terça-feira, 17 de março de 2026

Projeto de Lei que proíbe fiscalização do desmatamento por satélite tramita em regime de urgência na Câmara de Deputados

Foto: Divulgação IBAMA.

A tentativa de "passar mais uma boiada". O competente jornalista André Trigueiro, dedicado à temática ambiental, fez um importante alerta sobre o que pode ser mais um atentado contra a política ambiental do país e um duro golpe contra a ação de fiscalização do IBAMA no combate ao desmatamento. 

A Câmara de Deputados aprovou, ontem (16/03), 10 projetos de lei (PL) para tramitar em Regime de Urgência. Um deles, o PL 2.564/2025, de autoria do deputado federal bolsonarista Lúcio Mosquini (PL-RO), "que regulamenta a aplicação de medidas administrativas cautelares na fiscalização ambiental e veda a imposição de embargo baseado exclusivamente em detecção remota de supressão de vegetação". 

O PL altera a Lei de Crimes Ambientais (Lei n° 9.605/1998) e propõe:

Art. 2º A Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 72-A:

“Art. 72-A Constatada a ocorrência de dano ambiental, o agente de fiscalização, no uso do seu poder de polícia, poderá adotar medidas administrativas cautelares para afastar risco iminente de agravamento do dano, para interromper a sua ocorrência e para resguardar a recuperação ambiental.

§ 1º As medidas administrativas cautelares não poderão ser utilizadas como instrumento de antecipação das sanções previstas no art. 72 desta Lei, sob pena de nulidade do processo.

§ 2º Fica vedada a imposição de embargo baseado exclusivamente em detecção remota de infração decorrente de supressão de vegetação, sendo garantida a notificação prévia do autuado para prestar esclarecimentos em prazo razoável antes da imposição da medida.”

O projeto de lei quer impedir exatamente o que está dando certo e fazendo os números do desmatamento caírem. O IBAMA, com a ajuda de outros órgãos, vem modernizando a sua capacidade de fiscalização ambiental através da adoção de tecnologias para enfrentar o desmatamento, as queimadas, o saque de madeira e a grilagem de terras públicas. Com isso, melhora-se a capacidade de controle sobre crimes ambientais, seja na Amazônia, no Cerrado, na Mata Atlântica e outros biomas, detectando as irregularidades de forma remota, com satélites, e até drones etc. Desta forma, é possível acompanhar a conservação de áreas protegidas e de reservas legais, o correto cumprimento dos casos de desmatamento legal e devidamente autorizado e, sobretudo, punir os criminosos. 

Relatórios mostram que o avanço da criminalidade na Amazônia é uma das principais preocupações atuais e que o desmatamento, a grilagem, o tráfico de drogas e outros crimes se intercruzam e se fortalecem mutuamente. 

É importante lembrar que controlar o desmatamento é uma obrigação perante as atuais e futuras gerações e que o Brasil tem metas a cumprir perante o mundo, nos seus compromissos climáticos (NDC) assumidos diante do Acordo de Paris.

Pois bem, o projeto de lei que tramita em regime de urgência pretende proibir a "detecção remota", justamente o que tem dado mais efetividade e resultados no trabalho de fiscalização e contribuído para a queda no desmatamento no Brasil. 

Segundo a justificativa do projeto de lei, o fiscal terá que ir in-loco para impedir o desmatamento e autuar os responsáveis, ou seja, uma aposta na impraticabilidade. Seria a volta da velha fórmula que permitiu o desmatamento desenfreado no passado.

Por exemplo, de agosto de 2024 a agosto de 2025, a Amazônia teve uma área desmatada de 5.796 km², o que representou uma redução de 11,08% em relação ao período anterior (de agosto de 2023 a julho de 2024), segundo estimativa do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE (vide, MMA). 

