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domingo, 19 de julho de 2026

Na Copa do calor, agora a fumaça


A Copa do Mundo mais quente da história (até agora) chega ao fim, lembrando-nos de que vivemos uma época de eventos extremos mais frequentes e intensos. O estádio onde será a final entre Argentina e Espanha, em Nova Jersey (região de Nova York), foi encoberto nos últimos dias pela fumaça decorrente dos incêndios florestais no Canadá.

Segundo a empresa suíça IQAir, que monitora a qualidade do ar em tempo real, a cidade de Nova York acordou nesta sexta-feira (17) com níveis insalubres de poluição, chegando a um Índice de Qualidade do Ar de 188 (AQI, na sigla em inglês). Outras localidades nos Estados Unidos também sofrem com o evento. Detroit registrou a pior qualidade de ar do mundo nesta sexta, com um AQI 222 – mas esse índice ainda é bem melhor do que os impressionantes AQI 600 atingidos na véspera. Com valores acima de 100, o ar é considerado insalubre para grupos de risco e, acima de 150, para todos.


A World Weather Attribution, consórcio internacional de cientistas climáticos, afirmou que a maior recorrência e intensidade dos incêndios florestais devem ser atribuídas às mudanças climáticas. O aquecimento global tornou a temporada de incêndios no leste do Canadá cerca de 50% mais intensa. A falta de umidade na vegetação e o solo ressecado transformaram as florestas boreais em combustível altamente inflamável. O país enfrenta, neste momento, mais de 850 focos de incêndios florestais.

O calor extremo marcou o tom de muitos jogos desta Copa. Paraguai x França registrou uma sensação térmica de 42°C. E três jogos foram disputados com sensação térmica de 40°C (Argentina x França, Colômbia x Senegal e Brasil x Noruega). O sindicato internacional de jogadores, a FIFPRO, recomenda que partidas de futebol sejam repensadas a partir do Índice de Temperatura de Globo e Bulbo Úmido, que mede o estresse térmico no corpo (WBGT, na sigla em inglês). Partidas com um WBGT acima de 28°C devem ser adiadas ou canceladas por questões de segurança. A entidade também recomenda pausas para hidratação e resfriamento quando o valor atinge 26°C.

Pela primeira vez, todas as partidas da competição tiveram duas pausas para hidratação – uma em cada tempo. Adotadas como uma medida de adaptação, essas pausas acabaram no centro do debate sobre o quanto interferiram no desenrolar esportivo ou se, na verdade, foram motivadas por razões comerciais.

A FIFA também inaugurou seu protocolo para tempestades nesta Copa. Durante esse mês de competição, o protocolo de tempestades e raios foi ativado e provocou interrupções diretas em três partidas: França x Iraque, México x Equador e México x Inglaterra. No entanto, a FIFA não possui um protocolo específico para lidar com a fumaça decorrente de incêndios florestais. Previsões desta sexta-feira indicam que a situação deva melhorar até domingo. O possível alívio deve vir com a chuva prevista para sábado. A cerimônia de encerramento promete, além do jogo entre Argentina e Espanha, um mega espetáculo musical, com shows de Madonna, Shakira, BTS e Justin Bieber. Diante dos elevados custos logísticos e financeiros de um eventual adiamento, não é exagero dizer que os organizadores devem estar fazendo a dança da chuva.

Fonte: Política por Inteiro





terça-feira, 30 de junho de 2026

Expansão de ciclovias e parques estimula paulistano a pedalar mais


Vários estudos demonstram benefícios da prática de exercícios para a saúde mental, com reduções nas taxas de depressão e ansiedade, acompanhadas de ganhos em bem-estar psicológico e qualidade de vida (imagem: Phelipe Janning/Agência FAPESP).

Estudo acompanhou 1,5 mil moradores por uma década e constatou que infraestrutura a até 500 metros de casa é decisiva para a adoção do transporte ativo. Desigualdade na distribuição da malha cicloviária, porém, ainda é desafio na capital

Elton Alisson | Agência FAPESP – A implantação de novas ciclovias, parques e outros equipamentos de uso público na cidade de São Paulo estimulou a prática de atividades físicas relacionadas ao transporte e promoveu ganhos à saúde coletiva, segundo um estudo que analisou o comportamento de 1,5 mil moradores da metrópole entre os anos de 2014 e 2024. Os pesquisadores constataram que a presença de ciclovias a menos de 500 metros de distância de casa, por exemplo, foi um fator determinante para manter os paulistanos em movimento, estimulando o ciclismo.

“Estamos observando um experimento natural em São Paulo: o aumento da oferta de espaços públicos evidencia como as mudanças urbanas estimulam o deslocamento ativo, a exemplo do ciclismo”, diz à Agência FAPESP Alex Florindo, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coordenador da pesquisa.

Os resultados do trabalho, apoiado pela FAPESP, foram descritos em artigo publicado em abril no Journal of Transport & Health.

O período analisado na pesquisa foi marcado por uma expansão expressiva da oferta de ciclovias na cidade. De acordo com dados da prefeitura, entre 2014 e 2024, a malha cicloviária de São Paulo saltou de 242 para 743 quilômetros (km) e a cidade ganhou 15 novos parques municipais.

Na avaliação dos pesquisadores, a ampliação desses espaços públicos abertos na cidade não apenas estimulou o deslocamento ativo, mas gerou impactos na saúde coletiva. Para fundamentar essa inferência, eles argumentam que a atividade física é um determinante central de saúde, cuja prática regular está comprovadamente associada à redução dos riscos de doenças cardiovasculares e câncer, por exemplo. Também há vários estudos que demonstram benefícios da prática de exercícios para a saúde mental, com reduções nas taxas de depressão e ansiedade, acompanhadas de ganhos em bem-estar psicológico e qualidade de vida.

Sob essa ótica, os autores sustentam que a integração de ciclovias, por exemplo, no planejamento urbano não é apenas uma escolha logística, mas uma estratégia de saúde pública. Segundo o estudo, essas intervenções contribuem para o desenvolvimento de cidades mais saudáveis ao reduzir a dependência de automóveis, a poluição do ar e os sinistros de trânsito, servindo, consequentemente, como um importante mecanismo de mitigação das mudanças climáticas.


Aumento das ciclovias

Entre 2014 e 2024, um estudo longitudinal utilizou entrevistas presenciais e telefônicas para monitorar os níveis de atividade física relacionada ao ciclismo (pedalar ao menos dez minutos por dia) e as condições de saúde relatadas por paulistanos residentes em todas as regiões da cidade.

Os dados foram cruzados com indicadores de acesso dos participantes a espaços públicos abertos existentes no entorno de suas residências em um raio de 500 metros – distância média que um adulto pode caminhar em dez a 15 minutos. Essas informações foram obtidas a partir de um conjunto de dados georreferenciados de ruas de São Paulo, disponibilizados pela plataforma Geosampa.

Gerida pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, essa plataforma disponibiliza dados atualizados anualmente de parques, praças, ciclovias, estações de trem e metrô, entre outros equipamentos públicos instalados na cidade.

“Com base no cruzamento dessas informações, foi possível estabelecer relações para verificar se o acesso das pessoas a esses espaços públicos abertos ao longo dos anos está contribuindo ou não para mudar determinados comportamentos ou desfechos em saúde”, explica Florindo.

Os resultados das análises indicaram que as ciclovias tiveram o maior crescimento em São Paulo entre 2014 e 2024, com a proporção de domicílios acompanhados na pesquisa próximos a esses novos equipamentos saltando de 22% para 33,2%. Já os parques registraram um aumento moderado no mesmo período, de 9,4% para 12,7%, enquanto as praças apresentaram estabilidade, variando de 68,4% para 69,3%.

Embora o uso da bicicleta para o deslocamento tenha apresentado queda na população participante do estudo como um todo ao longo da década, o grupo com acesso a dois ou três espaços públicos abertos próximos de casa permaneceu estável.

“Esses espaços passaram a atuar como um fator de proteção contra a diminuição do uso da bicicleta ao longo do tempo", avalia Danilo Dias Santana, pós-doutorando no Grupo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física e Saúde da EACH-USP e primeiro autor do artigo.

Distribuição desigual

Segundo Santana, o biênio 2014-2015 foi estabelecido como o marco inicial do estudo longitudinal porque em julho de 2014 foi aprovado o novo Plano Diretor de São Paulo.

Algumas das metas do plano foram aumentar a oferta de equipamentos urbanos em áreas com altos déficits de infraestrutura e ampliar a lista de parques públicos, beneficiando regiões menos arborizadas.

