sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Diretora da COP do Brasil acusa Estados Unidos de frear políticas climáticas de outros países

 

COP30 - Ana Toni, Diretora Executiva da COP30 — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Ana Toni afirma que o uso de tarifas e pressões comerciais pelos EUA trava metas de descarbonização em outros países

Com sua estratégia comercial, os Estados Unidos “influenciaram muito negativamente” as políticas climáticas de outros países, afirma Ana Toni, que foi diretora-executiva da COP30 no Brasil e promove para o encontro deste ano um “mapa de caminho” sobre o abandono dos combustíveis fósseis.

Em conversa com a AFP a poucas semanas da cúpula do clima organizada pela ONU em Antália (9 a 20 de novembro), Ana Toni criticou a “falta de solidariedade” das nações mais ricas com os países em desenvolvimento, que cobram recursos econômicos para se adaptar à mudança climática.

E criticou os Estados Unidos, que por decisão de seu presidente Donald Trump se retiraram em 2025 do Acordo de Paris, e com sua política tarifárias e pressões vêm condicionando, segundo ela, o cumprimento da agenda climática de outros países.

— Direta e indiretamente, os Estados Unidos influenciaram muito negativamente a capacidade de outros países de avançar na sua implementação [de medidas para combater o aquecimento global] — disse Ana Toni, diretora executiva da COP30 realizada no ano passado em Belém.

Nessa engrenagem influi a rivalidade entre Estados Unidos e China, explicou a brasileira.

Os países “são mais reticentes na hora de importar produtos chineses de baixo carbono, por medo de represálias dos Estados Unidos” ou porque “os Estados Unidos pressionaram esses países para que comprem produtos com maior pegada de carbono” e de fabricação norte-americana.

— Isso logicamente atrasa a capacidade desses países de aplicar metas mais ambiciosas de descarbonização — estimou.

Transição voluntária

Ana Toni destacou que a crise no estreito de Ormuz, que se traduziu em escassez de combustível na Ásia e altas generalizadas nos preços da energia, demonstra que a dependência do petróleo pode ser “muito prejudicial para o equilíbrio geral” do mundo.

— É a prova de que fazer a transição para além dos combustíveis fósseis não é apenas para combater a mudança climática, mas também uma questão de soberania, e serve igualmente para resolver um problema econômico e garantir segurança energética — explicou à AFP.

Após um acordo histórico em 2023 em Dubai no qual se anunciou o “princípio do fim” dos combustíveis fósseis, a questão ficou fora do encontro de Belém dois anos mais tarde, por pressão dos países produtores.

A presidência brasileira não desanimou e se comprometeu a promover um “mapa de caminho” global de saída progressiva e voluntária do petróleo, do carvão e do gás.

Toni teve um papel-chave nesse documento que será apresentado no início de novembro, dias antes da reunião em Antália, onde a Austrália, grande exportadora de carvão, ficará encarregada de pilotar as negociações.

A responsável detalhou que esse documento não fará recomendações país por país, nem proporá metas quantificadas ou cronogramas, mas as formulará de maneira geral, segundo o nível de dependência de cada nação em relação aos combustíveis fósseis.

— Todos os países podem avançar para diminuir sua exposição [ao petróleo, ao gás e ao carvão] e caminhar por essa transição, mesmo que partam de lugares muito diferentes — apontou.

Consenso sobre a eletrificação

Toni considerou “positiva” a iniciativa turca de promover voluntariamente a eletrificação de diversos setores econômicos (transporte, construção, indústria) para reduzir emissões.

Algumas organizações socioambientais alertam que o incremento proposto pela Turquia — 35% de eletricidade no consumo energético global daqui até 2035 — deve vir de fontes renováveis.

A responsável brasileira respondeu que a eletrificação de combustíveis fósseis “melhora a eficiência do uso desse combustível”, e asseverou que há um “consenso de que a eletrificação, por si só, já é importante”.

Em contrapartida, lamentou que os países mais ricos não estejam dispostos a aumentar suas contribuições financeiras, apesar do choque causado pelo colapso fatal de uma geleira no Nepal, que os climatologistas vinculam ao aquecimento global.

— A gente se pergunta o que mais precisa acontecer para que essas imagens vistas no Nepal sensibilizem a população dos países ricos — disse.

O Brasil decidirá em 25 de outubro no segundo turno entre o presidente esquerdista cessante, Luiz Inácio Lula da Silva, e o direitista Flávio Bolsonaro, o mais votado no primeiro turno.

Em caso de mudança, Toni pede para não retornar à política de Jair Bolsonaro de desmatamento massivo e para manter a tendência do último ano, no qual a Amazônia brasileira registrou o menor nível de desmatamento da última década.

Segundo ela, essa política não foi apenas boa para o meio ambiente, mas também “fundamental para as relações comerciais e diplomáticas do Brasil”.

— O próprio agronegócio brasileiro deveria lutar para que isso se mantenha — arrematou.

Fonte: O Globo





ONU alerta para ‘janela cada vez menor’ para recuperar florestas no mundo

Flagra de garimpo ilegal na zona de amortecimento do Parque Nacional do Rio Novo, Pará; área está próxima a uma das localizações com PLG analisada pelo relatório — Foto: Laís Modelli / Greenpeace

Relatório da FAO aponta que 489 milhões de hectares de florestas foram desmatados desde 1990 e que apenas um quinto das áreas previstas para restauração está, de fato, sendo recuperado.

Há uma janela de oportunidade cada vez menor para recuperar as florestas do planeta — e o mundo ainda está longe de cumprir os compromissos assumidos para isso. O alerta está no relatório State of the World’s Forests, divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que defende que a restauração de florestas e paisagens degradadas seja tratada pelos governos como uma prioridade nacional.

Desde 1990, mais de 489 milhões de hectares de florestas foram desmatados em todo o mundo. Uma área ainda maior sofreu algum grau de degradação. Nas últimas duas décadas, iniciativas nacionais, regionais e globais estabeleceram a meta de colocar mais de 1 bilhão de hectares sob processos de restauração. Segundo a FAO, porém, apenas cerca de um quinto dessa área está efetivamente sendo recuperado.