Mesmo com as sucessivas reduções do desmatamento no atual governo - ao contrário do que aconteceu no governo anterior, ainda é um desmatamento ANUAL correspondente a uma área superior a toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, espalhada pela imensidão de mais de 5,2 milhões de km² da Amazônia Legal. Além disso, o trabalho de fiscalização no terreno tem se mostrado um risco à vida dos fiscais, que têm sido vítimas de ataques e emboscadas praticadas pelos criminosos. Ou seja, voltar à fiscalização exclusivamente in-loco, como quer o Sr. deputado, é impraticável!

Assista à matéria do Jornal Nacional, da Rede Globo, em 17/03/2026.

Hoje, à noite, no Jornal Nacional, o presidente da Câmara de Deputados, Hugo Motta, afirmou que o PL só irá a votação após ampla discussão. Então, como justificar o Regime de Urgência? Entenda-se: "Regime de Urgência na Câmara Federal é um rito processual que acelera a tramitação de projetos de lei, permitindo que sejam votados diretamente no Plenário, dispensando o parecer de comissões temáticas. Ele reduz prazos, prioriza a matéria na pauta e pode ser solicitado por líderes, bancadas ou pelo Presidente da República" (Portal da Câmara dos Deputados).

Alguém tem dúvidas sobre qual é o interesse por trás da inviabilização da fiscalização do desmatamento? A continuidade do desmatamento dos biomas brasileiros é inaceitável. Que se restabeleça o bom-senso. 

Axel Grael


domingo, 15 de março de 2026

ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA: Copenhague se prepara para resistir às chuvas torrenciais

A rotunda Sankt Kjelds Plads é um dos mais de 250 espaços de Copenhague que foram reformulados. Foto Cidade de Copenhague.

Seguindo a nossa série de postagens sobre os planos de adaptação das cidades que mais se destacam em prevenção às mudanças climáticas, abordamos hoje o caso de Copenhague, a capital da Dinamarca. A cidade surgiu no ano de 1.167, como uma vila de pescadores vikings, em terreno majoritariamente pantanoso. Toda a Dinamarca tem relevo plano e baixo, portanto sujeito a inundações e muito vulnerável à elevação do nível do mar. 

"O Instituto Meteorológico Dinamarquês prevê um aumento de até 55% na precipitação nos meses de inverno até 2100, com aguaceiros cada vez mais intensos, caso as temperaturas globais subam de 2 a 3 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais. Os mares adjacentes à Dinamarca — o Mar do Norte e o Mar Báltico — podem subir até 1,2 metro" (Yale, E360).

Copenhague foi uma cidade pioneira e das mais ambiciosas em apresentar um plano para alcançar a neutralidade líquida de emissões de carbono, tendo inclusive anunciado o objetivo de atingir essa meta em 2025, o que não aconteceu. 

Cerca de um ano e meio após sediar a COP-15 (realizada de 7 a 18 de dezembro de 2019), no dia 2 de julho de 2011, Copenhague foi assolada por uma chuva torrencial, que causou grande transtorno e prejuízo. 

"Infraestruturas críticas do maior hospital da cidade foram alagadas, assim como importantes vias, subsolos e estabelecimentos comerciais. A cidade, que vinha investindo em planejamento de sustentabilidade avançado há décadas, mostrou-se lamentavelmente despreparada para a forte chuva, que causou prejuízos de US$ 1,8 bilhão" (Yale, E360).

O episódio ficou conhecido localmente como a "Chuva do Milênio". A cidade percebeu a sua vulnerabilidade e passou a priorizar a sua resiliência contra chuvas torrenciais e buscou soluções inovadoras de drenagem sustentável.

"Abalada pela calamidade, a cidade e seus cidadãos compreenderam que tais desastres climáticos — e inundações ainda mais severas — eram inevitáveis ​​e exigiam uma resposta rápida e enérgica. Para tanto, Copenhague reuniu seus melhores urbanistas, paisagistas, consultores e arquitetos para transformar a cidade, que se estende por duas ilhas principais no Mar Báltico, na primeira “cidade-esponja” do mundo. Esse sistema de defesa de última geração — que combina elementos naturais na superfície, como áreas úmidas e parques, com grandes estruturas subterrâneas, como tubulações de armazenamento e bacias de retenção — deverá proteger a cidade contra tempestades e a elevação do nível do mar por 100 anos" (Yale, E360).

