sábado, 1 de julho de 2017

"O SERTÃO CARIOCA": Celebrando a obra quase centenária de Magalhães Corrêa



Lagoa da Tijuca. Ilustração de Magalhães Corrêa.


COMENTÁRIO DE AXEL GRAEL:

Uma das leituras que mais me fascinou foi a obra de Magalhães Corrêa, "O Sertão Carioca".

O livro escrito e ilustrado por Magalhães Corrêa relata as observações do autor das viagens que fez, na década de 1920-1930, na região que chamou de "Sertão Carioca", que era a Barra da Tijuca, Jacarepaguá e outras regiões da Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro. A sua obra, intitulada "O Sertão Carioca", é a coletânea de vários artigos que “parcelladamente se estampou nas columnas do Correio da Manhã”.

Fui apresentado ao trabalho de Magalhães Corrêa, na década de 1970, quando ainda muito jovem e iniciando os meus estudos de engenharia florestal na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, fui estagiário do Centro de Botânica, do DECAM, da antiga Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA, junto à equipe de pesquisadores do órgão na Vista Chinesa, Alto da Boa Vista. Tive como meus orientadores, os respeitados pesquisadores Pedro Carauta e Henrique Martins.

Lá na Vista Chinesa, também tive a sorte de encontrar o responsável pela Biblioteca técnica do órgão, o Sr. Roberto Tamara. Ele me orientava e me abastecia com leituras técnicas sobre botânica, biogeografia, Mata Atlântica e sobre o Rio de Janeiro.

Foi ele que me recomendou a leitura de Magalhães Corrêa, uma vez que eu estava envolvido com alguns projetos na região da Barra da Tijuca. Aliás, acabei me transferindo da Vista Chinesa para o Viveiro da Feema, que localizava-se no Laboratório da Feema, próximo de onde é hoje o Riocentro. Na época era no "meio do mato".

Foi também Roberto Tamara que me incentivou a ler a obra de Alberto Lamego, autor de "O Homem e o Brejo", "O Homem e a Serra", "O Homem e a Restinga", "O Homem e a Guanabara", dentre outros livros imprescindíveis para quem quer entender a história, a cultura, a geografia e a geologia do Estado do Rio de Janeiro.

Fiquei tão fascinado com a obra destes autores, que saí como louco pelos sebos do Rio de Janeiro até conseguir reunir a coleção completa. Com relação ao Dr. Alberto Lamego, a sorte me ajudou mais uma vez: descobri onde ele morava, fui até a sua casa e tive a honra de ser gentilmente recebido por ele, já bem idoso, e tive conversas deliciosas sobre a dinâmica das lagunas costeiras (com ênfase no Sistema Lagunar de Piratininga e Itaipu) e sobre outros temas da sua obra.

Lições de "O Sertão Carioca" para as gerações atuais.

Quando fui presidente do Instituto Estadual de Florestas - IEF/RJ (1991-1994), com a liderança do inesquecível Darcy Ribeiro, desenvolvemos o Projeto Floresta da Pedra Branca, com iniciativas de implantação do Parque Estadual da Pedra Branca. Na ocasião, fizemos algumas atividades interessantes.

Ao longo de vários fins de semana, organizamos caminhadas pela "Trilha do Pau-da-Fome" até o Camorim. Ao longo da caminhada, fazíamos a leitura de trechos de "O Sertão Carioca", que descrevia a degradação daquelas terras, a desolação das fazendas e cultivos de laranjais abandonados, as marcas da erosão do solo, etc.

Na caminhada pela trilha, apesar de algumas ruínas e vestígios de construções daquela época, o que víamos era muito diferente. Áreas antes degradadas, agora estavam com floresta! Aproveitávamos para fazer com os participantes a reflexão de que era possível olhar para o futuro com esperança. Que a natureza, caso não sofra uma perturbação continuada, pode regenerar-se. Com isso, procurávamos passar uma mensagem ambientalista mais otimista, uma vez que esta tende com frequência a uma ênfase derrotista, ou até catastrofista... O rio era limpo, não é mais! A floresta foi queimada! A tal espécie foi extinta!

No Pau da Fome, com a ajuda de Magalhães Corrêa, destacávamos o contrário. Áreas antes degradadas podem se tornar um parque, desde que a gente não atrapalhe, cuide bem, invista e previna os fatores de degradação.

