terça-feira, 30 de junho de 2026

SB64, em Bonn: Mais um evento da agenda global do clima a acabar em frustração?



Retornei recentemente de mais uma agenda em Bonn, a bela e histórica "Cidade Federal" da Alemanha, localizada às margens do Rio Reno. 

Entre os dias 08 e 13 de junho de 2026, representei o ICLEI - Local Governments for Sustainability (organização que reúne mais de 2.500 cidades e regiões em todo o mundo), em três eventos importantes realizados em Bonn: 



Membros do GexCom do ICLEI (2025).

SB64 - DIÁLOGOS DE BONN

Bonn foi a capital da Alemanha no pós-guerra, de 1949 até 1999, quando a capital retornou para Berlin após a reunificação alemã. Mas, a cidade manteve o status de "Capital Federal" e permaneceu relevante no cenário diplomático, sediando vários organismos internacionais, principalmente organizações da estrutura da ONU. Assim, Bonn tornou-se o ponto focal da diplomacia climática global, uma vez que sedia a Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - UNFCCC e, portanto, a cidade recebe muitas reuniões técnicas e diplomáticas relevantes para a agenda climática. 

64ª Sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), ou SB64, é uma reunião promovida regularmente (sempre no meio do ano) pelos chamados Órgãos Subsidiários, sendo eles: Subsidiary Body for Scientific and Technological Advice - SBSTA (Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico e Tecnológico) e o Subsidiary Body for Implementação - SBI (Órgão Subsidiário para a Implementação). Ambas estruturas subsidiam as atividades da Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas - UNFCCC, organização com sede em Bonn e que é responsável pela condução da agenda climática sob a responsabilidade da ONU.

Os chamados "Diálogos de Bonn" dão prosseguimento aos entendimentos das COPs anteriores e buscam estruturar temas para acordos e documentos a serem aprovados na COP seguinte. Oficialmente, os diálogos da SB64 tiveram dezenove tópicos para discussão, mas o objetivo principal foi dar continuidade e buscar acordos para os temas debatidos na COP30, de Belém (PA), sob a presidência brasileira, e estruturar documentos que façam parte da agenda da COP31. Representantes das cidades e a sociedade civil mantiveram entre as suas prioridades a cobrança por avanços dos temas relacionados ao financiamento, à adaptação climática, à transição energética e outros temas que têm sido sistematicamente bloqueados pelos lobbies que atuam nos bastidores diplomáticos da agenda do clima.

MAIS UM EVENTO DA AGENDA CLIMÁTICA OFICIAL QUE ACABA EM FRUSTRAÇÃO 

A grande dificuldade de produzir acordos no âmbito da UNFCCC é a necessidade de produzir consensos dentre todos os países signatários da convenção para que as decisões sejam formalizadas. Além da dificuldade óbvia de construir consensos entre países com realidades tão desiguais (exemplo: grandes potências econômicas x pequenas nações insulares), bem como interesses tão distintos (exemplo: países industrializados precocemente e com mais responsabilidade nas emissões históricas de Gases do Efeito Estufa e países em desenvolvimento). A necessidade de consenso também facilita o trabalho dos lobistas do petróleo e dos inimigos da descarbonização.

A SB64 concluiu os seus trabalhos no dia 18 de junho. Mais uma vez, observadores da sociedade civil, muitos representantes governamentais e especialistas acadêmicos manifestaram frustração e preocupação com os resultados alcançados na rodada de Bonn (SB64), que indicam tendências de impasses persistentes para próxima COP. 

Como estive em Bonn apenas na primeira semana e participei agendas também de outros eventos, utilizarei informações disponíveis em alguns sites especializados de reconhecida qualidade de informação e idoneidade, organizados principalmente por organizações da sociedade civil que acompanham de perto os debates. 

Dentre as principais críticas dos observadores sobre os resultados (ou falta de resultados) dos Diálogos de Bonn, são destaques:

Discurso x ação: Segundo o Climate Action Network International (CAN), os impasses que persistiram em Bonn comprovam a crescente lacuna existente entre a retórica de implementação e as entregas efetivas. Segundo a CAN, em vez de marcar a transição entre o compromisso com a implementação, o que se viu foi uma estratégia de negociação que valoriza a linguagem da implementação, mas sempre recua para argumentos procedimentais quando chegava-se à necessidade de tomada de decisão. Durante as duas semanas de discussões, governos afirmavam a importância da adaptação, transição justa, resiliência e o apoio às comunidades mais vulneráveis e que já sofrem os efeitos da crise climática. O tema de uma transição centrada nas pessoas (people-centred) se tornou o conceito dominante.

Quando o debate chegava às finanças a conversa sempre retrocedia para medidas de obstrução ou protelatórias, como pedidos de revisões, questionamentos sobre "tecnicidades", solicitações de termos de referência e debates procedimentais. Para o CAN, "o debate passou a ser não mais sobre a necessidade de ação, mas sobre quem tem o poder e os meios para viabilizar a implementação".

Financiamento: o primeiro grande impasse foi no bloqueio das expectativas de triplicar o financiamento das ações de implementação, sendo este um dos maiores entraves para a implementação das ações de mitigação e adaptação climática. Os países mais ricos sinalizaram, já no primeiro dia, que não haveria avanços neste tema.

Adaptação: As negociações de adaptação em Bonn terminaram com um balanço preocupante, especialmente pela falta de acordo sobre a Meta Global de Adaptação (GGA, em inglês). O tema foi encerrado sob a Regra 16 (Rule 16), o que significa que as Partes não chegaram a um consenso e que a discussão será retomada apenas na COP31, em novembro, na Turquia. Na prática, isso adia decisões importantes para a implementação, principalmente em um ano de El Niño. Com as previsões de que o fenômeno se desenvolva com força entre o fim do próximo semestre e início de 2027, os impactos da crise climática podem ser acentuados e sentidos de forma desigual pelas populações vulnerabilizadas. (Política por Inteiro)

Transição justa: Neste tema tivemos avanços. Segundo o Política por Inteiro, "no Programa de Trabalho sobre a Transição Justa (JTWP, na sigla em inglês), o principal resultado foi menos relacionado ao conteúdo substantivo e mais à arquitetura institucional que definirá o futuro do processo. Os negociadores concordaram com os termos de referência para uma revisão formal do programa, que ocorrerá na Turquia, durante a COP31 e que servirá de base para sua decisão quanto à continuidade. A revisão avaliará a efetividade do programa desde sua criação, a utilidade de seus produtos para Partes e atores não estatais, a qualidade de seus formatos de trabalho e possíveis melhorias para aumentar sua relevância e impacto".

Mapa do Caminho para longe dos Fósseis: O Mapa do Caminho da Presidência brasileira da COP30 para o Abandono Gradual dos Combustíveis Fósseis (“TAFF Roadmap”, como é conhecido em inglês) consolidou-se como uma das principais iniciativas políticas para operacionalizar o chamado do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris (Global Stocktake) para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Segundo a Presidência, o ambiente político em Bonn foi significativamente mais favorável do que em Belém, refletindo uma crescente percepção de que o TAFF Roadmap funcionará como uma ferramenta de implementação, e não como uma tentativa de reabrir negociações já concluídas.

O processo já recebeu mais de 100 contribuições de governos, demonstrando, segundo a Presidência da COP30, um interesse crescente em moldar o conteúdo do roteiro e manter o debate sobre sua implementação vivo. Apesar desse avanço, permanecem desafios políticos importantes. O apoio ao TAFF Roadmap é claramente desigual entre os grupos negociadores. Enquanto alguns países desenvolvidos e membros do Environmental Integrity Group1 (Grupo de Integridade Ambiental) demonstraram apoio explícito, grupos como o African Group of Negotiators (Grupo Africano de Negociadores), o Grupo Árabe e os Like-Minded Developing Countries2 (Países em Desenvolvimento de Pensamento Similar) ainda não sinalizaram alinhamento claro. Em proposições paralelas, representantes africanos buscaram inclusive reforçar a dimensão de equidade do debate por meio da ideia de um “Equitable TAFF Roadmap”, indicando que questões de diferenciação e justiça distributiva continuarão centrais para ampliar o apoio político ao processo (Política por Inteiro).

CONJUNTURA GLOBAL

A conjuntura geopolítica atual é de grande instabilidade e pouco favorável ao avanço da agenda climática. Verificamos retrocessos no multilateralismo, com consequências para o enfraquecimento da ONU e suas organizações. Além disso, cabe destaque aos seguintes aspectos:

Guerra do Irã: Em fevereiro de 2026, EUA e Israel deram início a um ataque contra o Irã, sob o pretexto de destruir um pretenso arsenal nuclear daquele país. Diante da agressão, o Irã fechou o Estreito de Ormuz e atacou instalações militares dor EUA nos países vizinhos. A crise causada pela guerra e pela impossibilidade de escoamento do petróleo e seus derivados a partir do Estreito de Ormuz, causou uma crise de abastecimento energético global e alta do preço do petróleo. A guerra aumenta o debate e a pressão pela descarbonização da economia e por uma transição energética global que nos afaste da dependência do petróleo ("phase out" do petróleo). 

