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quinta-feira, 9 de julho de 2026

PARQUE SOLAR É MAIS UM LEGADO DE SUSTENTABILIDADE E INOVAÇÃO QUE DEIXAMOS PARA NITERÓI

Quem chega em Niterói pela Ponte, ao se aproximar da Praça do Pedágio e olhar para o Morro da Boa Vista localizado bem à sua frente, já deve ter notado que há uma novidade na encosta: é o PARQUE SOLAR, um projeto inovador e um novo conceito de geração de energia de forma limpa, sustentável e que beneficia a comunidade.

Parque Solar implantado em encosta de Niterói é mais um legado de inovação iniciado na nossa gestão como prefeito da cidade. Projeto é uma referência para outras comunidades de Niterói e para outras cidades. Foto Leonardo Simplicio (Divulgação). 

O projeto de implantação do Parque Solar na Encosta do Morro da Boa Vista, no Centro de Niterói, era uma antiga ideia que acalentei por anos e consegui desenvolver quando fui secretário da Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão - SEPLAG, da Prefeitura de Niterói. O projeto avançou e saiu do papel graças principalmente ao empenho da engenheira florestal Valéria Braga e do secretário de Defesa Civil Walace Medeiros. 

Na sua concepção inicial, a iniciativa teve como objetivo aproveitar as condições favoráveis da encosta para a produção de energia fotovoltaica, proteger a maior área de reflorestamento da mantido pela Prefeitura e beneficiar a comunidade. A água da chuva acumulada nas próprios painéis solares é captada e estocada em reservatórios com capacidade para 30 mil litros, para ser utilizada na manutenção e limpeza do Parque Solar, permitir a irrigação das mudas e proteger a área dos constantes incêndios que prejudicam as áreas de reflorestamento.

Em 2018, o conceito inovador do projeto foi reconhecido com a conquista do Prêmio Lidera Rio, vencendo na categoria principal - "Prêmio de Melhor Projeto" - e na categoria "Sustentabilidade e Resiliência". A premiação foi promovida pelo SEBRAE-RJ, em parceria com o Instituto República, CLP e Cidadis e contou com a participação de várias prefeituras fluminenses.

Na minha gestão como prefeito de Niterói (2021-2024) contratamos um serviço especializado para o desenvolvimento do projeto executivo, licitamos e demos início às obras de sua implantação, que foram concluídas na atual gestão do prefeito Rodrigo Neves. A obra foi concluída e entregue no dia último dia 04 de julho. 

Fotos Leonardo Simplicio (Divulgação)

O Parque Solar, que contou com um investimento de R$ 7,7 milhões, possui 2 mil módulos fotovoltaicos e ocupa uma área de 36 mil metros quadrados. A usina tem capacidade para produzir cerca de 150 mil quilowatts-hora (kWh) de energia por mês energia, reduzindo as despesas do consumo de energia dos prédios públicos. Para se ter uma ideia, a energia produzida é suficiente para suprir o consumo de 19 creches públicas. Com isso, o retorno do investimento virá em dois anos. 

O Parque Solar é parte do esforço que iniciamos na nossa gestão para a transição energética da cidade, que incluiu a captação de recursos junto ao PAC, do Governo Federal, para a implantação de ônibus elétricos, do VLT de Niterói e a aquisição de veículos elétricos para a descarbonização da frota da Prefeitura e mitigar emissões de Gases de Efeito Estufa na cidade.

A energia solar é uma das formas mais sustentáveis de geração de energia, é a fonte que mais cresceu no Brasil entre 2024 e 2025, com o excepcional avanço de 24,%.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)



quarta-feira, 8 de julho de 2026

PREFEITURA DE NITERÓI RETIRA CERCA DE 20 T DE RESÍDUOS DO PARQUE ORLA DE PIRATININGA TODA SEMANA


Prefeitura reforça ações de monitoramento e preservação ambiental na Lagoa de Piratininga

A Prefeitura de Niterói realizou, nesta quarta-feira (8), mais uma operação de ordenamento e limpeza na Lagoa de Piratininga. Coordenada pelo Grupo Executivo para o Crescimento Ordenado de Preservação das Áreas Verdes (Gecopav), com o objetivo de garantir a ocupação adequada do espaço público e a preservação ambiental naquela área, a ação foi executada pela Companhia de Limpeza de Niterói (Clin), que retirou entulhos e resíduos descartados incorretamente. O serviço contou com apoio de um caminhão para a remoção de materiais como ferro, madeira, plástico e outros detritos.

O coordenador do Gecopav, major Antônio Luiz Pereira Lima, ressaltou a importância da atuação integrada dos órgãos municipais para garantir a proteção das áreas verdes da cidade.

“Nosso principal objetivo é impedir o avanço de construções irregulares sobre áreas de proteção ambiental. Para isso, atuamos com planejamento, uso de tecnologia e integração entre diversos órgãos municipais, garantindo uma fiscalização eficiente e contribuindo para a preservação do patrimônio ambiental de Niterói”, afirmou.

O trabalho desenvolvido na região tem como foco a preservação da restinga, a fiscalização de construções irregulares e descartes incorretos de resíduos, além do monitoramento de possíveis áreas afetadas por desmatamento. As equipes realizam vistorias frequentes, com acompanhamento por terra e apoio de aeronaves tripuladas, ampliando a capacidade de identificação de ocorrências e garantindo uma atuação mais eficiente na proteção ambiental. Sempre que são constatados problemas, como o descarte inadequado de lixo ou o acúmulo de entulho, são promovidas ações de limpeza e conservação, contribuindo para a preservação da Lagoa de Piratininga e para a manutenção de um ambiente mais saudável para a população.

Wellington Silva, funcionário da Companhia de Limpeza de Niterói (Clin) há 11 anos, destacou a importância do trabalho que tem feito semanalmente na Lagoa de Piratininga, ressaltando que a ação vai além da limpeza do espaço.

“Todas as quartas-feiras realizamos uma ação de limpeza na orla da Lagoa de Piratininga, em parceria com a Secretaria de Ordem Pública, com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância do descarte correto de resíduos. Durante essas operações, recolhemos, em média, cerca de 20 toneladas de resíduos descartados de forma irregular na região. Esse trabalho é fundamental não apenas para manter a cidade limpa, mas também para preservar o meio ambiente e a qualidade da lagoa”, destacou.

O Gecopav atua em três frentes principais: monitoramento das áreas de preservação para evitar invasões e desmatamentos; combate a construções irregulares com medidas judiciais e embargos; e implantação de marcos delimitadores em áreas protegidas.

A operação seguiu o que está previsto na Lei nº 2624/2008, que integra o Código de Posturas do município e estabelece diretrizes sobre convivência, ocupação do espaço público e preservação ambiental.

Fonte: Prefeitura de Niterói




sábado, 4 de julho de 2026

RJ anuncia nova etapa de programa de restauração florestal com investimento de R$ 39,5 milhões


Edital prevê a recuperação de 482 hectares de Mata Atlântica em dez municípios fluminenses e de 18,7 hectares de manguezais na Baía de Guanabara e na Baía de Sepetiba.

A Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Aegea Saneamento apresentaram, nesta quarta-feira (24/6), o resultado do edital Florestas do Rio, vinculado ao Programa Estadual Florestas do Amanhã. Com investimento previsto de R$ 39,5 milhões, a iniciativa vai viabilizar a restauração de 482 hectares de vegetação nativa em dez municípios fluminenses. Ao todo, sete instituições serão responsáveis pela execução dos projetos.

A nova etapa do programa, anunciada em cerimônia na sede da Seas, no Centro do Rio, reforça a estratégia estadual de ampliação da cobertura florestal em áreas prioritárias para a produção de água e conservação da biodiversidade. Os municípios que integram a nova fase são Cachoeiras de Macacu, Itaboraí, Magé, Silva Jardim, Paracambi, Miguel Pereira, Rio de Janeiro, Engenheiro Paulo de Frontin, Maricá e Rio Bonito.

O edital também amplia o escopo das ações do programa ao incluir a recuperação de 18,7 hectares de manguezais em áreas estratégicas para a conservação ambiental do estado. As intervenções ocorrerão no fundo da Baía de Guanabara, em Magé, e na Reserva Biológica Estadual de Guaratiba, localizada na Baía de Sepetiba, na capital fluminense.

Além da recuperação da vegetação nativa, os projetos preveem ações de mobilização social, capacitação de produtores rurais e fortalecimento das cadeias produtivas da restauração florestal, ampliando os benefícios ambientais, econômicos e sociais nos territórios atendidos.

A nova etapa reforça uma parceria que vem impulsionando a restauração ecológica no Rio de Janeiro. Desde sua criação, o Florestas do Amanhã já lançou cinco editais — dois deles em parceria com o BNDES — e se consolidou como o maior programa estadual de restauração florestal do país.

Com o edital Florestas do Rio, os números do programa chegam a mais de R$ 100 milhões investidos, o plantio de mais de 2,15 milhões de mudas e a recuperação de mais de 1.294 hectares de Mata Atlântica em 18 municípios fluminenses. As ações já geraram mais de 3 mil empregos e vêm contribuindo para a proteção de mananciais estratégicos para o abastecimento de água da população.

Além da recuperação de áreas degradadas, as ações promovidas pelo programa fortalecem a conectividade entre fragmentos florestais, favorecem a proteção de recursos hídricos e ampliam as condições para o retorno da fauna silvestre. Registros recentes realizados em áreas restauradas identificaram espécies como anta, onça-parda e jaguatirica, evidenciando os impactos positivos da restauração ambiental.