Destaques interessantes sobre a obra "O Sertão Carioca"

Aproveito para destacar aqui alguns trechos que considero valiosos de "O Sertão Carioca". Como pode ser visto nos textos, Magalhães Corrêa possuía um olhar adiante do seu tempo, uma preocupação com os costumes da gente daquele "sertão", com as florestas e a garantia dos estoques de recursos naturais para o futuro, com a fauna, já propunha a criação de parques, referia-se à economia e às políticas públicas e já fazia críticas às autoridades que, quase 100 anos depois, ainda são bastante atuais. Veja a seguir:


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INFORMAÇÕES SOBRE A ORIGEM DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO:


O  MANANCIAIS DA PEDRA BRANCA: Essas vertentes dos mananciaes, com a respectiva matta, foram compradas pelo ministro Lauro Müller, em 1908, no governo do presidente Rodrigues Alves, sendo director da Repartição Geral de Águas o Sr. Sampaio Corrêa, pela quantia de 450:000$000, ao Barão de Taquara – por intermédio do Dr. Catramby”. (Pág. 42)

O  AÇUDE DO CAMORIM: “Actualmente, em virtude da construcção do açude, planejado por Sampaio Corrêa, que acaba de ser executado, (...). Esta bacia hydrographica honra a nossa engenharia, cabendo os louros ao Dr. Henrique de Novaes, engenheiro chefe da divisão technica” (Pág. 46). 

PREOCUPAÇÃO COM AS FLORESTAS:


O  LENHA: “A questão da lenha no Districto Federal não pode ficar sem solução, principalmente pela barateza desse combustível, que fornece o calor tão indispensável à vida economica de um povo, desde a choupana mais mais humilde à mais importante indústria. O augmento de anno a anno da população, nas zonas urbana, suburbana e rural, e do consumo no tráfego das estradas de ferro e mesmo nas indústrias de todo os gêneros, o gasto de lenha augmenta proporcionalmente, resultando uma destruição systematica de alqueires de mattas, que ficam abandonados, depois da derribada, à esterilização, em prejuízo das gerações vindouras e com grande depreciação do solo; precisamos, pois, cuidar do replantio das árvores de córte. Assim, somos obrigados ao replantio de madeiras próprias para a lenha, pois já nos Estados Unidos e na Austrália ou eucalyptus constituem uma fonte importante para o fornecimento de lenha. São as espécies arbóreas de crescimento rápido o que mais nos convém” (Pág.70).

O  DEMANDA POR LENHA: “Quanto à producção de lenha é calculada da seguinte maneira, segundo o professor Alberto Sampaio, auctoridade no assumpto: ‘as mattas tropicaes virgens dão ou podem dar 177 metros cúbicos de madeira por hectare. Um alqueire paulista (24.200 metros quadrados) de matta nativa rende 650 etros cúbicos de lenha. Tomando-se por base de cálculo esta média por alqueire e o censo de 1920 da população brasileira temos que a razão é de 2 metros cúbicos por mez por dez pessoas; o consumo annual doméstico de lenha pela população do Brasil será de (...) 73.573.452 metros cúbicos de lenha por anno, quantidade que depende da derribada de 133.000 alqueires paulistas, ou sejam, 273.460 hectares.” (Pág 71)

O  FLORESTAS E O CONSUMO DE LENHA NO DF: “A indicação das áreas florestaes, de áreas industriaes que cada estado do Brasil deve manter junto dos centros consumidores para as necessidades da população brasileira, dá para o Districto Federal 370.519 hectares, calculado sobre 1.157.872 habitantes. Mas como a população é calculada actualmente em dois milhões de habitantes, a área de mattas deverá augmentar; mas, como, se as matas estão na razão inversa do augmento da população?” (Pág 71)

O  FLORESTA POR HABITANTE: “Cada estado deve manter a proporção de 0,32 de hectare por habitante para satisfazer ás necessidades da população, quanto aos productos florestaes. Em relação á lenha, sendo o consumo de dez pessoas, em média, de 2 metros cúbicos por mez, tem-se que a população brasileira, em 31 milhões de habitantes, gasta por anno 74.400.000 metros cúbicos de lenha...” (Pág. 72)