A despeito do aumento dos espaços públicos abertos promovido pelo plano, a expansão de ciclovias, por exemplo, ficou mais concentrada nas regiões mais ricas da cidade, ponderam os pesquisadores.

“Estamos apresentando os dados para secretarias da prefeitura e para a Câmara Municipal de São Paulo e estabelecendo diálogos além do meio acadêmico com o objetivo de reorientar algumas políticas. É preciso implantar mais ciclovias não só na região central, como também na centro-oeste e nas zonas leste e sul, onde há menor presença dessas infraestruturas”, diz Florindo.

As ciclovias, contudo, não são a única solução para estimular o uso de bicicleta em São Paulo e em outras capitais do país. São necessárias outras intervenções, como abrir ruas de lazer, ampliar o sistema de compartilhamento de bicicletas, implantar estacionamentos de bicicletas em grandes estações de transporte, além de realizar intervenções com famílias e disponibilizar locais para banho em rotas de trabalho e de estudo. Além disso, são necessárias mudanças não relacionadas diretamente ao planejamento urbanístico, pondera o pesquisador.

“Identificamos que, mesmo com a implantação de mais ciclovias, o ciclismo na cidade de São Paulo não está aumentando muito por uma série de razões. A bicicleta ainda é cara no Brasil e o ciclismo é uma atividade física praticada principalmente por homens.”

Estudos anteriores conduzidos por Florindo indicaram que as ciclovias têm sido usadas em São Paulo não somente para o tráfego de bicicletas, mas também para práticas de exercícios físicos como caminhadas e corridas, dada a escassez de espaços públicos abertos na cidade. “As ciclovias são estratégicas para promover essas atividades”, afirma.

Da moto para a bicicleta

O caso do fotógrafo Marcelo Heim de Andrada e Silva, de 40 anos, ilustra com exatidão os achados do estudo da EACH-USP. Há dois anos, após sofrer um acidente de moto e quebrar o ombro, ele decidiu mudar drasticamente sua rotina de transporte. Largou o veículo motorizado e adotou a bicicleta convencional ("analógica", em oposição à elétrica, como define com bom humor) para fazer o trajeto diário de 10 km entre a sua casa, no Butantã, e a avenida Paulista, onde trabalha.

Para ele, a decisão de consolidar a bicicleta como meio de transporte definitivo dependeu diretamente da chegada de nova infraestrutura urbana na sua região.

“Fizeram uma ciclopassarela do lado da ponte do Jockey para o shopping Eldorado [na zona oeste de São Paulo]. Isso foi determinante. Antes, eu teria de fazer um desvio enorme, entrar na USP [na Cidade Universitária], ir lá para o outro lado para conseguir atravessar a ponte e voltar pela Faria Lima. Quando fizeram essa ponte, eu fiquei só esperando ficar pronta para começar a vir direto de bicicleta. Achei uma linha reta”, conta o fotógrafo.

Além do deslocamento diário, o morador da zona oeste também passou a utilizar a bicicleta para o lazer nos fins de semana, frequentando espaços como as unidades do Sesc.

A percepção dele sobre o espaço urbano também dialoga diretamente com os alertas dos pesquisadores sobre os desafios futuros do planejamento em São Paulo. Embora note um aumento expressivo no fluxo de ciclistas – chegando a pegar "trânsito de bicicletas" na região do largo da Batata e da avenida Faria Lima –, ele ressalta os novos conflitos gerados pelo crescimento do modal e pela falta de espaço nas vias.

“Há muita gente usando, mas a rua continua sendo pensada para o carro; 90% da via é para o automóvel e não sobra quase nada para o resto", aponta Silva, que também destaca a vulnerabilidade dos ciclistas tradicionais diante do aumento de bicicletas elétricas que andam acima do limite de velocidade ou na contramão. O desafio da segurança na capital, contudo, vai além do trânsito: recentemente, o fotógrafo teve sua bicicleta roubada dentro do campus da USP, um reflexo de que a experiência do ciclista na cidade ainda demanda melhorias em segurança pública e infraestrutura de estacionamento.

O artigo A decade-long study on public open spaces and transport-related cycling in the largest Brazilian city pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2214140526000721.





SB64, em Bonn: Mais um evento da agenda global do clima a acabar em frustração?



Retornei recentemente de mais uma agenda em Bonn, a bela e histórica "Cidade Federal" da Alemanha, localizada às margens do Rio Reno. 

Entre os dias 08 e 13 de junho de 2026, representei o ICLEI - Local Governments for Sustainability (organização que reúne mais de 2.500 cidades e regiões em todo o mundo), em três eventos importantes realizados em Bonn: 



Membros do GexCom do ICLEI (2025).

SB64 - DIÁLOGOS DE BONN

Bonn foi a capital da Alemanha no pós-guerra, de 1949 até 1999, quando a capital retornou para Berlin, após a reunificação alemã. Mas, a cidade manteve o status de "Capital Federal" e permaneceu relevante no cenário diplomático, sediando vários organismos internacionais, principalmente organizações da estrutura da ONU. Assim, Bonn tornou-se o ponto focal da diplomacia climática global, uma vez que sedia a Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - UNFCCC e, portanto, a cidade recebe muitas reuniões técnicas e diplomáticas relevantes para a agenda climática. 

A 64ª Sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), ou SB64, é uma reunião promovida regularmente (sempre no meio do ano) pelos chamados Órgãos Subsidiários, sendo eles: Subsidiary Body for Scientific and Technological Advice - SBSTA (Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico e Tecnológico) e o Subsidiary Body for Implementação - SBI (Órgão Subsidiário para a Implementação). Ambas estruturas subsidiam as atividades da Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas - UNFCCC, organização com sede em Bonn e que é responsável pela condução da agenda climática sob a responsabilidade da ONU.

Os chamados "Diálogos de Bonn" dão prosseguimento aos entendimentos das COPs anteriores e buscam estruturar temas para acordos e documentos a serem aprovados na COP seguinte. Oficialmente, os diálogos da SB64 tiveram dezenove tópicos para discussão, mas o objetivo principal foi dar continuidade e buscar acordos para os temas debatidos na COP30, de Belém (PA), sob a presidência brasileira, e estruturar documentos que façam parte da agenda da COP31. Representantes das cidades e a sociedade civil mantiveram entre as suas prioridades a cobrança por avanços dos temas relacionados ao financiamento, à adaptação climática, à transição energética e outros temas que têm sido sistematicamente bloqueados pelos lobbies que atuam nos bastidores diplomáticos da agenda do clima.

MAIS UM EVENTO DA AGENDA CLIMÁTICA OFICIAL QUE ACABA EM FRUSTRAÇÃO, MAS COM ALGUNS AVANÇOS 

A grande dificuldade de produzir acordos no âmbito da UNFCCC é a necessidade de alcançar consensos dentre todos os países signatários da convenção para que as decisões sejam formalizadas. É um enorme desafio construir consensos entre países com realidades tão desiguais (exemplo: grandes potências econômicas x pequenas nações insulares) e com interesses tão distintos (exemplo: países industrializados precocemente e com mais responsabilidade nas emissões históricas de Gases do Efeito Estufa e países em desenvolvimento). A necessidade de consenso também facilita o trabalho dos lobistas do petróleo e dos inimigos da descarbonização.

A SB64 concluiu os seus trabalhos no dia 18 de junho. Mais uma vez, observadores da sociedade civil, muitos representantes governamentais e especialistas acadêmicos manifestaram frustração e preocupação com os resultados alcançados na rodada de Bonn (SB64), que indicam tendências de impasses persistentes para próxima COP. 

Como estive em Bonn apenas na primeira semana e participei agendas também de outros eventos, utilizarei informações disponíveis em alguns sites especializados de reconhecida qualidade de informação e idoneidade, organizados principalmente por organizações da sociedade civil que acompanham de perto os debates. 

Dentre as principais críticas dos observadores sobre os resultados (ou falta de resultados) dos Diálogos de Bonn, são destaques:

Discurso x ação: Segundo o Climate Action Network International (CAN), os impasses que persistiram em Bonn comprovam a crescente lacuna existente entre a retórica de implementação e as entregas efetivas. Segundo a CAN, em vez de marcar a transição entre o compromisso com a implementação, o que se viu foi uma estratégia de negociação que valoriza a linguagem da implementação, mas sempre recua para argumentos procedimentais quando chegava-se à necessidade de tomada de decisão. Durante as duas semanas de discussões, governos afirmavam a importância da adaptação, transição justa, resiliência e o apoio às comunidades mais vulneráveis e que já sofrem os efeitos da crise climática. O tema de uma transição centrada nas pessoas (people-centred) se tornou o conceito dominante.

