quarta-feira, 22 de março de 2017

Como doação de milionário permitiu ao Chile criar rede de parques do tamanho da Suíça



Rede de parques terá 4,5 milhões de hectares, área equivalente à Suíça (Foto: Ministério de Bens Nacionais do Chile)


Viúva de Douglas Tompkins cumpriu promessa do marido, que morreu em 2015, de transferir para o governo chileno as terras que adquiriu ao longo da vida para conservação.

Graças a uma doação, o Chile terá agora uma rede de parques nacionais do tamanho da Suíça. Kristine McDivitt, viúva do magnata norte-americano Douglas Tompkins, doou 407.625 hectares de terra ao governo chileno para a criação de uma área de conservação.

Cofundador da marca de roupas e artigos esportivos The North Face, Tompkins morreu em 2015, aos 72 anos, após um acidente de caiaque na Patagônia chilena.

A presidente do país, Michelle Bachelet, e McDivitt assinaram o acordo para transferência dos terrenos, que farão parte da futura Rede de Parques Nacionais da Patagônia. O governo chileno se comprometeu ainda a adicionar 949.000 hectares de terra para a criação da rede.

Parques nacionais

Os terrenos em questão - "a maior doação de terras privadas da história", segundo a família Tompkins - serão usados para abrigar três parques nacionais, Pumalin, Melimoyu e Patagônia, de acordo com um comunicado divulgado pela Presidência do Chile.

Além disso, três parques existentes serão ampliados: Hornopirén, Corcovado e Isla Magdalena.

Os seis parques fazem parte dos 17 que vão compor a Rede de Parques Nacionais da Patagônia, cuja criação oficial ainda está pendente. Até agora, só existe um protocolo de intenção.

As terras estão localizadas nas regiões de Los Lagos, Aysén, Magalhães e Antártica Chilena. Elas se estendem por mais de 2 mil quilômetros, de Puerto Montt até Cabo de Hornos, no extremo sul do Chile.

Segundo Bachelet, "a rede protegerá 4,5 milhões de hectares de biodiversidade", ou seja, uma área do tamanho da Suíça.

A magnitude da doação não é por acaso. Douglas Tompkins acreditava que a conservação, para ser eficaz, precisava ser "grande, selvagem, conectada".

A rede de parques planejada atende aos três requisitos.

"É um grande dia para o Chile! A visão dos Tompkins, somada à vontade e aportes do Estado, vão criar a Rede de Parques Nacional da Patagônia", disse Bachelet no Twitter.

A presidente acrescentou tratar-se do "maior projeto de parques terrestres desde a década de 1960" no Chile e um passo para preservar a "vasta fonte de biodiversidade do país."

"Hoje é um dia histórico para nós. Tenho certeza que Doug está lá com um sorriso", afirmou a viúva, apontando para cima.

McDivitt ofereceu as terras ao governo de Chile em janeiro de 2016, um mês após a morte de Tompkins. Desde então, os dois lados estavam em processo de negociação para chegar a um acordo sobre as condições da doação.

O acordo de transferência foi assinado no Parque Pumalin, na região de Los Lagos, no sul do Chile.

Quem foi Douglas Tompkins?

Douglas Tompkins fundou, em parceria com a mulher, a organização Tompkins Conservation (Foto: Tompkins Conservation)


Ao longo da vida, o ambientalista Doug Tompkins comprou grandes extensões de terra no sul do Chile e da Argentina para preservar.

"Se Doug estivesse aqui hoje, ele diria que os parques nacionais são uma das maiores expressões da democracia", afirmou McDivitt.

Gideon Long, jornalista da BBC em Santiago, disse que o acordo entre o governo do Chile e a família Tompkins "é um marco importante para a conservação da Patagônia" e "mostra como a relação entre ambos tem melhorado desde que o ambientalista desembarcou pela primeira vez no país, no início dos anos 90".

Naquela época, muitos chilenos viam os Tompkins com desconfiança e se perguntavam por que aqueles "gringos" ricos estavam comprando grandes extensões de terra no sul do país.

"Os chilenos temiam que os Tompkins acabassem sendo donos das terras da costa até a fronteira argentina e dividissem o país em dois", afirma Long.

O cofundador da The North Face era considerado por alguns como um "gringo" que chegou à América do Sul para tomar áreas de recursos naturais da Patagônia chilena e argentina.

O que para Tompkins era filantropia, alguns moradores chamavam de interferência.

Na Patagônia chilena, onde passou as últimas duas décadas da sua vida, Tompkins disse que estava "salvando o paraíso" e não explorando, como haviam feito muitos milionários antes dele.

Ele não conseguiu evitar, no entanto, que alguns o rotulassem de "o maior latifundiário" do Chile e da Argentina.

Com a doação, os Tompkins cumpriram a promessa feita repetidas vezes desde sua chegada: comprar as terras para que fossem preservadas e devolvê-las algum dia para uso público.


Fonte: G1









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