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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Diretora da COP do Brasil acusa Estados Unidos de frear políticas climáticas de outros países

 

COP30 - Ana Toni, Diretora Executiva da COP30 — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Ana Toni afirma que o uso de tarifas e pressões comerciais pelos EUA trava metas de descarbonização em outros países

Com sua estratégia comercial, os Estados Unidos “influenciaram muito negativamente” as políticas climáticas de outros países, afirma Ana Toni, que foi diretora-executiva da COP30 no Brasil e promove para o encontro deste ano um “mapa de caminho” sobre o abandono dos combustíveis fósseis.

Em conversa com a AFP a poucas semanas da cúpula do clima organizada pela ONU em Antália (9 a 20 de novembro), Ana Toni criticou a “falta de solidariedade” das nações mais ricas com os países em desenvolvimento, que cobram recursos econômicos para se adaptar à mudança climática.

E criticou os Estados Unidos, que por decisão de seu presidente Donald Trump se retiraram em 2025 do Acordo de Paris, e com sua política tarifárias e pressões vêm condicionando, segundo ela, o cumprimento da agenda climática de outros países.

— Direta e indiretamente, os Estados Unidos influenciaram muito negativamente a capacidade de outros países de avançar na sua implementação [de medidas para combater o aquecimento global] — disse Ana Toni, diretora executiva da COP30 realizada no ano passado em Belém.

Nessa engrenagem influi a rivalidade entre Estados Unidos e China, explicou a brasileira.

Os países “são mais reticentes na hora de importar produtos chineses de baixo carbono, por medo de represálias dos Estados Unidos” ou porque “os Estados Unidos pressionaram esses países para que comprem produtos com maior pegada de carbono” e de fabricação norte-americana.

— Isso logicamente atrasa a capacidade desses países de aplicar metas mais ambiciosas de descarbonização — estimou.

Transição voluntária

Ana Toni destacou que a crise no estreito de Ormuz, que se traduziu em escassez de combustível na Ásia e altas generalizadas nos preços da energia, demonstra que a dependência do petróleo pode ser “muito prejudicial para o equilíbrio geral” do mundo.

— É a prova de que fazer a transição para além dos combustíveis fósseis não é apenas para combater a mudança climática, mas também uma questão de soberania, e serve igualmente para resolver um problema econômico e garantir segurança energética — explicou à AFP.

Após um acordo histórico em 2023 em Dubai no qual se anunciou o “princípio do fim” dos combustíveis fósseis, a questão ficou fora do encontro de Belém dois anos mais tarde, por pressão dos países produtores.

A presidência brasileira não desanimou e se comprometeu a promover um “mapa de caminho” global de saída progressiva e voluntária do petróleo, do carvão e do gás.

Toni teve um papel-chave nesse documento que será apresentado no início de novembro, dias antes da reunião em Antália, onde a Austrália, grande exportadora de carvão, ficará encarregada de pilotar as negociações.

A responsável detalhou que esse documento não fará recomendações país por país, nem proporá metas quantificadas ou cronogramas, mas as formulará de maneira geral, segundo o nível de dependência de cada nação em relação aos combustíveis fósseis.

— Todos os países podem avançar para diminuir sua exposição [ao petróleo, ao gás e ao carvão] e caminhar por essa transição, mesmo que partam de lugares muito diferentes — apontou.

Consenso sobre a eletrificação

Toni considerou “positiva” a iniciativa turca de promover voluntariamente a eletrificação de diversos setores econômicos (transporte, construção, indústria) para reduzir emissões.

Algumas organizações socioambientais alertam que o incremento proposto pela Turquia — 35% de eletricidade no consumo energético global daqui até 2035 — deve vir de fontes renováveis.

A responsável brasileira respondeu que a eletrificação de combustíveis fósseis “melhora a eficiência do uso desse combustível”, e asseverou que há um “consenso de que a eletrificação, por si só, já é importante”.

Em contrapartida, lamentou que os países mais ricos não estejam dispostos a aumentar suas contribuições financeiras, apesar do choque causado pelo colapso fatal de uma geleira no Nepal, que os climatologistas vinculam ao aquecimento global.

— A gente se pergunta o que mais precisa acontecer para que essas imagens vistas no Nepal sensibilizem a população dos países ricos — disse.

O Brasil decidirá em 25 de outubro no segundo turno entre o presidente esquerdista cessante, Luiz Inácio Lula da Silva, e o direitista Flávio Bolsonaro, o mais votado no primeiro turno.

Em caso de mudança, Toni pede para não retornar à política de Jair Bolsonaro de desmatamento massivo e para manter a tendência do último ano, no qual a Amazônia brasileira registrou o menor nível de desmatamento da última década.

Segundo ela, essa política não foi apenas boa para o meio ambiente, mas também “fundamental para as relações comerciais e diplomáticas do Brasil”.

— O próprio agronegócio brasileiro deveria lutar para que isso se mantenha — arrematou.

Fonte: O Globo





ONU alerta para ‘janela cada vez menor’ para recuperar florestas no mundo

Flagra de garimpo ilegal na zona de amortecimento do Parque Nacional do Rio Novo, Pará; área está próxima a uma das localizações com PLG analisada pelo relatório — Foto: Laís Modelli / Greenpeace

Relatório da FAO aponta que 489 milhões de hectares de florestas foram desmatados desde 1990 e que apenas um quinto das áreas previstas para restauração está, de fato, sendo recuperado.

Há uma janela de oportunidade cada vez menor para recuperar as florestas do planeta — e o mundo ainda está longe de cumprir os compromissos assumidos para isso. O alerta está no relatório State of the World’s Forests, divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que defende que a restauração de florestas e paisagens degradadas seja tratada pelos governos como uma prioridade nacional.

Desde 1990, mais de 489 milhões de hectares de florestas foram desmatados em todo o mundo. Uma área ainda maior sofreu algum grau de degradação. Nas últimas duas décadas, iniciativas nacionais, regionais e globais estabeleceram a meta de colocar mais de 1 bilhão de hectares sob processos de restauração. Segundo a FAO, porém, apenas cerca de um quinto dessa área está efetivamente sendo recuperado.

O relatório reconhece avanços na proteção de florestas e no plantio de árvores em diferentes partes do mundo, mas considera que o ritmo das ações não acompanha os compromissos assumidos nem a dimensão crescente das necessidades. Para a organização, a combinação entre perda de cobertura florestal e degradação dos ecossistemas aumenta os riscos ambientais, sociais e econômicos.

As florestas ocupam cerca de 4,14 bilhões de hectares, aproximadamente um terço da superfície terrestre. Elas armazenam cerca de 714 gigatoneladas de carbono e abrigam até 80% da biodiversidade terrestre do planeta. Também participam da regulação das chuvas e têm papel na segurança alimentar e na geração de renda: quase um terço da população mundial depende das florestas para sua subsistência.

A pressão sobre esses ecossistemas, no entanto, vem de diferentes frentes. Todos os anos, cerca de 127 milhões de hectares de florestas são afetados por incêndios. Insetos, doenças e eventos climáticos extremos também provocam danos, que se somam à expansão da agricultura, à crise climática, à poluição e à exploração de combustíveis fósseis e outros recursos naturais.

A degradação também cria um problema econômico. Segundo o relatório, a recuperação de 1 bilhão de hectares de florestas e outros ecossistemas degradados poderia gerar cerca de US$ 1,8 trilhão em benefícios por ano. A restauração, portanto, é apresentada pela FAO não apenas como uma estratégia ambiental, mas como uma forma de fortalecer sistemas de produção de alimentos e o desenvolvimento de comunidades rurais.

“É mais do que uma prioridade ambiental — é um investimento estratégico em sistemas agroalimentares resilientes e no desenvolvimento rural”, afirmou Qu Dongyu, diretor-geral da FAO.

Para a organização, o atraso nas iniciativas de recuperação tende a elevar os custos no longo prazo e pode aprofundar desigualdades. O risco é que áreas já degradadas sejam mantidas em trajetórias consideradas insustentáveis, enquanto a demanda mundial por produtos e serviços ligados ao uso da terra continua crescendo.

O diagnóstico da ONU chega em um momento em que a restauração florestal ganhou espaço entre as estratégias de enfrentamento da crise climática. Plantar árvores, porém, não é suficiente para reverter a degradação, segundo o próprio relatório: o desafio envolve recuperar paisagens inteiras e garantir condições para que os ecossistemas permaneçam funcionais no longo prazo.

