sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"HISTÓRIAS DO MAR E DA VIDA": no Teatro da UFF




Dorival Caymmi retratou bem a Bahia muitas vezes através dos pescadores
Foto: Bruno Alves/Divulgação


André Luiz Coutinho

Peça, que estreia no Teatro da UFF dia 29, retrata a vida dos pescadores com o som e a bênção de Dorival Caymmi

De volta a Niterói após apresentações de sucesso em 2014, a peça “Histórias do Mar - embaladas por canções de Dorival Caymmi” fecha o mês de janeiro no Teatro da UFF, com apresentações sexta, sábado e domingo, respectivamente dias 29, 30 e 31, a partir das 20h. A ideia do espetáculo da autora e poetisa Maria Helena Latini, além de homenagear o centenário do grande Dorival Caymmi – comemorado em 2014 – retrata a dura vida dos pescadores e suas mazelas.

A premissa da peça parte da narrativa de uma relação familiar de um desses homens do mar com seu pai, sua mãe, sua esposa e seus companheiros. São mostradas suas impressões sobre as belezas do mar, assim como as tragédias, as saudades deixadas, além de descobertas e atos heroicos do seu dia a dia.

A ideia nasceu, na verdade, com a filha da autora, Juliana, que escolheu como tema para o seu trabalho final do curso de História da UFF a colônia de pescadores de Itaipu, na Região Oceânica de Niterói. A jovem chegou, inclusive, a morar com uma família local para conseguir uma imersão maior neste universo, vivenciando melhor a realidade enfrentada por eles.

“Quando surgiu a oportunidade de homenagear Dorival Caymmi, por ocasião de seu centenário, a autora uniu o que havia aprendido com o trabalho da filha e pesquisas em campo com canções praieiras e de amor desse compositor. Dorival muito retratou a vida dos homens do mar, a ponto de dizer: ‘Nada mais sou do que um homem do cais da Bahia’”, revela a produtora do espetáculo, Cristhina Miler.

Dirigido pelo experiente Sady Bianchin, “Histórias do Mar - embaladas por canções de Dorival Caymmi” é uma peça que pretende fazer o espectador refletir e usa como ferramenta para isso justamente o ambiente da apresentação.

“O teatro é um instrumento de transformação social, é um dos mais significativos das expressões artísticas, oferece a melhor possibilidade de esclarecer em que momentos artísticos e ideológicos se manifesta a relação dos atores com o mundo. O teatro significa a libertação de uma alma poética dos trabalhadores do mar. O drama dos pescadores se amplia para a relação entre a formação humanística em contraponto à sociedade capitalista do consumo descartável e efêmera, impulsionada pela modernidade líquida. O texto poético é, portanto, um meio para o livre e pleno desenvolvimento da personalidade do humano. A representação no palco dos pescadores é um compromisso que se estende para além dos limites do próprio espetáculo, é parte de um complexo cultural de envolvimento entre teatro, sociedade e humanização”, filosofa.


Dirigido por Sady Bianchin, peça pretende fazer o espectador refletir e usa como ferramenta para isso o ambiente da apresentação
Foto: Pierre Crapez/Divulgação


A própria autora, Maria Helena Latini, faz questão de explicar a relação do mar com a vida levada ao palco.

“A metáfora do mar é a metáfora da vida. Assim, no mar da vida e da sociedade está o homem frente a todos os desafios. De certa maneira, apesar de vivermos realidades distantes, também vivenciamos as mesmas emoções: dores e alegrias diante das dificuldades da vida. O que a peça faz é inserir o homem do mar, trazê-lo à luz para um reconhecimento social e uma discussão mais ampla”, explica.

Isso tudo é retratado em um cenário de “uma total simplicidade”, garante Maria Helena. São pouquíssimos os elementos utilizados em cena, dando uma representatividade maior ao universo tratado através das falas.

“A mãe, o pai, a mulher. O que desejamos é essa viagem imaginária no jogo mágico do teatro, assim como fazer sobressair o ator e o músico, esses sim, enaltecedores do espetáculo”, destaca.

Sady vai mais além e compara a imensidão do mar com as possibilidades que um palco pode proporcionar.

“O mar que não tem tamanho não se consegue enxergar sozinho, é como o teatro que tem uma dimensão simbólica e imaginária, que habita o inconsciente coletivo da memória dos espectadores. ‘Histórias do Mar’ e todos os meus espetáculos são trabalhos que envolvem pesquisa, poesia, a relação social, conceitual e crítica das condições pertinentes do caminho da arte, que é uma promessa de felicidade, confissão de fé de que a vida não basta, é preciso transformá-la”, revela para depois falar sobre o outro elemento preponderante na peça.

“A sensação de dirigir um texto poético embalado pelas canções de Dorival Caymmi é uma viagem em mar aberto, sem porto seguro para o desejo. É unir sujeito e objeto de modo radical, expondo-se como meio e suporte, forma e conteúdo, embalados pelas ondas da dignidade, o espetáculo é gratificante. ‘Histórias do Mar’ é um caminho ao encontro da imaginação que não tem tamanho, um grão de areia na rede do pensar”, define.

Por ter retratado muito bem a Bahia muitas vezes através dos pescadores, Dorival Caymmi combina perfeitamente com o espetáculo.

“Acontece que Dorival é eterno. A peça poderá ser encenada em qualquer tempo”, afirma Maria Helena, que ressalta que as canções de Dorival Caymmi são elementares no espetáculo, pois o canto se articula com a atuação em movimentos no espaço cênico para compor o gesto do texto.

“Os mistérios das profundezas e rotinas dos pescadores das músicas de Caymmi são elementos vivos da narrativa que compõe o espetáculo, em que utilizamos o mínimo de recursos para obter o máximo de teatralidade. A dramaturgia tem seu alicerce sustentado pela marcação rítmica da obra do compositor baiano. As suas canções praieiras são de uma sensibilidade imensa para traduzir a vida cotidiana dos pescadores, revisitar o universo do legado de Caymmi é desvelar a obra que permanece como uma das mais instigantes da identidade e da tradição da cultura popular brasileira, único lugar onde ainda não somos colônia”, complementa Sady.

Por fim, após levar o público a conhecer a realidade dos pescadores, desafios e riscos, a autora acredita ter cumprido a sua missão.

“O público ri, chora, canta e se diverte. O primeiro impacto é, na verdade, causar emoção, objetivo primeiro de um autor”, finaliza.

O Teatro da UFF fica na Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí – Niterói. Dias 29, 30 e 31 de janeiro de 2016. Sexta, Sábado e Domingo – 20h. Ingressos: R$ 30 | R$ 15 (meia). Censura: livre. Informações: 3674-7512.

Fonte: O Fluminense











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