os dados monumentais de 2025 revelam uma realidade surpreendente: florestas, praias, rios e montanhas são, na verdade, ativos de alta performance na economia brasileira. Na imagem, o Parque Nacional da Tijuca (RJ), o mais visitado no ano - Foto: Vitor Marigo

Visitação recorde em unidades de conservação injeta R$ 20 bilhões no PIB e gera mais de 332 mil empregos

Estudo mostra que cada R$ 1 investido gera R$ 16 para o PIB e R$ 9,8 bilhões em renda para as famílias. Visitas em unidades de conservação movimentaram mais de R$ 40 bilhões em vendas totais em 2025, ano em que os parques nacionais bateram recorde de visitação

O turismo em Unidades de Conservação (UCs) federais atingiu, em 2025, um novo patamar de impacto econômico no Brasil. É o que aponta o estudo “Contribuições do Turismo em Unidades de Conservação para a Economia Brasileira”, elaborado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que destaca o papel estratégico dessas áreas protegidas para o desenvolvimento econômico do país e confirma a visitação em UCs como política pública de Estado (Lei nº 15.180, de 25 de julho de 2025 e Portaria nº 3.689, de 11 de setembro de 2025).

O estudo mostra que as UCs geraram R$ 40,7 bilhões em vendas, R$ 20,3 bilhões de contribuição ao Produto Interno Bruto (PIB) e R$ 9,8 bilhões em renda para as famílias. O levantamento do ICMBio mostra ainda que 175 Unidades de Conservação federais somaram 28,5 milhões de visitas — recorde histórico desde que os dados começaram a ser monitorados, no ano 2000.

Os parques nacionais concentram a maior parte do fluxo de visitantes e lideram o turismo nas UCs. Em 2025, essas unidades somaram 13,6 milhões de visitas — recorde histórico, acima dos 12,5 milhões registrados no ano anterior. O resultado reflete melhorias no monitoramento da visitação, nos investimentos em infraestrutura e serviços, na inclusão de novas áreas no sistema e na valorização dos ambientes naturais no período pós-pandemia.

O ranking mantém no topo o Parque Nacional da Tijuca (RJ), com mais de 4,9 milhões de visitas, seguido pelo Parque Nacional do Iguaçu (PR), com 2,2 milhões, e pelo Parque Nacional de Jericoacoara (CE), com 1,3 milhão de visitantes.

O crescimento da visitação tem efeitos diretos na economia, com geração de emprego e renda nas regiões do entorno, fortalecimento do turismo sustentável e aumento da arrecadação local.

João Paulo Capobianco, ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), destaca que o Governo do Brasil tem se dedicado a esse tema, por meio de políticas públicas e investimentos em infraestrutura, serviços e pessoal, além de incentivos à visitação, a exemplo do programa Natureza com as Pessoas, lançado pelo ICMBio no ano passado.

“Esse estudo comprova que as Unidades de Conservação não são fundamentais apenas para a regulação dos ciclos hidrológicos e do clima, proteção da biodiversidade e do controle do desmatamento, mas contribuem expressivamente para o desenvolvimento da nossa economia em bases sustentáveis. O cuidado com essas áreas protegidas, portanto, é essencial", coloca Capobianco.

“Desde 2023, o presidente Lula criou e ampliou 20 Unidades de Conservação, que totalizam mais de 1,7 milhão de hectares – cerca de três vezes a área do Distrito Federal. Também ampliamos significativamente o orçamento e o quadro de servidores do ICMBio”, também frisou.

O levantamento também evidencia a eficiência do investimento público no setor. Para cada R$ 1 investido no Instituto Chico Mendes, são gerados R$ 16 em valor agregado ao Produto Interno Bruto (PIB) e R$ 2,30 em arrecadação tributária. Além disso, o turismo nas UCs federais sustenta mais de 332,5 mil postos de trabalho em todo o país.

Outro destaque é o impacto fiscal: a atividade gerou quase R$ 3 bilhões em arrecadação tributária, valor que supera o dobro do orçamento total do órgão gestor, considerando apenas os impostos sobre consumo e remuneração.

“Os resultados mostram que as unidades de conservação, como parques nacionais, por exemplo, são estratégicas para o desenvolvimento do Brasil. Tivemos recorde de visitação e dados robustos de geração de emprego, renda e arrecadação, o que só reforça que investir em conservação da natureza e na vivência das pessoas nas áreas naturais gera benefícios econômicos, saúde e qualidade de vida", explica o presidente do ICMBio, Mauro Pires.

"Cada real aplicado retorna de forma concreta para o desenvolvimento de nosso país, fortalecendo o turismo sustentável, valorizando os territórios e ampliando a conexão das pessoas com a natureza”, esclarece.

O estudo “Contribuições do Turismo em Unidades de Conservação para a Economia Brasileira” utiliza o Tourism Economic Model for Protected Areas (TEMPA), uma adaptação do modelo americano MGM2 para a realidade de países em desenvolvimento. O modelo é reconhecido internacionalmente pela Unesco e pelo Banco Mundial como referência científica.

Entre as categorias de manejo, os parques nacionais são os principais motores econômicos, gerando R$ 21,6 bilhões em vendas e 219,6 mil empregos. Já as reservas extrativistas se destacam pelo turismo de base comunitária, apresentando a maior arrecadação tributária por visita, de R$ 116,60, causando impacto direto nas arrecadações municipais.

Fonte: ICMBio