Fonte: O Globo



terça-feira, 6 de outubro de 2026

Europa Ocidental teve verão mais quente da história, com calor extremo, seca e incêndios

Uma mulher com um leque perto da Torre Eiffel durante onda de calor em Paris, em 20 de junho de 2026. — Foto: REUTERS/Sarah Meyssonnier

Segundo o observatório europeu Copernicus, 52% do continente enfrentou níveis muito fortes de estresse térmico. Rios tiveram os menores fluxos de água em mais de 30 anos.

Por Roberto Peixoto, g1

A Europa Ocidental registrou em 2026 o verão mais quente de sua história, em uma temporada marcada por ondas de calor persistentes, seca, incêndios florestais e níveis excepcionalmente baixos nos principais rios do continente, mostram dados do observatório europeu Copernicus.

Considerando toda a Europa, este foi o terceiro verão mais quente já registrado.

As altas temperaturas começaram mais cedo que o normal em algumas áreas, com uma grande onda de calor atingindo o oeste europeu ainda no fim de maio, e permaneceram ao longo dos meses seguintes.

Na Europa Ocidental, a temperatura média entre junho e agosto chegou a 21,7°C, 2,5°C acima da média de 1991 a 2020. O resultado superou o recorde anterior, registrado em 2003.

O calor também se espalhou por uma área maior e persistiu por mais tempo. Ao longo de 2026, foram registrados 17 dias em que pelo menos 60% da Europa Ocidental teve temperaturas acima de 30°C. Em 2003, haviam sido 11 dias, e, em 2025, sete.

Além das temperaturas do ar, o levantamento mostra que o calor provocou forte impacto sobre o corpo humano.

Até o fim do verão, 52% da Europa havia enfrentado pelo menos condições classificadas como "muito fortes" de estresse térmico, associadas a temperaturas percebidas de 38°C ou mais.

ENTENDA: O estresse térmico mede como condições de calor, umidade, vento e radiação afetam o corpo humano. Em níveis elevados, aumenta o risco de problemas como desidratação e insolação.

Entenda o que é o fenômeno El Niño

Na Europa Ocidental, foram registrados em média 41 dias de estresse térmico forte, um recorde para a região e cinco dias a mais que em 2003.

Os episódios classificados como muito fortes chegaram a 13 dias, também o maior número já registrado.

"A Europa enfrentou um verão de extremos climáticos combinados em 2026", afirmou Samantha Burgess, líder de Estratégia Climática do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), responsável pelo serviço climático do Copernicus.

Segundo ela, o calor recorde ocorreu ao mesmo tempo que condições secas generalizadas, níveis excepcionalmente baixos nos rios e mares muito quentes, com consequências para a disponibilidade de água, produção de energia, transportes, ecossistemas e saúde humana.



Rios tiveram menor fluxo em mais de 30 anos

A seca prolongada também deixou marcas nos rios europeus. De acordo com o Copernicus, o continente teve em 2026 o verão com os menores fluxos de água desde o início da série histórica, em 1992.

Níveis recordes ou próximos de recordes de baixa foram observados simultaneamente em grandes rios, como Reno, Danúbio, Pó, Loire, Ródano e Sena, principalmente em julho e agosto.

A redução afetou o transporte de cargas e aumentou a pressão sobre sistemas de irrigação, geração hidrelétrica, abastecimento de água e resfriamento de reatores nucleares.

As condições secas, combinadas às sucessivas ondas de calor, também favoreceram os incêndios florestais.

Até 2 de setembro, a área queimada na União Europeia era quase duas vezes maior que a média registrada entre 2006 e 2025 para o mesmo período, segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais. Espanha e França estiveram entre os países mais afetados.

Dados do Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus mostram ainda que as emissões provocadas pelos incêndios na Europa ficaram entre as dez maiores registradas desde 2003, expondo milhões de pessoas a níveis perigosos de poluição do ar.

Navios cargueiros navegam pelo rio Reno, com o nível da água baixo e a Catedral de Colônia ao fundo, na Alemanha, nesta segunda-feira (3). — Foto: Thilo Schmuelgen/Reuters

Mares europeus também tiveram calor excepcional

Aliado a tudo isso, o calor também atingiu os mares ao redor do continente. Durante o verão, foram registradas temperaturas recordes ou próximas de recordes na superfície do oceano em grande parte da costa atlântica europeia e nas regiões oeste e central do Mar Mediterrâneo.

Essas águas excepcionalmente quentes vieram acompanhadas de ondas de calor marinhas fortes a excepcionais, períodos prolongados em que a temperatura do oceano permanece muito acima do normal.

ENTENDA: Ondas de calor marinhas são períodos persistentes de temperaturas anormalmente elevadas no oceano. Além de afetarem os ecossistemas marinhos, elas podem aumentar o calor nas regiões costeiras.

Segundo o Copernicus, mares mais quentes dificultam o resfriamento durante a noite e aumentam a umidade do ar perto da costa, o que pode agravar o estresse térmico enfrentado pela população.

Para Burgess, a combinação observada neste verão mostra como diferentes extremos podem ocorrer ao mesmo tempo e ampliar seus impactos.

"À medida que o clima continua aquecendo, eventos como esses reforçam a importância de aumentar a resiliência diante de riscos climáticos cada vez mais interligados", afirmou.

Fonte: G1




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

EUA registram verão mais quente em 132 anos

 

Verão meteorológico, definido entre os meses de junho e agosto, atingiu temperatura média de 23,6°C no território continental do país.

Resumo
  • Verão mais quente da história: segundo a NOAA, o verão de 2026 (junho-agosto) nos EUA continentais registrou temperatura média de 23,6°C, superando os recordes de 1936 (Dust Bowl) e 2021 em 0,2°C - o mais quente em 132 anos de medições.
  • Tendência de aquecimento acelerado: com o recorde de 2026, quatro dos cinco verões mais quentes já registrados ocorreram nos últimos cinco anos, incluindo 2022 e 2024. Agosto também foi o mais quente desde 1895, com média de 24,2°C e máximas diárias de 31,4°C.
  • El Niño amplia riscos para setembro: calor extremo, seca e ventos fortes já alimentaram incêndios florestais catastróficos. Com o El Niño caminhando para se tornar muito forte, a NOAA prevê temperaturas acima da média em setembro e risco elevado de incêndios no Noroeste e no Vale do Mississipi.

O país do (pseudo) negacionista climático Donald Trump “torrou” nos últimos meses. Segundo a Administração Atmosférica e Oceânica Nacional (NOAA, sigla em inglês), os Estados Unidos continentais (os 48 estados contíguos e o Alasca, excluindo o Havaí) tiveram em 2026 o verão mais quente desde o início dos registros de temperatura, há 132 anos.

O verão meteorológico, definido entre os meses de junho e agosto, atingiu uma temperatura média de 23,6°C neste ano. A CNN destaca que esse número supera em 0,2°C os registros prévios dos verões de 1936, na época do Dust Bowl – período de grave crise ambiental, agrícola e econômica que atingiu as Grandes Planícies dos EUA e do Canadá durante a década de 1930 – e de 2021, de acordo com a NOAA.

Com o recorde de 2026, quatro dos verões mais quentes já registrados ocorreram nos últimos cinco anos, com 2022 e 2024 em 4º e 5º lugares, respectivamente, detalha a Folha. O que reflete a influência das mudanças climáticas, cuja causa principal é a queima de combustíveis fósseis.

O ano também registrou o mês de agosto mais quente nos EUA desde o início das medições, em 1895, com temperaturas médias de 24,2°C. As temperaturas máximas diurnas médias foram de 31,4°C em todo o território continental, também a mais quente já registrada.

A maior parte dos EUA registrou temperaturas acima da média ou muito acima da média no mês passado. Condições próximas ao normal só foram observadas em áreas das planícies do norte e do meio-oeste, segundo a NOAA. O calor extremo, somado ao tempo seco e a fortes ventos, facilitou a proliferação de incêndios florestais, levando a cenários catastróficos em algumas regiões.

E com o El Niño a um milímetro de se tornar muito forte (saiba mais aqui), a agência prevê que as temperaturas de setembro também deverão ficar acima da média em grande parte dos EUA continentais. A seca deverá persistir neste mês em áreas significativas do território estadunidense, como o noroeste e o Vale do Mississipi, com potencial significativo de incêndios florestais acima da média.

Washington Post, USA Today, CBS, Phys e Al Jazeera também noticiaram o recorde de temperatura nos EUA.

