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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Superexploração das águas subterrâneas está comprometendo a vazão dos rios no Brasil

Reservatório da represa de Itaparica, no rio São Francisco, fotografado a partir da Estação Espacial Internacional, em 2016 (crédito: Nasa/Wikimedia Commons)

Estudo constatou que mais da metade dos rios brasileiros pode sofrer redução no fluxo devido à transferência de água para os aquíferos. O bombeamento para irrigação está entre os principais fatores. Mais de 88% dos poços operam em condições ilegais

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Mais da metade dos rios brasileiros apresenta risco de redução de fluxo devido à percolação da água em direção aos aquíferos subterrâneos. Esta constatação resultou da análise de 17.972 poços em todo o território nacional. Destes, 55,4% apresentaram níveis de água abaixo da superfície dos rios mais próximos. Essa diferença no nível hidráulico cria um gradiente que favorece a percolação da água do rio para o subsolo, podendo transformar rios em perdedores de fluxo de água. O estudo, realizado por pesquisadores do país e do exterior, foi publicado no periódico Nature Communications “Widespread potential for streamflow leakage across Brazil”.

“Devido a condições climáticas e à intensa atividade agrícola, são áreas especialmente críticas a bacia do rio São Francisco e a região do Matopiba [que abrange os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia], ambas muito dependentes de águas subterrâneas para irrigação e abastecimento humano”, diz Paulo Tarso Sanches de Oliveira, segundo autor do estudo, professor de hidrologia e recursos hídricos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP).

No caso da bacia do São Francisco, 61% dos rios analisados mostraram potencial de perda de fluxo de água para o aquífero, resultado atribuído ao uso intensivo de águas subterrâneas principalmente para irrigação. A situação é ainda pior na bacia do rio Verde Grande, um afluente do São Francisco, que se estende pelo norte de Minas Gerais e sudoeste da Bahia. Neste caso, o potencial de perda de fluxo chega a afetar 74% dos rios. “Essas duas bacias são cruciais para a agricultura e geração de energia hidrelétrica no Brasil. O que está acontecendo põe em risco não apenas a sustentabilidade local, mas também a segurança hídrica, alimentar e energética em grande escala”, comenta Oliveira.

Um forte fator de impacto é a perfuração indiscriminada de poços, para irrigação agrícola ou consumo privado. Estudo publicado em 2021 por Ricardo Hirata e colaboradores mostrou que existiam naquela data cerca de 2,5 milhões de poços tubulares no Brasil e que mais de 88% deles eram ilegais, sem licença ou registro para bombeamento. O volume de água bombeada, da ordem de 17,6 bilhões de metros cúbicos por ano, seria suficiente para atender toda a população brasileira, mas era usufruído por menos de 20% da população.

Além de o bombeamento comprometer seriamente a vazão dos rios, afetando a disponibilidade de água para o consumo humano, os ecossistemas aquáticos e a própria paisagem, o uso excessivo de água subterrânea pode causar a subsidência do solo – isto é, o afundamento e até mesmo o colapso da superfície. “Esse cenário já foi observado na Índia e na Califórnia, e o Brasil pode vir a enfrentar problemas semelhantes se não houver planejamento e controle adequados. O alerta é ainda mais relevante diante das projeções que indicam um aumento superior a 50% nas áreas irrigadas no país nos próximos 20 anos, o que pressionará ainda mais os recursos hídricos superficiais e subterrâneos”, sublinha o pesquisador.

Planejamento e controle são indispensáveis, pois, apesar de deter 15% da água doce renovável do mundo, o país já está enfrentando grandes problemas hídricos, que o acirramento da crise climática deverá agravar. “A região do bioma Cerrado, que abriga importantes aquíferos e rios estratégicos, além de ser a principal área de expansão agrícola e responsável por 70% da produção de milho do país, está entre as regiões mais vulneráveis. O equilíbrio entre rios e aquíferos na região pode ser comprometido pelas recentes mudanças no uso e cobertura do solo, impulsionadas pelo avanço da fronteira agrícola e, sobretudo, pela crescente demanda por irrigação”, pontua Oliveira.

Para enfrentar esse cenário, os pesquisadores envolvidos no estudo enfatizam a necessidade de integrar a gestão de águas superficiais e subterrâneas. Ferramentas baseadas em sensoriamento remoto e dados de campo podem ajudar a mapear regiões críticas e a orientar políticas públicas. Além disso, investimentos em monitoramento hidrogeológico são cruciais. “O Brasil tem potencial para ampliar a irrigação de forma sustentável, mas é necessário planejar melhor o uso integrado das águas subterrâneas e superficiais para evitar impactos negativos”, afirma José Gescilam Uchôa, primeiro autor do artigo.

Foi ele o responsável pelo levantamento exaustivo de informações sobre os 17.972 poços investigados. Para esse levantamento, feito durante sua pesquisa de mestrado, Uchôa utilizou a base de dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Agora doutorando na EESC-USP, sob a orientação de Edson Cezar Wendland, que também assina o artigo, Uchôa está pesquisando o impacto do uso e da ocupação do solo, bem como das mudanças climáticas, nos fluxos hidrológicos entre as águas subterrâneas e superficiais em área de afloramento do aquífero Guarani. A investigação é apoiada por bolsa da FAPESP.

Oliveira e Uchôa argumentam que ainda é possível minimizar o problema, mas que medidas efetivas não podem ser postergadas, porque, do jeito que as coisas estão, a depleção do sistema hídrico já está impactando, inclusive, a saúde da população. “Em 2017, foi registrado um aumento significativo nos casos de pressão alta entre os moradores de um pequeno vilarejo no litoral de Alagoas, que consomem água proveniente do rio São Francisco. Posteriormente, constatou-se que o problema estava relacionado à ingestão de uma maior concentração de sal na água, causada pela intrusão de água do mar no rio, em decorrência da redução de sua vazão”, informa Oliveira. O assunto foi objeto de reportagens na mídia.

O estudo em pauta é muito significativo para o Brasil, que pode enfrentar um agravamento do estresse hídrico, com consequências severas para o abastecimento de água, a segurança alimentar e os ecossistemas. Mas seu alcance é ainda maior, pois serve como um chamado global para a revisão de estratégias de manejo hídrico em países tropicais, onde o uso crescente de águas subterrâneas coloca em risco os recursos hídricos superficiais.

O artigo Widespread potential for streamflow leakage across Brazil pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41467-024-54370-3.

Fonte: Agência FAPESP 



segunda-feira, 15 de junho de 2020

Desmatamento pode favorecer novas pandemias



Com o desmatamento das florestas, aumenta a aproximação de humanos com outros primatas, facilitando a transmissão de doenças

Diversas pandemias já foram causadas por vírus transmitidos de animais para humanos, como HIV, Sars-CoV e Sars-CoV-2. Essas e outras patologias podem ser causadas pelo desmatamento contínuo para uso agrícola do solo ou habitação humana, aproximando animais silvestres e seus vírus das pessoas. É o que afirma um novo estudo publicado na revista Landscape Ecology.

A pesquisa buscou entender como os comportamentos humanos podem influenciar o aumento da incidência de doenças, em especial com a prática do desmatamento. Com a fragmentação de habitat, os seres humanos passaram a ter um contato mais frequente com animais silvestres.

Pelo menos 70% das enfermidades registradas desde a década de 1940 tiveram origem em animais, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Com mudanças causadas pelo ser humano na natureza e o aumento mundial do consumo de carne requisitando mais áreas para criação, outras doenças podem atingir diferentes partes do planeta de forma rápida.

Como o desmatamento favorece pandemias

Desmatamento aproxima humanos e primatas silvestres. (Fonte: Shutterstock)


O desmatamento e a fragmentação da paisagem foram identificados como processos que permitem a transmissão direta de infecções zoonóticas. Certos comportamentos humanos oferecem oportunidades de contato direto entre humanos e primatas não humanos selvagens (NHP).

Para entender o tamanho do perigo dessa aproximação, a pesquisadora Laura Bloomfield analisou famílias de indivíduos que tiveram contato com NHP e comparou com aquelas que não tiveram entre 2011 e 2015. A combinação de dados espacialmente explícitos sobre o uso da terra e os comportamentos humanos é crucial para a compreensão dos fatores sociais e ecológicos do contato humano-NHP, de acordo com a pesquisa.

O estudo ainda conclui que o aumento da densidade em torno das residências, bem como a coleta de alimentos na floresta e pequenas árvores para construção aumentam a probabilidade de contato de humanos com outros primatas. A destruição de ambientes naturais favorece a disseminação de doenças naturais de outros primatas e animais silvestres, e o desmatamento faz que com as espécies selvagens percam seu habitat e passem a viver próximas às pessoas, trazendo vírus que podem acabar causando pandemias.

