domingo, 31 de maio de 2026

Niterói é uma das poucas cidades a contar com uma política para evitar e controlar incêndios em vegetação

 

Agentes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros combatem foco de incêndio no Vital Brazil, em janeiro: este ano, antes mesmo do início do período de estiagem, autoridades já registraram cem chamados — Foto: Divulgação / Claudio Fernandes

Em 2012, fui eleito vice-prefeito de Niterói na chapa com o prefeito Rodrigo Neves. Fui designado por Rodrigo para coordenar a transição entre a gestão que saía e a nova gestão. Dentre as minhas muitas preocupações naquele momento, estavam fatos que pudessem nos surpreender no início da gestão: por exemplo, o risco de um desastre climático naquele primeiro verão. Isso seria muito relevante pelo risco em si, mas também por que Niterói ainda se recuperava do trauma da chamada "Tragédia do Morro do Bumba", ocorrida em 2010.

Iniciado o governo, a Defesa Civil ficou sob a minha responsabilidade, como parte das atribuições da Vice-Prefeitura. Iniciamos a gestão, em janeiro de 2013, tendo o Plano Chuvas de Verão como a primeira iniciativa. Tínhamos uma Defesa Civil precária e praticamente sem qualquer recurso tecnológico. O que prevíamos aconteceu: a cidade sofreu com chuvas intensas e estávamos relativamente bem preparados, apesar do pouco tempo de organização e a falta de estrutura. A cidade resistiu, mas longe ainda do estágio de preparação que queríamos. 

Passado o momento de sufoco daquele verão, dedicamos o restante do ano a nos preparar para o verão seguinte (2013-2014). Desenvolvemos o Plano de Contingência e treinamos equipes de diversos órgãos da Prefeitura para cada um ter o domínio do procedimento a tomar em caso de emergência climática. 

E o que aconteceu naquele verão? Nada de chuva! Enfrentamos uma longa estiagem e o período de maior ocorrência de incêndios em vegetação já registrado na cidade.

Superamos aquela situação e, como um engenheiro florestal que já havia lidado com problemas de queimadas antes, vi naquele momento a oportunidade de inovar a criar uma política de prevenção e enfrentamento às queimadas.

Lançamos o programa Niterói Contra Queimadas com a liderança da Defesa Civil, da Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade (SMARHS) e do Corpo de Bombeiros. Formamos o NUDEC Queimadas, que hoje já soma mais de 700 voluntários treinados.

Fizemos uma parceria com o Corpo de Bombeiros e criamos um sistema de pagamento aos bombeiros em momento de folga, para reforçar o enfrentamento às queimadas e ação preventiva nas comunidades em situação de normalidade.

Também criamos uma rotina de Rondas Preventivas com ação educativa nos locais de maior ocorrencia de focos de incêndio. Cartilhas são distribuídas alertando que causar incêndio em vegetação é crime,  queimar lixo também é contra a legislação e altamente prejudial à saúde humana e ao meio ambiente. Outro alerta importante é contra a inaceitável prática de soltura de balões, ato criminoso e altamente perigoso para as matas, para a infraestrutura urbana e industrial e para o patrimônio das famílias.

Essas medidas, poderão ser decisivas nos meses que virão, uma vez que espera-se uma longa estiagem devido ao super El Niño que está se formando. O risco de incêndios em vegetação aumentam muito nessas condições.

Os esforços de Niterói para combater queimadas rendeu um prêmio para a cidade.

Hoje, temos reconhecidamente uma das melhores, mais preparadas e mais bem equipadas defesas civis do Brasil. Ainda há muito por fazer, mas Niterói mostra o caminho do controle e prevenção às queimadas e zelo pelas nossas florestas e vidas nas encostas.

Axel Grael 


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Bombeiro combate incêndio no Vital Brazil, em Niterói, janeiro deste ano — Foto: Divulgação/Claudio Fernandes

Niterói reforça ações para enfrentar Super El Niño após registrar quase cem focos de incêndio em 2026

Defesa Civil amplia monitoramento e abre nova turma de voluntários; previsão aponta redução de chuvas e temperaturas acima da média nos próximos meses

Com a previsão de um “super El Niño” nos próximos meses e a expectativa de redução das chuvas no Sudeste, a Prefeitura de Niterói intensificou as ações de prevenção contra queimadas, um dos principais problemas ambientais enfrentados pela cidade durante o período mais seco do ano. Em 2026, de acordo com o Corpo de Bombeiros, o município já registrou quase cem focos de incêndio em vegetação, sendo 20 apenas neste mês de maio.

O alerta ocorre em meio a projeções climáticas que apontam para temperaturas acima da média e estiagem mais intensa entre maio e julho. Segundo análise do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), as condições associadas ao estabelecimento do El Niño devem favorecer a ocorrência de queimadas no Estado do Rio.

O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, preocupa autoridades em todo o país. Governos estaduais e o governo federal vêm adotando medidas preventivas diante da possibilidade de um “super El Niño”, que pode provocar temporais no Sul e intensificar secas e ondas de calor em outras regiões do Brasil. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já alertou para o aumento do risco de incêndios no Sudeste.

Em Niterói, a preocupação se concentra principalmente no período entre maio e setembro, que historicamente concentra a maior parte dos incêndios em vegetação. Dados da Defesa Civil municipal mostram que, entre 2021 e 2025, foram registradas 832 ocorrências nesse intervalo.

Ao longo dos últimos anos, a preocupação é crescente. O Corpo de Bombeiros foi acionado 66 vezes para combate às chamas em Niterói entre os dias 1º de janeiro e 28 de maio de 2023. Foram 194 vezes no mesmo período em 2024, e 379 vezes em 2025.

Mais prevenção

Para enfrentar o problema, a prefeitura ampliou a chamada Operação Queimadas, baseada em monitoramento tecnológico e mobilização comunitária. São usados drones, sensores, imagens de satélite e mapas georreferenciados para identificar áreas vulneráveis e acelerar a resposta contra os focos de incêndio.

Um dos pilares da estratégia é o trabalho do Núcleo de Defesa Civil (Nudec) Queimadas, formado atualmente por cerca de 700 voluntários distribuídos em 15 grupos pela cidade. Eles atuam em parceria com o Corpo de Bombeiros em ações de orientação, prevenção e identificação rápida de focos de fogo.

O secretário municipal de Proteção e Defesa Civil, coronel Walace Medeiros, explica que o principal objetivo é evitar que incêndios aconteçam.

— O combate às queimadas começa muito antes do incêndio. Trabalhamos fortemente na prevenção, no monitoramento e na conscientização da população — diz.

Moradora da Comunidade da Salina, em Jurujuba, Conceição Jeremias da Silva Neta, de 47 anos, afirma que as queimadas já colocaram residências da região em risco.

— Já presenciei diversas queimadas por causa da vegetação extensa que temos no bairro. Em algumas situações, o fogo se espalhou muito rápido e chegou perto das casas. Muitas pessoas achavam normal queimar lixo no quintal ou até viam a queda de balão como algo bonito, mas hoje sabemos o quanto isso pode ser destruidor — relatou.

Como parte das ações preventivas, a Defesa Civil abrirá uma nova turma de formação do Nudec Queimadas nos dias 4, 11, 18 e 25 de julho. As inscrições serão divulgadas nas redes sociais do órgão. O treinamento inclui aulas de primeiros socorros, prevenção e combate a incêndios, meteorologia, orientação cartográfica e cuidados com animais em áreas atingidas pelo fogo.

Segundo a prefeitura, a Defesa Civil de Niterói conta com mais de três mil voluntários distribuídos em 153 núcleos comunitários especializados em diferentes áreas de atuação. Nos últimos 13 anos, o município afirma ter investido mais de R$ 1,7 bilhão em ações de prevenção e mitigação de desastres naturais.

A Defesa Civil orienta a população a evitar práticas que podem provocar incêndios, como colocar fogo em lixo, folhas secas ou restos de poda, jogar guimbas de cigarro em áreas de vegetação e descartar carvão ainda aceso em terrenos ou matas. Soltar balões, além de crime ambiental, também representa risco.

Em caso de fumaça ou princípio de incêndio, a recomendação é acionar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193, sem tentar combater incêndios de grandes proporções sozinho.

O órgão também orienta que folhas, galhos e restos de poda sejam ensacados e destinados à coleta regular de lixo. Em grandes volumes, o descarte deve ser solicitado à Clin. A prefeitura destaca ainda que podas dependem de autorização prévia da Secretaria de Meio Ambiente e que resíduos vegetais podem ser reaproveitados em compostagem, jardinagem e artesanato.