Fonte: ClimaInfo


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Secas já deixam cerca de 1.700 municípios brasileiros sob alto risco de falta de água

Vista aérea da represa Jaguari-Jacareí durante seca de 2025. Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

Crise climática adiciona novos extremos a regiões que historicamente convivem com o problema, mostra levantamento do Observatório do Clima sobre índices da plataforma AdaptaBrasil

Por Aldem Bourscheit

Dos 5.569 municípios brasileiros, 1.699 estão sob risco alto ou muito alto de sofrer com a falta de água em razão de períodos de seca. O número equivale a 30,5% dos municípios do país, sujeitos a consequências mais graves em um mundo mais quente, marcado pela intensificação dos eventos extremos, entre eles as estiagens severas. A análise foi realizada pelo Observatório do Clima com base em dados do AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

O problema se concentra no Nordeste. Todos os 15 municípios classificados com risco muito alto ficam na região e, em oito dos nove estados nordestinos, há ao menos uma cidade nessa faixa. Os demais municípios com risco alto estão espalhados pelas cinco regiões do país.

Fora do Nordeste, os índices recuam, mas o problema continua. Brasília (DF), Governador Valadares (MG), Capanema (PA) e Pelotas (RS), por exemplo, estão na faixa de risco alto.

“A gente não vai viver os próximos 30 anos como a gente viveu nos últimos 30 anos”, Jean Ometto

O AdaptaBrasil avalia o risco de impacto das mudanças climáticas no balanço hídrico a partir da combinação de três fatores: ameaça, exposição e vulnerabilidade do município.

Conforme Jean Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador científico do AdaptaBrasil, a ameaça mede quanto fatores como mudanças na chuva e na temperatura podem reduzir a água disponível. “A grosso modo, o que a gente chama de ameaça de escassez são os aspectos físicos do sistema”, disse.

A exposição mostra quem e o que pode ser atingido pela falta d’água, das pessoas às atividades econômicas que dependem do recurso, como irrigação e pecuária. Já a vulnerabilidade mostra quanto o município pode sofrer e que condições ele tem para reagir à escassez. Entram nessa conta itens como gestão da água, reservatórios e alternativas de abastecimento. “É quanto o município atuou ou atua para reduzir o risco de faltar água”, detalhou Ometto.

Juazeiro e Recife são os municípios com maior risco de falta d’água no país. O primeiro fica no semiárido do norte da Bahia, às margens do São Francisco. O outro é a capital pernambucana, na Mata Atlântica litorânea.

Quando avaliados os três fatores que compõem o risco, tem-se que Juazeiro e Recife têm ameaça média, vulnerabilidade alta e exposição máxima. Assim, municípios tão diferentes chegam ao mesmo patamar por razões que vão bem além de chover pouco.

Mapa de risco de impacto do estresse hídrico no Brasil. Fonte: AdaptaBrasil/MCTI

A forma como cada município lida com tais fatores — e o grau de risco que recebe — também fica explícita no caso de Guaribas, no sudoeste do Piauí. No território, historicamente sujeito a estiagens, ameaça e vulnerabilidade são médias, mas a exposição é muito baixa. Com isso, o risco final cai para muito baixo. “Isso quer dizer que não vai ter seca? Não!”, afirmou Ometto.

Na Amazônia, a combinação muda outra vez. Pelos dados da plataforma, Manaus tem o maior risco no estado do Amazonas, mas fica apenas na faixa média. Sua exposição é máxima, mas os níveis menores de ameaça e vulnerabilidade puxam o resultado para baixo.

Isso não significa que a água seja sempre abundante na região. Ometto citou áreas onde poços secam na época menos chuvosa e comunidades precisam recorrer a cisternas. “Você pode estar numa região […] abundante de água e ter problema de distribuição”, resumiu.

A crise do clima entra na conta do risco ao alterar chuvas, intensificar secas e interferir na disponibilidade de água no país, adicionando novos extremos a regiões que já convivem com problemas antigos.

Para Diosmar Santana Filho, geógrafo e pesquisador da Associação de Pesquisa Iyaleta, de Salvador (BA), a escassez merece atenção especial. “Secas e longas estiagens são o maior evento climático do Brasil”, avaliou, citando a frequência de emergências e calamidades ligadas à falta d’água, sobretudo no semiárido nordestino.

No outro extremo estão municípios que agora têm de lidar com fortes chuvas e inundações, como é o caso de pequenos municípios nordestinos.

Dos índices à ação

Ometto pontuou que o AdaptaBrasil não foi criado como um sistema de alerta, mas para ser uma referência nacional para antecipar riscos e orientar decisões climáticas. Ou seja, os dados ganham ainda maior utilidade se entrarem no planejamento político.

“Essa escala de risco é uma escala de orientação”, afirmou. O passo seguinte é abrir os dados de cada município, entender o que empurra seu índice para cima e identificar onde o poder público pode agir.

Isso pode significar melhorar a gestão da água, buscar novas fontes, ampliar cisternas e reservatórios ou estudar alternativas subterrâneas. “O que ele não vai conseguir mexer é no ‘botãozinho do clima’”, resumiu Ometto. “Mas nas ações no município ele consegue”.

Conhecer os riscos também pode ajudar uma prefeitura a buscar recursos. Segundo Ometto, municípios que conseguem mostrar onde estão mais vulneráveis têm melhores condições de justificar investimentos em adaptação.

Mas nem todos conseguem bancá-los. Outro levantamento do OC encontrou 1.594 municípios com risco médio a muito alto de deslizamentos e/ou enxurradas e baixa capacidade fiscal. São cidades que precisam investir em adaptação, mas têm mais dificuldade para conseguir crédito e financiar obras.

Para Santana Filho, fortalecer quem executa as políticas “na ponta” é essencial. “Investir hoje em pesquisa, capacitação e aumentar as capacidades de gestão pública local […] é um primeiro ponto”, afirmou.

Ometto vai na mesma direção. Para ele, a mudança do padrão climático precisa entrar na gestão cotidiana de estados e municípios. A lógica que por décadas orientou a agricultura, o uso dos mananciais e a relação com os recursos naturais já não serve para o clima atual nem para o futuro.

“A gente não vai viver os próximos 30 anos como a gente viveu nos últimos 30 anos”, ressaltou o cientista.

Os dados municipais analisados pelo OC têm 2020 como ano de referência, mas o AdaptaBrasil vem sendo atualizado com novas bases e modelagens, incluindo informações de órgãos federais como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e projeções climáticas usadas pelo IPCC, sigla em inglês do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima.

Fonte: Observatório do Clima 





quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Desastres climáticos causaram perdas de R$ 6,6 bilhões no Brasil neste ano e El Niño pode intensificar danos, diz relatório

Deslizamentos assolaram diversos bairros em Juiz de Fora, em fevereiro de 2026 — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Levantamento da AON, empresa de seguros, mostra que os impactos financeiros foram de R$ 565 bilhões no mundo inteiro nesse primeiro semestre por causa de secas, enchentes e deslizamentos

Por Lucas Altino

No primeiro semestre de 2026, secas, deslizamentos e enchentes no Brasil causaram um prejuízo financeiro de R$ 6,6 bilhões, aponta um relatório da AON, empresa de seguros, que alerta para os riscos do El Niño ampliar esses danos. Os eventos brasileiros foram os mais impactantes no continente, ao lado de casos semelhantes na Colômbia e dos terremotos na Venezuela. No mundo, foram estimadas perdas de R$ 565 bilhões no primeiro semestre.

O Brasil foi destacado no relatório como um dos principais exemplos de impactos do El Niño, principalmente nas perdas agrícolas, eventos de clima extremos e no mercado de seguros. A AON cita um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que identificou 220 eventos em 16 estados brasileiros entre 2000 e 2021 associados ao El Niño, que, no Brasil, gera fortes chuvas no Sul e seca no Norte.

Há previsão de que um forte El Niño atue nos próximos meses. Nas últimas semanas, intensas ventanias registradas no Sul e Sudeste podem ter acontecido por influência do aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o que configura o El Niño e altera a circulação dos ventos e da atmosfera.

Principais desastres no ano

O Global Catastrophe Recap (retrospectiva global de catástrofes), nome do relatório da Aon, identificou quatro eventos extremos no Brasil no primeiro semestre: um de seca, um de tempestade, e dois de enchentes e deslizamentos. Esses episódios somaram 127 mortes e perdas econômicas estimadas em R$ 6,6 bilhões.