Os sete projetos selecionados atuarão em diferentes realidades ambientais do estado. As iniciativas incluem a restauração de áreas de Mata Atlântica em unidades de conservação, propriedades rurais e áreas públicas municipais, além da recuperação de manguezais, implantação de polos de restauração florestal e fortalecimento da assistência técnica a produtores rurais.

A meta do Governo do Estado é reflorestar 440 mil hectares de Mata Atlântica até 2050, elevando a cobertura vegetal fluminense dos atuais 30% para 40%. A expectativa é que os investimentos em restauração ecológica ultrapassem R$ 500 milhões nos próximos anos, ampliando o alcance das ações em diferentes regiões do estado.

Fonte: SEAS



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Grande Muralha Verde da China: erros e acertos do plantio de 1 bilhão de árvores para conter o deserto


China’s Billion-Tree Experiment: Can Planting Forests Really Stop the Desert?



China’s Billion-Tree Experiment: Can Planting Forests Really Stop the Desert?

Across northern China, the wind still blows hard — but it no longer carries quite as much sand.

On the edge of the Tengger Desert, in Inner Mongolia and neighbouring regions, villages once braced themselves each spring for choking sandstorms. Fields vanished overnight, windows were sealed with tape, and children walked to school with scarves over their faces. Today, many of those same horizons are lined with rows of young trees, shrubs and grasses — a living barrier known as China’s “Great Green Wall”.

This vast reforestation effort, launched in the late 20th century, is one of the largest environmental engineering projects in human history. Its aim: to slow, halt, and ultimately reverse desertification.

So has it worked? The answer is complicated — and instructive for dryland restoration efforts worldwide.

What Is China’s Great Green Wall?

Often compared to the Great Wall of China, this “green wall” is not a single forest but a mosaic of shelterbelts, grasslands and restored soils stretching thousands of kilometres across northern China. Since the 1990s, government programmes have coordinated:
  • Large-scale tree planting
  • Sand dune stabilisation
  • Grazing restrictions in vulnerable areas
  • Financial incentives for local households to restore land
Chinese researchers estimate that more than one billion trees have been planted in key desertification zones over three decades.

The goal was not cosmetic greening, but climate resilience: slowing wind, anchoring soil, retaining moisture and giving ecosystems a chance to recover.

How Trees Help Slow Desertification

The science behind desert restoration is straightforward, if hard to implement at scale.
  • Trees and shrubs reduce wind speed, limiting how much sand is lifted and carried
  • Roots stabilise loose soil, preventing dunes from migrating
  • Vegetation traps sand, turning shifting surfaces into rough, stable ground
  • Moisture lasts longer, allowing grasses and native plants to establish
In practice, workers often begin by laying straw grids across dunes to break surface winds. Only then are saplings planted in careful patterns designed to interlock root systems. Water is trucked in and rationed meticulously — every tree planted by hand.

It is slow, repetitive, physically demanding work. Desert-scale change, built one hole at a time.

Measurable Successes of the Billion-Tree Programme

From satellite imagery to lived experience, there is clear evidence that parts of northern China look very different today than they did in the 1990s.

Reduced Desert Expansion

In several monitored regions, desertification has slowed, stabilised, or even reversed. Areas once dominated by bare sand now support patchy but persistent vegetation.

Fewer and Weaker Sandstorms

Major cities downwind, including Beijing, now experience fewer severe sandstorms than in previous decades. For residents, this means clearer skies, cleaner air and fewer days of disruption.

Improved Local Livelihoods

Some communities that once watched pastureland disappear now graze animals under sparse tree cover. For many families, the benefits are practical rather than symbolic: reduced crop loss, less soil erosion and greater stability.

The Limits and Failures of Mass Tree Planting

Despite these gains, China’s experience also highlights the risks of oversimplified solutions.

Water Stress and Groundwater Depletion

Early phases prioritised fast-growing tree species, such as poplars, that consumed large amounts of groundwater. In some areas, this lowered water tables, leaving ecosystems vulnerable once again.

Low Survival Rates

In harsh desert conditions, many plantations failed. Entire sections of trees died after just a few years, exposing the land beneath and wasting scarce resources.

Monocultures and Ecological Fragility

Planting single species over large areas reduced biodiversity and resilience. Uniform forests are more susceptible to disease, drought and climate stress.

Tensions with Local Communities

Grazing bans and top-down land-use plans sometimes disrupted traditional livelihoods. In places, communities felt excluded from decisions that directly affected their survival.

These shortcomings were not minor details — they forced major policy changes.



What Changed: From Tree Numbers to Ecosystem Thinking

Over time, China adapted its approach. Later programmes placed greater emphasis on:
  • Native and drought-tolerant species
  • Mixed vegetation, including shrubs and grasses
  • Natural regeneration, rather than planting everywhere
  • Monitoring groundwater, alongside tree cover
  • Local knowledge, recognising where wind, sand and water actually move

The result is not a picture-perfect forest, but a scruffy, uneven, living landscape — one that functions better than rows of identical trees ever could.

One forestry engineer in Ningxia described the turning point this way:

“First we planted trees to fight the sand. Then we realized we had to plant communities, not just trees. Different species, different heights, different roots — that’s when the land started to hold.”

Lessons for Global Desert Restoration

From the Sahel to Central Asia, governments and NGOs now look to China’s experience for guidance. The key lesson is not “plant a billion trees”, but something more nuanced:
  • Plant what belongs in that ecosystem
  • Measure success over decades, not election cycles
  • Combine trees with grasslands and human livelihoods
  • Treat water as the limiting factor it is
  • Be willing to admit mistakes and change course
There is no universal blueprint for stopping desertification. What transfers are principles, not numbers.

A Long Game with No Quick Fix

Three decades on, northern China’s landscape tells a mixed but meaningful story. The desert has not vanished — but in many places, it has paused. That alone is significant.

China’s billion-tree experiment shows what sustained political will, labour and funding can achieve — and what they cannot. It warns against chasing easy headlines about “greening deserts” while inviting us to rethink how we live with drylands rather than surrendering to them.

For organisations like Natural World Fund, the message is clear: lasting environmental change is slow, local, adaptive and deeply human. As climate change expands drylands across the globe, the real question is not whether we can plant trees — but whether we can build lasting ecosystems by adapting to help the bespoke landscapes recover for good.

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At Natural World Fund, we recognise that land degradation and desertification are not problems that can be solved by planting trees alone. Fragile dryland ecosystems depend on a careful balance of soil, water, vegetation and human use. When that balance is disrupted — through overgrazing, water mismanagement or poorly planned interventions — landscapes become vulnerable to erosion, biodiversity loss and long-term decline. Protecting and restoring these environments requires a whole-ecosystem approach: using native plants, safeguarding water resources, supporting local communities and allowing nature to recover in ways that suit each place. Only by working with the land, rather than imposing one-size-fits-all solutions, can we build resilient landscapes that sustain both people and wildlife for generations to come.

Image sourcesgreat-green-wall (1): Wikipedia Commons
en_nw_pkg_focus_xxxx_fr2_china_desertification (1): Wikipedia Commons

Fonte: Natural World Fund


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domingo, 29 de março de 2026

PLANAVEG: Concluído primeiro leilão para concessão de área para restauração

Momento da batida do martelo após leilão na B3, em São Paulo - Foto: Fernando Donasci/MMA

Na B3, Governo do Brasil realiza primeira concessão do país para restauração com base em créditos de carbono na Flona do Bom Futuro

Certame representa marco na política ambiental brasileira ao estabelecer a restauração florestal como pilar da atividade econômica, estimulando a inclusão social e geração de renda.

Governo do Brasil realizou, nesta quarta-feira (25/3), na B3, em São Paulo (SP), o primeiro leilão de concessão voltado à restauração florestal com geração de créditos de carbono. O certame foi conduzido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e teve como objeto a Unidade de Manejo II (UM II) da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia.

A empresa brasileira Re.green, especializada em recuperação de ecossistemas, foi a vencedora do leilão e será a responsável por gerir a área de 51,2 mil hectares ao longo dos próximos 40 anos. A iniciativa prevê a restauração de 6.290 hectares de áreas degradadas, com foco na recomposição das funções ecológicas, conservação da biodiversidade e contribuição para o enfrentamento da mudança do clima.

O modelo de concessão é inédito no país e representa um marco na política ambiental brasileira ao estabelecer a restauração florestal como pilar da atividade econômica. A proposta permite ao parceiro privado a comercialização de créditos de carbono e de produtos da silvicultura de espécies nativas como fontes de financiamento para custear a recuperação da floresta.

A concessão contribuirá para que o Brasil atinja o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares até 2030 no âmbito do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Já há, no país, 3,4 milhões de hectares em processo de recuperação, quase um terço da meta.

Já há, no país, 3,4 milhões de hectares em processo de recuperação, quase um terço da meta. Saiba mais aqui.

“Essa é uma proposta inédita. Somos um país de cultura extrativista, mesmo que em bases sustentáveis. Por meio desta iniciativa, estamos impulsionando a agenda de restauração, que gera como frutos, neste caso, créditos de carbono. Esse ineditismo significa uma virada, uma mudança de paradigma. Por isso, celebramos o resultado do leilão”, destaca a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.

