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quinta-feira, 9 de julho de 2026

PARQUE SOLAR É MAIS UM LEGADO DE SUSTENTABILIDADE E INOVAÇÃO QUE DEIXAMOS PARA NITERÓI

Quem chega em Niterói pela Ponte, ao se aproximar da Praça do Pedágio e olhar para o Morro da Boa Vista localizado bem à sua frente, já deve ter notado que há uma novidade na encosta: é o PARQUE SOLAR, um projeto inovador e um novo conceito de geração de energia de forma limpa, sustentável e que beneficia a comunidade.

Parque Solar implantado em encosta de Niterói é mais um legado de inovação iniciado na nossa gestão como prefeito da cidade. Projeto é uma referência para outras comunidades de Niterói e para outras cidades. Foto Leonardo Simplicio (Divulgação). 

O projeto de implantação do Parque Solar na Encosta do Morro da Boa Vista, no Centro de Niterói, era uma antiga ideia que acalentei por anos e consegui desenvolver quando fui secretário da Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão - SEPLAG, da Prefeitura de Niterói. O projeto avançou e saiu do papel graças principalmente ao empenho da engenheira florestal Valéria Braga e do secretário de Defesa Civil Walace Medeiros. 

Na sua concepção inicial, a iniciativa teve como objetivo aproveitar as condições favoráveis da encosta para a produção de energia fotovoltaica, proteger a maior área de reflorestamento da mantido pela Prefeitura e beneficiar a comunidade. A água da chuva acumulada nas próprios painéis solares é captada e estocada em reservatórios com capacidade para 30 mil litros, para ser utilizada na manutenção e limpeza do Parque Solar, permitir a irrigação das mudas e proteger a área dos constantes incêndios que prejudicam as áreas de reflorestamento.

Em 2018, o conceito inovador do projeto foi reconhecido com a conquista do Prêmio Lidera Rio, vencendo na categoria principal - "Prêmio de Melhor Projeto" - e na categoria "Sustentabilidade e Resiliência". A premiação foi promovida pelo SEBRAE-RJ, em parceria com o Instituto República, CLP e Cidadis e contou com a participação de várias prefeituras fluminenses.

Na minha gestão como prefeito de Niterói (2021-2024) contratamos um serviço especializado para o desenvolvimento do projeto executivo, licitamos e demos início às obras de sua implantação, que foram concluídas na atual gestão do prefeito Rodrigo Neves. A obra foi concluída e entregue no dia último dia 04 de julho. 

Fotos Leonardo Simplicio (Divulgação)

O Parque Solar, que contou com um investimento de R$ 7,7 milhões, possui 2 mil módulos fotovoltaicos e ocupa uma área de 36 mil metros quadrados. A usina tem capacidade para produzir cerca de 150 mil quilowatts-hora (kWh) de energia por mês energia, reduzindo as despesas do consumo de energia dos prédios públicos. Para se ter uma ideia, a energia produzida é suficiente para suprir o consumo de 19 creches públicas. Com isso, o retorno do investimento virá em dois anos. 

O Parque Solar é parte do esforço que iniciamos na nossa gestão para a transição energética da cidade, que incluiu a captação de recursos junto ao PAC, do Governo Federal, para a implantação de ônibus elétricos, do VLT de Niterói e a aquisição de veículos elétricos para a descarbonização da frota da Prefeitura e mitigar emissões de Gases de Efeito Estufa na cidade.

A energia solar é uma das formas mais sustentáveis de geração de energia, é a fonte que mais cresceu no Brasil entre 2024 e 2025, com o excepcional avanço de 24,%.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)



segunda-feira, 11 de maio de 2026

Santa Marta e o teste de um novo multilateralismo climático

Créditos: Ministério do Meio Ambiente da Colômbia.

Frustrados com os impasses das COPs, diplomatas e observadores buscam arenas alternativas e testam na prática o “multilateralismo em dois níveis”.

Em um momento em que choques energéticos, disputas comerciais e a política doméstica de grandes emissores voltam a tensionar a ação climática global, cresce a busca por espaços capazes de avançar onde as COPs de clima travam. O primeiro teste foi a 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, finalizada na semana passada em Santa Marta, na Colômbia. A Cúpula trouxe uma sensação pouco comum entre aqueles que acompanham a diplomacia climática contemporânea – esperança.

Acostumados com as amarrações políticas que praticamente paralisaram as negociações da Convenção de Clima (UNFCCC) nos últimos anos, os participantes do encontro na Colômbia enxergaram, com diferentes graus de otimismo, um caminho novo a ser explorado.

A sensação não é injustificada. Na COP30 de Belém, há poucos meses, vimos como os impasses entre países desenvolvidos e em desenvolvimento quase dinamitaram os resultados finais das negociações na capital paraense. A frustração das nações mais pobres e vulneráveis já era alta desde a conclusão das conversas sobre financiamento climático na COP29 de Baku, em 2024. Soma-se isso à indisposição de alguns países em discutir o nó crucial da luta contra as mudanças climáticas – a exploração e o consumo de combustíveis fósseis.

Esse foi justamente o tema central em Santa Marta. Há décadas, a ciência do clima aponta o uso crescente e continuado das fontes fósseis de energia como o principal fator por trás do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e, consequentemente, da elevação da temperatura média global.

No entanto, as Partes da UNFCCC só concordaram com uma citação aos combustíveis fósseis no documento de síntese do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris na COP28 de Dubai, em 2023. Ou seja, foram quase três décadas para os governos concordarem com o óbvio, ainda que em termos mínimos (“transicionar para longe” ao invés de “abandonar” os combustíveis fósseis). E logo – na COP seguinte, recuaram dessa constatação, inviabilizando qualquer avanço adicional.

Para quem negocia e acompanha as conversas internacionais sobre clima, está cada vez mais claro que o sistema multilateral não está sendo capaz de entregar as soluções necessárias para enfrentar o problema climático. É por essa razão que Santa Marta trouxe uma brisa fresca de novidade ao oferecer um espaço alternativo para os países (ao menos, aqueles mais dispostos) discutirem o fim dos combustíveis fósseis com muito mais liberdade e centralidade do que nas COPs.

Como destacou o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em sua última carta, estamos acompanhando o surgimento de um “multilateralismo em dois níveis”, que mantém a estrutura institucional baseada no consenso (UNFCCC), mas adiciona um novo ambiente, com uma velocidade distinta de ação e reação, focada na implementação. Esse segundo nível permite que coalizões voluntárias e atores dispostos mobilizem recursos, implementem soluções e gerem aprendizado em escala.

Nesse novo modelo de multilateralismo climático, a UNFCCC e suas COPs preservam o elemento legislativo da ação climática global, baseado nos documentos jurídicos que sustentam esse ordenamento internacional (a Convenção e o Acordo de Paris), resguardando a legitimidade, a universalidade, a clareza jurídica e a direção coletiva. Mas o sistema ONU deixa de ser o único ambiente de interlocução política internacional sobre o clima, abrindo a porta para o surgimento de outros espaços e fóruns, focados em pontos específicos – como combustíveis fósseis (como é o caso de Santa Marta), financiamento, adaptação, entre outros – e organizados de forma complementar aos processos das COPs climáticas.

A própria COP30 sinalizou essa transformação ao dar protagonismo inédito à Agenda de Ação, destacando iniciativas de atores não-governamentais e subnacionais que avançam na implementação dos compromissos climáticos dos países. Outro exemplo foi o lançamento, também em Belém, do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), capitaneado pelo Brasil e com a adesão de mais de 50 nações, como um esforço para destravar o financiamento para a proteção florestal em países tropicais.