Fonte: O Globo Niterói


sábado, 30 de maio de 2026

RETROCESSO: Empresas não são mais obrigadas a fazer relatório de sustentabilidade

 

Foto Agência Nacional de Mineração

Mais um retrocesso no arcabouço da legislação ambiental brasileira que foi construído ao longo das últimas décadas. 

A Comissão de Valores Mobiliários - CVM, uma autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, que tem o objetivo de fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores, anunciou na noite de ontem (29 de maio), a aprovação de uma alteração da Resolução 193/2023, revogando a obrigação das empresas de capital aberto a publicarem e divulgarem os seus Relatórios de Sustentabilidade. Com o documento, as empresas tinham a obrigatoriedade de reportar as informações financeiras relacionadas à ação de sustentabilidade praticadas pela companhia. 

A Resolução 193/2023 (com as suas alterações posteriores) estabelecia que:
ART.2° Fica estabelecida, para as companhias abertas, a obrigatoriedade de elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base nas normas emitidas pelo CBPS, e aprovadas pela CVM, a partir dos exercícios sociais iniciados em, ou após, 1º de janeiro de 2026.
De acordo com a Resolução CVM 193, as empresas precisavam elaborar relatórios estruturados de acordo com as normas internacionais do ISSB (International Sustainability Standards Board), conhecidas como IFRS S1 e S2. Os relatórios seguiam a mesma periodicidade estabelecida para as respectivas demonstrações financeiras.

A aprovação da exigência pela CVM foi considerada uma inovação mesmo no âmbito internacional e tinha por finalidade enfrentar o chamado "greenwashing", maquiagem ambiental, ou o marketing enganoso de um pretenso compromisso socioambiental e ecológico corporativo, sem comprovação ou respaldo nas práticas efetivas das empresas. Com a nova Resolução CVM 244, que "reforma a CVM 193", as empresas não têm mais a obrigatoriedade de apresentar esse compromisso.

A CVM ofereceu as seguintes explicações na sua página no GOV.BR:
As alterações visam a aperfeiçoar o modelo de adoção voluntária, preservando a transparência e a comparabilidade trazidas pela necessidade de observância dos padrões contábeis, mas resgatando o necessário respeito à liberdade das entidades para estimar os custos e benefícios esperados de suas decisões sobre como usar os recursos dos investidores. 

A principal mudança é a remoção da obrigatoriedade que a versão original da norma impusera às companhias abertas, após período de adoção voluntária. Com isso, o regime aproxima-se daquele que a própria redação anterior já previa para fundos de investimento e sociedades securitizadoras, pois para tais entidades não havia previsão de adoção forçada do reporte de informações de sustentabilidade nos padrões contábeis. 

O padrão contábil internacional é mantido: as companhias que optarem por publicar informações financeiras de sustentabilidade só poderão fazê-lo se observarem as normas do CBPS e ISSB, com isso preservando a confiabilidade e aumentando a comparabilidade dessas publicações. Por outro lado, as companhias que entenderem que essa adoção não é adequada para seus negócios não terão tal obrigação, devendo apenas publicar sua opção por meio de comunicado ao mercado, em modelo de "pratique ou explique".
"Pratique ou explique"? Fui procurar saber o que era isso e, segundo o IA do Google, significa: 
O "Pratique ou Explique" é um mecanismo de autorregulação (muito utilizado pela B3 e pela CVM) onde empresas listadas na bolsa devem adotar boas práticas de governança e sustentabilidade, ou explicar publicamente o motivo de não o fazerem.
LOBBY OU TIRO NO PÉ?

Segundo o portal RESET, a CVM cedeu às pressões da Associação Brasileira das Companhias Abertas - ABRASCA, que no final de 2025, às vésperas de entrada em vigor (2026) da obrigação de contabilização os dados para divulgação em 2027, protocolou um documento pedindo a derrubada das regras ou o seu adiamento por três anos. A CVM surpreendeu o mercado, recuou na obrigação e sequer estabeleceu um prazo para retomar a obrigatoriedade.

A ABRASCA argumentou que o cumprimento da norma, ou seja, a preparação do relatório, "poderia chegar a representar 70% dos gastos de auditoria".

ORA, SE AS EMPRESAS NÃO QUEREM TER GASTOS COM UM RELATÓRIO, QUAL DEVE SER O NÍVEL DE COMPROMISSO E MOTIVAÇÃO DAS MESMAS NO CUMPRIMENTO DAS SUAS RESPONSABILIDADES AMBIENTAIS E CLIMÁTICAS? 

QUAL A COMPARAÇÃO ENTRE OS GASTOS QUE PRATICAM COM "PUBLICIDADE VERDE" E RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E O QUE EFETIVAMENTE INVESTEM EM SUSTENTABILIDADE?

Obviamente, as despesas que as empresas da ABRASCA estão reclamando não são as referentes a preparação do relatório em si, mas a obrigação de fazer as suas obrigações ambientais estabelecidas na legislação ou no licenciamento ambiental, ou ainda aquelas ações de responsabilidade socioambiental que os seus acionistas, o mercado e a sua clientela exigem.

O RESET também informou que durante os debates houve reação de outros setores como o Instituto de Auditoria Independente do Brasil (IBRACON), do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) a AMEC, APIMEC e a FIPECAFI. Alertaram que seria um "retrocesso relevante para a eficiência do mercado". O grupo de organizações alertou que tornar as normas opcionais abriria brechas estruturais para o "greenwashing involuntário ou estratégico" sem capacidade de influenciar de modo disciplinador o comportamento corporativo e o custo do capital.

Em fevereiro de 2026, a CVM havia rejeitado o pleito da ABRASCA alegando que seria injusto com empresas que já testavam o modelo, como Vale, Renner, C&A e Natura. Importante lembrar que a CVM ganhou um prêmio internacional por ser o primeiro regulador do mundo a adotar as exigências do ISSB.

Lembro-me que quando presidi (1999-2001 e 2007-2008) a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA (órgão ambiental licenciador pioneiro no país e que foi incorporado ao INEA), assinei um Termo de Ajuste de Conduta - TAC com uma empresa de capital aberto que tinha sérias pendências ambientais e recebi a visita de um estrangeiro que representava um grupo de acionistas. Estava preocupado com a performance ambiental da referida empresa. Sim, os acionistas também cobram das empresas, pois isso pode representar a qualidade da gestão ou o risco do investimento.

INTERFERÊNCIA POLÍTICA: MAIS UMA BOIADA

Mais uma vez, é o mesmo grupo da "terra arrasada" no Congresso que atua criminosamente para "passar outra boiada". A mudança de posição da CVM parece ter nome.

A mudança de direção da CVM coincide com a mudança de gestão na autarquia. Como informou o site G1, no dia 20 de maio, o Senado aprovou o nome do advogado Otto Lobo (Comissão de Assuntos Econômicos CAE, após muita polêmica, aprovou 31 votos favoráveis a 13 contrários. Posteriormente, o Plenário do Senado aprovou por 19 a 4) para assumir o cargo de novo presidente da CVM. A nomeação foi alvo de críticas devido a votos dados por Lobo em decisões envolvendo a Ambipar e o Banco Master, quando era diretor e presidente interino da autarquia, em 2025. Um dos beneficiados foi o investidor Nelson Tanure. O Tribunal de Contas da União questiona as decisões de Lobo.

Otto Lobo terá um mandato-tampão até julho de 2027, concluindo a gestão do ex-dirigente João Pedro Nas, que deixou o cargo em julho do ano passado. A indicação de Lobo foi encaminhada pelo governo e contrariou o então ministro da Fazenda Fernando Haddad e o atual ministro Dario Durigan e foi mal recebido também no mercado financeiro. Apesar da indicação do presidente Lula, o nome de Lobo teria sido apadrinhado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que pressionou o governo pela sua indicação. Alcolumbre nega a responsabilidade.

SUSTENTABILIDADE NAS EMPRESAS: ESG

A sustentabilidade no ambiente corporativo é uma realidade consolidada nas melhores empresas, com exemplos expressivos de boas práticas socioambientais e existem profissionais altamente qualificados trabalhando nos setores de ESG (Environment, Social and Governance). Como dirigente de órgãos ambientais, sempre tive nesses profissionais importantes aliados para o cumprimento da legislação e das licenças ambientais. Sempre acreditamos ser muito estratégico fortalecer o papel destes profissionais na governança das empresas, pois são eles que mais conhecem os desafios de sustentabilidade dessas instituições. 

Nem sempre estes profissionais são devidamente valorizados. A cobrança dos órgãos ambientais e normas como as que exigem os Relatórios de Sustentabilidade fortalecem a importância do setor de ESG na empresa, tirando-a de uma importância apenas periférica. 