O diretor-geral do SFB, Garo Batmanian, ressaltou que o resultado do leilão comprova a viabilidade da modelagem estruturada pelo órgão. "A restauração é uma necessidade no Brasil para protegermos nossos biomas e garantirmos que as populações locais possam utilizar os serviços ambientais gerados. O sucesso do leilão de hoje é um marco que coincide com os 20 anos do Serviço Florestal Brasileiro, iniciando uma nova fase. Esta é a nossa primeira iniciativa focada em recuperação ecológica, mas já atuamos com concessões há 18 anos, somando 26 contratos vigentes em constante aprimoramento. Toda essa dinâmica integra as comunidades locais, gerando emprego e renda. Essa iniciativa representa um avanço histórico pelo impacto fundamental que a restauração traz para a conservação da natureza no país", disse.

“A Floresta Nacional do Bom Futuro é uma das Unidades de Conservação mais pressionadas da Amazônia”, pontuou a diretora de Criação e Manejo de Unidades de Conservação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “A escolha de Bom Futuro sinaliza a decisão de começar exatamente pelo caso mais desafiador, demonstrando nosso compromisso com a recuperação dessas áreas e a retomada da governança territorial.”

Na avaliação do superintendente da Área de Solução de Infraestrutura do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Ian Ramalho, o projeto representa um avanço importante para a agenda de restauração no país. “É uma experiência capaz de iluminar o caminho para a restauração necessária nas florestas brasileiras em áreas públicas”, afirmou.

Impactos socioeconômicos e ambientais

A proposta da Re.green atendeu a todos os rigorosos critérios técnicos, financeiros e ambientais exigidos pelo edital estruturado pelo SFB. Os principais números projetados para a unidade arrematada incluem:
  • Área total sob gestão: 51.211 hectares.
  • Área de restauração direta: 6.290 hectares.
  • Investimento estimado (Capex): R$ 87 milhões ao longo de 40 anos.
  • Impacto climático: Potencial de geração de 1.897.302 toneladas de CO2 equivalente.
  • Geração de empregos: 479 postos de trabalho na região (272 diretos e 207 indiretos).
  • Retorno financeiro: Outorga média anual de R$ 89 mil, com repasses garantidos ao SFB, Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal (FNDF), estado, município e ICMBio.
Um dos diferenciais do projeto é a inclusão produtiva das comunidades locais. O povo indígena Karitiana, que foi consultado durante o processo de estruturação do edital, manifestou interesse e terá participação ativa na cadeia produtiva, com atuação no fornecimento de sementes e mudas de espécies nativas, insumos essenciais para a restauração ecológica na região.

Próximos Passos

A concessão da Flona de Bom Futuro integra um conjunto mais amplo de estruturação de ativos ambientais pelo Governo do Brasil. Atualmente, em parceria com o BNDES e o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o SFB estrutura 17 novos projetos de concessão, sendo 10 de manejo florestal sustentável e sete focados em restauração florestal.

O SFB realizará agora uma avaliação técnica detalhada deste primeiro processo para incorporar aprendizados e aprimorar os próximos editais, incluindo a UMF I (lote que não recebeu propostas nesta rodada), visando ampliar a competitividade sem abrir mão da integridade ambiental.

Fonte: MMA


domingo, 22 de março de 2026

MapBiomas mostra onde a recuperação da vegetação nativa está acontecendo no Brasil



Autoria: Luana Carvalho
Revisão: Fernanda Rodrigues
Foto: © Vitor Lauro Zanelatto

A restauração da vegetação nativa é cada vez mais reconhecida como estratégica para o clima, a biodiversidade e a economia no mundo. Dando um novo passo nessa agenda, o MapBiomas lançou o Monitor da Recuperação, ferramenta que amplia a transparência sobre onde e como está acontecendo a recomposição da vegetação no Brasil.


Com base em sensoriamento remoto e em séries históricas que vão de 1985 a 2024, o Monitor da Recuperação identifica, em resolução de 30 metros, o andamento da recuperação da vegetação nativa. A análise combina índices de vegetação, transições de cobertura e uso da terra e a classe atual de cobertura vegetal, permitindo observar onde a vegetação está se recuperando, em que ritmo e sob quais pressões, como degradação, fogo, vegetação secundária e bordas florestais.

Diferentemente de plataformas baseadas em cadastros ou autorrelatos, o Monitor faz uma leitura automática, independente e espacialmente integrada do território, oferecendo um retrato contínuo e comparável ao longo do tempo. “A ideia é observar todos os lugares que, por algum motivo, deveriam estar passando por um processo de regeneração e avaliar se isso está acontecendo ou não”, explica Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas. “É uma ferramenta que auxilia quem formula políticas públicas e também quem precisa monitorar projetos e áreas em grande escala”, finaliza.

O Monitor integra dados de instituições como o IBAMA, o ICMBio, secretarias estaduais de meio ambiente e plataformas parceiras, como o Observatório da Restauração e Reflorestamento (ORR) e o SARE (Sistema de Áreas em Recuperação do Estado de São Paulo). A maior parte das áreas vem de embargos federais e estaduais, desde áreas de desmatamento, com exigência legal de recuperação, até iniciativas voluntárias de regeneração.

Mais do que um novo produto, o Monitor da Recuperação representa uma mudança de fase no campo da restauração. Essa base permite avaliar resultados concretos de recomposição da vegetação nativa, seja ativa ou passiva, e apoiar o planejamento e a fiscalização ambiental em diferentes escalas. O lançamento marca a maturação do campo da restauração, ao combinar compromisso social com verificação técnica e monitoramento independente em larga escala.

Um ecossistema de monitoramento complementar

O lançamento do Monitor não substitui as plataformas existentes, ele as complementa, fortalecendo um ecossistema de monitoramento que combina diferentes escalas e metodologias.

A Plataforma Geoespacial do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica tem foco na mobilização, no reconhecimento e no monitoramento participativo das ações de restauração no bioma, funcionando como uma vitrine das iniciativas declaradas. Mostra quem está restaurando, onde e com qual técnica, seu diferencial está na origem e finalidade dos dados: as informações são fornecidas pelos próprios executores das ações, o que permite reconhecer e valorizar os esforços coletivos, dependendo da adesão voluntária para ampliar a cobertura e representatividade. A plataforma do Pacto reflete as iniciativas em execução e os compromissos assumidos pelos atores da restauração na Mata Atlântica.

Já o Observatório da Restauração e Reflorestamento (ORR), coordenado pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, articula os coletivos biomáticos brasileiros, aproveitando a capilaridade que possuem no território para a circulação fluida e qualificada de dados sobre restauração. Atua com o Governo Federal, apoiando a Comissão Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa (Conaveg), se colocando como a camada de recuperação voluntária no Brasil. Depende também do auto-reporte das instituições e organizações que executam, financiam ou apoiam ações de restauração. Mostrando especialmente como a restauração está acontecendo, reunindo dados de campo, técnicas utilizadas e motivações (como carbono, PSA, técnica ou regularização ambiental).

Em escala global, a Restor atua como uma plataforma aberta de dados geoespaciais que conecta milhares de iniciativas de restauração e conservação em mais de 140 países. Com o propósito de integrar e comunicar, reúne informações locais sobre projetos, espécies e diversas camadas ecológicas, cruzando-as com bases globais de satélite para oferecer uma visão no cenário mundial, divulgando também editais de financiamento. Em parceria institucional com a FAO, a plataforma colabora com o Framework for Ecosystem Restoration Monitoring (FERM), sistema oficial da ONU para o acompanhamento da Década da Restauração de Ecossistemas (2021–2030), que consolida dados validados por governos. Juntas, Restor e FERM cumprem uma função global e institucional: a primeira integra e comunica, enquanto o segundo reporta e valida, transformando as informações em sínteses oficiais sobre o avanço mundial da restauração. FERM e ORR firmaram recentemente parceria para integração de dados em tempo real, visando aumentar a interoperabilidade das informações para quem as utiliza.

Em resumo, essas plataformas se complementam ao responder perguntas distintas dentro do mesmo esforço coletivo: o MapBiomas mostra onde a recomposição acontece; o Pacto, quem está restaurando e como na Mata Atlântica; o ORR, porque e em que contexto; enquanto Restor e FERM conectam e comunicam o avanço global da restauração. Juntas, formam um sistema integrado que une ciência, gestão e ação coletiva. O desafio permanece em transformar a base de evidências em políticas e decisões efetivas, consolidando uma restauração verificável, mensurável e em constante aprimoramento.

Conheça mais as plataformas:
> Monitor da Recuperação
> Plataforma Pacto pela Restauração da Mata Atlântica
> Observatório da Restauração e Reflorestamento
> Restor
> Framework for Ecosystem Restoration Monitoring

Fonte: Diálogo Florestal





quinta-feira, 19 de março de 2026

Fundo Clima: BNDES investe R$ 150 milhões para recuperar 15 mil hectares de Mata Atlântica no Norte do RJ

Foto: Lucas Ninno/Getty Images

Projeto apoiado com recursos do Fundo Clima terá foco inicial nas cidades fluminenses de Campos dos Goytacazes, São Francisco de Itabapoana e Quissamã 

No longo prazo, a recuperação da cobertura vegetal contribuirá para proteger a biodiversidade, reduzir enchentes, mitigar a estiagem, melhorar a infiltração da água no solo e estabilizar áreas sujeitas à erosão

O financiamento reforça a posição do Brasil como referência global em restauração florestal. Desde 2023, BNDES já mobilizou mais R$ 7 bilhões para o setor

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a empresa Tree Agroflorestal S.A. (Tree+) assinaram nesta segunda-feira, 2,contrato de financiamento de R$ 151,8 milhões para apoio a restauração ecológica de 15 mil hectares de áreas degradadas do bioma Mata Atlântica. Os recursos são provenientes do Fundo Clima – Florestas Nativas e Recursos Hídricos e destinam-se ao plantio e à regeneração de vegetação nativa. Participaram da assinatura do contrato, a diretora Socioambiental do Banco, Tereza Campello e o diretor geral da Tree+, Sandro Longuinho.

