sexta-feira, 10 de junho de 2016

TEXTO DE LARS GRAEL: "A fábula de Cinderela e o Esporte Brasileiro"




A fábula de Cinderela e o Esporte Brasileiro

Por Lars Grael



O Brasil sediará em pouco mais de três meses, o maior evento da humanidade: Jogos Olímpicos e Paraolímpicos.

Estaremos numa erupção de sentimentos ao conjugar este momento mágico e único na história do continente Sul-Americano e, ao mesmo tempo, vivenciando uma crise político-econômica sem precedentes na história da nossa nação.

O Esporte Brasileiro atingirá seu momento de apoteose perante a sociedade, e nosso país exposto nas virtudes e nos contrastes perante todo mundo, uma vez que estaremos no centro das atenções do planeta.

Para chegar a este momento, o Brasil começou a organizar os Jogos Sul-Americanos de 2002, politicamente cruciais para este ano, quando também fomos selecionados para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007.

Após a realização do Pan, o Brasil conquistou o direito de sediar os Jogos Olímpicos, momento que o Brasil ainda mostrava exuberância econômica e um passaporte carimbado para o chamado "Primeiro Mundo" das nações desenvolvidas.
 


"O esporte brasileiro está nas escadarias do castelo do príncipe encantado. Nunca tantas leis foram benéficas ao esporte nacional. Nunca uma preparação olímpica foi tão adequada. O Esporte vive seu momento de Cinderela".

Sediamos com brilhantismo, os Jogos Mundiais Militares em 2011, e nosso país saiu com saldo positivo na organização e entrega da Copa das Confederações e na sequência a Copa do Mundo de Futebol da FIFA.

O Esporte que no passado era gerido como uma Secretaria interna ao Ministério da Educação e da Cultura - MEC, ganhou em 1991, uma Secretaria Nacional ligada à Presidência da República. Em 1995, criou-se um Ministério Extraordinário dos Esportes. Em 1996, uma autarquia (INDESP) vinculado a ele. Já em 1999, cria-se um Ministério do Esporte e do Turismo. Em 2003 finalmente, o setor ganha a emancipação e é galgado ao patamar de Ministério, com direito a endereço no Bloco A da Esplanada dos Ministérios.

Nesta trajetória de incremento de relevância política, aprovamos várias leis de apoio, fomento e incentivo do esporte em adição a existente Lei 9.615, de 1998, conhecida como Lei Pelé dos Esportes:
  • Reconhecimento do Esporte como meio de ação social - CONANDA - Ministério da Justiça.
  • Lei de Importação de Material Olímpico e Paralímpico com isenção de Imposto de Importação - II e IPI em equipamentos sem similar técnico nacional.
  • Lei Agnelo-Piva de fomento ao desporto olímpico; paraolímpico; escolar e universitário.
  • Lei do Estatuto do Torcedor.
  • Lei da Bolsa-Atleta.
  • Lei de Incentivo Fiscal do Esporte Federal. Já havia uma lei estadual no RJ. Outros estados e municípios criaram suas próprias legislações.
  • Alteração da Lei Pelé, remetendo recursos para formação de atletas olímpicos e paralímpicos por meio da Confederação Brasileira de Clubes - CBC.
  • Alteração da Lei Pelé, com o artigo 18-A gerando meios de democratização da gestão esportiva nacional.
  • Adesão das Forças Armadas ao esporte de alto rendimento, admitindo atletas em suas fileiras e oferecendo-lhes condições para treinamentos e competições.


Nossos chefes de Estado, demonstraram com clareza a determinação de o Brasil crescer e atingir um patamar das potências olímpicas. Para tal, fixou-se a meta oficial de nossa representação, chegar, já em 2016, ao grupo seleto das 10 principais potências do esporte olímpico, e entre os cinco melhores países no esporte paralímpico.

Possível? Com certeza. A preparação do chamado "Time Brasil" nunca foi tão planejada e executada como desta vez. E é sabido que a nação-sede sempre registra um desempenho ascendente na curva de seu resultado histórico.
 
"A preparação do chamado "Time Brasil" nunca foi tão planejada e executada como desta vez. E é sabido que a nação-sede sempre registra um desempenho ascendente na curva de seu resultado histórico".
O esporte brasileiro está nas escadarias do castelo do príncipe encantado. Nunca tantas leis foram benéficas ao esporte nacional. Nunca uma preparação olímpica foi tão adequada. O Esporte vive seu momento de Cinderela.

O que queremos enfatizar é o compromisso, verdadeiro pacto da nação em avançar nesta agenda de forma responsável e sustentável. Precisamos valorizar a Educação e os Educadores Físicos desde a formação que está na escola. Este sim, um verdadeiro legado de todo este processo.