O  DESMATAMENTO NO RIO DE JANEIRO E EUCALIPTUS: “Nos morros da zona urbana e suburbana, predomina a ausência de vegetação; são morros pellados. Apesar de ter sido o morro dos Telegraphos transformado, em parte ultimamente, em floresta de Eucalýptus, o outro lado do mesmo está nu. O reflorestamento foi feito pela Inspetoria Agrícola Florestal, com mudas cedidas pelo Horto Florestal, em número de 36.000. O capeirão e a capoeira, antigas matas devastadas, predominam nos morros isolados da zona rural, quando não são pellados”. (Pág. 72-73)

O  FLORESTAS REMANESCENTES: “Capões de matto – Existem diversos, nas restingas de Itapeba e Jacarepaguá, principalmente nas margens da lagoa de Marapendy. As mattas halophilas ou manguaes na entrada da lagoa da Tijuca, Sepetiba, Guaratiba e Marambaya, no lado do Oceano e, no interior da bahia de Guanabara; os de Mngunhos e Irajá e, finalmente as mattas tropophilas ou dos alagados, predominando nos districtos de Jacarepaguá, Guaratiba e Sepetiba”. (Pág. 73)

O  REPLANTIO!!!: “... é preciso que o governo proíba esse abuso, pois, sem a systematização do corte e o replantio obrigatório, estaremos perdidos...”. (Pág. 73)

O  FORMAS DE EXPLORAÇÃO FLORESTAL: “As mattas cariocas para o corte são próprias ou arrendadas, por contrato ou meiação. A derribada é, geralmente, feita em mattas de pequeno talhe, capoeirões e capoeiras, mas muitas vezes lá se vão as madeiras de lei e já bastante edosas”. (Pág. 74)

O  LENHA DOS MANGUES: “Os machadeiros não só atacam as mattas dos morros e serras, como trabalham nos mangues e alagados. Calcula-se, em 1890, que 20% dos talhes de lenha em feixe, eram retirados dos mangues, em virtude de sua resistência a combustão, impregnados que são de saes”. (Pág. 74)

O  COMÉRCIO DE LENHA EM JACAREPAGUÁ: "Há três processos de comercialização de lenha em Jacarepaguá:

o    Lenha métrica: “... um metro cúbico de volume de lenha, que tem três dimensões, um metro de de altura, um de largura, tendo a lenha um metro de cumprimento, em forma roliça (estereo). Essa lenha, collocada á beira da estrada, é conduzida por auto-caminhões”

o    Feixe de lenha: “...composto de pedaços de lenha de um metro mais ou menos de comprimento, em achas irregulares (lascadas ou rachados no meio) sendo a talha dezesseis feixes de lenha. A conducção dessa lenha é feita, commumente, nas cangalhas dos burros e vendida a varejo”.

o    Lenha em tocos (pedaços de madeira de trinta centímetros mais ou menos): “a venda desse combustível é feita por milheiros e mesmo por centos e são transportados em cangalhas, em saccos, pelos burros de tropa”. (Pág. 74)

O  LENHA E CARVÃO - DESTRUIÇÃO: “As mattas do Districto Federal, compreendidas entre a Tijuca e Pedra Branca, soffrem estragos incalculáveis, não só para o commercio de lenha como do carvão. Nos arredores do Bico de Papagaio, nos locaes conhecidos por Cantagallo, Floresta, Moreira e Quitito, outr’ora Fazenda do Engenho da Serra, as mattas estão sendo destroçadas por gananciosos que obtiveram concessões dadas pela Inspetoria Agrícola Florestal, o que não justifica, por acarretar prejuízos enormes ao regimen das águas, a destruição systematica de nossa flora, estando em vésperas de desaparecerem florestas seculares, nessas redondezas. Quem passa pelas bellas estradas de rodagem da Tijuca, Guaratiba, Rio Grande e mesmo Candido Benicio, vê bellissimos capoeirões verdejantes e mesmo mattas, mas se por curiosidade vir o lado opposto dos morros e encostas, terá uma grande decepção: só morros pellados”. (Pág. 85)

O POUPAR AS MATAS: “As mattas, capoeirões e mesmo capoeiras, localizadas nas serras, montes e morros com declividade pronunciada, devem ser poupados, pois, após as derribadas, o solo só supportará uma cultura, porque, as chuvas tropicaes lavarão o solo e não penetrando nelle, em virtude de sua inclinação, produzirão grandes enxurradas, nos valles e terrenos planos; em tempo bom, o sol torrificante esterilizará a terra matando as bacterias nitrogenicas. Assim, precisamos ver e estudar como e onde se deve fazer o carvão, reflorestar as nossas serras e morros pellados”. (Pág. 86)