A transformação do multilateralismo climático ainda está no começo. Em Santa Marta, por exemplo, a coalizão de cerca de 50 países que se reuniu no evento demonstrou ter disposição para consolidar o espaço como catalisador do abandono da energia fóssil, mas os próximos passos ainda são incertos e dependem de diversos fatores nacionais e internacionais. De toda forma, uma segunda conferência está marcada para 2027, em Tuvalu, co-presidida pela Irlanda.

O balanço positivo feito por participantes e observadores indica que a iniciativa pode ser promissora, especialmente para impulsionar os “mapas do caminho” para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis. Se ela progredir, é possível que outros espaços surjam para destravar mais tópicos de implementação da ação contra a mudança climática. E este movimento pode não apenas complementar as COPS, mas redefinir onde, e como, a diplomacia climática realmente acontece.

Fonte: ClimaInfo





quinta-feira, 19 de março de 2026

Cenário geopolítico faz risco ambiental perder prioridade para líderes globais

 

A preocupação ambiental está perdendo espaço no ranking de riscos considerados por líderes globais, segundo a edição 2026 do relatório Riscos Globais, publicada pelo Fórum Econômico Mundial. Dos seis riscos ambientais considerados na metodologia, quatro perderam posições para o horizonte de curto prazo (dois anos):
– Eventos climáticos extremos caiu de 2° para 4°;
– Poluição caiu de 6° para 9°;
– Mudança crítica nos sistemas da Terra caiu de 17° para 24°; e
– Perda de biodiversidade e colapso ecossistêmico de 21° para 26°.

Um subiu uma posição:
– Escassez de recursos naturais subiu de 18° para 17°.

E um risco ambiental, que não está relacionado com as questões climáticas, manteve-se estável:
– Desastres naturais não relacionados ao clima seguiu no 32° lugar.

O ranking acima foi elaborado a partir de entrevistas com 1.300 atores relevantes, na academia, nos negócios, em governos, organizações internacionais e sociedade civil. Eles foram consultados para estimar o impacto provável (severidade) de uma lista de 33 riscos no horizonte de dois e de dez anos.

As respostas sobre a possibilidade de impacto desses fatores no prazo maior de dez anos mostram que a percepção dos riscos relacionados à mudança do clima seguem altas. Isto é, são aspectos que persistem, independentemente da conjuntura.

As entrevistas foram realizadas entre 12 de agosto e 22 de setembro de 2025. Desde então, o nível de tensão geopolítica global se elevou.

O relatório também entrevista executivos sobre os riscos específicos para cada país. No caso do Brasil, os top 5 riscos identificados foram:

1. Desaceleração econômica (ex.: recessão, estagnação)
2. Serviços públicos e proteções sociais insuficientes (incluindo educação, infraestrutura, pensões)
3. Endividamento (pública, corporativa, familiar)
4. Criminalidade e atividades econômicas ilícitas
5. Inflação

O top 5 de pouquíssimos países incluem riscos ambientais.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

Fonte: Instituto TALANOA





sábado, 14 de março de 2026

Quase 50 países já têm planos para eliminar os combustíveis fósseis


Estudo mapeou 46 países com planos de descarbonização do setor elétrico; outros 11 estudam limitar ou reduzir oferta de petróleo, gás e carvão.

Um estudo publicado na 3ª feira (10/3) indica que quase 50 países têm algum tipo de planejamento para eliminar os combustíveis fósseis no setor energético. O levantamento chega em um momento em que o debate sobre o afastamento de petróleo, gás fóssil e carvão ganha urgência após os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, que levaram o preço do petróleo às alturas.

Liderado pelo centro de pesquisa IISD (Canadá), com participação de E3G (Reino Unido), Ecco (Itália), Sefia (Turquia) e Observatório do Clima (Brasil), o estudo centra-se na questão prática de como conceber roteiros eficazes para a transição, tanto em nível global como nacional, explica o IISD. Especialistas enxergam o cenário atual como “um copo meio cheio, meio vazio”.

O estudo mapeou 46 países com algum tipo de plano de descarbonização do setor elétrico. Outras 11 nações, como Brasil e Colômbia, estudam limitar ou reduzir a oferta de petróleo, gás e carvão, detalha O Globo.

O documento inclui estudos de caso que abrangem as Parcerias de Transição Energética Justa (JETPs) na África do Sul, Indonésia, Vietnã e Senegal; processos nacionais de eliminação gradual do carvão na Alemanha, Chile, Canadá e Dinamarca; e esforços emergentes de elaboração de mapas do caminho domésticos na Colômbia, Turquia e Brasil. Logo, elementos para a construção dos mapas do caminho já vêm sendo testados na prática em vários países, mas a governança estruturada e a previsibilidade de financiamento são decisivos, destaca o relatório.

Quanto aos desafios, o documento lista que a transformação econômica gerada pela redução da dependência dos combustíveis fósseis demanda aumento da eletrificação dos transportes, expansão de fontes renováveis como eólica e solar e reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis. Este último ponto, em especial, mostra-se complexo por ser uma indústria ligada ao funcionamento político de muitos países, explica o Observatório do Clima.

“A dependência dos combustíveis fósseis não é apenas uma vulnerabilidade econômica, mas um motor de instabilidade global, expondo produtores e consumidores igualmente à crescente volatilidade, aos riscos de segurança e aos riscos climáticos”, afirma Katrine Petersen, assessora sênior de políticas da E3G. “O forte apoio na COP30 a um mapa do caminho global reflete um reconhecimento crescente de que a transição já está em curso.”

O Canal Solar lembra que em pouco mais de um mês acontecerá em Santa Marta, na Colômbia, a primeira conferência internacional voltada a discutir a transição para longe dos combustíveis fósseis. O encontro deverá reunir cerca de 80 países que já declararam ter interesse no mapa do caminho na COP30.

Fonte: ClimaInfo

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

3º Leilão do Eco Invest mobiliza R$ 52,8 bilhões em investimentos em participação societária para transformação ecológica

Iniciativa orienta a transição da economia brasileira com foco em bioeconomia, indústria verde e finanças sustentáveis. - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Resultado viabilizará investimentos de longo prazo em projetos de bioeconomia, transição energética e economia circular

terceiro leilão do Programa Eco Invest Brasil mobilizou R$ 52,8 bilhões em investimentos em participação societária (equity). O resultado foi divulgado nesta quarta-feira (28/1) pelo Tesouro Nacional. Coordenada pelos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Fazenda, a iniciativa tem como objetivo atrair investimentos externos em equity para projetos voltados à transição ecológica, com recursos do Fundo Clima.

Acesse o Relatório Consolidado do 3º Leilão do Programa Eco Invest Brasil aqui.

Do volume total demandado, foram homologados R$ 15 bilhões em capital público catalítico, montante com potencial para destravar os aportes em equity. Nesta etapa, os recursos do Eco Invest serão repassados a instituições financeiras para a estruturação de instrumentos de mitigação de riscos cambial e de desempenho dos projetos, sem aplicação direta nos empreendimentos beneficiados.

Para a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, o resultado evidencia a convergência entre política ambiental, inovação e desenvolvimento econômico e reforça a relevância de instrumentos econômicos para acelerar a transição ecológica no país.