No mesmo ano das chuvas, em outubro de 2011, Copenhague aprovou o seu Plano de Adaptação Climático, que logo foi complementado pelo Plano de Gestão de Tempestades (Cloudburst Management Plan 2012), adotado no ano seguinte, com o objetivo de transformá-la na primeira "cidade-esponja" do mundo.

Como parte do plano, duas opções foram consideradas para avaliar custos e vantagens/desvantagens potenciais. Um Plano Convencional focou na chamada engenharia cinza, como a ampliação a seção de tubulações de drenagem e esgotamento, além de túneis de drenagem para a área portuária. O Plano Azul-Verde focou no potencial das Soluções Baseadas na Natureza - SBN para estocar o drenar o excesso de água de forma superficial, como abrindo novos rios e canais, ou implantando novos lagos em áreas verdes. A cidade fez a opção pelo Plano Azul/Verde foi considerada a melhor opção, considerando a análise custo/benefício, mas combinou com soluções do Plano Convencional, como novas linhas de macrodrenagem e túneis, nas partes da cidade onde as soluções superficiais não eram possíveis. 

Prioridades nas áreas periurbanas: 
  • Parques e áreas verdes urbanas (semi)naturais
  • Áreas Azuis
  • Áreas verdes para o manejo da água
  • Espaços verdes urbanos conectados à infraestrutura cinza.
Para implementar o plano, a cidade tem a meta de implantar 300 projetos ao longo de 20 anos. A cada ano, a cidade atualiza as prioridades, de acordo com o nível de risco de cada área, áreas de fácil implementação ou áreas em que novos investimentos podem estar conectados com outros projetos de desenvolvimento (Interlace Hub). 

Axel Grael

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A ideia é criar espaços públicos que também sirvam para reter água, caso necessário. Foto: Tredje Natur.

Como o espaço acima poderia ficar após uma chuva forte e repentina. Foto: Tredje Natur.

Como Copenhague virou uma "cidade-esponja" contra cheias

Aditi Rajagopal de Copenhague

Publicado 4 de março de 2024. Última atualização 6 de maio de 2024

Capital da Dinamarca está entre as cidades no mundo que previnem enchentes tornando espaços públicos lugares de lazer, de biodiversidade e, ao mesmo tempo, áreas de absorção de águas pluviais.

Embora seja uma das rotatórias mais movimentadas do leste de Copenhague, o ar em Sankt Kjelds Plads não é pesado, não tem o cheiro e a textura dos gases de escape. E, em vez do rugido dos motores, a paisagem sonora é caracterizada pelo som melodioso produzido por pássaros.

A rotatória, que é cercada por arbustos e árvores, faz parte de um experimento em grande escala para transformar os espaços públicos da capital dinamarquesa. A ideia é tornar Copenhague mais "habitável", criando locais para os cidadãos se encontrarem e um habitat para a biodiversidade, ao mesmo tempo em que cria engrenagens em uma máquina de controle de enchentes.

Essa transformação foi desencadeada pelos eventos de 2 de julho de 2011, quando Copenhague foi atingida pelo que foi apelidado de "a chuva do milênio".

O aguaceiro maciço causou inundação de ruas e casas. E, sem ter para onde escoar, a água permaneceu por dias. Ratos mortos foram vistos flutuando pela cidade, e uma pesquisa posterior revelou que durante os trabalhos de limpeza um quarto dos trabalhadores do saneamento foi infectado com doenças como a leptospirose. Um deles até morreu.

Fonte: Interlace

Nos sete anos seguintes, esse tipo de tempestade começou a se tornar cada vez mais comum, com quatro eventos de "chuvas do século" registrados nesse período. Isso custou à cidade pelo menos 800 milhões de euros (R$ 4,3 bilhões) em prejuízos, deixando claro para os formuladores de políticas públicas que era hora de repensar a capital dinamarquesa.