Pandemia favorece desmatamento

Floresta pode se transformar em grande savana. (Fonte: Shutterstock)


O desmatamento na Amazônia bateu recorde no primeiro trimestre de 2020, quando os olhos do mundo estavam voltados para a pandemia causada pelo novo coronavírus. Sumiram 796 quilômetros quadrados de mata, um aumento de 51% em relação ao mesmo período de 2019, de acordo com informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Um estudo publicado no Climate News Network afirma que 2020 é crucial para a Floresta Amazônica, que pode atingir um ponto em que não será mais possível recuperá-la. Caso o ecossistema entre em colapso, toda a área da mata pode se tornar uma savana em 50 anos. Nos últimos 12 anos, a Amazônia perdeu 177 mil metros quadrados para o desmatamento, segundo o Inpe; destes, 10 mil quilômetros foram destruídos apenas em 2019, o que representa crescimento de 60% em relação à área perdida em 2012.

Fontes: Medical News Today, Prodes/Inpe e SpringetrLink.

Fonte do texto: Estadão







terça-feira, 17 de março de 2020

Sistema computacional facilitará gestão e compartilhamento de dados climáticos



Diversos contêineres com equipamento para coleta de dados atmosféricos da região amazônica foram instalados no município de Manacapuru (AM) durante a campanha científica GoAmazon, apoiada pela FAPESP (Agência FAPESP)


Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Pesquisadores coletam diariamente, na Amazônia e em outras regiões brasileiras, milhares de dados sobre as condições da atmosfera, entre eles a concentração de material particulado e de gases, as propriedades de nuvens e os parâmetros meteorológicos como temperatura, umidade e velocidade dos ventos. Essas informações ajudam a entender, por exemplo, o impacto da poluição no clima e no ciclo hidrológico. Também permitem estimar como determinadas localidades serão afetadas pelas mudanças climáticas.

Boa parte dos dados gerados não é publicada e permanece inacessível à grande maioria dos cientistas. Com o objetivo de mudar esse panorama e de contribuir para a melhoria do sistema de ciência e tecnologia do país, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) firmaram um acordo com o Oak Ridge National Laboratory, do Departamento de Energia dos Estados Unidos. A instituição tem 27 anos de experiência na gestão de dados ambientais e atmosféricos.

A cooperação envolve a troca de conhecimento (compartilhamento de dados e softwares de código aberto) e o intercâmbio de pesquisadores para o aprendizado de técnicas e mecanismos de gerenciamento de dados, integração, compartilhamento, modelagem e visualização de dados. O tema foi debatido no 5º Workshop on Data Science – Challenges in Brazilian Context to Promote Atmospheric Data Management , realizado em fevereiro, na Escola Politécnica (Poli) da USP.

O acordo visa apoiar o desenvolvimento de um sistema e de serviços computacionais para que a gestão e a curadoria dos dados atmosféricos possam ser feitas nas instituições brasileiras, a começar pelas informações coletadas em projetos apoiados pela FAPESP, como a campanha científica GoAmazon (Green Ocean Amazon) e o projeto “O ciclo de vida de aerossóis e nuvens na Amazônia”, vinculado ao Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

“Estima-se que mais de 80% dos dados atmosféricos coletados não são publicados. E, em geral, eles são obtidos com recursos públicos. São, portanto, dados públicos. Avançar na gestão desse conhecimento, disseminando-o e tornando-o acessível aos demais cientistas, é otimizar o uso dos recursos. Contribui ainda para o avanço da ciência, pois mais pesquisadores e a sociedade como um todo poderão ter acesso a essas valiosas informações”, disse Paulo Artaxo, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e membro da coordenação do PFPMCG.

A iniciativa tende a solucionar um gargalo importante na pesquisa como um todo. No mundo, há maior coleta do que análise de dados. Isso porque, enquanto o investimento em infraestrutura e o avanço tecnológico permitiram avançar nas formas de coleta, ainda é necessário muito tempo e capital humano para análises baseadas em big data. Esse é o foco do Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Big Data da Poli-USP, organizador do evento.

“A soberania do país está relacionada com a capacidade de gerir esses dados, fazer descobertas a partir deles e desenvolver uma infraestrutura brasileira. É importante criar essa competência. Nossa ciência atmosférica é muito avançada e é preciso também capacitação e infraestrutura para trabalhar com grandes volumes de dados atmosféricos, que permitam a gestão e a curadoria integrada, envolvendo desde a aquisição, o processamento, a publicação e até a análise das informações”, disse Pedro Luiz Pizzigatti Corrêa, professor do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Poli- USP e coordenador do acordo.

Segundo Corrêa, a formalização do convênio com o laboratório do Departamento de Energia dos Estados Unidos vai permitir que cientistas brasileiros possam aplicar o conhecimento de outras iniciativas de gestão de dados atmosféricos, além de se capacitar para desenvolver uma infraestrutura adequada ao cenário nacional. “O objetivo é trazer essa competência para o Brasil, gerando uma infraestrutura computacional adequada ao nosso ambiente de pesquisa e, ao mesmo tempo, formar pesquisadores capazes de gerir essa infraestrutura”, disse Corrêa.

De acordo com Artaxo, em todas as áreas da ciência é extremamente importante fazer o gerenciamento e a otimização do uso de dados e o acordo é um passo importante para facilitar o compartilhamento do conhecimento. “A quantidade de dados ambientais coletada atualmente é enorme e ferramentas de visualização e disponibilização de big data são absolutamente necessárias. São dados importantes, às vezes históricos, mas, por causa do grande volume, impossíveis de serem analisados e publicados por um único grupo de pesquisa ou pesquisador. Acabam sendo colocados na gaveta ou deixados no hard disk de um computador qualquer. Apesar de serem únicos, provavelmente estarão perdidos daqui a 10 ou 20 anos, com informações valiosas financiadas pelo Estado”, disse Artaxo, que também é membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU).

A ideia é que, com a colaboração, os dados fiquem abertos para a população em geral acessar, assim como já acontece em plataformas como o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes) do Inpe, que traça o histórico dos últimos 30 anos de focos de desmatamento na Amazônia.

“O objetivo é integrar. Com a colaboração será possível agregar dados de diferentes naturezas: de emissão atmosférica, de mudanças climáticas, variáveis meteorológicas e de desmatamento. Assim, será possível, por exemplo, verificar em uma única plataforma se em um ano de muita poluição havia muito foco de queimada”, disse Luciana Varanda Rizzo, professora da Unifesp e integrante do GoAmazon.

Outra vantagem do projeto está em incentivar a interdisciplinaridade. “É muito dado para pouca gente trabalhar. Ao compartilhá-los, é possível que pesquisadores de outras áreas façam correlações, por exemplo, ajudando a identificar o impacto da poluição na população de uma determinada espécie”, disse Rizzo.

No acordo, o Atmospheric Radiation Measurement (ARM) – programa responsável pelo desenvolvimento de ferramentas computacionais do Oak Ridge National Laboratory – vai fornecer recursos para gestão, compartilhamento e visualização de dados atmosféricos para que pesquisadores da USP, Unifesp e Inpe possam operacionalizar um Centro de Gestão de Dados Atmosféricos, com grandes bancos de dados, sistemas de compartilhamento e de inteligência artificial para o melhor aproveitamento das informações coletadas.

Desde 2015, a maior parte dos dados do projeto GoAmazon é depositada no ARM. A outra parte está no repositório do Instituto Max Plank, na Alemanha. “Estamos trabalhando com a USP nos últimos cinco anos para o compartilhamento de dados, padrões de dados abertos e gerenciamento de dados. Nos próximos três anos, trabalharemos inicialmente no sentido de compartilhar conhecimento e desenvolver algumas ferramentas. O acordo que estamos desenvolvendo vai permitir também a mobilidade de alunos para a capacitação", disse Giri Prakash, diretor do Data Center do ARM.

Atualmente, o gerenciamento de dados dos projetos de pesquisa é feito exclusivamente pelo pesquisador. “Como hoje temos uma quantidade brutal de dados sendo coletada, nem todos os pesquisadores têm o conhecimento, a infraestrutura e o tempo necessário para disponibilizar esse material. Por isso, serão construídas ferramentas para facilitar o trabalho desses pesquisadores”, disse Artaxo.

Desde 2017, a FAPESP exige um Plano de Gestão de Dados entre os anexos obrigatórios de propostas submetidas, especificando quais dados serão produzidos e como serão gerenciados, compartilhados e preservados.





Fonte: Agência FAPESP








terça-feira, 29 de outubro de 2019

Maia diz que questão do meio ambiente prejudica imagem do Brasil: 'Se não resolvermos, não adianta fazer reformas'



Maia diz que questão do meio ambiente prejudica imagem do Brasil no exterior. Assista à entrevista aqui.


Presidente da Câmara participou de evento em São Paulo e destacou a correlação entre investimento internacional e a questão do meio ambiente.

Por G1 SP

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse nesta segunda-feira (28) em um evento na cidade de São Paulo que a imagem do Brasil no exterior "não parece muito boa nesse momento" por causa da agenda do meio ambiente.