“O Eco Invest Brasil exemplifica a atuação integrada do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima com o Ministério da Fazenda, o Tesouro Nacional, o BNDES e parceiros internacionais para alavancar investimentos privados a partir de recursos públicos. A iniciativa tem como base o Fundo Clima, que saiu do patamar de cerca de R$ 400 milhões por ano para R$ 51 bilhões, já considerando o orçamento de 2026, com recursos do Governo do Brasil, ampliando de forma expressiva a capacidade de indução do Estado. Na mesma direção, o Eco Invest já ultrapassa R$ 127 bilhões em potencial de mobilização de recursos para a transição ecológica, evidenciando o apetite do setor privado por projetos sustentáveis e inovadores”, afirmou.

Os recursos viabilizados pelo leilão devem apoiar investimentos de longo prazo no Brasil, voltados a empresas de base tecnológica, startups e negócios em expansão, por meio de estratégias de private equity e venture capital. Os aportes serão direcionados a projetos nas áreas de bioeconomia, transição energética e economia circular, incluindo iniciativas como superalimentos, biofertilizantes, hidrogênio verde, biogás, bioplásticos, gestão de resíduos sólidos e reciclagem de baterias.

Para o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, o resultado representa uma mudança de patamar para o mercado brasileiro de investimentos em participação societária. O desempenho, segundo Haddad, também foi impulsionado pelo mecanismo inédito incorporado na edição, o hedge cambial, que ofereceu ao investidor um instrumento de proteção parcial contra as variações do real.

“Estamos falando de um montante inédito até então e não apenas no âmbito do Programa, mas no mercado como um todo. Esse resultado muda o ponteiro dos mercados de private equity e venture capital no Brasil. Com esse nível de capital, aliado à proteção cambial e a um desenho de risco bem calibrado, a tese do hedge cambial se concretiza e o mercado ganha previsibilidade para operar valores maiores e ampliar o apetite por projetos de inovação alinhados à transformação ecológica”, afirmou.

Nesta rodada, seis instituições financeiras tiveram propostas homologadas. O Itaú concentrou a maior parcela dos recursos, com previsão de responder por cerca de 50% do volume total aprovado, equivalente a uma carteira próxima de R$ 30 bilhões. Em seguida aparece a Caixa Econômica Federal, com investimentos estimados em R$ 9 bilhões. Bradesco, HSBC, BNDES e Banco do Brasil também foram selecionados, indicando a participação do sistema financeiro no financiamento de iniciativas voltadas à transição ecológica.

“Programas como o Eco Invest Brasil refletem a maturidade do Brasil em se posicionar na economia verde global. O Reino Unido apoia esse esforço por reconhecer seu potencial de integração internacional e de atração de investimentos sustentáveis”, afirmou a embaixadora do Reino Unido no Brasil, Stephanie Al-Qaq.

"O grande sucesso do terceiro leilão do Eco Invest é motivo de orgulho para o Grupo BID, parceiro da iniciativa desde sua concepção, e indica que este é um modelo de incentivo a projetos de desenvolvimento que pode ser escalável", avalia o presidente do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento, Ilan Goldfajn.

Além de apoiar projetos inovadores, o programa busca ampliar a escala das tecnologias desenvolvidas e fortalecer a competitividade das empresas brasileiras. A iniciativa também favorece a inserção do país nas cadeias globais de valor, ao ampliar o acesso de empresas nacionais a mercados internacionais e potencializar seus impactos econômico e ambiental.

4º Leilão em curso: bioeconomia e turismo sustentável

Lançado durante a COP30, em 2025, o 4º Leilão do Programa Eco Invest Brasil mira no desenvolvimento de projetos de bioeconomia, turismo sustentável e infraestrutura habilitante com foco na Amazônia. O prazo para submissão segue até 25 de fevereiro de 2026, e a publicação do resultado final será até 40 dias após essa data.

A construção dessas cadeias constitui o eixo central desta rodada em andamento. O desenho do leilão busca desenvolver mercados regionais e integrar comunidades, empreendedores, cooperativas, empresas-âncora e instituições financeiras, criando ambientes econômicos capazes de competir com atividades historicamente associadas à pressão ambiental.

O Eco Invest Brasil

O Programa Eco Invest Brasil é conduzido de forma conjunta pelos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Fazenda, com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Embaixada do Reino Unido no Brasil.

A iniciativa está inserida no Novo Brasil, Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, que orienta a transição da economia brasileira com foco em bioeconomia, indústria verde e finanças sustentáveis.

Após a homologação do leilão, as instituições financeiras terão prazo de até 24 meses para captar recursos externos e de até 60 meses para efetivar os aportes nas empresas investidas, em conformidade com as práticas do mercado de investimentos em participação societária. Com a realização de três leilões, o Eco Invest Brasil soma R$ 127 bilhões mobilizados para a agenda de transição ecológica no país.

Fonte: MMA



sábado, 7 de fevereiro de 2026

Governo do Brasil divulga sumário executivo do Plano Clima: saiba mais



Documento sintetiza as Estratégias Nacionais de Adaptação e Mitigação e os planos setoriais e temáticos

O Governo do Brasil divulgou, nesta quinta-feira (5/2), o sumário executivo do Plano Clima, o guia de implementação da meta climática nacional sob o Acordo de Paris (a NDC, na sigla em inglês), pela qual o Brasil se comprometeu a reduzir entre 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 em relação a 2005.

Acesse aqui o sumário executivo do Plano Clima.

A publicação sintetiza o conjunto de documentos que compõem o Plano Clima e apresenta os principais elementos das Estratégias Nacionais de Adaptação e de Mitigação, bem como de seus respectivos Planos Setoriais e Temáticos.

As diretrizes reunidas no sumário executivo foram aprovadas pelos ministérios que integram o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), principal instância de governança climática do país, durante a 4ª reunião ordinária do colegiado, em dezembro de 2025.

A elaboração do plano é resultado de amplo processo colaborativo, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em conjunto com a Casa Civil da Presidência da República e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), no âmbito dos Grupos Técnicos de Adaptação e Mitigação do CIM.

O Plano Clima está estruturado em dois eixos principais. O de Adaptação que objetiva aumentar a resiliência de cidades, ecossistemas e populações diante dos impactos climáticos já em curso, com prioridade para grupos em situação de maior vulnerabilidade, à luz do princípio da justiça climática. É composto pela Estratégia Nacional de Adaptação e por 16 Planos Setoriais e Temáticos.

O eixo de Mitigação é voltado à redução das emissões de gases de efeito estufa e reúne a Estratégia Nacional de Mitigação e oito Planos Setoriais. Contém um guia para a execução dos compromissos da NDC brasileira e define metas de redução de emissões em oito áreas estratégicas: agricultura e pecuária; uso da terra em áreas públicas e territórios coletivos, como Unidades de Conservação, Terras Indígenas, assentamentos, áreas quilombolas e vazios fundiários; uso da terra em propriedades rurais privadas; energia; indústria; transportes; cidades; e resíduos sólidos e efluentes domésticos.

A meta é reduzir as emissões de gases de efeito estufa de 2,04 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, registradas em 2022, para 1,2 bilhão de toneladas até 2030. Em 2035, o volume deverá ficar entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas, o que representa queda de 58% a 49% em relação aos níveis de 2022.

O Plano Clima conta ainda com as Estratégias Transversais para a Ação Climática, que reúnem os instrumentos que dão sustentação à implementação do Plano Clima, ao definir prioridades para os meios de execução, investimentos em educação, pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de garantir transparência no acompanhamento e na avaliação das ações, sob as perspectivas da transição justa, da justiça climática e da igualdade de gênero. Atualmente, estão sendo consolidadas as contribuições recebidas durante a consulta pública das Estratégias Transversais, cuja finalização está prevista para o primeiro semestre de 2026.

