segunda-feira, 24 de julho de 2017

AVENTURA, CORRUPÇÃO E TERRORISMO: O legado democrático e patriótico de Dickson Grael



COMENTÁRIO DE AXEL GRAEL:



Dickson Grael, pioneiro do paraquedismo militar no Brasil. Acervo da família.


Em 1985, meu pai, o coronel Dickson Melges Grael, publicou o livro "Aventura, Corrupção e Terrorismo: à Sombra da Impunidade". O livro descreve de forma documentada e com detalhes de relevância histórica, três episódios importantes em que teve especial protagonismo:
  • AVENTURA: A ameaça de invasão do Uruguai (1971) - Governo Médici;
  • CORRUPÇÃO: O Relatório Saraiva (1976) - Governo Geisel e
  • TERRORISMO: O atentado do Riocentro - Governo Figueiredo (1981)
O artigo abaixo, escrito pela jornalista e mestre em História, Luiza Villaméa, refere-se ao episódio da "Ameaça de Invasão do Uruguai" e cita o livro escrito pelo "pai dos velejadores Lars e Torben Grael".



Lembrando fatos ocorridos há quase 50 anos atrás.

No final da década de 1960, assim como outros países latino-americanos, o Uruguai vivia uma crise econômica e política. Diante da escalada dos movimentos de esquerda e de conflitos políticos e sociais, o presidente Jorge Pacheco Areco decreta estado de sítio em 1969. Vários embaixadores haviam sido sequestrados, inclusive o cônsul do Brasil, Aloísio Dias Gomide. 

Eleições foram marcadas para 28 de novembro de 1971 e o governo militar brasileiro preocupava-se com a possibilidade da "Frente Ampla", uma coligação de forças de esquerda, vencesse o candidato dos militares e assumisse o poder.

Na época, Dickson Grael servia em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, cidade que faz fronteira com a Argentina e o Uruguai, e que abrigava o comando do III Exército. Dickson Grael exercia funções de alta responsabilidade, sendo responsável pelo comando do 22o Grupo de Artilharia de Campanha. Foi comunicado que teria papel de comando no planejamento da operação de invasão do Uruguai.

Dickson descreve assim o seu procedimento ao receber o planejamento da operação militar: 
"... após analisar longamente o documento, julguei de meu dever apresentar ao general Pellegrini minhas impressões sobre o que considerava aspectos inconvenientes da missão (...) Em consequência: o general Pellegrini houve por bem afastar-me do planejamento, o qual prosseguiu no âmbito do Estado-Maior". 

Dickson Grael relata no seu livro os fatos que quase levaram o Brasil a cometer aquilo que classificou como uma "aventura" e um grande erro histórico e diplomático. Seguem alguns trechos do livro, no seu primeiro capítulo, dedicado à "Ameaça de Invasão do Uruguai":

"No governo Medici, onde a repressão interna contra as esquerdas atingiu o seu apogeu e onde prevalecia, acima de tudo, o conceito de "Segurança e Desenvolvimento", com maior ênfase para a primeira, havia também uma forte preocupação com a existência de movimentos de guerrilha  de ideologia marxista ou para-marxista, nos países limítrofes com o Brasil"
A invasão "configurar-se-ia uma situação de extrema gravidade posto que levaria a nação brasileira a uma aventura injustificável e de consequências imprevisíveis." 
"Em benefício do direito de especular, admitindo-se a hipótese de que houvesse ocorrido a vitória eleitoral da Frente Ampla, e fosse dada a ordem para invadir, quais seriam as consequências?  Bem, se existisse algum acordo secreto com o governo argentino e se ele fosse mantido, então do ponto de vista militar não seria de se esperar maiores complicações. No entanto, ainda assim teria sido um fragoroso desastre político. Como ficaria a imagem do Brasil diante de outras nações e, em particular, de nossos irmãos latino-americanos? E que dizer do ressentimento do povo uruguaio? E das vidas que teriam sido sacrificadas?"
"Aventuras dessa natureza não costumam acabar bem. A própria Nação Argentina (a que eu e minha família somos ligados por laços muito fraternos), em que pesem as fundamentais diferenças, iria verificar isso, onze anos depois, na guerra das Malvinas".
"Fatos como esse somente poderiam ocorrer sob um governo autoritário, desrespeitando o Congresso Nacional e a própria constituição vigente."
"É pois, por essa razão , já passados treze anos, que eu decidi não me furtar ao dever de assim contribuir para que acontecimentos, como os aqui relatados, não mais se repitam no nosso País".


Como bem concluiu o meu pai, que aventuras como essa jamais sejam cogitadas novamente. Em tempos de exacerbação de posicionamentos políticos, em que vemos, mundo afora e aqui no Brasil, crescer posicionamentos antidemocráticos, de loucos anseios pela volta de tempos autoritários, da volta da ditadura, que olhemos para fatos ocorridos que podiam ter manchado a nossa história. 