O relatório reconhece avanços na proteção de florestas e no plantio de árvores em diferentes partes do mundo, mas considera que o ritmo das ações não acompanha os compromissos assumidos nem a dimensão crescente das necessidades. Para a organização, a combinação entre perda de cobertura florestal e degradação dos ecossistemas aumenta os riscos ambientais, sociais e econômicos.

As florestas ocupam cerca de 4,14 bilhões de hectares, aproximadamente um terço da superfície terrestre. Elas armazenam cerca de 714 gigatoneladas de carbono e abrigam até 80% da biodiversidade terrestre do planeta. Também participam da regulação das chuvas e têm papel na segurança alimentar e na geração de renda: quase um terço da população mundial depende das florestas para sua subsistência.

A pressão sobre esses ecossistemas, no entanto, vem de diferentes frentes. Todos os anos, cerca de 127 milhões de hectares de florestas são afetados por incêndios. Insetos, doenças e eventos climáticos extremos também provocam danos, que se somam à expansão da agricultura, à crise climática, à poluição e à exploração de combustíveis fósseis e outros recursos naturais.

A degradação também cria um problema econômico. Segundo o relatório, a recuperação de 1 bilhão de hectares de florestas e outros ecossistemas degradados poderia gerar cerca de US$ 1,8 trilhão em benefícios por ano. A restauração, portanto, é apresentada pela FAO não apenas como uma estratégia ambiental, mas como uma forma de fortalecer sistemas de produção de alimentos e o desenvolvimento de comunidades rurais.

“É mais do que uma prioridade ambiental — é um investimento estratégico em sistemas agroalimentares resilientes e no desenvolvimento rural”, afirmou Qu Dongyu, diretor-geral da FAO.

Para a organização, o atraso nas iniciativas de recuperação tende a elevar os custos no longo prazo e pode aprofundar desigualdades. O risco é que áreas já degradadas sejam mantidas em trajetórias consideradas insustentáveis, enquanto a demanda mundial por produtos e serviços ligados ao uso da terra continua crescendo.

O diagnóstico da ONU chega em um momento em que a restauração florestal ganhou espaço entre as estratégias de enfrentamento da crise climática. Plantar árvores, porém, não é suficiente para reverter a degradação, segundo o próprio relatório: o desafio envolve recuperar paisagens inteiras e garantir condições para que os ecossistemas permaneçam funcionais no longo prazo.

Fonte: O Globo



terça-feira, 6 de outubro de 2026

Europa Ocidental teve verão mais quente da história, com calor extremo, seca e incêndios

Uma mulher com um leque perto da Torre Eiffel durante onda de calor em Paris, em 20 de junho de 2026. — Foto: REUTERS/Sarah Meyssonnier

Segundo o observatório europeu Copernicus, 52% do continente enfrentou níveis muito fortes de estresse térmico. Rios tiveram os menores fluxos de água em mais de 30 anos.

Por Roberto Peixoto, g1

A Europa Ocidental registrou em 2026 o verão mais quente de sua história, em uma temporada marcada por ondas de calor persistentes, seca, incêndios florestais e níveis excepcionalmente baixos nos principais rios do continente, mostram dados do observatório europeu Copernicus.

Considerando toda a Europa, este foi o terceiro verão mais quente já registrado.

As altas temperaturas começaram mais cedo que o normal em algumas áreas, com uma grande onda de calor atingindo o oeste europeu ainda no fim de maio, e permaneceram ao longo dos meses seguintes.

Na Europa Ocidental, a temperatura média entre junho e agosto chegou a 21,7°C, 2,5°C acima da média de 1991 a 2020. O resultado superou o recorde anterior, registrado em 2003.

O calor também se espalhou por uma área maior e persistiu por mais tempo. Ao longo de 2026, foram registrados 17 dias em que pelo menos 60% da Europa Ocidental teve temperaturas acima de 30°C. Em 2003, haviam sido 11 dias, e, em 2025, sete.

Além das temperaturas do ar, o levantamento mostra que o calor provocou forte impacto sobre o corpo humano.

Até o fim do verão, 52% da Europa havia enfrentado pelo menos condições classificadas como "muito fortes" de estresse térmico, associadas a temperaturas percebidas de 38°C ou mais.

ENTENDA: O estresse térmico mede como condições de calor, umidade, vento e radiação afetam o corpo humano. Em níveis elevados, aumenta o risco de problemas como desidratação e insolação.

Entenda o que é o fenômeno El Niño

Na Europa Ocidental, foram registrados em média 41 dias de estresse térmico forte, um recorde para a região e cinco dias a mais que em 2003.

Os episódios classificados como muito fortes chegaram a 13 dias, também o maior número já registrado.

"A Europa enfrentou um verão de extremos climáticos combinados em 2026", afirmou Samantha Burgess, líder de Estratégia Climática do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), responsável pelo serviço climático do Copernicus.

Segundo ela, o calor recorde ocorreu ao mesmo tempo que condições secas generalizadas, níveis excepcionalmente baixos nos rios e mares muito quentes, com consequências para a disponibilidade de água, produção de energia, transportes, ecossistemas e saúde humana.



Rios tiveram menor fluxo em mais de 30 anos

A seca prolongada também deixou marcas nos rios europeus. De acordo com o Copernicus, o continente teve em 2026 o verão com os menores fluxos de água desde o início da série histórica, em 1992.

Níveis recordes ou próximos de recordes de baixa foram observados simultaneamente em grandes rios, como Reno, Danúbio, Pó, Loire, Ródano e Sena, principalmente em julho e agosto.

A redução afetou o transporte de cargas e aumentou a pressão sobre sistemas de irrigação, geração hidrelétrica, abastecimento de água e resfriamento de reatores nucleares.

As condições secas, combinadas às sucessivas ondas de calor, também favoreceram os incêndios florestais.

Até 2 de setembro, a área queimada na União Europeia era quase duas vezes maior que a média registrada entre 2006 e 2025 para o mesmo período, segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais. Espanha e França estiveram entre os países mais afetados.

Dados do Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus mostram ainda que as emissões provocadas pelos incêndios na Europa ficaram entre as dez maiores registradas desde 2003, expondo milhões de pessoas a níveis perigosos de poluição do ar.

