segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sem medidas de adaptação eficazes, Europa aquece em ritmo superior à média global e tem 1.300 mortes adicionais em uma semana

Pessoas tentam se refrescar na frente de um jato d'água instalado em uma caminhonete da Defesa Civil perto do Coliseu — Foto: Andreas SOLARO / AFP

Pessoas pulam no Canal Saint-Martin durante uma onda de calor na França, em Paris — Foto: Ludovic MARIN / AFP

Continente enfrenta mudança climática ao mesmo tempo em que passa por profunda transformação demográfica, com aumento de população vulnerável

Por Amanda Scatolini

Quando a Europa enfrentou uma histórica onda de calor em 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, o episódio foi inicialmente tratado como um ponto fora da curva. Nos anos seguintes, porém, temperaturas extremas passaram a fazer parte da rotina dos verões europeus — como o deste ano, que mal começou e trouxe poderosa onda de calor em sua primeira semana, que já causou, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no domingo, mais de 1,3 mil mortes adicionais.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicou no X que "neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob um calor extremo, escolas estão fechadas e redes elétricas em colapso". Sublinhou que "o estresse pelo calor é frequentemente chamado de 'assassino silencioso', e as casas, locais de trabalho e escolas europeias não foram construídos para suportar essas temperaturas". Na França, a agência nacional de saúde pública especificou que o surto afeta principalmente pessoas com mais de 65 anos e destacou aumento de 40% nas mortes em casa.

Enquanto sucessivos recordes de altas temperaturas são registrados em diferentes países, a Europa passa por uma transformação demográfica profunda, com população cada vez mais envelhecida e, consequentemente, mais vulnerável a extremos. A combinação dos fenômenos levanta uma questão que especialistas tentam responder há anos: até que ponto a Europa realmente se adaptou para enfrentar o problema?

Apesar de altas temperaturas não serem fenômeno exatamente novo para os europeus, a frequência, a duração e a intensidade de eventos extremos aumentaram significativamente desde a década de 1980, aponta a Agência Europeia do Ambiente (EEA). Além disso, segundo o observatório climático Copernicus, o continente é o que aquece mais rapidamente no planeta. A temperatura média europeia aumentou cerca de 0,49°C por década desde 1979 e, considerando só os últimos 30 anos, o ritmo é de 0,56°C por década — mais que o dobro da média global.

Os verões mais quentes registrados na Europa — Foto: Arte/ O GLOBO


100 milhões afetados

Recordes recentes, sobretudo a partir dos anos 2010, ilustram a tendência, com o verão de 2024 sendo o mais quente da série histórica até então. Naquele ano, a temperatura média do continente foi 1,54°C acima das registradas entre 1991 e 2020. Mais de 62,7 mil mortes relacionadas ao calor foram estimadas, o que põe o verão daquele ano como o segundo mais letal, atrás do de 2003.

Ainda que seja cedo para dizer que o verão deste ano entrará para o rol dos mais quentes registrados na Europa, seus primeiros dias (a estação começou no dia 21) já são históricos para a média de junho. Parte do continente é hoje assolada por uma nova onda — provocada por uma massa de ar extremamente quente proveniente do Norte da África e mantida sobre a Europa Ocidental por um sistema de alta pressão, formando um "domo de calor" — que já quebrou recordes em diversos países, com termômetros marcando mais de 40°C em alguns locais.

De acordo com a agência AFP, pelo menos 191 milhões de pessoas enfrentaram 35°C ou mais neste domingo, com temperaturas particularmente altas na Alemanha, República Tcheca, Hungria e Polônia.

Diante do quadro alarmante, que tende a se agravar, a principal estratégia recomendada pela OMS são os chamados Planos de Ação em Saúde para o Calor (HHAP, na sigla em inglês). Eles integram serviços de meteorologia, saúde pública e defesa civil para reduzir impactos.

O guia, que foi atualizado pela OMS este ano, indica a implementação de sistemas de alerta antecipado, protocolos para hospitais e serviços de emergência, campanhas de comunicação, mecanismos de monitoramento de grupos vulneráveis e procedimentos para resposta durante episódios de calor extremo.