A versão completa do Plano Clima está na fase final de diagramação, catalogação e registro para identificação internacional. Concluídos esses trâmites, os documentos serão disponibilizados à sociedade.

Processo participativo

O Plano Clima foi elaborado a partir de um amplo processo participativo, que incluiu dezenas de oficinas e reuniões técnicas, além de nove plenárias territoriais realizadas em todas as regiões do país. Ao todo, mais de 24 mil pessoas participaram das discussões, que resultaram em 1.292 propostas voltadas às Estratégias Nacionais de Adaptação e Mitigação e aos planos setoriais.

Outra contribuição veio da 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente, cujo foco na Emergência Climática deu origem a 104 propostas incorporadas ao debate.

Além disso, durante a consulta pública, o Plano Clima recebeu quase 3 mil contribuições da sociedade.

Fonte: MMA


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Sumário executivo do Plano Clima: o que dizem as metas

O Sumário Executivo do Plano Clima foi finalmente publicado, trazendo um panorama geral dos 16 Planos Setoriais de Adaptação e agora 8 (eram 7) Planos Setoriais de Mitigação e suas respectivas Estratégias Nacionais. As metas distribuídas confirmaram os números informados em nossa análise em dezembro: os maiores esforços para redução das emissões até 2035 se concentrarão no setor Uso da Terra, dividido em dois planos. Um contemplará as áreas públicas e territórios coletivos; outro, as áreas rurais privadas.

O Plano Setorial de Mudanças do Uso da Terra em Áreas Rurais Privadas, criado para tirar do Plano da Agropecuária as emissões relacionadas ao desmatamento nas propriedades rurais, não menciona, ao menos no Sumário, o termo “desmatamento”. Sua meta número um é “Eliminar a supressão de vegetação nativa não autorizada e reduzir a extração ilegal de madeira e incêndios em áreas rurais privadas”. No detalhamento dos tetos de emissões do plano, desmatamento legal e ilegal nesses imóveis têm uma meta conjunta de redução de um pouco mais da metade do que foi emitido em 2022, o ano base. E a outra meta quantitativa junta os resultados por manutenção da vegetação primária, recuperação da vegetação secundária, recuperação de pastagens, florestas comerciais e produtos florestais madeireiros: mais do que dobrar as remoções de CO2e em relação a 2022.


A questão persiste: quais serão os mecanismos financeiros capazes de incentivar o alcance dessas metas que dependem da implementação de um setor avesso a até mesmo nominar o problema do desmatamento?

Mais esclarecimentos devem ser possíveis com a publicação integral dos Planos Setoriais e Estratégia Nacionais e, posteriormente, as Estratégias Transversais. Ainda não foi divulgado cronograma sobre isso.

Entrando na etapa de implementação e de se construir uma governança sólida para seu monitoramento, avaliação e revisão, será necessário olhar para a transição para uma sociedade de baixo carbono para além do corte de emissão, incluindo os avanços em adaptação e as lacunas para financiar a construção de resiliência. Do ponto de vista da mitigação, se os cortes de gases do efeito estufa estão concentrados sobretudo no uso da terra, setores como Energia e Indústria deverão fazer sua parte avaliados não apenas pelos seus resultados em emissões, já que os números lhes dão espaço para emitir do que em 2022.

Fonte: Política por Inteiro



domingo, 25 de janeiro de 2026

Eólica e solar superam geração a combustíveis fósseis na UE pela primeira vez

Ilustração de ClimaInfo por Ian Stiepcich

Para o Ember, o marco alcançado pelo bloco em 2025 é um ponto de virada crucial para as energias renováveis em uma era de instabilidade geopolítica.

Em 2025, pela primeira vez, a geração elétrica eólica e solar na União Europeia (UE) superou a produção de eletricidade a partir de combustíveis fósseis. É o que mostra o relatório “European Electricity Review 2026”, do think tank Ember, lançado na 4ª feira (21/1).

Turbinas eólicas e painéis fotovoltaicos geraram 30% da eletricidade da UE no ano passado, mostra o documento. Já as termelétricas a carvão, gás e outros combustíveis de origem fóssil responderam por 29% da demanda elétrica, relatam The Guardian e Al Jazeera.

Sozinha, a energia solar foi responsável por 13% da geração elétrica e cresceu mais de 20% pelo quarto ano consecutivo, superando tanto o carvão quanto a hidreletricidade, destaca a Reuters. A geração solar cresceu em todos os países da UE, com a ampla instalação de painéis solares, e forneceu mais de um quinto da eletricidade em Hungria, Chipre, Grécia, Espanha e Holanda em 2025.

Analista sênior de Energia da Ember e principal autora do relatório, Beatrice Petrovich, afirma que o marco é um “ponto de virada crucial” de importância estratégica para a UE, que tem demonstrado crescente preocupação com sua dependência energética de outros países. “A importância disso vai além do setor de energia”, disse ela. “O perigo de depender de combustíveis fósseis é iminente em um cenário geopolítico instável.”

Em dezembro passado, a UE aprovou uma legislação que proíbe as importações de gás fóssil da Rússia até ao final de 2027. No entanto, surgiram novas dependências com o aumento das importações de gás liquefeito (GNL) dos EUA. A forte dependência de um único fornecedor ameaça a segurança do bloco e enfraquece o poder de negociação em contextos geopolíticos e em disputas comerciais, reforça a Ember.

Por isso, a expansão de projetos de armazenamento, sobretudo de baterias, o reforço da rede e o aumento da flexibilidade do lado da demanda permitem uma maior participação solar e eólica no mix energético. O que não só melhorará a segurança energética, mas também é crucial para garantir preços previsíveis e estáveis, reforça o think tank.A virada renovável da UE foi repercutida também em ESG News, Renewables Now, ANSA, Business Green e SustainableViews.

Fonte: ClimaInfo


Queda histórica do carvão na China e na Índia sinaliza avanço da transição energética

 

Uma usina de energia solar fotovoltaica de 50 MW construída na província de Shanxi, em 2017. Crédito: Planet Labs/Wikipédia

Expansão recorde de solar e eólica permitiu redução inédita do combustível fóssil nos dois maiores consumidores de carvão do mundo, segundo análise do Carbon Brief

Karina Pinheiro

Pela primeira vez em 52 anos, a geração de eletricidade a partir do carvão caiu simultaneamente na China e na Índia, segundo análise publicada pelo site especializado Carbon Brief. O recuo foi registrado em 2025 e ocorre após um ano de expansão recorde das fontes renováveis nos dois países, hoje os maiores consumidores de carvão do mundo.

De acordo com o levantamento, baseado em dados do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA), a produção de energia a carvão diminuiu 1,6% na China e 3% na Índia em relação a 2024. Em termos absolutos, a redução combinada supera 110 terawatts-hora (TWh), volume equivalente ao consumo anual de eletricidade de países de médio porte.

A queda interrompe uma tendência contínua de crescimento observada desde 1973, período em que a expansão econômica dessas nações esteve historicamente associada ao aumento do uso de combustíveis fósseis, especialmente do carvão.

Renováveis crescem acima da demanda

O recuo ocorreu apesar do aumento da demanda por eletricidade nos dois países. Em 2025, tanto China quanto Índia registraram crescimento no consumo de energia, impulsionado pela indústria, pela urbanização e pela digitalização da economia. Ainda assim, a expansão acelerada de fontes renováveis (como solar e eólica) foi suficiente para atender essa demanda adicional sem ampliar a geração a carvão.