Design urbano inspirado na esponja

Nos últimos séculos, o foco do desenvolvimento urbano em lugares como Copenhague foi a criação de "cidades-máquina" que pudessem ser construídas rapidamente e fossem eficientes para habitação, indústria e economia. Mas muitos desses centros urbanos acabaram interferindo no ciclo da água, especialmente aqueles que modificaram leitos de rios ou foram construídos sobre planícies aluviais.

Com o concreto e o asfalto cobrindo áreas antes destinadas à grama e ao solo, a água das chuvas mais fortes ficou sem ter para onde ir. Com muita frequência, isso resulta em enchentes, e cidades do mundo todo estão explorando maneiras de reverter esse tipo de desenvolvimento urbano. E elas fazem isso se transformando em "esponjas" urbanas.

Em outras palavras, essas cidades estão criando espaços e infraestrutura para absorver, reter e liberar a água de forma a permitir que ela flua de volta para seu ciclo.

A China está na liderança, com mais de 60 de suas cidades sendo reformadas e agora incorporando estruturas como biovaletas e jardins de chuva para reter a água. Jan Rasmussen, chefe do "Cloudburst Master Plan" (plano diretor para tempestades) de Copenhague, também viu potencial para a Dinamarca.

"Nossos políticos decidiram que há realmente uma necessidade de escoar a água da cidade muito rapidamente", disse Rasmussen. "Eles perguntaram se poderíamos fazer isso de forma inteligente, se poderíamos expandir o sistema de esgoto. Poderíamos lidar com as chuvas na superfície?"

Absorvendo a água da chuva

Tendo estudado projetos de cidades-esponja em todo o mundo, a equipe de Rasmussen pensou na remodelação de cerca de 250 espaços públicos de forma a ajudar na retenção ou redirecionamento de águas pluviais, incluindo parques, parques infantis e a rotatória Sankt Kjelds Plads. A ideia é usar a capacidade natural de retenção das árvores, dos arbustos e do solo e deixar a água pluvial fluir para locais onde não seja destrutiva.

Uma dúzia de lagos que margeiam a rotatória foi então projetada de forma a reter o excesso de água da chuva no caso de uma tempestade. Assim como outros lagos semelhantes espalhados pela cidade e aberturas largas nas laterais de ruas baixas, eles servem para canalizar a água da enchente para uma rede de túneis que está sendo instalada 20 metros abaixo da superfície.

Durante uma chuva "normal", as águas pluviais são direcionadas para o porto por meio desse sistema de drenagem. No entanto, quando há um excesso, como em um cenário de tempestade, uma estação de bombeamento no porto entrará em ação, forçando para o mar a água acumulada nos túneis, criando assim espaço para mais água da chuva e evitando que as ruas sejam inundadas. Essa estação está sendo construída atualmente e estará pronta em 2026.

"Ainda haverá água nas ruas. Quero dizer, elas não ficarão completamente secas. Mas passaremos de um metro [de água de enchente] para no máximo 20 centímetros", disse Jes Clauson-Kaas, engenheiro da Hofor, o departamento de gerenciamento de água responsável pela construção do túnel.
Benefícios de longo prazo

Parte do desafio é conseguir a adesão dos moradores locais. E isso nem sempre é fácil quando se trata de fechar parquinhos infantis ou os parques da cidade por longos períodos para transformá-los em zonas de inundação, ou financiar os planos de adaptação através de uma taxa extra nas contas de água.

Mas Clouson-Kaas diz que equipar para o futuro uma cidade propensa a inundações faz sentido do ponto de vista financeiro. "Perdemos cerca de 1 bilhão com esse único evento [em 2011], mas esperamos que haja vários eventos nos próximos 100 anos. Dizem que a perda potencial pode ser de pelo menos 4 ou 5 bilhões de euros. Portanto, se investirmos 2 bilhões de euros, ainda assim valerá a pena", disse ele.