Quando o debate chegava às finanças a conversa sempre retrocedia para medidas de obstrução ou protelatórias, como pedidos de revisões, questionamentos sobre "tecnicidades", solicitações de termos de referência e debates procedimentais. Para o CAN, "o debate passou a ser não mais sobre a necessidade de ação, mas sobre quem tem o poder e os meios para viabilizar a implementação".

Financiamento: o primeiro grande impasse foi no tema sempre mais sensível: quem paga, quanto paga e como paga. Este é o principal entrave para que se avance nas medidas de mitigação e adaptação climática. As expectativas de triplicar o financiamento do financiamento foi bloqueado pelos países mais ricos já no primeiro dia. Os debates e a decisão foram mais uma vez empurrados para frente e devem ser retomado na COP31.

Adaptação: As negociações de adaptação em Bonn terminaram com um balanço preocupante, especialmente pela falta de acordo sobre a Meta Global de Adaptação (GGA, em inglês). O tema foi encerrado sob a Regra 16 (Rule 16), o que significa que as Partes não chegaram a um consenso e que a discussão será retomada apenas na COP31, em novembro, na Turquia. Na prática, isso adia decisões importantes para a implementação, principalmente em um ano de El Niño. Com as previsões de que o fenômeno se desenvolva com força entre o fim do próximo semestre e início de 2027, os impactos da crise climática podem ser acentuados e sentidos de forma desigual pelas populações vulnerabilizadas. (Política por Inteiro)

Transição justa: Neste tema tivemos avanços. Segundo o Política por Inteiro, "no Programa de Trabalho sobre a Transição Justa (JTWP, na sigla em inglês), o principal resultado foi menos relacionado ao conteúdo substantivo e mais à arquitetura institucional que definirá o futuro do processo. Os negociadores concordaram com os termos de referência para uma revisão formal do programa, que ocorrerá na Turquia, durante a COP31 e que servirá de base para sua decisão quanto à continuidade. A revisão avaliará a efetividade do programa desde sua criação, a utilidade de seus produtos para Partes e atores não estatais, a qualidade de seus formatos de trabalho e possíveis melhorias para aumentar sua relevância e impacto".

Mapa do Caminho para longe dos Fósseis: O Mapa do Caminho da Presidência brasileira da COP30 para o Abandono Gradual dos Combustíveis Fósseis (“TAFF Roadmap”, como é conhecido em inglês) consolidou-se como uma das principais iniciativas políticas para operacionalizar o chamado do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris (Global Stocktake) para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Segundo a Presidência, o ambiente político em Bonn foi significativamente mais favorável do que em Belém, refletindo uma crescente percepção de que o TAFF Roadmap funcionará como uma ferramenta de implementação, e não como uma tentativa de reabrir negociações já concluídas.

O processo já recebeu mais de 100 contribuições de governos, demonstrando, segundo a Presidência da COP30, um interesse crescente em moldar o conteúdo do roteiro e manter o debate sobre sua implementação vivo. Apesar desse avanço, permanecem desafios políticos importantes. O apoio ao TAFF Roadmap é claramente desigual entre os grupos negociadores. Enquanto alguns países desenvolvidos e membros do Environmental Integrity Group1 (Grupo de Integridade Ambiental) demonstraram apoio explícito, grupos como o African Group of Negotiators (Grupo Africano de Negociadores), o Grupo Árabe e os Like-Minded Developing Countries2 (Países em Desenvolvimento de Pensamento Similar) ainda não sinalizaram alinhamento claro. Em proposições paralelas, representantes africanos buscaram inclusive reforçar a dimensão de equidade do debate por meio da ideia de um “Equitable TAFF Roadmap”, indicando que questões de diferenciação e justiça distributiva continuarão centrais para ampliar o apoio político ao processo (Política por Inteiro).

CONJUNTURA GLOBAL

A conjuntura atual é de grande instabilidade e pouco favorável ao avanço das negociações internacionais da agenda climática. Diante das tensões geopolíticas, causadas principalmente pela posição do governo dos EUA, acontecem retrocessos no multilateralismo, com consequências para o enfraquecimento da ONU e suas organizações. 

Além disso, cabe destaque aos seguintes aspectos:

Guerra do Irã: Em fevereiro de 2026, EUA e Israel deram início a um ataque contra o Irã, sob o pretexto de destruir um pretenso arsenal nuclear daquele país. Diante da agressão, o Irã fechou o Estreito de Ormuz e atacou instalações militares dor EUA nos países vizinhos. A crise causada pela guerra e pela impossibilidade de escoamento do petróleo e seus derivados a partir do Estreito de Ormuz, causou uma crise de abastecimento energético global e alta do preço do petróleo. A guerra aumenta o debate e a pressão pela descarbonização da economia e por uma transição energética global que nos afaste da dependência do petróleo ("phase out" do petróleo). 

Também cabe aqui fazer alguns alertas. Uma análise feita pelo Climate and Community Institute e divulgada pelo The Guardian, apontou que somente os primeiros 14 dias da Guerra contra o Irã produziu uma emissão de 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (tCO2e). Relatório da ONU denunciou que os gastos militares bateram um novo recorde mundial no ano passado chegando a US$ 2,7 trilhões. Mais de 100 países, de todas as regiões do planeta, aumentaram os orçamentos de defesa levando a corrida armamentista a um patamar jamais visto. Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, "gastos militares excessivos não garantem a paz" e podem, inclusive, prejudicá-la, “alimentando corridas armamentistas, aprofundando desconfianças e desviando recursos das verdadeiras bases da estabilidade”. Segundo o relatório, apenas 4% desse gasto já seria suficiente para acabar com a fome no mundo e 10% acabariam com a pobreza extrema. (Saiba mais aqui). Também é fato que o aumento dos gastos militares desviam recursos que antes tinham prioridade para a agenda climática e outros temas ambientais.

Ondas de Calor na Europa causa mortes: Logo após a SB64, de 20 a 28 de junho, aconteceu a Semana de Ação Climática de Londres (London Action Climate Week 2026), quando cerca de 75 mil pessoas, dentre elas muitas das principais lideranças climáticas, dentre gestores públicos, representantes da sociedade civil, empresários, reuniram-se novamente para debater a transição para o "Net Zero" e indicar caminhos para as negociações na COP31. 

Fonte: Earth.org

Os dois eventos ocorreram quando vimos a Europa enfrentar mais uma grave onda de calor, que segundo a Organização Mundial da Saúde - OMS, já causou mais de 1.300 mortes - sendo mais de 1.000 só na França, somente na semana do dia 21 de junho, com causas "associadas às altas temperaturas na Europa". A atual onda de calor já é considerada a mais intensa na história da Europa e seria a consequência do que os meteorologistas chamam de Bloqueio Ômega, um padrão atmosférico  que mantém a massa de ar quente estagnada sobre uma mesma região, impedindo a chegada das frentes frias. Nos últimos dias, o nível de calor bateu recordes em várias partes da Europa (fonte: G1):
  • Na França, os termômetros ultrapassaram os 40°C em diferentes regiões ao longo da semana. 
  • Na Alemanha, a temperatura chegou a 41,5°C no sábado, a maior já medida no país. O serviço meteorológico alemão ainda alertou que os termômetros poderiam se aproximar dos 42°C. 
  • Na República Tcheca, a temperatura chegou a 40,8°C ao norte de Praga, com previsão de ultrapassar os 41°C neste domingo. 
  • Em Basileia, na Suíça, os termômetros marcaram 39°C, estabelecendo pelo terceiro dia seguido um novo recorde para o mês de junho. 
  • Já a Dinamarca registrou 37°C, a maior temperatura desde o início das medições no país.
Fonte: Earth.org, com dados do World Weather Attribution (WWA).

Alguns relatos afirmam que foram registrados quase 59°C no pavimento das ruas. Devido ao calor, escolas fecharam, transporte ferroviário foi paralisado por medo de dilatação dos trilhos. 

A OMS afirmou que cerca de 150 milhões de pessoas vivem atualmente sob condições de calor extremo, que já pressionam os sistemas de saúde, afetam a infraestrutura e sobrecarregam as redes elétricas em diferentes países. Cerca de 489 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência de problemas de saúde associados ao calor extremo. Desse total, 45% das mortes ocorrem no Sudeste Asiático e 36% na Europa, evidenciando que o calor já é uma das ameaças climáticas mais letais do mundo (fonte: OMS, in Política por Inteiro). Eventos da Semana do Clima de Londres chegaram a ser cancelados devido ao excesso de calor!