Com estes avanços registrados nos últimos dez anos, o Esporte precisa atingir o reconhecimento de estar no cerne das políticas sociais. É inadiável trabalharmos o Esporte e a Educação Física como elementos fundamentais de uma "Pátria Educadora". Utilizar o Esporte como um elemento de promoção de saúde e de combate ao sedentarismo. Criarmos uma cultura de Esporte que possa permear todas as ações de um governo responsável. Atuar como elemento de pacificação nas comunidades carentes, nas políticas de meio-ambiente e de integração nacional.

Mas, se essas metas não forem fixadas imediatamente, como legados efetivos dos megaeventos que encerrarão uma década de grandes promoções esportivas, corremos o risco desta carruagem para o desenvolvimento, se tornar em abóbora logo após a agenda olímpica...

"É inadiável trabalharmos o Esporte e a Educação Física como elementos fundamentais de uma "Pátria Educadora". Utilizar o Esporte como um elemento de promoção de saúde e de combate ao sedentarismo. Criarmos uma cultura de Esporte que possa permear todas as ações de um governo responsável. Atuar como elemento de pacificação nas comunidades carentes, nas políticas de meio-ambiente e de integração nacional".

 
Temos sinais claros para esta preocupação. Antes mesmo dos Jogos Rio 2016, o poder executivo federal vetou a renovação da Lei de Importação de Material Olímpico e Paralímpico. Um verdadeiro desserviço ao esporte. Esta medida não é capaz de produzir nenhuma forma detectável de impacto na balança comercial. O governo é o sócio majoritário no apoio ao sistema nacional esportivo, para reaparelhar a nação com material e equipamentos esportivos adequados ao setor. Por um lado, incentiva com verbas públicas, por outro lado tunga esta mesma atividade com uma carga absurda de impostos. É a mão que dá e a mão que tira, ação de um governo que parece conspirar contra si próprio.

"... o poder executivo federal vetou a renovação da Lei de Importação de Material Olímpico e Paralímpico. (...) O governo é o sócio majoritário no apoio ao sistema nacional esportivo, para reaparelhar a nação com material e equipamentos esportivos adequados ao setor. Por um lado, incentiva com verbas públicas, por outro lado tunga esta mesma atividade com uma carga absurda de impostos. É a mão que dá e a mão que tira, ação de um governo que parece conspirar contra si próprio".

 
No Estado do Rio de Janeiro, o Esporte se une para preservar a mais antiga e bem sucedida Lei Estadual de Incentivo ao Esporte através do ICMS.

Em 2016, cinco estados já extinguiram suas secretarias estaduais de Esporte. Foram abduzidas e rebaixadas a um departamento de uma outra secretaria. Em São Paulo, Estado potência esportiva que é o Estado de São Paulo, 42 secretarias municipais já foram rebaixadas neste ano. Dados da Associação Brasileira de Secretarias Municipais de Esporte e Lazer - ABSMEL dão conta que em cerca de dois mil municípios do Brasil (36%), o esporte sequer possui qualquer dotação orçamentária.
 
"Em 2016, cinco estados já extinguiram suas secretarias estaduais de Esporte. Foram abduzidas e rebaixadas a um departamento de uma outra secretaria".
"Em São Paulo, (...) 42 secretarias municipais já foram rebaixadas neste ano. Dados da Associação Brasileira de Secretarias Municipais de Esporte e Lazer - ABSMEL dão conta que em cerca de dois mil municípios do Brasil (36%), o esporte sequer possui qualquer dotação orçamentária".
 
 

Nas mudanças que se anunciam caso um novo Governo Federal venha a ser instalado, pelo menos na interinidade, fala-se na extinção do Ministério do Esporte, cujas atividades seriam anexadas a outra pasta, ou revertido a um ministério híbrido.

Vivemos o risco do efeito Cinderela... com certeza. Potência esportiva não se constrói num ciclo olímpico. A medição do êxito de nossas políticas públicas, só será efetiva de forma sustentável, se repetirmos o êxito a partir dos Jogos de Tóquio, em 2020.
 
"Potência esportiva não se constrói num ciclo olímpico".


E não construiremos uma "Pátria Educadora" sem envidarmos esforços no desenvolvimento do Esporte na Escola.

Assim como na fábula, não queremos virar abóbora ao apagar da chama olímpica, no Rio de Janeiro. Não podemos esperar pelo príncipe e a sapatilha de cristal. Precisamos, mais do que nunca, unir o meio esportivo e defender este setor vital para a nossa sociedade.
 
 
Lars Schmidt Grael
Velejador
Presidente da Comissão Nacional dos Atletas



Fonte: Blog Lars Grael











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