Também cabe aqui fazer alguns alertas. Uma análise feita pelo Climate and Community Institute e divulgada pelo The Guardian, apontou que somente os primeiros 14 dias da Guerra contra o Irã produziu uma emissão de 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (tCO2e). Relatório da ONU denunciou que os gastos militares bateram um novo recorde mundial no ano passado chegando a US$ 2,7 trilhões. Mais de 100 países, de todas as regiões do planeta, aumentaram os orçamentos de defesa levando a corrida armamentista a um patamar jamais visto. Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, "gastos militares excessivos não garantem a paz" e podem, inclusive, prejudicá-la, “alimentando corridas armamentistas, aprofundando desconfianças e desviando recursos das verdadeiras bases da estabilidade”. Segundo o relatório, apenas 4% desse gasto já seria suficiente para acabar com a fome no mundo e 10% acabariam com a pobreza extrema. (Saiba mais aqui). Também é fato que o aumento dos gastos militares desviam recursos que antes tinham prioridade para a agenda climática e outros temas ambientais.

Ondas de Calor na Europa causa mortes: Logo após a SB64, de 20 a 28 de junho, aconteceu a Semana de Ação Climática de Londres (London Action Climate Week 2026), quando cerca de 75 mil pessoas, dentre elas muitas das principais lideranças climáticas, dentre gestores públicos, representantes da sociedade civil, empresários, reuniram-se novamente para debater a transição para o "Net Zero" e indicar caminhos para as negociações na COP31. Os dois eventos ocorreram quando vimos a Europa enfrentar mais uma grave onda de calor, que segundo a Organização Mundial da Saúde - OMS, já causou mais de 1.300 mortes, somente na semana do dia 21 de junho, com causas "associadas às altas temperaturas na Europa". A atual onda de calor já é considerada a mais intensa na história da Europa e seria a consequência do que os meteorologistas chamam de Bloqueio Ômega, um padrão atmosférico  que mantém a massa de ar quente estagnada sobre uma mesma região, impedindo a chegada das frentes frias. Nos últimos dias, o nível de calor bateu recordes em várias partes da Europa (fonte: G1):
  • Na França, os termômetros ultrapassaram os 40°C em diferentes regiões ao longo da semana. 
  • Na Alemanha, a temperatura chegou a 41,5°C no sábado, a maior já medida no país. O serviço meteorológico alemão ainda alertou que os termômetros poderiam se aproximar dos 42°C. 
  • Na República Tcheca, a temperatura chegou a 40,8°C ao norte de Praga, com previsão de ultrapassar os 41°C neste domingo. 
  • Em Basileia, na Suíça, os termômetros marcaram 39°C, estabelecendo pelo terceiro dia seguido um novo recorde para o mês de junho. 
  • Já a Dinamarca registrou 37°C, a maior temperatura desde o início das medições no país.
Fonte: Earth.org, com dados do World Weather Attribution (WWA).

Alguns relatos afirmam que foram registrados quase 59°C no pavimento das ruas. Devido ao calor, escolas fecharam, transporte ferroviário foi paralisado por medo de dilatação dos trilhos. 

A OMS afirmou que cerca de 150 milhões de pessoas vivem atualmente sob condições de calor extremo, que já pressionam os sistemas de saúde, afetam a infraestrutura e sobrecarregam as redes elétricas em diferentes países. Cerca de 489 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência de problemas de saúde associados ao calor extremo. Desse total, 45% das mortes ocorrem no Sudeste Asiático e 36% na Europa, evidenciando que o calor já é uma das ameaças climáticas mais letais do mundo (fonte: OMS, in Política por Inteiro). Eventos da Semana do Clima de Londres chegaram a ser cancelados devido ao excesso de calor!

Uma Copa sob a marca das Mudanças Climáticas: A Copa do Mundo de Futebol em curso, que se realiza no México, EUA e Canadá, já é considerada a mais quente da história. Portanto, foram estabelecidas regras relacionadas às previsões de ondas de calor e a possibilidade de como tempestades, granizo e outros eventos climáticos extremos que seriam potencializados pela ocorrência do Super El Niño. Diante disso, foram estabelecidas novas regras como a Pausa para Hidratação dos atletas em cada tempo do jogo e, para jogos nos EUA, haverá a suspenção dos jogos a qualquer momento, sempre que houver ocorrência de raios a uma determinada distância dos estádios. Interessante a regra estabelecida justamente no país com o governo mais negacionista climático do planeta.

Negacionismo climático do Governo Trump: A CEO da COP30, Ana Toni, comentou em entrevista à GloboNews que os EUA acabam de lançar um plano de resiliência climática, que curiosamente não se refere uma vez sequer à emergência climática. Portanto, mantendo a atitude negacionista mesmo diante de todos os alertas da Ciência, como nos documentos emitidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, o relatório do governo Trump tenta convencer da normalidade dos fenômenos climáticos observados em todo o mundo.

O QUE TEREMOS PELA FRENTE?

Duplo comando na COP31: A COP31 tem um grave complicador que vem atrapalhando o avanço dos debates além do normal: a conferência será liderada pela Turquia, que sediará o evento (Antalya), e a Austrália que terá a presidência da conferência, comandando as negociações. O duplo comando foi o resultado da falta de entendimento entre os países membros da UNFCCC e, obviamente, será um desafio a mais para a próxima COP. 

Novas formas de buscas de consenso: Há um movimento para o fortalecimento de fóruns de discussão alternativos ou complementares aos espaços formais da UNFCCC, onde pode-se avançar sem estar atrelado às regras de obrigatoriedade de consenso. Entre 24 e 29 de abril de 2026, realizou-se o Fórum de Santa Marta, um encontro paralelo realizado pela primeira vez, com o objetivo de avançar na transição para longe do petróleo, do carvão e do gás. A realização do encontro foi decidida durante a COP30, quando houve lamentavelmente um bem-sucedido movimento lobista contra qualquer decisão ou até menção nos documentos finais sobre o tema da descarbonização.

O nível de apoio ao Fórum de Santa Marta, realizado com o apoio do governo da Colômbia e da Holanda, surpreendeu com a presença de 57 países (1/3 da economia mundial). Um encontro preparatório reuniu cerca de 400 especialistas acadêmicos para gerar argumentação para o resultado do encontro. Também foi dada especial atenção à participação de povos indígenas e representações da sociedade civil. (Saiba mais em Carbon Brief)

Foco estratégico no metano: O metano é 80 vezes mais potente do que o CO2 e permanece na atmosfera por apenas 10 ou 15 anos, ou seja, bem menos do que o CO2. Por isso, há uma mobilização para a priorização às ações de mitigação das emissões de metano, que pode ter grande efetividade e onde não há um lobby contrário tão poderoso como no caso do petróleo. Ou seja, avançamos no metano, enquanto enfrentamos as resistências contra o phase out do petróleo.

Cidades ganharão relevância: Em março de 2027, o IPCC lançará o novo relatório, dessa vez tendo como o tema "Cidades e Clima" (Special Report on Climate and Cities). O foco estará nos impactos urbanos e nos esforços de adaptação climática em curso nas cidades. Espera-se que o relatório fortaleça o reconhecimento da importância das ações locais e a necessidade de avanços nas políticas climáticas multinível.

Axel Grael
Doutorando PPGAU/UFF
Membro do GexCom/ICLEI


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Texto produzido com observações e conclusões pessoais, bem como com informações de:

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sem medidas de adaptação eficazes, Europa aquece em ritmo superior à média global e tem 1.300 mortes adicionais em uma semana

Pessoas tentam se refrescar na frente de um jato d'água instalado em uma caminhonete da Defesa Civil perto do Coliseu — Foto: Andreas SOLARO / AFP

Pessoas pulam no Canal Saint-Martin durante uma onda de calor na França, em Paris — Foto: Ludovic MARIN / AFP

Continente enfrenta mudança climática ao mesmo tempo em que passa por profunda transformação demográfica, com aumento de população vulnerável

Por Amanda Scatolini

Quando a Europa enfrentou uma histórica onda de calor em 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, o episódio foi inicialmente tratado como um ponto fora da curva. Nos anos seguintes, porém, temperaturas extremas passaram a fazer parte da rotina dos verões europeus — como o deste ano, que mal começou e trouxe poderosa onda de calor em sua primeira semana, que já causou, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no domingo, mais de 1,3 mil mortes adicionais.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicou no X que "neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob um calor extremo, escolas estão fechadas e redes elétricas em colapso". Sublinhou que "o estresse pelo calor é frequentemente chamado de 'assassino silencioso', e as casas, locais de trabalho e escolas europeias não foram construídos para suportar essas temperaturas". Na França, a agência nacional de saúde pública especificou que o surto afeta principalmente pessoas com mais de 65 anos e destacou aumento de 40% nas mortes em casa.

