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terça-feira, 30 de junho de 2026

SB64, em Bonn: Mais um evento da agenda global do clima a acabar em frustração?



Retornei recentemente de mais uma agenda em Bonn, a bela e histórica "Cidade Federal" da Alemanha, localizada às margens do Rio Reno. 

Entre os dias 08 e 13 de junho de 2026, representei o ICLEI - Local Governments for Sustainability (organização que reúne mais de 2.500 cidades e regiões em todo o mundo), em três eventos importantes realizados em Bonn: 



Membros do GexCom do ICLEI (2025).

SB64 - DIÁLOGOS DE BONN

Bonn foi a capital da Alemanha no pós-guerra, de 1949 até 1999, quando a capital retornou para Berlin, após a reunificação alemã. Mas, a cidade manteve o status de "Capital Federal" e permaneceu relevante no cenário diplomático, sediando vários organismos internacionais, principalmente organizações da estrutura da ONU. Assim, Bonn tornou-se o ponto focal da diplomacia climática global, uma vez que sedia a Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - UNFCCC e, portanto, a cidade recebe muitas reuniões técnicas e diplomáticas relevantes para a agenda climática. 

64ª Sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), ou SB64, é uma reunião promovida regularmente (sempre no meio do ano) pelos chamados Órgãos Subsidiários, sendo eles: Subsidiary Body for Scientific and Technological Advice - SBSTA (Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico e Tecnológico) e o Subsidiary Body for Implementação - SBI (Órgão Subsidiário para a Implementação). Ambas estruturas subsidiam as atividades da Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas - UNFCCC, organização com sede em Bonn e que é responsável pela condução da agenda climática sob a responsabilidade da ONU.

Os chamados "Diálogos de Bonn" dão prosseguimento aos entendimentos das COPs anteriores e buscam estruturar temas para acordos e documentos a serem aprovados na COP seguinte. Oficialmente, os diálogos da SB64 tiveram dezenove tópicos para discussão, mas o objetivo principal foi dar continuidade e buscar acordos para os temas debatidos na COP30, de Belém (PA), sob a presidência brasileira, e estruturar documentos que façam parte da agenda da COP31. Representantes das cidades e a sociedade civil mantiveram entre as suas prioridades a cobrança por avanços dos temas relacionados ao financiamento, à adaptação climática, à transição energética e outros temas que têm sido sistematicamente bloqueados pelos lobbies que atuam nos bastidores diplomáticos da agenda do clima.

MAIS UM EVENTO DA AGENDA CLIMÁTICA OFICIAL QUE ACABA EM FRUSTRAÇÃO, MAS COM ALGUNS AVANÇOS 

A grande dificuldade de produzir acordos no âmbito da UNFCCC é a necessidade de alcançar consensos dentre todos os países signatários da convenção para que as decisões sejam formalizadas. É um enorme desafio construir consensos entre países com realidades tão desiguais (exemplo: grandes potências econômicas x pequenas nações insulares) e com interesses tão distintos (exemplo: países industrializados precocemente e com mais responsabilidade nas emissões históricas de Gases do Efeito Estufa e países em desenvolvimento). A necessidade de consenso também facilita o trabalho dos lobistas do petróleo e dos inimigos da descarbonização.

A SB64 concluiu os seus trabalhos no dia 18 de junho. Mais uma vez, observadores da sociedade civil, muitos representantes governamentais e especialistas acadêmicos manifestaram frustração e preocupação com os resultados alcançados na rodada de Bonn (SB64), que indicam tendências de impasses persistentes para próxima COP. 

Como estive em Bonn apenas na primeira semana e participei agendas também de outros eventos, utilizarei informações disponíveis em alguns sites especializados de reconhecida qualidade de informação e idoneidade, organizados principalmente por organizações da sociedade civil que acompanham de perto os debates. 

Dentre as principais críticas dos observadores sobre os resultados (ou falta de resultados) dos Diálogos de Bonn, são destaques:

Discurso x ação: Segundo o Climate Action Network International (CAN), os impasses que persistiram em Bonn comprovam a crescente lacuna existente entre a retórica de implementação e as entregas efetivas. Segundo a CAN, em vez de marcar a transição entre o compromisso com a implementação, o que se viu foi uma estratégia de negociação que valoriza a linguagem da implementação, mas sempre recua para argumentos procedimentais quando chegava-se à necessidade de tomada de decisão. Durante as duas semanas de discussões, governos afirmavam a importância da adaptação, transição justa, resiliência e o apoio às comunidades mais vulneráveis e que já sofrem os efeitos da crise climática. O tema de uma transição centrada nas pessoas (people-centred) se tornou o conceito dominante.

Quando o debate chegava às finanças a conversa sempre retrocedia para medidas de obstrução ou protelatórias, como pedidos de revisões, questionamentos sobre "tecnicidades", solicitações de termos de referência e debates procedimentais. Para o CAN, "o debate passou a ser não mais sobre a necessidade de ação, mas sobre quem tem o poder e os meios para viabilizar a implementação".

Financiamento: o primeiro grande impasse foi no tema sempre mais sensível: quem paga, quanto paga e como paga. Este é o principal entrave para que se avance nas medidas de mitigação e adaptação climática. As expectativas de triplicar o financiamento do financiamento foi bloqueado pelos países mais ricos já no primeiro dia. Os debates e a decisão foram mais uma vez empurrados para frente e devem ser retomado na COP31.

Adaptação: As negociações de adaptação em Bonn terminaram com um balanço preocupante, especialmente pela falta de acordo sobre a Meta Global de Adaptação (GGA, em inglês). O tema foi encerrado sob a Regra 16 (Rule 16), o que significa que as Partes não chegaram a um consenso e que a discussão será retomada apenas na COP31, em novembro, na Turquia. Na prática, isso adia decisões importantes para a implementação, principalmente em um ano de El Niño. Com as previsões de que o fenômeno se desenvolva com força entre o fim do próximo semestre e início de 2027, os impactos da crise climática podem ser acentuados e sentidos de forma desigual pelas populações vulnerabilizadas. (Política por Inteiro)

Transição justa: Neste tema tivemos avanços. Segundo o Política por Inteiro, "no Programa de Trabalho sobre a Transição Justa (JTWP, na sigla em inglês), o principal resultado foi menos relacionado ao conteúdo substantivo e mais à arquitetura institucional que definirá o futuro do processo. Os negociadores concordaram com os termos de referência para uma revisão formal do programa, que ocorrerá na Turquia, durante a COP31 e que servirá de base para sua decisão quanto à continuidade. A revisão avaliará a efetividade do programa desde sua criação, a utilidade de seus produtos para Partes e atores não estatais, a qualidade de seus formatos de trabalho e possíveis melhorias para aumentar sua relevância e impacto".

Mapa do Caminho para longe dos Fósseis: O Mapa do Caminho da Presidência brasileira da COP30 para o Abandono Gradual dos Combustíveis Fósseis (“TAFF Roadmap”, como é conhecido em inglês) consolidou-se como uma das principais iniciativas políticas para operacionalizar o chamado do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris (Global Stocktake) para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Segundo a Presidência, o ambiente político em Bonn foi significativamente mais favorável do que em Belém, refletindo uma crescente percepção de que o TAFF Roadmap funcionará como uma ferramenta de implementação, e não como uma tentativa de reabrir negociações já concluídas.

O processo já recebeu mais de 100 contribuições de governos, demonstrando, segundo a Presidência da COP30, um interesse crescente em moldar o conteúdo do roteiro e manter o debate sobre sua implementação vivo. Apesar desse avanço, permanecem desafios políticos importantes. O apoio ao TAFF Roadmap é claramente desigual entre os grupos negociadores. Enquanto alguns países desenvolvidos e membros do Environmental Integrity Group1 (Grupo de Integridade Ambiental) demonstraram apoio explícito, grupos como o African Group of Negotiators (Grupo Africano de Negociadores), o Grupo Árabe e os Like-Minded Developing Countries2 (Países em Desenvolvimento de Pensamento Similar) ainda não sinalizaram alinhamento claro. Em proposições paralelas, representantes africanos buscaram inclusive reforçar a dimensão de equidade do debate por meio da ideia de um “Equitable TAFF Roadmap”, indicando que questões de diferenciação e justiça distributiva continuarão centrais para ampliar o apoio político ao processo (Política por Inteiro).

CONJUNTURA GLOBAL

A conjuntura atual é de grande instabilidade e pouco favorável ao avanço das negociações internacionais da agenda climática. Diante das tensões geopolíticas, causadas principalmente pela posição do governo dos EUA, acontecem retrocessos no multilateralismo, com consequências para o enfraquecimento da ONU e suas organizações. 