A QUEM INTERESSA...?

A quem interessa o retrocesso promovido pela decisão nefasta da CVM? Interessa a aquelas empresas mais atrasadas e reativas, que não estão alinhadas com a tendência mundial de responsabilidade corporativa. Interessa a certas empresas como as que encontramos pelas COPs do clima, promovendo seus pretensos resultados ambientais, enquanto sabotam os avanços da agenda climática.

Importante lembrar que a atitude extemporânea e retrógrada acontece no momento em que se consolida o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, que tem tido reações de segmentos da economia europeia usando como um dos mais fortes argumentos o afrouxamento da legislação ambiental no Brasil e países do Mercosul, o que causaria um "dumping ambiental", ou seja, concorrência desleal pois o custo ambiental do produto brasileiro seria distorcido de forma desleal com a concorrência europeia.

CHEGA DE RETROCESSOS

Em outubro, tem eleição e é a chance de depurar a representação política no Congresso Nacional. É preciso mudar a correlação de forças que temos atualmente no Congresso e evitar a influência nefasta de grupos políticos que atual criminosamente contra a política ambiental, para garantir a continuidade dos avanços e não o triunfo do atraso. A sustentabilidade só será alcançada com a participação da sociedade como um todo e as empresas têm um papel decisivo no processo.

Axel Grael
Pré-candidato a Deputado Federal (PDT-RJ)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Presidente da FEEMA (1999-2001 e 2007-2008)




quinta-feira, 28 de maio de 2026

Bora de Bike é sucesso e lota ruas de Niterói em prol da mobilidade ativa

 

Onde está Wally? Foto de Luciana Carceiro.

Participei no último domingo do evento "Bora de Bike", iniciativa da Record Rio, em parceria com a Associação de Ciclistas do Rio de Janeiro (ACERJ). A pedalada contou com patrocínio da Prefeitura de Niterói, por meio do Niterói de Bicicleta, além do apoio de diversos órgãos municipais. Ao todo, foram aproximadamente 10 mil pessoas, entre famílias, grupos de amigos e amantes do ciclismo de diferentes cidades da região metropolitana, como São Gonçalo, Maricá e diversos bairros do Rio de Janeiro.

A iniciativa reforça o crescimento da cultura da bicicleta em Niterói, cidade que se consolidou como referência em mobilidade urbana sustentável. O município possui uma das maiores malhas cicloviárias do estado do Rio de Janeiro, com mais de 90 quilômetros de infraestrutura cicloviária implantada, entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas.


domingo, 24 de maio de 2026

DESPAVIMENTAÇÃO: cidades estão quebrando o asfalto para dar espaço ao verde e ter mais resiliência climática

As cidades têm assumido uma crescente responsabilidade no enfrentamento às mudanças climáticas, com ações práticas locais de adaptação e mitigação, diante da dificuldade de avanços no âmbito da governança global estabelecida pela ONU, exercida através da diplomacia dos estados nacionais.

As cidades sabem que não há tempo a perder e que é nelas que as consequências são mais sentidas e a ação é mais cobrada pela população. Cada cidade sabe da "sua dor" e estabelece a sua prioridade de acordo com as suas características e realidades climáticas, geomorfológicas, urbanas e sociais. 

A prioridade das cidades tem sido na adaptação e resiliência aos eventos climáticos extremos, mas também atuam na mitigação. A ação de mitigação ocorre, principalmente controlando as emissões locais de Gases do Efeito Estufa - GEE, provenientes da geração e consumo de energia, do transporte e da indústria. Cidades como Paris priorizam o enfrentamento das ondas de calor extremos e se dedicam a um ambicioso programa de retirada de automóveis das suas áreas centrais, praticam a despavimentação (retirada da cobertura asfáltica e do concreto das ruas e praças), implantam jardins de chuva (para infiltração da água pluvial) e plantam árvores para prevenir o calor e garantir o conforto térmico das ruas. Outras cidades como Copenhague investem em drenagem sustentável para prevenir inundações. 

Niterói, por suas vez, é um destaque no cenário nacional, tendo criado a primeira secretaria do Clima e contando com uma das melhores defesas civis do país. Diante do seu relevo e ocupação de áreas de encostas, investiu mais de 1 bilhão de reais na última década em contenção de encostas e cerca de R$ 500 milhões na solução dos seus problemas históricos de macrodrenagem. Também priorizou a implantação de parques, reflorestamento de áreas degradadas e arborização das ruas. Niterói construiu uma das mais avançadas políticas climáticas do país e éreconhecido nacionalmente por isso.

O artigo abaixo, publicado pela BBC, mostra o esforço de várias cidades do mundo em praticar a chamada "despavimentação" ("depaving") ou "desimpermebealização" ("desealing") das superfícies urbanas, restaurando a capacidade física e biológica do solo, principalmente a sua fertilidade e permeabilidade.

A tendência atual das cidades é investir em: mais parques com capacidade de reter água e ajudar a drenagem; mais áreas verdes; menos carro; mais transporte público, coletivo e sem emissão de carbono; mais bicicletas e mais pedestres. É assim que avançamos no caminho da sustentabilidade.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPAGAU/UFF)


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Lifting up the paving slabs reveals the potential of the earth beneath (Credit: City of Leuven)

The cities stripping out concrete for earth and plants

Chris Baraniuk

From Australia to Ontario, cities are taking up unnecessary stretches of concrete and asphalt, allowing nature to take hold in their place.

On a hot July day, Katherine Rose picked up a sturdy metal pole and jammed it under the tempting lip of a pre-cut concrete slab. Rose, communications and engagement director at Depave, a non-profit in Portland, Oregon, was sweating in the heat – but she was going to win this fight.

The grubby, rectangular section of urban crust in front of her was about to move. Pushing down on her metal bar, applying it like a lever, she eased the concrete covering up and away. Now sunlight could fall once again on the ground below. A mess of gravel and dirt that was, to Rose, just bursting with potential.

"It feels like you're liberating soil," she says, recalling the summer gathering where she and around 50 volunteers removed roughly 1,670 sq m (18,000 sq ft) of concrete from the grounds of a local church. "It's envisioning and fully realising a dream that I think we all have," says Rose. The dream, that is, of bringing nature back into our midst.

The idea of depaving, sometimes known as desealing, is a simple one – replace as much concrete, asphalt and other forms of hard landscaping as possible with plants and soil. It's been around since at least 2008, when the Depave group in Portland was founded. Proponents say depaving allows water to soak into the ground, which reduces flooding in times of heavy rain – aiding the "sponginess" of cities. Native plants help wildlife cling on in urban spaces, and by planting trees you can increase shade, protecting residents from heatwaves. Injecting city streets with greenery may even improve people's mental health, too.

But if depaving is ever going to really take off, it will have to expand beyond a handful of eager environmentalists and volunteers. With the climate crisis deepening, some cities and even entire regions are beginning to adopt depaving as part of their climate adaptation strategies. It's time, some say, to start smashing up our concrete streets in a big way – to create spaces better for nature.

Exposing more of the ground in urban spaces can help absorb rainfall and reduce flooding, as well as boost biodiversity (Credit: City of Leuven)

Whenever Rose walks through a city these days, she can't help but notice places where you could strike out a section of asphalt and put in some plants. "I'm constantly just wanting to do more," she confesses. "It's hard not to see it everywhere."

Her group says it has depaved more than 33,000 sq m (360,000 sq ft) of asphalt in Portland alone since 2008 – an area equivalent to nearly four and a half football pitches. The work is "joyous", says Rose, because it unites enthusiastic local volunteers. They get a safety briefing and then muck in together.

Green Venture, an environmental non-profit in Ontario, Canada, has been inspired in part by the depaving projects in Portland. Giuliana Casimirri, executive director, explains how she, her colleagues, and volunteers have begun inserting miniature gardens replete with native trees in a run-down district in the city of Hamilton.

"Before, it was somewhere you would quickly try to walk through," she says. "Now there are places you might stop or have a chat. Sit and read the paper."

In Hamilton, flooding can cause sewage to get mixed into runoff that flows into Lake Ontario, the source of the city's drinking water. Green Venture and other local organisations are keen to reduce the chances of that happening, says Casimirri. They view depaving as a key tactic. Certainly, studies have demonstrated that impermeable surfaces in gardens such as concrete increase flood risk in urban areas.

Rose says her group's efforts in Portland mean that approximately 24.5 million gallons of rainwater is diverted from entering storm drains each year. In Leuven, Belgium, in 2023 alone, Baptist Vlaeminck, who leads Leuven's Life Pact climate adaptation project, calculates that the removal of 6,800 sq metres (73,000 sq ft) of hard surfacing allowed for the infiltration of an additional 377,000 gallons (1.7 million litres) of water into the ground.