Copenhague está em posição – financeira e política – de investir nessa infraestrutura agora, em vez de lidar com possíveis danos no futuro. A cidade se tornou um lugar na qual as outras cidades buscam um exemplo para aprender sobre os benefícios de se criar uma esponja urbana.

Fonte: DW


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sábado, 14 de março de 2026

Como Paris escolheu o caminho da adaptação climática?

Paris tem o mais ambicioso programa de adaptação climática no mundo. Saiba como a iniciativa está sendo implementada. 

Paris tem o mais arrojados e interessante exemplo de transformação de uma cidade para a resiliência climática. A cidade decidiu adotar uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, tendo o foco principal no enfrentamento das ondas de calor, trocando o asfalto pelo verde e enfrentando os engarrafamentos para reduzir a poluição.

Guerra ao automóvel 

Mediante consultas públicas, a Prefeitura vem aprovando seus planos climáticos desde 2007. O mais recente foi aprovado em 2025, através de um plebiscito que referendou a ampliação da política climática. A decisão foi retirar os automóveis de 500 ruas, além das 300 que a cidade já vinha fazendo desde 2020. A prioridade é implantar as ruas "car-free" nas proximidades das escolas. Os parisienses também decidiram abolir 10% das vagas para carros e triplicaram a taxa de estacionamento nas vagas que sobraram nas regiões centrais e mais movimentadas.

Com as obras, as áreas verdes e ciclovias estão tomando a cidade. Para garantir a permeabilidade e facilitar a drenagem e para prevenir o excesso de calor urbano, nas ruas em que o tráfego foi retirado, a pavimentação das ruas é substituído por canteiros, praças e mais arborização. Cada rua custa €500 mil. A decisão foi referendada por 66% dos votantes no processo de consulta. Com a limitação da circulação dos carros, a poluição do ar já reduziu 40% na última década.

Claro que uma guinada dessas não acontece sem polêmicas e insatisfações. A maior resistência veio do 'Bairro 18', que apesar da reação de uma parcela dos moradores, teve 73% dos votos a favor, bem acima do resultado geral da votação (66%). 

O texto traz informações sobre o processo de transformação do maior programa de adaptação climática em curso no mundo, através de uma entrevista com Christophe Najdovski, vice-prefeito e responsável pelas áreas verdes, parques, biodiversidade e bem-estar animal. 

As mudanças só estão sendo possíveis graças à liderança inovadora da prefeita socialista Anne Hidalgo, que está fazendo uma mudança urbana histórica em Paris e inspirando o mundo.

Como diz o texto abaixo, "Paris mostra que é possível fazer".

Axel Grael


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Credit: Christophe Belin/Ville de Paris

Credit: Lola Suarez?Ville de Paris

There is ‘a will and a way’ to green Paris

28 April 2025

Eurocities speaks with Christophe Najdovski, Paris Deputy Mayor for public space greening, parks, biodiversity and animal welfare, about the city’s recent vote to close 500 streets to cars and reallocate them to pedestrians, cyclists and green space.

Parisians vote for a greener city

Parisians voted 66% in favour of creating 500 more car-free streets and removing 10% of the city’s current parking spaces. In consultation with local residents this spring, five to eight streets in each neighbourhood will be chosen for transformation with a dedicated budget of €500,000 per street.

The plan expands on a green push led by the city’s mayor, Anne Hidalgo. Since 2020, Paris has already seen 300 streets planted and cleared of cars primarily around schools.

“For decades, cities were redesigned to accommodate cars,” says Christophe Najdovski. “Cars have dominated public space, leaving little room for the most vulnerable road users like children and the elderly. Now, there is a strong public demand to share public space more equitably.”

Najdovski is committed to reimagining public space as more than a transit corridor. He is driven by a vision of public space as a place where citizens can thrive and connect. “Over the years, children have disappeared from the streets,” he notes. “They were pushed out by dangerous traffic. It raises an important question: what place do we, as a society and as decision makers, give to children in our cities?”