Além disso, cabe destaque aos seguintes aspectos:

Guerra do Irã: Em fevereiro de 2026, EUA e Israel deram início a um ataque contra o Irã, sob o pretexto de destruir um pretenso arsenal nuclear daquele país. Diante da agressão, o Irã fechou o Estreito de Ormuz e atacou instalações militares dor EUA nos países vizinhos. A crise causada pela guerra e pela impossibilidade de escoamento do petróleo e seus derivados a partir do Estreito de Ormuz, causou uma crise de abastecimento energético global e alta do preço do petróleo. A guerra aumenta o debate e a pressão pela descarbonização da economia e por uma transição energética global que nos afaste da dependência do petróleo ("phase out" do petróleo). 

Também cabe aqui fazer alguns alertas. Uma análise feita pelo Climate and Community Institute e divulgada pelo The Guardian, apontou que somente os primeiros 14 dias da Guerra contra o Irã produziu uma emissão de 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (tCO2e). Relatório da ONU denunciou que os gastos militares bateram um novo recorde mundial no ano passado chegando a US$ 2,7 trilhões. Mais de 100 países, de todas as regiões do planeta, aumentaram os orçamentos de defesa levando a corrida armamentista a um patamar jamais visto. Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, "gastos militares excessivos não garantem a paz" e podem, inclusive, prejudicá-la, “alimentando corridas armamentistas, aprofundando desconfianças e desviando recursos das verdadeiras bases da estabilidade”. Segundo o relatório, apenas 4% desse gasto já seria suficiente para acabar com a fome no mundo e 10% acabariam com a pobreza extrema. (Saiba mais aqui). Também é fato que o aumento dos gastos militares desviam recursos que antes tinham prioridade para a agenda climática e outros temas ambientais.

Ondas de Calor na Europa causa mortes: Logo após a SB64, de 20 a 28 de junho, aconteceu a Semana de Ação Climática de Londres (London Action Climate Week 2026), quando cerca de 75 mil pessoas, dentre elas muitas das principais lideranças climáticas, dentre gestores públicos, representantes da sociedade civil, empresários, reuniram-se novamente para debater a transição para o "Net Zero" e indicar caminhos para as negociações na COP31. 

Fonte: Earth.org

Os dois eventos ocorreram quando vimos a Europa enfrentar mais uma grave onda de calor, que segundo a Organização Mundial da Saúde - OMS, já causou mais de 1.300 mortes - sendo mais de 1.000 só na França, somente na semana do dia 21 de junho, com causas "associadas às altas temperaturas na Europa". A atual onda de calor já é considerada a mais intensa na história da Europa e seria a consequência do que os meteorologistas chamam de Bloqueio Ômega, um padrão atmosférico  que mantém a massa de ar quente estagnada sobre uma mesma região, impedindo a chegada das frentes frias. Nos últimos dias, o nível de calor bateu recordes em várias partes da Europa (fonte: G1):
  • Na França, os termômetros ultrapassaram os 40°C em diferentes regiões ao longo da semana. 
  • Na Alemanha, a temperatura chegou a 41,5°C no sábado, a maior já medida no país. O serviço meteorológico alemão ainda alertou que os termômetros poderiam se aproximar dos 42°C. 
  • Na República Tcheca, a temperatura chegou a 40,8°C ao norte de Praga, com previsão de ultrapassar os 41°C neste domingo. 
  • Em Basileia, na Suíça, os termômetros marcaram 39°C, estabelecendo pelo terceiro dia seguido um novo recorde para o mês de junho. 
  • Já a Dinamarca registrou 37°C, a maior temperatura desde o início das medições no país.
Fonte: Earth.org, com dados do World Weather Attribution (WWA).

Alguns relatos afirmam que foram registrados quase 59°C no pavimento das ruas. Devido ao calor, escolas fecharam, transporte ferroviário foi paralisado por medo de dilatação dos trilhos. 

A OMS afirmou que cerca de 150 milhões de pessoas vivem atualmente sob condições de calor extremo, que já pressionam os sistemas de saúde, afetam a infraestrutura e sobrecarregam as redes elétricas em diferentes países. Cerca de 489 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência de problemas de saúde associados ao calor extremo. Desse total, 45% das mortes ocorrem no Sudeste Asiático e 36% na Europa, evidenciando que o calor já é uma das ameaças climáticas mais letais do mundo (fonte: OMS, in Política por Inteiro). Eventos da Semana do Clima de Londres chegaram a ser cancelados devido ao excesso de calor!

Uma Copa sob a marca das Mudanças Climáticas: A Copa do Mundo de Futebol em curso, que se realiza no México, EUA e Canadá, já é considerada a mais quente da história. Portanto, foram estabelecidas regras relacionadas às previsões de ondas de calor e a possibilidade de como tempestades, granizo e outros eventos climáticos extremos que seriam potencializados pela ocorrência do Super El Niño. Diante disso, foram estabelecidas novas regras como a Pausa para Hidratação dos atletas em cada tempo do jogo e, para jogos nos EUA, haverá a suspenção dos jogos a qualquer momento, sempre que houver ocorrência de raios a uma determinada distância dos estádios. Interessante a regra estabelecida justamente no país com o governo mais negacionista climático do planeta.

Negacionismo climático do Governo Trump: A CEO da COP30, Ana Toni, comentou em entrevista à GloboNews que os EUA acabam de lançar um plano de resiliência climática, que curiosamente não se refere uma vez sequer à emergência climática. Portanto, mantendo a atitude negacionista mesmo diante de todos os alertas da Ciência, como nos documentos emitidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, o relatório do governo Trump tenta convencer da normalidade dos fenômenos climáticos observados em todo o mundo.

O QUE TEREMOS PELA FRENTE?

Duplo comando na COP31: A COP31 tem um grave complicador que vem atrapalhando o avanço dos debates além do normal: a conferência será liderada pela Turquia, que sediará o evento (Antalya), e a Austrália que terá a presidência da conferência, comandando as negociações. O duplo comando foi o resultado da falta de entendimento entre os países membros da UNFCCC e, obviamente, será um desafio a mais para a próxima COP. 

Novas formas para buscas de consenso: O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em entrevista para a Sumaúma, usou duas frases importantes: “Nós somos muito mais livres para implementar do que para negociar” e "A negociação exige consenso, a implementação, não”. 

Não é possível que o mundo fique refém da ação dos lobbies, de interesses mesquinhos e da busca obrigatória de consensos. É preciso reunir e trabalhar com os "convertidos" e agentes desejosos de ver as ações implementadas imediatamente, formando coalisões de forças com compromissos com a segurança climática global. 

Com base nesse sentimento, há um movimento para o fortalecimento de fóruns de discussão alternativos ou complementares aos espaços formais da UNFCCC, onde pode-se avançar sem estar atrelado às regras de obrigatoriedade de consenso. Entre 24 e 29 de abril de 2026, realizou-se a I Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, na Colômbia (Conferência de Santa Marta), um encontro voluntário e paralelo à agenda oficial da ONU, realizada pela primeira vez, com o objetivo de avançar na transição para longe do petróleo, do carvão e do gás. A realização do encontro foi decidida durante a COP30, quando houve lamentavelmente um bem-sucedido movimento lobista contra qualquer decisão ou até menção nos documentos finais sobre o tema da descarbonização.

O nível de apoio da Conferência de Santa Marta, realizada com o apoio do governo da Colômbia e da Holanda, surpreendeu com a presença de 57 países (1/3 da economia mundial). Um encontro preparatório reuniu cerca de 400 especialistas acadêmicos para gerar argumentação para o resultado do encontro. Também foi dada especial atenção à participação de povos indígenas e representações da sociedade civil. (Saiba mais em Carbon Brief).

O fórum de Santa Bárbara é um exemplo do que se está chamando de 'Multilateralismo Climático de Dois Níveis", uma ideia que permaneceu como legado da COP30. Significa que, diante das dificuldades nas instâncias formais de se construir acordos multilaterais, propõe-se o caminho que de "um lado, permanece o eixo formal das negociações da UNFCCC, responsável por garantir legitimidade, universalidade e direção normativa. De outro, ganha força um eixo voltado à implementação, baseado na mobilização de governos, instituições financeiras, sociedade civil, setor privado, especialistas e atores subnacionais capazes de acelerar a execução das metas climáticas", como explica a Plataforma Cipó.

Foco estratégico no metano: O metano é 80 vezes mais potente do que o CO2 e permanece na atmosfera por apenas 10 ou 15 anos, ou seja, bem menos do que o CO2. Como declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, "Cortar o metano é o freio mais rápido que podemos ter para o aquecimento do planeta". Por isso, há uma mobilização para a priorização às ações de mitigação das emissões de metano, que pode ter grande efetividade e onde não há um lobby contrário tão poderoso como no caso do petróleo. Ou seja, avançamos no metano, enquanto enfrentamos as resistências contra o phase out do petróleo.

Cidades ganharão relevância: Em março de 2027, o IPCC lançará o novo relatório, dessa vez tendo como o tema "Cidades e Clima" (Special Report on Climate and Cities). O foco estará nos impactos urbanos e nos esforços de adaptação climática em curso nas cidades. Espera-se que o relatório fortaleça o reconhecimento da importância das ações locais e a necessidade de avanços nas políticas climáticas multinível.