O caso mais grave aconteceu em Minas, em fevereiro, onde chuvas, enchentes e deslizamentos resultaram em 72 mortes em Juiz de Fora e Ubá.

O principal desastre climático da América Latina em 2026 foi a sequência de terremotos que atingiu a Venezuela em 24 de junho, com cerca de 5 mil mortes e perdas preliminares estimadas entre 20 bilhões e 30 bilhões de dólares. Foi o terremoto mais severo no continente desde o ocorrido no Chile em 2010.

Na Colômbia, os principais problemas foram inundações. Chile e Argentina sofreram com incêndios florestais, enquanto enquanto Peru e Equador registraram enchentes e deslizamentos de terra. Já o México foi afetado pela tempestade tropical Boris.

O relatório considerou que houve menos eventos que a média, porém com intensidade acima do normal, o que gerou "impacto humano e financeiro significativo".

Panorama global

Globalmente, as perdas econômicas provocadas por desastres climáticos totalizaram 111 bilhões de dólares, ou R$ 565 bilhões, no primeiro semestre de 2026, cerca de 25% abaixo da média do século. Ainda assim, o patamar é muito alto, reforça o relatório, com 23 eventos com perdas superiores a 1 bilhão de dólares.

Houve, por exemplo, a tempestade de vento mais impactante já registrada em Portugal e uma intensa temporada de tempestades marítimas nos Estados Unidos.

O relatório destaca que a frequência de eventos extremos e o crescimento das perdas seguradas reforçam a necessidade de ampliar a resiliência da infraestrutura, fortalecer estratégias de prevenção e aperfeiçoar a gestão integrada de riscos diante de um cenário climático cada vez mais volátil.

Fonte: O Globo




domingo, 19 de julho de 2026

Na Copa do calor, agora a fumaça


A Copa do Mundo mais quente da história (até agora) chega ao fim, lembrando-nos de que vivemos uma época de eventos extremos mais frequentes e intensos. O estádio onde será a final entre Argentina e Espanha, em Nova Jersey (região de Nova York), foi encoberto nos últimos dias pela fumaça decorrente dos incêndios florestais no Canadá.

Segundo a empresa suíça IQAir, que monitora a qualidade do ar em tempo real, a cidade de Nova York acordou nesta sexta-feira (17) com níveis insalubres de poluição, chegando a um Índice de Qualidade do Ar de 188 (AQI, na sigla em inglês). Outras localidades nos Estados Unidos também sofrem com o evento. Detroit registrou a pior qualidade de ar do mundo nesta sexta, com um AQI 222 – mas esse índice ainda é bem melhor do que os impressionantes AQI 600 atingidos na véspera. Com valores acima de 100, o ar é considerado insalubre para grupos de risco e, acima de 150, para todos.


A World Weather Attribution, consórcio internacional de cientistas climáticos, afirmou que a maior recorrência e intensidade dos incêndios florestais devem ser atribuídas às mudanças climáticas. O aquecimento global tornou a temporada de incêndios no leste do Canadá cerca de 50% mais intensa. A falta de umidade na vegetação e o solo ressecado transformaram as florestas boreais em combustível altamente inflamável. O país enfrenta, neste momento, mais de 850 focos de incêndios florestais.

O calor extremo marcou o tom de muitos jogos desta Copa. Paraguai x França registrou uma sensação térmica de 42°C. E três jogos foram disputados com sensação térmica de 40°C (Argentina x França, Colômbia x Senegal e Brasil x Noruega). O sindicato internacional de jogadores, a FIFPRO, recomenda que partidas de futebol sejam repensadas a partir do Índice de Temperatura de Globo e Bulbo Úmido, que mede o estresse térmico no corpo (WBGT, na sigla em inglês). Partidas com um WBGT acima de 28°C devem ser adiadas ou canceladas por questões de segurança. A entidade também recomenda pausas para hidratação e resfriamento quando o valor atinge 26°C.

Pela primeira vez, todas as partidas da competição tiveram duas pausas para hidratação – uma em cada tempo. Adotadas como uma medida de adaptação, essas pausas acabaram no centro do debate sobre o quanto interferiram no desenrolar esportivo ou se, na verdade, foram motivadas por razões comerciais.

A FIFA também inaugurou seu protocolo para tempestades nesta Copa. Durante esse mês de competição, o protocolo de tempestades e raios foi ativado e provocou interrupções diretas em três partidas: França x Iraque, México x Equador e México x Inglaterra. No entanto, a FIFA não possui um protocolo específico para lidar com a fumaça decorrente de incêndios florestais. Previsões desta sexta-feira indicam que a situação deva melhorar até domingo. O possível alívio deve vir com a chuva prevista para sábado. A cerimônia de encerramento promete, além do jogo entre Argentina e Espanha, um mega espetáculo musical, com shows de Madonna, Shakira, BTS e Justin Bieber. Diante dos elevados custos logísticos e financeiros de um eventual adiamento, não é exagero dizer que os organizadores devem estar fazendo a dança da chuva.

Fonte: Política por Inteiro





quinta-feira, 9 de julho de 2026

PARQUE SOLAR É MAIS UM LEGADO DE SUSTENTABILIDADE E INOVAÇÃO QUE DEIXAMOS PARA NITERÓI

Quem chega em Niterói pela Ponte, ao se aproximar da Praça do Pedágio e olhar para o Morro da Boa Vista localizado bem à sua frente, já deve ter notado que há uma novidade na encosta: é o PARQUE SOLAR, um projeto inovador e um novo conceito de geração de energia de forma limpa, sustentável e que beneficia a comunidade.

Parque Solar implantado em encosta de Niterói é mais um legado de inovação iniciado na nossa gestão como prefeito da cidade. Projeto é uma referência para outras comunidades de Niterói e para outras cidades. Foto Leonardo Simplicio (Divulgação). 

O projeto de implantação do Parque Solar na Encosta do Morro da Boa Vista, no Centro de Niterói, era uma antiga ideia que acalentei por anos e consegui desenvolver quando fui secretário da Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão - SEPLAG, da Prefeitura de Niterói. O projeto avançou e saiu do papel graças principalmente ao empenho da engenheira florestal Valéria Braga e do secretário de Defesa Civil Walace Medeiros. 

Na sua concepção inicial, a iniciativa teve como objetivo aproveitar as condições favoráveis da encosta para a produção de energia fotovoltaica, proteger a maior área de reflorestamento da mantido pela Prefeitura e beneficiar a comunidade. A água da chuva acumulada nas próprios painéis solares é captada e estocada em reservatórios com capacidade para 30 mil litros, para ser utilizada na manutenção e limpeza do Parque Solar, permitir a irrigação das mudas e proteger a área dos constantes incêndios que prejudicam as áreas de reflorestamento.

Em 2018, o conceito inovador do projeto foi reconhecido com a conquista do Prêmio Lidera Rio, vencendo na categoria principal - "Prêmio de Melhor Projeto" - e na categoria "Sustentabilidade e Resiliência". A premiação foi promovida pelo SEBRAE-RJ, em parceria com o Instituto República, CLP e Cidadis e contou com a participação de várias prefeituras fluminenses.

Na minha gestão como prefeito de Niterói (2021-2024) contratamos um serviço especializado para o desenvolvimento do projeto executivo, licitamos e demos início às obras de sua implantação, que foram concluídas na atual gestão do prefeito Rodrigo Neves. A obra foi concluída e entregue no dia último dia 04 de julho. 

Fotos Leonardo Simplicio (Divulgação)

O Parque Solar, que contou com um investimento de R$ 7,7 milhões, possui 2 mil módulos fotovoltaicos e ocupa uma área de 36 mil metros quadrados. A usina tem capacidade para produzir cerca de 150 mil quilowatts-hora (kWh) de energia por mês energia, reduzindo as despesas do consumo de energia dos prédios públicos. Para se ter uma ideia, a energia produzida é suficiente para suprir o consumo de 19 creches públicas. Com isso, o retorno do investimento virá em dois anos. 

O Parque Solar é parte do esforço que iniciamos na nossa gestão para a transição energética da cidade, que incluiu a captação de recursos junto ao PAC, do Governo Federal, para a implantação de ônibus elétricos, do VLT de Niterói e a aquisição de veículos elétricos para a descarbonização da frota da Prefeitura e mitigar emissões de Gases de Efeito Estufa na cidade.