"Voltei agora da Inglaterra. De Londres fui à Irlanda, em Dublin, onde a agenda do meio ambiente é muito forte. E nossa imagem não parece muito boa nesse momento. E isso, se nós não resolvermos, não adianta fazer reformas tributárias, administrativas, previdenciária, porque vocês sabem melhor do que eu que há uma correlação entre investimento internacional e a questão do meio ambiente", disse Maia no evento 'Meio Ambiente e os Desafios de uma Reforma Tributária Justa e Eficiente'.

Nos últimos meses, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) teve de lidar com questões ambientais que chamaram a atenção do mundo, como as queimadas na Amazônia e as manchas de óleo nas praias do Nordeste.

"Acho que é um ativo que veio para ficar muitos anos, e o Brasil é parte da construção dessa agenda, e nós não podemos perder esse tema, que seja na questão tributária, que seja na nossa estrutura", continuou.

A fala do presidente da Câmara durou cerca de 20 minutos. Maia destacou que as reformas precisam estar inseridas dentro de medidas que tragam benefícios concretos à população.

"Nós também temos um modelo onde os interesses particulares se sobrepõem aos coletivos", disse. "É óbvio que a gente tem um volume de carros enorme. Estimulamos a produção de carros em detrimento do transporte de massa. É óbvio que fizemos isso. São Paulo tem 120 km de Metrô; de trem, a China construiu 9 mil km. E nós continuamos achando - e o Congresso fez parte disso, infelizmente, eu fiz parte disso, aprovamos o Rota 2030. Eu, pessoalmente, era radicalmente contra, mas como, graças a Deus, não sou dono do parlamento, e vivemos numa democracia, aprovamos a renovação de incentivos para o setor automobilístico", reconheceu Maia.


Fonte: G1










domingo, 29 de setembro de 2019

GERAÇÃO GRETA: como são os jovens que disseram basta à destruição do planeta



COMENTÁRIO:

Comecei como ambientalista no cada vez mais remoto final da década de 1970, quando ainda era estudante de engenharia florestal e comecei a liderar em Niterói campanhas em defesa da Baía de Guanabara, da recuperação das lagoas de Piratininga e Itaipu e da criação do Parque Estadual da Serra da Tiririca. Eram os primórdios do movimento ambientalista no país e quase não se falava no assunto. O termo "sustentabilidade" nem existia. 

Fui o idealizador e um dos fundadores do Movimento de Resistência Ecológica - MORE, organização que marcou época no movimento ambientalista de Niterói e do estado do Rio de Janeiro e que formou uma geração de militantes ambientais, muito ainda ativos e influentes formadores de opinião sobre esses temas.

Já naquela época, na década de 1980, estava na nossa agenda a questão climática. Eu já escrevia no "Boletim do More" sobre a questão climática. Parecia que estávamos "pregando no deserto"... 

Apesar de toda dificuldade e reação do establishment, a temática do clima, ao longo do tempo ganhou força nos meios acadêmicos e diplomáticos, influenciando 

Geração Greta

Hoje, ao ver nascer um potente movimento de jovens pelo clima, vemos que aquelas vozes do passado 

O movimento mundial de jovens pelo clima, chamado internacionalmente de "Fridays for Future", liderado pela admirável adolescente sueca Greta Thunberg, é de nos encher de esperança e nos renova as forças para a luta pela sustentabilidade.

Eles têm toda a razão de 'puxar as orelhas' das atuais gerações de dirigentes globais, que têm avançado tão pouco na tão emergencial agenda climática, apesar das inúmeras reuniões promovidas pela ONU e pela diplomacia mundial (as COP´s), que apesar dos esforços dos ambientalistas, dos cientistas e outros setores engajados, sempre esbarram na ação irresponsável de certos bushs e trumps da vida, além de grandes corporações, que alimentavam as inconsistentes teses negacionistas, que a cada dia, se veem mais limitadas aos seus próprios redutos. 

Para nos encher de vergonha e frustração, vemos esse pequeno clube ganhar a adesão extemporânea do nosso desastrado presidente. A cada nova declaração de Bolsonaro, pateticamente celebrada por uma minoria de seguidores da sua seita ecocida, o Brasil se isola e assume o triste papel de vilão planetário! Foi o que vi pessoalmente em um evento internacional sobre cidades e clima que participei recentemente na Alemanha.

A força do movimento "Fridays for Future" impressiona. A cada sexta-feira, adolescentes e jovens do mundo todo fazem "greve" e ocupam as ruas das suas cidades para exigir uma ação dos seus governantes para reverter as mudanças climáticas.

Na última sexta-feira, avaliações preliminares consideram que 7 milhões de jovens foram às ruas. Um número extraordinário! Corresponde a cerca de 1 pessoa nas ruas para cada 1.000 terráqueos! E, por enquanto, a mobilização alcança majoritariamente os estudantes...

A reação dos negacionistas, por falta de argumentos convincentes, concentram-se em propagar fake news, teses conspiratórias, além de infames provocações aludindo ao aspecto e à doença de Greta Thunberg, portadora da Síndrome de Asperger. Uma crueldade!

Greta. Obrigado por revigorar as esperanças!

Axel Grael




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Geração Greta: como são os jovens que disseram basta à destruição do planeta


Assista ao vídeo com a reportagem aqui.


Inspirados pela adolescente sueca Greta Thunberg, os mais novos lideram hoje a luta contra o aquecimento global

G. Abril, E. Camhaji, C. Oquendo, S. Torrado, J. Oliveira, M. Centenera,

Numa tarde ensolarada do final do verão europeu, Roger Pallàs, um universitário catalão de 22 anos, cabelos loiros e corpo franzino, dirige sua van rumo à Costa Brava enquanto cantarola: “The people gonna rise like the waters, we’re gonna face this crisis now... [o povo vai se erguer como as águas, vamos enfrentar esta crise já]” —um dos hinos que ele e seus companheiros tentaram propagar nas greves pelo clima em Girona. Eles compartilharam a música no quilométrico grupo de WhatsApp, mas as pessoas têm dificuldade para aprender, afirma Roger, que pouco depois para o carro e pega Lucas Barrero, colega de classe e de batalhas climáticas, um andaluz de 22 anos e discurso sólido. Quando retomam o caminho em direção ao mar, Barrero fala do livro que acaba de publicar, El Mundo Que Nos Dejáis (o mundo que vocês deixam para nós, na tradução livre em português), que é na verdade um “manifesto” com o qual espera “sacudir um pouco as consciências”, diz ele. No livro, escreve coisas como esta: “Somos a primeira geração que sofrerá, ou melhor, que já sofre, os efeitos da crise ecológica e climática. No entanto, somos a última que pode fazer algo para deter este desastre”.

Depois, à medida que o Mediterrâneo vai aparecendo por trás dos pinheiros, a conversa caminha para para o veganismo (Roger, que cresceu em uma região amplamente dedicada à indústria suína, é vegano) e para a Lei de Mudança Climática proposta pelo Governo espanhol —“nasceu morta”, dispara Lucas. Falam também da ministra belga de Meio Ambiente, que sugeriu que as greves estudantis pelo clima que têm sacudido o mundo nos últimos meses não são um “movimento espontâneo”, e sim uma campanha orquestrada (ela garantiu ter informações do serviço secreto sobre o assunto). Foi forçada a renunciar. Barrero cita então uma informação-chave sobre as manifestações iniciadas pela adolescente sueca Greta Thunberg há um ano: elas são protagonizadas por crianças e jovens, é verdade, mas para cada um deles há, potencialmente, dois pais e quatro avós. Ou seja: cada milhão de estudantes aglutinaria até seis milhões de adultos por trás. O que o torna um movimento juvenil, mas de influência exponencial. E nisso está o bate-papo quando Roger vira, entra numa trilha e para às portas de uma escola de mergulho ao lado da praia de Sant Pere Pescador, onde trabalha o terceiro dos amigos que trouxeram para a Espanha o movimento de Greta. Do meio das roupas de mergulho surge Ander Congil, um basco de 22 anos e sorriso expansivo, e os três se abraçam porque, devido ao verão, já faz algum tempo que não se veem.


A semente de Girona
Ander Congil, Roger Pallàs e Lucas Barrero (da esquerda para a direita) na praia de Sant Pere Pescador, em Girona, na Catalunha. Têm 22 anos e foram os primeiros a organizar, em janeiro, uma greve pelo clima na Espanha, imitando Greta Thunberg. Barrero cresceu na serra de Aracena (Huelva), Congil em Tolosa (Gipuzkoa) e Pallàs em Folgueroles (Barcelona). Apaixonados pela natureza, conheceram-se como alunos do curso de Ciências Ambientais e Biologia da Universidade de Girona. “Quando vimos o movimento na Europa, dissemos: ‘Temos de pegar isso e trazer para cá, porque isso é muito forte”, recorda Pallàs. “Ficamos plantados em frente à Generalitat [Governo] de Girona, éramos três amigos, chegaram mais duas amigas, outras duas pessoas pararam... até que divulgamos nas redes e isto explodiu”, acrescenta Congil. “Nós, os jovens, é que temos saído às ruas porque somos os mais prejudicados”, explica Barrero. “Reivindicamos nosso futuro, senão seremos levados a um colapso.”