Uma Copa sob a marca das Mudanças Climáticas: A Copa do Mundo de Futebol em curso, que se realiza no México, EUA e Canadá, já é considerada a mais quente da história. Portanto, foram estabelecidas regras relacionadas às previsões de ondas de calor e a possibilidade de como tempestades, granizo e outros eventos climáticos extremos que seriam potencializados pela ocorrência do Super El Niño. Diante disso, foram estabelecidas novas regras como a Pausa para Hidratação dos atletas em cada tempo do jogo e, para jogos nos EUA, haverá a suspenção dos jogos a qualquer momento, sempre que houver ocorrência de raios a uma determinada distância dos estádios. Interessante a regra estabelecida justamente no país com o governo mais negacionista climático do planeta.

Negacionismo climático do Governo Trump: A CEO da COP30, Ana Toni, comentou em entrevista à GloboNews que os EUA acabam de lançar um plano de resiliência climática, que curiosamente não se refere uma vez sequer à emergência climática. Portanto, mantendo a atitude negacionista mesmo diante de todos os alertas da Ciência, como nos documentos emitidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, o relatório do governo Trump tenta convencer da normalidade dos fenômenos climáticos observados em todo o mundo.

O QUE TEREMOS PELA FRENTE?

Duplo comando na COP31: A COP31 tem um grave complicador que vem atrapalhando o avanço dos debates além do normal: a conferência será liderada pela Turquia, que sediará o evento (Antalya), e a Austrália que terá a presidência da conferência, comandando as negociações. O duplo comando foi o resultado da falta de entendimento entre os países membros da UNFCCC e, obviamente, será um desafio a mais para a próxima COP. 

Novas formas para buscas de consenso: O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em entrevista para a Sumaúma, usou duas frases importantes: “Nós somos muito mais livres para implementar do que para negociar” e "A negociação exige consenso, a implementação, não”. 

Não é possível que o mundo fique refém da ação dos lobbies, de interesses mesquinhos e da busca obrigatória de consensos. É preciso reunir e trabalhar com os "convertidos" e agentes desejosos de ver as ações implementadas imediatamente, formando coalisões de forças com compromissos com a segurança climática global. 

Com base nesse sentimento, há um movimento para o fortalecimento de fóruns de discussão alternativos ou complementares aos espaços formais da UNFCCC, onde pode-se avançar sem estar atrelado às regras de obrigatoriedade de consenso. Entre 24 e 29 de abril de 2026, realizou-se a I Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, na Colômbia (Conferência de Santa Marta), um encontro voluntário e paralelo à agenda oficial da ONU, realizada pela primeira vez, com o objetivo de avançar na transição para longe do petróleo, do carvão e do gás. A realização do encontro foi decidida durante a COP30, quando houve lamentavelmente um bem-sucedido movimento lobista contra qualquer decisão ou até menção nos documentos finais sobre o tema da descarbonização.

O nível de apoio da Conferência de Santa Marta, realizada com o apoio do governo da Colômbia e da Holanda, surpreendeu com a presença de 57 países (1/3 da economia mundial). Um encontro preparatório reuniu cerca de 400 especialistas acadêmicos para gerar argumentação para o resultado do encontro. Também foi dada especial atenção à participação de povos indígenas e representações da sociedade civil. (Saiba mais em Carbon Brief).

O fórum de Santa Bárbara é um exemplo do que se está chamando de 'Multilateralismo Climático de Dois Níveis", uma ideia que permaneceu como legado da COP30. Significa que, diante das dificuldades nas instâncias formais de se construir acordos multilaterais, propõe-se o caminho que de "um lado, permanece o eixo formal das negociações da UNFCCC, responsável por garantir legitimidade, universalidade e direção normativa. De outro, ganha força um eixo voltado à implementação, baseado na mobilização de governos, instituições financeiras, sociedade civil, setor privado, especialistas e atores subnacionais capazes de acelerar a execução das metas climáticas", como explica a Plataforma Cipó.

Foco estratégico no metano: O metano é 80 vezes mais potente do que o CO2 e permanece na atmosfera por apenas 10 ou 15 anos, ou seja, bem menos do que o CO2. Como declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, "Cortar o metano é o freio mais rápido que podemos ter para o aquecimento do planeta". Por isso, há uma mobilização para a priorização às ações de mitigação das emissões de metano, que pode ter grande efetividade e onde não há um lobby contrário tão poderoso como no caso do petróleo. Ou seja, avançamos no metano, enquanto enfrentamos as resistências contra o phase out do petróleo.

Cidades ganharão relevância: Em março de 2027, o IPCC lançará o novo relatório, dessa vez tendo como o tema "Cidades e Clima" (Special Report on Climate and Cities). O foco estará nos impactos urbanos e nos esforços de adaptação climática em curso nas cidades. Espera-se que o relatório fortaleça o reconhecimento da importância das ações locais e a necessidade de avanços nas políticas climáticas multinível.

Axel Grael
Doutorando PPGAU/UFF
Membro do GexCom/ICLEI


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Texto produzido com observações e conclusões pessoais, bem como com informações de:


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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sem medidas de adaptação eficazes, Europa aquece em ritmo superior à média global e tem 1.300 mortes adicionais em uma semana

Pessoas tentam se refrescar na frente de um jato d'água instalado em uma caminhonete da Defesa Civil perto do Coliseu — Foto: Andreas SOLARO / AFP

Pessoas pulam no Canal Saint-Martin durante uma onda de calor na França, em Paris — Foto: Ludovic MARIN / AFP

Continente enfrenta mudança climática ao mesmo tempo em que passa por profunda transformação demográfica, com aumento de população vulnerável

Por Amanda Scatolini

Quando a Europa enfrentou uma histórica onda de calor em 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, o episódio foi inicialmente tratado como um ponto fora da curva. Nos anos seguintes, porém, temperaturas extremas passaram a fazer parte da rotina dos verões europeus — como o deste ano, que mal começou e trouxe poderosa onda de calor em sua primeira semana, que já causou, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no domingo, mais de 1,3 mil mortes adicionais.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicou no X que "neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob um calor extremo, escolas estão fechadas e redes elétricas em colapso". Sublinhou que "o estresse pelo calor é frequentemente chamado de 'assassino silencioso', e as casas, locais de trabalho e escolas europeias não foram construídos para suportar essas temperaturas". Na França, a agência nacional de saúde pública especificou que o surto afeta principalmente pessoas com mais de 65 anos e destacou aumento de 40% nas mortes em casa.

Enquanto sucessivos recordes de altas temperaturas são registrados em diferentes países, a Europa passa por uma transformação demográfica profunda, com população cada vez mais envelhecida e, consequentemente, mais vulnerável a extremos. A combinação dos fenômenos levanta uma questão que especialistas tentam responder há anos: até que ponto a Europa realmente se adaptou para enfrentar o problema?

Apesar de altas temperaturas não serem fenômeno exatamente novo para os europeus, a frequência, a duração e a intensidade de eventos extremos aumentaram significativamente desde a década de 1980, aponta a Agência Europeia do Ambiente (EEA). Além disso, segundo o observatório climático Copernicus, o continente é o que aquece mais rapidamente no planeta. A temperatura média europeia aumentou cerca de 0,49°C por década desde 1979 e, considerando só os últimos 30 anos, o ritmo é de 0,56°C por década — mais que o dobro da média global.

Os verões mais quentes registrados na Europa — Foto: Arte/ O GLOBO


100 milhões afetados

Recordes recentes, sobretudo a partir dos anos 2010, ilustram a tendência, com o verão de 2024 sendo o mais quente da série histórica até então. Naquele ano, a temperatura média do continente foi 1,54°C acima das registradas entre 1991 e 2020. Mais de 62,7 mil mortes relacionadas ao calor foram estimadas, o que põe o verão daquele ano como o segundo mais letal, atrás do de 2003.

Ainda que seja cedo para dizer que o verão deste ano entrará para o rol dos mais quentes registrados na Europa, seus primeiros dias (a estação começou no dia 21) já são históricos para a média de junho. Parte do continente é hoje assolada por uma nova onda — provocada por uma massa de ar extremamente quente proveniente do Norte da África e mantida sobre a Europa Ocidental por um sistema de alta pressão, formando um "domo de calor" — que já quebrou recordes em diversos países, com termômetros marcando mais de 40°C em alguns locais.

