segunda-feira, 4 de julho de 2016

JOGOS OLÍMPICOS: Nos Jogos de Atlanta-1996, apenas o Brasil comemorou


O iatista Robert Scheidt comemora o ouro na classe Laser em Atlanta, em 1996 - Ivo Gonzalez


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País conquistou seu maior número de medalhas numa edição olímpica: 15

Para a história olímpica brasileira, os Jogos de Atlanta foram estupendos: o país conquistou um total de 15 medalhas, quase o dobro do recorde anterior, e voltou para casa muito à frente de Inglaterra, Bielorússia, Bélgica ou Suécia. Segundo qualquer outro critério, porém, Atlanta 1996 foi um pesadelo. O que podia dar errado deu errado. O que não podia, também.

Em maior ou menor escala, o caos afetou a todos — atletas, dirigentes, turistas, mídia. Até mesmo a população local, capaz de injetar sal, pimenta e alma numa Olimpíada, estava mal-humorada. Reclama até hoje quem foi buscar conforto na decantada hospitalidade do Sul dos Estados Unidos.

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Seduzidos pela receita que dera resultado em Los Angeles, os organizadores haviam decidido que os Jogos de Atlanta seriam inteiramente bancados pela iniciativa privada. Cidade-sede da Coca-Cola, da CNN e da Delta Airlines, além de um dos principais centros de conexão aérea do mundo e vibrante centro comercial do país, a capital do estado da Geórgia pretendia emergir cintilante com sua identidade pós-“...E o vento levou”.

Mas já na primeira semana ruiu a sagrada tríade que sustenta o funcionamento extracompetição de qualquer edição dos Jogos: transporte, comunicação/tecnologia e segurança. Quando uma perna do tripé enguiça, já é grave. Se duas pifam, é crítico. Três, é terminal. Em Atlanta, as três falharam.

O colapso do sistema de locomoção afetou tanto a chamada “família olímpica”(dirigentes, juízes, atletas, equipes técnicas, mídia credenciada), como o público em geral. Os engarrafamentos eram uma constante, e a chegada ao destino, uma incógnita. Apavorados com a impaciência dos passageiros, quase uma centena de motoristas locais da frota olímpica se demitiu, obrigando os organizadores a importarem pessoal de outros estados, às pressas. Só que os substitutos não tinham ideia do traçado da cidade.

Numa instância, foi o time de remo inglês que assumiu o comando do seu ônibus para poder chegar até o local da competição. Em outra ocasião, um colega irlandês do ônibus no qual eu me encontrava convenceu o apavorado motorista a ceder o volante diante do quase motim a bordo. Estávamos atrasados meia hora para a final da ginástica artística masculina.

Jornalista normal já é reclamão e exigente. Quando algo emperra ou atrasa seu trabalho, a tensão dá pinotes. Em Atlanta éramos 15.100 olímpicos credenciados em estado de estresse permanente e alto risco de atraso. Imagine-se nosso estado de combustão. No quesito transporte, um dos poucos momentos de alegria na desgraça foi ver a alta cúpula do Comitê Olímpico Internacional, na porta do luxuoso hotel em que estava hospedada, aguardar em vão a chegada dos carros que deveriam levá-los à Cerimônia de Abertura. O caos de Atlanta teve essa característica: foi democrático. As escadas rolantes da principal estação de metrô da cidade chegaram a parar de funcionar.

Nada, porém, mais inesperado do que o enguiço do sistema montado pela IBM. Anunciado à época como a mais avançada fronteira da tecnologia e concebido para armazenar dados precisos sobre todas as edições olímpicas, o Info96 também fora criado para fornecer resultados em tempo real das 271 provas em curso. Para os jornalistas, uma ferramenta tão inédita quanto poupadora de tempo e suor.

Isso, se não tivesse entrado em pane. O sistema cuspia informações destrambelhadas: na ficha de um atleta de 21 anos constava que ele era nonagenário; a estatura de um lutador de boxe apareceu como sendo de 50cm; foi anunciada uma quebra de recorde mundial no ciclismo antes de a prova sequer ter ocorrido.

Como o Info96 só conseguia fornecer o resultado oficial das competições horas após sua conclusão, o que equivale a uma eternidade para agências noticiosas, a IBM capitulou e passou a entregá-las aos mais necessitados em formato papel, através de mensageiros.