Sua paixão pela natureza os uniu: conheceram-se no curso de Ciências Ambientais e Biologia, que tem poucos alunos e é oferecido apenas pela Universidade de Girona (entre as públicas). Compartilharam apartamento, caminhadas pelos montes, viagens. Os três ficaram impressionados com o protesto daquela sueca e seu discurso “impactante” para os líderes mundiais em Katowice (Polônia) no final de 2018, durante a conferência da ONU sobre mudança climática: “As desculpas de vocês acabaram”, repreendeu-lhes Thunberg, “e o nosso tempo está acabando”.

E foi assim que, numa sexta-feira de janeiro, véspera do dia de São Canuto, um andaluz, um basco e um catalão decidiram sentar-se em frente ao edifício da Generalitat (Governo) de Girona com um cartaz que dizia: “Greve pelo clima”. A primeira na Espanha. Naquele dia, duas amigas se juntaram a eles e dois curiosos pararam para ver o que estava acontecendo. Em poucas semanas, gente de outras cidades estava ligando para eles e perguntando como se unir ao movimento Fridays for Future (“sextas-feiras pelo futuro”). Enquanto a onda verde ia colorindo o mundo, eles participaram de reuniões de coordenação regionais, nacionais e internacionais, encontraram-se com cientistas, viajaram para o Parlamento Europeu e conseguiram levar centenas de pessoas às ruas de Girona, às quais tentaram ensinar este hino: “The people gonna rise like the waters...”. Como resume Roger Pallàs, sentado nas dunas da praia enquanto o sol se esconde atrás das colinas e uma bruma púrpura se desenha sobre o mar escuro: “Houve um boom que não esperávamos. Isso nos deu muita força, e a partir daí não paramos mais”.

Talvez um movimento de massas nunca tenha se espalhado tão rápido antes. A ativista sueca fez seu primeiro protesto em 20 de agosto de 2018. Começou sozinha. Sete meses mais tarde, na primeira greve mundial pelo clima, em 15 de março, 1,4 milhão de pessoas saíram às ruas, segundo os organizadores. Mais de duas mil de cidades de 128 países se somaram, e Thunberg se consolidou como o símbolo de uma geração bastante internacional, costurada pelo inglês e pelas redes sociais e também, segundo a maioria de entrevistados para esta reportagem, pela frustração acumulada com a passividade dos adultos e dos líderes políticos diante de um planeta ameaçado. Greta aglutinou os mais jovens com uma mensagem e uma missão. Sua visão do mundo ultrapassou fronteiras. Viaja da Oceania às Américas. De Nova York a Tomelloso, em Castela-Mancha. Nas palavras de Hugo Abade, um universitário de 19 anos originário desta localidade agrícola manchega: “Quando vi Greta, senti esperança. Esperança porque somos muitas Gretas pelo mundo, movendo-nos com uma só voz e uma única demanda: deixar um planeta habitável”. Ele se integrou ao movimento em Madri, onde estuda. E neste verão setentrional, quando voltou para casa de férias, lançou pelo Instagram as sementes de uma mobilização neste município de 36.000 habitantes. Em agosto, centenas de crianças se concentraram em Tomelloso e pediram à administração municipal a declaração de “emergência climática”, uma reivindicação habitual do movimento.


'Fridays' Rurais
O efeito Greta não conhece fronteiras e passou das capitais para as áreas rurais. Na foto acima, membros da Juventude pelo Clima de Tomelloso, um município agrícola de 36.000 habitantes da província de Cidade Real, na comunidade autônoma de Castela-Mancha. Os jovens posam em um campo colhido perto da cidade manchega. Há poucas semanas, registraram na Prefeitura um pedido de declaração de emergência climática, uma das iniciativas promovidas por Greta Thunberg. “É inspirador que alguém tão jovem possa mover tantas pessoas no mundo”, diz Alicia Serna, de 20 anos. O grupo também está preparando uma lista de propostas concretas. Entre elas, recuperar o mercado municipal para poder comprar produtos locais. “Nas grandes áreas não podemos ter acesso a esses produtos que estão sendo cultivados a poucos quilômetros daqui”, reclama Hugo Abad, de 19 anos.


Adelaïde Charlier, uma belga de 19 anos, líder visível das greves em Bruxelas, marchou pela capital europeia com Thunberg e foi recebida, entre outros, pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Ela se sensibilizou com o primeiro vídeo de Thunberg que viu no Facebook, no qual a ativista exortava políticos, banqueiros e empresários do Fórum Econômico Mundial de Davos. “Nossa casa está em chamas. (…) Quero que entrem em pânico” —afirmava também que, segundo o IPCC, o painel científico da ONU que reúne mais de 700 especialistas em mudança climática, “restam menos de 12 anos para podermos corrigir nossos erros”. “É tão poderoso o que ela diz!”, diz por telefone a jovem belga. “Todas essas frases... Quando você as escuta em uma garota tão jovem, quer fazer a mesma coisa, unir-se a ela, e acredita que todo mundo deveria fazer isso. Acho que esse discurso mudou a mentalidade dos jovens. Já tínhamos consciência do problema, mas não víamos a urgência. É importante perceber que é uma crise, uma emergência. E a única forma de ser ouvidos e pressionar os adultos é por meio da greve.”

O movimento continua se espalhando. Neste verão europeu, 400 crianças do Fridays for Future originárias de 38 países se juntaram em Lausanne (Suíça) para tentar encontrar pontos em comum e coordenar ações iminentes, como a próxima greve mundial pelo clima, na sexta-feira. A declaração acertada no encontro de Lausanne pede que o aumento da temperatura global seja mantido “abaixo de 1,5 grau em relação aos níveis pré-industriais”. E lança um grito de alerta geracional: “O colapso da nossa sociedade e dos nossos ecossistemas está no horizonte e o tempo está se esgotando. O que acontecer nos próximos meses e anos determinará o aspecto da humanidade no futuro. Nossa extinção coletiva é uma consequência possível. (…) Nós nos reunimos em Lausanne porque nossos medos e objetivos comuns nos unem, e porque a hora de agir é agora”.

Kelmy Martinez, suíço de 21 anos e um dos organizadores da cúpula, acredita que há elementos comuns que definem sua geração: “Nossos pais cresceram em um mundo no qual tudo estava indo bem. Era o final da Guerra Fria, a economia crescia. Nós vimos outra face. O 11 de Setembro, os atentados de Madri e Londres, a crise econômica de 2008, a crise da dívida de 2011”, enumera. “Começamos a perguntar a nós mesmos: será que essa é a forma certa de viver e fazer negócios? E fomos percebendo que há uma crise humana e ambiental, que algo falha no sistema, porque isto não ocorre em um que funciona.” Sobre a garota sueca e o que significou sua aparição, ele afirma: “Greta chegou em um momento-chave. As pessoas estavam prontas para se unir e sair às ruas”.


Salto para o México
Clara Martínez, Camila González, Jorge Martínez e Valeria Cruz em um parque da Cidade do México. Pertencem ao movimento Fridays for Future deste país, um dos mais ativos da América Latina, com presença em 60 cidades.


Camila González, por exemplo, nunca tinha participado de uma marcha, mas decidiu aderir a este movimento, gerado a quase 10.000 quilômetros de sua casa na Cidade do México. Com 15 anos, estava farta de sentir que sua opinião não contava, e o fato de ter sido uma garota de sua idade que ergueu a voz a fez abrir os olhos, destaca. “Antes era mal visto que uma criança reclamasse de um adulto, mas os papéis estão se invertendo”, afirma González, que se tornou uma das participantes mais ativas do Fridays for Future no México. “Hoje, nossa geração tem voz e poder para melhorar as coisas.” E desta vez as garotas assumiram a liderança. Há três mulheres para cada homem na coordenação mexicana do movimento. “É uma revolução total”, diz Clara Martínez, de 22 anos, uma das organizadoras do protesto mundial de março. Tudo foi preparado em menos de um mês, em chats no WhatsApp, publicações no Instagram e chamadas de vídeo. “Meu coração batia muito rápido, não sabíamos o que esperar”, lembra Martínez, emocionada.

A representação mexicana se estabeleceu como a mais ativa da América Latina, com 220 atividades realizadas e presença em 60 cidades. Mas o México não é a Suécia e importar o Fridays for Future implica reconhecer uma realidade muito diferente neste país com 52 milhões de pobres, onde a corrupção permite abusos terríveis e a violência mata dezenas de milhares de pessoas por ano. Vinte e um ambientalistas foram assassinados em 2018, segundo o Centro Mexicano de Direito Ambiental. A América Latina é a região onde é mais letal defender o meio ambiente: nela ocorrem mais de 50% dos homicídios de ativistas ambientais no mundo, alerta a Global Witness.