De acordo com a agência AFP, pelo menos 191 milhões de pessoas enfrentaram 35°C ou mais neste domingo, com temperaturas particularmente altas na Alemanha, República Tcheca, Hungria e Polônia.

Diante do quadro alarmante, que tende a se agravar, a principal estratégia recomendada pela OMS são os chamados Planos de Ação em Saúde para o Calor (HHAP, na sigla em inglês). Eles integram serviços de meteorologia, saúde pública e defesa civil para reduzir impactos.

O guia, que foi atualizado pela OMS este ano, indica a implementação de sistemas de alerta antecipado, protocolos para hospitais e serviços de emergência, campanhas de comunicação, mecanismos de monitoramento de grupos vulneráveis e procedimentos para resposta durante episódios de calor extremo.

— As ondas de calor deixaram de ser anomalias isoladas. São uma crise recorrente que causa sofrimento, ceifa vidas e sobrecarrega sistemas e infraestrutura de saúde — afirmou o diretor da OMS Europa, Hans Kluge.

Impacto humano das ondas de calor no continente — Foto: Arte/O Globo

Contudo, apesar dos avanços, a cobertura desses mecanismos não é universal no continente. Segundo levantamento de 2024 da EEA e do Observatório Europeu do Clima e da Saúde, 10 dos 38 países analisados não têm HHAPs estabelecidos (Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Estônia, Finlândia, Islândia, Kosovo, Montenegro, Noruega, Polônia e Sérvia). Outros três ainda estão em processo de desenvolvimento (Chipre, Dinamarca e Romênia).

Noruega e Finlândia registraram onda de calor em junho de 2025, com temperaturas acima de 30°C até em áreas próximas ao Ártico. No mesmo período, Polônia e Sérvia foram atingidas pelo fenômeno, que elevou a temperatura da superfície acima de 50°C em partes da Europa Central.

Além das medidas voltadas à saúde pública, algumas cidades também passaram a investir em adaptações urbanas para tentar amenizar os efeitos do calor cada vez mais intenso. Em Paris — que sofre intensamente com a atual onda de calor —, a estratégia começou a ganhar forma em 2015, quando a prefeitura mapeou uma rede de “ilhas de frescor”, com parques, áreas verdes, piscinas, bibliotecas, museus, igrejas e espaços públicos considerados adequados para enfrentar o calor extremo. Em 2018, a capital francesa já contava com mais de 800 locais acessíveis durante o dia e cerca de 150 à noite.

Na Espanha, Barcelona lançou uma rede de abrigos climáticos em 2020, inicialmente com 70 locais, ampliada para mais de 350 espaços, entre bibliotecas, centros comunitários, parques, mercados, museus e piscinas públicas. Outras intervenções incluem a ampliação da cobertura vegetal urbana, a criação de áreas sombreadas, a adoção de materiais mais refletivos em edifícios e pavimentos e a incorporação do risco de calor ao planejamento urbano.

Porém, não parece ser suficiente. Especialistas apontam que a transformação estrutural das cidades avança em ritmo lento, uma vez que grande parte da infraestrutura urbana foi concebida para enfrentar invernos rigorosos, e não verões cada vez mais quentes como o deste ano.

— Muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e em planos de ação após 2003. Essas medidas salvaram muitas vidas, mas não são suficientes — afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha, ao jornal britânico Guardian. — Precisamos de mais investimentos em casas, cidades e infraestrutura resistentes ao calor.

Envelhecimento rápido

O arquiteto e urbanista Luiz Florence, do Grupo de Trabalho Clima e Cidade do Instituto de Arquitetos do Brasil-SP, explica que a própria formação histórica das cidades europeias impõe desafios. Antigos núcleos medievais, marcados por ruas estreitas e edificações muito próximas, favorecem áreas de sombra, mas dificultam a circulação natural do ar.

— Quando essas cidades foram criadas, o convívio muito próximo com a natureza poderia oferecer uma exposição a vetores de doenças sanitárias. Então as cidades eram uma negação da natureza — disse ao GLOBO. — Hoje, com técnicas mais avançadas e políticas de saúde pública, é possível trazer a natureza de volta.

Em meio a esse cenário, a população europeia envelhece a passos largos. Combinados, os quadros põem em evidência um dos principais desafios associados ao calor extremo, que é a proteção de grupos mais vulneráveis, especialmente os idosos.

Hoje, pessoas com 65 anos ou mais representam cerca de 21,6% da população da União Europeia, segundo o Eurostat. Com o envelhecimento, o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e responder ao estresse térmico. Idosos também apresentam maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas, que podem ser agravadas por temperaturas elevadas.

Fonte: O Globo





quinta-feira, 18 de junho de 2026

Ondas de calor causaram 120 mil mortes em duas décadas no Brasil, diz Fiocruz

Onda de calor atinge o Rio de Janeiro. Na foto, passageiros procuram se proteger do sol quente na sombra de um poste em ponto de ônibus da Avenida Presidente Vargas, na Cidade Nova — Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Cientistas cruzaram dados de óbitos com histórico de temperaturas e sugerem que situação está piorando com mudança climática; altas temperaturas explicam 0,6% da mortalidade no país

Rafael Garcia, O Globo, São Paulo.

Um estudo que cruzou históricos de temperaturas no país com dados sobre óbitos indica que, em um período de vinte anos, as ondas de calor causaram mais de 120 mil mortes no Brasil.

O trabalho, realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta que os esses períodos extensos com temperaturas extremas explicam 0,6% da mortalidade no país entre os anos de 2000 e 2019.

A pesquisa não faz uma projeção sobre quanto o fenômeno está se agravando, mas os autores do trabalho sugerem que, com a mudança climática, o peso desses eventos extremos tende a aumentar na saúde dos brasileiros.

— Quando uma pessoa está exposta a muito calor, o corpo produz uma reação fisiológica para manter a temperatura corporal interna entre 36,5°C e 37°C, que é o intervalo ótimo para nossas funções vitais — explica Beatriz Oliveira, cientista da Fiocruz coautora do trabalho. — Quando isso ocorre em conjunto com esforço físico, uso de roupas, e outros fatores, se você não consegue dissipar esse calor que está recebendo ou produzindo internamente, começa a sobrecarregar esses mecanismos de termorregulação e comprometer algumas funções, principalmente as cardiovasculares e respiratórias.

Ao mapear a variação local de temperatura em todo o país com uma precisão de 9 km, os cientistas conseguiram cruzar esses dados com informações específicas nos registros de óbitos das pessoas, para tentar enxergar o efeito do calor em problemas de saúde impactados por ele.

Como critério, o estudo considerou que uma onda de calor é um período de 48 horas no qual a temperatura está acima do percentil 95% para a média de temperatura histórica de determinado local. O estudo apontou uma relação clara entre esse tipo de evento e as mortes por causas que podem ser agravadas pelo tempo muito quente.

— Essas 120 mil mortes podem ser interpretadas como o número de mortes atribuídas a esses eventos — diz Oliveira.

O mapeamento nacional feito pelos cientistas buscou entender também como esse fenômeno variou entre as cidades e os estados, mas as diferenças sociais e etárias pareceram ser mais relevantes para identificar populações e maior risco.

Os dados mostram que os idosos, que possuem mais limitações em manter os mecanismos de homeostase corporal para controle de temperatura, foram os mais afetados pelas ondas de calor. Mais de 97 mil óbitos de pessoas com 65 anos ou mais foram associados a esses eventos, compondo 80% do total no estudo.

O trabalho também avaliou o impacto da persistência de temperaturas altas na quantidade de internações feitas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), para alguns dos municípios estudados. Nessa outra seção do estudo, as crianças se mostraram um grupo de risco relevante, afetadas também por problemas gastrointestinais.

— As crianças são muito vulneráveis à desidratação, e o calor estimula a proliferação de micro-organismos de transmissão por via oral entre elas, tanto por alimentos que podem estar contaminados quanto pela ingestão de água não própria para o consumo — explica Oliveira.

Os problemas renais também foram uma condição médica relevante, segundo o estudo da Fiocruz e da UFBA.

Termômetro desigual

Um outro fator que pesou muito no desequilíbrio de impacto foi o grau de escolaridade das vítimas dos problemas de saúde relacionados ao calor. A quantidade de anos de estudo foi uma maneira indireta que os pesquisadores usaram para estimar tanto o acesso a ambientes com temperatura controlada (como residências com ar-condicionado) quanto à qualidade do atendimento de saúde, com hospitais privados mais bem preparados para acomodar a demanda.