Não espanta que um dos produtos mais criativos e populares a surgir durante os Jogos foi um pin com os dizeres “I survived Atlanta” (Eu sobrevivi a Atlanta), rapidamente adotado pelos jornalistas como condecoração.

Isso tudo antes da explosão de uma bomba caseira em pleno Centennial Olympic Park na madrugada do sábado 27 de julho, quando os Jogos ainda estavam apenas na primeira metade.


O nadador brasileiro Luiz Lima em Atlanta - Ivo Gonzalez


Perto de duas mil pessoas assistiam ao show da banda Jack Mack & The Heart Attack quando uma explosão na torre de som ao lado do palco, com forte estrondo, seguido de fumaça negra e estilhaços, congelou a festança antes de espalhar o pânico. Momentos antes, James Brown havia se apresentado no mesmo palco, e nos dias anteriores tinha sido a vez de Chubby Checker e dos Ramones. O imenso parque árido e pouco arborizado, cuja principal atração era uma fonte que servia de chuveiro para refrescar o público a caminho das arenas, ficava a poucos metros do centro internacional de imprensa (MPC) e do prédio que abrigava as redes de tevê mundiais (IBC) Só que àquela hora da madrugada, com a jornada de trabalho daquele dia basicamente encerrada, a grande maioria dos jornalistas, estava em modo desarmado. Ou aproveitando para comer algo antes de encarar o dia seguinte, ou desacelerando no MPC e IBC. Do ponto de vista da nossa tribo, portanto, um agravante a mais na cobertura de uma edição já encrencada.

O pandemônio não foi pequeno. Uma senhora que percebi numa esquina, encolhida em posição fetal e que imaginei estar ferida, tinha visto uma vítima com as vísceras de fora e estava em estado de choque. O atentado fez 111 feridos, matou uma pessoa — uma telefonista que fora festejar o aniversário da filha — e suspendeu as competições por 24 horas. A retomada veio infiltrada de medo. Até porque os 36 mil agentes de segurança olímpicos não haviam conseguido impedir o atentado caseiro apesar de o autor ter dado um telefonema de alerta à polícia, na véspera.

Ele se chamava Eric Rudolph, tinha 29 anos, e era um dos terroristas americanos de extrema direita que constavam da lista dos 10 mais procurados pelo FBI. Mas isso só se descobriu quase uma década mais tarde. Rudolph foi preso em 2003 e cumpre pena perpétua por uma série de outros atentados. Em 2005, como parte de sua confissão, admitiu ter detonado a bomba no Centennial Park. Ao longo desse tempo todo o agente de segurança Richard Jewell penou para conseguir corrigir uma terrível injustiça — seu nome fora indevidamente vazado pelo FBI como sendo o autor do crime e ele passara a ser nacionalmente execrado.

Mas o bom de toda Olimpíada é seu combustível humano — os atletas. E o motivo deles estarem ali — para competir. Cada edição tem um leque inesgotável de participantes com biografias acopladas ao substantivo “superação”. A mídia adora essa palavra. Ela vale para a transposição de brutais obstáculos socioeconômicos, culturais, políticos, familiares, religiosos, geográficos ou todos somados.

Em Atlanta não foi diferente, e uma das figuras mais queridas acabou sendo o maratonista bósnio Islam Dzugum, de 35 anos, único dos 10 atletas de sua equipe que permanecera em seu país durante a guerra que esfacelou a antiga Iugoslávia. Durante o cerco sérvio que fez mais de 10 mil mortos na capital, Sarajevo, Dzugum só interrompia o treino pelas ruas devastadas para recolher feridos e ajudá-los a sair da linha de fogo. Foi um dos porta-bandeiras mais aplaudidos entre as 197 nações participantes. Chegou vivo e feliz em 107° lugar entre os 112 competidores que concluíram a prova. Um vencedor, sem dúvida.
 