A Tree+ desenvolve suas atividades inicialmente no Norte Fluminense, nos municípios de Campos dos Goytacazes, São Francisco de Itabapoana e Quissamã. O território-alvo poderá incluir áreas complementares no sul do Espírito Santo e na Zona da Mata Mineira, fortalecendo a conectividade ecológica regional. Ao longo de 2025, a Tree+ já realizou ações de recuperação em cerca de 2 mil hectares.

Foto: André Telles/BNDES

A recuperação será realizada em Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reservas Legais (RLs) e áreas voluntárias adicionais, em conformidade com o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica. Serão utilizadas exclusivamente espécies nativas do bioma, de forma a estimular a reconexão de fragmentos florestais, a recuperação de habitats e o retorno gradual da fauna silvestre.

“O governo Lula recolocou o Brasil no centro da agenda global do clima, com compromisso real com a redução do desmatamento e a restauração de florestas. A Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos e, ao mesmo tempo, mais degradados do país. Apoiar projetos de recuperação em escala é essencial para proteger a biodiversidade, enfrentar eventos climáticos extremos e gerar emprego e renda nos territórios”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

O bioma Mata Atlântica abriga cerca de 20 mil espécies vegetais — aproximadamente 35% das espécies brasileiras, muitas delas endêmicas. Segundo dados do MapBiomas, a Mata Atlântica é o bioma brasileiro com menor cobertura vegetal remanescente, cenário particularmente crítico no Norte Fluminense.

No longo prazo, a iniciativa promoverá a recuperação estrutural do solo, com melhoria significativa de suas condições físicas, biológicas e hidrológicas, ampliando a infiltração e o armazenamento de água, mitigando alagamentos sazonais e processos erosivos. O projeto adota uma abordagem integrada da paisagem, que incorpora os produtores rurais como parceiros estratégicos do negócio. Utilizando sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) como ferramenta-chave de incentivo produtivo, essa abordagem recupera a funcionalidade e produtividade das áreas de agropecuária, criando viabilidade econômica para a adesão voluntária à restauração florestal. Assim, o modelo de desenvolvimento rural se torna sustentável e alia conservação ambiental, segurança hídrica e geração de renda, além de ser um instrumento de mitigação climática.

Portanto, além dos ganhos ambientais, o projeto vai gerar impactos socioeconômicos na região. Durante a fase de implantação, a estimativa é de criação de mais de 800 empregos diretos e indiretos, com destaque para atividades de campo, viveiros, coleta de sementes, manutenção florestal e serviços técnicos especializados. A iniciativa também tem um compromisso com a inclusão de mulheres e está desenvolvendo parcerias para capacitação de mão-de-obra feminina e projetos de incentivo ao empreendedorismo local, com foco especial nesse público.

A certificação de créditos de carbono, estruturada segundo metodologias internacionais de alta integridade, associa a recuperação florestal à remoção de gases de efeito estufa e amplia o potencial de geração de receitas através de serviços ambientais. O projeto contribui ainda para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6, 13 e 15, relacionados à água, à ação climática e à vida terrestre.

“O investimento do BNDES representa um valor que vai além do econômico: é um indicativo de que a recuperação de áreas degradadas se tornou uma prioridade nacional, estimulando também o engajamento do capital privado nesse propósito. Essa parceria, além de promover ganhos ambientais por meio do restabelecimento de habitats, cria um verdadeiro hub de serviços florestais e ecossistêmicos que expressam a vocação natural do Brasil e do Norte fluminense, gerando emprego e renda a partir de seus recursos renováveis” afirmou a diretora de ESG da Tree+, Adauta Braga.

O financiamento reforça o papel do BNDES para posicionar o Brasil como referência global em restauração florestal, bioeconomia e soluções baseadas na natureza, em consonância com o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

A diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, destaca que a operação reforça o papel do Banco como indutor do desenvolvimento sustentável nos territórios. “A restauração florestal é uma política pública estratégica. Ela recupera o meio ambiente, gera trabalho, fortalece economias locais e reduz a vulnerabilidade climática. Ao apoiar projetos como este no Norte Fluminense, o BNDES contribui para diversificar a base econômica da região e construir uma nova trajetória de desenvolvimento associada à bioeconomia”, afirmou.

O apoio à Tree+ está alinhado à estratégia BNDES Florestas, que posiciona a restauração florestal e a bioeconomia de espécies nativas como eixos estruturantes do desenvolvimento sustentável. A atuação do Banco vem sendo significativamente ampliada nesse setor. Desde 2023, o BNDES já mobilizou mais de R$ 7 bilhões para a conservação e a restauração de florestas brasileiras, por meio de instrumentos reembolsáveis e não reembolsáveis, crédito, garantias, concessões e apoio produtivo. Esses recursos têm fortalecido cadeias produtivas associadas à restauração, como viveiros de mudas, redes de sementes, brigadas florestais, manejo sustentável e projetos de reflorestamento e recuperação ambiental em diferentes biomas.

Sobre o Fundo Clima – Operado pelo BNDES, o Fundo Clima é um dos principais instrumentos da Política Nacional sobre Mudança do Clima. O fundo apoia projetos voltados à mitigação e adaptação climática, à conservação e recuperação de florestas, à proteção da biodiversidade e à segurança hídrica, promovendo o desenvolvimento sustentável e a transição para uma economia de baixo carbono. O Fundo Clima é destinado a pessoas jurídicas de direito privado com sede e administração no País e oferece financiamento para atividades de restauração e mitigação climática, com foco em áreas prioritárias para biodiversidade e desenvolvimento socioeconômico.

Sobre o BNDES Florestas – O BNDES Florestas é a estratégia do Banco para impulsionar a restauração florestal e a bioeconomia de espécies nativas em escala, integrando instrumentos que se reforçam mutuamente, como o BNDES Florestas Crédito (Fundo Clima), o Floresta Viva, o Arco da Restauração, o ProFloresta+, as concessões florestais com restauro e manejo sustentável, o BNDES Floresta Inovação e o Fundo Amazônia, fortalecendo cadeias produtivas e ampliando impactos ambientais, climáticos e sociais.

Sobre a Tree+ - A Tree Agroflorestal S.A. é uma empresa brasileira do setor de bioeconomia que desenvolve projetos de restauração ecológica, manejo florestal sustentável e geração de créditos de carbono, integrados à recuperação de paisagens degradadas. A companhia desenvolve a implantação de um mosaico florestal de cerca de 50 mil hectares no Sudeste brasileiro, combinando recuperação da Mata Atlântica, sistemas agroflorestais e manejo florestal sustentável. Os investimentos totais previstos pela Tree+ ultrapassam R$ 800 milhões até 2031, com foco na conectividade ecológica, na recuperação de solos e na proteção de recursos hídricos. A Tree+ pertence ao portfólio da Lorinvest Gestora de Investimentos."

Fonte: Agência BNDES de Notícias 



sábado, 14 de março de 2026

Pesquisa mostra que áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” (foto: Paulo Bernardino)

Regiões são capazes de estocar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, equivalente a cerca de seis vezes o armazenamento da biomassa média da floresta tropical

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Os campos úmidos e as veredas do Cerrado brasileiro são capazes de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que equivale a cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas na Amazônia. Datações indicam que, em média, esse carbono está no local há 11 mil anos, sendo, em alguns casos, de até 20 mil anos atrás, resultado de um processo lento de acúmulo favorecido pela falta de oxigênio nos solos saturados de água.

Os achados são de um estudo publicado na quinta-feira (12/03) na revista científica New Phytologist e liderado por pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Como essas áreas úmidas dependentes de lençol freático ainda são pouco estudadas, os cientistas fizeram um primeiro mapeamento usando dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina, apontando que elas podem cobrir 167 mil quilômetros quadrados (km²) no Cerrado. Representam uma região, pelo menos, seis vezes maior do que se pensava antes, equivalendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” por contribuir com dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, especialmente das regiões Sul e Sudeste do país. Também abriga os chamados olhos d’água – afloramentos naturais do lençol freático –, incluindo os de caráter difuso, protegidos pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que os classifica como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Imortalizadas na obra Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas. Além do carbono estocado, são fontes significativas de metano (CH₄), especialmente em áreas permanentemente inundadas, onde as emissões são aumentadas em decorrência de temperaturas mais elevadas.

Apesar de pouco visíveis e muitas vezes ignoradas, essas formações desempenham funções ecológicas estratégicas, principalmente por serem fonte para rios e bacias hidrográficas. Porém, segundo os pesquisadores, esses ecossistemas estão altamente vulneráveis a alterações no regime hídrico provocadas pela expansão agrícola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, construção de pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação.

Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nível do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.

