segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Vestígios arqueológicos revelam uma Barra do período colonial



Pesquisadores fazem anotação em tanque de lavar roupa da época imperial - Analice Paron / Agência O Globo


por Marco Stamm

Ruínas na trilha que dá acesso à Pedra da Gávea mostram a existência de um engenho de açúcar

RIO — Que o Rio é uma cidade na qual o moderno e o antigo convivem muito bem, não há dúvida. A construção do Museu do Amanhã e a revitalização da Zona Portuária são as mais recentes demonstrações. A Barra talvez seja a região que menos se enquadra neste perfil, pois é uma das partes mais novas e modernas da cidade, cujo desenvolvimento começou efetivamente na década de 1980. Mas descobertas recentes na Floresta da Tijuca mostram que os primeiros moradores chegaram muito antes do que se imaginava, por volta de 1594, com a concessão de duas sesmarias. Os vestígios desta época estão em ruínas localizadas na antiga Fazenda Sorimã, que dá acesso à Pedra da Gávea pela Barrinha.

Apesar de esses fragmentos terem sido avistados pela primeira vez nos anos de 1980, só na última terça-feira o pedido de registro para transformar a área num sítio arqueológico foi protocolado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pelo arqueólogo Cláudio Prado de Mello. Os pesquisadores Luis Alexandre Franco Gonçales e Carlos Ramalho também participaram da descoberta.

A ideia de registrar o sítio partiu de Ramalho. Morador da Taquara, ele é um veterinário apaixonado por arqueologia e se considera um explorador. Numa de suas incursões pelo local, em 2014, encontrou as ruínas da Fazenda Sorimã. Não sendo especialista, decidiu procurar um: fez uma pesquisa na internet que o levou a reportagens sobre Mello, autor de diversos registros arqueológicos, e o convidou para conhecer a região. Este, por sua vez, já conhecia Gonçales, que há 30 anos realiza trabalhos na Floresta da Tijuca, e o convidou para acompanhá-lo na empreitada. Esta semana, o trio concluiu suas primeiras pesquisas e protocolou o pedido de registro.

— O que fizemos para o registro é só o começo. Se houver interesse e recursos, isso aqui é trabalho para uma vida inteira de pesquisa — afirma Ramalho, que pretende começar a fazer faculdade de Arqueologia para se dedicar ao tema profissionalmente.



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Ruínas da Fazenda Sorimã

Ferraduras sugerem que uma das construções tenha sido um estábulo Foto: Analice Paron / Agência O Globo


Pesquisadores encontraram na Floresta da Tijuca vestígios do local, que dá acesso à Pedra da Gávea pela Barrinha. A descoberta mostra que os primeiros moradores da Barra chegaram ali por volta de 1594. Eles protocolaram no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registro para transformar a área em sítio arqueológico.


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O único registro formal que se tem das ruínas na área da Barra foi feito por Gonçales no livro “Parque Nacional da Tijuca: construções e ruínas históricas”. Ele cita a Fazenda Sorimã, parte da sesmaria do capitão-governador do Rio, Salvador Correia de Sá, vendida em 1638 a Manoel Caldeira, que instalou ali um engenho de açúcar. Depois, a propriedade pertenceu a Martim Correia de Sá e seus herdeiros. Até que em 1843 foi adquirida pelo empresário Aldo Bonardi.

As pesquisas iniciais mostram que o sítio é formado por um extenso conjunto de ruínas de construções feitas com granito-gnáissico, rocha típica da Floresta da Tijuca. É possível identificar casas (sobre o que restou de uma delas hoje há uma árvore de mais de 200 anos), tanques de pedra e de alvenaria e poços que, possivelmente, faziam parte de um sistema de aproveitamento da água que descia das partes mais altas da montanha.

— Tudo indica que as estruturas estavam relacionadas a um volume de água bem maior do que o existente hoje no local. E isso pode ter sido efeito das obras de remanejamento de calhas de rios e das próprias alterações na paisagem ocorridas no século XIX — diz Mello, referindo-se ao replantio da área.

Além das ruínas de construções diversas, existem áreas extensas cobertas com calçamento de pedra, do tipo pé de moleque. O trecho serve de trilha de acesso à Pedra da Gávea e à cachoeira. A partir dela, sem precisar entrar na mata, já é possível avistar algumas ruínas.


CONSTRUÇÕES TAMBÉM DO SÉCULO XIX

Da estrada com calçamento pé de moleque é possível avistar muros feitos de pedra e buracos que podem ter sido poços. Adentrando a mata, aparecem as construções mais complexas, entre elas pelo menos duas edificações erguidas sobre platôs: a primeira é uma casa-grande, rodeada por um tanque de lavar roupa e outras construções que parecem ser decorativas, segundo os pesquisadores; e a segunda, de ar mais rústico, talvez tenha sido parte de um depósito ou um estábulo, já que nessa área foram encontradas muitas ferraduras pelo chão.

Baseado no material achado e nas técnicas de construção utilizadas, o arqueólogo Cláudio Prado de Mello concluiu que a ocupação da fazenda pode ter durado pouco mais de 200 anos, indo de 1638, ano da criação do engenho, até 1862, quando Dom Pedro II decidiu acabar com a exploração agrícola, por julgar que prejudicava o fornecimento de água no Rio de Janeiro, e iniciar o reflorestamento do terreno que é hoje o Parque Nacional da Tijuca.

As pesquisas feitas até agora mostram uma evolução nas técnicas de construção. Há espaços rústicos, feitos com pedras e que remetem ao período colonial; e outros em que foram usados tijolos, cerâmica e reboco feito de argamassa originada da mistura de areia, cal e óleo de baleia, uma técnica utilizada no período imperial.

— Tudo isso é especulação baseada num estudo inicial. Só quando começarmos a achar mais materiais e a estudá-los, numa pesquisa arqueológica, teremos um esclarecimento melhor a respeito de toda essa história — reforça o arqueólogo.

Falta de material arqueológico não é uma preocupação dos pesquisadores, já que os objetos praticamente brotam do chão. A facilidade se deve ao fato de o sítio estar numa área de montanha, onde o solo é revolvido constantemente pelas chuvas. No curto período em que a equipe do GLOBO-Barra esteve no sítio, foram encontrados frascos de remédios, dois penicos do século XIX, ferragens de construção e cerâmica.

— As chuvas mexem muito com o solo, e o material desce morro abaixo. Com isso, muita coisa é encontrada na superfície. Temos que ter o cuidado de separar e identificar corretamente cada material — observa o pesquisador Carlos Ramalho.

O grupo também se preocupa com a preservação do sítio arqueológico. Quando o Iphan aceita um pedido de registro, a área passa a ser protegida por lei pelo poder público, que assume responsabilidade pelo material encontrado.

O pesquisador Luis Gonçales acredita que existam mais de 150 ruínas em toda a Floresta da Tijuca. E acrescenta que num período de dez anos viu muitas serem deterioradas e até vandalizadas. Aos poucos, ele espera poder enviar outros pedidos de proteção de sítios arqueológicos ao Iphan.

— Cabe-nos tentar localizar todas as ruínas que não estão documentadas e registrá-las, para que não as percamos — afirma.

O pedido de registro protocolado por Gonçales e seus colegas terça-feira no Iphan é o primeiro passo para o reconhecimento oficial do sítio arqueológico da Barrinha. Não há prazo para o término do processo.

Fonte: O Globo Bairros


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