Na China, a produção total de eletricidade aumentou, mas a geração térmica caiu pela primeira vez em uma década. O país instalou volumes recordes de capacidade solar e eólica ao longo do ano, reduzindo a participação do carvão na matriz elétrica. Na Índia, a expansão das renováveis também superou o crescimento do consumo, levando à retração da geração fóssil.

Segundo o Carbon Brief, esse movimento indica que as fontes limpas começaram a substituir, na prática, parte da eletricidade antes produzida por usinas a carvão, e não apenas a complementar o sistema.

A inflexão é considerada relevante para o enfrentamento da crise climática. China e Índia respondem por uma parcela significativa das emissões globais de dióxido de carbono do setor elétrico e foram responsáveis por cerca de 93% do aumento dessas emissões entre 2015 e 2024.

O carvão é o combustível fóssil mais intensivo em emissões de gases de efeito estufa. Qualquer redução sustentada em seu uso, especialmente em países de grande escala, tem impacto direto sobre o ritmo de crescimento das emissões globais.

Transição sob disputa

O cenário descrito pelos dados revela uma transição energética em curso, mas ainda marcada por contradições. De um lado, a rápida expansão das fontes limpas demonstra que é possível reduzir o uso do carvão mesmo em economias de grande porte e crescimento acelerado. De outro, interesses econômicos, limitações de infraestrutura e preocupações com segurança energética mantêm o combustível fóssil como peça central das matrizes nacionais.

Um relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) divulgado em outubro de 2025 afirma que, além de expandir a capacidade de energias renováveis, é urgente investir estrategicamente na modernização e expansão das redes de eletricidade para integrar novas capacidades e fortalecer a segurança energética, bem como ampliar soluções de armazenamento de energia para facilitar a integração das renováveis e proteger a estabilidade da rede. O documento estima que cerca de US$ 670 bilhões por ano precisarão ser direcionados às redes até 2030, além de recursos adicionais para armazenamento e integração ao sistema.

A retração simultânea do carvão na China e na Índia é considerada um marco simbólico da transição energética global. O dado sugere que o crescimento econômico não precisa estar necessariamente vinculado ao aumento do uso de combustíveis fósseis.

No entanto, diante da aceleração das mudanças climáticas e da necessidade de cortes rápidos nas emissões, o avanço ainda é visto como insuficiente. A consolidação dessa tendência dependerá de decisões políticas capazes de transformar recordes pontuais de energia limpa em mudanças estruturais duradouras.

Fonte: ((O)) Eco




sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A cada dólar investido na proteção da Natureza, US$ 30 são aplicados em sua devastação

Wirestock

Segundo o PNUMA, a maior parte das finanças para o bem-estar ambiental é estatal; o organismo propõe cortar subsídios e investimentos destrutivos.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou na 5ª feira (22/1) o relatório “Estado das Finanças para a Natureza 2026”, com dados de 2023. O documento comprova que, quando se trata de investimentos em meio ambiente, estamos (muito) no vermelho. Afinal, para cada dólar investido na proteção da Natureza, o mundo gasta mais de US$ 30 na sua destruição.

O relatório revela que o financiamento diretamente prejudicial à Natureza atingiu US$ 7,3 trilhões (R$ 38,8 trilhões) em 2023, ante apenas US$ 220 bilhões (R$ 1,1 trilhão) de investimentos em soluções baseadas na natureza (SbN), destaca o Down to Earth. A proporção de 33:1 em favor de atividades negativas para a Natureza alimenta a tripla crise planetária das mudanças climáticas, da perda de biodiversidade e da poluição, alerta o documento.

O levantamento considera as finanças públicas e privadas globais, explica a Folha. Dos fluxos de financiamento prejudiciais à Natureza, US$ 4,9 trilhões (R$ 26 trilhões) foram provenientes de fontes privadas e US$ 2,4 trilhões (R$ 12,7 trilhões) de subsídios públicos. Já dos investimentos em SbN, 90% – US$ 197 bilhões (R$ 1 trilhão) – são provenientes de fontes públicas.

“Se você seguir o fluxo do dinheiro, verá a dimensão do desafio que temos pela frente. Podemos investir na destruição da Natureza ou impulsionar sua recuperação – não há meio-termo”, diz Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA. “Enquanto o financiamento de soluções baseadas na natureza avança a passos de tartaruga, investimentos e subsídios prejudiciais disparam. Este relatório oferece aos líderes um roteiro claro para reverter essa tendência e trabalhar com a Natureza, em vez de contra ela.”

O PNUMA reforça que os investimentos em iniciativas focadas no meio ambiente deveriam crescer 2,5 vezes, chegando a US$ 571 bilhões (R$ 3 trilhões) por ano até 2030, para que sejam cumpridas as metas do mais recente tratado da ONU para a biodiversidade. Pode parecer muito, mas o valor representa apenas 0,5% do PIB global em 2024. A projeção do órgão é que esse valor precise atingir US$ 771 bilhões (R$ 4,1 trilhões) anuais até 2050.

Ainda que a escala desse tipo de mudança seja desafiadora, o relatório apresenta exemplos de países que estão adotando medidas concretas para implementá-la.

Na Costa Rica, o reflorestamento de terras degradadas em nível nacional foi viabilizado por meio de incentivos financeiros provenientes de uma taxa sobre combustíveis fósseis. Já na Dinamarca, a transição dos combustíveis fósseis foi acelerada pelo direcionamento de verba arrecadada com impostos sobre energia para pesquisas científicas voltadas à energia eólica. Também foram utilizados mecanismos, como a taxação das emissões de carbono e contratos mais longos e estáveis para produtores de energia renovável. Outlook Business, ECO e SustainableViews também repercutiram o relatório do PNUMA.

Fonte: ClimaInfo




sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sob Trump, emissões de carbono crescem nos EUA em 2025

Ilustração criada via IA (Gemini).

Depois de dois anos de declínio, as emissões de gases de efeito estufa aumentaram 2,4% nos EUA, puxadas pela retomada da geração termelétrica.

Um levantamento publicado pela consultoria Rhodium Group nesta semana indicou que as emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos aumentaram 2,4% em 2025, revertendo dois anos de quedas sucessivas. A análise considera apenas as emissões associadas à geração de energia elétrica.

Segundo a análise, os EUA emitiram 5,8 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (GtCO2e) em 2025, o que representa 139 milhões de toneladas (MtCO2e) a mais do que em 2024. Em grande parte, a alta está relacionada à maior queima de carvão para geração termelétrica. Como assinalado pela Associated Press, o aumento dos preços do gás natural contribuiu para um crescimento de 13% na geração de energia a carvão, que havia diminuído em quase 2/3 desde o pico em 2007.

Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, o desmonte das políticas climáticas norte-americanas por Trump ainda não se reflete nesses números. Para eles, a alta está associada à retomada da geração termelétrica no país, motivada pelo aumento da demanda por energia elétrica no último ano, especialmente no inverno.

“Não prevemos um grande impacto nas emissões em 2025 devido às ações do governo Trump, embora obviamente esperemos que eles tenham um impacto crescente no futuro”, afirmou Michael Gaffney, analista de pesquisa do Rhodium Group, ao NY Times. “O principal fator foi, em parte, o clima e, em parte, um setor de energia em expansão que está queimando mais carvão.”

Segundo a BBC, um fator contribuinte para o aumento da demanda por eletricidade, que vinha estável nos EUA na última década, é o crescimento dos data centers espalhados pelo país. A expansão dessas instalações e das operações de mineração de criptomoedas em estados como Texas e Ohio exigiu energia adicional. Em boa parte, essa demanda adicional foi atendida pelo carvão.