Axel Grael
Doutorando PPGAU/UFF
Membro do GexCom/ICLEI


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Texto produzido com observações e conclusões pessoais, bem como com informações de:


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sábado, 30 de maio de 2026

RETROCESSO: Empresas não são mais obrigadas a fazer relatório de sustentabilidade

 

Foto Agência Nacional de Mineração

Mais um retrocesso no arcabouço da legislação ambiental brasileira que foi construído ao longo das últimas décadas. 

A Comissão de Valores Mobiliários - CVM, uma autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, que tem o objetivo de fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores, anunciou na noite de ontem (29 de maio), a aprovação de uma alteração da Resolução 193/2023, revogando a obrigação das empresas de capital aberto a publicarem e divulgarem os seus Relatórios de Sustentabilidade. Com o documento, as empresas tinham a obrigatoriedade de reportar as informações financeiras relacionadas à ação de sustentabilidade praticadas pela companhia. 

A Resolução 193/2023 (com as suas alterações posteriores) estabelecia que:
ART.2° Fica estabelecida, para as companhias abertas, a obrigatoriedade de elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base nas normas emitidas pelo CBPS, e aprovadas pela CVM, a partir dos exercícios sociais iniciados em, ou após, 1º de janeiro de 2026.
De acordo com a Resolução CVM 193, as empresas precisavam elaborar relatórios estruturados de acordo com as normas internacionais do ISSB (International Sustainability Standards Board), conhecidas como IFRS S1 e S2. Os relatórios seguiam a mesma periodicidade estabelecida para as respectivas demonstrações financeiras.

A aprovação da exigência pela CVM foi considerada uma inovação mesmo no âmbito internacional e tinha por finalidade enfrentar o chamado "greenwashing", maquiagem ambiental, ou o marketing enganoso de um pretenso compromisso socioambiental e ecológico corporativo, sem comprovação ou respaldo nas práticas efetivas das empresas. Com a nova Resolução CVM 244, que "reforma a CVM 193", as empresas não têm mais a obrigatoriedade de apresentar esse compromisso.

A CVM ofereceu as seguintes explicações na sua página no GOV.BR:
As alterações visam a aperfeiçoar o modelo de adoção voluntária, preservando a transparência e a comparabilidade trazidas pela necessidade de observância dos padrões contábeis, mas resgatando o necessário respeito à liberdade das entidades para estimar os custos e benefícios esperados de suas decisões sobre como usar os recursos dos investidores. 

A principal mudança é a remoção da obrigatoriedade que a versão original da norma impusera às companhias abertas, após período de adoção voluntária. Com isso, o regime aproxima-se daquele que a própria redação anterior já previa para fundos de investimento e sociedades securitizadoras, pois para tais entidades não havia previsão de adoção forçada do reporte de informações de sustentabilidade nos padrões contábeis. 

O padrão contábil internacional é mantido: as companhias que optarem por publicar informações financeiras de sustentabilidade só poderão fazê-lo se observarem as normas do CBPS e ISSB, com isso preservando a confiabilidade e aumentando a comparabilidade dessas publicações. Por outro lado, as companhias que entenderem que essa adoção não é adequada para seus negócios não terão tal obrigação, devendo apenas publicar sua opção por meio de comunicado ao mercado, em modelo de "pratique ou explique".
"Pratique ou explique"? Fui procurar saber o que era isso e, segundo o IA do Google, significa: 
O "Pratique ou Explique" é um mecanismo de autorregulação (muito utilizado pela B3 e pela CVM) onde empresas listadas na bolsa devem adotar boas práticas de governança e sustentabilidade, ou explicar publicamente o motivo de não o fazerem.
LOBBY OU TIRO NO PÉ?

Segundo o portal RESET, a CVM cedeu às pressões da Associação Brasileira das Companhias Abertas - ABRASCA, que no final de 2025, às vésperas de entrada em vigor (2026) da obrigação de contabilização os dados para divulgação em 2027, protocolou um documento pedindo a derrubada das regras ou o seu adiamento por três anos. A CVM surpreendeu o mercado, recuou na obrigação e sequer estabeleceu um prazo para retomar a obrigatoriedade.

A ABRASCA argumentou que o cumprimento da norma, ou seja, a preparação do relatório, "poderia chegar a representar 70% dos gastos de auditoria".

ORA, SE AS EMPRESAS NÃO QUEREM TER GASTOS COM UM RELATÓRIO, QUAL DEVE SER O NÍVEL DE COMPROMISSO E MOTIVAÇÃO DAS MESMAS NO CUMPRIMENTO DAS SUAS RESPONSABILIDADES AMBIENTAIS E CLIMÁTICAS? 

QUAL A COMPARAÇÃO ENTRE OS GASTOS QUE PRATICAM COM "PUBLICIDADE VERDE" E RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E O QUE EFETIVAMENTE INVESTEM EM SUSTENTABILIDADE?

Obviamente, as despesas que as empresas da ABRASCA estão reclamando não são as referentes a preparação do relatório em si, mas a obrigação de fazer as suas obrigações ambientais estabelecidas na legislação ou no licenciamento ambiental, ou ainda aquelas ações de responsabilidade socioambiental que os seus acionistas, o mercado e a sua clientela exigem.

O RESET também informou que durante os debates houve reação de outros setores como o Instituto de Auditoria Independente do Brasil (IBRACON), do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) a AMEC, APIMEC e a FIPECAFI. Alertaram que seria um "retrocesso relevante para a eficiência do mercado". O grupo de organizações alertou que tornar as normas opcionais abriria brechas estruturais para o "greenwashing involuntário ou estratégico" sem capacidade de influenciar de modo disciplinador o comportamento corporativo e o custo do capital.

Em fevereiro de 2026, a CVM havia rejeitado o pleito da ABRASCA alegando que seria injusto com empresas que já testavam o modelo, como Vale, Renner, C&A e Natura. Importante lembrar que a CVM ganhou um prêmio internacional por ser o primeiro regulador do mundo a adotar as exigências do ISSB.

Lembro-me que quando presidi (1999-2001 e 2007-2008) a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA (órgão ambiental licenciador pioneiro no país e que foi incorporado ao INEA), assinei um Termo de Ajuste de Conduta - TAC com uma empresa de capital aberto que tinha sérias pendências ambientais e recebi a visita de um estrangeiro que representava um grupo de acionistas. Estava preocupado com a performance ambiental da referida empresa. Sim, os acionistas também cobram das empresas, pois isso pode representar a qualidade da gestão ou o risco do investimento.

INTERFERÊNCIA POLÍTICA: MAIS UMA BOIADA

Mais uma vez, é o mesmo grupo da "terra arrasada" no Congresso que atua criminosamente para "passar outra boiada". A mudança de posição da CVM parece ter nome.

A mudança de direção da CVM coincide com a mudança de gestão na autarquia. Como informou o site G1, no dia 20 de maio, o Senado aprovou o nome do advogado Otto Lobo (Comissão de Assuntos Econômicos CAE, após muita polêmica, aprovou 31 votos favoráveis a 13 contrários. Posteriormente, o Plenário do Senado aprovou por 19 a 4) para assumir o cargo de novo presidente da CVM. A nomeação foi alvo de críticas devido a votos dados por Lobo em decisões envolvendo a Ambipar e o Banco Master, quando era diretor e presidente interino da autarquia, em 2025. Um dos beneficiados foi o investidor Nelson Tanure. O Tribunal de Contas da União questiona as decisões de Lobo.

Otto Lobo terá um mandato-tampão até julho de 2027, concluindo a gestão do ex-dirigente João Pedro Nas, que deixou o cargo em julho do ano passado. A indicação de Lobo foi encaminhada pelo governo e contrariou o então ministro da Fazenda Fernando Haddad e o atual ministro Dario Durigan e foi mal recebido também no mercado financeiro. Apesar da indicação do presidente Lula, o nome de Lobo teria sido apadrinhado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que pressionou o governo pela sua indicação. Alcolumbre nega a responsabilidade.

SUSTENTABILIDADE NAS EMPRESAS: ESG

A sustentabilidade no ambiente corporativo é uma realidade consolidada nas melhores empresas, com exemplos expressivos de boas práticas socioambientais e existem profissionais altamente qualificados trabalhando nos setores de ESG (Environment, Social and Governance). Como dirigente de órgãos ambientais, sempre tive nesses profissionais importantes aliados para o cumprimento da legislação e das licenças ambientais. Sempre acreditamos ser muito estratégico fortalecer o papel destes profissionais na governança das empresas, pois são eles que mais conhecem os desafios de sustentabilidade dessas instituições. 

Nem sempre estes profissionais são devidamente valorizados. A cobrança dos órgãos ambientais e normas como as que exigem os Relatórios de Sustentabilidade fortalecem a importância do setor de ESG na empresa, tirando-a de uma importância apenas periférica. 

A QUEM INTERESSA...?