Enquanto sucessivos recordes de altas temperaturas são registrados em diferentes países, a Europa passa por uma transformação demográfica profunda, com população cada vez mais envelhecida e, consequentemente, mais vulnerável a extremos. A combinação dos fenômenos levanta uma questão que especialistas tentam responder há anos: até que ponto a Europa realmente se adaptou para enfrentar o problema?

Apesar de altas temperaturas não serem fenômeno exatamente novo para os europeus, a frequência, a duração e a intensidade de eventos extremos aumentaram significativamente desde a década de 1980, aponta a Agência Europeia do Ambiente (EEA). Além disso, segundo o observatório climático Copernicus, o continente é o que aquece mais rapidamente no planeta. A temperatura média europeia aumentou cerca de 0,49°C por década desde 1979 e, considerando só os últimos 30 anos, o ritmo é de 0,56°C por década — mais que o dobro da média global.

Os verões mais quentes registrados na Europa — Foto: Arte/ O GLOBO


100 milhões afetados

Recordes recentes, sobretudo a partir dos anos 2010, ilustram a tendência, com o verão de 2024 sendo o mais quente da série histórica até então. Naquele ano, a temperatura média do continente foi 1,54°C acima das registradas entre 1991 e 2020. Mais de 62,7 mil mortes relacionadas ao calor foram estimadas, o que põe o verão daquele ano como o segundo mais letal, atrás do de 2003.

Ainda que seja cedo para dizer que o verão deste ano entrará para o rol dos mais quentes registrados na Europa, seus primeiros dias (a estação começou no dia 21) já são históricos para a média de junho. Parte do continente é hoje assolada por uma nova onda — provocada por uma massa de ar extremamente quente proveniente do Norte da África e mantida sobre a Europa Ocidental por um sistema de alta pressão, formando um "domo de calor" — que já quebrou recordes em diversos países, com termômetros marcando mais de 40°C em alguns locais.

De acordo com a agência AFP, pelo menos 191 milhões de pessoas enfrentaram 35°C ou mais neste domingo, com temperaturas particularmente altas na Alemanha, República Tcheca, Hungria e Polônia.

Diante do quadro alarmante, que tende a se agravar, a principal estratégia recomendada pela OMS são os chamados Planos de Ação em Saúde para o Calor (HHAP, na sigla em inglês). Eles integram serviços de meteorologia, saúde pública e defesa civil para reduzir impactos.

O guia, que foi atualizado pela OMS este ano, indica a implementação de sistemas de alerta antecipado, protocolos para hospitais e serviços de emergência, campanhas de comunicação, mecanismos de monitoramento de grupos vulneráveis e procedimentos para resposta durante episódios de calor extremo.

— As ondas de calor deixaram de ser anomalias isoladas. São uma crise recorrente que causa sofrimento, ceifa vidas e sobrecarrega sistemas e infraestrutura de saúde — afirmou o diretor da OMS Europa, Hans Kluge.

Impacto humano das ondas de calor no continente — Foto: Arte/O Globo

Contudo, apesar dos avanços, a cobertura desses mecanismos não é universal no continente. Segundo levantamento de 2024 da EEA e do Observatório Europeu do Clima e da Saúde, 10 dos 38 países analisados não têm HHAPs estabelecidos (Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Estônia, Finlândia, Islândia, Kosovo, Montenegro, Noruega, Polônia e Sérvia). Outros três ainda estão em processo de desenvolvimento (Chipre, Dinamarca e Romênia).

Noruega e Finlândia registraram onda de calor em junho de 2025, com temperaturas acima de 30°C até em áreas próximas ao Ártico. No mesmo período, Polônia e Sérvia foram atingidas pelo fenômeno, que elevou a temperatura da superfície acima de 50°C em partes da Europa Central.

Além das medidas voltadas à saúde pública, algumas cidades também passaram a investir em adaptações urbanas para tentar amenizar os efeitos do calor cada vez mais intenso. Em Paris — que sofre intensamente com a atual onda de calor —, a estratégia começou a ganhar forma em 2015, quando a prefeitura mapeou uma rede de “ilhas de frescor”, com parques, áreas verdes, piscinas, bibliotecas, museus, igrejas e espaços públicos considerados adequados para enfrentar o calor extremo. Em 2018, a capital francesa já contava com mais de 800 locais acessíveis durante o dia e cerca de 150 à noite.

Na Espanha, Barcelona lançou uma rede de abrigos climáticos em 2020, inicialmente com 70 locais, ampliada para mais de 350 espaços, entre bibliotecas, centros comunitários, parques, mercados, museus e piscinas públicas. Outras intervenções incluem a ampliação da cobertura vegetal urbana, a criação de áreas sombreadas, a adoção de materiais mais refletivos em edifícios e pavimentos e a incorporação do risco de calor ao planejamento urbano.

Porém, não parece ser suficiente. Especialistas apontam que a transformação estrutural das cidades avança em ritmo lento, uma vez que grande parte da infraestrutura urbana foi concebida para enfrentar invernos rigorosos, e não verões cada vez mais quentes como o deste ano.

— Muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e em planos de ação após 2003. Essas medidas salvaram muitas vidas, mas não são suficientes — afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha, ao jornal britânico Guardian. — Precisamos de mais investimentos em casas, cidades e infraestrutura resistentes ao calor.

Envelhecimento rápido

O arquiteto e urbanista Luiz Florence, do Grupo de Trabalho Clima e Cidade do Instituto de Arquitetos do Brasil-SP, explica que a própria formação histórica das cidades europeias impõe desafios. Antigos núcleos medievais, marcados por ruas estreitas e edificações muito próximas, favorecem áreas de sombra, mas dificultam a circulação natural do ar.

— Quando essas cidades foram criadas, o convívio muito próximo com a natureza poderia oferecer uma exposição a vetores de doenças sanitárias. Então as cidades eram uma negação da natureza — disse ao GLOBO. — Hoje, com técnicas mais avançadas e políticas de saúde pública, é possível trazer a natureza de volta.

Em meio a esse cenário, a população europeia envelhece a passos largos. Combinados, os quadros põem em evidência um dos principais desafios associados ao calor extremo, que é a proteção de grupos mais vulneráveis, especialmente os idosos.

Hoje, pessoas com 65 anos ou mais representam cerca de 21,6% da população da União Europeia, segundo o Eurostat. Com o envelhecimento, o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e responder ao estresse térmico. Idosos também apresentam maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas, que podem ser agravadas por temperaturas elevadas.

Fonte: O Globo





quinta-feira, 18 de junho de 2026

Ondas de calor causaram 120 mil mortes em duas décadas no Brasil, diz Fiocruz

Onda de calor atinge o Rio de Janeiro. Na foto, passageiros procuram se proteger do sol quente na sombra de um poste em ponto de ônibus da Avenida Presidente Vargas, na Cidade Nova — Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Cientistas cruzaram dados de óbitos com histórico de temperaturas e sugerem que situação está piorando com mudança climática; altas temperaturas explicam 0,6% da mortalidade no país

Rafael Garcia, O Globo, São Paulo.

Um estudo que cruzou históricos de temperaturas no país com dados sobre óbitos indica que, em um período de vinte anos, as ondas de calor causaram mais de 120 mil mortes no Brasil.

O trabalho, realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta que os esses períodos extensos com temperaturas extremas explicam 0,6% da mortalidade no país entre os anos de 2000 e 2019.

A pesquisa não faz uma projeção sobre quanto o fenômeno está se agravando, mas os autores do trabalho sugerem que, com a mudança climática, o peso desses eventos extremos tende a aumentar na saúde dos brasileiros.

— Quando uma pessoa está exposta a muito calor, o corpo produz uma reação fisiológica para manter a temperatura corporal interna entre 36,5°C e 37°C, que é o intervalo ótimo para nossas funções vitais — explica Beatriz Oliveira, cientista da Fiocruz coautora do trabalho. — Quando isso ocorre em conjunto com esforço físico, uso de roupas, e outros fatores, se você não consegue dissipar esse calor que está recebendo ou produzindo internamente, começa a sobrecarregar esses mecanismos de termorregulação e comprometer algumas funções, principalmente as cardiovasculares e respiratórias.