Para mim, a visão mais forte de Atlanta é um rosto e corpo negro outrora belos, agora cravejado de cicatrizes. A estrela maior de Cuba Ana Fidelia Quirot estava de volta às pistas. Tinham se passado apenas 30 meses desde a noite de janeiro de 1993 em que uma Mercedes preta depositou o comandante Fidel Castro no hospital Hermanos Ameijeiras, de Havana, onde Quirot fora internada em estado gravíssimo. A atleta de 29 anos havia acendido um fogareiro a querosene na cozinha para lavar roupa em água com álcool. Descuidou-se e foi envolta em chamas. O fogo subira-lhe pelo estômago, peito, braços, até os olhos, matando nervos no caminho e cobrindo 38% do seu corpo com queimaduras de terceiro grau. O bebê que esperava de uma relação não assumida pelo também atleta cubano e também mito nacional Javier Sotomayor, campeão olímpico de salto em altura em Barcelona, não sobreviveu.

Fidel e Ana Fidelia nasceram na mesma província de Oriente, e o segundo prenome da atleta honrava a apaixonada defesa que ela sempre fez do regime castrista. Em 1991, nos Jogos Panamericanos sediados em Havana, Quirot pendurou uma das duas medalhas de ouro conquistadas no pescoço de Fidel. Quando lhe perguntavam qual a melhor coisa que o comandante fizera para ela, respondeu: “La revolución”.

Nos Jogos de Barcelona 1992, grávida sem sabê-lo, Quirot disparara com suas pernas de turbina rumo à medalha de prata nos 800 metros. Seis meses depois, a atleta começava a ser submetida a 29 cirurgias e 7 enxertos de pele. Um mês depois de ter dado entrada no hospital, Ana Fidelia estava de pé. No terceiro mês, teve alta. No quarto, retomou os treinos no estádio Juan Abrantes, mas somente à noite para não ferir as novas peles com a exposição à luz natural. Tudo doía. Sobretudo olhar-se no espelho.


Os judocas Aurélio Miguel e Henrique Guimarães se cumprimentam em Atlanta - Ivo Gonzalez


Quando arriscou expor-se à primeira competição, nos Jogos Centro-Americanos e Caribenhos de 1995, nos quais 40 atletas cubanos pediram asilo na embaixada americana, Quirot chegou em segundo lugar. O abraço de Fidel foi comovido. “Eu parecia um robô, ainda não conseguia inclinar minha cabeça”, contou depois a S.L.Price, da “Sports Illustrated”. Eu visitei a atleta em 2002 com o documentarista João Moreira Salles, da revista “Piauí”, para um projeto inviável sobre esporte e política em Cuba. Ana Fidelia Quirot continuava fidelista.

Atlanta, ou Hotlanda, como foi logo apelidada a cidade, exigiu o máximo até de atletas com ótimo condicionamento físico. No dossiê de candidatura constava a vantagem de uma temperatura média de 25 graus no período olímpico. Só foi omitido que essa temperatura se registrava de madrugada, e que a média diurna, para final de julho, beirava os 35 graus, com picos de 40° e umidade de 89%.

No mar de Savannah, cidade litorânea a 500 km de Atlanta onde se realizaram as provas de iatismo, ninguém se importava com graus centígrados, e sim com os ventos. E eles sopraram a favor do Brasil. Superando a conquista de duas medalhas de ouro nos Jogos de 1980. Além de dois ouros, ainda deram ao Brasil uma medalha de bronze.

ESTREIA DE SCHEIDT

Torben Grael já havia conquistado uma prata em Los Angeles e um bronze em Seul. Em dupla com seu adorável e bem-humorado proeiro Marcelo Ferreira, na classe Star, capturou o ouro que faltava à coleção. Em outra raia, o paulista Robert Scheidt, na Laser, fazia sua estreia olímpica pelo topo — ouro logo de cara. Era apenas o começo da carreira desse velejador metódico, cerebral e disciplinado. E na classe Tornado, o também já veterano de Seul Lars Grael conquistava sua segunda medalha de bronze, desta vez com o proeiro Henrique “Kiko” Pellicano. O fotógrafo Antonio Milena captou o momento em que Scheidt aproximou seu barco do Star em que Torben e Marcelo abriam garrafas de champanha e gritou, bandeira do Brasil em mãos: “Olha outro ouro aqui, cara!”. Foi festa das boas na aldeia.

O Brasil mudara de patamar nos Jogos de Atlanta porque levou medalhas não apenas por projeção individual de atletas em esportes já esperados, mas numa gama de mais de 10 modalidades esportivas. Foi um salto qualitativo que, infelizmente, nunca mais se repetiu, com pódios na natação e hipismo, vôlei e basquete feminino, vôlei de praia e judô, atletismo e futebol, além de vários quartos lugares.