Que as diferenças de visão gerem a necessária e saudável reflexão ideológica, mas que ocorram sempre sob a égide da democracia e que tenhamos a sabedoria de fazer o debate nos elevados limites do bem coletivo, da justiça social, do respeito mútuo, do bom-senso e da ética, e que nunca permitamos que eventuais aventureiros nos desviem novamente da vocação democrática do nosso País.

Saudades de você, meu pai. Você foi fundamental naquele momento histórico e, certamente, teria uma importante contribuição a dar nos turbulentos dias de hoje.

Axel Grael


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O PLANO DA DITADURA PARA INVADIR O URUGUAI

Meta era alcançar a capital Montevidéu em 30 horas – Foto: Reprodução/Ricardo Chaves


Exército brasileiro entrou em prontidão para ocupar o país vizinho caso a esquerda uruguaia vencesse as eleições presidenciais de novembro de 1971

Luiza Villaméa


Operação Trinta Horas. O nome faz referência ao tempo previsto para que quatro colunas do Exército brasileiro avançassem sobre o Uruguai e ocupassem a capital, Montevidéu. Sob o comando do general Breno Borges Fortes, as tropas entraram em prontidão em novembro de 1971 para partir das cidades gaúchas de Bagé, Livramento, Chuí e Uruguaiana.

Como teria pela frente uma região muito acidentada, a coluna de Uruguaiana seguiria só até a região de Paso de los Toros, no Uruguai. Lá, se uniria às tropas procedentes de Livramento pela Ruta 5, uma estrada que atravessa o país de norte a sul. Traçado em detalhes, o plano de intervenção militar começou a tomar forma ainda no primeiro semestre de 1971.

A meta era impedir que o Uruguai tivesse um governo de esquerda, assim como ocorria na época com o Chile de Salvador Allende. No Cone Sul, o vizinho do Brasil atravessava uma crise sem precedentes. De um lado, havia forte mobilização sindical e estudantil, além do movimento guerrilheiro Tupamaro. De outro, grupos paramilitares de extrema direita.

O presidente Jorge Pacheco Areco, do Partido Colorado, cujo governo autoritário censurou órgãos de imprensa como o jornal dirigido por Eduardo Galeano, enfrentava instabilidades. Com as eleições presidenciais marcadas para 28 de novembro e chances concretas de vitória da coalizão de esquerda Frente Ampla, Pacheco Areco pediu ajuda à ditadura brasileira para garantir a vitória de seu candidato, Juan María Bordaberry.

Do lado de cá da fronteira, o general-presidente Emílio Garrastazu Médici não pestanejou. Mandou o III Exército, com sede em Porto Alegre, estar preparado para invadir se a Frente Ampla ganhasse as eleições. O plano, conhecido como Operação Trinta Horas no comando e nos setores de inteligência, chegou aos quartéis como Operação Charrua.

O coronel Dickson M. Grael, pai dos velejadores Lars e Torben Grael, servia em Uruguaiana quando foi encarregado de estudar um documento com diretrizes da operação. Era começo de 1971. Pouco depois, Grael acompanhou o adido militar dos Estados Unidos no Brasil, general Arthur Moura, um americano com nome brasileiro, em viagem pelo rio Uruguai.

Durante a navegação, o americano observou e fotografou um acampamento de militantes da Frente Ampla. “É evidente que essa visita do General Moura fazia parte do acompanhamento exercido pelo Governo dos Estados Unidos em relação à conturbada situação no Uruguai e aos preparativos militares brasileiros dela decorrentes”, escreveu Grael no livro Aventura, Corrupção e Terrorismo, publicado em 1985.


Giordani, que entrou de prontidão: “Seria um passeio” – Foto: Ricardo Chaves.


Outra testemunha da operação é o advogado Marco Pollo Giordani. Ele se lembra de ter ficado aquartelado por duas semanas, em Porto Alegre: “O general inspecionou a tropa e avisou que a ofensiva era iminente. Se os comunistas ganhassem, nós iríamos invadir, tomar conta daquilo lá. Ele chamou de Operação Charrua”, contou Giordani a esta colunista.

“Tiramos toda a munição do paiol. Para nós, seria um passeio. Quando acabou a eleição, todo mundo ficou muito triste. Os comunistas perderam e a operação foi desativada”, lamentou Giordani. Mais cinco anos e ele virou agente do DOI-CODI, o órgão de repressão da ditadura. Atuou infiltrado na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Já no Uruguai, Bordaberry, o candidato de Areco que venceu a Frente Ampla, não demorou a derrotar os tupamaros. Na sequência, endureceu ainda mais o regime e liderou um golpe de Estado que impôs ao país uma ditadura até 1985. Não escapou incólume. Bordaberry morreu em 2011, aos 83 anos, em prisão domiciliar, condenado pela morte e desaparecimento de opositores políticos.


Luiza Villaméa. Repórter Especial da Brasileiros, é jornalista e mestre em História pela USP. Ganhou um prêmio Esso por uma série de reportagens sobre o impacto da ditadura na vida de crianças e adolescentes

Fonte: Brasileiros




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Família Grael

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