Ao mapear a variação local de temperatura em todo o país com uma precisão de 9 km, os cientistas conseguiram cruzar esses dados com informações específicas nos registros de óbitos das pessoas, para tentar enxergar o efeito do calor em problemas de saúde impactados por ele.

Como critério, o estudo considerou que uma onda de calor é um período de 48 horas no qual a temperatura está acima do percentil 95% para a média de temperatura histórica de determinado local. O estudo apontou uma relação clara entre esse tipo de evento e as mortes por causas que podem ser agravadas pelo tempo muito quente.

— Essas 120 mil mortes podem ser interpretadas como o número de mortes atribuídas a esses eventos — diz Oliveira.

O mapeamento nacional feito pelos cientistas buscou entender também como esse fenômeno variou entre as cidades e os estados, mas as diferenças sociais e etárias pareceram ser mais relevantes para identificar populações e maior risco.

Os dados mostram que os idosos, que possuem mais limitações em manter os mecanismos de homeostase corporal para controle de temperatura, foram os mais afetados pelas ondas de calor. Mais de 97 mil óbitos de pessoas com 65 anos ou mais foram associados a esses eventos, compondo 80% do total no estudo.

O trabalho também avaliou o impacto da persistência de temperaturas altas na quantidade de internações feitas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), para alguns dos municípios estudados. Nessa outra seção do estudo, as crianças se mostraram um grupo de risco relevante, afetadas também por problemas gastrointestinais.

— As crianças são muito vulneráveis à desidratação, e o calor estimula a proliferação de micro-organismos de transmissão por via oral entre elas, tanto por alimentos que podem estar contaminados quanto pela ingestão de água não própria para o consumo — explica Oliveira.

Os problemas renais também foram uma condição médica relevante, segundo o estudo da Fiocruz e da UFBA.

Termômetro desigual

Um outro fator que pesou muito no desequilíbrio de impacto foi o grau de escolaridade das vítimas dos problemas de saúde relacionados ao calor. A quantidade de anos de estudo foi uma maneira indireta que os pesquisadores usaram para estimar tanto o acesso a ambientes com temperatura controlada (como residências com ar-condicionado) quanto à qualidade do atendimento de saúde, com hospitais privados mais bem preparados para acomodar a demanda.

A variação local foi menor do que se poderia esperar. Enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste, do país apresentaram os maiores valores de dias de ondas de calor e de duração média, as regiões Sudeste e Sul tiveram eventos relativamente mais intensos, o Nordeste teve valores intermediários.

O Amapá foi o estado que registrou o maior impacto de letalidade das ondas de calor. Ali, um total de 1,07% das mortes no período analisado foram atribuídas a esses fenômenos. Na Paraíba, o estado menos impactado, esse número foi de 0,30%. São Paulo e Rio de Janeiro tiveram números mais perto da média (0,65% e 0,61% respectivamente).

O estudo da Fiocruz também incluiu uma seção dedicada a autoridades e lideranças locais sobre como lidar com o problema que tende a se agravar no futuro.

— Uma das primeiras coisas a fazer é reconhecer que as onda de calor e o calor extremo são um risco prioritário para a saúde pública — diz Oliveira. — Em 2023 e 2024 a gente teve muitos eventos de onda de calor no país, e pouquíssimos locais declararam emergência por isso.

Além de estabelecer sistemas de monitoramento que permitam às prefeituras e o SUS anteciparem impactos, diz a cientista, é preciso que campanhas estimulem mudanças culturais na população, porque o calor ainda não é percebido como um risco relevante pela população.

— A própria população precisa entender que, em momentos de eventos extremos, a gente tem que se proteger e diminuir a exposição — defende Oliveira. — Precisamos mudar horários de fazer atividade física e evitar locais com muita exposição. Existem muitas pessoas que precisam trabalhar em baixo de sol, por exemplo, e precisam existir garantias para que esse trabalho seja intercalado com hidratação e momentos de pausa, para não sobrecarregar o sistema cardiorrespiratório das pessoas.

Oliveira afirma que uma das intenções do estudo da Fiocruz é estimular mais pesquisas na área, que possam inclusive cobrir algumas das limitações do estudo. Um dos problema foi que o trabalho só uso dados até 2019, porque a mortalidade pandemia de Covid-19 tornou difícil identificar e isolar o impacto as ondas de calor após aquele ano. Novos dados serão essenciais para guiar o poder público, diz.

Fonte: O Globo


terça-feira, 2 de junho de 2026

ENTREVISTA | O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil?

Pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) Gilvan Sampaio. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Entrevista com Gilvan Sampaio, meteorologista do INPE, ajuda a compreender o que é o aquecimento anormal nas águas do Pacífico equatorial, o que se sabe sobre a perspectiva do fenômeno para 2026 e a relação com a mudança do clima

As chances de o fenômeno El Niño se confirmar no segundo semestre e persistir até o fim de 2026 são de 82%, segundo o prognóstico mensal atualizado nesta quinta-feira (14/05) pelo Centro de Previsão da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), órgão que monitora a temperatura no oceano Pacífico equatorial. Contudo, ainda não há evidências científicas suficientes para assegurar qual será a intensidade do fenômeno, devido à estação de transição.

“É prematuro falar qualquer coisa em relação à intensidade do El Niño somente observando a temperatura da massa de água do oceano, especialmente agora, durante a estação de transição”, explica o meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e especialista em El Niño, Gilvan Sampaio. Durante a primavera e o outono, os modelos climáticos ficam menos precisos.

Pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), Sampaio esclarece os principais aspectos relacionados ao fenômeno, como a caracterização e os diferentes impactos no Brasil. Ele enfatiza ainda a necessidade de colocar a mudança do clima à frente do El Niño no rol de preocupações climáticas. “O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”, afirma.

Leia a entrevista com Gilvan Sampaio:

Quem faz o monitoramento dos dados primários para saber qual é a temperatura da água na região do Pacífico Equatorial?

Há uma rede de monitoramento sob responsabilidade da NOAA, que se chama TOGA [Tropical Ocean Global Atmosphere], que fornece os dados primários obtidos a partir das boias oceanográficas instaladas na região equatorial do oceano Pacífico, justamente para monitorar o El Niño. Essa rede integra o Programa de Pesquisa Climática Global da Organização Meteorológica Mundial para aferir a temperatura em pontos estratégicos no oceano ao longo da região na Linha do Equador.

Legenda: anomalia de temperatura no Oceano Pacífico. Dados divulgados pelo CPC/NOOA em 11/05/2026. Valores em graus Celsius.

Repercute uma imagem com uma massa de água quente no oceano Pacífico. O que está acontecendo?

Essa imagem mostra uma onda com águas muito mais quentes do que a média para essa época do ano, em profundidade de cerca de 100 a 150 metros no oceano, se deslocando do Pacífico oeste em direção à costa oeste da América do Sul. Muitas pessoas olham essa imagem e interpretam que vai haver um aquecimento muito forte do Pacífico equatorial, levando a um El Niño muito intenso. Embora esse tipo de onda no oceano seja lenta, ainda é cedo para dizer se vai perdurar ao longo do segundo semestre, e, se perdurar, qual será a intensidade do aquecimento das águas. Pode haver mudanças rápidas e a onda perder intensidade. Entre abril e maio, estamos em uma estação de transição, e os modelos climáticos são menos confiáveis. É claro que temos que monitorar. Se continuar como está, aí sim nós podemos ter um El Niño de moderado a forte. A partir de junho, os modelos começam a ficar mais confiáveis, teremos um quadro melhor da evolução e podemos falar com mais segurança sobre a intensidade do El Niño.

Como saber quando se configura o fenômeno El Niño?

Configura El Niño quando as temperaturas da água persistem acima de, pelo menos, meio grau Celsius, por alguns meses, nas regiões do oceano chamadas de Niño 3.4, Niño 3, Niño 2, que estão localizadas entre as latitudes 5 graus ao norte e 5 graus ao sul no Pacífico, ao longo da Linha do Equador. Não basta só o aquecimento do oceano, tem que ter a resposta da atmosfera junto. O principal sinal de que mexeu com a circulação atmosférica é quando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste na região da Linha do Equador, perdem a intensidade. Isso provoca uma modificação da célula de circulação de Walker, alterando o padrão de ventos e formação das chuvas na troposfera, que é a camada mais baixa da atmosfera. É uma mudança total da circulação atmosférica, não apenas nessa região, mas em praticamente todo o globo. Isso não aconteceu ainda neste ano.

À esquerda, o funcionamento da Célula de Circulação Walker em condições normais. À direita, a célula sob a influência do El Niño. Fonte: CPTEC/INPE

Quais são os impactos do El Niño no Brasil?

