quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Especialistas explicam como outros países conseguiram despoluir suas baías

 
UTR de Irajá, que deverá entrar em funcionamento até o fim do ano: solução paliativa. Foto: Urbano Erbiste / Extra

Alfredo Mergulhão e Elisa Clavery

Um órgão centralizador do desafio, transparência no monitoramento e participação ativa da população e de universidades. Esses são alguns dos ingredientes para a receita do sucesso na despoluição de outras baías pelo mundo. No Rio de Janeiro, passados 20 anos desde as primeiras ações para limpar a Baía de Guanabara e após os governos gastarem R$ 5,5 bilhões, a baía continua poluída.

Nos últimos três dias, o EXTRA mostrou que toneladas e toneladas de esgoto e lixos industrial e flutuante são despejadas todos os dias em suas águas. As Olimpíadas de 2016 — que pareciam um trampolim para realizar o sonho de ver a Baía de Guanabara balneável — não verão 80% dela despoluídos, como foi prometido no caderno de encargos da candidatura do Rio para sediar os Jogos. Outros R$ 12 bilhões devem ser gastos até 2030, conforme novo plano da Secretaria estadual do Ambiente. O valor deverá universalizar a rede de esgotamento sanitário nos 15 municípios do entorno. Para especialistas em saneamento e meio ambiente ouvidos pelo EXTRA, no entanto, a resposta para o problema não deve ser medida apenas em cifras.

O economista Sérgio Besserman, da PUC-Rio, destaca que todas as experiências de sucesso para despoluir baías pelo mundo tiveram algo em comum: um órgão de governança, com autonomia para tomar as decisões, participação das universidades e da sociedade civil.

— Nosso problema é democracia de baixa qualidade. Não temos uma instituição com poder de atuar em todas as dimensões — afirma.

Foi dessa forma que as baías de Boston e Chesapeake, nos Estados Unidos, e Sydney, na Austrália, conseguiram ser despoluídas com menos tempo e dinheiro.




Após o EXTRA revelar os maiores responsáveis pela poluição da Baía de Guanabara nas categorias esgoto doméstico, lixo flutuante e esgoto industrial, com base em índices de qualidade da água, de sanemaento e coleta de lixo, quem sobe no pódio são os gestores públicos. A conclusão é do professor de Biologia Marinha da UFF, Abílio Soares Gomes.

— O grande vencedor na categoria poluição da Baía de Guanabara é o poder público. Muito dinheiro foi aplicado, mas quase nada foi feito para se criar uma rede de esgoto — critica.

O secretário do Ambiente, André Corrêa, diz que o estado assinou um termo de cooperação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento para estudar projetos de despoluição e, com base no estudo, será criada uma autoridade da Baía de Guanabara para coordenar os trabalhos. Ele informa que foi contratada uma empresa para fazer projetos de saneamento a serem executados por parcerias público-privadas nos 15 municípios.

Para especialistas, medidas alternativas poderiam pelo menos reduzir o vexame e dar melhores condições para os locais das provas de nado, remo e vela nas Olimpíadas do Rio, como as unidades de tratamento de rios (UTRs) e o uso de microbiologia, que são bactérias que se alimentam do esgoto e limpam as águas.

O professor de Oceanografia da Uerj, David Zee, explica que uma UTR é capaz de colocar um rio em condições de balneabilidade pouco após entrar em operação. A medida é paliativa, mas daria qualidade para a água da baía antes das Olimpíadas.


Unidade de Tratamento do Rio Irajá: construção gastou R$ 30 milhões e o custo operacional será de R$ 1,2 milhão por mês. Foto: Urbano Erbiste / Exra

— As mazelas estão concentradas nos rios, então é por eles que devemos começar. Não adianta dizer que vai gastar R$ 12 bilhões para despoluir a baía em 20 anos. Não temos esse tempo. Existem oito projetos para os rios da Baía de Guanabara que podem ficar prontos em 10 meses e custariam R$ 560 milhões todos eles — explica Zee.

André Corrêa, secretário do Ambiente, disse que as UTRs são eficientes só para pequenas vazões.

— O problema é o custo benefício para soluções maiores. A construção da UTR Irajá gastou R$ 30 milhões e o custo operacional será de R$ 1,2 milhão por mês, um valor muito alto em relação ao sistema de tratamento da Cedae. A UTR trata o rio mas não tira a vala da porta da casa da pessoa — disse o secretário.

A UTR Irajá deverá entrar em funcionamento este ano.
Rio Irajá, um dos que mais levam esgoto sem tratamento para a Baía de Guanabara. Foto: Roberto Moreyra / Extra

Fonte: Jornal Extra


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