A variação local foi menor do que se poderia esperar. Enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste, do país apresentaram os maiores valores de dias de ondas de calor e de duração média, as regiões Sudeste e Sul tiveram eventos relativamente mais intensos, o Nordeste teve valores intermediários.

O Amapá foi o estado que registrou o maior impacto de letalidade das ondas de calor. Ali, um total de 1,07% das mortes no período analisado foram atribuídas a esses fenômenos. Na Paraíba, o estado menos impactado, esse número foi de 0,30%. São Paulo e Rio de Janeiro tiveram números mais perto da média (0,65% e 0,61% respectivamente).

O estudo da Fiocruz também incluiu uma seção dedicada a autoridades e lideranças locais sobre como lidar com o problema que tende a se agravar no futuro.

— Uma das primeiras coisas a fazer é reconhecer que as onda de calor e o calor extremo são um risco prioritário para a saúde pública — diz Oliveira. — Em 2023 e 2024 a gente teve muitos eventos de onda de calor no país, e pouquíssimos locais declararam emergência por isso.

Além de estabelecer sistemas de monitoramento que permitam às prefeituras e o SUS anteciparem impactos, diz a cientista, é preciso que campanhas estimulem mudanças culturais na população, porque o calor ainda não é percebido como um risco relevante pela população.

— A própria população precisa entender que, em momentos de eventos extremos, a gente tem que se proteger e diminuir a exposição — defende Oliveira. — Precisamos mudar horários de fazer atividade física e evitar locais com muita exposição. Existem muitas pessoas que precisam trabalhar em baixo de sol, por exemplo, e precisam existir garantias para que esse trabalho seja intercalado com hidratação e momentos de pausa, para não sobrecarregar o sistema cardiorrespiratório das pessoas.

Oliveira afirma que uma das intenções do estudo da Fiocruz é estimular mais pesquisas na área, que possam inclusive cobrir algumas das limitações do estudo. Um dos problema foi que o trabalho só uso dados até 2019, porque a mortalidade pandemia de Covid-19 tornou difícil identificar e isolar o impacto as ondas de calor após aquele ano. Novos dados serão essenciais para guiar o poder público, diz.

Fonte: O Globo


domingo, 24 de maio de 2026

DESPAVIMENTAÇÃO: cidades estão quebrando o asfalto para dar espaço ao verde e ter mais resiliência climática

As cidades têm assumido uma crescente responsabilidade no enfrentamento às mudanças climáticas, com ações práticas locais de adaptação e mitigação, diante da dificuldade de avanços no âmbito da governança global estabelecida pela ONU, exercida através da diplomacia dos estados nacionais.

As cidades sabem que não há tempo a perder e que é nelas que as consequências são mais sentidas e a ação é mais cobrada pela população. Cada cidade sabe da "sua dor" e estabelece a sua prioridade de acordo com as suas características e realidades climáticas, geomorfológicas, urbanas e sociais. 

A prioridade das cidades tem sido na adaptação e resiliência aos eventos climáticos extremos, mas também atuam na mitigação. A ação de mitigação ocorre, principalmente controlando as emissões locais de Gases do Efeito Estufa - GEE, provenientes da geração e consumo de energia, do transporte e da indústria. Cidades como Paris priorizam o enfrentamento das ondas de calor extremos e se dedicam a um ambicioso programa de retirada de automóveis das suas áreas centrais, praticam a despavimentação (retirada da cobertura asfáltica e do concreto das ruas e praças), implantam jardins de chuva (para infiltração da água pluvial) e plantam árvores para prevenir o calor e garantir o conforto térmico das ruas. Outras cidades como Copenhague investem em drenagem sustentável para prevenir inundações. 

Niterói, por suas vez, é um destaque no cenário nacional, tendo criado a primeira secretaria do Clima e contando com uma das melhores defesas civis do país. Diante do seu relevo e ocupação de áreas de encostas, investiu mais de 1 bilhão de reais na última década em contenção de encostas e cerca de R$ 500 milhões na solução dos seus problemas históricos de macrodrenagem. Também priorizou a implantação de parques, reflorestamento de áreas degradadas e arborização das ruas. Niterói construiu uma das mais avançadas políticas climáticas do país e éreconhecido nacionalmente por isso.

O artigo abaixo, publicado pela BBC, mostra o esforço de várias cidades do mundo em praticar a chamada "despavimentação" ("depaving") ou "desimpermebealização" ("desealing") das superfícies urbanas, restaurando a capacidade física e biológica do solo, principalmente a sua fertilidade e permeabilidade.

A tendência atual das cidades é investir em: mais parques com capacidade de reter água e ajudar a drenagem; mais áreas verdes; menos carro; mais transporte público, coletivo e sem emissão de carbono; mais bicicletas e mais pedestres. É assim que avançamos no caminho da sustentabilidade.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPAGAU/UFF)


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Lifting up the paving slabs reveals the potential of the earth beneath (Credit: City of Leuven)

The cities stripping out concrete for earth and plants

Chris Baraniuk

From Australia to Ontario, cities are taking up unnecessary stretches of concrete and asphalt, allowing nature to take hold in their place.

On a hot July day, Katherine Rose picked up a sturdy metal pole and jammed it under the tempting lip of a pre-cut concrete slab. Rose, communications and engagement director at Depave, a non-profit in Portland, Oregon, was sweating in the heat – but she was going to win this fight.

The grubby, rectangular section of urban crust in front of her was about to move. Pushing down on her metal bar, applying it like a lever, she eased the concrete covering up and away. Now sunlight could fall once again on the ground below. A mess of gravel and dirt that was, to Rose, just bursting with potential.

"It feels like you're liberating soil," she says, recalling the summer gathering where she and around 50 volunteers removed roughly 1,670 sq m (18,000 sq ft) of concrete from the grounds of a local church. "It's envisioning and fully realising a dream that I think we all have," says Rose. The dream, that is, of bringing nature back into our midst.

The idea of depaving, sometimes known as desealing, is a simple one – replace as much concrete, asphalt and other forms of hard landscaping as possible with plants and soil. It's been around since at least 2008, when the Depave group in Portland was founded. Proponents say depaving allows water to soak into the ground, which reduces flooding in times of heavy rain – aiding the "sponginess" of cities. Native plants help wildlife cling on in urban spaces, and by planting trees you can increase shade, protecting residents from heatwaves. Injecting city streets with greenery may even improve people's mental health, too.

But if depaving is ever going to really take off, it will have to expand beyond a handful of eager environmentalists and volunteers. With the climate crisis deepening, some cities and even entire regions are beginning to adopt depaving as part of their climate adaptation strategies. It's time, some say, to start smashing up our concrete streets in a big way – to create spaces better for nature.

Exposing more of the ground in urban spaces can help absorb rainfall and reduce flooding, as well as boost biodiversity (Credit: City of Leuven)

Whenever Rose walks through a city these days, she can't help but notice places where you could strike out a section of asphalt and put in some plants. "I'm constantly just wanting to do more," she confesses. "It's hard not to see it everywhere."

Her group says it has depaved more than 33,000 sq m (360,000 sq ft) of asphalt in Portland alone since 2008 – an area equivalent to nearly four and a half football pitches. The work is "joyous", says Rose, because it unites enthusiastic local volunteers. They get a safety briefing and then muck in together.

Green Venture, an environmental non-profit in Ontario, Canada, has been inspired in part by the depaving projects in Portland. Giuliana Casimirri, executive director, explains how she, her colleagues, and volunteers have begun inserting miniature gardens replete with native trees in a run-down district in the city of Hamilton.

"Before, it was somewhere you would quickly try to walk through," she says. "Now there are places you might stop or have a chat. Sit and read the paper."

In Hamilton, flooding can cause sewage to get mixed into runoff that flows into Lake Ontario, the source of the city's drinking water. Green Venture and other local organisations are keen to reduce the chances of that happening, says Casimirri. They view depaving as a key tactic. Certainly, studies have demonstrated that impermeable surfaces in gardens such as concrete increase flood risk in urban areas.

Rose says her group's efforts in Portland mean that approximately 24.5 million gallons of rainwater is diverted from entering storm drains each year. In Leuven, Belgium, in 2023 alone, Baptist Vlaeminck, who leads Leuven's Life Pact climate adaptation project, calculates that the removal of 6,800 sq metres (73,000 sq ft) of hard surfacing allowed for the infiltration of an additional 377,000 gallons (1.7 million litres) of water into the ground.