"With climate change, extreme weather rainfall events are going to increase and so [depaving is] not a nice-to-have – it's a necessity," Casimirri adds.

The question is whether the authorities responsible for cities, and planning, realise this. In most parts of the world, depaving can still be described as a fringe activity. "We're going to need a scale of investment that has a lot more zeroes on it," says Thami Croeser at RMIT University, Melbourne's Centre for Urban Research.

Community-led and DIY efforts on driveways and on local streets with permission are fantastic, he adds, but it's even better to think of depaving and greening as the introduction of a new kind of infrastructure in a city. It requires the same level of planning and investment as, say, a new railway.

The depave movement in Portland, Oregon has inspired a wave of cities to pull up their asphalt and concrete (Credit: Elle Hygge)

In Europe, at least, some municipalities have begun to treat depaving seriously. Residents of London in the UK are encouraged to depave their gardens, for example.

The city of Leuven in Belgium says it is embracing depaving – or "ontharden" – in a big way. The suburban district of Spaanse Kroon, home to around 550 people, is one of the latest targets of a depaving and renaturing initiative spearheaded by the city. The plans involve removing significant volumes of asphalt from the residential area and forcing cars to share the same part of the road as pedestrians and cyclists.

"We are scaling up now, we are setting up a team dedicated to depaving," says Vlaeminck.

Such projects have to meet the needs of everyone in the city. Vlaeminck says that, to support people with impaired vision or mobility issues, unused areas of road or pavement are prioritised for depaving and sufficient space – more than a metre – is safeguarded on pavements to allow people plenty of room. Existing paving left in place is also renewed or repaired to ensure there are no bumps or unevenness. In situations where pavements are removed completely, for shared use of a roadway in low traffic neighbourhoods, Vlaeminck says depaving teams introduce measures to reduce the speed of cars.

Both Depave in Portland and Green Venture in Ontario say they work with communities to ensure accessibility requirements are met. Casimirri refers to a recent project that replaced broken, uneven concrete with shrubbery and level walkways between.

Among the initiatives instigated by Leuven is a "tile taxi" – a small truck that officials will happily send to your home so you can throw in concrete tiles or cobblestones you have removed from your garden. The material is later reused rather than thrown away, says Vlaeminck, who adds that several million euros have been set aside by Leuven to fund depaving and renaturing projects such as this.

And there's more. Since January 2024, developers in Leuven have had to demonstrate that any rain that falls on new or significantly renovated homes can either be capture and re-used on-site or filtrate into the property's garden rather than pool up and cause a flood. If developers can't prove their designs are extreme rainfall-ready, they won't be approved, says Vlaeminck.

France, too, is making depaving official, says Gwendoline Grandin, an ecologist with the Île-de-France Regional Agency for Biodiversity. Nationally, the French government has made €500m ($540m/£430m) available for urban greening – this includes depaving but also installing green walls and roofs, for example. Part of the motivation is to make towns and cities more resilient to summer heatwaves, which have badly affected parts of France in recent years.

Some of the projects now underway are significant in size, such as a former parking area near a forest in the Paris region. An area of 45,000 sq m (480,000 sq ft) has been depaved – formerly a hodgepodge of asphalt, pathways and concrete interlaced with grass. With the hard landscaping now gone, level ground is being reshaped to introduce dips and gullies that catch water, and the whole area will soon be planted over, too.

Local schemes are often backed by residents keen to see more green in their local area (Credit: City of Leuven)

In Croeser's own city of Melbourne, he and colleagues have studied the potential space available for renaturing, if thousands of parking spaces were depaved and converted into miniature gardens. In a 2022 study, they simulated the impact based on a series of scenarios – the most ambitious of which involved removing half of the open-air parking spaces in the city, about 11,000. Croeser argues that there is sufficient off-street parking available, for example on the ground floor of buildings, in Melbourne to ensure that people wouldn't be left without somewhere to leave their vehicle – but those interior parking spaces would need to be made publicly accessible.

"The basic principle was no net loss of access to parking," he says. "And we get 50-60 hectares [120-150 acres] of green space that keeps the city cool, prevents flooding."

It might seem unlikely that small pockets of nature dotted here and there throughout a large city like Melbourne could benefit wildlife significantly, but Croeser says these fragments of habitat are crucial. They allow species to move around and cope in an environment that is, ultimately, very different to the one in which they evolved.

In their 2022 study on depaving in Melbourne, Croeser and his colleagues included modelling that suggested a modest increase in greenery could allow species such as the blue-banded bee to roam across a far greater area of urban habitat than before.

Rose agrees with Croeser that, for depaving to change the world, entire cities and even whole countries will have to embrace it fully. But she emphasises that, in order to reach that point, communities must express that this is something they want.

"It starts with people pushing their government and starting these conversations on a small, local level," she says. "That's how it takes hold."

Fonte: BBC


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Entre 2012 e 2026, a União empenhou R$ 24,36 bilhões em ações de resposta e recuperação

Bruna Lessa

Nos últimos dias, as fortes chuvas que atingiram parte de Pernambuco e da Paraíba deixaram oito mortos e um rastro de destruição, que inclui deslizamentos, inundações, infraestruturas danificadas e quase 13 mil desajolados ou desabrigados. Reconstruir as regiões atingidas exigirá vastos recursos públicos, em um esforço que poderia ser minimizado se, diante dos eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, o país optasse por se antecipar com mais eficiência aos desastres naturais.

Contudo, dados do Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União (TCU) analisados pelo GLOBO mostram que a maior parte das verbas federais continua sendo destinada à resposta e reconstrução de áreas afetadas por esse tipo de evento. Entre 2012 e 2026, a União empenhou R$ 24,36 bilhões em ações de resposta e recuperação, valor quase três vezes maior que os R$ 9,62 bilhões destinados à prevenção.

Do total empenhado em resposta e reconstrução, cerca de R$ 21,54 bilhões foram de fato pagos ou transferidos. Já nas ações preventivas, o valor pago foi de R$ 6,8 bilhões — ou seja, menos de um terço.

As despesas classificadas como resposta envolvem medidas emergenciais, como socorro e assistência às populações afetadas, incluindo distribuição de água, cestas básicas e itens de higiene, além do restabelecimento de serviços essenciais. Já as ações de recuperação dizem respeito à reconstrução de estruturas danificadas, como pontes, bueiros e pequenas obras de contenção.

Os investimentos em prevenção, por outro lado, passam por obras e empreendimentos de infraestrutura voltados a reduzir ou evitar a ocorrência de desastres. Estão nessa categoria intervenções como sistemas de drenagem, contenção de encostas e outras ações do gênero.

Comparação entre as verbas da União destinadas a ações de resposta e recuperação — Foto: Arte O Globo

Na avaliação do TCU, o predomínio desse tipo de gasto caracteriza uma estratégia “reativa” de gestão, considerada ineficaz para reduzir os impactos dos desastres. O tribunal aponta que a maior parte dos recursos é liberada após as tragédias, enquanto as ações de mitigação e preparação seguem subfinanciadas.

Além de pouco eficiente, o modelo também é mais caro. Com base em dados internacionais, a Corte de Contas destaca que cada US$ 1 investido em prevenção pode economizar até US$ 15 em reconstrução. Ainda assim, o país mantém uma lógica de gasto concentrada no pós-desastre.

A falta de coordenação entre União, estados e municípios contribui de modo decisivo para o cenário. Enquanto a prevenção depende de ações locais, a resposta tende a recair sobre o governo federal, reforçando o ciclo de reconstrução.

Além disso, dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostram que a estrutura municipal ainda é limitada: 68% da cidades não possuem mapeamento de áreas de risco, 57% não contam com sistemas de alerta, 44% não possuem setor ou pessoal responsável pelo monitoramento de eventos e 46% não têm sequer equipe capacitada no tema.

Situação de emergência

No sábado, o governo de Pernambuco decretou situação de emergência em 27 municípios afetados pelas inundações, com prazo de 180 dias. Segundo a gestão de Raquel Lyra (PSD), a medida é necessária justamente para acelerar a execução de ações emergenciais e solicitação de apoio e investimentos ao governo federal. O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, desembarcou ontem na região, por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para auxiliar nos trabalhos.

— Agora, é o momento de reconstruir e refazer estruturas que eventualmente tenham sido perdidas. Avançamos na parceria com o governo federal para que a gente consiga mais recursos para investimento em obras que garantam às nossas cidades a possibilidade de serem mais resilientes — disse Lyra ontem após encontro com o ministro.