Para o Brasil, o El Niño tem impactos de seca no norte e no leste da Amazônia e no norte do Nordeste, durante o primeiro semestre do ano. Se o El Niño persistir no segundo semestre de 2026, poderá ter impactos no ano que vem.

Para o Sul do Brasil, o impacto é na primavera do hemisfério Sul [em setembro]. Veja, por exemplo, aqueles impactos grandes no Sul do Brasil — que foram dois episódios de chuvas muito intensas durante o El Niño de 2023 —, ocorreram em setembro de 2023. Depois, outro impacto em abril/maio de 2024.

Caso se configure El Niño em julho ou agosto, significa que a região Sudeste terá um inverno menos frio do que o normal e pode ser que tenha períodos com ondas de calor. A depender da intensidade, o principal impacto nos próximos meses serão temperaturas mais altas do que a média histórica.

Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul para os períodos de verão (dezembro a fevereiro) e inverno (junho a agosto) Fonte: BTR1/CPTEC/INPE

Esse fenômeno está ocorrendo em um cenário de aquecimento global. As pessoas estão olhando para o El Niño, mas deveriam estar mais preocupadas com a mudança do clima?

Exatamente, a mudança do clima é o principal fator. O golpe de misericórdia, digamos assim, vem com o El Niño porque aumenta os extremos climáticos, ou seja, períodos quentes, chuvas intensas, ondas de calor. O El Niño potencializa, mas o principal é o que vem do aquecimento global. Independentemente de ter El Niño ou não, estamos vendo os extremos aumentando a frequência em toda a região tropical, principalmente.

Pensando em questões estratégicas, como agricultura e abastecimento de água, as pessoas devem se preocupar?

Se continuar esse aquecimento subsuperficial das águas do Pacífico ao longo dos próximos meses, teremos um El Niño moderado, no mínimo. O El Niño moderado traz consequências para o Brasil. Por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, ocorre o aumento das chuvas durante a primavera, isso traz impacto muito grande para a agricultura.

O inverno um pouco mais quente no Sul, Sudeste e em parte do Centro-Oeste pode trazer problemas associados, como atraso na próxima estação chuvosa. Hoje, os reservatórios do Sudeste estão com problemas. Persistindo a seca, o problema pode ser potencializado para o ano que vem.

E no caso da Amazônia?

Na Amazônia, as secas são provocadas por dois fenômenos e em duas regiões distintas. O El Niño provoca secas no norte e leste da Amazônia e ocorrem no primeiro semestre do ano, que é o período chuvoso na região.

As secas que ocorrem no oeste e sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e Rondônia, estão associadas com o aquecimento do Atlântico Tropical Norte. No momento, não tem nenhum aquecimento abrupto no Atlântico Norte, que fica ao norte da América do Sul. E, se tivesse, esse sim ocorre agora em julho, agosto e setembro.

Os fenômenos El Niño estão se tornando mais frequentes?

Não dá para afirmar ainda, mas todas as projeções indicam que eles se tornarão mais frequentes e intensos. O aquecimento global não aquece só a atmosfera, ele aquece também os oceanos. Algumas projeções indicam que, no final do século XXI, teremos um clima semelhante ao El Niño semipermanente, com mais volume de chuvas no Sul e menos no norte e leste da Amazônia e norte do Nordeste. Se você olhar as projeções climáticas para o Brasil, é mais ou menos esse o retrato dessas projeções.

Quais são as fontes de informação para que as pessoas possam ser esclarecidas sobre o El Niño?

No Brasil, no âmbito do MCTI, o órgão responsável pelo monitoramento e a previsão de El Niño é o INPE, por meio do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, o CPTEC. Em breve, vamos lançar um boletim de acompanhamento do El Niño, assim como fizemos em 2023.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação



domingo, 31 de maio de 2026

Niterói é uma das poucas cidades a contar com uma política para evitar e controlar incêndios em vegetação

 

Agentes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros combatem foco de incêndio no Vital Brazil, em janeiro: este ano, antes mesmo do início do período de estiagem, autoridades já registraram cem chamados — Foto: Divulgação / Claudio Fernandes

Em 2012, fui eleito vice-prefeito de Niterói na chapa com o prefeito Rodrigo Neves. Fui designado por Rodrigo para coordenar a transição entre a nova gestão e a gestão que saía. Dentre as minhas muitas preocupações naquela ocasião, estavam em evitar fatos que pudessem nos surpreender no início da gestão, por exemplo, o risco de um desastre climático naquele primeiro verão. Isso seria muito relevante pelo risco em si, mas também por que Niterói ainda se recuperava do trauma da chamada "Tragédia do Morro do Bumba", ocorrida em 2010.

Iniciado o governo, a Defesa Civil ficou sob a minha responsabilidade, como parte das atribuições da Vice-Prefeitura. Iniciamos a gestão, em janeiro de 2013, tendo a primeira  versão do Plano Chuvas de Verão já preparado. Mas, tínhamos uma Defesa Civil precária e praticamente sem qualquer recurso tecnológico. O que prevíamos aconteceu: a cidade sofreu com chuvas intensas mas estávamos preparados, apesar do pouco tempo de organização e a falta de estrutura. A cidade resistiu, mas longe ainda do estágio de preparação que queríamos. 

Passado o momento de sufoco daquele verão, dedicamos o restante do ano a nos preparar para o verão seguinte (2013-2014). Desenvolvemos o Plano de Contingência e treinamos equipes de diversos órgãos da Prefeitura para cada um ter o domínio do procedimento a tomar em caso de emergência climática. 

E o que aconteceu naquele verão? Justamente o contrário do que era esperado: nada de chuva! Enfrentamos uma longa estiagem e o período de maior ocorrência de incêndios em vegetação já registrado na cidade.

Números dos incêndios em vegetação no verão 2013/2014, segundo monitoramento contratado pela Prefeitura.

Com ajuda do helicóptero e efetivos dos Bombeiros, superamos aquele desafio. Como um engenheiro florestal que já havia lidado com problemas de queimadas antes, vi naquele momento a oportunidade de inovar a criar uma política de prevenção e enfrentamento às queimadas.

Helicóptero combate incêndio em área de mata no Morro do Cavalão, em São Francisco. Foto Axel Grael.

Lançamos o programa Niterói Contra Queimadas com a liderança da Defesa Civil, da Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade (SMARHS) e do Corpo de Bombeiros. Formamos o NUDEC Queimadas, que hoje já soma mais de 700 voluntários treinados.

Fizemos uma parceria com o Corpo de Bombeiros e criamos um sistema de pagamento aos bombeiros em momento de folga, para reforçar o enfrentamento às queimadas e ação preventiva nas comunidades em situação de normalidade.

Também criamos uma rotina de Rondas Preventivas com ação educativa nos locais de maior ocorrencia de focos de incêndio. Cartilhas são distribuídas alertando que causar incêndio em vegetação é crime,  queimar lixo também é contra a legislação e altamente prejudial à saúde humana e ao meio ambiente. Outro alerta importante é contra a inaceitável prática de soltura de balões, ato criminoso e altamente perigoso para as matas, para a infraestrutura urbana e industrial e para o patrimônio das famílias.

Essas medidas, poderão ser decisivas nos meses que virão, uma vez que espera-se uma longa estiagem devido ao super El Niño que está se formando. O risco de incêndios em vegetação aumentam muito nessas condições.

Os esforços de Niterói para combater queimadas rendeu um prêmio para a cidade.

Hoje, temos reconhecidamente uma das melhores, mais preparadas e mais bem equipadas defesas civis do Brasil. Ainda há muito por fazer, mas Niterói mostra o caminho do controle e prevenção às queimadas e zelo pelas nossas florestas e vidas nas encostas.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Vice-prefeito de Niterói (2013-2016)


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Bombeiro combate incêndio no Vital Brazil, em Niterói, janeiro deste ano — Foto: Divulgação/Claudio Fernandes

Niterói reforça ações para enfrentar Super El Niño após registrar quase cem focos de incêndio em 2026

Defesa Civil amplia monitoramento e abre nova turma de voluntários; previsão aponta redução de chuvas e temperaturas acima da média nos próximos meses

Com a previsão de um “super El Niño” nos próximos meses e a expectativa de redução das chuvas no Sudeste, a Prefeitura de Niterói intensificou as ações de prevenção contra queimadas, um dos principais problemas ambientais enfrentados pela cidade durante o período mais seco do ano. Em 2026, de acordo com o Corpo de Bombeiros, o município já registrou quase cem focos de incêndio em vegetação, sendo 20 apenas neste mês de maio.

O alerta ocorre em meio a projeções climáticas que apontam para temperaturas acima da média e estiagem mais intensa entre maio e julho. Segundo análise do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), as condições associadas ao estabelecimento do El Niño devem favorecer a ocorrência de queimadas no Estado do Rio.