A energia solar é uma das formas mais sustentáveis de geração de energia, é a fonte que mais cresceu no Brasil entre 2024 e 2025, com o excepcional avanço de 24,%.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)



domingo, 5 de julho de 2026

The Ethical Dimension of Tackling Climate Change

 

Stephen Gardiner, autor de "A Perfect Moral Storm: Climate Change, Intergenerational Ethics and the Problem of Moral Corruption" (2008). Saiba mais sobre o autor.

The global challenge of climate change poses a perfect moral storm — by failing to take action to rein in carbon emissions, the current generation is spreading the costs of its behavior far into the future. Why should people in the future pay to clean up our mess?

By Stephen Gardiner
October 20, 2011


Sometimes the best way to make progress on a problem is to get clearer on what that problem is. Arguably, the biggest issue facing humanity at the moment is the looming global environmental crisis. Here, the problem is not that we are unaware that trouble is coming. After all, the basic science is both well known and continually being reiterated in major national and international reports. Rather, the core problem is that thus far effective action seems beyond us. We seem at best paralyzed, and at worst indifferent. Put starkly, there seems little place within our grand institutions and busy lives for what may turn out to be the defining issue of our generation.

Why? In my view, at the heart of the matter is the fact that humanity is in the grip of a profound ethical challenge that our current institutions and theories are ill-equipped to meet.

Sebastian Junger’s book The Perfect Storm tells the story of a fishing boat caught at sea during the rare convergence of three independently powerful storms. Similarly, the global crisis of climate change brings together three major challenges to ethical action — and in a mutually reinforcing way. It is genuinely global, profoundly intergenerational, and occurs in a setting where we lack robust theory and institutions to guide us. Neglect of this perfect moral storm leads us to underestimate the climate problem and fail to appreciate the wider implications in predictable ways.

Those least responsible for past emissions are likely to suffer the most serious impacts.

Conventional wisdom identifies climate change as primarily a global problem. Wherever they originate, emissions of the main greenhouse gas (carbon dioxide) quickly become mixed in the atmosphere, affecting climate everywhere. According to the standard analysis, this makes climate change a traditional “tragedy of the commons,” played out between nation states that represent the interests of their citizens in perpetuity. In Garrett Hardin’s tragedy, each herdsman prefers the collective outcome where none over-consume — so that the commons is not overburdened. Nevertheless, when acting individually each prefers to over-consume himself, no matter what the others do — with ruinous results for all.

In climate change, we are often told, states reason in the same way. Each prefers the collective outcome where none over-consume with carbon emissions — so that dangerous climate change is avoided. Yet, when acting individually, each prefers to over-consume, no matter what the others do — so overconsumption is rife. In both cases, then, we are led to an outcome that no one wants, and which is severe enough to seem tragic.

Unfortunately, this traditional model is at best dangerously incomplete. To begin with, it ignores one central spatial aspect of the climate problem. Those least responsible for past emissions are likely to suffer the most serious impacts (at least in the short- to medium-term). This is partly because the poorer nations are disproportionately located in more climate-sensitive regions, but it is also because, being poor, they lack the resources available to the rich to address negative impacts. Since it ignores this basic problem of fairness, the traditional model underestimates the nature of the relevant “tragedy.”

Even more importantly, the traditional model obscures the temporal aspect of the perfect moral storm. Once emitted, a substantial proportion of climate emissions typically remain in the atmosphere for hundreds of years, and some persist for tens — even hundreds — of thousands. This means that the current generation takes benefits now, but spreads the costs of its behavior far into the future.

Most victims of climate change cannot hold us to account, being very poor, not yet born, or nonhuman.

Worse, many of these benefits are comparatively modest (e.g., those of bigger and more powerful vehicles), and many of the projected costs are severe, even catastrophic (e.g., severe flooding and famine). Worse still, the problem is iterated: The same temptation to take modest benefits now even in the face of severe costs to the future is repeated for subsequent generations as they come to hold the reins of power. Hence, there are cumulative impacts further in the future. Worst of all, such impacts may eventually provoke the equivalent of an intergenerational arms race. Perhaps some future generations will face such appalling environmental conditions that they are entitled to emit more in self-defense, even foreseeing that this behavior makes matters even worse for their successors. And so it goes on.

The third storm exacerbates the situation. Climate change brings together many areas in which our best theories are far from robust, such as intergenerational ethics, global justice, scientific uncertainty, and humanity’s relationship to nature. The problem here is not that we do not have any guidance at all. For example, the idea that imposing catastrophe on the future for the sake of our own modest benefits is not a defensible way to behave is a relatively secure basic ethical intuition. Rather, the problem is that it is difficult to move beyond those basic intuitions to deal with the details, and we are too easily distracted by counterarguments, especially from theories that have merits in other contexts, but fail to take the future seriously enough.

For example, some influential economists claim the current generation is justified in moving slowly on climate change because future people will be richer due to economic growth, and so should pay more. But are we entitled to assume that the future will be richer even in a climate catastrophe? And even if they are, why should they pay to clean up our mess?

We face a profound challenge that current institutions and theories were not designed to meet.

This worry about distraction leads to a further important result. The intersection of the global, intergenerational and theoretical storms threatens to undermine public discourse. We in the current generation — and especially the more affluent — are in a position to continue taking modest benefits for ourselves, while passing nasty costs onto the poor, future generations, and nature. However, pointing this out is morally uncomfortable. Better, then, to cover it up with clever but shallow arguments that distort public discussion, and solutions that do little to get at the core problems. After all, most of the victims are poorly placed to hold us to account — being very poor, not yet born, or nonhuman.

Unfortunately, there is ample evidence for such shenanigans in the climate arena. If existing institutions are good at representing only the interests of their current members — or, worse, of the current generation of political and economic leaders — then we would expect agreements that reflect this. In particular, we might expect a succession of “shadow solutions” to the climate problem: processes, proposals, and agreements that pay lip service to wider ideals but ultimately deliver very little in the way of substance.

Sadly, this seems all too plausible a reading of the sorry history of international climate policy. The road from Rio to Kyoto to Bali to Copenhagen to Cancun is littered with procrastination, obfuscation, and empty promises. For example, all major countries including the United States agreed to the United Nations Framework Convention on Climate Change, which took effect in 1994, and so committed themselves to “protect the climate system for present and future generations.” However, global emissions are now up more than 40 percent since 1990, and more than 17 percent in the United States. Similarly, in 2009 in Copenhagen, the global community publicly committed itself to limiting global temperature rise to 2 degrees Celsius. However, it left the hard question of who should do what to a subsequent national pledge system that does not get close to that target, and few have any confidence such a system will actually be implemented. (Witness, for example, the U.S. pledge of a 17-percent reduction on 2005 levels by 2020, which rests on legislation that has since been abandoned.)

Most recently, we see headlines such as “Cancún deal leaves hard climate tasks to Durban summit in 2011” (in the Guardian on Dec. 14, 2010), followed by “Durban Climate Deal Impossible Say US and EU Envoys” (in the same publication on April 18, 2011). Alas, given the temptations of the global and intergenerational storms, such dithering is all too predictable, and highly convenient.

As bad as this news is, there may be worse to come. We should not expect a buck-passing strategy to limit itself to inaction and distraction, but rather to evolve over time. Given this, as the overall situation worsens, we might predict that the current generation will begin to press for a quick technological fix to hold off the worst impacts, at least until after they have exited the scene. In doing so they might even strive to seize the ethical high ground by declaring such a fix a “necessary” and “lesser” evil to prevent climate catastrophe. (Implausible? Welcome to the emerging debate about geoengineering.)

This is a grim state of affairs. However, recognizing the shape of the perfect moral storm can help us to make progress. We face a profound global and intergenerational challenge that current institutions and theories were not designed to meet. Given this, we need to move beyond the short-term economic and geopolitical framings that dominate current public discussion. We must acknowledge the global and intergenerational power that we yield and take responsibility for it, rather than taking solace in comfortable distraction. No one will stop us from exploiting that power but us. This is why ethics is at the heart of the matter.

Fonte: Yale Environmental 360



sábado, 4 de julho de 2026

RJ anuncia nova etapa de programa de restauração florestal com investimento de R$ 39,5 milhões


Edital prevê a recuperação de 482 hectares de Mata Atlântica em dez municípios fluminenses e de 18,7 hectares de manguezais na Baía de Guanabara e na Baía de Sepetiba.

A Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Aegea Saneamento apresentaram, nesta quarta-feira (24/6), o resultado do edital Florestas do Rio, vinculado ao Programa Estadual Florestas do Amanhã. Com investimento previsto de R$ 39,5 milhões, a iniciativa vai viabilizar a restauração de 482 hectares de vegetação nativa em dez municípios fluminenses. Ao todo, sete instituições serão responsáveis pela execução dos projetos.