Levantamento da CNM aponta que os desastres naturais causaram mais de R$ 730 bilhões em prejuízos entre 2013 e 2024. Os recursos destinados à prevenção, enquanto isso, permanecem limitados. Para Paulo Ziulkoski, presidente da entidade, o modelo atual sobrecarrega os governos locais, que acabam sendo os primeiros a ter contato com a população afetada:

— É um padrão equivocado e insustentável. Precisamos superar a lógica de atuação baseada apenas em créditos extraordinários durante situação de emergência ou estado de calamidade pública e avançar para o fortalecimento da política pública estruturada, contínua e orientada à prevenção.

O TCU aponta que a dependência de créditos extraordinários, liberados após calamidades, dificulta o planejamento e impede que a real necessidade de recursos seja incorporada ao Orçamento anual. Além disso, o tribunal identificou que 37% das obras federais de prevenção contratadas de 2012 a 2024 estão paralisadas ou inacabadas, em um desperdício de recursos públicos.

Para o setor produtivo, os efeitos também são significativos. Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), destaca que os eventos climáticos já provocam perdas anuais de cerca de R$ 110 bilhões

— Esse cenário reforça a importância de avançar em uma abordagem mais equilibrada, movimento que não é exclusivo do Brasil. Historicamente, a agenda climática global concentrou mais esforços em mitigação do que em adaptação, mas isso vem sendo ajustado. A COP30 foi um marco ao consolidar 59 indicadores globais voluntários de adaptação, criando uma “bússola” sobre o que é prioritário para ações na área e quais devem ser as próximas movimentações.

Investir em adaptação é, sob essa ótica, não só uma condição necessária para proteger o ambiente de negócios do país, mas também para impedir que preços mais caros cheguem ao consumidor final.

— Ações de adaptação impedem que a transmissão elétrica seja interrompida após eventos climáticos extremos, que produtores rurais tenham suas safras arruinadas, que fornecedores não consigam transportar seus produtos e que cadeias de valor sejam interrompidas — elenca Grossi.

O Globo, Edição de 05/05/2026

'Múltiplos riscos'

Especialistas apontam ainda fatores estruturais para o problema. Valdir Steinke, professor no departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB), diz que a ocupação urbana sem planejamento ampliou a exposição a riscos:

— As cidades foram expandidas desconsiderando elementos fundamentais como o relevo, as bacias de drenagem e a dinâmica hidrológica. Áreas de várzea, encostas instáveis e zonas naturalmente suscetíveis à inundação foram ocupadas sem critérios técnicos, muitas vezes por populações vulneráveis. Esse descompasso cria um cenário estrutural de risco, no qual eventos climáticos relativamente comuns passam a gerar desastres recorrentes.

Em mais um elemento de alerta, a diversidade e a complexidade do território brasileiro implicam na “coexistência de múltiplos riscos”, frisa Steinke. Isso exige, avalia o professor, políticas públicas regionalizadas, que sejam capazes de reconhecer as especificidades ambientais, climáticas e socioeconômicas de cada lugar:

— Além de enchentes e deslizamentos associados a eventos de chuva, o país enfrenta secas prolongadas, queimas, escassez hídrica e processos de degradação ambiental em diferentes biomas. Não há uma solução única para um território tão diverso.

Uma análise ano a ano mostra que o padrão de priorização de gastos com resposta a desastres se manteve ao longo de diferentes governos. Em 2019, primeiro ano da gestão de Jair Bolsonaro (PL), foram empenhados R$ 763 milhões em ações de resposta e recuperação, ante R$ 305,8 milhões em prevenção. Naquele ano, os valores pagos chegaram a R$ 799,1 milhões e R$ 406,9 milhões, respectivamente.

No último ano do governo Bolsonaro, em 2022, a diferença persistiu. Foram empenhados R$ 1,33 bilhão para resposta e reconstrução, contra R$ 335,8 milhões para prevenção. A execução, no entanto, foi menor nas ações preventivas: R$ 101 milhões pagos, ante R$ 1,08 bilhão nas despesas emergenciais.

Já em 2023, início do terceiro mandato de Lula, os gastos cresceram de forma significativa em ambas as frentes, mas a predominância da resposta foi mantida. Foram R$ 5,5 bilhões empenhados para resposta e recuperação, frente a R$ 1,57 bilhão para prevenção. Os pagamentos somaram R$ 4,58 bilhões e R$ 1,03 bilhão, respectivamente.

Em 2025, a cifra recuou, mas o padrão se repetiu: R$ 1,74 bilhão empenhado para resposta, contra R$ 611,3 milhões na prevenção. Até março de 2026, os dados mais recentes indicam R$ 481,9 milhões empenhados em ações emergenciais, e R$ 117,6 milhões em medidas preventivas.

Papel do Congresso

Para Marta Salomon, especialista sênior do Instituto Talanoa, uma das principais dificuldades para avaliar o investimento em prevenção no Brasil é a ausência de uma classificação clara no orçamento público de muitas políticas.

Também há dificuldades com o remanejamento feito pelo congresso. De acordo com o estudo da entidade, durante a tramitação do Orçamento, parlamentares ampliaram significativamente verbas para a chamada “causa animal”, que teve aumento de 98 vezes em relação à proposta original do governo, enquanto áreas diretamente ligadas à adaptação climática — como sistemas de alerta de desastres, contenção de enchentes e construção de cisternas — sofreram cortes.

— Os parlamentares tiraram dinheiro do programa de alertas do Cemaden, que contribui muito para evitar mortes em desastres climáticos, enquanto uma área que recebeu mais emenda parlamentar é a tal da emenda Pet, para cuidados de cães e gatos — pontua Salomon.

"As verbas para a criação, implementação e gestão de unidades de conservação, por exemplo, caíram de R$ 249 milhões para R$ 238 milhões. No ano passado, contou com R$ 342 milhões de gastos autorizados", diz trecho o estudo.

A falta de investimento em prevenção tende a encarecer a conta pública no longo prazo. Dados do próprio governo apontam que a falta de investimentos em adaptação e mitigação climática pode gerar um impacto econômico de até R$ 17 trilhões no Brasil até 2050. A estimativa considera efeitos como queda na produção agrícola, danos à infraestrutura e interrupções em cadeias produtivas e aumento de gastos públicos com desastres naturais.

O exemplo mais recente foi o das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. Foram empenhados R$ 111,6 bilhões para ações de recuperação da infraestrutura das cidades, estímulo à economia local e repasse às famílias e aquisição de moradias.

O Ministério das Cidades afirma que a predominância histórica de gastos em resposta está ligada à maior facilidade de execução de recursos emergenciais e a incentivos de curto prazo, que favorecem ações imediatas. Segundo a pasta, ampliar a prevenção é hoje uma prioridade do governo.

Entre as iniciativas, o ministério cita mais de R$ 26 bilhões previstos no Novo PAC para obras de prevenção de desastres, além de programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, que, ao reduzir a moradia precária, também contribuem para diminuir a exposição da população a riscos.

Apesar disso, o governo reconhece entraves para ampliar esse tipo de investimento, como a dificuldade de estados e municípios em elaborar projetos técnicos e a descontinuidade de políticas públicas.

Fonte: O Globo



sábado, 23 de maio de 2026

Prioridade para o turismo: Niterói recebeu 1,5 milhão de visitantes em 2025

Niterói tem vocação para o turismo, atividade que tem potencial para ser uma das alavancas da economia da cidade, mas nunca havia sido dada a devida prioridade.

No que se refere ao turismo, ao contrário do que alguns pensam, ter a cidade do Rio de Janeiro como vizinho é uma grande oportunidade para Niterói e não um problema. O Rio de Janeiro continua a ser líder em turismo no país e bateu o recorde de visitantes em 2025. A cidade recebeu 12,5 milhões de turistas, sendo 10,5 milhões (83,1%), de visitantes nacionais e 2,1 milhões (16,9%) de estrangeiros. Apesar de representarem a menor parcela, os turistas internacionais cresceram 44,8% no ano passado. O impacto do turismo na economia da cidade do Rio foi de R$ 27,2 bilhões (saiba mais aqui), gerando R$ 10,6 bilhões em gastos diretos, 198 mil empregos e R$ 6 bilhões em remuneração.

Como podemos ver na matéria abaixo, o turismo em Niterói está crescendo, mas ainda representa 12%) do contingente de visitantes que chega à cidade vizinha. Não é pouco - é proporcional à diferença de porte entre as cidades - mas pode ser muito mais. Isso mostra o grande potencial de crescimento da atividade em Niterói, caso a cidade adote as políticas corretas.