A quem interessa o retrocesso promovido pela decisão nefasta da CVM? Interessa a aquelas empresas mais atrasadas e reativas, que não estão alinhadas com a tendência mundial de responsabilidade corporativa. Interessa a certas empresas como as que encontramos pelas COPs do clima, promovendo seus pretensos resultados ambientais, enquanto sabotam os avanços da agenda climática.

Importante lembrar que a atitude extemporânea e retrógrada acontece no momento em que se consolida o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, que tem tido reações de segmentos da economia europeia usando como um dos mais fortes argumentos o afrouxamento da legislação ambiental no Brasil e países do Mercosul, o que causaria um "dumping ambiental", ou seja, concorrência desleal pois o custo ambiental do produto brasileiro seria distorcido de forma desleal com a concorrência europeia.

CHEGA DE RETROCESSOS

Em outubro, tem eleição e é a chance de depurar a representação política no Congresso Nacional. É preciso mudar a correlação de forças que temos atualmente no Congresso e evitar a influência nefasta de grupos políticos que atual criminosamente contra a política ambiental, para garantir a continuidade dos avanços e não o triunfo do atraso. A sustentabilidade só será alcançada com a participação da sociedade como um todo e as empresas têm um papel decisivo no processo.

Axel Grael
Pré-candidato a Deputado Federal (PDT-RJ)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Presidente da FEEMA (1999-2001 e 2007-2008)




segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guerra pode custar mais de US$ 1 tri ao mundo, mas petrolíferas terão lucros “obscenos”


Enquanto seis petrolíferas ganham US$ 3.000 por segundo, o impacto dos preços do petróleo e do gás chega a US$ 600 bilhões, calcula a 350.org.

Enquanto seis grandes petrolíferas do mundo lucram US$ 3.000 por segundo, como mostrou a Oxfam International, todos os países sofrem com a escalada dos preços dos combustíveis fósseis e as restrições de oferta decorrentes da guerra no Oriente Médio. Com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a 350.org calculou o valor desse impacto. São cifras que impressionam e reforçam a urgência da transição energética – não só pelo clima, mas também pela economia das nações.

A crise do petróleo e do gás gerada pelos ataques dos EUA e de Israel ao Irã imporá custos adicionais à economia global que poderão superar US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões), de acordo com a 350.org. Mesmo que o Estreito de Ormuz volte rapidamente à normalidade, o impacto dos altos preços do petróleo e do gás fóssil chegará a cerca de US$ 600 bilhões (R$ 3 trilhões).

Entretanto, é provável que essa seja uma estimativa conservadora, destaca o Guardian. A análise não inclui os efeitos indiretos substanciais da inflação, particularmente o aumento dos custos de fertilizantes e alimentos, a menor atividade econômica e o aumento do desemprego.

Mas se a grande maioria paga a conta do conflito – que é ainda maior para as populações dos países mais pobres -, há quem esteja ganhando e muito com o choque do petróleo. O grande causador da guerra, os EUA, bateram recorde de exportações de óleo cru e de gás liquefeito (GNL). E as grandes petrolíferas, mesmo impactadas por restrições às suas operações no Oriente Médio, estão rindo de uma orelha à outra com tanto dinheiro entrando em suas caixas.

Somente as estadunidenses Chevron, ConocoPhillips e Exxon, a britânica BP, a anglo-holandesa Shell e a francesa TotalEnergies lucrarão US$ 2.967 por segundo em 2026 devido à guerra, segundo a Oxfam. A BP, inclusive, foi alvo de críticas após revelar que seus lucros mais do que dobraram nos primeiros três meses do ano graças à disparada do preço do petróleo causada pela guerra, segundo o The Independent. A empresa teve lucro de US$ 3,2 bilhões (R$ 16 bilhões) no primeiro trimestre, ante US$ 1,38 bilhão (R$ 7 bilhões) no mesmo período de 2025 e US$ 1,54 bilhão (R$ 7,8 bilhões) nos três últimos meses do ano passado.

“Nos próximos dias, as grandes petrolíferas divulgarão lucros astronômicos do primeiro trimestre, obtidos em grande parte às custas de uma guerra que já matou milhares e empobreceu milhões. Mesmo que o Estreito de Ormuz seja reaberto amanhã, uma quantia obscena de dinheiro continuará a fluir para os cofres do petróleo às custas das pessoas comuns que já lutam para pagar combustível, eletricidade e comida”, diz Anne Jellema, diretora executiva da 350.org.

A organização defende a implementação urgente de um imposto sobre lucros extraordinários das petrolíferas, que poderia arrecadar recursos para a proteção social e para investimentos em energias renováveis, mais baratas, limpas e confiáveis do que as alternativas fósseis. Apelos reiterados na 1ª conferência sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis, em Santa Marta, na Colômbia, onde ativistas indígenas e da sociedade civil marcharam pelas ruas da cidade com faixas que diziam “Chega de petróleo”, “Amazônia Livre de Petróleo” e “Outro caminho é possível”, informa a Folha.

Em tempo: Mais dinheiro para as petrolíferas, mais pobreza para as populações. O barril do Brent atingiu ontem (29/4) seu maior valor desde o início da guerra no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, informa o Valor. O Brent, com entrega em junho, encerrou o dia em alta de 6,08%, cotado em US$ 118,03 por barril. Já o WTI, dos EUA, com entrega para o mesmo mês, subiu 6,95%, para US$ 106,88 por barril.

Fonte: ClimaInfo



domingo, 5 de abril de 2026

GRAVE: No apagar das luzes, Cláudio Castro revoga plano de manejo de cinco áreas protegidas prejudicando nove municípios

Fonte: O Globo.

O ex-governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL-RJ), renunciou ao seu cargo no dia 23 de março de 2026, às vésperas do julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral que cassaria o seu mandato por crime eleitoral. De fato, a decisão do colegiado do TSE o condenou, tornando-o inelegível por oito anos.

Dias antes da sua renúncia, uma surpresa: o Diário Oficial do Estado de 20 de março publicou o Decreto 50.236, de 19 de março de 2026, com a revogação dos planos de manejo das seguintes Áreas de Proteção Ambiental (APAs) estaduais: 

Importante ressaltar que o Art 1°, do Decreto 50.236, estabelece a revogação dos planos de manejo, mas no seu Parágrafo Único faz a seguinte ressalva: 

"Parágrafo Único - a eficácia deste decreto fica condicionada à aprovação prévia dos novos planos de manejo das unidades de conservação citadas no caput deste artigo cuja metodologia está regulada na Resolução INEA 180, de 10 de junho de 2019, que aprovou os procedimentos para a elaboração e revisão dos planos de manejo das unidades de conservação estaduais".

Relevância das APAs

Presidi a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA por duas vezes (1999 e 2000 e 2007 e 2008), órgão que foi posteriormente incorporado ao atual Instituto Estadual do Ambiente - INEA. A FEEMA tinha como uma das suas atribuições, implantar e gerenciar as Áreas de Proteção Ambiental estaduais, que atualmente são 13 unidades, administradas pelo INEA. 

Durante a segunda gestão à frente da FEEMA, redigimos o texto do Decreto Estadual 41.048/2007, que instituiu o Plano de Manejo da APA Maricá, preparamos também o Plano de Manejo da APA da Serra de Sapiatiba e trabalhamos no planejamento, na regulamentação e execução das demais.

Muitas destas áreas surgiram na década de 1980, quando houve um boom de criação de APAs, seja, por iniciativa do governo federal (exemplo: APA de Guapimirim - 1984), do estado do RJ, assim como de outros estados, além de muitos municípios. Isso foi motivado pela necessidade de proteção dos atributos naturais (ecossistemas, paisagem, culturas, usos tradicionais etc.), conciliando com as pressões urbanas e a cobiça imobiliária. 

É fato que, muitas vezes, a escolha da categoria de unidade de conservação (APA) se deu de forma inadequada e, talvez, outras categorias se aplicassem melhor, principalmente quando o objetivo era proteger áreas com características mais naturais (florestas etc). A opção pela APA poderia parecer atraente para o gestor público ou legislador por não exigir a desapropriação - fato comum nas unidades de proteção integral (parques etc.), mas a falta de solução da situação fundiária é a causa de muitos conflitos na gestão das APAs. Em alguns casos, as APAs tornaram-se áreas de transição (ou amortecimento) para os parques e outras áreas de proteção integral, com a recategorização das Zonas de Preservação da Vida Silvestre - ZPVS para parques ou outras categorias.

Cada APA foi criada com objetivos específicos diante de ameaças diversas, mas talvez a APA Tamoios seja a mais emblemática. Foi criada pelo governo estadual, em 1986 (Decreto - 9.452 - 05/12/1986), com o objetivo de "assegurar a proteção do ambiente natural, das paisagens de grande beleza cênica e dos sistemas geo-hidrológicos da região, que abrigam espécies biológicas raras e ameaçadas de extinção, bem como comunidades caiçaras integradas naqueles ecossistemas". 