Navios cargueiros navegam pelo rio Reno, com o nível da água baixo e a Catedral de Colônia ao fundo, na Alemanha, nesta segunda-feira (3). — Foto: Thilo Schmuelgen/Reuters

Mares europeus também tiveram calor excepcional

Aliado a tudo isso, o calor também atingiu os mares ao redor do continente. Durante o verão, foram registradas temperaturas recordes ou próximas de recordes na superfície do oceano em grande parte da costa atlântica europeia e nas regiões oeste e central do Mar Mediterrâneo.

Essas águas excepcionalmente quentes vieram acompanhadas de ondas de calor marinhas fortes a excepcionais, períodos prolongados em que a temperatura do oceano permanece muito acima do normal.

ENTENDA: Ondas de calor marinhas são períodos persistentes de temperaturas anormalmente elevadas no oceano. Além de afetarem os ecossistemas marinhos, elas podem aumentar o calor nas regiões costeiras.

Segundo o Copernicus, mares mais quentes dificultam o resfriamento durante a noite e aumentam a umidade do ar perto da costa, o que pode agravar o estresse térmico enfrentado pela população.

Para Burgess, a combinação observada neste verão mostra como diferentes extremos podem ocorrer ao mesmo tempo e ampliar seus impactos.

"À medida que o clima continua aquecendo, eventos como esses reforçam a importância de aumentar a resiliência diante de riscos climáticos cada vez mais interligados", afirmou.

Fonte: G1




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

EUA registram verão mais quente em 132 anos

 

Verão meteorológico, definido entre os meses de junho e agosto, atingiu temperatura média de 23,6°C no território continental do país.

Resumo
  • Verão mais quente da história: segundo a NOAA, o verão de 2026 (junho-agosto) nos EUA continentais registrou temperatura média de 23,6°C, superando os recordes de 1936 (Dust Bowl) e 2021 em 0,2°C - o mais quente em 132 anos de medições.
  • Tendência de aquecimento acelerado: com o recorde de 2026, quatro dos cinco verões mais quentes já registrados ocorreram nos últimos cinco anos, incluindo 2022 e 2024. Agosto também foi o mais quente desde 1895, com média de 24,2°C e máximas diárias de 31,4°C.
  • El Niño amplia riscos para setembro: calor extremo, seca e ventos fortes já alimentaram incêndios florestais catastróficos. Com o El Niño caminhando para se tornar muito forte, a NOAA prevê temperaturas acima da média em setembro e risco elevado de incêndios no Noroeste e no Vale do Mississipi.

O país do (pseudo) negacionista climático Donald Trump “torrou” nos últimos meses. Segundo a Administração Atmosférica e Oceânica Nacional (NOAA, sigla em inglês), os Estados Unidos continentais (os 48 estados contíguos e o Alasca, excluindo o Havaí) tiveram em 2026 o verão mais quente desde o início dos registros de temperatura, há 132 anos.

O verão meteorológico, definido entre os meses de junho e agosto, atingiu uma temperatura média de 23,6°C neste ano. A CNN destaca que esse número supera em 0,2°C os registros prévios dos verões de 1936, na época do Dust Bowl – período de grave crise ambiental, agrícola e econômica que atingiu as Grandes Planícies dos EUA e do Canadá durante a década de 1930 – e de 2021, de acordo com a NOAA.

Com o recorde de 2026, quatro dos verões mais quentes já registrados ocorreram nos últimos cinco anos, com 2022 e 2024 em 4º e 5º lugares, respectivamente, detalha a Folha. O que reflete a influência das mudanças climáticas, cuja causa principal é a queima de combustíveis fósseis.

O ano também registrou o mês de agosto mais quente nos EUA desde o início das medições, em 1895, com temperaturas médias de 24,2°C. As temperaturas máximas diurnas médias foram de 31,4°C em todo o território continental, também a mais quente já registrada.

A maior parte dos EUA registrou temperaturas acima da média ou muito acima da média no mês passado. Condições próximas ao normal só foram observadas em áreas das planícies do norte e do meio-oeste, segundo a NOAA. O calor extremo, somado ao tempo seco e a fortes ventos, facilitou a proliferação de incêndios florestais, levando a cenários catastróficos em algumas regiões.

E com o El Niño a um milímetro de se tornar muito forte (saiba mais aqui), a agência prevê que as temperaturas de setembro também deverão ficar acima da média em grande parte dos EUA continentais. A seca deverá persistir neste mês em áreas significativas do território estadunidense, como o noroeste e o Vale do Mississipi, com potencial significativo de incêndios florestais acima da média.

Washington Post, USA Today, CBS, Phys e Al Jazeera também noticiaram o recorde de temperatura nos EUA.

Fonte: ClimaInfo


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Secas já deixam cerca de 1.700 municípios brasileiros sob alto risco de falta de água

Vista aérea da represa Jaguari-Jacareí durante seca de 2025. Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

Crise climática adiciona novos extremos a regiões que historicamente convivem com o problema, mostra levantamento do Observatório do Clima sobre índices da plataforma AdaptaBrasil

Por Aldem Bourscheit

Dos 5.569 municípios brasileiros, 1.699 estão sob risco alto ou muito alto de sofrer com a falta de água em razão de períodos de seca. O número equivale a 30,5% dos municípios do país, sujeitos a consequências mais graves em um mundo mais quente, marcado pela intensificação dos eventos extremos, entre eles as estiagens severas. A análise foi realizada pelo Observatório do Clima com base em dados do AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

O problema se concentra no Nordeste. Todos os 15 municípios classificados com risco muito alto ficam na região e, em oito dos nove estados nordestinos, há ao menos uma cidade nessa faixa. Os demais municípios com risco alto estão espalhados pelas cinco regiões do país.

Fora do Nordeste, os índices recuam, mas o problema continua. Brasília (DF), Governador Valadares (MG), Capanema (PA) e Pelotas (RS), por exemplo, estão na faixa de risco alto.

“A gente não vai viver os próximos 30 anos como a gente viveu nos últimos 30 anos”, Jean Ometto

O AdaptaBrasil avalia o risco de impacto das mudanças climáticas no balanço hídrico a partir da combinação de três fatores: ameaça, exposição e vulnerabilidade do município.