ABC News e Washington Post, entre outros, também abordaram a alta das emissões de carbono nos EUA.

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Em tempo: Por décadas, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA usou estimativas de custos de crises de asma e de mortes prematuras evitadas para justificar restrições à poluição industrial. No entanto, o governo Trump alegou que essas estimativas seriam “duvidosas” e decidiu que, a partir de agora, apenas os custos para as empresas serão considerados na definição de normas antipoluição. A medida foi criticada por especialistas. “Se você considerar apenas os custos para a indústria e ignorar os benefícios, não poderá justificar qualquer regulamentação que proteja a saúde pública”, disse Richard Revesz, da Universidade de Nova York, ao NY Times. Associated Press, Bloomberg e Washington Post também repercutiram a notícia.

Fonte: InfoClima












quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Controle do petróleo venezuelano pelos EUA desafia a transição energética

Montagem ClimaInfo em cima de imagem gerada por IA

Política trumpista reafirma distanciamento dos EUA das renováveis, na contramão do resto do mundo.

Ao atacar a Venezuela, o negacionista Donald Trump não negou seus verdadeiros interesses no país. Democracia? Que nada, segundo Trump, a Venezuela “roubou” petróleo dos EUA. “Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, motivação e habilidade americanos, e o regime socialista roubou isso de nós durante esses governos anteriores”, alegou, em referência à ExxonMobil e à ConocoPhillips, petrolíferas cujos ativos foram expropriados por Hugo Chávez.

Petróleo, petróleo, petróleo, é só isso que consta na agenda de Trump. Para o cientista político norte-americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia, ouvido pela Folha, os EUA cometeram um erro estratégico ao preterir a transição energética, o que resultou em uma política externa unilateral, pouco coordenada com aliados e uma diplomacia movida por impulsos pessoais. Ao contribuir para um ambiente global instável, os EUA figuram na 1ª posição entre as ameaças à ordem global, segundo o relatório do grupo Eurasia sobre os maiores riscos de 2026.

A Deutsche Welle explica por que o petróleo venezuelano importa para os EUA: apesar de ser um grande produtor de petróleo bruto, o país não produz o tipo mais pesado e viscoso, que muitas de suas refinarias, em especial no Golfo do México, são equipadas para refinar.

Esse é o tipo de petróleo extraído da Venezuela. Apesar da indústria venezuelana estar defasada, o país abriga as maiores reservas globais de petróleo pesado, tendo abastecido a indústria americana por muitas décadas.

“Os Estados Unidos estão cada vez mais retrocedendo na transição energética e, além disso, estão muito dispostos e aptos a mobilizar forças militares para atingir esse objetivo”, afirmou Li Shuo, diretor do centro de clima da China no Instituto de Política da Sociedade Asiática, à CNN Brasil.

Enquanto Washington trata a transição energética como ativismo “woke”, a China consolida sua liderança em energia renovável, barata e em grande escala, sem muita resistência de sua oponente no xadrez global. O governo Trump informou à presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que o país deve cortar laços com a nação asiática e também com o Irã, a Rússia e Cuba e concordar em vender seu petróleo exclusivamente para os EUA.

Além da audácia descarada, o fanatismo de Trump o cega a uma informação óbvia: a China não precisa do petróleo da Venezuela, enquanto a economia da Venezuela precisa da China. A China é uma das maiores compradoras de petróleo venezuelano, mas os investimentos na transição energética, em especial na eletrificação do setor de transporte, estão distanciando o país da dependência de combustíveis fósseis. O país liderou com folga a venda de veículos elétricos globalmente em 2025: dos 18,5 milhões, 11 milhões foram vendidos na China.

No mesmo ano, o país também estava construindo 510 gigawatts de capacidade de geração de eletricidade solar e eólica. A promessa era chegar a 3.600 gigawatts implantados em energia solar e eólica, o que equivale a seis vezes mais do que em 2020. Especialistas projetam que o país já atingiu, ou atingirá muito em breve, seu pico de consumo de petróleo.

O tabuleiro geopolítico ainda é incerto devido aos passos imprevisíveis de Trump. Mas já sabemos quem perde: o povo venezuelano, que tem sua economia refém da variabilidade dos preços internacionais dos combustíveis fósseis e atrelada à concentração de renda, à guerra e às mudanças climáticas. Perde também o povo estadunidense, que vê o país desmontar órgãos e políticas climáticas como nunca antes, o multilateralismo e a política climática global.

Quanto mais investimento em fósseis e guerras, menos espaço temos para avançar em agendas como o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis, tão necessárias para limitar o aquecimento global a 1,5°C.

IstoÉ Dinheiro, Estadão, Globo, Um Só Planeta, Nexo, g1 e Climate Change News também falaram do assunto.

Fonte: ClimaInfo


UNFCCC: saída dos EUA coloca em xeque diplomacia climática


A irresponsabilidade de Trump não apaga a responsabilidade histórica dos EUA pela crise climática nem a omissão do país em enfrentá-la.


Os Estados Unidos de Donald Trump começaram o ano de 2026 testando os limites do multilateralismo e da diplomacia. Dias após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, em flagrante violação ao direito internacional, o governo anunciou na última 4ª feira (7/1) a saída de vários organismos e regimes internacionais por supostamente “contrariarem” os interesses do país. Um dos alvos foi a governança climática global, que agora não conta com o envolvimento da maior economia do planeta.

Entre os acordos e organizações abandonados pelos EUA, estão o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Convenção-Quadro da ONU sobre Clima (UNFCCC). A decisão formaliza algo que vinha ocorrendo na prática desde a volta de Trump ao poder em Washington, há quase um ano. Ao longo de 2025, os EUA não participaram de nenhuma sessão de negociação sobre o clima e sequer enviaram representantes a eventos importantes, como a COP30 em novembro passado.

O distanciamento dos EUA da diplomacia climática global faz parte dos esforços de Trump para desmontar as bases da ação climática dentro e fora do país. No último ano, a Casa Branca acabou com as políticas climáticas deixadas pelo ex-presidente Biden e enfraqueceu os órgãos e as leis ambientais federais. Ao mesmo tempo, favoreceu os interesses da indústria de combustíveis fósseis, com sinal verde para exploração em áreas ambientalmente sensíveis e para o crescimento da exploração nos próximos anos.

Na relação de 66 órgãos e regimes internacionais que deixarão de contar com os EUA, estão também a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). Em alguns casos, a saída é imediata, dependendo apenas de comunicação pelo Departamento de Estado.

Já no caso da UNFCCC, o caminho para a porta de saída é mais incerto. Formalmente, os EUA devem comunicar ao Secretariado da Convenção a denúncia do tratado, o que inicia o período de um ano para a formalização da saída. No entanto, como assinalou o Guardian, há dúvidas quanto à constitucionalidade da decisão nos EUA, já que a adesão do país à UNFCCC foi referendada pelo Senado norte-americano em 1992; alguns juristas argumentam que, da mesma forma, a denúncia da Convenção também precisaria ser aprovada pelos senadores.

As reações à decisão de Trump foram fortes, ao menos no discurso. O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, lembrou o papel crucial dos EUA na construção do regime multilateral para o clima desde os anos 1990 e ressaltou que, apesar dos solavancos que essa medida pode causar nas negociações climáticas, os EUA serão os principais prejudicados. “Enquanto todas as outras nações avançam juntas, este último passo atrás na liderança global, na cooperação climática e na ciência só poderá prejudicar a economia, os empregos e o padrão de vida dos EUA”, afirmou em nota.