Na minha gestão como prefeito de Niterói (2021-2024), orientei a Niterói Empresa de Lazer e Turismo - Neltur a continuar fazendo o seu bom trabalho na promoção de grandes eventos (Carnaval, Reveillon etc.), mas priorizar a vocação de Niterói e colocar a cidade como um destino turístico rentável e promotor do desenvolvimento local.

Para permitir isso, investimos na infraestrutura e em estratégias para promover o turismo, com as seguintes iniciativas:

Infraestrutura verde:
  • Desapropriação dos imóveis e criação do Parque Natural Municipal do Morro do Morcego Dora Negreiros, com o objetivo de proteger os recursos naturais e paisagísticos do locais, além de permitir a maior qualificação do produto turístico de visitação dos fortes de Jurujuba.
  • Criação, em 2014, do Programa Niterói Mais Verde, com a criação do Parque Natural Municipal de Niterói - PARNIT, que elevou a área protegida da cidade a 57% do território da cidade. Com o PARNIT foi criado também a APA dos Morros da Guanabara, com mais de 500 hectares de áreas verdes protegidas na Região Norte da cidade.
  • Implantação de trilhas e apoio ao turismo ecológico. 
  • Implantação do Parque Orla de Piratininga Alfredo Sirkis - POP, que conta com o sistema de jardins filtrantes, o maior investimento na America Latina em Soluções Baseadas na Natureza. O POP conta também com o Centro Ecocultural Sueli Pontes. 
  • Reforma da infraestrutura do Parque da Cidade, o segundo lugar mais visitado na cidade após o MAC.
  • Criação dos parques de Pendotiba, da Floresta do Baldeador, Águas Escondidas, alem do Morro do Morcego já citado
  • Ampliação e requalificação da arborização urbana
  • Reflorestamento de encostas
  • Duplicação das areas ajardinadas da cidade.
Infraestrutura urbana:
  • Requalificação do Centro de Niterói, com a reurbanização da Avenida Visconde do Rio Branco, da Praça Arariboia e da Avenida Amaral Peixoto.
  • Melhoria na infraestrutura viária da Região Oceânica
  • Obras de melhoria dos acessos à Fortaleza de Santa Cruz e revitalização do Canto de Itaipu, ambos investimentos de grande importância para o turismo
  • Quase 100 km de ciclovias, bicicletários e bicicletas compartilhadas gratuitas (Nit Bike)
  • Requalificação urbana da região de São Domingos e Gragoatá
  • Solução dos principais problemas de drenagem da cidade.
  • A cidade se aproxima da universalização do saneamento e é considerada uma das cidades mais limpas do país (2° lugar no índice ISLU).
Infraestrutura para eventos:
  • Construção da Arena Niterói, no Centro de Niterói 
  • Reforma do Complexo de Atletismo Aída dos Santos (UFF) e a implantação da infraestrutura esportiva na Concha Acústica. 
  • Niterói trabalha para viabilizar o seu Centro de Convenções 
  • Implantação da pista de Downhill no Parque da Cidade
  • Apoio a eventos nacionais e internacionais para esportes de praia, vela, canoagem Va'a, surf etc.
Patrimônio histórico e cultural:
  • Restauração e abertura da Ilha da Boa Viagem, 
  • Restauração do Cinema Icaraí que será entregue à população como centro cultural Cine Concerto Sérgio Mendes.
  • Restauração da Casa Norival de Freitas.
  • Desapropriação e reforma do prédio da Cantareira, que seráum Distrito de Inovação, 
  • Reabertura do Mercado Municipal após décadas fechado.
  • Reforma de casarão histórico na Alameda São Boaventura e abertura do Centro Cultural Cauby Peixoto, primeiro da Zona Norte. 
Além da infraestrutura, a NELTUR tem feito um grande esforço de divulgação da cidade em eventos nacionais e internacionais do trade turístico e tem estruturado programas de turismo de avistagem de cetáceos, cicloturismo, turismo náutico e outros.

Há uma crescente atração de grandes eventos culturais e esportivos na cidade, além de congressos cientificos e acadêmicos. Em 2024, firmamos acordo com a Fira Barcelona, para trazer para Niterói a Tomorrow Blue Economy, a maior feira da economia azul no mundo. O evento já irá para a sua terceira edição.

Juntamente com o turismo de negócios - ligado à indústria naval, ao setor de saúde, comércio etc. - essas atividades têm feito crescer muito a demanda por mais hotelaria. Como prefeito, abrimos diálogos importantes com o setor, no Brasil e exterior, para atrair investimentos para a cidade.

Que Niterói siga avançando, potencializando as suas vocações para o desenvolvimento econômico e social, criando oportunidades para mais empregos qualificados e melhoria da qualidade de vida.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)


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Turismo em alta: Niterói recebeu 1,5 milhão de visitantes em 2025; veja locais mais procurados

Demildes Freitas veio do Piauí e ficou hospedada na casa da irmã, em São Gonçalo — Foto: Divulgação/Luciana Carneiro

Viagens de lazer representam maior parte do crescimento de 20%, e um em cada quatro turistas é estrangeiro, diz prefeitura

Por Felipe Gelani

Niterói recebeu cerca de 1,5 milhão de turistas em 2025, segundo dados do Observatório de Turismo da prefeitura. O crescimento de 20% em relação ao ano anterior foi puxado principalmente pelo turismo de lazer, responsável por 79,13% dos atendimentos realizados nos Centros de Atendimento ao Turista (CATs), e pela presença cada vez maior de estrangeiros, que já representam 28,20% do público atendido na cidade.

O perfil dos visitantes mostra predominância de moradores do próprio estado, principalmente da capital, de São Gonçalo, de Maricá e de Itaboraí. Entre os nacionais, São Paulo lidera o ranking (34,59%), seguido por Minas (11,66%) e Rio Grande do Sul (7,56%). Bahia e Paraná vêm atrás. Já no turismo internacional, Argentina (25,63%), França (11,67%) e Estados Unidos (8%) lideram.

A percepção positiva da cidade aparece também nos relatos de quem inclui Niterói no roteiro, mesmo estando hospedado no Rio. A advogada colombiana Natalia Bueno afirmou ter se surpreendido.

— Vim conhecer Niterói hoje, antes de seguir para Paraty. Achei uma cidade amigável e agradável. Antes da viagem, eu não tinha muitas informações sobre ela. Falta um pouco mais de divulgação, porque Niterói é linda. Quero voltar da próxima vez — comentou.

Mais tranquilidade

Os estudantes belgas Lalo Istat e Henri Mouligneaux conheceram Niterói depois de encontrar um roteiro de passeio no TikTok enquanto viajavam pelo Rio de Janeiro. Durante uma visita ao MAC, Istat destacou a tranquilidade no município.

— Chegamos ao Rio há três dias. Aqui tenho uma sensação maior de segurança — acrescentou.

Já a aposentada Demildes Freitas, piauiense de Teresina que se hospedou na casa da irmã, Edenilze, em São Gonçalo, achou a paisagem de Niterói “deslumbrante”.

A colombiana Natalia Bueno visitou Niterói pela primeira vez — Foto: Felipe Gelani

—Como diz a música, “no Rio tudo é lindo por natureza” — brincou.

Segundo a Niterói Empresa de Lazer e Turismo (Neltur), o bom momento do turismo na cidade está ligado a uma combinação de investimentos públicos, calendário de eventos e valorização de espaços urbanos e culturais. O eixo formado por Caminho Niemeyer, Mercado Municipal e MAC concentra mais de 70% dos atendimentos turísticos, com destaque para o primeiro, responsável sozinho por 36,67% do total.

Nos últimos anos, a cidade também passou a apostar em eventos esportivos e culturais para ampliar o fluxo de visitantes ao longo do ano. Entre os destaques estão competições internacionais, como Itacoatiara Big Wave e campeonatos de canoa havaiana, e eventos como Mercocidades, que reuniu delegações de vários países latino-americanos.

O presidente da Neltur, André Bento, afirma que Niterói deixou de ser apenas um passeio complementar para quem visita o Rio de Janeiro.

— A cidade passou a ser uma escolha no roteiro. Existe uma política estruturada para impulsionar o turismo como vetor econômico, com promoção do destino, calendário de eventos e qualificação dos espaços — diz.

O prefeito Rodrigo Neves destaca que o município vem investindo na revitalização de áreas turísticas, na preservação ambiental e na criação de novos equipamentos:

— Niterói vem se consolidando como destino turístico a partir de investimentos e planejamento. Avançamos na revitalização do Centro e na valorização do patrimônio histórico e seguimos ampliando a infraestrutura cultural e de eventos da cidade.