Junto com a APA Cairuçu (de iniciativa federal), o Parque Nacional da Serra da Bocaina, o Parque Estadual da Ilha Grande e Reserva Biológica da Praia do Sul, assim como outras unidades de conservação criadas posteriormente, como os Parque Estadual Cunhambebe, garantiram ao longo das últimas décadas a Costa Verde com as características atuais de conservação. A Costa Verde ainda faz jus ao nome e seu patrimônio natural, com florestas, praias e paisagens, ainda são o principal ativo econômico da região, atraindo o turismo, a atividade náutica etc.

Na região litorânea e das ilhas, principalmente graças às APAs Tamoios e Cairuçu, foi possivel frear minimamente a especulação imobiliária e o crescimento desordenado da Costa Verde. 

Outro caso que causa profunda estranheza é o da APA de Maricá. Criada em 1984 (dois anos antes da Tamoios), teve como objetivo proteger uma área de importante ecossistema de praia e restinga. A APA de Maricá tem uma particularidade: abrange praticamente uma única propriedade, onde há um projeto de implantação de um polêmico resort chamado Maraey. A queda do plano de manejo justamente no momento em que o empreendimento alterará o estado atual da região causa muita preocupação.

Claro que não vencemos todas as batalhas nem deixamos de ter que administrar muitos conflitos, mas sem as APAs teria sido impossível. O mesmo aconteceu nas demais APAs, que ao cumprir o seu papel, contrariaram interesses e produziram desafetos.

As APAs são perfeitas? Não, precisam ser aperfeiçoadas sempre que necessário e, para isso, existem os seus Conselhos Gestores para mediar conflitos e melhorar o instrumento. 

Qual motivo levaria o ex-governador a tomar essa medida no apagar das luzes atropelando os conselhos gestores das APAs, que foram pegos de surpresa? 

O que diz a legislação sobre as APAs

As Áreas de proteção ambiental foram previstas inicialmente pela Lei 6902/1981, por proposição do secretário Paulo Nogueira Netto, da Secretaria Especial do Meio Ambiente, que era vinculada ao Ministério do Interior. A sanção da lei foi assinada pelo presidente João Figueiredo e pelo ministro Mário Andreazza e estabeleceu:

Art . 9º - Em cada Área de Proteção Ambiental, dentro dos princípios constitucionais que regem o exercício do direito de propriedade, o Poder Executivo estabelecerá normas, limitando ou proibindo:

a) a implantação e o funcionamento de indústrias potencialmente poluidoras, capazes de afetar mananciais de água;

b) a realização de obras de terraplenagem e a abertura de canais, quando essas iniciativas importarem em sensível alteração das condições ecológicas locais;

c) o exercício de atividades capazes de provocar uma acelerada erosão das terras e/ou um acentuado assoreamento das coleções hídricas;

d) o exercício de atividades que ameacem extinguir na área protegida as espécies raras da biota regional.

De acordo com a Lei 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC, as APAs são consideradas uma categoria de unidades de conservação do grupo "Uso Sustentável" (Art. 14°). O artigo seguinte (Art. 15°), define APA como: 

"... uma área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais".(Regulamento)

Observar também o disposto nos seguintes parágrafos:

§ 1° A Área de Proteção Ambiental é constituída por terras públicas ou privadas.

§ 2° Respeitados os limites constitucionais, podem ser estabelecidas normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada localizada em uma Área de Proteção Ambiental.

Portanto, a APA é um instrumento de planejamento e ordenamento regional, bem como de conciliação do objetivo de prevenção da degradação ambiental, de conservação do patrimônio natural, além de estabelecer regras sobre os interesses e propriedades privadas, onde sejam conflitantes com o interesse coletivo "e o bem-estar das populações humanas".

Surpresa, justificativas e reações

Segundo O Globo, o INEA informou em nota que as regras fixadas pelos planos de manejo eram muito antigas e que precisavam ser atualizadas conforme uma resolução do instituto de 2019, que segue as diretrizes previstas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação. ‘‘Esse modelo está em sintonia com outras esferas. No âmbito federal, o ICMBio aprova planos de manejo por portaria do próprio órgão gestor e não do chefe do Executivo’’, diz a nota.

Denise Pena, integrante da sociedade civil do Conselho Consultivo da APA de Massambaba. Ela disse que o decreto foi inesperado e que foi publicado semanas após a troca de técnicos do Inea, que eram responsáveis por elaborar a revisão das APAs. O trabalho que vinha sendo realizado seria apenas para atualizar as diretrizes, de modo a deixá-las de acordo com a legislação ambiental federal.

— Há três meses não recebemos qualquer minuta dos estudos para análise. A maior preocupação aqui é com a flexibilização das regras em Arraial do Cabo — disse ao O Globo.

— Se em uma revisão dessas for determinado que a APA deve seguir as regras mais liberais do Plano Diretor da cidade, áreas ambientalmente frágeis vão perder a proteção que tinham — acrescentou Denise Pena.

Militantes que atuam junto à APA do Pau-Brasil também mostraram preocupação na matéria de O Globo:

Carol Mazieri, do movimento Cidadania Buziana, que acompanha a polêmica, acrescentou que o decreto de Castro coincidiu com uma pressão do mercado para liberar a construção de um resort na RJ-102, rodovia que liga as cidades de Búzios e Cabo Frio.

— Não esperava essa decisão do ex-governador, que pode acabar descaracterizando a APA. Há alguns anos, por exemplo, tem havido uma pressão para permitir construções nas proximidades da Praia de José Gonçalves, em Búzios — disse o ambientalista Ernesto Galiotto, que, em sobrevoos pela região, ajudou o Inea a demarcar os limites atuais da APA.

O Instituto dos Advogados do Brasil - IAB emitiu o seguinte posicionamento oficial repudiando o decreto:

Nota do IAB sobre o Decreto Estadual 50.236 de 19/3/2026

O Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), por meio de sua presidente e com apoio de membros da Comissão de Direito Ambiental, vem a público manifestar seu repúdio à publicação do Decreto Estadual 50.236 de 19/3/2026.

Referido decreto instaurou um cenário de incerteza jurídica e vulnerabilidade ecológica para cinco Áreas de Proteção Ambiental (APAs) estratégicas do Rio de Janeiro. Embora o texto oficial justifique a medida como uma “adequação metodológica”, o ato traz consigo um sinalizador de possíveis retrocessos nas salvaguardas ambientais.

Um dos pontos mais críticos do decreto reside na substituição de planos de manejo robustos por um modelo “simplificado” regido pela Resolução Inea 180/2019. A busca por “eficiência e redução de custos” pode resultar na omissão de dados bióticos fundamentais, como o mapeamento de espécies endêmicas e em perigo de extinção, transformando as unidades de conservação em áreas apenas formalmente protegidas, mas sem gestão efetiva em campo.

Ademais, ao transferir a decisão de flexibilização de um órgão técnico (Inea) para uma arena política (Alerj) o decreto abre caminho para que interesses econômicos de curto prazo se sobreponham a critérios científicos de conservação, já que o grau de proteção ambiental pode ser reduzido caso haja aprovação por lei. Sob a perspectiva ambiental, o decreto implica afronta ao Princípio da Vedação ao Retrocesso Ecológico (ADPF 910).

Nesse contexto, o IAB cobra transparência e consulta prévia adequada às comunidades tradicionais e ao Ministério Público, e defende a manutenção das proteções ambientais já alcançadas.

Rio de Janeiro, 30 de março de 2026.

Rita Cortez
Presidente nacional do IAB

Leandro Mello Frota
Presidente da Comissão de Direito Ambiental do IAB

Marina Motta Benevides Gadelha
Consultora da Comissão de Direito Ambiental do IAB

O Estado do Rio de Janeiro vive uma situação inusitada: o governador Cláudo Castro renunciou e tornou-se inelegível, o vice-governador Thiago Pampolha renunciou para assumir uma cadeira como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. O seguinte na linha sucessória seria o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro - ALERJ, Rodrigo Bacellar, que teve o seu mandato cassado pela justiça eleitoral e está preso. Diante do vácuo de poder, o desembargador Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) assumiu como governador interino até que o problema se equacione.

Como mostramos acima, o Parágrafo Único, do Art. 1° do Decreto 50.236 dá uma certa garantia, mas como bem alerta a nota do IAB, caso haja a intensão de "transferir a decisão de flexibilização de um órgão técnico (Inea) para uma arena política (Alerj) o decreto abre caminho para que interesses econômicos de curto prazo se sobreponham a critérios científicos de conservação" estaremos em grave situação.

O fato é que o assunto é relevante, o potencial de risco é elevado e, no mínimo, falta transparência sobre a motivação para a revogação das regras vigentes nas APAs e sobre os desdobramentos da medida.