Já as organizações da sociedade civil condenaram a irresponsabilidade do governo dos EUA ao dar as costas para um problema que eles próprios causaram. “O anúncio não apaga a responsabilidade histórica [dos EUA] por prejudicar nosso planeta e as pessoas, nem por não fornecer os fundos necessários para apoiar os países em desenvolvimento no enfrentamento das consequências de seu modelo econômico irresponsável”, destacou Tasneem Essop, diretora-executiva da Climate Action Network (CAN International).

Thelma Krug, cientista brasileira e ex-vice-diretora do IPCC, afirmou à Folha que, com a saída dos EUA, Trump pretende aumentar a incerteza nas conclusões dos próximos relatórios do Painel sobre a crise climática. “A partir do instante em que deixa de ter muitas publicações [de pesquisas norte-americanas], vai ficando mais incerto [o conhecimento científico], e eu acho que é isso que o Trump quer. Ele quer dar mais incerteza às conclusões, porque não vamos ter observações, não vamos ter alguns dados”, pontuou.

A saída dos EUA da Convenção do Clima e do IPCC teve grande repercussão na imprensa, com destaques na BBC, Carbon Brief, Climate Home, CNN, Deutsche Welle, Guardian, NBC News, NY Times e Reuters. No Brasil, veículos como Capital Reset, Folha, Neomondo, ((o)) eco, Um Só Planeta e Valor repercutiram a notícia.

Fonte: ClimaInfo




segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Trump’s exit from global climate treaties will have little effect outside US

Donald Trump at an event during his campaign for the 2024 presidential election. Photograph: Alex Brandon/AP

For much of the last 30 years, the rest of the world has been forced to persevere with climate action in the face of US intransigence

Fiona Harvey and Oliver Milman

Donald Trump’s latest attack on climate action takes place amid rapidly rising temperatures, rising sea levels, still-rising greenhouse gas emissions, burgeoning costs from extreme weather and the imminent danger that the world will trigger “tipping points” in the climate system that will lead to catastrophic and irreversible changes.

The US president’s decision to withdraw from the UN Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) and the world’s leading body of climate scientists, the Intergovernmental Panel on Climate Change, will not alter any of those scientific realities.

Nor will it do much, at least in the short term, to alter the economic reality that the push to a low-carbon world is proving an engine of growth for scores of countries. Global investment in low-carbon energy now outstrips that in fossil fuels by two to one. Taking over Venezuela’s basket-case oil industry will make no perceptible difference.

Simon Stiell, the UN’s climate chief, said US citizens and companies would bear the impact. “It is a colossal own goal which will leave the US less secure and less prosperous,” he said. “It will mean less affordable energy, food, transport and insurance for American households and businesses as renewables keep getting cheaper than fossil fuels, as climate-driven disasters hit American crops, businesses and infrastructure harder each year and as oil, coal and gas volatility drives more conflicts, regional instability and forced migration.”

Trump’s actions were hardly unexpected: withdrawing from the Paris agreement, to which the UNFCCC is the parent treaty, was one of his second-term priorities, begun on his first day. Withdrawing from the UNFCCC will mean the US no longer has a seat at the annual “conference of the party” (Cop) meetings, and withdrawing from the IPCC will mean the US no longer has a veto over the “summary for policymakers” that accompanies its seven-yearly reports.

Seen from other countries, the experience is a familiar one. For much of the last 30 years, the rest of the world has been forced to persevere with climate action in the face of US intransigence: the 1997 Kyoto protocol was prevented from coming into force until 2004 because the US Senate would not ratify it; under George W Bush, the US attended the annual Cops but often obstructed them; and in Trump’s first term, the withdrawal from the Paris agreement failed to provoke any others to follow suit.

Mohamed Adow, the director of the thinktank Power Shift Africa, predicts countries will take a similar attitude this year, carrying on without the US. “The climate movement is bigger than any one nation,” he said. “African nations and the global south will continue pushing for climate justice, demanding that wealthy polluters honour their historical responsibilities, and building the clean energy future our people deserve.”

While the political aspect of climate action struggles to gain top-level attention in a world beset by conflict, the economics of the low-carbon transition have taken on a life of their own. That may be where Trump’s actions look increasingly, in the words of the former secretary of state John Kerry, like a “self-inflicted wound”.

Investment in low-carbon forms of energy is now above $2tn a year, dwarfing the $1tn spent on fossil fuels. Renewable energy alone grew 15% last year, accounting for more than 90% of all new power generation capacity. Electric vehicles now account for about a fifth of new cars sold around the world. Low-carbon power makes up more than half of the generation capacity of China and India, and China’s exports of low-carbon goods and services topped $20bn in a single month last year.

Solar panels in Pingjing village in Anqing, China. Photograph: Costfoto/NurPhoto/Rex/Shutterstock

China is likely to remain committed to its increasingly vibrant low-carbon economy, according to Li Shuo, the director of the China Climate Hub at the Asia Society Policy Institute. “This commercial dynamism is happening increasingly between China and the global south,” he said. “These economic forces provide a more meaningful counter to Trump [than geopolitics].”

Under Trump, the US risks being left on the sidelines – a position that Kerry called a “gift to China”. The economist Nicholas Stern said: “The economics of the [low-carbon] transition look ever more attractive. Every time we look at the science it looks more worrying, and every time we look at the technology it is more encouraging. In an increasingly insecure world, countries and industries will be seeking independence from fossil fuels and the great volatility such dependence brings. In a world with sluggish growth, countries and industries will be seeking new opportunities. These will be in the technologies of the 21st century, not the 19th and 20th centuries.”

But he noted that Trump, though he could not change the economic direction of travel, could unsettle some investors on the margins. “Any actions that slow down the pace are unhelpful,” he said.

Whether Trump can unilaterally yank the US from a treaty that the Senate voted 92-0 to ratify in 1992 is a question that has legal scholars divided, although in practice America has walled itself off from the rest of the world regardless of regular processes.

In his presidential memo, Trump said the exit meant “ceasing participation in or funding to those entities to the extent permitted by law”. At the annual UN climate summit in Brazil last year, there was for the first time no official US delegation – this will now become the norm.

Keir Starmer, Luiz Inácio Lula da Silva and Prince William at Cop30 in Brazil last year, where there was no US delegation. Photograph: Mauro Pimentel/Reuters

Similarly fraught legal questions linger over what might happen should a future president seek to reengage with the world on the climate crisis. If two-thirds of a bitterly divided Senate is required to rejoin the climate treaty, American absence could become permanent. Trump’s legacy will unspool long after he withdraws to Mar-a-Lago for more golf, both in terms of US participation in climate talks and the impact of the climate crisis itself on billions of people around the world.

Meanwhile, people living in the US will be confronted with increasing frequency with the effects of the climate crisis. Wildfires last January in California forced the evacuation of more than 200,000 people. Farmers are struggling with pests, drought and floods. Homes in some areas are becoming uninsurable, and extreme weather cost the US at least $115bn last year.

The effects will be felt even by the president. Jean-Pascal van Ypersele, a former vice-chair of the IPCC, said: “The Palm Beach area of Florida, where Trump’s Mar-a-Lago residence is located, is among the areas most vulnerable to sea level rise due to global warming. The US is not immune to this problem.”