O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, preocupa autoridades em todo o país. Governos estaduais e o governo federal vêm adotando medidas preventivas diante da possibilidade de um “super El Niño”, que pode provocar temporais no Sul e intensificar secas e ondas de calor em outras regiões do Brasil. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já alertou para o aumento do risco de incêndios no Sudeste.

Em Niterói, a preocupação se concentra principalmente no período entre maio e setembro, que historicamente concentra a maior parte dos incêndios em vegetação. Dados da Defesa Civil municipal mostram que, entre 2021 e 2025, foram registradas 832 ocorrências nesse intervalo.

Ao longo dos últimos anos, a preocupação é crescente. O Corpo de Bombeiros foi acionado 66 vezes para combate às chamas em Niterói entre os dias 1º de janeiro e 28 de maio de 2023. Foram 194 vezes no mesmo período em 2024, e 379 vezes em 2025.

Mais prevenção

Para enfrentar o problema, a prefeitura ampliou a chamada Operação Queimadas, baseada em monitoramento tecnológico e mobilização comunitária. São usados drones, sensores, imagens de satélite e mapas georreferenciados para identificar áreas vulneráveis e acelerar a resposta contra os focos de incêndio.

Um dos pilares da estratégia é o trabalho do Núcleo de Defesa Civil (Nudec) Queimadas, formado atualmente por cerca de 700 voluntários distribuídos em 15 grupos pela cidade. Eles atuam em parceria com o Corpo de Bombeiros em ações de orientação, prevenção e identificação rápida de focos de fogo.

O secretário municipal de Proteção e Defesa Civil, coronel Walace Medeiros, explica que o principal objetivo é evitar que incêndios aconteçam.

— O combate às queimadas começa muito antes do incêndio. Trabalhamos fortemente na prevenção, no monitoramento e na conscientização da população — diz.

Moradora da Comunidade da Salina, em Jurujuba, Conceição Jeremias da Silva Neta, de 47 anos, afirma que as queimadas já colocaram residências da região em risco.

— Já presenciei diversas queimadas por causa da vegetação extensa que temos no bairro. Em algumas situações, o fogo se espalhou muito rápido e chegou perto das casas. Muitas pessoas achavam normal queimar lixo no quintal ou até viam a queda de balão como algo bonito, mas hoje sabemos o quanto isso pode ser destruidor — relatou.

Como parte das ações preventivas, a Defesa Civil abrirá uma nova turma de formação do Nudec Queimadas nos dias 4, 11, 18 e 25 de julho. As inscrições serão divulgadas nas redes sociais do órgão. O treinamento inclui aulas de primeiros socorros, prevenção e combate a incêndios, meteorologia, orientação cartográfica e cuidados com animais em áreas atingidas pelo fogo.

Segundo a prefeitura, a Defesa Civil de Niterói conta com mais de três mil voluntários distribuídos em 153 núcleos comunitários especializados em diferentes áreas de atuação. Nos últimos 13 anos, o município afirma ter investido mais de R$ 1,7 bilhão em ações de prevenção e mitigação de desastres naturais.

A Defesa Civil orienta a população a evitar práticas que podem provocar incêndios, como colocar fogo em lixo, folhas secas ou restos de poda, jogar guimbas de cigarro em áreas de vegetação e descartar carvão ainda aceso em terrenos ou matas. Soltar balões, além de crime ambiental, também representa risco.

Em caso de fumaça ou princípio de incêndio, a recomendação é acionar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193, sem tentar combater incêndios de grandes proporções sozinho.

O órgão também orienta que folhas, galhos e restos de poda sejam ensacados e destinados à coleta regular de lixo. Em grandes volumes, o descarte deve ser solicitado à Clin. A prefeitura destaca ainda que podas dependem de autorização prévia da Secretaria de Meio Ambiente e que resíduos vegetais podem ser reaproveitados em compostagem, jardinagem e artesanato.

Fonte: O Globo Niterói


sábado, 30 de maio de 2026

RETROCESSO: Empresas não são mais obrigadas a fazer relatório de sustentabilidade

 

Foto Agência Nacional de Mineração

Mais um retrocesso no arcabouço da legislação ambiental brasileira que foi construído ao longo das últimas décadas. 

A Comissão de Valores Mobiliários - CVM, uma autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, que tem o objetivo de fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores, anunciou na noite de ontem (29 de maio), a aprovação de uma alteração da Resolução 193/2023, revogando a obrigação das empresas de capital aberto a publicarem e divulgarem os seus Relatórios de Sustentabilidade. Com o documento, as empresas tinham a obrigatoriedade de reportar as informações financeiras relacionadas à ação de sustentabilidade praticadas pela companhia. 

A Resolução 193/2023 (com as suas alterações posteriores) estabelecia que:
ART.2° Fica estabelecida, para as companhias abertas, a obrigatoriedade de elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base nas normas emitidas pelo CBPS, e aprovadas pela CVM, a partir dos exercícios sociais iniciados em, ou após, 1º de janeiro de 2026.
De acordo com a Resolução CVM 193, as empresas precisavam elaborar relatórios estruturados de acordo com as normas internacionais do ISSB (International Sustainability Standards Board), conhecidas como IFRS S1 e S2. Os relatórios seguiam a mesma periodicidade estabelecida para as respectivas demonstrações financeiras.

A aprovação da exigência pela CVM foi considerada uma inovação mesmo no âmbito internacional e tinha por finalidade enfrentar o chamado "greenwashing", maquiagem ambiental, ou o marketing enganoso de um pretenso compromisso socioambiental e ecológico corporativo, sem comprovação ou respaldo nas práticas efetivas das empresas. Com a nova Resolução CVM 244, que "reforma a CVM 193", as empresas não têm mais a obrigatoriedade de apresentar esse compromisso.

A CVM ofereceu as seguintes explicações na sua página no GOV.BR:
As alterações visam a aperfeiçoar o modelo de adoção voluntária, preservando a transparência e a comparabilidade trazidas pela necessidade de observância dos padrões contábeis, mas resgatando o necessário respeito à liberdade das entidades para estimar os custos e benefícios esperados de suas decisões sobre como usar os recursos dos investidores. 

A principal mudança é a remoção da obrigatoriedade que a versão original da norma impusera às companhias abertas, após período de adoção voluntária. Com isso, o regime aproxima-se daquele que a própria redação anterior já previa para fundos de investimento e sociedades securitizadoras, pois para tais entidades não havia previsão de adoção forçada do reporte de informações de sustentabilidade nos padrões contábeis. 

O padrão contábil internacional é mantido: as companhias que optarem por publicar informações financeiras de sustentabilidade só poderão fazê-lo se observarem as normas do CBPS e ISSB, com isso preservando a confiabilidade e aumentando a comparabilidade dessas publicações. Por outro lado, as companhias que entenderem que essa adoção não é adequada para seus negócios não terão tal obrigação, devendo apenas publicar sua opção por meio de comunicado ao mercado, em modelo de "pratique ou explique".
"Pratique ou explique"? Fui procurar saber o que era isso e, segundo o IA do Google, significa: 
O "Pratique ou Explique" é um mecanismo de autorregulação (muito utilizado pela B3 e pela CVM) onde empresas listadas na bolsa devem adotar boas práticas de governança e sustentabilidade, ou explicar publicamente o motivo de não o fazerem.
LOBBY OU TIRO NO PÉ?

Segundo o portal RESET, a CVM cedeu às pressões da Associação Brasileira das Companhias Abertas - ABRASCA, que no final de 2025, às vésperas de entrada em vigor (2026) da obrigação de contabilização os dados para divulgação em 2027, protocolou um documento pedindo a derrubada das regras ou o seu adiamento por três anos. A CVM surpreendeu o mercado, recuou na obrigação e sequer estabeleceu um prazo para retomar a obrigatoriedade.

A ABRASCA argumentou que o cumprimento da norma, ou seja, a preparação do relatório, "poderia chegar a representar 70% dos gastos de auditoria".

ORA, SE AS EMPRESAS NÃO QUEREM TER GASTOS COM UM RELATÓRIO, QUAL DEVE SER O NÍVEL DE COMPROMISSO E MOTIVAÇÃO DAS MESMAS NO CUMPRIMENTO DAS SUAS RESPONSABILIDADES AMBIENTAIS E CLIMÁTICAS? 

QUAL A COMPARAÇÃO ENTRE OS GASTOS QUE PRATICAM COM "PUBLICIDADE VERDE" E RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E O QUE EFETIVAMENTE INVESTEM EM SUSTENTABILIDADE?