Conforme Jean Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador científico do AdaptaBrasil, a ameaça mede quanto fatores como mudanças na chuva e na temperatura podem reduzir a água disponível. “A grosso modo, o que a gente chama de ameaça de escassez são os aspectos físicos do sistema”, disse.

A exposição mostra quem e o que pode ser atingido pela falta d’água, das pessoas às atividades econômicas que dependem do recurso, como irrigação e pecuária. Já a vulnerabilidade mostra quanto o município pode sofrer e que condições ele tem para reagir à escassez. Entram nessa conta itens como gestão da água, reservatórios e alternativas de abastecimento. “É quanto o município atuou ou atua para reduzir o risco de faltar água”, detalhou Ometto.

Juazeiro e Recife são os municípios com maior risco de falta d’água no país. O primeiro fica no semiárido do norte da Bahia, às margens do São Francisco. O outro é a capital pernambucana, na Mata Atlântica litorânea.

Quando avaliados os três fatores que compõem o risco, tem-se que Juazeiro e Recife têm ameaça média, vulnerabilidade alta e exposição máxima. Assim, municípios tão diferentes chegam ao mesmo patamar por razões que vão bem além de chover pouco.

Mapa de risco de impacto do estresse hídrico no Brasil. Fonte: AdaptaBrasil/MCTI

A forma como cada município lida com tais fatores — e o grau de risco que recebe — também fica explícita no caso de Guaribas, no sudoeste do Piauí. No território, historicamente sujeito a estiagens, ameaça e vulnerabilidade são médias, mas a exposição é muito baixa. Com isso, o risco final cai para muito baixo. “Isso quer dizer que não vai ter seca? Não!”, afirmou Ometto.

Na Amazônia, a combinação muda outra vez. Pelos dados da plataforma, Manaus tem o maior risco no estado do Amazonas, mas fica apenas na faixa média. Sua exposição é máxima, mas os níveis menores de ameaça e vulnerabilidade puxam o resultado para baixo.

Isso não significa que a água seja sempre abundante na região. Ometto citou áreas onde poços secam na época menos chuvosa e comunidades precisam recorrer a cisternas. “Você pode estar numa região […] abundante de água e ter problema de distribuição”, resumiu.

A crise do clima entra na conta do risco ao alterar chuvas, intensificar secas e interferir na disponibilidade de água no país, adicionando novos extremos a regiões que já convivem com problemas antigos.

Para Diosmar Santana Filho, geógrafo e pesquisador da Associação de Pesquisa Iyaleta, de Salvador (BA), a escassez merece atenção especial. “Secas e longas estiagens são o maior evento climático do Brasil”, avaliou, citando a frequência de emergências e calamidades ligadas à falta d’água, sobretudo no semiárido nordestino.

No outro extremo estão municípios que agora têm de lidar com fortes chuvas e inundações, como é o caso de pequenos municípios nordestinos.

Dos índices à ação

Ometto pontuou que o AdaptaBrasil não foi criado como um sistema de alerta, mas para ser uma referência nacional para antecipar riscos e orientar decisões climáticas. Ou seja, os dados ganham ainda maior utilidade se entrarem no planejamento político.

“Essa escala de risco é uma escala de orientação”, afirmou. O passo seguinte é abrir os dados de cada município, entender o que empurra seu índice para cima e identificar onde o poder público pode agir.

Isso pode significar melhorar a gestão da água, buscar novas fontes, ampliar cisternas e reservatórios ou estudar alternativas subterrâneas. “O que ele não vai conseguir mexer é no ‘botãozinho do clima’”, resumiu Ometto. “Mas nas ações no município ele consegue”.

Conhecer os riscos também pode ajudar uma prefeitura a buscar recursos. Segundo Ometto, municípios que conseguem mostrar onde estão mais vulneráveis têm melhores condições de justificar investimentos em adaptação.

Mas nem todos conseguem bancá-los. Outro levantamento do OC encontrou 1.594 municípios com risco médio a muito alto de deslizamentos e/ou enxurradas e baixa capacidade fiscal. São cidades que precisam investir em adaptação, mas têm mais dificuldade para conseguir crédito e financiar obras.

Para Santana Filho, fortalecer quem executa as políticas “na ponta” é essencial. “Investir hoje em pesquisa, capacitação e aumentar as capacidades de gestão pública local […] é um primeiro ponto”, afirmou.

Ometto vai na mesma direção. Para ele, a mudança do padrão climático precisa entrar na gestão cotidiana de estados e municípios. A lógica que por décadas orientou a agricultura, o uso dos mananciais e a relação com os recursos naturais já não serve para o clima atual nem para o futuro.

“A gente não vai viver os próximos 30 anos como a gente viveu nos últimos 30 anos”, ressaltou o cientista.

Os dados municipais analisados pelo OC têm 2020 como ano de referência, mas o AdaptaBrasil vem sendo atualizado com novas bases e modelagens, incluindo informações de órgãos federais como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e projeções climáticas usadas pelo IPCC, sigla em inglês do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima.

Fonte: Observatório do Clima 





domingo, 13 de setembro de 2026

Niterói proíbe publicidade de bets em espaços públicos e publicidade exterior na cidade

 


A Prefeitura de Niterói proibiu a publicidade de plataformas de apostas esportivas e jogos de quota fixa, as chamadas bets, em espaços públicos e na publicidade exterior em todo o município. A medida foi oficializada pelo prefeito Rodrigo Neves por meio de decreto publicado nesta quarta-feira (9) e estabelece prazo máximo de dez dias para a retirada de anúncios que estejam em desacordo com as novas regras.

“A expansão das apostas on-line é uma realidade que exige responsabilidade do poder público. Não podemos naturalizar uma publicidade que chega diariamente às nossas crianças e aos nossos jovens e que pode estimular comportamentos capazes de gerar dependência, endividamento e sofrimento para muitas famílias. Niterói está usando os instrumentos que o município tem para proteger a população e, principalmente, nossas crianças e adolescentes”, afirma o prefeito Rodrigo Neves.