Portanto, é mais do que justificada a apreensão sobre o destino das APAs e a revisão dos seus planos de manejo, justamente diante de tal situação de incerteza. Que a sociedade siga vigilante e cobrando transparência quanto aos próximos passos para a revisão dos Planos de Manejo e, que estes venham para o fortalecimento do instrumento das APAs e não para a flexibilização a ponto de comprometer a gestão sustentável e colocar em risco o patrimônio natural que protegem.

Axel Grael
Engenheiro florestal
Ex-presidente do Instituto Estadual de Florestas - IEF-RJ (1991-19994) e ex-presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA (1999-2000 e 2007 e 2008)


quarta-feira, 25 de março de 2026

Guerra no Irã gerou 5 milhões de toneladas de CO₂ em apenas 14 dias


Especialistas detectaram um aumento na queima de gás em instalações petrolíferas, evidenciando o crescimento das emissões decorrentes da guerra.

O ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é uma tragédia social, com milhares de mortos e desabrigados pelos bombardeios. É um choque energético, ao provocar a disparada dos preços do petróleo e do gás fóssil e ao restringir o abastecimento, jogando por terra a suposta segurança dos combustíveis fósseis. Além disso, o conflito é um desastre para o clima.

Uma análise do Climate and Community Institute mostra que a guerra está consumindo o orçamento global de carbono mais rapidamente do que 84 países reunidos. Enquanto aviões, drones e mísseis matam milhares, destroem infraestrutura e transformam o Oriente Médio em uma gigantesca zona de sacrifício, o conflito gerou 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (tCO2e) em seus primeiros 14 dias.

A análise, compartilhada com o Guardian, acrescenta uma nova dimensão às reportagens sobre os danos ambientais catastróficos causados por ataques a infraestruturas de combustíveis fósseis, bases militares, áreas civis e navios no mar. “Cada ataque com mísseis é mais uma parcela paga por um planeta mais quente e instável, e nada disso torna ninguém mais seguro”, disse Patrick Bigger, diretor de pesquisa do instituto e coautor do levantamento.

Os edifícios destruídos são o principal componente do custo estimado de carbono. Com base em relatos da organização humanitária Crescente Vermelho Iraniano de que cerca de 20 mil edifícios civis foram danificados pelo conflito, a análise estima que as emissões totais desse setor sejam de 2,4 milhões de tCO₂e.

O combustível é o segundo maior fator, com bombardeiros pesados dos EUA voando de locais tão distantes quanto o oeste da Inglaterra para atacar o Irã. A análise estima que entre 150 milhões e 270 milhões de litros de combustível foram consumidos por aeronaves, embarcações de apoio e veículos nos primeiros 14 dias, gerando emissões totais de 529 mil tCO₂e.

Uma das imagens mais chocantes da guerra foi a de nuvens escuras e a “chuva negra” sobre Teerã após Israel bombardear quatro grandes depósitos ao redor da cidade, incendiando milhões de litros de combustível. A análise estima que entre 2,5 milhões e 5,9 milhões de barris de petróleo foram queimados nesse ataque e em ações semelhantes – incluindo retaliações iranianas contra vizinhos do Golfo – emitindo cerca de 1,88 milhão de tCO₂e.

A Bloomberg traz uma observação particular: a guerra levou as petrolíferas a queimar mais gás fóssil do que o habitual, uma vez que suas instalações foram atacadas ou as exportações foram bloqueadas.

De 28 de fevereiro a 22 de março, a usina de gás liquefeito (GNL) da Ilha de Das, nos Emirados Árabes Unidos, queimou combustível suficiente para emitir 74.100 tCO₂e. Enquanto isso, a instalação de Ras Laffan, no Catar, o maior centro de exportação de GNL do mundo, adicionou cerca de 101.300 tCO₂e – o mesmo que as emissões anuais de mais de 20.000 carros.

Quanto aos equipamentos de guerra, nos primeiros 14 dias, sua destruição gerou emissões incorporadas de carbono de 172 mil tCO₂e. Há também bombas, mísseis e drones: a análise estima que as munições contribuíram com cerca de 55 mil tCO₂e em emissões.

“Esperamos que as emissões aumentem rapidamente à medida que o conflito avança, principalmente devido à velocidade com que instalações de petróleo estão sendo atacadas em ritmo alarmante”, frisa Fred Otu-Larbi, da University of Energy and Natural Resources em Gana, principal autor do estudo detalhado pelo Guardian. “Todos nós teremos de conviver com as consequências climáticas. Ninguém sabe exatamente quais serão os custos. Queimar, em duas semanas, o equivalente às emissões anuais da Islândia é algo que realmente não podemos nos dar ao luxo.”

Fonte: ClimaInfo


quinta-feira, 19 de março de 2026

Cenário geopolítico faz risco ambiental perder prioridade para líderes globais

 

A preocupação ambiental está perdendo espaço no ranking de riscos considerados por líderes globais, segundo a edição 2026 do relatório Riscos Globais, publicada pelo Fórum Econômico Mundial. Dos seis riscos ambientais considerados na metodologia, quatro perderam posições para o horizonte de curto prazo (dois anos):
– Eventos climáticos extremos caiu de 2° para 4°;
– Poluição caiu de 6° para 9°;
– Mudança crítica nos sistemas da Terra caiu de 17° para 24°; e
– Perda de biodiversidade e colapso ecossistêmico de 21° para 26°.

Um subiu uma posição:
– Escassez de recursos naturais subiu de 18° para 17°.

E um risco ambiental, que não está relacionado com as questões climáticas, manteve-se estável:
– Desastres naturais não relacionados ao clima seguiu no 32° lugar.

O ranking acima foi elaborado a partir de entrevistas com 1.300 atores relevantes, na academia, nos negócios, em governos, organizações internacionais e sociedade civil. Eles foram consultados para estimar o impacto provável (severidade) de uma lista de 33 riscos no horizonte de dois e de dez anos.

As respostas sobre a possibilidade de impacto desses fatores no prazo maior de dez anos mostram que a percepção dos riscos relacionados à mudança do clima seguem altas. Isto é, são aspectos que persistem, independentemente da conjuntura.

As entrevistas foram realizadas entre 12 de agosto e 22 de setembro de 2025. Desde então, o nível de tensão geopolítica global se elevou.

O relatório também entrevista executivos sobre os riscos específicos para cada país. No caso do Brasil, os top 5 riscos identificados foram:

1. Desaceleração econômica (ex.: recessão, estagnação)
2. Serviços públicos e proteções sociais insuficientes (incluindo educação, infraestrutura, pensões)
3. Endividamento (pública, corporativa, familiar)
4. Criminalidade e atividades econômicas ilícitas
5. Inflação

O top 5 de pouquíssimos países incluem riscos ambientais.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

Fonte: Instituto TALANOA





terça-feira, 17 de março de 2026

Projeto de Lei que proíbe fiscalização do desmatamento por satélite tramita em regime de urgência na Câmara de Deputados

Fiscais do IBAMA foram atacados em emboscada de criminosos na Terra Indígena Tenharim-Marmelos, no município de Manicoré, quando fiscalizavam a extração ilegal de madeira. Foto: Divulgação IBAMA.

A tentativa de "passar mais uma boiada". O competente jornalista André Trigueiro, dedicado à temática ambiental, fez um importante alerta sobre o que pode ser mais um atentado contra a política ambiental do país e um duro golpe contra a ação de fiscalização do IBAMA no combate ao desmatamento. 

A Câmara de Deputados aprovou, ontem (16/03), 10 projetos de lei (PL) para tramitar em Regime de Urgência. Um deles, o PL 2.564/2025, de autoria do deputado federal bolsonarista Lúcio Mosquini (PL-RO), "que regulamenta a aplicação de medidas administrativas cautelares na fiscalização ambiental e veda a imposição de embargo baseado exclusivamente em detecção remota de supressão de vegetação". 

O PL altera a Lei de Crimes Ambientais (Lei n° 9.605/1998) e propõe:

Art. 2º A Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 72-A:

“Art. 72-A Constatada a ocorrência de dano ambiental, o agente de fiscalização, no uso do seu poder de polícia, poderá adotar medidas administrativas cautelares para afastar risco iminente de agravamento do dano, para interromper a sua ocorrência e para resguardar a recuperação ambiental.

§ 1º As medidas administrativas cautelares não poderão ser utilizadas como instrumento de antecipação das sanções previstas no art. 72 desta Lei, sob pena de nulidade do processo.

§ 2º Fica vedada a imposição de embargo baseado exclusivamente em detecção remota de infração decorrente de supressão de vegetação, sendo garantida a notificação prévia do autuado para prestar esclarecimentos em prazo razoável antes da imposição da medida.”

O projeto de lei quer impedir exatamente o que está dando certo e fazendo os números do desmatamento caírem. O IBAMA, com a ajuda de outros órgãos, vem modernizando a sua capacidade de fiscalização ambiental através da adoção de tecnologias para enfrentar o desmatamento, as queimadas, o saque de madeira e a grilagem de terras públicas. Com isso, melhora-se a capacidade de controle sobre crimes ambientais, seja na Amazônia, no Cerrado, na Mata Atlântica e outros biomas, detectando as irregularidades de forma remota, com satélites, e até drones etc. Desta forma, é possível acompanhar a conservação de áreas protegidas e de reservas legais, o correto cumprimento dos casos de desmatamento legal e devidamente autorizado e, sobretudo, punir os criminosos. 