O continente tem uma longa tradição de luta pela defesa do clima, dos ecossistemas, dos recursos naturais. De fato, antes que Greta fosse Greta, os mais novos também enfrentaram os adultos na Colômbia com o objetivo de preservar o pulmão do mundo: em 2017, 25 crianças e jovens entraram com uma ação coletiva de tutela para proteger a Amazônia. Encorajados pelo DeJusticia, um centro de estudos jurídicos e sociais, protagonizaram um caso visionário: processaram o Estado por não garantir seus direitos à vida e ao meio ambiente no futuro. Para surpresa de todos, no ano passado a Corte Suprema da Colômbia lhes deu a razão.


Pacto pela Amazônia
Da esquerda para a direita e de cima para baixo, Yurshell Rodríguez, de 24 anos, Aymara Cuevas, de 10, Laura Jiménez, de 23, e Pablo Cavanzo, de 14. Os quatro são parte de um grupo de 25 crianças e jovens colombianos que, diante do avanço do desmatamento da Amazônia, entraram em 2017 com uma ação legal coletiva contra o Estado exigindo que ele garanta seu direito futuro de desfrutar o meio ambiente. A Corte Suprema lhes deu a razão neste processo revolucionário, exigindo que o Governo construa “um pacto entre gerações” e alertando para o “prejuízo iminente e grave para todos os colombianos, para as gerações do presente e do futuro”, se não foram tomadas medidas para frear a destruição do pulmão do mundo. Após a vitória, os autores da ação se transformaram em símbolos de uma juventude ativa contra a passividade dos mais velhos. Pablo Cavanzo, um dos mais jovens, explica seus motivos: “Os mais velhos não estão abrindo os olhos. Nossa geração está brigando com os adultos para que tomem decisões razoáveis, pois quando estivermos em posição para mudar a situação, já será tarde demais. Estamos a tempo”.


Graças a eles, hoje a Amazônia colombiana é reconhecida como sujeito de direito; o Estado tem a obrigação de construir um “pacto entre gerações”, e o Governo é advertido de que o desmatamento provoca “um prejuízo iminente e grave para todos os colombianos, para as gerações do presente e do futuro, pois amplia incontrolavelmente a emissão de dióxido de carbono para a atmosfera”.

Os 25 demandantes, em maior ou menor grau, tornaram-se símbolos da causa verde. A pequena Aymara Cuevas, de 10 anos, que vive em Itagüí, perto de Medellín, é hoje a voz do comitê ambiental de sua escola e se coloca na primeira fila das marchas de que participa com outras crianças. Yurshell Rodríguez, de 24 anos, nasceu no meio do Caribe, no arquipélago de San Andrés, Providencia e Santa Catalina. Semanas atrás, alertou mais de mil empresários e acadêmicos em uma cúpula sobre sustentabilidade em Bogotá: “As previsões dizem que 17% da minha ilha estarão cobertos de água em 2070. Ou seja, as praias em que estive, e provavelmente minha cultura de raiz [o povo indígena de San Andrés], podem desaparecer. Não podemos permitir isso”. O furacão Greta chegou à Colômbia para unir forças, segundo Laura Jiménez, de 23 anos, outra das demandantes: “Quando Greta apareceu, percebemos que há muitas formas de mobilização. Eu, por exemplo, não gosto de estar na linha de frente, minha forma de me manifestar foi a ação de tutela. Na verdade, não importa se você não é um ambientalista puro. Não precisamos de 100 ativistas perfeitos, e sim que todos sejamos ativistas imperfeitos conscientes de que cada um, de sua posição, em sua casa, pode fazer algo”.

Thunberg conseguiu tornar o discurso sólido e homogêneo. Não importa o lugar do mundo, todos pedem igualmente que os cientistas sejam ouvidos, e ressaltam a situação de urgência: “Este não é um problema do futuro. Já estamos vivendo a emergência climática”, sustenta, por exemplo, a brasileira Nayara Almeida, de 21 anos, que ajudou a promover no Rio de Janeiro um grupo semelhante ao da ativista sueca. O grupo participou da greve mundial de 15 de março, quando os protestos se espalharam por 24 cidades do país. “Organizamos tudo em quatro dias, falando com amigos e conhecidos. Hoje, o movimento tem cerca de 2.000 jovens em 50 cidades”, conta Almeida. Nestes dias em que a Amazônia queima, os grupos do Fridays for Future de todo o planeta convocam manifestações em frente às Embaixadas brasileiras e a maré verde exibe sua capacidade de mobilização em tempo recorde.


As vozes do Brasil
DANIEL RAMALHO
Membros do movimento Fridays for Future do Rio. Da esquerda para a direita, Juliana de Araújo, de 23 anos, Nayara Almeida, de 21, Ana Gil, de 24, Tua Frank, de 26, e Manu Amaral, de 24. No Brasil, o movimento reúne 2.000 pessoas. E as retratadas explicam por que Greta foi fundamental na criação de um movimento global: “Sua mensagem tem muito poder. É a narrativa de toda a juventude do mundo”.


“Em 2050, o planeta será inabitável”, alerta um cartaz diante da embaixada brasileira em Buenos Aires. É sexta-feira, é claro, 23 de agosto, dia de protestos em cidades ao redor do mundo. Entre os manifestantes está Bruno Rodríguez, de 18 anos, estudante de Ciências Políticas e Direito. Veste uma camiseta dos Jovens pelo Clima, grupo ao qual pertence —e que ele representaria na Cúpula da Juventude para o Clima, realizada neste sábado na sede da ONU em Nova York. Dos cem participantes que receberam bolsas da ONU, 13 são latino-americanos, e Rodríguez é o único argentino. “A ideia é levar uma proposta como região para que se entenda o que acontece nos nossos países”, diz ele.

Esse encontro juvenil antecedeu o oficial, que começa nesta segunda-feira: a Cúpula de Ação Climática da ONU em Nova York, o encontro que motivou a odisseia atlântica de Greta. A adolescente, por coerência, evita o avião para reduzir sua pegada de carbono, de modo que, para chegar a Manhattan, navegou duas semanas em um veleiro. A revista The Economist aproveitou a travessia para publicar um artigo intitulado “O efeito Greta”, explicando como cresceu, desde sua ascensão midiática na Suécia, o flygskam —uma palavra que resume a “vergonha de voar” de avião e que, segundo o gráfico que ilustra o texto, provocou consideráveis reduções no número de viajantes aéreos em seu país.

Greve climática em Buenos Aires
MARIANA ELIANO
À esquerda, Julieta Itzcovich, de 17 anos, uma entre as dezenas de jovens que saem às ruas em Buenos Aires (Argentina) todas as sextas-feiras replicando as greves pelo clima iniciadas na Suécia há um ano. “Somos a geração que mais será afetada”, diz. “Se nada for feito, em 2030 vamos chegar a um ponto sem retorno”. À direita, Bruno Rodríguez, de 18 anos, cofundador da organização Juventudes pelo Clima de Buenos Aires e representante da Argentina na Cúpula da Juventude para o Clima, realizada neste sábado em Nova York.


O efeito Greta talvez explique em parte o resultado histórico dos Verdes nas últimas eleições europeias: as pesquisas de boca de urna indicaram que os ecologistas foram a primeira opção para os jovens na Alemanha, Áustria e França. Mas não foi só um lampejo geracional. Uma pesquisa pós-eleitoral do Parlamento Europeu apontou que “combater a mudança climática e proteger o meio ambiente” foi a principal motivação para ir votar em sete países: Dinamarca, Suécia, Holanda, Alemanha, Luxemburgo, Áustria e França. E em um ano esse assunto subiu do quinto para o segundo lugar entre as principais preocupações da população da União Europeia.

O conceito do Fridays for Future já não apenas uma questão juvenil. Ele se ampliou para todos os tipos de coletivos. Segundo Miriam Leirós, uma professora de 42 anos que lidera o Teachers for Future (“professores pelo futuro”) na Espanha, o movimento lhe deu “esperança e vergonha” em partes iguais: “Esperança porque você vê que as gerações não estão dormindo e são capazes de lutar. E vergonha porque os jovens é que tiveram de nos dar um puxão de orelha”.