Eletrizante e emocionante, embora não propriamente edificante, foi a semifinal de vôlei feminino entre Brasil e Cuba. Desde que Bernardinho assumira como técnico da seleção, a palavra de ordem passou a ser “endurecer”. Nada de muita confraternização. E naqueles anos 1990 não havia adversárias mais adversárias do que as cubanas.


A chegada da equipe de hipismo brasileira à cidade americana - Ivo Gonzalez

A seleção de Cuba chegara a Atlanta como vencedora de três Copas do Mundo (1989, 1991 e 1995), um Mundial (1994) e uma Olimpíada (Barcelona), encabeçadas pelas indestrutíveis Mireya Luis e Regla Torres. O jogo vencido pelas cubanas foi épico, com as duas equipes em guerra franca dentro e fora da quadra. Houve pescoções, invasão de quadra e agressão no vestiário que ameaçou virar caso de polícia. Mas além da medalha de bronze, a seleção voltou para casa com o nome de Fofão, Virna e Ana Moser na ponta da língua e no coração dos brasileiros.

Para Fernando Sherer, o Xuxa, medalha era quase uma necessidade “Não posso voltar sem nada . Nem que tenha de roubar uma do Gustavo”, dizia em tom de brincadeira, escondendo o desconforto por ver escoar, uma a uma, suas chances. Xuxa, o menino dourado de olhos verdes da natação brasileira, fora alvo de intensa campanha de marketing antes do embarque. Era um furacão midiático. Sua índole arrojada e simpática, além do visual de popstar, haviam feito dele um darling nacional que precisava ser coroado com uma medalha.

Gustavo Borges dera a partida logo no primeiro dia de competições. Prata. Chegou em segundo lugar nos 200 metros nado livre. Fulminante. Quarenta e oito horas mais tarde, com a serenidade habitual, arrebatou um bronze na prova mais nobre e ambicionada da natação, os 100 metros. Era a segunda Olimpíada consecutiva que esse atleta exemplar, tanto na vida privada como pública, conquistava o mesmo troféu.

Xuxa chegara em quinto, apesar de ter raspado a melena loura e os pelos do corpo para diminuir o atrito com a água. Careca e constrangido, também a medalha no revezamento 4 x 100 lhe escapara por pouco, pois o quarteto brasileiro chegara em quarto lugar. Restava-lhe disputar os 50 metros nado livre, com Florianópolis e resto do país grudados na televisão.

O brasileiro nem notou, mas estavam na arquibancada o presidente Bill Clinton, acompanhado da mulher Hillary, da filha Chelsea e um punhado de agentes secretos cujas credenciais estavam assinaladas com um X no lugar da profissão. “PQP!”, repetiu o medalhado de bronze, extasiado, com o pedaço de metal pendurado no pescoço, depois de ter conquistado o terceiro lugar. “Agora posso voltar ao Brasil com o Gustavo”. Estava de alma lavada.

Coube ao nadador russo Alexander Popov vencer com soberba, as duas provas de velocidade, como já fizera em Barcelona. Sua máxima também não mudara: “Num dia bom, ninguém consegue me vencer; num dia ruim, também não”.
 
Não sei por que não fiquei embasbacada com o feito igualmente inédito do americano Michael Johnson, que venceu tanto os 200 metros como os 400 metros rasos com suas sapatilhas douradas. Talvez pelo excesso de marketing. Brinco de diamante, bigodinho e mais dentes do que arcada, Johnson era o protótipo do atleta cool. Conseguiu quebrar o recorde mais antigo das pistas, do italiano Pietro Mennea, nos 200 metros, mas irritou-se ao ter seu momento de glória ofuscado pelo veterano Carl Lewis que, na mesma noite, venceu pela quarta vez o salto em distância e conquistou sua nona medalha de ouro.

Mais uma vez coube ao cineasta americano Bud Greenspan resumir o que o encantava nos Jogos. Ele martelava um ensinamento: “Tudo o que você previu que poderia acontecer raras vezes acontece. E o que você sequer imaginou pode acontecer”. Lição número dois: “Nunca pare de filmar quando alguém cruza a linha de chegada”. Para ele era então que as coisas realmente interessantes começavam a se revelar.

Fonte: O Globo









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