Obviamente, as despesas que as empresas da ABRASCA estão reclamando não são as referentes a preparação do relatório em si, mas a obrigação de fazer as suas obrigações ambientais estabelecidas na legislação ou no licenciamento ambiental, ou ainda aquelas ações de responsabilidade socioambiental que os seus acionistas, o mercado e a sua clientela exigem.

O RESET também informou que durante os debates houve reação de outros setores como o Instituto de Auditoria Independente do Brasil (IBRACON), do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) a AMEC, APIMEC e a FIPECAFI. Alertaram que seria um "retrocesso relevante para a eficiência do mercado". O grupo de organizações alertou que tornar as normas opcionais abriria brechas estruturais para o "greenwashing involuntário ou estratégico" sem capacidade de influenciar de modo disciplinador o comportamento corporativo e o custo do capital.

Em fevereiro de 2026, a CVM havia rejeitado o pleito da ABRASCA alegando que seria injusto com empresas que já testavam o modelo, como Vale, Renner, C&A e Natura. Importante lembrar que a CVM ganhou um prêmio internacional por ser o primeiro regulador do mundo a adotar as exigências do ISSB.

Lembro-me que quando presidi (1999-2001 e 2007-2008) a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA (órgão ambiental licenciador pioneiro no país e que foi incorporado ao INEA), assinei um Termo de Ajuste de Conduta - TAC com uma empresa de capital aberto que tinha sérias pendências ambientais e recebi a visita de um estrangeiro que representava um grupo de acionistas. Estava preocupado com a performance ambiental da referida empresa. Sim, os acionistas também cobram das empresas, pois isso pode representar a qualidade da gestão ou o risco do investimento.

INTERFERÊNCIA POLÍTICA: MAIS UMA BOIADA

Mais uma vez, é o mesmo grupo da "terra arrasada" no Congresso que atua criminosamente para "passar outra boiada". A mudança de posição da CVM parece ter nome.

A mudança de direção da CVM coincide com a mudança de gestão na autarquia. Como informou o site G1, no dia 20 de maio, o Senado aprovou o nome do advogado Otto Lobo (Comissão de Assuntos Econômicos CAE, após muita polêmica, aprovou 31 votos favoráveis a 13 contrários. Posteriormente, o Plenário do Senado aprovou por 19 a 4) para assumir o cargo de novo presidente da CVM. A nomeação foi alvo de críticas devido a votos dados por Lobo em decisões envolvendo a Ambipar e o Banco Master, quando era diretor e presidente interino da autarquia, em 2025. Um dos beneficiados foi o investidor Nelson Tanure. O Tribunal de Contas da União questiona as decisões de Lobo.

Otto Lobo terá um mandato-tampão até julho de 2027, concluindo a gestão do ex-dirigente João Pedro Nas, que deixou o cargo em julho do ano passado. A indicação de Lobo foi encaminhada pelo governo e contrariou o então ministro da Fazenda Fernando Haddad e o atual ministro Dario Durigan e foi mal recebido também no mercado financeiro. Apesar da indicação do presidente Lula, o nome de Lobo teria sido apadrinhado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que pressionou o governo pela sua indicação. Alcolumbre nega a responsabilidade.

SUSTENTABILIDADE NAS EMPRESAS: ESG

A sustentabilidade no ambiente corporativo é uma realidade consolidada nas melhores empresas, com exemplos expressivos de boas práticas socioambientais e existem profissionais altamente qualificados trabalhando nos setores de ESG (Environment, Social and Governance). Como dirigente de órgãos ambientais, sempre tive nesses profissionais importantes aliados para o cumprimento da legislação e das licenças ambientais. Sempre acreditamos ser muito estratégico fortalecer o papel destes profissionais na governança das empresas, pois são eles que mais conhecem os desafios de sustentabilidade dessas instituições. 

Nem sempre estes profissionais são devidamente valorizados. A cobrança dos órgãos ambientais e normas como as que exigem os Relatórios de Sustentabilidade fortalecem a importância do setor de ESG na empresa, tirando-a de uma importância apenas periférica. 

A QUEM INTERESSA...?

A quem interessa o retrocesso promovido pela decisão nefasta da CVM? Interessa a aquelas empresas mais atrasadas e reativas, que não estão alinhadas com a tendência mundial de responsabilidade corporativa. Interessa a certas empresas como as que encontramos pelas COPs do clima, promovendo seus pretensos resultados ambientais, enquanto sabotam os avanços da agenda climática.

Importante lembrar que a atitude extemporânea e retrógrada acontece no momento em que se consolida o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, que tem tido reações de segmentos da economia europeia usando como um dos mais fortes argumentos o afrouxamento da legislação ambiental no Brasil e países do Mercosul, o que causaria um "dumping ambiental", ou seja, concorrência desleal pois o custo ambiental do produto brasileiro seria distorcido de forma desleal com a concorrência europeia.

CHEGA DE RETROCESSOS

Em outubro, tem eleição e é a chance de depurar a representação política no Congresso Nacional. É preciso mudar a correlação de forças que temos atualmente no Congresso e evitar a influência nefasta de grupos políticos que atual criminosamente contra a política ambiental, para garantir a continuidade dos avanços e não o triunfo do atraso. A sustentabilidade só será alcançada com a participação da sociedade como um todo e as empresas têm um papel decisivo no processo.

Axel Grael
Pré-candidato a Deputado Federal (PDT-RJ)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Presidente da FEEMA (1999-2001 e 2007-2008)




quinta-feira, 28 de maio de 2026

Bora de Bike é sucesso e lota ruas de Niterói em prol da mobilidade ativa

 

Onde está Wally? Foto de Luciana Carceiro.

Participei no último domingo do evento "Bora de Bike", iniciativa da Record Rio, em parceria com a Associação de Ciclistas do Rio de Janeiro (ACERJ). A pedalada contou com patrocínio da Prefeitura de Niterói, por meio do Niterói de Bicicleta, além do apoio de diversos órgãos municipais. Ao todo, foram aproximadamente 10 mil pessoas, entre famílias, grupos de amigos e amantes do ciclismo de diferentes cidades da região metropolitana, como São Gonçalo, Maricá e diversos bairros do Rio de Janeiro.

A iniciativa reforça o crescimento da cultura da bicicleta em Niterói, cidade que se consolidou como referência em mobilidade urbana sustentável. O município possui uma das maiores malhas cicloviárias do estado do Rio de Janeiro, com mais de 90 quilômetros de infraestrutura cicloviária implantada, entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas.


domingo, 24 de maio de 2026

DESPAVIMENTAÇÃO: cidades estão quebrando o asfalto para dar espaço ao verde e ter mais resiliência climática

As cidades têm assumido uma crescente responsabilidade no enfrentamento às mudanças climáticas, com ações práticas locais de adaptação e mitigação, diante da dificuldade de avanços no âmbito da governança global estabelecida pela ONU, exercida através da diplomacia dos estados nacionais.

As cidades sabem que não há tempo a perder e que é nelas que as consequências são mais sentidas e a ação é mais cobrada pela população. Cada cidade sabe da "sua dor" e estabelece a sua prioridade de acordo com as suas características e realidades climáticas, geomorfológicas, urbanas e sociais. 

A prioridade das cidades tem sido na adaptação e resiliência aos eventos climáticos extremos, mas também atuam na mitigação. A ação de mitigação ocorre, principalmente controlando as emissões locais de Gases do Efeito Estufa - GEE, provenientes da geração e consumo de energia, do transporte e da indústria. Cidades como Paris priorizam o enfrentamento das ondas de calor extremos e se dedicam a um ambicioso programa de retirada de automóveis das suas áreas centrais, praticam a despavimentação (retirada da cobertura asfáltica e do concreto das ruas e praças), implantam jardins de chuva (para infiltração da água pluvial) e plantam árvores para prevenir o calor e garantir o conforto térmico das ruas. Outras cidades como Copenhague investem em drenagem sustentável para prevenir inundações. 

Niterói, por suas vez, é um destaque no cenário nacional, tendo criado a primeira secretaria do Clima e contando com uma das melhores defesas civis do país. Diante do seu relevo e ocupação de áreas de encostas, investiu mais de 1 bilhão de reais na última década em contenção de encostas e cerca de R$ 500 milhões na solução dos seus problemas históricos de macrodrenagem. Também priorizou a implantação de parques, reflorestamento de áreas degradadas e arborização das ruas. Niterói construiu uma das mais avançadas políticas climáticas do país e éreconhecido nacionalmente por isso.

O artigo abaixo, publicado pela BBC, mostra o esforço de várias cidades do mundo em praticar a chamada "despavimentação" ("depaving") ou "desimpermebealização" ("desealing") das superfícies urbanas, restaurando a capacidade física e biológica do solo, principalmente a sua fertilidade e permeabilidade.