"With climate change, extreme weather rainfall events are going to increase and so [depaving is] not a nice-to-have – it's a necessity," Casimirri adds.

The question is whether the authorities responsible for cities, and planning, realise this. In most parts of the world, depaving can still be described as a fringe activity. "We're going to need a scale of investment that has a lot more zeroes on it," says Thami Croeser at RMIT University, Melbourne's Centre for Urban Research.

Community-led and DIY efforts on driveways and on local streets with permission are fantastic, he adds, but it's even better to think of depaving and greening as the introduction of a new kind of infrastructure in a city. It requires the same level of planning and investment as, say, a new railway.

The depave movement in Portland, Oregon has inspired a wave of cities to pull up their asphalt and concrete (Credit: Elle Hygge)

In Europe, at least, some municipalities have begun to treat depaving seriously. Residents of London in the UK are encouraged to depave their gardens, for example.

The city of Leuven in Belgium says it is embracing depaving – or "ontharden" – in a big way. The suburban district of Spaanse Kroon, home to around 550 people, is one of the latest targets of a depaving and renaturing initiative spearheaded by the city. The plans involve removing significant volumes of asphalt from the residential area and forcing cars to share the same part of the road as pedestrians and cyclists.

"We are scaling up now, we are setting up a team dedicated to depaving," says Vlaeminck.

Such projects have to meet the needs of everyone in the city. Vlaeminck says that, to support people with impaired vision or mobility issues, unused areas of road or pavement are prioritised for depaving and sufficient space – more than a metre – is safeguarded on pavements to allow people plenty of room. Existing paving left in place is also renewed or repaired to ensure there are no bumps or unevenness. In situations where pavements are removed completely, for shared use of a roadway in low traffic neighbourhoods, Vlaeminck says depaving teams introduce measures to reduce the speed of cars.

Both Depave in Portland and Green Venture in Ontario say they work with communities to ensure accessibility requirements are met. Casimirri refers to a recent project that replaced broken, uneven concrete with shrubbery and level walkways between.

Among the initiatives instigated by Leuven is a "tile taxi" – a small truck that officials will happily send to your home so you can throw in concrete tiles or cobblestones you have removed from your garden. The material is later reused rather than thrown away, says Vlaeminck, who adds that several million euros have been set aside by Leuven to fund depaving and renaturing projects such as this.

And there's more. Since January 2024, developers in Leuven have had to demonstrate that any rain that falls on new or significantly renovated homes can either be capture and re-used on-site or filtrate into the property's garden rather than pool up and cause a flood. If developers can't prove their designs are extreme rainfall-ready, they won't be approved, says Vlaeminck.

France, too, is making depaving official, says Gwendoline Grandin, an ecologist with the Île-de-France Regional Agency for Biodiversity. Nationally, the French government has made €500m ($540m/£430m) available for urban greening – this includes depaving but also installing green walls and roofs, for example. Part of the motivation is to make towns and cities more resilient to summer heatwaves, which have badly affected parts of France in recent years.

Some of the projects now underway are significant in size, such as a former parking area near a forest in the Paris region. An area of 45,000 sq m (480,000 sq ft) has been depaved – formerly a hodgepodge of asphalt, pathways and concrete interlaced with grass. With the hard landscaping now gone, level ground is being reshaped to introduce dips and gullies that catch water, and the whole area will soon be planted over, too.

Local schemes are often backed by residents keen to see more green in their local area (Credit: City of Leuven)

In Croeser's own city of Melbourne, he and colleagues have studied the potential space available for renaturing, if thousands of parking spaces were depaved and converted into miniature gardens. In a 2022 study, they simulated the impact based on a series of scenarios – the most ambitious of which involved removing half of the open-air parking spaces in the city, about 11,000. Croeser argues that there is sufficient off-street parking available, for example on the ground floor of buildings, in Melbourne to ensure that people wouldn't be left without somewhere to leave their vehicle – but those interior parking spaces would need to be made publicly accessible.

"The basic principle was no net loss of access to parking," he says. "And we get 50-60 hectares [120-150 acres] of green space that keeps the city cool, prevents flooding."

It might seem unlikely that small pockets of nature dotted here and there throughout a large city like Melbourne could benefit wildlife significantly, but Croeser says these fragments of habitat are crucial. They allow species to move around and cope in an environment that is, ultimately, very different to the one in which they evolved.

In their 2022 study on depaving in Melbourne, Croeser and his colleagues included modelling that suggested a modest increase in greenery could allow species such as the blue-banded bee to roam across a far greater area of urban habitat than before.

Rose agrees with Croeser that, for depaving to change the world, entire cities and even whole countries will have to embrace it fully. But she emphasises that, in order to reach that point, communities must express that this is something they want.

"It starts with people pushing their government and starting these conversations on a small, local level," she says. "That's how it takes hold."

Fonte: BBC


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sábado, 7 de março de 2026

Brasil bate recorde de intoxicações por agrotóxicos em 2025

Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Aumento de intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo; Brasil bateu recorde de aprovação de pesticidas em 2025.

Em 2025, 27 pessoas se intoxicaram diariamente por agrotóxicos no país, mostra um levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde. Foram 9.729 casos registrados, com alta de 84% sobre 2015, ano de início da série histórica, e um recorde.

As principais vítimas das intoxicações não intencionais – o que exclui episódios em que a contaminação foi deliberada – são homens de 20 a 39 anos (70%). Nesse grupo, 54% dos acidentes aconteceram no trabalho, e 80% estão relacionados ao uso de agrotóxico no meio agrícola. Desde 2015, o país soma 73.391 intoxicações por agrotóxicos, mostra o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

O estado campeão em intoxicação por agrotóxicos foi o Espírito Santo, com 10% dos casos registrados em 2025. Em seguida vem Tocantins, Rondônia, Acre e Roraima, todos da região Norte, mostrando os resultados nefastos da expansão do agronegócio na região.

Para especialistas, o aumento das intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo de pesticidas. O Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização desses produtos. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% sobre 2024. Já as vendas chegaram a 826 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em comparação a 2023, mostra o IBAMA.

“Com mais agrotóxicos disponíveis, há uma tendência de que o preço caia, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

A nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava o cenário e representa um retrocesso regulatório, reforçam os especialistas. “Já faz tempo que as intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados, mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A geógrafa e especialista em agrotóxicos Larissa Bombardi lembra que enquanto muitos químicos estão proibidos ou com uso restrito na União Europeia, eles ainda são largamente usados – por empresas europeias – no Brasil. É o que Larissa chama de “colonialismo químico”, explica o Outras Palavras.

“A população rural no Brasil está cronicamente exposta a substâncias que são cancerígenas ou que provocam desregulação hormonal”, ressalta a geógrafa no Brasil de Fato. “Por estudos que temos, já sabemos que as áreas em que mais se utiliza agrotóxico são aquelas em que há maior prevalência de câncer.”

Em nota enviada à Repórter Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) relaciona o avanço das intoxicações ao peso econômico e político do agronegócio. Fato que, segundo a pasta, tem favorecido a adoção de medidas de interesse do setor.

ICL Notícias e Racismo Ambiental também repercutiram o assunto.

Em tempo: A gigante química alemã Bayer chegou a um acordo de US$ 7,25 bilhões (R$ 37 bilhões) com autores de ações judiciais para encerrar dezenas de milhares de processos que alegam que o herbicida Roundup causou linfoma não Hodgkin. As alegações são de que a Bayer falhou ao não alertar nos rótulos do produto sobre os supostos riscos carcinogênicos representados pelo glifosato. Segundo O Globo e UOL, o acordo foi submetido a um tribunal do Missouri, nos Estados Unidos, e visa resolver reivindicações atuais e futuras, criando um fundo financiado ao longo de até 21 anos.

Fonte: ClimaInfo





sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

UNIVERSALIZAÇÃO DO SANEAMENTO: Niterói é uma das poucas cidades brasileiras (menos de 3%) perto desta meta

Vistoria em obras de Águas de Niterói para a construção da Estação Elevatória de Esgoto Cantagalo. 2023.

Niterói é destaque em mais um ranking de saneamento, desta vez divulgado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental - ABES. 

Segundo a instituição, Niterói é uma das poucas cidades no Brasil a se aproximar da universalização do saneamento, ou seja, alcançar 100% de esgoto coletado e tratado. Menos de 3% das cidades brasileiras estão nessa situação tão positiva.