A proibição alcança diferentes formas de divulgação das empresas de apostas, incluindo marcas, nomes empresariais, plataformas digitais, sites, aplicativos, promoções, campanhas, bônus e premiações. Também ficam vedados logomarcas, símbolos, mascotes, slogans e outros elementos que permitam identificar direta ou indiretamente as empresas ou plataformas de apostas.

A decisão tem como um dos principais objetivos reduzir a exposição da população, especialmente de crianças e adolescentes, à publicidade de jogos de apostas. O decreto considera os riscos associados ao jogo compulsivo e seus impactos sobre a saúde mental e o bem-estar social, além da necessidade de garantir proteção integral ao público infantojuvenil.

A medida é restrita às competências municipais sobre publicidade exterior e utilização dos espaços públicos. O decreto não interfere na autorização ou no funcionamento das empresas de apostas, atividade regulamentada pela União.

A fiscalização ficará a cargo da Secretaria de Ordem Pública (Seop), em articulação com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Mobilidade (SMU). Em caso de descumprimento, empresas anunciantes e responsáveis pela exibição da publicidade poderão sofrer as sanções previstas no Código de Posturas do Município, além da cassação ou anulação da autorização e da determinação de retirada imediata da peça publicitária irregular.

Os anúncios que já estão instalados terão prazo máximo e improrrogável de dez dias, contado a partir da publicação do decreto, para serem retirados ou adequados. Durante esse período, fica suspensa a aplicação das multas previstas para a infração.

A proibição também vale para campanhas publicitárias e eventos contratados, patrocinados ou realizados pela administração municipal, inclusive quando a propaganda de bets estiver visível a partir da área externa do evento. Órgãos e entidades da Prefeitura também deverão observar as novas regras em contratos, concessões, permissões, autorizações e licenças que envolvam exploração publicitária em bens e espaços públicos.

Fonte: Prefeitura de Niterói


Marquês do Paraná ultrapassa 8 mil ciclistas em um único dia e estabelece novo recorde

 

A ciclovia da Avenida Marquês do Paraná alcançou uma nova marca de circulação de ciclistas em Niterói. Na última semana, 8.213 bicicletas passaram pela via em um único dia, o maior número já registrado no local. A contagem supera o recorde anterior, alcançado em maio deste ano, quando foram contabilizadas 7.965 passagens e é 28% superior ao registrado no início de 2025.

Localizada em um dos principais eixos de ligação entre o Centro e a Zona Sul, a ciclovia tem o fluxo acompanhado pelo Contabike, sistema de monitoramento da Eco-Counter Brasil. A nova marca representa 248 passagens a mais em relação ao recorde de maio, um crescimento de 3,1%. A Marquês do Paraná é a ciclovia mais movimentada do Brasil, segundo dados da Eco-Counter.

Além da Marquês do Paraná, Niterói conta com outros oito pontos de contagem de ciclistas: Avenida Roberto Silveira, Avenida Amaral Peixoto, Avenida Quintino Bocaiúva, Rotatória de Camboinhas, Avenida Irene Lopes Sodré, Parque Orla de Piratininga e Túnel Charitas-Cafubá, nos dois sentidos. Os equipamentos permitem acompanhar o fluxo de bicicletas em diferentes regiões da cidade e ajudam a monitorar o uso da infraestrutura cicloviária.

“Esse é um dado que ajuda a dimensionar o papel que a bicicleta já ocupa na mobilidade de Niterói e mostra que ela não é apenas uma opção de lazer, mas faz parte dos trajetos cotidianos de milhares de pessoas. Ultrapassar a marca de 8 mil ciclistas em um único dia em uma ciclovia mostra a dimensão que esse meio de transporte alcançou na cidade”, afirma Filipe Simões, coordenador do Niterói de Bicicleta.

Fonte: Prefeitura de Niterói 



quarta-feira, 19 de agosto de 2026

IBGE divulga a 4º edição da série Áreas Urbanizadas do Brasil


Nota: Para favorecimento da visualização na escala de representação apresentada, as subcategorias Áreas Urbanizadas, Outros Equipamentos Urbanos e Vazios Intraurbanos estão agregadas na legenda como Feições Urbanizadas, e os contornos dos polígonos estão realçados com maior espessura. A base de dados geoespacial com tal desagregação pode ser acessada no Portal do IBGE na Internet.

Publicação faz referência ao ano de 2022.

O IBGE disponibilizou ao público, nesta terça-feira (18), a quarta edição da série Áreas Urbanizadas do Brasil, com ano de referência de 2022. A publicação apresenta a representação espacial do fenômeno urbano no País, fundamentada nas relações do espaço vivido que caracterizam as interações de vizinhança e o modo de vida urbano, evidenciadas pela presença de edificações, pela circulação de pessoas, pela rede viária e pela distribuição e proximidade entre residências, entre outros aspectos.
O processo de urbanização, marcado por sua complexidade e dinamismo, está entre os principais responsáveis pelas transformações socioespaciais observadas no território brasileiro. Nesse contexto, o mapeamento foi elaborado a partir da interpretação visual de imagens de satélite, cuja metodologia permite identificar e analisar processos de expansão, estabilidade, densificação e retração das morfologias urbanas em todo o País.

As Feições Urbanizadas se referem à agregação das subcategorias Áreas Urbanizadas, Vazios Intraurbanos e Outros Equipamentos Urbanos.

Entre os principais destaques estão as morfologias urbanas que ocupavam, em 2022, 50 981,91 km² do País, o equivalente a 0,60% da sua área territorial. Das Unidades da Federação, cinco concentraram 50,35% do total de Feições Urbanizadas: São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Bahia. Por outro lado, 13 Unidades da Federação tiveram participação inferior a 2% das Feições Urbanizadas no total do País.

O Nordeste apresentou maior incremento de área absoluta (1 961,44 km²) e de área relativa no período (16,52%) de Feições Urbanizadas e Loteamentos Vazios em relação as demais Grandes Regiões entre 2019 e 2022.