Mudança e esperança em Madri
XIMENA Y SERGIO
Um grupo do movimento Fridays for Future de Madri, inspirado pelas greves das sextas-feiras pelo clima de Greta Thunberg. De pé, a partir da esquerda: Manuela Martín, de 16 anos, Matías Spatz, de 17, José Ferreras, de 23, e Koro López de Uralde, de 23. Sentados, Alejandro Martínez, de 25, Marta Macías, de 20, e Pablo Sallabera, de 23. Os sete posam no dia do protesto convocado no final de agosto em frente à Embaixada do Brasil em Madri para denunciar a queima descontrolada da Amazônia. Martín, a mais jovem, conta que é “relativamente nova” no movimento. “Entrei de cabeça assim que o conheci, considerei que era uma coisa muito necessária e estou me dedicando totalmente há quatro meses”, diz ela. Ferreras, representante de Madri, acrescenta: “O essencial é a esperança de que pode haver uma mudança. Somos muitas pessoas e isto está crescendo”. Macías reflete sobre seu impacto: “Graças à difusão do que fazemos, estamos colocando a questão da mudança climática, da emergência climática, na ordem do dia”.


Ao meio-dia de 23 de agosto, no centro de Madri, jovens ativistas preparam esse puxão de orelha a um passo da embaixada brasileira. Saúl Flores, poeta e estudante universitário, orienta um grupo de novatos na arte do die-in, algo como uma morte simulada que deixa o manifestante deitado na rua, obstruindo de forma pacífica o trabalho da polícia. Essa “morte” se tornou uma das marcas registradas do Extinction Rebellion (“rebelião da extinção”), outro movimento ambientalista nascido em Londres em 2018. Não é tão juvenil. E tem métodos mais contundentes: em abril, seus ativistas paralisaram o centro da capital britânica durante dias, e mais de 1.000 deles foram detidos. Em Madri, começaram a organizar oficinas de introdução à desobediência civil, nas quais, entre outras coisas, um participante brinca de deitar no chão enquanto outro, no papel de policial, tenta retirá-lo.


Manuela Martín, que com 16 anos é a mais jovem e tem a mesma idade da menina que deu início a tudo, resume esse sentimento geracional em uma palavra: “Raiva”.

“Rebelião ou extinção!”, gritam em coro os convocados para a manifestação em frente à embaixada. Três adolescentes chegam, sentam-se e aprendem slogans com brilho nos olhos. Neles se percebe o romantismo das primeiras manifestações. “Não é fogo, é capitalismo!”, exclamam. Uma mulher foi com suas filhas, de 12 e 16 anos. “Greta é um modelo a seguir, uma pessoa muito valente”, dizem as meninas. E a mãe: “Sou fã absoluta. Mas tenho medo do que a superexposição na mídia possa provocar”.

No dia seguinte, no Centro Social Okupado La Ingovernable (“a ingovernável”), transformado em QG dos ativistas pelo clima, um grande grupo de membros do Fridays for Future de Madri se reúne em assembleia. Eles não permitem o acesso, mas no intervalo para o almoço (em tupperware) vários concordam em ser entrevistados em uma sala de aula presidida pelo grafite de um Mickey enorme com cara de quem consumiu LSD. Na mesa há gaspacho, salada de grão-de-bico, macarrão com legumes. Todos estão se esforçando para mudar seu estilo de vida.

Alejandro Martínez, de 25 anos, explica por que os mais jovens é que se rebelaram: “Até agora, as mensagens das gerações anteriores sempre foram de esperança. Mas a emergência climática é real. Segundo o IPCC, temos apenas 10 anos para evitar que a temperatura global suba acima de 1,5 grau. Crescemos com consciência do perigo e vendo como não se fazia nada a respeito”. Koro López de Uralde, de 23 anos, com experiência em ambientalismo desde o berço (é filha do líder do partido ecologista Equo e ex-diretor do Greenpeace na Espanha Juantxo López de Uralde), acrescenta: “Havia muita gente que estava preocupada com este assunto, mas não sabia como contribuir. Foi uma maneira de canalizar toda essa energia”. Manuela Martín, que com 16 anos é a mais jovem e tem a mesma idade da menina que deu início a tudo, resume esse sentimento geracional em uma palavra: “Raiva”.

O EL PAÍS faz parte do Covering Climate Now, uma iniciativa global de mais de 220 veículos de comunicação, enfocada em dar atenção à crise climática.

Fonte: El País




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domingo, 22 de setembro de 2019

230 investidores de fundos no valor de U$$16,2 trilhões cobram ações de empresas contra desmatamento na Amazônia






Suzana Camargo

Os incêndios que destruíram milhares de hectares da Floresta Amazônica no Brasil, mas também em países vizinhos, como Bolívia, chamaram a atenção do mundo inteiro. O presidente Jair Bolsonaro foi responsabilizado por sua falta de ação imediata em combater o fogo e por sua política de desmonte e enfraquecimento dos órgãos de proteção ambiental no país.

Mas empresas também tem sua parte de responsabilidade na tragédia ambiental. Elas financiam as cadeias produtivas que retiram da floresta recursos para viabilizar seus negócios. Muitas companhias não monitoram o trabalho de seus fornecedores e não mostram preocupação, por exemplo, se a madeira extraída na Amazônia é proveniente de desmatamento ilegal ou não.

Ontem (18/09), a organização não-governamental americana Ceres, que trabalha com alguns dos principais fundos de investimentos e companhias globais, divulgou um documento cobrando corporações por ações contra o desmatamento da Amazônia.

O documento assinado por 230 investidores, que juntos administram ativos no valor de cerca de U$$16,2 trilhões, quase R$ 70 trilhões, conclama empresas que tomem medidas urgentes “à luz dos devastadores incêndios na Amazônia, que foram alimentados em parte por causa do desmatamento que ocorre a uma taxa alarmante no Brasil e na Bolívia”.

Na declaração pública, os investidores pedem às companhias mais responsabilidade em suas operações e cadeias de suprimentos globais.

“Como investidores, que têm o dever fiduciário de agir no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais desempenham no combate às mudanças climáticas, protegendo a biodiversidade e assegurando serviços ecossistêmicos”, diz o texto.

Entre as medidas sugeridas pelos gestores desses fundos estão:

  • Divulgar e implementar publicamente uma política específica de não desmatamento de commodities, com compromissos quantificáveis e com prazo determinado, cobrindo toda a cadeia de suprimentos e geografias de fornecimento;
  • Estabelecer um sistema transparente de monitoramento e verificação para conformidade do fornecedor com a política de não desmatamento da empresa;
  • Relatório anual sobre exposição e gerenciamento de riscos de desmatamento, incluindo progresso em direção à política de não desmatamento da empresa.

“Por muito tempo, a discussão sobre mudanças climáticas concentrou-se no setor de energia. Há uma necessidade urgente de se concentrar mais no gerenciamento eficaz das cadeias de suprimentos agrícolas ”, afirma Jan Erik Saugestad, CEO da Storebrand Asset Management. “O desmatamento e a perda de biodiversidade não são apenas problemas ambientais. Existem efeitos econômicos negativos significativos associados a essas questões e representam um risco que nós, como investidores, não podemos ignorar”.

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Fonte: Conexão Planeta











domingo, 1 de setembro de 2019

Arminio Fraga: 'Retrocesso na democracia já ocorreu. O risco é que piore'



Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central Foto: CJPress / Agência O Globo


Instabilidade política abala a confiança e afeta a economia, alerta o ex-presidente do BC. Ele avalia que o Brasil vive crise de valores e diz que as ‘instituições têm sido severamente testadas’

Luciana Rodrigues e Cássia Almeida

RIO - A instabilidade política abala as instituições e já afeta a economia, afirma Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos. Ele vê, nas ações do governo e nas declarações do presidente Jair Bolsonaro , um retrocesso na democracia, em seu sentido mais amplo, que dificulta a retomada da confiança e dos investimentos. Arminio alerta para pressões contra o combate à corrupção e avalia que o país vive uma crise maior, de valores da sociedade, com efeitos inevitáveis para a economia.

— Cria um ambiente que não inspira o gasto e o investimento.

Havia uma avaliação de que a agenda liberal poderia blindar a economia de ruídos políticos. O senhor acha isso possível?

Não. A política sempre afeta a economia, diretamente através das expectativas e indiretamente através de fatores que, à primeira vista, não parecem ser econômicos, mas que, na prática, são. Por exemplo: o tema da Amazônia está nas manchetes do mundo inteiro. A maneira como o assunto vem sendo conduzido (pelo governo) desde seu início afeta decisões em outras áreas. As pessoas param para pensar. Será que o que nós estamos vendo no meio ambiente e na educação vai se repetir em outras áreas? É claro que é possível. Está tudo muito imbricado com a questão maior do investimento, da confiança, até mesmo do gasto das pessoas, que ficam com medo. Além disso, o Brasil segue com um desemprego muito alto, muita gente vai ficando para trás e o ambiente de negócios fica prejudicado. Muita gente elogia a economia publicamente, mas não investe.

O senhor citou educação e meio ambiente, mas houve um acirramento no tom das declarações do presidente. Isso afeta o clima de negócios?

Sim, claro, deveria ter mencionado antes dos outros. O presidente é quem dá o tom, e ele tem feito mudanças na sua equipe que reforçam o seu estilo, muitas para um governo tão novo. É claro que a direção do governo vem de cima.