Além da coleta e tratamento de esgoto, o Ranking ABES da Universalização do Saneamento também considera a gestão de resíduos sólidos urbanos - RSU,  onde Niterói também tem se destacado e liderado no país. . 

A metodologia da ABES para comparar a performance das cidades utiliza as informações oficiais do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento - SNIS. Os dados presentemente disponíveis são referentes a 2023. O SNIS está agora em fase de coleta dos dados para 2024.

Dentre os municípios de "grande porte" (acima de 100.000 habitantes), Niterói figura em 5° lugar, sendo o único do RJ dentre as 20 mais avançadas e incluídas na categoria "Rumo à Universalização". Apenas 63 municípios estão nesta categoria e o "número representa apenas 2,54% das cidades analisadas e 1,13% dos municípios brasileiros. Destas, apenas 4 não estão no Sudeste e nenhuma está na região Norte".

Em outro ranking, desta vez divulgado pelo Instituto Trata Brasil, Niterói aparece como a terceira melhor cidade do país, também espelhando dados referentes a 2023.

Avanços de Niterói

A qualidade do saneamento em Niterói é o resultado do modelo de gestão adotado desde 5 de novembro de 1999, quando foi feita a concessão pelo município para a Concessionária Águas de Niterói. Também decorre de um grande volume de investimentos que nos tirou de uma situação muito desfavorável, na época da concessão: tínhamos 72% da população atendida com o abastecimento de água e somente 35% com esgoto coletado. Após um investimento de R$ 1,4 bilhão, em 25 anos, chegamos a uma realidade de 95,6% de esgoto coletado e 100% do que é coletado é tratado. (Fonte: Águas de Niterói). Desde 2003, temos 100% de abastecimento de água em toda cidade, fato que só se verifica em 11 cidades brasileiras.


Conforme vemos nos dados acima (*), os investimentos realizados entre 2021 e 2024 correspondem a 46% dos investimentos de toda a última década e 13,43% de todo investimento desde o início da concessão, ou seja, nos últimos 25 anos.
Veja a performance de Niterói nas últimas edições do Ranking do Instituto Trata Brasil:

2025 (ano base 2023): 03° lugar
2024 (ano base 2022): 06° lugar
2023 (ano base 2021): 04° lugar
2022 (ano base 2020): 23° lugar
2021 (ano base 2019): 24° lugar
2020 (ano base 2017): 18° lugar

E seguiremos avançando. De acordo com repactuação feita pela atual gestão da Prefeitura com a Concessionária Águas de Niterói, a cidade chegará a 100% de esgoto coletado e tratado (universalização), em 2028. 

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)


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Menos de 3% das cidades brasileiras estão perto da universalização do saneamento

Cidades mais avançadas no tratamento de água e esgoto estão concentradas no Sudeste.

Por Matheus Meirelles, GloboNews

A universalização do saneamento básico ainda é exceção no Brasil, onde apenas 63 municípios estão "rumo" à meta, segundo o ranking ABES da Universalização do Saneamento 2025, obtido com exclusividade pela Globonews.

O número representa apenas 2,54% das cidades analisadas e 1,13% dos municípios brasileiros. Destas, apenas 4 não estão no Sudeste e nenhuma está na região Norte. Já 270 cidades estão dando os "primeiros passos para a universalização".

A pesquisa, criada pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, investigou os dados completos sobre saneamento de 2.483 cidades espalhadas por todas as regiões do país. O ranking avalia o avanço das administrações municipais com base em 5 indicadores do SINISA, Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico:
  • abastecimento de água;
  • coleta de esgoto;
  • tratamento de esgoto;
  • coleta de resíduos sólidos domiciliares;
  • disposição final adequada de resíduos sólidos urbanos.
Investimentos em saneamento ajudaram Manaus a reduzir quase 90% dos casos de hepatite A em sete anos. — Foto: Rede Amazônica

Cada um dos indicadores tem peso igual, somando uma nota final de 0 a 500 pontos. Os municípios são classificados em quatro faixas:
  • Rumo ao saneamento - acima dos 489 pontos;
  • Compromisso pelo saneamento - entre 450 e 488,99 pontos;
  • Empenho pelo saneamento - entre 200 a 449,99 pontos;
  • Primeiros passos pelo saneamento - abaixo de 200 pontos.
Também é considerado o porte da população, com divisão entre as cidades com até 100 mil habitantes e acima de 100 mil.

Ao todo, 1.843 cidades estão na faixa de "empenho para universalização", enquanto 307 aparecem em "compromisso com a universalização".

Entre as capitais, Curitiba (PR) é a única que aparece na categoria máxima, enquanto Porto Velho (RO) aparece na outra ponta do estudo. Salvador (BA), São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF) e João Pessoa (PB) estão na categoria "Compromisso".

Já entre as cidades que têm melhor desempenho, a maior parte está em território paulista. Presidente Prudente teve a pontuação máxima (500) entre os municípios com mais de 100 mil habitantes. Entre os de pequeno e médio porte, Paranapuã e Leme também gabaritaram as categorias.

Municípios no Ranking por região (composição por categoria):
  • Sudeste: 1.326 municípios (59 Rumo; 261 Compromisso; 919 Empenho; 87 Primeiros passos).
  • Sul: 400 municípios (4 Rumo; 35 Compromisso; 358 Empenho; 3 Primeiros passos).
  • Centro-Oeste: 180 municípios (6 Compromisso; 162 Empenho; 12 Primeiros passos).
  • Nordeste: 515 municípios (5 Compromisso; 360 Empenho; 150 Primeiros passos).
  • Norte: 62 municípios (44 Empenho; 18 Primeiros passos).
Capitais: Curitiba lidera e é a única na categoria máxima

Entre as capitais, Curitiba (PR) é a única em “Rumo à universalização”, enquanto a maior parte está em “Empenho”(74,07%).

Top 10 capitais (pontuação total)
  • Curitiba (PR) – 496,15
  • Salvador (BA) – 486,71
  • São Paulo (SP) – 469,77
  • Belo Horizonte (MG) – 463,38
  • Brasília (DF) – 459,55
  • João Pessoa (PB) – 451,51
  • Vitória (ES) – 447,22
  • Campo Grande (MS) – 444,97
  • Aracaju (SE) – 443,98
  • Palmas (TO) – 443,02

Investimento em saneamento básico amplia saúde pública, valoriza imóveis e protege o meio ambiente. — Foto: Assessoria.

O presidente Nacional da ABES, Marcel Sanches, destacou as desigualdades regionais evidenciadas pelo avanço do saneamento básico no Brasil.

"A região Norte, por exemplo, tem uma baixíssima representatividade no ranking, reflexo direto das dificuldades históricas de infraestrutura, logística e capacidade institucional daquela região. Nenhum município da região Norte, infelizmente, aparece nas faixas mais elevadas de desempenho do nosso ranking, o que evidencia a urgência de políticas públicas mais diferenciadas e sensíveis às realidades regionais".

O tratamento do esgoto é o principal gargalo para o desempenho das cidades. Entre os que ficaram na faixa de "Empenho", a maior parte enfrenta problemas com o tratamento.

"O Brasil precisa avançar e atingir índices melhores na cobertura e no tratamento do esgoto sanitário e também na destinação adequada do lixo doméstico, não se admitindo lixões, disposição inadequada e contaminação do solo e das águas, com as quais a gente ainda convive, infelizmente", ressaltou Sanches.

Municípios acima de 100 mil habitantes (Grande porte)

Top 10 em “Rumo à universalização”:
  • Presidente Prudente (SP) – 500,00
  • Santa Bárbara d’Oeste (SP) – 498,01
  • Curitiba (PR) – 496,15
  • Catanduva (SP) – 495,67
  • Niterói (RJ) – 495,60
  • Piracicaba (SP) – 495,48
  • Assis (SP) – 495,07
  • Pinhais (PR) – 494,81
  • Araçatuba (SP) – 494,72
  • Rio Claro (SP) – 494,37
Municípios até 100 mil habitantes (Pequeno e médio porte)

Top 10 em “Rumo à universalização”:
  • Leme (SP) – 500,00
  • Paranapuã (SP) – 500,00
  • Jales (SP) – 499,80
  • Gastão Vidigal (SP) – 499,08
  • Embaúba (SP) – 499,02
  • Santópolis do Aguapeí (SP) – 499,01
  • São Joaquim da Barra (SP) – 498,21
  • Cardoso (SP) – 497,70
  • Alvinlândia (SP) – 496,74
  • Guariba (SP) – 496,66
Fonte: G1


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