A tendência atual das cidades é investir em: mais parques com capacidade de reter água e ajudar a drenagem; mais áreas verdes; menos carro; mais transporte público, coletivo e sem emissão de carbono; mais bicicletas e mais pedestres. É assim que avançamos no caminho da sustentabilidade.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPAGAU/UFF)


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Lifting up the paving slabs reveals the potential of the earth beneath (Credit: City of Leuven)

The cities stripping out concrete for earth and plants

Chris Baraniuk

From Australia to Ontario, cities are taking up unnecessary stretches of concrete and asphalt, allowing nature to take hold in their place.

On a hot July day, Katherine Rose picked up a sturdy metal pole and jammed it under the tempting lip of a pre-cut concrete slab. Rose, communications and engagement director at Depave, a non-profit in Portland, Oregon, was sweating in the heat – but she was going to win this fight.

The grubby, rectangular section of urban crust in front of her was about to move. Pushing down on her metal bar, applying it like a lever, she eased the concrete covering up and away. Now sunlight could fall once again on the ground below. A mess of gravel and dirt that was, to Rose, just bursting with potential.

"It feels like you're liberating soil," she says, recalling the summer gathering where she and around 50 volunteers removed roughly 1,670 sq m (18,000 sq ft) of concrete from the grounds of a local church. "It's envisioning and fully realising a dream that I think we all have," says Rose. The dream, that is, of bringing nature back into our midst.

The idea of depaving, sometimes known as desealing, is a simple one – replace as much concrete, asphalt and other forms of hard landscaping as possible with plants and soil. It's been around since at least 2008, when the Depave group in Portland was founded. Proponents say depaving allows water to soak into the ground, which reduces flooding in times of heavy rain – aiding the "sponginess" of cities. Native plants help wildlife cling on in urban spaces, and by planting trees you can increase shade, protecting residents from heatwaves. Injecting city streets with greenery may even improve people's mental health, too.

But if depaving is ever going to really take off, it will have to expand beyond a handful of eager environmentalists and volunteers. With the climate crisis deepening, some cities and even entire regions are beginning to adopt depaving as part of their climate adaptation strategies. It's time, some say, to start smashing up our concrete streets in a big way – to create spaces better for nature.

Exposing more of the ground in urban spaces can help absorb rainfall and reduce flooding, as well as boost biodiversity (Credit: City of Leuven)

Whenever Rose walks through a city these days, she can't help but notice places where you could strike out a section of asphalt and put in some plants. "I'm constantly just wanting to do more," she confesses. "It's hard not to see it everywhere."

Her group says it has depaved more than 33,000 sq m (360,000 sq ft) of asphalt in Portland alone since 2008 – an area equivalent to nearly four and a half football pitches. The work is "joyous", says Rose, because it unites enthusiastic local volunteers. They get a safety briefing and then muck in together.

Green Venture, an environmental non-profit in Ontario, Canada, has been inspired in part by the depaving projects in Portland. Giuliana Casimirri, executive director, explains how she, her colleagues, and volunteers have begun inserting miniature gardens replete with native trees in a run-down district in the city of Hamilton.

"Before, it was somewhere you would quickly try to walk through," she says. "Now there are places you might stop or have a chat. Sit and read the paper."

In Hamilton, flooding can cause sewage to get mixed into runoff that flows into Lake Ontario, the source of the city's drinking water. Green Venture and other local organisations are keen to reduce the chances of that happening, says Casimirri. They view depaving as a key tactic. Certainly, studies have demonstrated that impermeable surfaces in gardens such as concrete increase flood risk in urban areas.

Rose says her group's efforts in Portland mean that approximately 24.5 million gallons of rainwater is diverted from entering storm drains each year. In Leuven, Belgium, in 2023 alone, Baptist Vlaeminck, who leads Leuven's Life Pact climate adaptation project, calculates that the removal of 6,800 sq metres (73,000 sq ft) of hard surfacing allowed for the infiltration of an additional 377,000 gallons (1.7 million litres) of water into the ground.

"With climate change, extreme weather rainfall events are going to increase and so [depaving is] not a nice-to-have – it's a necessity," Casimirri adds.

The question is whether the authorities responsible for cities, and planning, realise this. In most parts of the world, depaving can still be described as a fringe activity. "We're going to need a scale of investment that has a lot more zeroes on it," says Thami Croeser at RMIT University, Melbourne's Centre for Urban Research.

Community-led and DIY efforts on driveways and on local streets with permission are fantastic, he adds, but it's even better to think of depaving and greening as the introduction of a new kind of infrastructure in a city. It requires the same level of planning and investment as, say, a new railway.

The depave movement in Portland, Oregon has inspired a wave of cities to pull up their asphalt and concrete (Credit: Elle Hygge)

In Europe, at least, some municipalities have begun to treat depaving seriously. Residents of London in the UK are encouraged to depave their gardens, for example.

The city of Leuven in Belgium says it is embracing depaving – or "ontharden" – in a big way. The suburban district of Spaanse Kroon, home to around 550 people, is one of the latest targets of a depaving and renaturing initiative spearheaded by the city. The plans involve removing significant volumes of asphalt from the residential area and forcing cars to share the same part of the road as pedestrians and cyclists.

"We are scaling up now, we are setting up a team dedicated to depaving," says Vlaeminck.

Such projects have to meet the needs of everyone in the city. Vlaeminck says that, to support people with impaired vision or mobility issues, unused areas of road or pavement are prioritised for depaving and sufficient space – more than a metre – is safeguarded on pavements to allow people plenty of room. Existing paving left in place is also renewed or repaired to ensure there are no bumps or unevenness. In situations where pavements are removed completely, for shared use of a roadway in low traffic neighbourhoods, Vlaeminck says depaving teams introduce measures to reduce the speed of cars.

Both Depave in Portland and Green Venture in Ontario say they work with communities to ensure accessibility requirements are met. Casimirri refers to a recent project that replaced broken, uneven concrete with shrubbery and level walkways between.

Among the initiatives instigated by Leuven is a "tile taxi" – a small truck that officials will happily send to your home so you can throw in concrete tiles or cobblestones you have removed from your garden. The material is later reused rather than thrown away, says Vlaeminck, who adds that several million euros have been set aside by Leuven to fund depaving and renaturing projects such as this.

And there's more. Since January 2024, developers in Leuven have had to demonstrate that any rain that falls on new or significantly renovated homes can either be capture and re-used on-site or filtrate into the property's garden rather than pool up and cause a flood. If developers can't prove their designs are extreme rainfall-ready, they won't be approved, says Vlaeminck.

France, too, is making depaving official, says Gwendoline Grandin, an ecologist with the Île-de-France Regional Agency for Biodiversity. Nationally, the French government has made €500m ($540m/£430m) available for urban greening – this includes depaving but also installing green walls and roofs, for example. Part of the motivation is to make towns and cities more resilient to summer heatwaves, which have badly affected parts of France in recent years.

Some of the projects now underway are significant in size, such as a former parking area near a forest in the Paris region. An area of 45,000 sq m (480,000 sq ft) has been depaved – formerly a hodgepodge of asphalt, pathways and concrete interlaced with grass. With the hard landscaping now gone, level ground is being reshaped to introduce dips and gullies that catch water, and the whole area will soon be planted over, too.

Local schemes are often backed by residents keen to see more green in their local area (Credit: City of Leuven)

In Croeser's own city of Melbourne, he and colleagues have studied the potential space available for renaturing, if thousands of parking spaces were depaved and converted into miniature gardens. In a 2022 study, they simulated the impact based on a series of scenarios – the most ambitious of which involved removing half of the open-air parking spaces in the city, about 11,000. Croeser argues that there is sufficient off-street parking available, for example on the ground floor of buildings, in Melbourne to ensure that people wouldn't be left without somewhere to leave their vehicle – but those interior parking spaces would need to be made publicly accessible.

"The basic principle was no net loss of access to parking," he says. "And we get 50-60 hectares [120-150 acres] of green space that keeps the city cool, prevents flooding."

It might seem unlikely that small pockets of nature dotted here and there throughout a large city like Melbourne could benefit wildlife significantly, but Croeser says these fragments of habitat are crucial. They allow species to move around and cope in an environment that is, ultimately, very different to the one in which they evolved.

In their 2022 study on depaving in Melbourne, Croeser and his colleagues included modelling that suggested a modest increase in greenery could allow species such as the blue-banded bee to roam across a far greater area of urban habitat than before.

Rose agrees with Croeser that, for depaving to change the world, entire cities and even whole countries will have to embrace it fully. But she emphasises that, in order to reach that point, communities must express that this is something they want.

"It starts with people pushing their government and starting these conversations on a small, local level," she says. "That's how it takes hold."

Fonte: BBC


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