— As ondas de calor deixaram de ser anomalias isoladas. São uma crise recorrente que causa sofrimento, ceifa vidas e sobrecarrega sistemas e infraestrutura de saúde — afirmou o diretor da OMS Europa, Hans Kluge.

Impacto humano das ondas de calor no continente — Foto: Arte/O Globo

Contudo, apesar dos avanços, a cobertura desses mecanismos não é universal no continente. Segundo levantamento de 2024 da EEA e do Observatório Europeu do Clima e da Saúde, 10 dos 38 países analisados não têm HHAPs estabelecidos (Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Estônia, Finlândia, Islândia, Kosovo, Montenegro, Noruega, Polônia e Sérvia). Outros três ainda estão em processo de desenvolvimento (Chipre, Dinamarca e Romênia).

Noruega e Finlândia registraram onda de calor em junho de 2025, com temperaturas acima de 30°C até em áreas próximas ao Ártico. No mesmo período, Polônia e Sérvia foram atingidas pelo fenômeno, que elevou a temperatura da superfície acima de 50°C em partes da Europa Central.

Além das medidas voltadas à saúde pública, algumas cidades também passaram a investir em adaptações urbanas para tentar amenizar os efeitos do calor cada vez mais intenso. Em Paris — que sofre intensamente com a atual onda de calor —, a estratégia começou a ganhar forma em 2015, quando a prefeitura mapeou uma rede de “ilhas de frescor”, com parques, áreas verdes, piscinas, bibliotecas, museus, igrejas e espaços públicos considerados adequados para enfrentar o calor extremo. Em 2018, a capital francesa já contava com mais de 800 locais acessíveis durante o dia e cerca de 150 à noite.

Na Espanha, Barcelona lançou uma rede de abrigos climáticos em 2020, inicialmente com 70 locais, ampliada para mais de 350 espaços, entre bibliotecas, centros comunitários, parques, mercados, museus e piscinas públicas. Outras intervenções incluem a ampliação da cobertura vegetal urbana, a criação de áreas sombreadas, a adoção de materiais mais refletivos em edifícios e pavimentos e a incorporação do risco de calor ao planejamento urbano.

Porém, não parece ser suficiente. Especialistas apontam que a transformação estrutural das cidades avança em ritmo lento, uma vez que grande parte da infraestrutura urbana foi concebida para enfrentar invernos rigorosos, e não verões cada vez mais quentes como o deste ano.

— Muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e em planos de ação após 2003. Essas medidas salvaram muitas vidas, mas não são suficientes — afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha, ao jornal britânico Guardian. — Precisamos de mais investimentos em casas, cidades e infraestrutura resistentes ao calor.

Envelhecimento rápido

O arquiteto e urbanista Luiz Florence, do Grupo de Trabalho Clima e Cidade do Instituto de Arquitetos do Brasil-SP, explica que a própria formação histórica das cidades europeias impõe desafios. Antigos núcleos medievais, marcados por ruas estreitas e edificações muito próximas, favorecem áreas de sombra, mas dificultam a circulação natural do ar.

— Quando essas cidades foram criadas, o convívio muito próximo com a natureza poderia oferecer uma exposição a vetores de doenças sanitárias. Então as cidades eram uma negação da natureza — disse ao GLOBO. — Hoje, com técnicas mais avançadas e políticas de saúde pública, é possível trazer a natureza de volta.

Em meio a esse cenário, a população europeia envelhece a passos largos. Combinados, os quadros põem em evidência um dos principais desafios associados ao calor extremo, que é a proteção de grupos mais vulneráveis, especialmente os idosos.

Hoje, pessoas com 65 anos ou mais representam cerca de 21,6% da população da União Europeia, segundo o Eurostat. Com o envelhecimento, o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e responder ao estresse térmico. Idosos também apresentam maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas, que podem ser agravadas por temperaturas elevadas.

Fonte: O Globo





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