“Se a gente corta uma árvore que está há 300 anos na floresta, perdemos um grande estoque de carbono e funções ecossistêmicas importantes que são difíceis de serem recuperadas em sua totalidade. Mas com o processo de restauração florestal, é possível chegar perto disso em 30 ou 40 anos. Ou seja, você consegue plantar árvores e durante sua vida acompanhar esse processo. Agora, o carbono do solo de uma área úmida do Cerrado não vamos recuperar no nosso tempo de vida, pois foi estocado ao longo de dezenas de milhares de anos”, exemplifica à Agência FAPESP a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do artigo.

O trabalho é, em parte, derivado do seu mestrado sob a supervisão do professor Rafael Silva Oliveira e foi premiado em 2024 como melhor dissertação do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal do IB-Unicamp.

Trabalhando atualmente no Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos) com a pesquisadora Amy Zanne, outra autora do artigo, Verona recebeu durante o mestrado bolsa da FAPESP, que também apoiou o estudo por meio de Auxílio à Pesquisa concedido a Oliveira.

“O Cerrado foi escolhido como a principal fronteira agrícola do Brasil, voltada à produção de commodities em larga escala. Situado entre duas formações florestais, a Amazônia e a Mata Atlântica, o bioma sofre intensa pressão de conversão e, ao contrário dessas florestas, não é reconhecido como patrimônio nacional na Constituição e tem previsão legal de apenas 20% para áreas de preservação. Infelizmente, temos a percepção de que manter APPs ao lado dos rios é suficiente para conservar as funções ecossistêmicas do bioma. Estamos vendo que não. Para manter os processos hidrológicos do Cerrado, é preciso entender a conectividade da paisagem. Não basta preservar pequenos fragmentos enquanto o restante do território é convertido”, complementa Oliveira, que também assina o artigo.

Mesmo com tendência de queda, os índices de desmatamento do bioma permanecem altos. De agosto de 2025 a janeiro deste ano, as áreas sob alerta de desmatamento no Cerrado totalizaram 1.905 km², ante 2.025 km² no período anterior (queda de 6%), segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Levantamento realizado pelo MapBiomas mostrou que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico (dados de 2024), sendo 24% para pastagem e 13% para agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Em relação à superfície de água, o documento mostra que 2024 teve a maior área desde 1985, mas com 60% do uso antrópico (boa parte em hidrelétrica).

Imortalizadas no livro Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – de João Guimarães Rosa, as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas (foto: André Dib)

Trabalho de campo

A pesquisa é pioneira no uso de amostras de solo profundo (com profundidade de até quatro metros) para quantificar o carbono nesses ambientes. Foram coletadas amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023.

“Fazer essas coletas foi um processo de desbravar algumas regiões. Havia local onde a vegetação chegava à altura do meu ombro e, como é alagado, muitas vezes os pés afundam. O nosso solo é mais denso do que outros, por isso foi fisicamente extenuante, às vezes com cinco ou seis pessoas ajudando a usar o equipamento, mas é muito gratificante o resultado”, conta Verona.

O grupo usou um instrumento chamado LI-COR Trace Gas Analyzer, conectado a anéis de PVC instalados no solo para medir o dióxido de carbono e o metano.

Para fazer a datação do carbono, os pesquisadores da Unicamp contaram com cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha). Especialistas em sensoriamento remoto, Paulo Negri Bernardino, da Unicamp, e Guilherme Gerhardt Mazzochini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuíram no mapeamento das áreas.

O trabalho indicou ainda, por meio de espectroscopia, uma baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de CO₂ e CH₄ ocorreram durante a estação seca. Como a maior parte da vegetação nessas áreas úmidas é composta por gramíneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode se transformar em emissões quando os solos secam, o que pode se agravar com as mudanças climáticas e a maior frequência de estações quentes e secas.

No artigo, os pesquisadores fazem um alerta para a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas e melhorar a conscientização sobre a importância dessas zonas alimentadas por águas subterrâneas. Também destacam a relevância de ampliar o mapeamento e aprofundar os estudos para a compreensão desses ecossistemas.

Nesse sentido, Verona diz que continua a pesquisa em áreas úmidas sazonais para entender a dinâmica de carbono. Já Oliveira está aprofundando a análise do sistema hidrológico para entender melhor como funcionam esses ecossistemas e como restaurá-los.

“Se a gente perde turfeiras ou veredas, demoramos milhares de anos para restabelecer os níveis de carbono estocados, sem contar os prejuízos de outros serviços ecossistêmicos. A preservação é o caminho, mas continuamos tentando compreender melhor os processos”, projeta o professor.

Um outro artigo liderado por Oliveira e publicado no ano passado já destacava que, apesar da importância para a segurança hídrica e de estarem protegidos por lei, os campos úmidos do Cerrado, incluindo os olhos d’água, continuam sistematicamente negligenciados por políticas públicas, consultores ambientais, proprietários rurais e órgãos de fiscalização (leia mais em: agencia.fapesp.br/55287).

O artigo Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability pode ser lido em: nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.71027.

Fonte: Agência FAPESP



quinta-feira, 12 de março de 2026

PLANAVEG: MMA e BNDES anunciam aporte de R$ 69,5 milhões para restaurar áreas protegidas em seis estados da Amazônia

Anúncio foi feito durante o workshop na CNI, em Brasília. - Foto: Augusto Coelho/CNI

Quarto ciclo da iniciativa seleciona 11 propostas para restaurar áreas prioritárias da Amazônia Legal; projetos apoiados vão recuperar 2.877 hectares em Unidades de Conservação e fortalecer cadeias produtivas da restauração florestal

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciaram, nesta quarta-feira (11), em Brasília (DF), o resultado do 4º ciclo de editais da iniciativa Restaura Amazônia, que selecionou 11 projetos voltados à restauração ecológica e ao fortalecimento da cadeia produtiva da recuperação florestal na Amazônia Legal.

A iniciativa integra a estratégia do Governo do Brasil para ampliar a escala da restauração no país e fortalecer a implementação do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que estabelece a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.

Ao todo, foram selecionados 11 projetos que somam R$ 69,5 milhões destinados à restauração ecológica e ao fortalecimento da cadeia produtiva da recuperação florestal, com previsão de restaurar 2.877 hectares em Unidades de Conservação prioritárias da Amazônia Legal. As ações serão implementadas nos estados do Acre, Rondônia, Tocantins, Mato Grosso, Pará e Maranhão. O edital contou ainda com recursos adicionais da Petrobras.

A Petrobras vem apoiando iniciativas como o Restaura Amazônia, programa que estimula a utilização de soluções baseadas na natureza. São soluções que promovem a conservação da biodiversidade ao mesmo tempo que impulsionam transformações sociais positivas nas comunidades envolvidas, com geração de renda e oportunidades de mitigação das mudanças do clima, adaptação e aumento da resiliência climática. Ao lado de ações como a descarbonização da produção e o desenvolvimento de novas fontes de energia, esses investimentos socioambientais fazem parte da estratégia da Petrobras no processo de transição energética justa, em linha com os desafios globais de sustentabilidade.

O anúncio foi feito durante o workshop Restauração em Escala – Integração Federativa para a Recuperação da Vegetação Nativa, realizado no auditório da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília. O evento reuniu representantes do Governo do Brasil, do setor produtivo e de organizações da sociedade civil para debater estratégias de ampliação da restauração florestal no país.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou a importância de mecanismos como o Fundo Amazônia para a criação de um novo ciclo de prosperidade baseado em uma dinâmica econômica que preserve a floresta.

“Meio ambiente e desenvolvimento fazem parte da mesma equação. Quando temos políticas públicas bem desenhadas e com continuidade, conseguimos resultados como transformar o antigo arco do desmatamento no arco da restauração. Municípios que param de desmatar precisam de meios para restaurar e manter suas florestas em pé, gerando emprego e renda. Mas nada disso é possível sem combater o ilegal, porque tudo que queremos é que o desenvolvimento sustentável aconteça em todas as suas dimensões: econômica, social, ambiental, cultural, política, ética e estética. Um mundo mais preservado é também um mundo mais bonito", afirmou.

Na avaliação do secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco, a restauração florestal, alvo da iniciativa do Fundo Amazônia, se tornou um compromisso estratégico do país no cenário internacional e uma agenda transversal dentro do Governo do Brasil.

“O Brasil assumiu, no âmbito do Acordo de Paris e da sua primeira Contribuição Nacionalmente Determinada, o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Essa agenda deixou de ser apenas uma política ambiental e passou a perpassar diversos programas de governo, e estamos avançando muito rapidamente. Temos enorme potencial de regeneração por sermos um país tropical, com elementos vitais para acelerar a restauração. Já contamos com cerca de 3,4 milhões de hectares em processo de restauração, principalmente natural, que precisamos apoiar e garantir que continuem seu processo de recuperação”, disse.

A secretária de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA, Rita Mesquita, destacou que as iniciativas de restauração florestal precisam estar conectadas a objetivos de longo prazo e à construção de cadeias produtivas sustentáveis. Segundo ela, os projetos apoiados pelo governo, como os editais voltados à restauração em Unidades de Conservação e em terras indígenas, buscam não apenas recuperar áreas degradadas, mas também preparar as florestas que serão manejadas no futuro.

“As escolhas que fazemos agora terão repercussão em diversas cadeias produtivas. A restauração não é um fim em si mesma; ela é uma etapa, um meio para impulsionar outras cadeias e fortalecer a conservação em territórios como Unidades de Conservação e terras indígenas", reforçou.

