domingo, 6 de março de 2016

Olímpicas: niteroienses prometem brilhar nos jogos do Rio


Atletas de Niterói que estarão na Rio 2016. André Redlich.


Raiana Collier

Atletas da cidade rompem barreiras e buscam triunfo na mais importante competição de esportes

Quando as Olimpíadas surgiram, na Grécia antiga, mulheres que ousassem assistir aos jogos poderiam ser condenadas à pena de morte. Praticar os esportes, então, era impossível. Hoje elas já jogam em todas as modalidades olímpicas – igualdade conquistada somente em 2012, nos jogos de Londres – e representarão o Brasil, com muito orgulho, no Rio, este ano. As niteroienses Martine Grael, Isabel Swan e Fernanda Decnop, todas da vela, conquistaram suas vagas nas Olímpidas. O feito foi repetido por Beatriz Futuro, da seleção de rugby, Ingrid Oliveira, do salto ornamental, e Fabiana Silva, do badminton. Cada uma rompendo as barreiras do preconceito no universo do esporte, antes dominado pelos homens.

Fernanda Decnop já conquistou diversas medalhas com a vela, mas afirma que ainda há uma certa barreira para as mulheres no esporte. André Redlich

Fernanda Decnop, velejadora de 28 anos, já acumulou muitas medalhas na carreira. Em 2015 ela levou o bronze nos jogos Pan-Americanos de Toronto, Canadá, e é heptacampeã brasileira em sua categoria, a Laser Radial. Mesmo com tantos prêmios nas costas, Fernanda conta que ainda enfrenta uma certa barreira na sua profissão.

“Em um campeonato brasileiro em que eu participei, um atleta da classe Laser Standard me disse que a classe Radial não deveria existir porque é composta só por mulheres”, desabafa a velejadora.

E ela não é a única. Beatriz Futuro, de 30 anos, jogadora de rugby da seleção brasileira, revela que ainda percebe muita resistência à ideia de mulheres em um esporte “de contato”, como é o caso da modalidade que escolheu. A atleta destaca, entretanto, o longo caminho que as mulheres já percorreram e afirma que o cenário melhorou bastante nos últimos anos.

“A discriminação já foi muito maior. Com o tempo, nós conquistamos o nosso espaço, tendo resultados até mais expressivos que os homens” afirma a jogadora.

Esta também é a percepção de Isabel Swan, velejadora de 31 anos. Isabel levou a medalha de bronze nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, a primeira da confederação brasileira na vela feminina – um orgulho pessoal. Ela afirma que nunca viu tantas mulheres competindo neste esporte como nesta geração.

“Antes não era assim. A vela era muito mais marcada por homens. Foi a partir de 2008 que nomes fortes femininos começaram a surgir”, comenta a atleta.

Para o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor do livro “Gênero e Mulheres no Esporte”, Fabiano Devide, a crescente participação das mulheres nas Olimpíadas é representativo de suas conquistas na sociedade como um todo.

“Ao longo de sua existência, desde 1896, podemos dizer que o evento dos Jogos Olímpicos representa um forte marco na emancipação das mulheres no século XX. Como uma instituição social, o esporte ainda pode ser interpretado como uma arena de reserva masculina, onde as mulheres precisam lutar para se inserir”, explica o professor.


Um dos destaques da seleção brasileira de rugby, Beatriz Futuro, treina diariamente, das 8 às 15 horas. André Redlich


Apesar das barreiras do preconceito, para essas três atletas o sonho das Olimpíadas se tornará realidade. Mas, se para o público os jogos começam somente em agosto, a preparação de Fernanda, Beatriz e Isabel já está acontecendo há muito tempo.

“A seleção das atletas para as Olimpíadas leva em consideração a performance em todo o ciclo olímpico, que começou em 2013”, explica Fernanda.

Por três anos, os avaliadores analisaram a preparação física, técnica e psicológica das atletas para decidir quem competiria no evento esportivo mais importante do mundo. Após este período sendo observadas, elas finalmente conquistaram seu espaço nos jogos olímpicos deste ano e precisam se preparar para a competição. Em ritmo olímpico, Fernanda conta que acorda às 5h30 para ir à academia. Em seguida, passa por acompanhamentos psicológico e nutricional. À tarde, treina no mar por, aproximadamente, três horas e finaliza o dia com exercícios aeróbicos.