Mercado de casamentos

Especialista no mercado de casamentos e convicta de que o segmento tem potencial para movimentar uma ampla cadeia produtiva na cidade, a advogada Dilma Resende foi uma das organizadoras do congresso Destination Wedding Niterói 2026, realizado em abril. Segundo ela, noivos de fora impulsionam setores como hotelaria, gastronomia, fotografia, moda e turismo, e Niterói reúne cenários capazes de atraí-los, como a Igrejinha da Boa Viagem, o entorno do MAC e espaços históricos:

— O Rio é fortíssimo em se apresentar como destino de casamento. Quando percebi esse cenário, olhei para Niterói e pensei: “Estamos em um lugar mágico. Falta divulgação”. Mas isso está mudando.

Os oito locais mais visitados

Museu de Arte Contemporânea de Niterói
Parque da Cidade
Caminho Niemeyer
Fortaleza de Santa Cruz da Barra
Ilha da Boa Viagem
Parque Histórico Monte Bastione
Museu Popular Janete Costa
Solar do Jambeiro


Fonte: Globo Niterói




sexta-feira, 22 de maio de 2026

Desmatamento na Mata Atlântica atinge menor nível histórico e confirma trajetória de desaceleração

 

Supressão total registrou queda de 28%, chegando a 40% em florestas maduras

Dois dos principais sistemas de monitoramento da Mata Atlântica apresentaram, em 2025, os melhores resultados de suas respectivas séries históricas.

O Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) Mata Atlântica, desenvolvido pela Fundação SOS Mata Atlântica, MapBiomas e Arcplan desde 2022, registrou queda de 28% no desmatamento em relação ao período anterior – de 53.303 para 38.385 hectares. Trata-se do menor índice dos quatro anos de acompanhamento.

Já o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, parceria entre a SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que desde 1985 monitora os grandes fragmentos de florestas maduras do bioma, confirma a mesma tendência com um dado ainda mais expressivo: redução de 40% na supressão, que passou de 14.366 para 8.668 hectares. Em quatro décadas de monitoramento, pela primeira vez o desmatamento anual ficou abaixo da marca de 10 mil hectares.

Taxa de desmatamento e tendência para a série histórica

O resultado se dá num ano especialmente simbólico: em 2026, a Mata Atlântica registra seu menor desflorestamento ao mesmo tempo em que a Fundação SOS Mata Atlântica completa 40 anos e a Lei da Mata Atlântica (primeira legislação específica para a proteção de um bioma brasileiro e referência internacional em conservação de florestas tropicais) chega aos 20 anos.

A redução é reflexo de pressão pública, mobilização da sociedade, políticas ambientais e ações de fiscalização – entre elas medidas como a Operação Mata Atlântica em Pé, a aplicação de embargos remotos e a restrição de crédito a áreas desmatadas ilegalmente, além da afirmação da Lei da Mata Atlântica como principal instrumento de proteção da vegetação nativa do bioma.

De acordo com o SAD, houve redução das derrubadas em 11 dos 17 estados do bioma, com destaque para Bahia e Piauí. Apesar do recuo, ambos ainda aparecem entre os maiores responsáveis pela perda florestal: Bahia (17.635 ha), Minas Gerais (10.228 ha), Piauí (4.389 ha) e Mato Grosso do Sul (1.962 ha) concentraram, juntos, 89% da área total desmatada. Nos demais estados, as perdas ficaram abaixo de 1.000 hectares. Quase toda a destruição registrada pelo sistema, 96%, foi convertida para uso agropecuário – grande parte com indício de ilegalidade.

Para Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da SOS Mata Atlântica, os números de 2025 confirmam uma trajetória. “Políticas públicas e instrumentos de controle ambiental funcionam quando são aplicados com seriedade. A celebração, no entanto, precisa vir acompanhada de vigilância. O desmatamento continua acontecendo e, na Mata Atlântica, cada fragmento perdido faz diferença. O desafio é manter essa trajetória até zerarmos o desmatamento”, ressalta.

O desafio daqui em diante

A Mata Atlântica abriga cerca de 70% da população brasileira e sustenta mais de 80% do PIB nacional. Protegê-la é garantir segurança hídrica, estabilidade climática e produtividade agrícola para a maior parte do país.

O bioma tem condições de se tornar o primeiro no país a alcançar o desmatamento zero e avançar em uma agenda de restauração florestal em grande escala – e os dados de 2025, embora não encerrem o problema, mostram que essa direção é possível.

Esse cenário positivo, porém, convive com um risco concreto no plano legislativo. Em 2025, o Congresso Nacional aprovou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e a Lei da Licença Ambiental Especial, que enfraquecem mecanismos de controle do desmatamento justamente quando eles mostram resultados.

Uma das mudanças mais graves afeta diretamente a Mata Atlântica: o novo marco dispensa a anuência do Ibama para órgãos estaduais atuarem nas autorizações de desmatamento de vegetação primária e secundária em estágio avançado de regeneração. A supressão de vegetação nativa nesses casos é vedada pela Lei e só é permitida em casos de utilidade pública e fim social. A alteração na Lei da Mata Atlântica passa a permitir que a autorização para desmatamento seja realizada por um único órgão licenciador – incluindo municípios que, na maioria dos casos, não têm estrutura técnica para a análise dos estágios sucessionais da Mata Atlântica.

“É uma distorção que leva o Brasil na contramão do Acordo de Paris e potencializa tragédias climáticas. Os números apontam que o desmatamento cai quando a lei é aplicada com rigor e critérios técnicos. Enfraquecer os instrumentos de proteção agora é arriscar o que levamos anos construindo”, afirma Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica.


Monitoramentos complementares

O SAD Mata Atlântica detecta desmatamentos em fragmentos a partir de 0,3 hectare, com o objetivo de gerar documentação ágil e completa para cada evento de supressão. “O SAD foi desenvolvido para fechar a lacuna entre o monitoramento anual e a realidade do desmatamento no dia a dia. Quanto mais rápido um alerta chega aos órgãos responsáveis, maior a chance de interromper a destruição antes que ela se consolide”, explica Marcos Rosa, diretor da Arcplan e coordenador técnico do MapBiomas.

Em 2025, o sistema passou a contabilizar somente o desmatamento dentro do mapa de aplicação da Lei da Mata Atlântica, desconsiderando as partes de áreas suprimidas que, na fronteira com outros biomas, ultrapassem esse limite. O ajuste metodológico garante maior precisão na atribuição das perdas.

O Atlas da Mata Atlântica, por sua vez, monitora áreas a partir de três hectares e oferece uma fotografia anual da situação dos grandes fragmentos florestais do bioma – especialmente as matas maduras, que são os de maior importância para a biodiversidade e o estoque de carbono. Da cobertura original total da Mata Atlântica restam hoje cerca de 24%, sendo pouco mais da metade (12,4%) correspondente às florestas maduras.

Coordenadora técnica do Atlas pelo INPE, Silvana Amaral ressalta que 40 anos de monitoramento contínuo construíram a base que permite avaliar com precisão o que está acontecendo com os remanescentes mais valiosos da Mata Atlântica. “É essa série histórica que dá o real significado ao resultado de 2025 e comprova que estamos diante de uma mudança consistente”, avalia.

Os dados completos estão disponíveis aqui no site, nas páginas do Atlas da Mata Atlântica 2024-2025 e no painel do SAD Mata Atlântica. O Atlas pode ser baixado como PDF na página de Relatório e Balanços.

Tanto o Atlas quanto o SAD têm execução técnica da Arcplan.

Fonte: SOS Mata Atlântica




segunda-feira, 11 de maio de 2026

Santa Marta e o teste de um novo multilateralismo climático

Créditos: Ministério do Meio Ambiente da Colômbia.

Frustrados com os impasses das COPs, diplomatas e observadores buscam arenas alternativas e testam na prática o “multilateralismo em dois níveis”.

Em um momento em que choques energéticos, disputas comerciais e a política doméstica de grandes emissores voltam a tensionar a ação climática global, cresce a busca por espaços capazes de avançar onde as COPs de clima travam. O primeiro teste foi a 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, finalizada na semana passada em Santa Marta, na Colômbia. A Cúpula trouxe uma sensação pouco comum entre aqueles que acompanham a diplomacia climática contemporânea – esperança.

Acostumados com as amarrações políticas que praticamente paralisaram as negociações da Convenção de Clima (UNFCCC) nos últimos anos, os participantes do encontro na Colômbia enxergaram, com diferentes graus de otimismo, um caminho novo a ser explorado.