O monitoramento das Áreas Urbanizadas do Brasil é fundamental para compreender a ocupação do território e as dinâmicas da sociedade brasileira. A atualização periódica deste levantamento permite acompanhar a expansão das cidades e as transformações da paisagem, além de subsidiar o planejamento territorial, a implementação de políticas públicas e análises relacionadas à mobilidade urbana, habitação, meio ambiente e sustentabilidade.


Distribuição Geral das Feições Urbanizadas e Loteamentos Vazios

A distribuição geral destaca a concentração do fenômeno urbano no seu litoral: os 443 Municípios Costeiros, ocupam apenas 5,02% do território brasileiro, mas reuniram 9 941,50 km² de Feições Urbanizadas, equivalentes a 19,50% do total do País. Enquanto os 772 Municípios da Amazônia Legal representam 59,11% da área do território nacional, estes apresentaram apenas 14,27% das Feições Urbanizadas do País em 2022.

Na maior parte das Unidades da Federação, a distribuição das Feições Urbanizadas situou-se entre 65% e 80% de áreas Densas, frente a 20% a 35% de áreas Pouco Densas. As exceções foram o Distrito Federal e os Estados do Rio de Janeiro e de Rondônia, onde as áreas Densas se aproximaram de 85%, assim como os Estados do Acre e de Roraima, nos quais as áreas Pouco Densas ultrapassaram 40% do total.


O Sudeste destacou-se acentuadamente pela predominância de Feições Urbanizadas Densas em relação as demais Grandes Regiões, tanto absoluta com 14 529,63 km², quanto relativa, com 38,13% de todas as áreas Densas do País.

O Nordeste teve a maior extensão de Feições Urbanizadas Pouco Densas em relação as demais Grandes Regiões com 3 936,79 km² (30,56% do total nacional).

São Paulo foi a Unidade da Federação com a maior extensão de Feições identificadas no ano de 2022, com 9 622,68 km², incluindo áreas Densas e Pouco Densas (9 343,66 km², o equivalente a 18,33% do total brasileiro), bem como Loteamentos Vazios (279,0 km²). Por outro lado, o Amapá foi a Unidade da Federação com a menor extensão de morfologias urbanas, somando 184,64 km² de Feições Urbanizadas, apenas 0,36% do total do País e 70,03 km² de Loteamentos Vazios.

O Nordeste representou 30,22% da expansão horizontal de Feições Urbanizadas do País (1 448,18 km²), seguido pelo Sudeste com 27,77% (1 330,54 km²) e Sul, com 25,86% (1 239,17 km²) no período entre 2019-2022.

Em relação ao acréscimo de Loteamentos Vazios, observou-se 44,08% do total no Nordeste, 23,7% no Sudeste, 13,83% no Centro-Oeste, 9,69% no Norte e 8,70% no Sul do país.

Mudanças nas características urbanas entre 2019 e 2022

As Áreas Urbanizadas são identificadas principalmente pela presença de moradias e a proximidade entre elas. Podem conter escolas, igrejas, cemitérios, estabelecimentos comerciais, de serviços, indústrias, dentre outros, em seu meio. Em 2022, a Grande Região com maior extensão de Áreas Urbanizadas foi a Sudeste, com 17 454,11 km², seguida da Nordeste com 12 031,46 km². Porém, essa ordem se inverteu quando se analisa a expansão horizontal detectada entre os mapeamentos de 2019 e 2022, de modo que o Nordeste lidera a expansão com 1 362,26 km² e no Sudeste sobressaem 1 190,22 km².

Treze Unidades da Federação apresentaram menos de 1 000 km² de Áreas Urbanizadas: os Estados do Norte, a exceção do Pará, os Estados de pequena extensão territorial do Nordeste (Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe), duas Unidades da Federação do Centro-Oeste (Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal) e, no Sudeste, apenas o Espírito Santo. Essas mesmas Unidades da Federação, acrescidas do Mato Grosso e do Rio de Janeiro também tiveram a expansão horizontal entre 2019 e 2022 inferior ao valor de 100 km².

Outros Equipamentos Urbanos englobam estabelecimentos não residenciais no entorno ou com distâncias inferiores a 3 km de manchas urbanizadas, como universidades, aeroportos, portos, shopping centers, estruturas industriais, estações de energia, dentre outros. No âmbito estadual, São Paulo apresentou a maior extensão de Outros Equipamentos Urbanos em 2022, alcançando 326,30 km², e a segunda maior expansão da subcategoria no País, com aumento de 51,86 km². Minas Gerais apareceu em seguida, com 217,81 km², e liderou o crescimento no período, com expansão de 62,24 km². O Paraná ocupou a terceira posição em área total no ano mais recente, com 159,92 km², enquanto Mato Grosso apresentou a terceira maior expansão entre 2019 e 2022, com incremento de 23,28 km².

Em contraponto, 17 Unidades da Federação - Estados do Norte e Nordeste (exceto Pernambuco e Bahia), Espírito Santo, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul - apresentaram extensão de Outros Equipamentos Urbanos menor que 50 km² e, somadas ao Rio de Janeiro, tiveram expansão horizontal dessa subcategoria inferior a 10 km².

Os Vazios Intraurbanos podem indicar diferentes áreas não ocupadas por construções (desde que com área entre 0,25 km² e 2,5 km²) que estão circunscritas às Áreas Urbanizadas, como por exemplo áreas verdes, parques, corpos d’água, áreas não ocupadas por condicionamento de relevo, áreas de preservação determinadas por lei, dentre outros. Rio Grande do Sul, São Paulo e Santa Catarina apresentaram incrementos significativos nessa classe, somando expansões horizontais respectivas de 15,65 km², 10,52 km² e 12,73 km².

Capitais se destacam dentre as maiores extensões absolutas

Entre os 20 Municípios com maiores extensões absolutas de Feições Urbanizadas em 2022, 15 são capitais, além de três cidades do Estado de São Paulo (Campinas, Guarulhos e Ribeirão Preto) e dois relevantes centros regionais: Feira de Santana (BA) e Uberlândia (MG).

Ocorreram mudanças de posição neste mesmo ranking em relação à 2019: Brasília (DF) passou a ter maior extensão absoluta de feições urbanizadas em relação ao Rio de Janeiro (RJ), São Luís (MA) e Teresina (PI) também ganharam posições em relação à Salvador (BA) e Uberlândia (MG), assim como Belém (PA) e Feira de Santana (BA) superaram Guarulhos (SP) e Ribeirão Preto (SP).