Relatórios mostram que o avanço da criminalidade na Amazônia é uma das principais preocupações atuais e que o desmatamento, a grilagem, o tráfico de drogas e outros crimes se intercruzam e se fortalecem mutuamente. 

É importante lembrar que controlar o desmatamento é uma obrigação perante as atuais e futuras gerações e que o Brasil tem metas a cumprir perante o mundo, nos seus compromissos climáticos (NDC) assumidos diante do Acordo de Paris.

Pois bem, o projeto de lei que tramita em regime de urgência pretende proibir a "detecção remota", justamente o que tem dado mais efetividade e resultados no trabalho de fiscalização e contribuído para a queda no desmatamento no Brasil. 

Segundo a justificativa do projeto de lei, o fiscal terá que ir in-loco para impedir o desmatamento e autuar os responsáveis, ou seja, uma aposta na impraticabilidade. Seria a volta da velha fórmula que permitiu o desmatamento desenfreado no passado.

Por exemplo, de agosto de 2024 a agosto de 2025, a Amazônia teve uma área desmatada de 5.796 km², o que representou uma redução de 11,08% em relação ao período anterior (de agosto de 2023 a julho de 2024), segundo estimativa do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE (vide, MMA). 

Mesmo com as sucessivas reduções do desmatamento no atual governo - ao contrário do que aconteceu no governo anterior, ainda é um desmatamento ANUAL correspondente a uma área superior a toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, espalhada pela imensidão de mais de 5,2 milhões de km² da Amazônia Legal. Além disso, o trabalho de fiscalização no terreno tem se mostrado um risco à vida dos fiscais, que têm sido vítimas de ataques e emboscadas praticadas pelos criminosos. Foi o que acabou de acontecer no último sábado (15/03), quando um grupo de fiscais do IBAMA foi atacado quando fiscalizavam a extração ilegal de madeira na Terra Indígena Tenharim-Marmelos e sofreram uma emboscada. Ou seja, voltar à fiscalização exclusivamente in-loco, como quer o Sr. deputado, é impraticável e só serve para facilitar a ação dos criminosos!

Assista à matéria do Jornal Nacional, da Rede Globo, em 17/03/2026.

Hoje, à noite, no Jornal Nacional, o presidente da Câmara de Deputados, Hugo Motta, afirmou que o PL só irá a votação após ampla discussão. Então, como justificar o Regime de Urgência? Entenda-se: "Regime de Urgência na Câmara Federal é um rito processual que acelera a tramitação de projetos de lei, permitindo que sejam votados diretamente no Plenário, dispensando o parecer de comissões temáticas. Ele reduz prazos, prioriza a matéria na pauta e pode ser solicitado por líderes, bancadas ou pelo Presidente da República" (Portal da Câmara dos Deputados).

Alguém tem dúvidas sobre qual é o interesse por trás da inviabilização da fiscalização do desmatamento? A continuidade do desmatamento dos biomas brasileiros é inaceitável. Que se restabeleça o bom-senso. 

Axel Grael


sábado, 7 de março de 2026

Brasil bate recorde de intoxicações por agrotóxicos em 2025

Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Aumento de intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo; Brasil bateu recorde de aprovação de pesticidas em 2025.

Em 2025, 27 pessoas se intoxicaram diariamente por agrotóxicos no país, mostra um levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde. Foram 9.729 casos registrados, com alta de 84% sobre 2015, ano de início da série histórica, e um recorde.

As principais vítimas das intoxicações não intencionais – o que exclui episódios em que a contaminação foi deliberada – são homens de 20 a 39 anos (70%). Nesse grupo, 54% dos acidentes aconteceram no trabalho, e 80% estão relacionados ao uso de agrotóxico no meio agrícola. Desde 2015, o país soma 73.391 intoxicações por agrotóxicos, mostra o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

O estado campeão em intoxicação por agrotóxicos foi o Espírito Santo, com 10% dos casos registrados em 2025. Em seguida vem Tocantins, Rondônia, Acre e Roraima, todos da região Norte, mostrando os resultados nefastos da expansão do agronegócio na região.

Para especialistas, o aumento das intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo de pesticidas. O Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização desses produtos. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% sobre 2024. Já as vendas chegaram a 826 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em comparação a 2023, mostra o IBAMA.

“Com mais agrotóxicos disponíveis, há uma tendência de que o preço caia, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

A nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava o cenário e representa um retrocesso regulatório, reforçam os especialistas. “Já faz tempo que as intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados, mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A geógrafa e especialista em agrotóxicos Larissa Bombardi lembra que enquanto muitos químicos estão proibidos ou com uso restrito na União Europeia, eles ainda são largamente usados – por empresas europeias – no Brasil. É o que Larissa chama de “colonialismo químico”, explica o Outras Palavras.

“A população rural no Brasil está cronicamente exposta a substâncias que são cancerígenas ou que provocam desregulação hormonal”, ressalta a geógrafa no Brasil de Fato. “Por estudos que temos, já sabemos que as áreas em que mais se utiliza agrotóxico são aquelas em que há maior prevalência de câncer.”

Em nota enviada à Repórter Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) relaciona o avanço das intoxicações ao peso econômico e político do agronegócio. Fato que, segundo a pasta, tem favorecido a adoção de medidas de interesse do setor.

ICL Notícias e Racismo Ambiental também repercutiram o assunto.

Em tempo: A gigante química alemã Bayer chegou a um acordo de US$ 7,25 bilhões (R$ 37 bilhões) com autores de ações judiciais para encerrar dezenas de milhares de processos que alegam que o herbicida Roundup causou linfoma não Hodgkin. As alegações são de que a Bayer falhou ao não alertar nos rótulos do produto sobre os supostos riscos carcinogênicos representados pelo glifosato. Segundo O Globo e UOL, o acordo foi submetido a um tribunal do Missouri, nos Estados Unidos, e visa resolver reivindicações atuais e futuras, criando um fundo financiado ao longo de até 21 anos.

Fonte: ClimaInfo





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Discurso de Mark Carney, em Davos: "Estamos passando por uma ruptura da ordem mundial, não uma transição"

A cidade de Davos, na Suíça, está recebendo o Fórum Econômico Mundial entre os dias 19 e 23 de janeiro. O evento, realizado anualmente, é um dos mais importantes acontecimentos da agenda internacional, reunindo os principais chefes de estado e líderes mundiais, dirigentes destacados da sociedade civil, bem como representantes das principais organizações empresariais. 

Nos primeiros dias, tivemos duas participações diametralmente opostas. Em contraste com a fala de ontem, de Donald Trump, com retórica agressiva, arrogante, preconceituosa e racista, recheada de informações falsas ou distorcidas, com provocações irresponsáveis contra os países europeus - aliados dos EUA há no mínimo 70 anos, ouvimos um dia antes a fala lúcida, realista e edificadora de Mark Carney, primeiro ministro do Canadá, que transcrevemos e apresentamos o vídeo no YouTube

Dentre as muitas mensagens de Carney, o alerta sobre a ruptura da ordem mundial, a crítica contra a ambição de Trump sobre a Groenlândia, dizendo que o Canadá honrará o tratado da OTAN e defenderá a Groenlândia em caso de ataque militar. Exortou a importância das "médias potências", defendeu o multilateralismo e disse que nas atuais relações internacionais, "Ou se está sentado à mesa, ou se está no menu". Em outras palavras, "Ou se está na mesa de negociação, ou serás consumido". Ou como interpretou o jornalista Fernando Gabeira, em comentário na GloboNews: "Quem não comer, será comido". Veja um trecho da fala do primeiro ministro Carney:

“Serei direto: estamos no meio de uma ruptura da ordem mundial, não de uma transição. (...) O fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal, em que a geopolítica das grandes potências não está sujeita a nenhuma restrição. (...) Todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências, que a ordem baseada em regras está se esvaindo, que os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”, afirmou Carney (G1).

Leia no texto ou assista no vídeo, a seguir, a íntegra do discurso de Carney, conforme foi divulgado pela própria organização do Fórum Econômico Mundial, de Davos:


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Canadian Prime Minister Mark Carney praised the strengths of the middle powers in his special address at Davos 2026. Image: World Economic Forum / Ciaran McCrickard


This transcript was produced using AI and subsequently edited for style and clarity. The edits do not alter the substance of the speaker’s remarks.

"Thank you very much, Larry. I'm going to start in French, and then I'll switch back to English".

[The following is translated from French]

"Thank you, Larry. It is both a pleasure, and a duty, to be with you tonight in this pivotal moment that Canada and the world going through.

Today I will talk about a rupture in the world order, the end of a pleasant fiction and the beginning of a harsh reality, where geopolitics, where the large, main power, geopolitics, is submitted to no limits, no constraints.