“O Brasil tem uma oportunidade histórica de liderar o mercado global de restauração florestal. Ao apoiar iniciativas como o Restaura Amazônia, o governo do Brasil, por meio do BNDES, contribui para transformar áreas degradadas em novas florestas produtivas, gerando renda, empregos e soluções climáticas baseadas na natureza”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

O quarto ciclo de editais teve como foco Unidades de Conservação prioritárias e contou com três chamadas públicas organizadas pelo IBAM, pela FBDS e pela CI-Brasil em três macrorregiões da Amazônia Legal.

Foram selecionadas iniciativas apresentadas por organizações da sociedade civil, institutos de pesquisa e cooperativas. Os projetos atuarão em áreas estratégicas da Amazônia Legal, incluindo a Reserva Extrativista Chico Mendes (AC), o Parque Nacional Campos Amazônicos e as Florestas Nacionais do Jamari e do Jacundá (RO), a APA Ilha do Bananal/Cantão (TO), a APA Cabeceiras do Rio Cuiabá e a Estação Ecológica do Rio Roosevelt (MT), além da Reserva Biológica do Gurupi, da Reserva Extrativista do Ciriaco e da Terra Indígena Awá (MA), bem como da Reserva Extrativista do Rio Iriri (PA).

Esses territórios são considerados prioritários tanto para a restauração da vegetação nativa quanto para o fortalecimento de cadeias produtivas da bioeconomia associadas à recuperação florestal na Amazônia.

A diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, destacou que a iniciativa articula conservação ambiental e desenvolvimento econômico local. “A restauração da vegetação nativa também significa geração de renda, fortalecimento de cadeias produtivas e oportunidades para comunidades que vivem na floresta. O Restaura Amazônia apoia projetos que unem recuperação ambiental e inclusão produtiva”, afirmou.

Restaura Amazônia

O Restaura Amazônia dialoga com o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), principal instrumento da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg), que estabelece a meta de recuperar 12 milhões de hectares de florestas em todo o país até 2030.

O programa integra a estratégia do Arco da Restauração, iniciativa do Governo do Brasil voltada à recuperação de áreas degradadas na região conhecida como Arco do Desmatamento. O projeto prevê aporte total de R$ 1 bilhão, sendo R$ 450 milhões não reembolsáveis do Fundo Amazônia destinados ao Restaura Amazônia.

A iniciativa é financiada com recursos do Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES, e conta com a parceria do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, responsável pela coordenação do Fundo.

Criado em 2023, o programa apoia projetos de restauração ecológica e produtiva com espécies nativas na Amazônia Legal, especialmente no chamado Arco do Desmatamento, buscando promover sua transformação no chamado Arco da Restauração.

Com o anúncio do quarto ciclo, o Restaura Amazônia consolida um conjunto de 12 chamadas públicas voltadas a diferentes territórios prioritários da região.

Os três primeiros ciclos contemplaram projetos em Unidades de Conservação, assentamentos da reforma agrária e terras indígenas, fortalecendo estratégias de restauração florestal com participação de comunidades locais e organizações socioambientais.

Nesta etapa, o programa passa a alcançar 17 Unidades de Conservação, 77 assentamentos e 35 Terras Indígenas, por meio do apoio a 58 projetos de restauração ecológica e produtiva no Arco do Desmatamento. Ao todo, quase 15 mil hectares serão recuperados pela iniciativa.

As chamadas integram uma estratégia mais ampla de mobilização de investimentos para restaurar áreas degradadas na Amazônia e desenvolver uma cadeia produtiva estruturada para a recuperação da vegetação nativa.

Fonte: MMA


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Brasil pode ser o grande poço negativo de carbono do mundo, afirma pesquisador

Brancalion: Ninguém vai comprar crédito de carbono se houver dúvida em relação à quantidade que está sendo comercializada (foto: Karina Toledo/Agência FAPESP)

Em palestra apresentada no evento FAPESP Day Uruguay, o professor da USP Pedro Brancalion apresentou resultados de projeto que visa alavancar o mercado de crédito de carbono no país

Karina Toledo | Agência FAPESP 

O Brasil pode se tornar um grande player no mercado global de crédito de carbono – tão importante quanto foi a Arábia Saudita para o de petróleo no século 20. Para explorar essa riqueza, porém, será preciso investir em tecnologia. E desenvolver novas e melhores estratégias para quantificar o carbono que está sendo negociado.

A análise foi feita pelo professor da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Brancalion durante o evento FAPESP Day Uruguay, realizado em novembro, na cidade de Montevidéu.

Em sua apresentação, o pesquisador apresentou resultados de projetos que buscam alavancar o mercado de crédito de carbono no país. Um deles resultou em uma nova equação para estimar a biomassa acima do solo que aumenta em 30% os créditos de carbono gerados em processos de restauração florestal na Mata Atlântica.

“Imagine uma empresa que cria gado para produzir carne. De repente apresentamos uma tecnologia revolucionária, que aumenta em 30% a produção de carne sem gastar um centavo a mais. É um milagre quase. É o que estamos proporcionando para o setor de restauração para carbono. Não porque a gente está roubando, mas porque estamos quantificando melhor”, afirmou.

Esse e outros temas foram abordados em entrevista concedida à Agência FAPESP durante o evento. Confira os principais trechos a seguir.

Agência FAPESP – Em sua apresentação, durante o evento FAPESP Day Uruguay, o senhor mencionou uma nova equação para estimar a biomassa acima do solo que aumenta em 30% os créditos de carbono gerados em processos de restauração florestal na Mata Atlântica. Poderia explicar como essa equação foi desenvolvida e como funciona?

Pedro Brancalion – Nós analisamos dados de um plantio de restauração que já tem 22 anos e é nosso grande laboratório. Todos os anos ele é mensurado. Quando esse experimento foi implantado, previmos que algumas parcelas da floresta seriam cortadas para fins de pesquisa. Cortamos 180 árvores quando o plantio tinha seis anos, depois o mesmo com 12 e com 20 anos. Desse modo, conseguimos gerar uma equação para entender quanto carbono tem armazenado nessa floresta. Hoje a equação mais usada [para avaliar processos de restauração e gerar crédito de carbono] é a desenvolvida pelo pesquisador francês Jérôme Chave, que fez uma síntese de amostragens destrutivas em região tropical. Mas a base de dados que ele usou considera principalmente árvores acima de 10 centímetros de diâmetro. Já o nosso método inclui aquelas acima de 5 centímetros de diâmetro, pois tem muito carbono em árvores menores em florestas jovens. Não tem nada de errado com o método de Chave, mas ele foi concebido para florestas maduras na Amazônia, no Congo, na Ásia – não para quantificar carbono em florestas jovens de restauração na Mata Atlântica. E por que as pessoas usavam a equação de Chave? Porque não tinha outra melhor. Então a gente supre com essa pesquisa uma lacuna de conhecimento que é fundamental para alavancar um novo mercado. Esse trabalho foi feito por uma orientanda de doutorado, Ana Paula Ferez, e está vinculado a um dos projetos do RCGI [Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa], apoiado por FAPESP e Shell.

Agência FAPESP – E a equação leva em conta somente o tronco das árvores?

Brancalion – Não. Contabilizamos raiz, tronco, galho grosso, galho fino e folha. Com a motosserra segmentamos a árvore nessas partes, tiramos todas as folhas e pesamos. Mandamos para o laboratório analisar a massa seca. Depois vem o trator, cava o solo, tira a raiz grossa do melhor jeito possível e dá uma limpada. Colocamos em uma balança gigante. Então, literalmente, nós pesamos a floresta. Isso foi feito para construir a equação e também para desenvolver estratégias de mensuração de carbono por LIDAR [Light Detection and Ranging, método que usa drones emissores de pulsos de laser para mensurar a estrutura da vegetação]. O LIDAR mensura a altura média do dossel e, a partir desse dado, estima a biomassa por meio de equações específicas. Mas é uma estimativa. O que tentamos fazer é conectar as informações obtidas com a amostragem destrutiva diretamente com a mensuração por LIDAR.

Agência FAPESP – De que forma essas tecnologias podem ajudar a alavancar o mercado de crédito de carbono no Brasil?

Brancalion – Ninguém vai comprar crédito de carbono se houver dúvida em relação à quantidade que está sendo comercializada (leia mais em: agencia.fapesp.br/56685). Qualquer mercado precisa de uma base robusta de quantificação do que está sendo vendido ou comprado para que ele se desenvolva. Na incerteza, no risco, ninguém joga. Então, imagine uma empresa que cria gado para produzir carne. De repente apresentamos uma tecnologia revolucionária, que aumenta em 30% a produção de carne sem gastar um centavo a mais. É um milagre quase. É o que estamos proporcionando para o setor de restauração para carbono. Não porque a gente está roubando, mas porque estamos quantificando melhor. Uma analogia que eu faço é que o Brasil está para esse mercado como a Arábia Saudita esteve para o de petróleo no século 20. O Brasil pode ser o grande poço negativo de carbono do mundo. Por ter vasta extensão de terra, florestas superprodutivas e tecnologia, coisas que muitos outros países não têm. Continuando a analogia com o petróleo, costumo dizer que esse carbono não está num poço superficial, fácil de ser explorado, como no caso da Arábia Saudita. É mais como o petróleo do pré-sal. A riqueza está lá, mas só vamos acessar com tecnologia. Esse é o desafio da restauração hoje. Existe um grande potencial, mas para que esse potencial se manifeste e a gente possa atender ao mercado internacional com mais esse produto vindo das nossas terras precisamos de tecnologia.