Municípios com maiores expansões de Feições Urbanizadas

No que se refere às 20 maiores expansões de Feições Urbanizadas Densas e Pouco Densas por Municípios, Brasília (DF) ocupou a primeira posição com expansão de 72,08 km² entre 2019 e 2022, mais que o dobro, em termos absolutos, do que o Município com o segundo maior crescimento, São Luís (MA) com 35,76 km².


Com este lançamento, a série de mapeamentos das Áreas Urbanizadas do Brasil consolida-se como instrumento fundamental para compreender a dinâmica de expansão e organização do território brasileiro, ao oferecer uma representação padronizada e comparável da urbanização em escala nacional. Os resultados revelam um padrão complexo, no qual coexistem áreas de crescimento acelerado – frequentemente associadas à expansão horizontal e à ocupação de novas frentes urbanas – e outras caracterizadas por menor dinamismo ou maior consolidação do tecido urbano.

A partir disto, verifica-se que as Áreas Urbanizadas do Brasil apresentam dinâmicas heterogêneas e que demandam respostas integradas para sua ampla compreensão, seja por meio do monitoramento geoespacial, que aqui se apresenta, seja por indicadores socioeconômicos e ambientais, no sentido de prover informações a políticas públicas de ordenamento territorial. Nesse sentido, o IBGE está comprometido com o avanço da integração de fontes não convencionais, como o sensoriamento remoto, para a produção de estatísticas oficiais de qualidade, para melhor subsidiar decisões baseadas em evidências.

Fonte: IBGE 


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Teresina, no Piauí, está entre as cidades com expansão da área urbana — Foto: Alexandro Dias/winkipédia

Embora o Sudeste concentre a maior extensão urbanizada, foi o Nordeste que teve maior expansão proporcional

Por Lívia Nani e Lucas Altino

O Brasil ganhou quase 6 mil quilômetros quadrados de área urbanizada em três anos, avanço de 12,27%, segundo o IBGE. A expansão equivale a cerca de 770 campos de futebol por dia. O Sudeste concentra a maior extensão urbanizada, mas foi o Nordeste que mais avançou proporcionalmente. Entre os municípios, Brasília liderou, com 72 km² incorporados à área urbanizada — mais que o dobro de São Luís, segunda colocada.

Os dados fazem parte do “Mapeamento das Áreas Urbanizadas do Brasil”, divulgado ontem pelo IBGE. Produzido por imagens de satélite, o levantamento identifica a expansão horizontal das cidades de 2019 a 2022, números mais recentes, e não a verticalização. O crescimento corresponde a áreas antes desocupadas que passaram a ter edificações, equipamentos urbanos ou outro tipo de ocupação, inclusive lotes vazios.

O IBGE considera “área urbanizada” o conjunto de formas e estruturas que materializam o fenômeno urbano nos territórios. Loteamentos vazios passaram a ser considerados um novo tipo de ocupação.

Para especialistas em planejamento urbano, porém, a expansão da área ocupada não significa, necessariamente, cidades mais urbanizadas. Arquiteto e urbanista e professor titular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Zeca Brandão lembra que o Brasil está entre os países mais urbanizados do mundo pela concentração da população nas cidades, mas o processo ocorreu rapidamente e sem o planejamento necessário.

— O Brasil já é um dos países mais urbanos do mundo, o que não quer dizer mais urbanizado — explica. — Urbanizado requer bom saneamento básico, bom sistema de mobilidade urbana, espaços públicos, não ter déficit habitacional e ter infraestrutura para a dimensão do território urbano. Isso não ocorre no Brasil.

Distribuição das feições urbanizadas no Brasil — Foto: Arte O Globo

Benny Schvarsberg, professor de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, também afirma que a expansão não é sinônimo de territórios mais urbanizados em planejamento e serviços. A migração, em parte das classes média e alta, para novos territórios pode gerar ocupação de baixa densidade e “ambientalmente insustentável”, com alto custo para expandir redes de infraestrutura viária, de drenagem, água, esgoto e energia, afirma.

— É preciso qualificar esse processo de expansão urbana e entender as lógicas desse modelo dispersivo de espalhamento territorial com as consequências que ela tem, do ponto de vista dos custos de infraestruturas — observa.

O especialista chama atenção para a migração de moradores de metrópoles para cidades pequenas e médias, fenômeno também observado em países como os Estados Unidos. A expansão dos chamados subúrbios, diz, pode fazer áreas perderem características rurais sem, necessariamente, ganhar condições urbana:

— Mais do que um crescimento da urbanização, seria um processo de crescimento da suburbanização no Brasil.

Schvarsberg aponta ainda o aumento dos perímetros urbanos nos planos diretores. Segundo ele, uma das possíveis razões seria elevar a arrecadação de IPTU, que gera mais dinheiro do que o ITR, imposto territorial rural.

— É uma tendência expressiva. Mais de 1.500 municípios realizaram planos diretores, e a maioria deles ampliou os seus perímetros urbanos.

O país tem 53.925 km² de “morfologia urbana”, 0,6% de seu território. Florestas, grandes parques, campos e rios não entram no cálculo. Do total, 70,6% são ocupações densas, com edificações próximas e poucos espaços livres; 23,9% são pouco densas, com moradias mais afastadas; e 5,4% correspondem a loteamentos vazios, áreas alteradas pela ação humana e delimitadas, ainda que sem construções, indicando intenção de ocupação.

Embora o Sudeste concentre a maior extensão urbanizada, foi o Nordeste que teve maior expansão proporcional: cresceu 1.961 km², ou 16,5%. No Sudeste, foram 1.606 km², aumento de 9,09%.

O IBGE não analisa as causas. Para Brandão, algumas hipóteses podem ser consideradas a partir do Censo 2022, que apontou reduções populacionais inéditas em grandes capitais nordestinas, como Fortaleza, Natal, Salvador e Recife. Uma possibilidade é que esse êxodo, em parte motivado por custo e qualidade de vida, tenha contribuído para o crescimento de cidades médias e pequenas, numa espécie de “interiorização da urbanização”, observa.