Cars have dominated public space... Now, there is a strong public demand to share public space more equitably.— Christophe Najdovski, Paris Deputy Mayor

With the average car growing in size, children are even more vulnerable, often invisible behind high bumpers. Paris is taking their safety seriously, particularly near schools. The city is systematically introducing school streets: car-free areas outside schools where roads are closed to vehicles to create safer, more welcoming environments for families.

“This is also about giving power back to citizens,” adds Najdovski. “Our vision is that streets are more than a way to get from point A to point B in the fastest way possible.” Instead, he sees the school run as an opportunity to foster stronger communities. “When we speak to parents, many say they’ve started walking their children to school not out of necessity but for the simple pleasure of it.”

Growing a ‘garden city’

As the impacts of climate change intensify, Najdovski underscores the urgent need to boost urban resilience and how nature-based solutions are central to this transformation.

“There is both a will and a need to build a more resilient city. We must adapt to the consequences of climate change, and we know that greening the city is one of the main responses to that need.”

Paris is putting this into practice by removing concrete to allow rainwater to replenish groundwater, creating green spaces that support biodiversity and filter air pollution, and tackling the urban heat island effect to keep neighbourhoods cooler during summer. Largely driven by the city’s shift away from car-centric planning, the city has seen a 40% reduction in air pollution over the past decade. Biodiversity is thriving too, with over 600 new species (among a total 3400 recorded) recently recorded in the city compared to a few years ago.

This vision is part of the city’s broader strategy for climate resilience, biodiversity and liveability. “We’re working towards a garden city,” says Najdovski—“a city where nature is present even in unexpected places. Not just confined to parks and gardens, but integrated throughout the streetscape.”

Citizens want to be more involved in the decisions that affect their neighbourhoods and quality of life.— Christophe Najdovski, Paris Deputy Mayor

Local decisions made by locals

While this is the most recent, it is far from the only referendum Paris has held on the future of public space. The strategy reflects Mayor Anne Hidalgo’s commitment to involving citizens in decisions that shape their daily lives.

“There is a real social demand for more participation,” says Najdovski. “Whatever people may say, these votes are not insignificant.”

Paris has already seen several high-profile examples of this participatory approach. In 2023, over 100,000 people voted in a referendum on the city’s shared e-scooter services. Nearly 90% voted against renewing the contracts with private operators, leading to the removal of 15,000 free-floating scooters from city streets.

More recently, another 80,000 residents voted in favour of tripling parking taxes on “heavy, bulky and polluting” vehicles, primarily SUVs. The measure passed with 54% support.

Understanding low voter turnout

The most recent referendum saw just 4% of the population (around 56,000 people) go to the polls. While media and online speculation offer various explanations, Najdovski has his own perspective.

“One reason could be that many people in favour assumed the outcome was certain,” he suggests. “There may have been a kind of silent consensus.”

He also points to the practical challenges of organising local votes: “There are always issues like capacity, timing, communication. Not everyone hears about the vote in time, and some people struggle to get to polling stations.” While electronic voting might improve accessibility, he notes that it presents its own set of complications.

Broader political dynamics also play a role. When there are global crises like wars, inflation, social unrest, local issues can tend to take a backseat in the minds of voters.

Still, he urges perspective on the criticism. “Some of the politicians challenging the low turnout were themselves elected with less than 10% of eligible voters. Yes, 4% is low, but we must recognise that turnout is often low in local elections too. That doesn’t mean citizens don’t care about these issues. It means we need to improve how we engage them.”

“Hear the resistance and adapt”

Although the referendum passed with a strong 66% majority, concerns have emerged particularly from tradespeople and local residents who feel the changes could complicate daily life. The loudest opposition has come from the 18th arrondissement, yet, as Najdovski points out, that very neighbourhood voted in favour at 73%, well above the city-wide average.

Much of the resistance has been voiced by business owners worried about the potential impact on footfall and trade. However, research consistently shows that most customers do not travel to these shops by car and that pedestrianisation typically boosts business.