Agência FAPESP – O senhor mencionou outro experimento voltado a aprimorar a medição de carbono em florestas, a torre de fluxo. Poderia explicar de que se trata?

Brancalion – Esse é outro projeto, também apoiado pela FAPESP. Está sendo conduzido em Itatinga, em uma estação experimental da USP. Qual é a premissa? Os fluxos de carbono numa floresta ocorrem a cada segundo. É um passarinho que está se decompondo, um microrganismo que está comendo uma folha, um capim que está absorvendo luz e fazendo fotossíntese. É algo dinâmico, que varia ao longo dos anos, por exemplo, quando tem ou não El Niño. As tecnologias mais avançadas hoje são uma quantificação meio grosseira. Não é uma lupa em cima do que de fato está acontecendo. Por deficiência da tecnologia não conseguimos medir essas minúcias. A torre de fluxo tampouco vê quem está emitindo ou absorvendo carbono, mas ela vê o balanço. Então, é a prova dos 9. Com ela a gente consegue saber o efeito líquido daquela restauração como um sumidouro de carbono. E aí a gente não está olhando só para o galho ou para o tronco, mas para todo o ecossistema, incluindo o solo. E uma torre dessa nos permite entender mecanismos. Por exemplo, o quanto esse balanço é impactado em um ano mais seco ou por um evento de chuva. É uma ferramenta científica poderosíssima, embora cara e complicada de lidar.

Agência FAPESP – O Projeto Temático NEWFOR, que o senhor coordenou, terminou recentemente. Conte um pouco sobre os resultados e como eles se relacionam com essas outras iniciativas.

Brancalion – Elas são, de certa forma, desdobramentos. Nosso objetivo no NEWFOR foi construir a maior base de dados do mundo sobre o reflorestamento tropical. A pesquisa em restauração e reflorestamento carecia de fortes bases de dados. Os estudos anteriores tinham um esforço amostral muito baixo, eram focados em um ou outro método de reflorestamento e não cobriam grandes áreas, de forma a representar minimamente a enorme heterogeneidade das florestas tropicais. Com essa base de dados podemos explorar, de forma muito mais robusta, questões científicas que já vinham sendo exploradas e, ao mesmo, estabelecer uma base para pesquisas futuras. Podemos usar esses dados para alavancar outros projetos mais ambiciosos.

Agência FAPESP – E como essa base de dados foi construída?

Brancalion – Nós definimos oito coberturas do solo de interesse, em um gradiente que vai desde o uso agrícola do solo [pasto e agricultura] e passa por dois sistemas de referência: remanescentes florestais degradados e conservados. Também foram incluídos cinco sistemas de reflorestamento: agrofloresta; monocultivos ativos [como os de eucalipto para produção de celulose]; monocultivos extensivos [como os usados para produção de madeira serrada, em que há muita regeneração natural no sub-bosque]; plantios de restauração [em que se misturam várias espécies nativas]; e florestas estabelecidas por regeneração natural [de forma espontânea, a partir do isolamento da área após uso agrícola]. E, então, aplicamos um protocolo para avaliar a multifuncionalidade da floresta em parcelas de 30 por 30 metros. Foram estabelecidas mais de 800 parcelas ao longo da Mata Atlântica, nas quais analisamos a biodiversidade, o carbono armazenado em todos os compartimentos da floresta, como no solo, raiz fina e grossa, biomassa viva lenhosa acima do solo, madeira morta em pé e sobre o solo, cipós e serapilheira, além de infiltração da água no solo e muitas outras coisas. E cada árvore foi medida nessas parcelas, somando cerca de 70 mil árvores, de aproximadamente 1.300 espécies diferentes. Para isso estabelecemos parcerias com ONGs, empresas, governos, proprietários rurais e várias unidades de conservação por meio de um processo de coprodução do conhecimento. Essas pessoas foram sendo engajadas a responder à grande pergunta de pesquisa do projeto, que já rendeu 40 artigos científicos, todos em periódicos internacionais, em revistas de altíssimo nível. Mas o principal legado que eu vejo desse projeto é que ele vai servir de base para vários outros. Alguém interessado em estudar aves e restauração, por exemplo, pode se valer dessas parcelas permanentes que estabelecemos, com todas as árvores identificadas. Ou pode usar o LIDAR para avaliar a estrutura. Então eu brinco que a gente criou um parque de diversões científicas.

Agência FAPESP – O senhor mencionou a grande pergunta científica do projeto. Qual seria ela?

Brancalion – É esta: como diferentes tipos de benefícios ambientais são gerados por diferentes métodos de reflorestamento em diferentes condições ambientais? Essa pergunta é crítica para quem investe no reflorestamento para um determinado objetivo, seja como um negócio, seja para gerar benefícios coletivos a partir de financiamento público ou filantrópico. Saber o quanto de carbono eu consigo sequestrar, por exemplo, em uma determinada região, dependendo do método de reflorestamento, é a base de qualquer modelo de investimento. Aliado a isso, é importante saber como outros benefícios estão associados, como carbono e biodiversidade, para que projetos possam ser elaborados e estabelecidos. Nossos resultados permitem assim maximizar o custo-benefício do reflorestamento, ampliando os múltiplos benefícios por unidade de investimento, apoiando novos negócios, políticas públicas e ações conservacionistas.

Fonte: Agência FAPESP




sábado, 29 de novembro de 2025

PLANAVEG: Brasil anuncia 3,4 milhões de hectares em processo de restauração

3,4 milhões de hectares em processo de recuperação da vegetação nativa foram anunciados na COP30. - Foto: Fernando Donasci/MMA

Número representa quase um terço da meta nacional de 12 milhões de hectares previstos no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg)

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) anunciou, durante a COP30, que o Brasil já conta com 3,4 milhões de hectares em processo de recuperação da vegetação nativa no âmbito do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). O resultado representa quase um terço da meta nacional de 12 milhões de hectares até 2030 e consolida a restauração como uma agenda estruturante para enfrentar a emergência climática, a perda de biodiversidade e a degradação dos solos.

O anúncio foi feito durante o evento Agenda Restaura Brasil – Conectando Convenções, Impactando Pessoas e Natureza, onde o MMA apresentou seu conjunto de iniciativas estruturantes para ampliar a restauração em todos os biomas. A atividade destacou como o MMA articula políticas públicas, cooperação internacional, mecanismos financeiros e governança territorial para transformar a recuperação da vegetação nativa em um esforço integrado, contínuo e capaz de gerar impacto ambiental, social e econômico em todo o país.

O avanço histórico decorre de um processo de mapeamento conduzido pelo MMA, no âmbito da Comissão Nacional para a Recuperação da Vegetação Nativa (CONAVEG), em parceria com a FAO e a União pela Restauração — aliança formada por CI-Brasil, TNC Brasil, WRI Brasil e WWF-Brasil, além da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura. Esse trabalho permitiu integrar diferentes camadas de monitoramento e produzir a visão mais robusta já elaborada sobre a restauração em todos os biomas brasileiros.

A secretária de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do MMA, Rita Mesquita, ressalta que o país vive uma inflexão positiva nesse campo. “A agenda da restauração é positiva, e a natureza trabalha a nosso favor. Muitas áreas em regeneração natural avançam com intensidade e contribuem para a regularização ambiental e para paisagens mais resilientes. O engajamento de comunidades, coletivos e empreendedores da restauração tem sido decisivo para agregar valor às florestas recuperadas e fortalecer a cadeia produtiva.”

Grande parte dos 3,4 milhões de hectares mapeados pelo MMA corresponde justamente a áreas de vegetação secundária em regeneração — florestas que avançam de forma natural e espontânea, impulsionadas pela resiliência dos ecossistemas, pela redução das pressões e pelo esforço de proteção e governança ambiental. Essa dinâmica destaca a importância da regeneração natural como caminho estratégico, eficiente e de baixo custo para alcançar escala em restauração no Brasil.

"Os dados mostram que a restauração no Brasil deixou de ser expectativa e se tornou realidade concreta, medida com rigor técnico e distribuída em todos os biomas. Este é um esforço coletivo do Estado brasileiro e da sociedade”, afirma Thiago Belote, diretor do Departamento de Florestas do MMA.

Avanço distribuído por Terras Indígenas, áreas privadas e unidades de conservação

A consolidação de 3,4 milhões de hectares resulta da integração de bases de dados oficiais e processos de monitoramento que revelam a recuperação da vegetação em áreas públicas e privadas. Entre elas, estão Unidades de Conservação, Terras Indígenas, Áreas de Preservação Permanente (APPs), áreas de uso restrito, Reservas legais e instrumentos de responsabilização ambiental.

No caso das APPs, Áreas de Uso Restrito e Reservas Legais incluídas no cômputo, trata-se exclusivamente de áreas localizadas em propriedades com Cadastro Ambiental Rural (CAR) já validado, garantindo rastreabilidade, segurança jurídica e consistência técnica.

Resumo do cômputo da restauração (hectares)
Observação: APP, AUR e RL contabilizadas referem-se a áreas situadas em propriedades com CAR validado

O papel do governo federal: transformar restauração em política de Estado

O governo federal, por meio do MMA, tem orientado a agenda de restauração para que ela seja permanente, integrada e capaz de gerar impacto em escala. Isso envolve o fortalecimento da governança federativa e multissetorial, liderada pela CONAVEG, e suas estruturas de articulação territorial e temática; a garantia de transparência da contabilização, com bases integradas e critérios técnicos claros; a estruturação de cadeias produtivas capazes de sustentar a restauração, da semente ao mercado; e a operação de sistemas de monitoramento robustos, assegurando rastreabilidade e consistência técnica.