O  MANEJO: “A carbonização da lenha não causará damno as nossas reservas florestaes, se os proprietários de mattas souberem fazer o replantio methodico das mesmas”. (Pág. 86)

O  POTENCIAL ECONÔMICO – EXPORTAÇÃO: “Apesar de ridícula, a nossa exportação de carvão vegetal já começa a despertar interesse; em 1921 foi de 4.040 kilos, em 1922 e 1923, mil kilos cada ano”. (Pág. 86)

CRÍTICAS ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS E AUTORIDADES:


O FISCALIZAÇÃO: “A fiscalização da derribada das mattas é feita pelas Zeladorias, da Inspectoria Agricola Florestal. Pela estatística da Prefeitura vê-se que os impostos das derribadas de mattas foram em 1929 de 11:522$000 e mais a taxa de expediente sobre os alvarás de derrubada, 262$000. As Zeladorias forneceram guias para lenha em numero de 46.943, em 1928, e 13163, em 1929. Actualmente, a Inspetoria dá diariamente licença para a derribada das mattas, respeitando cincoenta metros das coroas dos morros, não podendo commerciar com o producto da derribada (14 de novembro de 1931), multando ao mesmo tempo um proprietario por ter derribado arvore em seu terreno; assim, são fiscalizadas as nossas mattas; lá não vão examinar o local, mas fazem questão do parágrapho do alvará... Foi por isso destroçada a Matta do Vital, com a cumplicidade da Inspetoria Agrícola, apezar dos protestos da Sociedade dos Amigos das Arvores. E vão os fazedores de desertos destruindo as nossas mattas, que, no dizer de Cícero: ‘Silvoe, subsidium belii, ornamentum pacis’, - Florestas, subsidio da guerra, ornamento da paz.” (Pág. 79)

Cícero: ‘Silvoe, subsidium belii, ornamentum pacis’, - Florestas, subsidio da guerra, ornamento da paz.”


O  “A licença para a fabricação do carvao vegetal é dada pela I.A. e F. por intermédio pela Zeladoria mediante um contracto, com as seguintes condições: roça, derribar, fazer carvão, plantar, cultivando o terreno desfloretado; mas não vão examinar o loacl de forma que é nulla a fiscalização; só fazem questão é do pagamento do alvará. Os terrenos aproveitados são de matta virgem, ou de capoeirão de oito ou nove annos de formação, pois anteriormente já foram derribados paa o carvão, assim declaram os carvoeiros, velhos moradores de Jacarepaguá”. (Pág. 87)

CAÇA E PESCA:


O  SEM CONTROLE: “Sem código rural, florestal e leis que regulamentam a caça e a pesca no Districto Federal, teremos, para breve, a terra carioca transformada em um deserto. Nas mattas da Tijuca, pertencentes á Inspetoria de Águas e Esgotos, caça-se a noite e dia, sm nenhuma providencia das autoridades competentes; da Barra da Tijuca á Sernambetiba, nas mattas do massiço da Pedra Branca e, principalmente, nos mananciaes, onde se refugiam os remanescentes da nossa fauna, a perseguição é atroz”. (Pág. 173)

OBS: O Codigo Florestal foi criado em janeiro de 1934. Provavelmente, por pressão de alguns, dentre eles, Magalhães Correa, Augusto de Lima e os membros da Sociedade dos Amigos das Arvores.

O  PIOR QUE CAMARÕES: “Costuma-se comparar o Brasil com a África, em sentido pejorativo, mas lá no Camerum a defesa da Natureza é um facto, ha leis que são verdadeiros ensinamentos e nós nada possuímos a respeito”. (Pág. 174)