Para Isabel Swan o treino ganhou um significado ainda mais importante, já que ela só começou a velejar no barco em que vai competir há apenas seis meses. Antes, ela fazia campanha olímpica para a classe 470, mas quando viu que não conseguiria uma vaga, trocou rapidamente para a categoria Nacra 17 – barco com o qual nunca tinha velejado. Agora faz academia, fisioterapia e veleja todos os dias para se preparar.

Beatriz também está, literalmente, pegando pesado no treino, mas explica que a preparação também inclui um momento de descanso. Ela conta que faz exercícios todos os dias, das 8 às 15 horas, seguidos por um momento de recuperação, com sessões de fisioterapia e massagem.

“O atleta pode até ir para casa, mas faz parte do treinamento descansar também”, explica Beatriz.

A cabeça pode já estar nas Olimpíadas, mas antes dos jogos as atletas ainda vão enfrentar outros campeonatos. Fernanda irá competir na Espanha, México e França antes dos jogos olímpicos. Ela considera esses campeonatos essenciais para sua preparação para as Olimpíadas, já que terá a oportunidade de velejar em nível internacional. Isabel irá para a Espanha e para a França antes de agosto, mas reserva maio, junho e julho para focar completamente nas Olimpíadas deste ano.

Quando se trata das expectativas para os jogos, Beatriz brinca:

“Ninguém vai competir pensando em perder, não é?”. Para a seleção brasileira de rugby, a pressão é ainda maior, já que esse é o primeiro ano do jogo de volta às Olimpíadas. Em 1928 o rugby deixou de ser uma modalidade olímpica e retorna somente agora, em 2016.

Por isso, Beatriz explica que o esporte ainda precisa se desenvolver muito no Brasil e que o time enfrenta uma grande barreira cultural na competição. “Quando uma menina da Nova Zelândia nasce, ela ganha uma bola oval. Nós, brasileiras, ganhamos uma bola redonda”, diz a atleta.

“Mesmo assim existe uma possibilidade de ganharmos, e nós vamos nos agarrar fortemente a essa chance”, completa a atleta.

Para evitar o nervosismo durante a competição, Fernanda tenta não criar expectativas e sua estratégia é estabelecer pequenas metas.


A velejadora Isabel Swan competirá pela primeira vez com uma dupla masculina e acredita que isso seja uma revolução. André Redlich


“Eu não gosto dessa cobrança interna, gosto de ser melhor a cada dia, de olhar para trás e ver que hoje estou melhor que antes”, afirma a atleta. Já Isabel revela que tem boas expectativas para a competição, principalmente porque vai velejar em uma classe ainda nova nas Olimpíadas. “A categoria está muito equilibrada. No fim das contas, quem estiver em uma semana mais inspirada vai levar a medalha”, diz.

Quando se trata do futuro da mulher no esporte, as atletas estão esperançosas. Fernanda, que também é vocalista de uma banda de metal, já está acostumada a participar de ambientes dominados por homens, e acredita que “estamos seguindo um bom caminho para acabar com o preconceito”.

“Agora, com o movimento feminista, o futuro é igualar. Ninguém tem que ter mais espaço que ninguém. Mulheres e homens devem ser tratados de forma igual”, enfatiza a velejadora.

Isabel competirá este ano, pela primeira vez, com uma dupla masculina e acredita que isso representa uma evolução no lugar da mulher no esporte.

​“Eu não conheço nenhuma outra dupla mista na história da vela. Acho que isso representa maior igualdade para as mulheres”, diz a velejadora.

Fabiano Devide explica que, para as mulheres alcançarem a situação de igualdade no esporte, outros fatores entram em questão como a presença feminina no jornalismo esportivo, em cargos administrativos de times e no comando de confederações nacionais e comitês olímpicos. Beatriz acredita que embora muito já tenha sido conquistado, ainda há um grande caminho para ser percorrido e conclui otimista:

“Hoje nós vivemos em um mundo completamente diferente do que a gente já viveu, mas as cicatrizes ficam. Muita coisa ainda precisa mudar”.

Fonte: O Fluminense







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