A sensação não é injustificada. Na COP30 de Belém, há poucos meses, vimos como os impasses entre países desenvolvidos e em desenvolvimento quase dinamitaram os resultados finais das negociações na capital paraense. A frustração das nações mais pobres e vulneráveis já era alta desde a conclusão das conversas sobre financiamento climático na COP29 de Baku, em 2024. Soma-se isso à indisposição de alguns países em discutir o nó crucial da luta contra as mudanças climáticas – a exploração e o consumo de combustíveis fósseis.

Esse foi justamente o tema central em Santa Marta. Há décadas, a ciência do clima aponta o uso crescente e continuado das fontes fósseis de energia como o principal fator por trás do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e, consequentemente, da elevação da temperatura média global.

No entanto, as Partes da UNFCCC só concordaram com uma citação aos combustíveis fósseis no documento de síntese do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris na COP28 de Dubai, em 2023. Ou seja, foram quase três décadas para os governos concordarem com o óbvio, ainda que em termos mínimos (“transicionar para longe” ao invés de “abandonar” os combustíveis fósseis). E logo – na COP seguinte, recuaram dessa constatação, inviabilizando qualquer avanço adicional.

Para quem negocia e acompanha as conversas internacionais sobre clima, está cada vez mais claro que o sistema multilateral não está sendo capaz de entregar as soluções necessárias para enfrentar o problema climático. É por essa razão que Santa Marta trouxe uma brisa fresca de novidade ao oferecer um espaço alternativo para os países (ao menos, aqueles mais dispostos) discutirem o fim dos combustíveis fósseis com muito mais liberdade e centralidade do que nas COPs.

Como destacou o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em sua última carta, estamos acompanhando o surgimento de um “multilateralismo em dois níveis”, que mantém a estrutura institucional baseada no consenso (UNFCCC), mas adiciona um novo ambiente, com uma velocidade distinta de ação e reação, focada na implementação. Esse segundo nível permite que coalizões voluntárias e atores dispostos mobilizem recursos, implementem soluções e gerem aprendizado em escala.

Nesse novo modelo de multilateralismo climático, a UNFCCC e suas COPs preservam o elemento legislativo da ação climática global, baseado nos documentos jurídicos que sustentam esse ordenamento internacional (a Convenção e o Acordo de Paris), resguardando a legitimidade, a universalidade, a clareza jurídica e a direção coletiva. Mas o sistema ONU deixa de ser o único ambiente de interlocução política internacional sobre o clima, abrindo a porta para o surgimento de outros espaços e fóruns, focados em pontos específicos – como combustíveis fósseis (como é o caso de Santa Marta), financiamento, adaptação, entre outros – e organizados de forma complementar aos processos das COPs climáticas.

A própria COP30 sinalizou essa transformação ao dar protagonismo inédito à Agenda de Ação, destacando iniciativas de atores não-governamentais e subnacionais que avançam na implementação dos compromissos climáticos dos países. Outro exemplo foi o lançamento, também em Belém, do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), capitaneado pelo Brasil e com a adesão de mais de 50 nações, como um esforço para destravar o financiamento para a proteção florestal em países tropicais.

A transformação do multilateralismo climático ainda está no começo. Em Santa Marta, por exemplo, a coalizão de cerca de 50 países que se reuniu no evento demonstrou ter disposição para consolidar o espaço como catalisador do abandono da energia fóssil, mas os próximos passos ainda são incertos e dependem de diversos fatores nacionais e internacionais. De toda forma, uma segunda conferência está marcada para 2027, em Tuvalu, co-presidida pela Irlanda.

O balanço positivo feito por participantes e observadores indica que a iniciativa pode ser promissora, especialmente para impulsionar os “mapas do caminho” para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis. Se ela progredir, é possível que outros espaços surjam para destravar mais tópicos de implementação da ação contra a mudança climática. E este movimento pode não apenas complementar as COPS, mas redefinir onde, e como, a diplomacia climática realmente acontece.

Fonte: ClimaInfo





Santa Marta é marcada por avanço político e pressão por um tratado pelo fim dos combustíveis fósseis

Divulgação: Ministério do Meio Ambiente da Colômbia

Proposta de Povos Indígenas e entidades de criar zonas livres de combustíveis fósseis é incluída nos encaminhamentos da conferência.

Há três décadas, países se reúnem anualmente em conferências da ONU para tentar frear as mudanças climáticas. Mas nunca os principais responsáveis pela crise do clima – o petróleo, o gás fóssil e o carvão – foram tratados de modo tão direto, honesto, pragmático e em todas as suas dimensões, como na 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis realizada em Santa Marta, Colômbia, na semana passada, destaca Giovana Girardi na Agência Pública.

O encontro terminou na 4ª feira (29/4) com um saldo político relevante, frisa ((o))eco, ainda que sem resultados vinculantes – aliás, este não era o objetivo. Ao operar fora do modelo tradicional das COPs do clima, a conferência funcionou como uma coalizão de países dispostos a avançar na implementação da transição energética sem depender do consenso global. Uma estratégia que busca contornar o bloqueio diplomático imposto pelos grandes produtores de combustíveis fósseis e deslocar o debate para o campo da ação.

Por isso, nos próximos meses, os 57 países reunidos em Santa Marta focarão em destravar o financiamento da transição energética – tema que também costuma travar as negociações climáticas. Os países também concordaram em coordenar a elaboração de planos nacionais e regionais para substituir os combustíveis fósseis e alinhar políticas comerciais entre as nações para fortalecer os setores verdes, detalha o Projeto Colabora.

“Por mais difícil que seja, sabemos que esta conversa não pode terminar aqui. Devemos manter o ímpeto, liderar com coragem, enfrentar o desafio e construir uma coligação de voluntários”, afirmou Irene Vélez Torres, ministra de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, que copresidiu a conferência junto com os Países Baixos. “Esta será uma ampla plataforma intergovernamental e multissetorial, complementar à UNFCCC [a Convenção do Clima da ONU], projetada para identificar os caminhos legais, econômicos e sociais necessários à eliminação gradual dos combustíveis fósseis”, reforçou.

A ampliação da coalizão para além dos países em Santa Marta também foi enfatizada pela ministra do Clima dos Países Baixos, Stientje van Veldhoven, na plenária final. “Esta é a coalizão dos dispostos; esta é a coalizão dos que fazem e queremos que ela cresça”, destacou. Ela lembrou que há uma clara tendência para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis – reforçada pela guerra no Oriente Médio, que inflou os preços do petróleo e do gás e restringiu a oferta – e é preciso aproveitar a oportunidade. “É hora de traçar um roteiro concreto que nos permita incorporar o novo e deixar o antigo para trás”, adicionou.

Colômbia e Países Baixos produziram um documento com conclusões sobre a conferência. Entre os encaminhamentos listados, está a criação de zonas livres de combustíveis fósseis – uma proposta capitaneada pelos Povos Indígenas e por várias organizações da sociedade civil. “Para limitar a expansão da extração, os países poderiam implementar planos de fechamento, zonas livres de combustíveis fósseis quando pertinente, interromper a emissão de novas licenças, gerenciar ativos encalhados, distribuir de forma justa os custos de encerramento ou leiloar, ao longo do tempo, o fechamento de instalações de produção de combustíveis fósseis”, diz um trecho do documento.

O anfitrião da próxima conferência para além dos combustíveis fósseis, já está definido: Tuvalu, país insular do Pacífico e um dos mais ameaçados pela elevação dos oceanos provocada pelas mudanças climáticas. O encontro será copresidido pela Irlanda.

Até lá, o Observatório do Clima reitera que o encontro em Santa Marta, embora tenha terminado com forte alinhamento entre países, terá como prova final de êxito o desenho de mapas do caminho nacionais. “Países que compareceram ao encontro precisam demonstrar compromisso ao entregar seus roteiros. O Brasil, lembrado em Santa Marta como iniciador da discussão sobre roadmaps, tem pecado nesse sentido, com o atraso de quase três meses na entrega das diretrizes para o próprio mapa.”

A conferência de Santa Marta e seus desdobramentos foram noticiados também por g1, Valor, Amazônia Vox, O Globo, UOL e Folha.

Em tempo: No dia seguinte ao fim da conferência de Santa Marta, o presidente designado da COP31 pela Turquia afirmou que a transição energética será um tema central na cúpula do clima, em novembro, mas que simplesmente dizer às nações para eliminarem os combustíveis fósseis "não é realista", destaca a Folha. Ao ser pressionado sobre se as palavras "combustíveis fósseis" poderiam constar de uma decisão final da COP31, Kurum disse: "Não se trata de colocar algumas palavras em um texto."

Fonte: ClimaInfo