O  NECESSIDADE DE LEI ESPECÍFICA: “Precisamos, pois, com urgência, a regulamentação de tudo o que diz respeito á nossa natureza inegualável:

a)       a caça deverá ser regulamentada, tendo por fim defender a nossa fauna;

b)       as licenças deverão ser dadas aos naturalistas officiaes e aos amadores somente validas por um anno;

c)       não deve ser permitida a caça nas mattas dos nossos mananciaes nem em nossas reservas biológicas e florestaes, para refugio e nidificação da nossa fauna;

d)       deverá ser prohibida a caça de animaes ou aves tidas como úteis, destruidoras dos insetos e reptis nocivos, como por exemplo o tamanduá, o tatu, os saneadores de nossas terras, o primeiro como perseguidor da formiga e o segundo, do cupim;

e)       deverá ser expressamente prohibido matar as fêmeas acompanhadas de seus filhos, assim como os animaes que ainda não tenham chegado a pleno desenvolvimento

f)        a caça só deverá ser permittida nos mezes de março a agosto, com severa penalidade aos infratores;

g)       deverão ser creadas reservas naturaes integraes, constituídas em domínios nacionaes intangíveis, de accordo com o ‘Office International pour la Protection de la Nature’, em suas legislações, pois o Brasil é um de seus signatários”. (Pág. 174)


O  CRIAÇÃO DE PARQUES COMO NOS CAMAROES: “Toda a caça ou pesca, todas aa explorações florestais, agrícolas ou mineiras, as escavações ou pesquisas, as sondagens, desmontes ou construcções, os trabalhos tendentes a modificar o aspecto do terreno ou da vegetação, todo acto de natureza a trazer pertubações á fauna, toda introdução de espécies zoológicas ou botânicas, quer sejam indigenas ou impotadas, selvagens ou não, serão estritamente interdictas sobre toda a extensão dos parques nacionaes assim constituídos. E será prohibido, sem autorização do administrador, penetrar, circular ou acampar nessas reservas, como introduzir armas de fogo, armadilhas e cães. Esses parques nacionaes creados no Camerum têm o fim de assegurar a conservação das espécies e vegetaes, as particularidades geológicas, mineralógicas, ou geographicas, conjunto que constitue o aspecto local do paiz, creados talvez para o interesse da sciencia e para evitar o desapparecimento das riquezas naturaes em detrimento dos interesses econômicos futuros”. (Pág. 174)

O  APELO POR PARQUES - MARAPENDI: “Assim, senhores do poder, creae as nossas reservas ou parques nacionaes, aproveitae as mattas dos nossos mananciaes, transformae a lagôa de Marapendy em reserva biológica da nossa fauna lacustre, como um viveiro permanente para a conservação das espécies, e assim teremos começado a verdadeira defesa da natureza”. (Pág. 175).

OBS: O Parque foi criado pelo Governo do Estado da Guanabara em 1964.


MAGALHÃES CORREA CITA GRANDES CONSERVACIONISTAS DA ÉPOCA:



O  FALTA DE UMA CULTURA DE AMOR A TERRA: “Alberto Torres diz no seu trabalho ‘As fontes da vida no Brasil’: ‘Os brasileiros são todos estrangeiros na sua própria terra, que não aprenderam a explorar sem destruir, e que têm devastado com um descuido de que as affirmações dos meus trabalhos dão ainda um pallido reflexo. Os que habitam as cidades fazem-se, por sua vez, ainda mais estrangeiros, exhibindo uma fictícia civilização de luxos mentaes e luxos materiaes, inteiramente alheios ao á vida nacional; e os que nos dirigem e nos governam, extranhos á realidade da nossa existência, agitam e mantém essa effervecência de interesses e paixões que formam toda a superfície da nossa vida pública, com o fervilhar de actos, e, principalmente, com a brilhante ebulição intellectual, que lhe é própria – oppostos, e até hostis aos sentimentos, aos interesses e aos direitos da Nação, e de que a attitude critica e condemnatoria, comum a quase todo os nossos intellectuaes, é o expressivo e deplorável modelo. Deste estado de desencontro, de ignorância e conflicto, entre a terra e os seus habitantes, entre as raças e o meio cósmico, e entre as raças, o meio e as instituições, os costumes e as idéias, resultam os traços que formam o relevo convulsionado da nossa estructura nacional”. (pág. 237)

O  UMA POLÍTICA AGRÍCOLA NA VISÃO DA ÉPOCA: Ao final de sua obra, Magalhães Correa cita o pensamento do professor Alberto José Sampaio, que em sessão da Sociedade Nacional de Agricultura apresentou um programa de política para os campos: “O lemma – rumo aos campos”. Pregou “leis brasileiras para os brasileiros, feitas mediante estudos nossos e á nossa feição...”. Os pontos programáticos, de forte teor ideológico de direita, apresentados por Sampaio e enfaticamente reforçados por Magalhães Correa, são:

1.       “Saneamento Rural

a.       Prophylaxia de Infecções e Infestações

b.       Prophylaxia da inanição e moléstias de Carencia

c.        Combate ao alcoolismo

d.       Eugenia

2.       Educação Rural: ensino obrigatório, de accordo com o meio

3.       Policia e Assistência Judiciária

4.       Povoamento, tendo por base o sertanejo e como condicionantes

a.       Açudagem e outras obras hydraulicas no Nordeste

b.       Pequenas industrias ruraes

c.        Grandes industrias

d.       Habitat disperso, habitat agglomerado e habitat mixto, conforme as zonas (Nota AxG: o autor deve se referir a moradias)

e.        Estradas de Rodagem

f.        Turismo, monumentos naturaes, architectura paizagista

g.        Reflorestamento, caça, pesca, reservas naturaes (florestas protectoras, manaciaes)

h.       Credito agricola

i.         Commercio rural especializado: bancos ruraes, cooperativas, feiras, transportes, etc

j.         Latifúndios e suas divisões em granjas ou pequenas propriedades

k.       Combate ao loteamento rural, sem observancia do typo próprio e que deve comportar parques, estradas arborizadas e todas as condições de hygiene e eugenia


Desenvolvimento adequado da agricultura, da pecuária e das industrias, sob moderno controle estatístico, preventivo de super-producção, para evitar as contingências de valorizações fictícias”. (Pág. 238-239)


Aqui estão apenas alguns aperitivos. A leitura de "O Sertão Carioca" é imprescindível.

Axel Grael



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Ecomuseu do Sertão Carioca reúne acervo e revive atividades culturais

Grupo de moradores de Japarepaguá e Vargem Grande mantém história da região.


Grupo de moradores de Japarepaguá e Vargem Grande mantém história da região


Lucas Altino

RIO — Em 1936, o ilustrador naturalista do Museu Nacional Magalhães Corrêa registrou o estilo de vida e o cotidiano da região no entorno da Pedra Branca, a qual batizou de Sertão Carioca, mesmo nome do livro que lançou naquele ano. Os mapas, fotos, textos e pinturas daquela publicação são a principal fonte de informações sobre a Zona Oeste da primeira metade do século passado. Hoje, um grupo de moradores de Jacarepaguá e Vargem Grande se apoia nessa referência histórica para valorizar a essência rural desses bairros, dividindo-se entre o resgate de expressões culturais tradicionais, pesquisa de acervo e luta pela preservação ambiental.

O Ecomuseu do Sertão Carioca nasceu em 2009, quando a historiadora e fotógrafa Rosa Bernardes começou a pesquisar registros antigos da região onde mora. O trabalho foi evoluindo vagarosamente e teve seu ápice em janeiro deste ano, quando o grupo organizou uma Folia de Reis em Vargem Grande, evento que não acontecia no local há pelo menos 20 anos.

— Foi superemocionante. Várias pessoas mais velhas choravam, porque era uma festa que eles não viam há muito tempo — explica Rosa, moradora de Vargem Grande. — O viés não era o religioso, mas sim o de resgate de cantos e músicas tradicionais e de demonstração de fé, qualquer que seja a crença da pessoa.


Mapa do livro de Magalhães Corrêa mostra a extensão da área - Reprodução



Se o primeiro ato do Ecomuseu foi o processo de documentação, indo atrás de fotos e relatos de moradores antigos, o passo seguinte foi a promoção de atividades junto à população, como oficinas e eventos culturais. Com isso, o estilo de vida de um sertão carioca não fica limitado ao imaginário.

— Nós valorizamos e prezamos a forma rural de viver. Preservar o que ainda há de característico dessa vida rural é a nossa missão. Não somos contra o progresso, até porque esse é o caminho natural. Mas também queremos dar voz à cultura tradicional da região — diz Rosa.

As atividades promovidas pelo coletivo ao longo dos anos demonstram a diversidade do seu escopo de trabalho. Em 2011, o grupo filmou uma entrevista com a rezadeira Dona Nata, uma das moradoras mais antigas do entorno da Pedra Branca, que morreu pouco depois. Em 2012, o Ecomuseu se aliou aos protestos contra a remoção de 1.533 árvores, consequência da duplicação da Estrada dos Bandeirantes. A partir de 2013, aprofundou-se na interação com as comunidades locais, fazendo um trabalho junto aos bate-bolas da região e registros da comunidade quilombola Cafundá Astrogilda.

