terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Groelândia, soberania, geopolítica e Trump

Ao longo da história, a Groelândia teve limitada relevância estratégica global. As pessoas tinham pouca informação sobre o local, considerado inóspito e habitado mais por ursos polares que por humanos. Mas, nos últimos meses, isso vem mudando e a Groelândia está nos "trending topics". 

A maior ilha do mundo passou a ser alvo da ambição da política internacional de Donald Trump, que tem se mostrado expansionista, colonizadora e predatória. O presidente dos EUA ameaça anexar a Groelândia aos EUA, seja por acordo, pela compra ou pela força. Ignora que a ilha tem o seu povo, um governo autônomo, mas vinculado historicamente à Dinamarca. Logo, é parte da OTAN, uma aliança militar que os próprios EUA fazem parte e sempre lideraram.

Trump alega, sem qualquer fundamento, que a Rússia e a China teriam a intenção de tomar a Groelândia, o que seria uma ameaça à segurança dos EUA e à própria Europa.

Diante da reação dos países europeus e de todo o mundo, Trump dobra a aposta e ameaça os paises que se posicionam contra com tarifas comerciais. A Europa também ameaça reagir com retaliações contra os EUA.

Trump conseguiu instaurar mais uma crise internacional, desta vez com os seus mais tradicionais aliados: os paises europeus. O conflito enfraquece a OTAN e a Europa, que se vê ameaçada pela agressão e expansionismo russo, representado pela Guerra na Ucrânia. 

Groelândia

Considerada a maior ilha do mundo, a Groelândia tem dimensões continentais e situa-se no Atlântico Norte. Quase todo o seu território está localizado dentro do Círculo Polar Ártico e, portanto, a sua maior parte é coberta por gelo e geleiras. A Groelândia possui uma população de 57 mil habitantes (2024), quase todos da etnia Inuit (esquimós) e possui autonomia administrativa, embora esteja vinculado à Dinamarca. Seu território possui 2,17 milhões de km², o que corresponde a um pouco menos da soma da Região Sudeste e Nordeste do Brasil. A capital é Nuuk, sitiada na costa Oeste da ilha. 

Interesse geopolítico

A terra é redonda! Mas, nos acostumamos com mapas planos. Em cartografia, existem várias formas de projeção, que visam representar o globo terrestre no plano, sendo que a mais comum é a de Mercator. O problema é que ela distorce as proporções a medida que se aproxima dos polos. Isso faz com que as pessoas tenham uma noção errada da Groelândia. Ela é muito grande, mas não tanto quanto parece. Também, não parece, mas a Groelândia é mais perto da Siberia do que as pessoas imaginam. Olhando o globo por cima dos polos, entende-se isso melhor. 

A distância da capital americana, Washington (DC), para a capital da Groelândia, Nuuk, é de cerca de 3.300 km em linha reta. De Nuuk para a Sibéria é de cerca de 6.800 km (lembrar que Nuuk está na costa sudoeste da Groelândia, portanto muito mais próximo ao Canadá). A distância de 6.800 km equivale aproximadamente à que separa Nova York de Lisboa.

Importante lembrar que as mudancas climáticas tem aumentado a temperatura no Ártico, reduzindo áreas antes permanentemente cobertas pelo gelo. Isso tem viabilizado rotas de navegação antes impossíveis.

Groelândia e as mudanças climáticas 

O clima da Europa é muito influenciado pelos ventos frios que vem da Groelândia e do Ártico, pelos ventos quentes e secos que vem do Saara, cruzando o Mediterrâneo e a umidade que vem das correntes do Atlântico Norte. O sistema de correntes do Atlântico Norte é conhecido por Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico - AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation) e cientistas estão alertando para alterações que podem ter resultados trágicos. Os impactos podem causar o aquecimento do Ártico, mudando todo o padrão climático, principalmente do hemisfério norte, mas com consequências globais. Pode ser o mais grave ponto de não-retorno ("tipping point") causados pelas mudanças climáticas.

O degelo das calotas polares é uma das principais preocupações relacionadas às mudanças climáticas, pois pode potencializar o problema da elevação do nivel do mar.

A estratégia de Trump

Trump governa como se dirigisse as suas empresas. Porta-se como se estivesse sempre fazendo negócios, da forma mais agressiva, autoritária e desrespeitosa. Aposta sempre na intimidação, na crise e na confusão. E não faz segredo disso.

Seu método é exatamente aquilo que ele pregou no seu livro "A arte da Negociação" (The Art of the Deal), lançado em 1987, em coautoria com o jornalista Tony Schwartz: "Meu estilo de negociar é bem simples e direto. Miro bem alto e fico insistindo, insistindo, insistindo para conseguir o que busco". É o que tem feito com relação à Groelândia: Trump repete a sua intenção à exaustão. Aplica altas tarifas aos países, que acabam se sentindo contemplados e triunfantes com uma negociação com valores acima do que tinham antes. Assim lida com o Canadá, Venezuela, Ucrânia etc.


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Conheço a Groelândia. Estive lá em 1972, quando eu tinha 14 anos, levado pelo meu avô materno, o dinamarquês Preben Tage Axel Schmidt

Recém formado em engenharia civil na Escola Politécnica de Copenhague, Preben chegou ao Brasil em 1924, a serviço da construtora dinamarquesa Christiani-Nielsen. O que era para ser uma rápida viagem, acabou virando uma vida inteira. Encantado com o Brasil e com Niterói, decidiu estabeler-se na cidade e constituir família. Quando ainda na Dinamarca, sagrou-se campeão europeu de hipismo cross-country, mas diante do esplendor da Baía de Guanabara, trocou de esporte e se dedicou à vela, tornando-se sócio do Rio Sailing Club, no Saco de São Francisco.

Ele adorava o Brasil e se dizia "mais brasileiro do que muita gente que nasceu aqui". Mas, sentia falta do frio e viajava periodicamente para algum lugar muito frio. Em 1972, tive o prazer de fazer a primeira dessas viagens com ele. Conheci a Dinamarca, Suécia, Noruega (norte do país), Finlândia, Islândia e Groelândia. 

Com a minha mãe Ingrid e os meus irmãos Torben e Lars, no solo gelado da Antártica (1973). 

No ano seguinte (1973), levou nossa família para visitar a Antártica, no primeiro cruzeiro comercial realizado para o continente gelado.

Axel Grael 



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