A nova etapa do programa, anunciada em cerimônia na sede da Seas, no Centro do Rio, reforça a estratégia estadual de ampliação da cobertura florestal em áreas prioritárias para a produção de água e conservação da biodiversidade. Os municípios que integram a nova fase são Cachoeiras de Macacu, Itaboraí, Magé, Silva Jardim, Paracambi, Miguel Pereira, Rio de Janeiro, Engenheiro Paulo de Frontin, Maricá e Rio Bonito.

O edital também amplia o escopo das ações do programa ao incluir a recuperação de 18,7 hectares de manguezais em áreas estratégicas para a conservação ambiental do estado. As intervenções ocorrerão no fundo da Baía de Guanabara, em Magé, e na Reserva Biológica Estadual de Guaratiba, localizada na Baía de Sepetiba, na capital fluminense.

Além da recuperação da vegetação nativa, os projetos preveem ações de mobilização social, capacitação de produtores rurais e fortalecimento das cadeias produtivas da restauração florestal, ampliando os benefícios ambientais, econômicos e sociais nos territórios atendidos.

A nova etapa reforça uma parceria que vem impulsionando a restauração ecológica no Rio de Janeiro. Desde sua criação, o Florestas do Amanhã já lançou cinco editais — dois deles em parceria com o BNDES — e se consolidou como o maior programa estadual de restauração florestal do país.

Com o edital Florestas do Rio, os números do programa chegam a mais de R$ 100 milhões investidos, o plantio de mais de 2,15 milhões de mudas e a recuperação de mais de 1.294 hectares de Mata Atlântica em 18 municípios fluminenses. As ações já geraram mais de 3 mil empregos e vêm contribuindo para a proteção de mananciais estratégicos para o abastecimento de água da população.

Além da recuperação de áreas degradadas, as ações promovidas pelo programa fortalecem a conectividade entre fragmentos florestais, favorecem a proteção de recursos hídricos e ampliam as condições para o retorno da fauna silvestre. Registros recentes realizados em áreas restauradas identificaram espécies como anta, onça-parda e jaguatirica, evidenciando os impactos positivos da restauração ambiental.

Os sete projetos selecionados atuarão em diferentes realidades ambientais do estado. As iniciativas incluem a restauração de áreas de Mata Atlântica em unidades de conservação, propriedades rurais e áreas públicas municipais, além da recuperação de manguezais, implantação de polos de restauração florestal e fortalecimento da assistência técnica a produtores rurais.

A meta do Governo do Estado é reflorestar 440 mil hectares de Mata Atlântica até 2050, elevando a cobertura vegetal fluminense dos atuais 30% para 40%. A expectativa é que os investimentos em restauração ecológica ultrapassem R$ 500 milhões nos próximos anos, ampliando o alcance das ações em diferentes regiões do estado.

Fonte: SEAS



sexta-feira, 3 de julho de 2026

Árvores gigantes de florestas tropicais superam limites físicos para transportar água até o topo

 

O pesquisador Arne Scheire, um dos autores do artigo, escala um dipterocarpo de 67 metros na Malásia (imagem: Arne Scheire/University Exeter)

Estudo publicado na Science mostra que espécies com altura equivalente à de prédios de 30 andares desenvolveram adaptações internas e – ao contrário do que se pensava – não são mais vulneráveis a secas do que a vegetação mais baixa.

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Contrariando um paradigma da botânica, uma pesquisa divulgada hoje (02/07) na revista Science revelou que as árvores gigantes das florestas tropicais – com altura equivalente à de prédios de 20 ou 30 andares – não têm dificuldade em transportar água da raiz até o topo e tampouco são mais vulneráveis à seca do que as menores. O trabalho detalha o mecanismo de sobrevivência dessas espécies ainda pouco compreendidas pela ciência, embora essenciais para a regulação do clima por sua capacidade de armazenar carbono.

Pesquisas anteriores sugeriam que, conforme as árvores ganham altura, a capacidade de mover água até o alto poderia ser prejudicada pela maior distância entre raízes e folhas e pelos efeitos da gravidade. Isso reduziria a fotossíntese, limitaria o crescimento e aumentaria a vulnerabilidade à seca.

Mas, de acordo com o novo artigo, as árvores gigantes desenvolveram adaptações internas que compensam os desafios de transportar água até os galhos mais altos. Além disso, testes realizados durante secas severas mostraram que elas não tiveram declínio acentuado de crescimento em comparação com árvores menores, contrariando a hipótese de que espécimes muito altos seriam mais suscetíveis ao estresse hídrico.

Os pesquisadores descobriram que ajustes dos conduítes do xilema (“tubos” microscópicos que a planta usa para conduzir água e nutrientes até as folhas), com diâmetros maiores conforme fica mais alta, compensaram o aumento da resistência ao fluxo de água durante o trajeto. Na prática, é como se a árvore precisasse de uma mangueira maior para levar água mais longe. Essas adaptações complexas são capazes de reduzir a chance de falhas no transporte hídrico quando a planta está em situações de seca.

No caso das folhas, o efeito da gravidade as obriga a funcionar com menor hidratação (potencial hídrico mais negativo), levando-as a ficar murchas e ter que fechar o estômato (estrutura microscópica que funciona como “poros”) mais cedo, reduzindo sua fotossíntese. O estudo mostra, porém, que as árvores gigantes aumentam a tolerância a essas condições, sem prejuízo ao seu funcionamento.

Esses achados avançam na biologia das árvores gigantes, ajudando a explicar como conseguem superar limitações físicas e fisiológicas para conduzir água e continuar crescendo; aprimoram olhares sobre o papel das florestas nas mudanças climáticas e geram evidências para orientar ações de conservação, visando manter o equilíbrio do ciclo de carbono, de chuvas e da biodiversidade.

“Existem poucos dados sobre como as funções hidráulicas de uma planta mudam conforme ela cresce. É aceito que árvores maiores têm dificuldade em transportar água e, por isso, podem morrer mais em função de secas. Ficamos muito surpresos com o resultado do nosso estudo, verificando que elas têm um mecanismo interno de ajuste”, diz à Agência FAPESP o autor correspondente do artigo, Paulo Bittencourt, professor da Escola de Ciências da Terra e Ambiente da Universidade Cardiff (Reino Unido) e pesquisador colaborador do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Segundo o ecólogo, 1% das maiores árvores do planeta armazena mais da metade do carbono em ecossistemas florestais tropicais, além de contribuir com o ciclo de chuvas pela evapotranspiração.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio de um projeto Jovem Pesquisador concedido ao biólogo Peter Groenendijk, que assina o artigo com Rafael Oliveira, ambos do Centro de Ecologia Integrativa do IB-Unicamp.

(Esquerda) Palasiah Jotan, pesquisadora, usa câmara de pressão para medir o potencial hídrico de folhas de dipterocarpo antes do nascer do sol, quando as árvores estão bem hidratadas; (centro) vista de um dipterocarpo de grande porte; (direita) autores do artigo diante de um dipterocarpo: da esquerda para a direita Arne Scheire, Palasiah Jotan, Martin Svátek, David Burslem e Paulo Bittencourt (créditos: Palasiah Jotan/Czech University of Life Sciences Prague e Lindsay Banin /UK Centre for Ecology & Hydrology))

‘Escalando a floresta’

Para realizar o estudo, que levou mais de dois anos, o grupo utilizou uma amostra de 38 árvores da família Dipterocarpaceae, de cinco espécies, localizadas na Reserva Florestal Kabili-Sepilok (Malásia), na ilha asiática de Bornéu. A reserva é mundialmente conhecida por abrigar centros de conservação, inclusive o primeiro criado no mundo para reabilitação de orangotangos.

Essas árvores, variando de 7,1 a 71 metros, são consideradas as mais altas com flores dos trópicos.

O trabalho de campo foi possível com a contribuição de escaladores treinados por Jamiludding Jami, arborista ligado à Parceria de Pesquisa da Floresta Tropical do Sudeste Asiático (SEARPP, na sigla em inglês). Jami foi responsável, em 2018, por escalar e medir um dipterocarpo (meranti amarelo, Shorea faguetiana) de 100,8 metros, considerado a árvore tropical mais alta encontrada até agora.