— A urbanização brasileira pode estar passando de um modelo centrado no crescimento das grandes metrópoles para um processo em que cidades médias, pequenas cidades, corredores urbanos e áreas periurbanas passam a ter um papel cada vez mais importante — diz.

Outra hipótese é a influência do turismo e da segunda residência em áreas litorâneas do Nordeste antes menos exploradas. Condomínios, loteamentos, hotéis, resorts e casas de veraneio podem estar ampliando a mancha urbana.

Brandão chama atenção para o período analisado. Entre 2019 e 2022, a pandemia produziu mudanças nos padrões de localização residencial, valorizou espaços mais amplos e estimulou a procura por cidades médias, condomínios horizontais e áreas de lazer.

Schvarsberg cita uma recente pesquisa de mestrado da UnB sobre a mudança na ocupação do Nordeste. O estudo identificou crescimento das chamadas “franjas urbanas” das principais capitais, com criação de loteamentos, como condomínios destinados às classes média e alta.

— É um crescimento que compromete reservas ambientais ou áreas antigas de produção agrícola, inclusive, com unidades imobiliárias urbanas, basicamente residenciais, especialmente de média e alta renda. Um mercado imobiliário de “amenidades verdes”. É muito comum serem chamados de condomínios sustentáveis, com anúncios para “viver na natureza” — explica.

Expansão no litoral

O mapeamento retrata um padrão de ocupação presente desde a colonização, com concentração do fenômeno nos municípios costeiros. As 443 cidades do litoral concentram 9.941,5 km² de feições urbanizadas, equivalentes a 19,5% do total do país, embora ocupem apenas 5% do território.

Na chamada faixa de fronteira, os 590 municípios ocupam 26,61% da área brasileira, mas concentram 4.223,81 km² de feições urbanizadas, ou 8,28% do total de 2022.

Entre as unidades federativas, o Distrito Federal teve a maior expansão proporcional, de 1,25%. Brasília também liderou entre os municípios, com acréscimo de 72 km², mais que o dobro dos 35 km² de São Luís, no Maranhão.

— O resultado é justificável pela sua extensão diminuta e pelo planejamento coordenado de urbanização (do Distrito Federal e de Brasília) — explicou Andressa Rosas de Menezes, técnica do IBGE.

Schvarsberg observa que o Distrito Federal tem 35 regiões administrativas, consideradas, na prática, cidades-satélites. Para ele, a expansão ocorreu com a criação de novos condomínios e lotes nas franjas desses territórios.

Fonte: O Globo


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Desastres climáticos causaram perdas de R$ 6,6 bilhões no Brasil neste ano e El Niño pode intensificar danos, diz relatório

Deslizamentos assolaram diversos bairros em Juiz de Fora, em fevereiro de 2026 — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

Levantamento da AON, empresa de seguros, mostra que os impactos financeiros foram de R$ 565 bilhões no mundo inteiro nesse primeiro semestre por causa de secas, enchentes e deslizamentos

Por Lucas Altino

No primeiro semestre de 2026, secas, deslizamentos e enchentes no Brasil causaram um prejuízo financeiro de R$ 6,6 bilhões, aponta um relatório da AON, empresa de seguros, que alerta para os riscos do El Niño ampliar esses danos. Os eventos brasileiros foram os mais impactantes no continente, ao lado de casos semelhantes na Colômbia e dos terremotos na Venezuela. No mundo, foram estimadas perdas de R$ 565 bilhões no primeiro semestre.

O Brasil foi destacado no relatório como um dos principais exemplos de impactos do El Niño, principalmente nas perdas agrícolas, eventos de clima extremos e no mercado de seguros. A AON cita um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que identificou 220 eventos em 16 estados brasileiros entre 2000 e 2021 associados ao El Niño, que, no Brasil, gera fortes chuvas no Sul e seca no Norte.

Há previsão de que um forte El Niño atue nos próximos meses. Nas últimas semanas, intensas ventanias registradas no Sul e Sudeste podem ter acontecido por influência do aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o que configura o El Niño e altera a circulação dos ventos e da atmosfera.

Principais desastres no ano

O Global Catastrophe Recap (retrospectiva global de catástrofes), nome do relatório da Aon, identificou quatro eventos extremos no Brasil no primeiro semestre: um de seca, um de tempestade, e dois de enchentes e deslizamentos. Esses episódios somaram 127 mortes e perdas econômicas estimadas em R$ 6,6 bilhões.

O caso mais grave aconteceu em Minas, em fevereiro, onde chuvas, enchentes e deslizamentos resultaram em 72 mortes em Juiz de Fora e Ubá.

O principal desastre climático da América Latina em 2026 foi a sequência de terremotos que atingiu a Venezuela em 24 de junho, com cerca de 5 mil mortes e perdas preliminares estimadas entre 20 bilhões e 30 bilhões de dólares. Foi o terremoto mais severo no continente desde o ocorrido no Chile em 2010.

Na Colômbia, os principais problemas foram inundações. Chile e Argentina sofreram com incêndios florestais, enquanto enquanto Peru e Equador registraram enchentes e deslizamentos de terra. Já o México foi afetado pela tempestade tropical Boris.

O relatório considerou que houve menos eventos que a média, porém com intensidade acima do normal, o que gerou "impacto humano e financeiro significativo".

Panorama global

Globalmente, as perdas econômicas provocadas por desastres climáticos totalizaram 111 bilhões de dólares, ou R$ 565 bilhões, no primeiro semestre de 2026, cerca de 25% abaixo da média do século. Ainda assim, o patamar é muito alto, reforça o relatório, com 23 eventos com perdas superiores a 1 bilhão de dólares.

Houve, por exemplo, a tempestade de vento mais impactante já registrada em Portugal e uma intensa temporada de tempestades marítimas nos Estados Unidos.

O relatório destaca que a frequência de eventos extremos e o crescimento das perdas seguradas reforçam a necessidade de ampliar a resiliência da infraestrutura, fortalecer estratégias de prevenção e aperfeiçoar a gestão integrada de riscos diante de um cenário climático cada vez mais volátil.

Fonte: O Globo