“These voices are a minority,” says Najdovski, “but we still need to hear them. You must listen to the concerns, adapt the project where needed, but at the same time, you have to listen to the majority. And the majority has spoken clearly in favour.”

Paris shows what’s possible

The Paris of today looks dramatically different from twenty years ago. “Where there’s a will, there’s a way,” says Najdovski. “What’s been done in Paris can be done in any city. Ten years ago, Paris wasn’t bike-friendly. Now, it is. It wasn’t a green city. Now, it is.”

He stresses that reclaiming space from cars doesn’t have to be slow. When there is strong social demand and political will, transformation can happen quickly. “We were elected for this. It’s what we promised, and now we’re delivering. It’s that simple.”

What we’ve done here, other cities can do too. You can manage big transformations if you do it with the citizens, and if you have the political will.— Christophe Najdovski, Paris Deputy Mayor

Over the past two decades, Paris has cut traffic and air pollution by half. In newly pedestrianised streets near schools, air pollution dropped by 25%, according to a recent survey. “That means cleaner air, less noise, and a better quality of life,” says Najdovski. “And it’s good for local shops too.”

His message is clear: these changes aren’t unique to Paris. “What we’ve done here, other cities can do too. You can manage big transformations if you do it with the citizens, and if you have the political will.”

Fonte: EuroCities

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Pesquisa mostra que áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” (foto: Paulo Bernardino)

Regiões são capazes de estocar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, equivalente a cerca de seis vezes o armazenamento da biomassa média da floresta tropical

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Os campos úmidos e as veredas do Cerrado brasileiro são capazes de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que equivale a cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas na Amazônia. Datações indicam que, em média, esse carbono está no local há 11 mil anos, sendo, em alguns casos, de até 20 mil anos atrás, resultado de um processo lento de acúmulo favorecido pela falta de oxigênio nos solos saturados de água.

Os achados são de um estudo publicado na quinta-feira (12/03) na revista científica New Phytologist e liderado por pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Como essas áreas úmidas dependentes de lençol freático ainda são pouco estudadas, os cientistas fizeram um primeiro mapeamento usando dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina, apontando que elas podem cobrir 167 mil quilômetros quadrados (km²) no Cerrado. Representam uma região, pelo menos, seis vezes maior do que se pensava antes, equivalendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” por contribuir com dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, especialmente das regiões Sul e Sudeste do país. Também abriga os chamados olhos d’água – afloramentos naturais do lençol freático –, incluindo os de caráter difuso, protegidos pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que os classifica como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Imortalizadas na obra Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas. Além do carbono estocado, são fontes significativas de metano (CH₄), especialmente em áreas permanentemente inundadas, onde as emissões são aumentadas em decorrência de temperaturas mais elevadas.

Apesar de pouco visíveis e muitas vezes ignoradas, essas formações desempenham funções ecológicas estratégicas, principalmente por serem fonte para rios e bacias hidrográficas. Porém, segundo os pesquisadores, esses ecossistemas estão altamente vulneráveis a alterações no regime hídrico provocadas pela expansão agrícola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, construção de pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação.

Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nível do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.

“Se a gente corta uma árvore que está há 300 anos na floresta, perdemos um grande estoque de carbono e funções ecossistêmicas importantes que são difíceis de serem recuperadas em sua totalidade. Mas com o processo de restauração florestal, é possível chegar perto disso em 30 ou 40 anos. Ou seja, você consegue plantar árvores e durante sua vida acompanhar esse processo. Agora, o carbono do solo de uma área úmida do Cerrado não vamos recuperar no nosso tempo de vida, pois foi estocado ao longo de dezenas de milhares de anos”, exemplifica à Agência FAPESP a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do artigo.

O trabalho é, em parte, derivado do seu mestrado sob a supervisão do professor Rafael Silva Oliveira e foi premiado em 2024 como melhor dissertação do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal do IB-Unicamp.