Novos instrumentos: ciência, governança e priorização territorial

Durante a agenda, foi divulgado o primeiro mapa de áreas prioritárias para restauração na Amazônia, validado pela Câmara Consultiva Temática do Planaveg. O levantamento considera critérios ambientais, sociais e econômicos — biodiversidade, clima, água, emprego, custo-efetividade e uso do solo — e representa um passo essencial para orientar investimentos e garantir impacto territorial.

Até meados de 2026, serão apresentados os mapas de áreas prioritárias dos demais biomas, integrando bases públicas e privadas em um Sistema Nacional Unificado de Monitoramento.

Um mapa de futuro: permanência da restauração, finanças inovadoras e cooperação internacional

O marco dos 3,4 milhões de hectares inaugura uma nova fase da política pública de restauração no Brasil. O país avança agora em três frentes decisivas.

A primeira delas é a garantia da permanência da vegetação secundária. Os próximos anos serão determinantes para assegurar que a vegetação em processo de recuperação avance para estágios mais maduros e permanentes. Para isso, o MMA reforçará a implementação dos Planos de Prevenção e Controle do Desmatamento (PPCDs) em todos os biomas e a a execução efetiva do Código Florestal, garantindo proteção e manejo adequado de APPs, Reservas Legais e áreas em regeneração.

Esses instrumentos são essenciais para dar estabilidade, segurança jurídica e previsibilidade à restauração.

A segunda é a integração dos mecanismos financeiros e atração de novos investimentos. Para alcançar escala, o Brasil avançará na integração de mecanismos financeiros em modelos de blended finance, combinando recursos públicos, privados e internacionais para reduzir riscos, ampliar investimentos e estimular atividades sustentáveis nos territórios.

Além disso, o país está em processo de formalização de novas parcerias com organismos internacionais, fortalecendo o acesso a financiamentos de longo prazo para restauração, biodiversidade, clima e desenvolvimento territorial.

A terceira é a implementação de instrumentos que aceleram o impacto. Iniciativas como o Fundo Tropical das Florestas (TFFF), o fortalecimento das cadeias produtivas da restauração, territórios prioritários e as florestas produtivas são caminhos estratégicos para ampliar resultados e conectar conservação, produção e geração de renda.

Esforço coletivo, visão de longo prazo

O Brasil demonstra que a restauração é um compromisso de Estado, uma agenda de país e uma oportunidade para construir paisagens mais resilientes, produtivas e inclusivas.

O avanço até aqui só foi possível porque governos, organizações, comunidades, povos e comunidades tradicionais, produtores rurais e o setor privado caminham juntos.

O país seguirá ampliando esse esforço — com base técnica sólida, instrumentos financeiros inovadores e cooperação internacional — para atingir os 12 milhões de hectares até 2030 e consolidar uma nova economia da restauração.

Fonte: MMA


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Brasil lança iniciativa para recuperar áreas agrícolas degradadas em diferentes regiões do planeta

Liderada pelo Brasil, RAIZ recebeu o apoio de nove países. Foto: Rafa Neddermeyer/COP30

Projeto RAIZ faz parte do mutirão global para acelerar investimentos em agricultura resiliente e restauração de terras. Ele será implementado no âmbito do Grupo de Ativação do Objetivo-Chave 8 da Agenda de Ação da COP30

Por Rafaela Ferreira/COP30
Publicado em 19 de nov de 2025 às 15:50

O Plano de Investimentos em Agricultura Resiliente para Degradação Zero de Terras (RAIZ, na sigla em inglês) foi lançado oficialmente nesta quarta-feira, 19/11, durante a COP30, em Belém (PA). A iniciativa busca a mobilização de recursos e o compartilhamento de tecnologias para recuperação de áreas agrícolas degradadas em diferentes regiões do planeta. A RAIZ faz parte do mutirão global para acelerar os investimentos em agricultura resiliente e será implementado no âmbito do Grupo de Ativação do Objetivo-Chave 8 da Agenda de Ação da conferência.

Liderado pelo Brasil, o projeto recebeu ainda o apoio de nove países, conforme anunciado no evento de alto nível: Austrália, Canadá, Alemanha, Japão, Arábia Saudita, Nova Zelândia, Noruega, Peru e Reino Unido. A iniciativa vai auxiliar os países participantes na mobilização e alocação estratégica de investimentos públicos e privados voltados à restauração em larga escala de terras agrícolas degradadas.

O ministro de Agricultura e Pecuária (MAPA), Carlos Fávaro, lembrou que a RAIZ se baseia nas lições aprendidas com o Green Way e o Eco Invest no Brasil, um mecanismo inovador que mobilizou cerca de 6 bilhões de dólares em dívida pública e empréstimos comerciais para restaurar até 3 milhões de hectares de pastagens. “São 3 milhões de hectares que foram incorporados ao sistema produtivo e, sem sombra de dúvida, isso já proporcionou com que o Brasil, em 2025, colhesse a maior safra de todos os tempos”, disse durante o evento.

“Com apoio da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), já foram detectados, pelo menos, 40 milhões de hectares em áreas em algum estágio de degradação. São áreas que podem ser recuperadas com investimentos que podem refertilizar, trazer matéria orgânica, fertilizantes e voltar a produzir em um nível de excelência”, afirmou o ministro de Agricultura e Pecuária.

A iniciativa RAIZ é coordenada pelo Mapa em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Food and Land Use Coalition (FOLU), o Conselho de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), a Iniciativa de Restauração de Terras do G20, o Banco Mundial, o Instituto Clima e a Sociedade (iCS) e Agroícone.

Áreas degradadas

Segundo estudo da FAO, mais de 20% das terras agrícolas do mundo estão atualmente degradadas, o equivalente a cerca de 1 bilhão de hectares. Os solos degradados são menos produtivos e resilientes, contribuindo para a insegurança alimentar e incentivando a expansão para ecossistemas naturais, incluindo o desmatamento. E a RAIZ responde à crescente demanda global por segurança alimentar e pela preservação dos ecossistemas produtivos. Estimativas da ONU apontam que 2 bilhões de hectares de terras estão degradados no planeta, afetando diretamente 3,2 bilhões de pessoas. Ainda de acordo com a FAO, cerca de 10 milhões de hectares de florestas são desmatados por ano, e dados do Global Forest Watch (2024) mostram que a perda de florestas tropicais primárias atingiu aproximadamente 6,7 milhões de hectares no último ano.

A diretora-executiva da FOLU, Morgan Gillespy, destacou que restaurar apenas 10% das terras agrícolas degradadas poderia restaurar 44 milhões de toneladas de produção anual de alimentos. “Isso poderia alimentar 154 milhões de pessoas e criar milhões de empregos rurais. Esta não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda de crescimento, segurança alimentar e empregos. É uma agenda de resiliência climática.”

Gillespy ainda apontou a importância do financiamento da RAIZ, que não é apenas “mais um fundo”, e, sim, uma aceleradora. “A proposta é muito simples: ajudar governos e investidores a criarem mecanismos nacionais de financiamento público-privado que desbloqueiem investimentos para a restauração em larga escala. Ela está ancorada na Agenda de Ação da COP30, e proporciona um ganho quádruplo para o clima, para a biodiversidade, para a segurança alimentar e para a restauração de terras”, pontuou Morgan.

Pilares da RAIZ

A proposta é que a ação ofereça quatro serviços para os países. O primeiro é o mapeamento de paisagens degradadas para priorizar áreas de investimento. A ideia é estabelecer uma ferramenta de mapeamento interativa que atenderá à necessidade de análises precisas, permitindo que o financiamento seja direcionado para áreas com maior potencial de ganhos de produtividade.

Um segundo ponto é a identificação de soluções de restauração viáveis e avaliar as necessidades de financiamento. Com isso, os governos receberão apoio para avaliar soluções de restauração escaláveis e desenvolver uma avaliação de financiamento da restauração de terras agrícolas, que descreva custos, retornos e lacunas de financiamento. Em terceiro lugar, a RAIZ reunirá investidores interessados ​​para criar ou adaptar veículos de coinvestimento que alavanquem o financiamento público para reduzir o risco dos investimentos privados e o custo do capital.

Por fim, ela vai promover a colaboração e a troca de conhecimentos dentro do ecossistema de restauração. O objetivo é consolidar as lições aprendidas com experiências nacionais em estudos de caso e orientações para informar a aprendizagem entre pares a nível global e melhorar as condições favoráveis ao financiamento da restauração.

Para o Enviado Especial com foco em Agricultura, Roberto Rodrigues, a agricultura tropical e a RAIZ podem ser replicadas em outros países do cinturão tropical. “Com elas, será possível promover uma transição energética justa e gerar emprego, riqueza e renda nessas nações, com a ciência e a tecnologia contribuindo para o enfrentamento das mudanças climáticas. Precisamos proteger aquilo que é mais essencial para o planeta: a paz universal. Estou convencido de que a agricultura tropical demonstra, inclusive por meio da RAIZ, ser um instrumento de paz e união global”, concluiu Roberto, que já foi ministro da pasta no Brasil.

Fonte: COP30