“Estamos olhando não apenas instituições, mas valores. Essa questão está presente desde a campanha, e diz respeito a preconceitos os mais variados, de questões raciais à misoginia ao obscurantismo”

Como vê o funcionamento das instituições? Elas podem afetar a economia?


Com certeza. Sobre o Executivo já falamos. O Judiciário tem tido enorme protagonismo recentemente com a Lava-Jato, que representou uma grande novidade para o Brasil, e que hoje volta à cena mais fragilizada. Parece que está se firmando a opinião de que, infelizmente, houve exageros. O Supremo, que no caso do mensalão agiu de maneira rápida e coerente, de uns tempos para cá vem tomando mais decisões de forma monocrática, e as coisas têm sido mais erráticas, ou não têm andado. Quando se desce para as instituições menores, mas que têm enorme importância, o quadro complicado se mantém. Por exemplo, as agências regulatórias. O bom funcionamento da economia depende do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que está com um número grande de conselheiros a nomear. Alguns tinham sido indicações dos Ministérios da Economia e da Justiça. Do além, essas indicações foram revogadas. Pegou mal para os ministérios e deu um sinal paralisante e velho. Cria um ambiente que não inspira o gasto e o investimento.

As instituições estão abaladas pela instabilidade política?

Olhando o Brasil como um todo, tudo indica que o Mensalão e a Lava-Jato foram pontas de iceberg. Deve ter muito mais coisa por aí, nas esferas inferiores de governo, infelizmente um cacoete generalizado. As tensões aumentaram, com grupos claramente procurando atrapalhar o funcionamento da Lava-Jato. Mais recentemente, questões ligadas à família do presidente criaram uma “aliança” surpreendente contra as investigações, contraditória em relação ao que se viu na campanha. As instituições têm sido severamente testadas.

“A agenda da desigualdade anda largada. Não vejo como prioridade clara deste governo. De vez em quando alguém solta alguma ideia, fala alguma medida, mas são coisas pontuais”
.
.Como avalia as consequências desse quadro?

O quadro geral inspira cuidados. Estamos olhando não apenas instituições, mas valores. Essa questão está presente desde a campanha, e diz respeito a preconceitos os mais variados, de questões raciais à misoginia e ao obscurantismo. Esse clima afeta as decisões das empresas e das pessoas, e representa um retrocesso no desenho de país que temos que construir. Há no ar também uma certa forma truculenta de agir. O aparelho de Estado não pode ser pressionado ou usado para ameaçar pessoas. As discussões públicas precisam ser civilizadas e substantivas.

A sociedade brasileira está reagindo a esse retrocesso?

Vejo a sociedade civil se mobilizando, e isso num momento econômico dificílimo. O terceiro setor vem se posicionando com firmeza, e a imprensa livre é crucial nesse momento. Essa é a principal arma de defesa, a liberdade de expressão, de grupos se organizarem, se posicionarem, e isso nós ainda temos. Não tem sido suficiente, mas ainda temos isso. Espero que em algum momento essa maré vire.

Vê algum risco de retrocesso na nossa democracia?

Não há risco algum, há certeza: o retrocesso já aconteceu. O risco é que piore mais ainda. Sempre há esse risco. Isso é o que se vê no mundo afora. Existem dois aspectos do que vem acontecendo no planeta que são muito negativos para o Brasil. Do lado econômico, o mundo parece estar no fim de um ciclo de crescimento, com algum risco de recessão já visível a olho nu em várias regiões importantes enquanto nós, por outro lado, ainda estamos tentando sair do fundo do poço. O segundo ponto é político. O que se vê é uma proliferação de regimes onde as pessoas votam, mas que não são verdadeiramente democráticos. São com frequência populistas, autoritários, inimigos das instituições, inimigos da liberdade. E mais, com frequência descambam para o nacionalismo, que não deve ser confundido com patriotismo e outros sentimentos que podem ser bons.

O senhor mencionou o nacionalismo, surgiu um novo tema durante a crise das queimadas que é a soberania, depois que o presidente francês Emmanuel Macron introduziu a questão da internacionalização da Amazônia. Como vê este debate?

Essa coisa da soberania é sempre um fantasma. Não vejo nossa soberania ameaçada, nem acho que vai haver uma invasão, que vão tomar a Amazônia. Isso é meio uma desculpa. Ameaçado está o planeta, e nós mesmos, se a Amazônia não for preservada. Se tem gente querendo nos ajudar, que se decida, ou sim ou não, dentro do que for do nosso interesse nacional. Acho que é natural que outros países queiram influenciar esse debate, matéria de primeira página de jornais do mundo inteiro. Essa é uma discussão quase infantil (sobre soberania). Se outros países fizeram bobagem no passado, não quer dizer que nós devamos fazer o mesmo agora. Eu penso que o Brasil, do tamanho que tem, com a população que tem, com a tendência demográfica atual, o Brasil cabe muito bem no seu espaço. É do nosso interesse preservar a Amazônia, acabar totalmente com o desmatamento, eu até defenderia o reflorestamento. É totalmente do nosso interesse ter um papel de liderança nesse processo. O Brasil poderia dar o exemplo para outros países, e assim acumularia um capital político enorme pelo mundo afora. Como em quase tudo, a minha preocupação é com o que está acontecendo aqui dentro, que sinais nós estamos dando a nós mesmos em relação ao futuro da Amazônia. E eu iria mais além, em relação a temas ambientais que têm a ver com a qualidade de vida nossa, do nosso povo, é o ar que nós respiramos, a água que bebemos, a comida que comemos, tudo isso. Para não falar em saneamento, que segue um antigo escândalo aqui no Brasil.

“O que se vê é uma proliferação de regimes onde as pessoas votam, mas que não são verdadeiramente democráticos. São com frequência populistas, autoritários, inimigos das instituições, inimigos da liberdade”

Uma piora na imagem do Brasil pode dificultar a atração de investimentos?

O Brasil segue sendo um captador de investimentos pela sua escala. Do ponto de vista estratégico, é difícil imaginar grandes empresas do mundo não tendo uma presença aqui. Ocorre que o investimento estrangeiro é pequeno perto do local. Portanto, a minha preocupação maior é conosco, aqui dentro, pois o investimento de nós mesmos no nosso próprio país anda muito baixo, tanto o privado quanto o público. O privado por razões de confiança. E o público porque o governo quebrou. O investimento público no Brasil está próximo a 1% do PIB, enquanto no passado estava em 5%. O governo vem trabalhando em algumas frentes de reformas na área econômica, que são positivas, mas esse quadro geral ainda não permite que se destrave um processo (de retomada dos investimentos e do crescimento à altura do que em tese seria possível.

Havia a expectativa de que, com a reforma da Previdência, o clima ficaria favorável a investimentos. Agora, qual deve ser a reforma prioritária?

A reforma tributária já está em discussão e é prioritária. A grande área de reforma do Estado, reforma administrativa e liberdade econômica é também prioritária. Mas outras áreas precisam melhorar, e muito. É fundamental tratar da nossa imensa desigualdade. E não é uma questão “apenas” de cunho social, como se isso não bastasse, mas vai além. Um trabalho mais profundo nesta área teria consequências positivas para o crescimento. Primeiro, porque é algo que, se não tratado, vai continuar a polarizar o nosso país, vai nos fazer vítimas fáceis de populismo e, portanto, tem um impacto indireto gravíssimo sobre a capacidade de o Brasil melhorar. Há também no campo da igualdade de oportunidades, que não existe no Brasil, um espaço enorme para investir. O Brasil precisa obedecer ao comando constitucional de ter saúde de qualidade para todos. A educação, além de ser o instrumento mais clássico de uma agenda de igualdade, contribui para aumentar a produtividade e o crescimento. Mas essa agenda da desigualdade anda largada. Não vejo como prioridade clara deste governo. De vez em quando alguém solta alguma ideia, fala alguma medida, mas são pontuais num quadro geral bastante deficiente.

O senhor pensa em ampliar sua participação na política?

Eu não penso em ter uma participação direta na política, eleitoral, isso está fora dos meus planos. Mas me mantenho ativo, me dedicando a estudos e a conversas com muitos. Continuo aberto a conversas, com Luciano Huck, com o ex-governador Paulo Hartung (do Espírito Santo) e vários outros. Tem muita gente mobilizada, muitos movimentos importantes com os quais me identifico, como Renova, Agora, Livres, Acredito e outros. Essa é a hora de se debater os grandes temas, em busca de convergências.