“Escalar uma árvore de mais de 70 metros é um trabalho muito especial, que pouquíssimos fazem no mundo. São pessoas que conseguem, no meio da floresta, passar uma corda em uma árvore da altura de um prédio de 20 a 30 andares, subir e coletar galhos, por exemplo. Algumas coletas tiveram de ser sem sol, à noite. Não é só saber passar a corda e ter condicionamento físico. Precisa ver se tem vespeiro, saber se aquele galho é bom, se a madeira é forte, não é uma coisa trivial”, relata Bittencourt.

Essa expertise foi levada a escaladores no Amapá, pertencentes a comunidades ribeirinhas no Estado, que, após o treinamento, contribuíram com a coleta de material para pesquisa semelhante na floresta amazônica. Parte desses resultados deve ser divulgada até o final de 2026.

Há alguns anos, esse grupo de cientistas vem estudando gigantes da Amazônia na região do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e da Floresta Nacional do Amapá, para onde já foram realizadas algumas expedições. O projeto busca entender reações fisiológicas da floresta amazônica às mudanças climáticas. É liderado pela ecóloga britânica Lucy Rowland, da Universidade de Exeter, com quem Bittencourt trabalhou diretamente quando estava na instituição e que também é autora da pesquisa publicada na Science.

Estimativa apresentada em outro estudo liderado por Robson Borges de Lima, da Universidade do Estado do Amapá, e do qual Bittencourt e Groenendijk fizeram parte, indica que a Amazônia brasileira tem cerca de 55,5 milhões de árvores gigantes, mas a distribuição geográfica é desigual. Apenas 1% da área de floresta concentra 14% delas e metade está localizada em aproximadamente 11% do bioma. Ficam principalmente em Roraima e no Escudo das Guianas (formação geológica que inclui parte do Amapá), onde a disponibilidade de água é alta.



Impactos das mudanças climáticas

Para analisar como os dipterocarpos reagem ao estresse hídrico, os pesquisadores mediram as taxas de crescimento dos troncos antes, durante e depois do forte período de seca associado ao El Niño em 2023-2024. Fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial, o El Niño de 2023-2024 foi considerado um dos cinco mais intensos já medidos. Classificado no limite da categoria “muito forte”, elevou as temperaturas em cerca de 2°C acima da média, com diferentes impactos no clima de vários países.

No estudo, os resultados da comparação entre os períodos não mostraram declínios na taxa de crescimento associada à altura das árvores durante a seca severa. Ou seja, as maiores foram tão afetadas quanto as menores, sofrendo impactos semelhantes das mudanças climáticas.

“Nossos achados demonstram que os sistemas hidráulicos de dipterocarpos muito altos evoluíram de forma a se adequar perfeitamente à sua altura, não devendo sofrer mais do que os de menor porte expostos às mesmas condições de seca”, afirma Rowland, por meio de comunicado à imprensa.

Nesse sentido, a pesquisa sugere que diferenças na capacidade das árvores de evitar bolhas de ar (embolia) que interrompem a circulação interna de água durante a seca podem estar mais relacionadas ao microclima da copa e ao sombreamento do que à altura.

Para Oliveira, os resultados sinalizam a necessidade de entender melhor os mecanismos que determinam a mortalidade das árvores gigantes durante secas extremas. “Em vez de assumir que a altura por si só aumenta a vulnerabilidade hidráulica, os achados apontam que existem outros mecanismos fisiológicos e anatômicos que podem ser igualmente ou mais importantes para explicar a sobrevivência dessas árvores às mudanças climáticas. Essa nova perspectiva pode ajudar o desenvolvimento de modelos mais realistas sobre o funcionamento das florestas e suas respostas a climas cada vez mais secos”, afirma Oliveira à Agência FAPESP.

Groenendijk reforça a importância de compreender as taxas de crescimento dessas espécies. “Entender quais idades as gigantes atingem, como crescem e como se comportam frente à variabilidade climática são questões cruciais que estamos tentando responder usando sensores automatizados e a análise de anéis de crescimento”, completa.

No Brasil, um grupo internacional de cientistas está coletando dados na Reserva Florestal Adolfo Ducke, em Manaus (AM), para quantificar e mapear as causas e os fatores de morte de árvores tropicais altas. O “Projeto Gigante” vem sendo desenvolvido por integrantes do Cary Institute of Ecosystem Studies Millbrook (Estados Unidos) em cooperação com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Oliveira destaca que, provavelmente, um mecanismo que compensa a resistência a secas está ligado à capacidade das folhas mais altas de absorver orvalho e neblina. “Pesquisas anteriores que fizemos mostraram que fontes atmosféricas podem ser importantes para manter a hidratação de plantas em geral, mesmo as de folhas muito grandes”, conclui.

O artigo Height does not impair the hydraulic system of the tallest tropical Dipterocarp trees pode ser lido em: science.org/doi/10.1126/science.aea9013.

Fonte: Agência FAPESP



terça-feira, 30 de junho de 2026

TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL - Apenas 13% dos municípios têm plano climático publicado

Transcrevemos, a seguir, texto publicado pelo site da organização Transparência Internacional Brasil, sobre estudo realizado sobre os planos climáticos municipais no Brasil. 

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Adaptação climática nos municípios: apenas 13% têm plano publicado

As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 deixaram um rastro de destruição em municípios como Canoas — que, segundo dados coletados em 2025, mais de um ano após a tragédia, ainda não tinha Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil publicado. Imagem: Reprodução/TV Brasil.

Nota técnica da Transparência Internacional – Brasil avaliou 233 municípios em oito estados em 2025 e encontrou lacunas graves em planejamento, participação e comunicação climática.

RESUMO:
  • Em 2025, 233 municípios de oito estados foram avaliados quanto à transparência em adaptação climática
  • 75,1% dos municípios avaliados concentram-se nas faixas “ruim” e “péssimo”
  • Apenas 30 dos 233 municípios avaliados (12,9%) possuem e publicam Plano de Adaptação à Mudança do Clima
  • 92,3% dos municípios avaliados não têm registros de audiências ou consultas públicas sobre mudanças climáticas
  • A nota técnica traz recomendações para prefeituras e organizações da sociedade civil
Alagamentos, deslizamentos, ondas de calor, secas prolongadas. Os eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes e mais intensos no Brasil, e são os municípios que respondem diretamente à população quando eles ocorrem. Mas o quanto as prefeituras planejam, comunicam e abrem espaço para a participação da sociedade nessa agenda?

Em contextos de baixa transparência e fragilidade institucional desses entes, aumentam os riscos de má gestão de recursos, ineficiência e corrupção, comprometendo a capacidade do poder público de antecipar riscos, coordenar respostas e proteger a população.

Análise da Transparência Internacional – Brasil, produzida com dados coletados em 2025, avaliou 233 municípios em oito estados e a resposta é preocupante: a maioria tem desempenho classificado como “ruim” ou “péssimo” em transparência e governança climática (acesse a nota técnica no final do texto). Os resultados não representam um retrato de todo o país, mas apontam tendências relevantes em territórios de diferentes portes, regiões e realidades institucionais.

Os dados foram apresentados no Diálogos ITGP, webinar realizado na manhã desta terça-feira (2 de junho), que reuniu servidores públicos, membros de órgãos de controle, especialistas e representantes da sociedade civil para debater caminhos concretos para fortalecer a adaptação climática nos municípios brasileiros. Participaram do evento Natália Aguiar Mol, da Plataforma Climativa, que apoia prefeituras na construção de sua governança climática; Pedro Christ, analista do Departamento de Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, que apresentou exemplos do apoio oferecido a municípios por meio da plataforma AdaptaCidades; e Flávia Burmeister Martins, auditora do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, que trouxe a perspectiva de quem fiscaliza os entes públicos — incluindo a experiência gaúcha com as enchentes de abril e maio de 2024.

A nota técnica Transparência em Adaptação Climática em Governos Municipais foi apresentada durante o Diálogos ITGP de junho/2026.

O que foi avaliado

A nota técnica Transparência em Adaptação Climática em Governos Municipais tem como referência o Índice de Transparência e Governança Pública – Executivo Municipal, ferramenta da Transparência Internacional – Brasil que avalia e ranqueia a transparência, integridade e governança das prefeituras brasileiras com base em mais de 100 critérios, atribuindo notas de 0 a 100.

Em 2025, o índice incorporou pela primeira vez um módulo temático dedicado à adaptação climática, composto por 22 indicadores organizados em duas dimensões: Transparência e Governança, que verifica a existência e a publicação de planos, estruturas institucionais e sistemas de alerta; e Comunicação e Participação, que avalia colegiados, audiências públicas, núcleos comunitários e comunicação digital.