Entretanto, o acervo do Ecomuseu ainda não tem um espaço físico. Atualmente, parte do material pode ser encontrada no blog ecomuseusertaocarioca.blogspot.com.br e na página do grupo no Facebook. Rosa diz que o grupo está buscando uma sede fixa, além de se inscrever em editais para custear a digitalização e o inventário descritivo de todo o material.


A Igreja de Sao Sebastião, em Vargem Grande, foi demolida - Acervo ecomuseu do sertão carioca

— Nós já tentamos três editais, mas não conseguimos a verba. E agora já tem um tempo que não sai edital novo. A cultura da Zona Oeste não é muito valorizada, infelizmente — lamenta a historiadora.

A falta de uma sede própria resulta na utilização de diversos espaços na região, cedidos por parceiros. A apropriação desses lugares, e a consequente aproximação com a comunidade, é uma das propostas de um ecomuseu, diz Guto Barros, também membro do coletivo. As parcerias vão aumentando a capilaridade do trabalho, frisa.

— Nós temos uma área de trabalho determinada, que é a do Sertão Carioca, e realizamos muitas abordagens, físicas, culturais ou imateriais. Depois de um tempo reunindo informações sobre a nossa história, a realização da Folia de Reis, com os parceiros, veio como uma possibilidade de potencializar o ecomuseu através de uma festa cultural para o povo — explica Barros.

A organização da festividade é o pontapé inicial para a promoção de outras atividades. Em julho, por exemplo, começa a programação vinculada à Folia de Reis de 2018. O Ecomuseu promoverá oficinas de arte, reciclagem e criação de museus comunitários, entre outras.

— A oficina de reciclagem vai ensinar a confeccionar placas educativas, a serem instaladas nas ruas. A ideia é espalhar mensagens informativas, com conteúdo de educação ambiental — afirma Barros, que trabalha com bioconstrução.

Iniciativas de outras organizações para valorizar expressões culturais também ganham mais visibilidade graças às parcerias. É o caso da Feira da Roça, realizada todo domingo no Largo de Vargem Grande, com agricultores quilombolas.


O time de futebol de Vargem Grande, cujo campo ficava no largo ao lado da igreja - Rogerio Appelt / Divulgação


O trabalho com o grupo Caipirando tem sido dos mais importantes para a turma do Ecomuseu. O grupo de viola caipira, formado por 30 músicos, toca na Folia de Reis. Um de seus membros, Henrique Bonna, conheceu o trabalho do Sertão Carioca no ano passado, e hoje também faz parte do coletivo.

— Nós já fazíamos um trabalho em Jacarepaguá e nos aliamos ao Ecomuseu para resgatar a Folia de Reis de Vargem Grande – diz Bonna, que defende a preservação da “ruralidade”. — A função do violeiro não é apenas tocar, mas preservar uma cultura. Quando faz a folia, você traz a sensação da vida rural independentemente de estar inserido no meio urbano.

A Folia de Reis é uma festa que simula o encontro da comitiva dos Três Reis Magos com o menino Jesus. Durante o evento, violeiros caminham tocando e cantando, entrando em casas pelo caminho e levando o cortejo até um destino final. Rosa explica que a intenção é resgatar folias esquecidas em outras comunidades da área chamada de Sertão Carioca.

— Queremos trazer de volta a folia do Morrinho da Alegria, na Estrada do Pontal, e da Comunidade do Cascatinha, em Vargem. Quem souber de uma folia esquecida no seu bairro pode nos procurar — diz Rosa. — A semente foi plantada em Vargem Grande, mas fazemos trabalhos em outros lugares. O sertão é enorme. Recentemente, fiz um ensaio fotográfico registrando pontos históricos no Pau da Fome e no Rio da Prata.

Os outros dois membros do Ecomuseu do Sertão Carioca são o antropólogo Bernardo Marques e a dançarina Itana Gomes, do grupo Brincante da Pedra Branca, que promove diversos eventos na região, como rodas de coco. Para Guto Barros, o trabalho está apenas começando:

— Poucas pessoas conhecem a história do Sertão Carioca. No meio urbano, nós vamos perdendo referências tradicionais, infelizmente. Aqui ainda é uma roça, e o simples pode ter requinte. O importante é mostrar que dentro de uma cidade caótica ainda dá para buscar qualidade de vida.

Fonte: O Globo



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