Fonte: O Globo








segunda-feira, 17 de junho de 2019

Países do G20 fazem acordo histórico para reverter poluição por plásticos, Brasil foi contra e recusou-se a assinar



Uso do plástico é problema global — Foto: Reprodução/ TV Gazeta

Baleia cachalote encontrada morte na Sícília, região da Itália, tinha plástico no estômago. — Foto: Reprodução/Facebook/Greenpeace


Brasil não assina acordo global para limitar o uso do plástico

Por Amélia Gonzalez

A julgar pela disposição demonstrada nos primeiros cem dias do governo de Jair Bolsonaro, dando prioridade ao combate ao lixo marinho ao criar o Plano de Ação Nacional de Combate ao Lixo no Mar - para o qual seriam investidos R$ 40 milhões - os ambientalistas acharam uma contradição a decisão de o país não assinar um acordo, proposto pela ONU no dia 10 deste mês, para tentar conter o problema dos plásticos na natureza.

Conversei na terça-feira (21) com Anna Carolina Lobo, gerente do Programa Marinho e Mata Atlântica do WWF Brasil, que me confirmou que o Brasil, ao lado dos Estados Unidos e de outros cinco países, optou por abrir mão de estar no grupo dos 187 que apoiaram a resolução da ONU para diminuir a produção do plástico de uso único, para fomentar pesquisas no sentido de descobrir alternativas e fazer estudos científicos para a reciclagem.

Aqui, vale um parênteses para lembrar que o Brasil e os Estados Unidos estão entre os cinco países que mais produzem lixo plástico, além da China, Índia e Indonésia. E que, segundo a ONU, “a poluição proveniente do lixo plástico atingiu proporções epidêmicas com uma estimativa de 100 milhões de toneladas de plástico encontradas atualmente nos oceanos”. Fecha o parênteses.

Uma semana depois do lançamento do Plano Nacional, em março, na cidade de Santos, veio a primeira surpresa desagradável para os ambientalistas: numa reunião de meio ambiente da ONU em Nairóbi, no Quênia, o Brasil se posicionou fortemente ao lado dos Estados Unidos, país que vem sendo contra acordos globais de meio ambiente.

Depois disso, há dez dias, o Brasil se posicionou oficialmente contrário ao “Planeta Limpo, Pessoas Saudáveis: Boa Gestão de Produtos Químicos e Resíduos”, título dado ao acordo conseguido em Genebra.

Um dos fatos que impressiona os ambientalistas na decisão tomada por Brasil e dos Estados Unidos é que os dois países não são os maiores produtores de plástico do mundo, posição ocupada por algumas nações da Ásia, como Singapura.

“É inacreditável, uma grande contradição. Foi uma surpresa para nós, porque no início do governo havia uma determinação em cuidar do tema lixo marinho. O Brasil fez um movimento de aproximação dos Estados Unidos por conta da OCDE, que agora anuncia que vai priorizar a entrada da Argentina e da Rússia”, diz Anna Carolina Lobo.

Haverá ainda uma chance, em setembro, numa nova reunião da ONU, para tentar reverter a postura do Brasil. Para isso, já está circulando na internet uma petição dirigida aos líderes mundiais para que eles estabeleçam metas rigorosas para acabar com o despejo de plástico nos oceanos até 2030. Neste caso, a importância da opinião pública é grande, porque o número de assinaturas pode ajudar a pressionar os líderes mundiais. Neste sentido, há uma certa esperança por parte dos ambientalistas.

“Desde 2015, quando foi descoberta uma tartaruga cujo corpo ficou com forma de ampulheta porque ficou presa a um plástico do tipo usado em latas de cerveja as pessoas começaram a ter sua atenção voltada para o problema. Na verdade, todo mundo que consome frutos do mar, por exemplo, está consumindo plástico", diz Anna Carolina Lobo.

"O plástico é o lixo número um encontrado no Oceano Atlântico aqui no Brasil. Baleias, golfinhos e tartarugas morrem aos montes, todos os anos. Eles nadam até a praia para morrer e, quando se abre o estômago deles, está coberto de plástico. Sem contar que isso não ajuda o turismo. Em São Paulo, já existe legislação contra as sacolas plásticas em supermercados, por isso fica mais difícil entender a posição do Brasil no Acordo conseguido em Genebra”, acrescenta.

A ambientalista lembra que hoje o plástico já é um problema global, não está mais circunscrito às zonas exclusivas de cada país.

“Oitenta por cento dos plásticos que estão nos oceanos são produzidos em terra, mas depois, pelas correntes marinhas, eles acabam chegando em todos os cantos do mundo. Na semana que passou, anunciaram que foi encontrado plástico na parte mais funda do oceano, e há um tempo encontraram plástico na Antártida. O plástico chegou em todos os cantos do planeta. Por isso, para se conseguir solucionar o problema, é preciso ter um acordo global, não adianta um país fazer e todos os outros não fazerem nada”, diz Lobo.

O acordo sobre resíduos plásticos, conseguido em Genebra na reunião que durou duas semanas, foi uma emenda à Convenção de Basileia (1989), sobre Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito. E os países que assinaram concordaram também em restringir os embarques, para os países mais pobres, de resíduos plásticos difíceis de reciclar. Trata-se de uma estrutura juridicamente vinculante, ou seja, passível de multa.

A preocupação surgiu porque, desde que a China parou de aceitar a reciclagem dos Estados Unidos, segundo reportagem do “The Guardian” houve um acúmulo de resíduos plásticos enviados para os países em desenvolvimento. A Aliança Global para Alternativas à Incineração (Gaia, na sigla em inglês), que apoia o acordo, diz ter encontrado aldeias na Indonésia, Tailândia e Malásia que “se transformaram em lixões ao longo de um ano”.

“Países exportadores - incluindo os Estados Unidos - terão agora de obter o consentimento de nações que recebam resíduos plásticos contaminados, mistos ou não recicláveis. Atualmente, os Estados Unidos e outros países podem enviar resíduos plásticos de baixa qualidade para entidades privadas em países em desenvolvimento sem obter a aprovação de seus governos”, diz a reportagem.

Os Estados Unidos, como não fazem parte da Convenção de Basileia, não votaram nesta decisão.

Rolph Payet, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnud), que esteve coordenando a reunião em Genebra, comemorou o resultado, classificando-o de “histórico”.

“As negociações foram muito além do esperado. Agora os países terão que monitorar para onde os resíduos de plástico vão quando saem de suas fronteiras”, disse ele.

Para dar certo, no entanto, é preciso que as empresas também estejam alinhadas com o propósito, no mínimo para investir em pesquisas que levem à produção de alternativas ao plástico de uso único, como são as sacolas e muitas embalagens. O ideal, porém, é mesmo eliminar totalmente o uso de plástico. Mas basta olhar em volta, sobretudo em supermercados e grandes magazines, para se perceber que este é um objetivo ainda muito difícil de ser alcançado.

Fonte: G1



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G20 alcança primeiro acordo para reduzir lixo plástico no mar

Membros do G20 se comprometeram a reduzir os dejetos plásticos, mas poucos detalhes foram dados sobre como farão isso.


Por France Presse

O grupo das 20 maiores economias mundiais alcançou, neste domingo (16), o primeiro acordo para reduzir o lixo plástico no mar, em uma reunião no Japão que também abordou a segurança energética após os ataques a petroleiros no Golfo de Omã.

Sob este acordo, os membros do G20 se comprometeram a reduzir os dejetos plásticos, mas poucos detalhes foram dados sobre como farão isso.

"É fantástico que tenhamos elaborado regras para todos, incluindo os países emergentes e em desenvolvimento", comemorou o ministro japonês do Meio Ambiente, Yoshiaki Harada, ao final da reunião dos ministros do G20 de sua área e da Energia.

As medidas seriam voluntárias e o progresso seria publicado anualmente, de acordo com a mídia local.

A poluição plástica tem se tornado uma preocupação internacional crescente, em particular após as proibições impostas pela China e outros países à importação de resíduos plásticos do exterior.

Muitos países, incluindo o Japão, viram o acúmulo de resíduos plásticos como resultado da proibição.

Entre as muitas preocupações, está a questão dos microplásticos, esses pequenos pedaços de resíduos degradados que são difíceis de coletar quando entram na água.

Os microplásticos tendem a absorver substâncias químicas nocivas e se acumulam dentro de peixes, pássaros e outros animais.

O acordo alcançado em Karuizawa (centro do Japão) é o primeiro a visar uma redução da poluição plástica no oceano.

"É um primeiro passo para resolver este problema", disse Hiroaki Odachi, do Greenpeace Japão, em um comunicado, observando, porém, que "é insuficiente contar com as ações voluntárias dos países" para responder a essa crise.

"São necessárias regras internacionais vinculantes com calendários e objetivos claros", como no caso do Acordo Climático de Paris, acrescentou.

Com a reciclagem de apenas 9% do plástico produzido, os ativistas afirmam que a única solução a longo prazo é que se fabrique e use menos.

No que diz respeito à segurança energética, o ministro japonês da Indústria, Hiroshige Seko, disse no sábado que Tóquio "observa com grande preocupação os ataques a petroleiros por parte de alguém".

"Do ponto de vista da segurança energética global, é necessário que a comunidade internacional aja em conjunto" contra os ataques, disse o ministro.


Fonte: G1



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