Fonte: The Guardian



domingo, 11 de janeiro de 2026

Como Trump quer deter o silencioso avanço chinês na América do Sul

Donald Trump e Xi Jinping em encontro na Coreia do Sul — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Região está na disputa entre China e EUA por concentrar a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás do Oriente Médio. Empresas chinesas se tornaram sócias de reservas no Brasil

Por Bruno Rosa — Rio de Janeiro

Pouco depois de os Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em Caracas, há uma semana, o Departamento de Estado americano publicou uma foto do presidente Donald Trump com uma frase: “Este é o nosso hemisfério”. Foi uma referência à renovação da Doutrina Monroe, de domínio das Américas pelos EUA, em curso na Casa Branca. No entanto, concordam analistas, a frase poderia muito bem ser substituída por “Este é o nosso petróleo”.

Trump nem fez questão de esconder que o controle do comércio da commodity mais importante do planeta está no centro da motivação da intervenção militar na Venezuela, sem precedentes dos EUA na América do Sul. A região vai para o centro da disputa global pelo ainda cobiçado recurso mineral por concentrar a segunda maior reserva do mundo, atrás do Oriente Médio.

Dados do setor apontam não só o aumento das compras de petróleo sul-americano pela China nos últimos anos, mas também uma transformação silenciosa do país, de cliente a detentor de reservas na região.

Essa disputa entre EUA e China tem razão econômica: as duas maiores economias do mundo consomem 35% do petróleo global, diz a Agência Internacional de Energia.

A geopolítica do setor na região — Foto: Editoria de arte

Para especialistas, a ação de Trump na Venezuela — dona da maior reserva conhecida do mundo, com produção atual longe do potencial — é parte de sua tentativa de redesenhar a geopolítica energética do continente, reforçando a presença de petroleiras americanas na América do Sul para conter o avanço das chinesas em meio a uma onda de investimentos bilionários em novas fronteiras petrolíferas que se abrem em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina. Neles, empresas americanas e chinesas já disputam reservas estratégicas diretamente.

Os principais fornecedores da China na região são Brasil e Venezuela, que somam cerca de 10% de todas as importações de petróleo do país liderado por Xi Jinping. Desde a década de 2010, petroleiras chinesas passaram a se associar a outras, como a Petrobras, para atuar na produção de óleo e gás na região, assegurando acesso a reservas estratégicas como as do pré-sal brasileiro não só como cliente.

A movimentação ainda não faz sombra à atuação das americanas, mas tende a crescer com a abertura de novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial, no litoral norte da América do Sul.

Atuação discreta

Especialistas observam que essa expansão chinesa é “silenciosa”, com petroleiras que têm atuação discreta nos países e cujas cifras investidas escapam dos principais levantamentos do setor.

Muitos investimentos chineses no setor são feitos em associação com empresas de outros países e por meio de aquisição de ativos de outras companhias de fora, sem chamar a atenção nas estatísticas de investimento estrangeiro. Essa característica faz com que os investimentos da China no setor na América Latina sejam subestimados.

Um levantamento da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), por exemplo, mapeou US$ 47,5 bilhões em investimentos em óleo e gás na região, entre 2020 e 2024, sendo US$ 1,3 bilhão chinês. Já o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) apurou US$ 6 bilhões em investimentos chineses no setor só no Brasil no período.

— Os EUA são os principais investidores na região por meio de relações antigas, sobretudo em petróleo, mas a China tem crescido na América Latina, com investimentos amplos no setor e também em energia renovável, mineração, tecnologia e infraestrutura — diz Fernanda Brandão, coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Mackenzie Rio. — Agora, os EUA vão tentar consolidar sua presença e têm mostrado que podem recorrer a meios militares para que a América Latina continue sendo uma zona de influência exclusiva, coibindo a presença chinesa.

Marcelo de Assis, sócio da Consultoria MA2Energy, também vê incômodo aos interesses dos EUA na expansão chinesa, mas acredita que a ofensiva de Trump não deve afastar a China do petróleo sul-americano. O país asiático precisa dessa fonte de energia, ainda que invista pesado em renováveis. Para o especialista, o jogo geopolítico está apenas começando na região:

— O fornecimento de 400 mil a 450 mil barris por dia da Venezuela para a China é algo fácil de ser suprido por outros países, principalmente num mercado em baixa e bem abastecido no momento. Por enquanto, é mais uma sinalização política do que um impacto econômico na China. A sinalização americana foi clara ao ser mais assertiva na presença e no controle americano na América Latina. Não espero nenhuma mudança brusca da diplomacia ou pragmatismo econômico chinês em relação à América Latina, que é o principal parceiro comercial de vários países da região.

O diretor de Conteúdo do CEBC, Tulio Cariello espera mais investimento chinês:

— A China é o principal comprador de petróleo do Brasil, cerca de 60% das exportações brasileiras. Enquanto houver leilões no Brasil, haverá presença chinesa. É uma questão de oportunidade. Há muita incerteza sobre como será o processo de transição na Venezuela, mas há um interesse claro da China na região.

Mudança de estratégia

Até o início dos anos 2000, a exploração de petróleo em países sul-americanos que abriram o setor à concorrência, como o Brasil, tinha empresas europeias e americanas como protagonistas.

Apropriação de barris, controle da venda e mercado para empresas americanas: Como Trump quer usar o petróleo da Venezuela

Isso começou a mudar nos anos 2010, quando os EUA passaram a direcionar suas atenções para o seu próprio shale gas (gás de xisto que deu ao país a autossuficiência), abrindo espaço para a incursão de estatais chinesas na região como investidoras, fazendo aquisições ou se associando a consórcios que operariam, por exemplo, os megacampos do pré-sal em parceria com a Petrobras, lembra Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV.

Neste período, a China também intensificou sua busca no mundo por outros insumos para seu crescimento acelerado, como cobre e minério de ferro, acompanhados do crédito de seus bancos estatais e investimentos em infraestrutura nos países-alvo.

Onde estão os investimentos das petroleiras americanas e chinesas na América do Sul — Foto: Editoria de arte

No Brasil, as chinesas CNOOC, CNPC e Sinopec já respondem por 6,2% da produção de petróleo, cerca de 305 mil barris por dia. Ainda estão atrás das europeias (como Shell, Total, Petrogal e Equinor), com mais de 920 mil barris diários (19%), mas à frente das americanas, que se concentram atualmente em campos brasileiros ainda em fase de exploração. A Exxon produz no Brasil hoje 7 mil barris diários, mas, com a Chevron, soma 40 áreas em desenvolvimento, contra 28 das chinesas.

Influência sobre o preço

O pesquisador da FGV observa que, com Trump, os EUA voltaram a ver o petróleo como recurso estratégico. O republicano indicou a interlocutores semana passada que quer influenciar o mercado para baratear combustíveis nos EUA com a queda do preço do petróleo, da faixa atual de US$ 60 para US$ 50, o que pode colidir com os interesses das petroleiras.

A advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou destaca o “elevado risco político” e a “fragilidade” estrutural do país. Seriam necessários ao menos R$ 100 bilhões em investimentos para retomar a capacidade de produção que a Venezuela já teve. Trump quer que as petroleiras americanas façam esses aportes em troca de altos lucros, mas executivos saíram cautelosos de uma reunião com ele na sexta-feira.

EUA prometem aumentar produção de petróleo na Venezuela: qual é o impacto no Brasil e na Petrobras?

— Do outro lado, a China vai buscar diversificar seus investimentos — pontua Paz.

Nos leilões recentes no Brasil, americanas e chinesas foram os destaques no pré-sal e em novas áreas como as bacias marítimas de Pelotas, no Sul, e Foz do Amazonas, no Norte. O mesmo se dá no Suriname e na Guiana, que recebeu investimentos de US$ 13 bilhões em 2024, e conseguiu fazer chineses e americanos se tornarem sócios no principal bloco de sua porção da Margem Equatorial.


Fonte: O Globo


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