| Pessoas tentam se refrescar na frente de um jato d'água instalado em uma caminhonete da Defesa Civil perto do Coliseu — Foto: Andreas SOLARO / AFP |
Pessoas pulam no Canal Saint-Martin durante uma onda de calor na França, em Paris — Foto: Ludovic MARIN / AFP |
Continente enfrenta mudança climática ao mesmo tempo em que passa por profunda transformação demográfica, com aumento de população vulnerável
Por Amanda Scatolini
Quando a Europa enfrentou uma histórica onda de calor em 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, o episódio foi inicialmente tratado como um ponto fora da curva. Nos anos seguintes, porém, temperaturas extremas passaram a fazer parte da rotina dos verões europeus — como o deste ano, que mal começou e trouxe poderosa onda de calor em sua primeira semana, que já causou, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no domingo, mais de 1,3 mil mortes adicionais.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicou no X que "neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob um calor extremo, escolas estão fechadas e redes elétricas em colapso". Sublinhou que "o estresse pelo calor é frequentemente chamado de 'assassino silencioso', e as casas, locais de trabalho e escolas europeias não foram construídos para suportar essas temperaturas". Na França, a agência nacional de saúde pública especificou que o surto afeta principalmente pessoas com mais de 65 anos e destacou aumento de 40% nas mortes em casa.
Enquanto sucessivos recordes de altas temperaturas são registrados em diferentes países, a Europa passa por uma transformação demográfica profunda, com população cada vez mais envelhecida e, consequentemente, mais vulnerável a extremos. A combinação dos fenômenos levanta uma questão que especialistas tentam responder há anos: até que ponto a Europa realmente se adaptou para enfrentar o problema?
Apesar de altas temperaturas não serem fenômeno exatamente novo para os europeus, a frequência, a duração e a intensidade de eventos extremos aumentaram significativamente desde a década de 1980, aponta a Agência Europeia do Ambiente (EEA). Além disso, segundo o observatório climático Copernicus, o continente é o que aquece mais rapidamente no planeta. A temperatura média europeia aumentou cerca de 0,49°C por década desde 1979 e, considerando só os últimos 30 anos, o ritmo é de 0,56°C por década — mais que o dobro da média global.
| Os verões mais quentes registrados na Europa — Foto: Arte/ O GLOBO |
100 milhões afetados
Recordes recentes, sobretudo a partir dos anos 2010, ilustram a tendência, com o verão de 2024 sendo o mais quente da série histórica até então. Naquele ano, a temperatura média do continente foi 1,54°C acima das registradas entre 1991 e 2020. Mais de 62,7 mil mortes relacionadas ao calor foram estimadas, o que põe o verão daquele ano como o segundo mais letal, atrás do de 2003.
Ainda que seja cedo para dizer que o verão deste ano entrará para o rol dos mais quentes registrados na Europa, seus primeiros dias (a estação começou no dia 21) já são históricos para a média de junho. Parte do continente é hoje assolada por uma nova onda — provocada por uma massa de ar extremamente quente proveniente do Norte da África e mantida sobre a Europa Ocidental por um sistema de alta pressão, formando um "domo de calor" — que já quebrou recordes em diversos países, com termômetros marcando mais de 40°C em alguns locais.
De acordo com a agência AFP, pelo menos 191 milhões de pessoas enfrentaram 35°C ou mais neste domingo, com temperaturas particularmente altas na Alemanha, República Tcheca, Hungria e Polônia.
Diante do quadro alarmante, que tende a se agravar, a principal estratégia recomendada pela OMS são os chamados Planos de Ação em Saúde para o Calor (HHAP, na sigla em inglês). Eles integram serviços de meteorologia, saúde pública e defesa civil para reduzir impactos.
O guia, que foi atualizado pela OMS este ano, indica a implementação de sistemas de alerta antecipado, protocolos para hospitais e serviços de emergência, campanhas de comunicação, mecanismos de monitoramento de grupos vulneráveis e procedimentos para resposta durante episódios de calor extremo.
— As ondas de calor deixaram de ser anomalias isoladas. São uma crise recorrente que causa sofrimento, ceifa vidas e sobrecarrega sistemas e infraestrutura de saúde — afirmou o diretor da OMS Europa, Hans Kluge.
| Impacto humano das ondas de calor no continente — Foto: Arte/O Globo |
Contudo, apesar dos avanços, a cobertura desses mecanismos não é universal no continente. Segundo levantamento de 2024 da EEA e do Observatório Europeu do Clima e da Saúde, 10 dos 38 países analisados não têm HHAPs estabelecidos (Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Estônia, Finlândia, Islândia, Kosovo, Montenegro, Noruega, Polônia e Sérvia). Outros três ainda estão em processo de desenvolvimento (Chipre, Dinamarca e Romênia).
Noruega e Finlândia registraram onda de calor em junho de 2025, com temperaturas acima de 30°C até em áreas próximas ao Ártico. No mesmo período, Polônia e Sérvia foram atingidas pelo fenômeno, que elevou a temperatura da superfície acima de 50°C em partes da Europa Central.
Na Espanha, Barcelona lançou uma rede de abrigos climáticos em 2020, inicialmente com 70 locais, ampliada para mais de 350 espaços, entre bibliotecas, centros comunitários, parques, mercados, museus e piscinas públicas. Outras intervenções incluem a ampliação da cobertura vegetal urbana, a criação de áreas sombreadas, a adoção de materiais mais refletivos em edifícios e pavimentos e a incorporação do risco de calor ao planejamento urbano.
Porém, não parece ser suficiente. Especialistas apontam que a transformação estrutural das cidades avança em ritmo lento, uma vez que grande parte da infraestrutura urbana foi concebida para enfrentar invernos rigorosos, e não verões cada vez mais quentes como o deste ano.
— Muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e em planos de ação após 2003. Essas medidas salvaram muitas vidas, mas não são suficientes — afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha, ao jornal britânico Guardian. — Precisamos de mais investimentos em casas, cidades e infraestrutura resistentes ao calor.
Envelhecimento rápido
O arquiteto e urbanista Luiz Florence, do Grupo de Trabalho Clima e Cidade do Instituto de Arquitetos do Brasil-SP, explica que a própria formação histórica das cidades europeias impõe desafios. Antigos núcleos medievais, marcados por ruas estreitas e edificações muito próximas, favorecem áreas de sombra, mas dificultam a circulação natural do ar.
— Quando essas cidades foram criadas, o convívio muito próximo com a natureza poderia oferecer uma exposição a vetores de doenças sanitárias. Então as cidades eram uma negação da natureza — disse ao GLOBO. — Hoje, com técnicas mais avançadas e políticas de saúde pública, é possível trazer a natureza de volta.
Em meio a esse cenário, a população europeia envelhece a passos largos. Combinados, os quadros põem em evidência um dos principais desafios associados ao calor extremo, que é a proteção de grupos mais vulneráveis, especialmente os idosos.
Hoje, pessoas com 65 anos ou mais representam cerca de 21,6% da população da União Europeia, segundo o Eurostat. Com o envelhecimento, o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e responder ao estresse térmico. Idosos também apresentam maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas, que podem ser agravadas por temperaturas elevadas.