Os dados foram coletados entre março e setembro de 2025 a partir dos portais oficiais das prefeituras avaliadas, em oito estados das regiões Norte, Nordeste, Sul e Sudeste — Bahia, Espírito Santo, Pará, Piauí, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. A aplicação da metodologia foi conduzida por oito organizações da sociedade civil parceiras da Transparência Internacional – Brasil. Por se tratar da edição inaugural do módulo, os resultados de 2025 constituem a linha de base a partir da qual o progresso dos municípios avaliados será aferido nas edições seguintes.
O módulo mede transparência e práticas de governança publicadas nos portais municipais no período de coleta. Práticas existentes, mas não publicadas, não são capturadas pelo índice. Nota alta não implica política climática efetiva, assim como nota baixa não implica ausência de ação — apenas ausência de publicidade sobre ela.
Nota “ruim”: o diagnóstico geral

Os resultados de 2025 mostram desempenho médio de 27,6 pontos de 100 possíveis, com mediana de 23,5 — classificação “ruim” pela metodologia do índice. Três quartos dos municípios avaliados (75,1%) concentram-se nas faixas “péssimo” e “ruim”. Apenas seis municípios (2,6%) atingiram a classificação “ótimo” e 22 (9,4%) zeraram todos os 22 indicadores do módulo.

Base: 233 municípios avaliados no módulo Adaptação Climática.
Gráfico: Transparência Internacional - Brasil. Fonte: Índice de Transparência e Governança Pública 2025. Incorporar Download da imagem. Criado com Datawrapper

O padrão que emerge da análise revela um desequilíbrio entre as duas dimensões avaliadas. A dimensão Transparência e Governança registrou média de 39,6 pontos; a dimensão Comunicação e Participação ficou em apenas 15,7 pontos.

Os municípios avaliados têm mais sucesso em criar estruturas formais — como secretarias de meio ambiente e órgãos de defesa civil — do que em torná-las efetivas, transparentes e abertas à participação da sociedade.
Os municípios avaliados avançam de forma mais consistente na criação de estruturas institucionais formais do que na transparência sobre seu funcionamento e na abertura de espaços participativos para a sociedade.
A lacuna mais crítica: o plano de adaptação climática

O Plano Municipal de Adaptação à Mudança do Clima é o instrumento pelo qual o município identifica os riscos climáticos a que está exposto — secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor — e define ações, investimentos e responsabilidades institucionais para reduzir vulnerabilidades. Sem ele publicado, o cidadão não tem como saber se o município tem uma estratégia de adaptação, quais são suas prioridades e quem é responsável por executá-las.

Na avaliação de 2025, esse é o indicador com pior desempenho de todo o módulo: apenas 30 municípios (12,9% dos 233 avaliados) possuem e divulgam esse plano. Mais revelador ainda é o dado combinado: 179 municípios avaliados — 76,8% do total — não têm Plano de Adaptação Climática nem Plano Plurianual com metas de mudanças climáticas. Esses municípios operam sem qualquer instrumento formal de planejamento relacionado à agenda climática.

O Plano Clima – Adaptação, lançado pelo governo federal em março de 2026, estabelece que pelo menos 35% dos municípios brasileiros devem ter planos de adaptação climática até 2035. Os resultados de 2025 indicam o tamanho do esforço necessário para que essa meta seja alcançada.

Plano de adaptação e plano de contingência: qual é a diferença?

Os dois instrumentos são complementares, mas têm funções distintas. O Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil, conhecido como PLANCON, é operacional: define como o município vai responder quando um desastre já está em curso ou é iminente, com protocolos de ação, rotas de evacuação, localização de abrigos e critérios para declaração de emergência.

O Plano de Adaptação é estratégico e de médio e longo prazo: seu objetivo é reduzir as vulnerabilidades estruturais do território antes que os eventos ocorram. Na avaliação de 2025, 37,3% dos municípios avaliados publicam o PLANCON; 12,9% publicam o Plano de Adaptação.

Participação cidadã: o dado mais grave do módulo

Se o planejamento climático é deficiente, a participação cidadã é ainda mais escassa. O indicador com pior resultado de todo o módulo mede a realização e a divulgação de audiências e consultas públicas sobre mudanças climáticas e defesa civil: 92,3% dos municípios avaliados têm nota zero nesse quesito.

O dado é especialmente significativo porque o universo avaliado inclui capitais estaduais como Curitiba e Porto Alegre e municípios com estrutura administrativa consolidada. A ausência total desse tipo de mecanismo nesses contextos indica que a baixa realização de audiências públicas sobre mudanças climáticas não pode ser atribuída apenas à falta de capacidade técnica ou institucional.

Outros números do levantamento de 2025 reforçam o quadro: 
  • 86,7% dos municípios avaliados não possuem colegiado de mudanças climáticas ativo
  • 63,5% não possuem colegiado de defesa civil
  • 91% não divulgam informações sobre Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (os chamados Nupdecs)
  • 59,7% das prefeituras avaliadas não têm atividade mínima nas redes sociais sobre clima ou riscos de desastres
Estrutura existe; transparência, não

A análise de 2025 revela uma contradição recorrente: os municípios avaliados criam os órgãos, mas não publicam informações sobre eles. O órgão de meio ambiente existe em 78,1% dos municípios avaliados — o indicador com maior taxa de cumprimento de todo o módulo. O órgão de defesa civil está presente em 62,7%.

Mas a transparência sobre o funcionamento dessas estruturas é muito menor. Apenas 33,9% dos municípios com órgão de meio ambiente publicam integralmente seu organograma, funções e contato; no caso da defesa civil, esse percentual cai para 20,6%.

O mesmo padrão aparece nos colegiados: dos 58 municípios avaliados com colegiado de defesa civil ativo, 53,4% não divulgam absolutamente nenhuma informação sobre ele. O colegiado funciona, formalmente, mas o cidadão não sabe quem são os membros, quando se reúne nem como participar.

Há também uma diferença reveladora no planejamento orçamentário. O Plano Plurianual com metas de defesa civil existe em 42,1% dos municípios avaliados. Com metas explícitas de mudanças climáticas, esse percentual cai para 15%. A distância reflete que a agenda de resposta a desastres já está parcialmente incorporada ao planejamento municipal, mas a agenda de adaptação climática estrutural — com ações preventivas, de longo prazo e sistêmicas — ainda não foi traduzida em compromisso orçamentário pela grande maioria dos municípios analisados.

Recomendações para prefeituras e sociedade civil

A nota técnica apresenta um conjunto de recomendações para prefeituras e organizações da sociedade civil. Para as prefeituras, as prioridades incluem elaborar e publicar o Plano de Adaptação Climática, publicar os quatro planos setoriais com interface direta com o tema (Plano Diretor, Plano de Habitação de Interesse Social, Plano de Saneamento Básico e Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos), incorporar metas climáticas nos Planos Plurianuais, criar colegiados com participação da sociedade civil, divulgar informações sobre sistemas de alerta antecipado e manter comunicação digital ativa sobre riscos e adaptação.

Para a sociedade civil, a nota recomenda utilizar os dados do índice como ponto de partida para pedidos de acesso à informação, pressionar pela criação de colegiados climáticos com representação social e exigir a realização e a publicação de audiências públicas sobre planos de adaptação e contingência. Em municípios com pontuação zero ou muito baixa, a incidência mais efetiva começa pelos requisitos mais básicos: a publicação dos atos normativos dos órgãos de defesa civil e de meio ambiente e a divulgação de alertas antecipados de desastres.

Como o estudo foi construído

A avaliação foi conduzida por oito organizações da sociedade civil parceiras da Transparência Internacional – Brasil: Instituto Nossa Ilhéus (BA), Transparência Capixaba (ES), Observatório do Marajó (PA), Força Tarefa Popular (PI), Rede Curitiba Climática (PR), OSB São Leopoldo (RS), OSB Indaial (SC) e OSB São Paulo (SP). Cada organização aplicou a metodologia do índice nos municípios de seu território, com dados coletados entre março e setembro de 2025.

Os Diálogos ITGP são espaços de troca de experiências entre gestores públicos, sociedade civil e especialistas, baseados nas evidências produzidas pelo índice. Cada edição aprofunda um tema específico e gera recomendações práticas para estados e municípios. As edições anteriores abordaram transparência de emendas parlamentares, em dezembro de 2025, e transparência de obras públicas, em abril de 2026.

Fonte: Transparência Internacional - Brasil

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