On the other hand, I would like to tell you that the other countries, especially intermediate powers like Canada, are not powerless. They have the capacity to build a new order that encompasses our values, such as respect for human rights, sustainable development, solidarity, sovereignty and territorial integrity of the various states.

The power of the less power starts with honesty"
.

Assista o discurso de Mark Carney no YouTube.

[Carney returns to speaking in English]

"It seems that every day we're reminded that we live in an era of great power rivalry, that the rules based order is fading, that the strong can do what they can, and the weak must suffer what they must.

And this aphorism of Thucydides is presented as inevitable, as the natural logic of international relations reasserting itself.

And faced with this logic, there is a strong tendency for countries to go along to get along, to accommodate, to avoid trouble, to hope that compliance will buy safety.

Well, it won't.

So, what are our options?

In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.

For decades, countries like Canada prospered under what we called the rules-based international order. We joined its institutions, we praised its principles, we benefited from its predictability. And because of that, we could pursue values-based foreign policies under its protection.

We knew the story of the international rules-based order was partially false that the strongest would exempt themselves when convenient, that trade rules were enforced asymmetrically. And we knew that international law applied with varying rigour depending on the identity of the accused or the victim.

This fiction was useful, and American hegemony, in particular, helped provide public goods, open sea lanes, a stable financial system, collective security and support for frameworks for resolving disputes.

So, we placed the sign in the window. We participated in the rituals, and we largely avoided calling out the gaps between rhetoric and reality.

This bargain no longer works. Let me be direct. We are in the midst of a rupture, not a transition.

Over the past two decades, a series of crises in finance, health, energy and geopolitics have laid bare the risks of extreme global integration. But more recently, great powers have begun using economic integration as weapons, tariffs as leverage, financial infrastructure as coercion, supply chains as vulnerabilities to be exploited.

You cannot live within the lie of mutual benefit through integration, when integration becomes the source of your subordination.

The multilateral institutions on which the middle powers have relied – the WTO, the UN, the COP – the architecture, the very architecture of collective problem solving are under threat. And as a result, many countries are drawing the same conclusions that they must develop greater strategic autonomy, in energy, food, critical minerals, in finance and supply chains.

And this impulse is understandable. A country that can't feed itself, fuel itself or defend itself, has few options. When the rules no longer protect you, you must protect yourself.

But let's be clear eyed about where this leads.

A world of fortresses will be poorer, more fragile and less sustainable. And there is another truth. If great powers abandon even the pretense of rules and values for the unhindered pursuit of their power and interests, the gains from transactionalism will become harder to replicate.

Hegemons cannot continually monetize their relationships.

Allies will diversify to hedge against uncertainty.

They'll buy insurance, increase options in order to rebuild sovereignty – sovereignty that was once grounded in rules, but will increasingly be anchored in the ability to withstand pressure.

This room knows this is classic risk management. Risk management comes at a price, but that cost of strategic autonomy, of sovereignty can also be shared.

Collective investments in resilience are cheaper than everyone building their own fortresses. Shared standards reduce fragmentations. Complementarities are positive sum. And the question for middle powers like Canada is not whether to adapt to the new reality – we must. The question is whether we adapt by simply building higher walls, or whether we can do something more ambitious.

Now Canada was amongst the first to hear the wake-up call, leading us to fundamentally shift our strategic posture.

Canadians know that our old comfortable assumptions that our geography and alliance memberships automatically conferred prosperity and security – that assumption is no longer valid. And our new approach rests on what Alexander Stubb, the President of Finland, has termed “value-based realism”.

Or, to put another way, we aim to be both principled and pragmatic – principled in our commitment to fundamental values, sovereignty, territorial integrity, the prohibition of the use of force, except when consistent with the UN Charter, and respect for human rights, and pragmatic and recognizing that progress is often incremental, that interests diverge, that not every partner will share all of our values.

So, we're engaging broadly, strategically with open eyes. We actively take on the world as it is, not wait around for a world we wish to be.

We are calibrating our relationships, so their depth reflects our values, and we're prioritizing broad engagement to maximize our influence, given and given the fluidity of the world at the moment, the risks that this poses and the stakes for what comes next.

And we are no longer just relying on the strength of our values, but also the value of our strength.

We are building that strength at home.

Since my government took office, we have cut taxes on incomes, on capital gains and business investment. We have removed all federal barriers to interprovincial trade. We are fast tracking a trillion dollars of investments in energy, AI, critical minerals, new trade corridors and beyond. We're doubling our defence spending by the end of this decade, and we're doing so in ways that build our domestic industries.

And we are rapidly diversifying abroad. We have agreed a comprehensive strategic partnership with the EU, including joining SAFE, the European defence procurement arrangements. We have signed 12 other trade and security deals on four continents in six months. The past few days, we've concluded new strategic partnerships with China and Qatar. We're negotiating free trade pacts with India, ASEAN, Thailand, Philippines and Mercosur.

We're doing something else. To help solve global problems, we're pursuing variable geometry, in other words, different coalitions for different issues based on common values and interests. So, on Ukraine, we're a core member of the Coalition of the Willing and one of the largest per capita contributors to its defence and security.

On Arctic sovereignty, we stand firmly with Greenland and Denmark, and fully support their unique right to determine Greenland's future.

Our commitment to NATO's Article 5 is unwavering, so we're working with our NATO allies, including the Nordic Baltic Gate, to further secure the alliance's northern and western flanks, including through Canada's unprecedented investments in over-the-horizon radar, in submarines, in aircraft and boots on the ground, boots on the ice.

Canada strongly opposes tariffs over Greenland and calls for focused talks to achieve our shared objectives of security and prosperity in the Arctic.

On plurilateral trade, we're championing efforts to build a bridge between the Trans Pacific Partnership and the European Union, which would create a new trading bloc of 1.5 billion people. On critical minerals, we're forming buyers’ clubs anchored in the G7 so the world can diversify away from concentrated supply. And on AI, we're cooperating with like-minded democracies to ensure that we won't ultimately be forced to choose between hegemons and hyper-scalers.

This is not naive multilateralism, nor is it relying on their institutions. It's building coalitions that work – issues by issue, with partners who share enough common ground to act together.

In some cases, this will be the vast majority of nations.

What it's doing is creating a dense web of connections across trade, investment, culture, on which we can draw for future challenges and opportunities.

Argue, the middle powers must act together, because if we're not at the table, we're on the menu.

But I'd also say that great powers, great powers can afford for now to go it alone. They have the market size, the military capacity and the leverage to dictate terms. Middle powers do not.

But when we only negotiate bilaterally with a hegemon, we negotiate from weakness. We accept what's offered. We compete with each other to be the most accommodating.

This is not sovereignty. It's the performance of sovereignty while accepting subordination. In a world of great power rivalry, the countries in between have a choice – compete with each other for favour, or to combine to create a third path with impact.

We shouldn't allow the rise of hard power to blind us to the fact that the power of legitimacy, integrity and rules will remain strong, if we choose to wield them together – which brings me back to Havel.

What does it mean for middle powers to live the truth?

First, it means naming reality. Stop invoking rules-based international order as though it still functions as advertised. Call it what it is – a system of intensifying great power rivalry, where the most powerful pursue their interests, using economic integration as coercion.

It means acting consistently, applying the same standards to allies and rivals. When middle powers criticize economic intimidation from one direction, but stay silent when it comes from another, we are keeping the sign in the window.

It means building what we claim to believe in, rather than waiting for the old order to be restored. It means creating institutions and agreements that function as described. And it means reducing the leverage that enables coercion – that's building a strong domestic economy. It should be every government's immediate priority.

And diversification internationally is not just economic prudence, it's a material foundation for honest foreign policy, because countries earn the right to principled stands by reducing their vulnerability to retaliation.

So Canada. Canada has what the world wants. We are an energy superpower. We hold vast reserves of critical minerals. We have the most educated population in the world. Our pension funds are amongst the world's largest and most sophisticated investors. In other words, we have capital, talent… we also have a government with immense fiscal capacity to act decisively. And we have the values to which many others aspire.

Canada is a pluralistic society that works. Our public square is loud, diverse and free. Canadians remain committed to sustainability. We are a stable and reliable partner in a world that is anything but.. A partner that builds and values relationships for the long term.

And we have something else. We have a recognition of what's happening and a determination to act accordingly. We understand that this rupture calls for more than adaptation. It calls for honesty about the world as it is.

We are taking the sign out of the window. We know the old order is not coming back. We shouldn't mourn it. Nostalgia is not a strategy, but we believe that from the fracture, we can build something bigger, better, stronger, more just. This is the task of the middle powers, the countries that have the most to lose from a world of fortresses and most to gain from genuine cooperation.

The powerful have their power.

But we have something too – the capacity to stop pretending, to name reality, to build our strength at home and to act together.

That is Canada's path. We choose it openly and confidently, and it is a path wide open to any country willing to take it with us. Thank you very much".