Trabalhando atualmente no Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos) com a pesquisadora Amy Zanne, outra autora do artigo, Verona recebeu durante o mestrado bolsa da FAPESP, que também apoiou o estudo por meio de Auxílio à Pesquisa concedido a Oliveira.

“O Cerrado foi escolhido como a principal fronteira agrícola do Brasil, voltada à produção de commodities em larga escala. Situado entre duas formações florestais, a Amazônia e a Mata Atlântica, o bioma sofre intensa pressão de conversão e, ao contrário dessas florestas, não é reconhecido como patrimônio nacional na Constituição e tem previsão legal de apenas 20% para áreas de preservação. Infelizmente, temos a percepção de que manter APPs ao lado dos rios é suficiente para conservar as funções ecossistêmicas do bioma. Estamos vendo que não. Para manter os processos hidrológicos do Cerrado, é preciso entender a conectividade da paisagem. Não basta preservar pequenos fragmentos enquanto o restante do território é convertido”, complementa Oliveira, que também assina o artigo.

Mesmo com tendência de queda, os índices de desmatamento do bioma permanecem altos. De agosto de 2025 a janeiro deste ano, as áreas sob alerta de desmatamento no Cerrado totalizaram 1.905 km², ante 2.025 km² no período anterior (queda de 6%), segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Levantamento realizado pelo MapBiomas mostrou que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico (dados de 2024), sendo 24% para pastagem e 13% para agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Em relação à superfície de água, o documento mostra que 2024 teve a maior área desde 1985, mas com 60% do uso antrópico (boa parte em hidrelétrica).

Imortalizadas no livro Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – de João Guimarães Rosa, as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas (foto: André Dib)

Trabalho de campo

A pesquisa é pioneira no uso de amostras de solo profundo (com profundidade de até quatro metros) para quantificar o carbono nesses ambientes. Foram coletadas amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023.

“Fazer essas coletas foi um processo de desbravar algumas regiões. Havia local onde a vegetação chegava à altura do meu ombro e, como é alagado, muitas vezes os pés afundam. O nosso solo é mais denso do que outros, por isso foi fisicamente extenuante, às vezes com cinco ou seis pessoas ajudando a usar o equipamento, mas é muito gratificante o resultado”, conta Verona.

O grupo usou um instrumento chamado LI-COR Trace Gas Analyzer, conectado a anéis de PVC instalados no solo para medir o dióxido de carbono e o metano.

Para fazer a datação do carbono, os pesquisadores da Unicamp contaram com cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha). Especialistas em sensoriamento remoto, Paulo Negri Bernardino, da Unicamp, e Guilherme Gerhardt Mazzochini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuíram no mapeamento das áreas.

O trabalho indicou ainda, por meio de espectroscopia, uma baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de CO₂ e CH₄ ocorreram durante a estação seca. Como a maior parte da vegetação nessas áreas úmidas é composta por gramíneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode se transformar em emissões quando os solos secam, o que pode se agravar com as mudanças climáticas e a maior frequência de estações quentes e secas.

No artigo, os pesquisadores fazem um alerta para a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas e melhorar a conscientização sobre a importância dessas zonas alimentadas por águas subterrâneas. Também destacam a relevância de ampliar o mapeamento e aprofundar os estudos para a compreensão desses ecossistemas.

Nesse sentido, Verona diz que continua a pesquisa em áreas úmidas sazonais para entender a dinâmica de carbono. Já Oliveira está aprofundando a análise do sistema hidrológico para entender melhor como funcionam esses ecossistemas e como restaurá-los.

“Se a gente perde turfeiras ou veredas, demoramos milhares de anos para restabelecer os níveis de carbono estocados, sem contar os prejuízos de outros serviços ecossistêmicos. A preservação é o caminho, mas continuamos tentando compreender melhor os processos”, projeta o professor.

Um outro artigo liderado por Oliveira e publicado no ano passado já destacava que, apesar da importância para a segurança hídrica e de estarem protegidos por lei, os campos úmidos do Cerrado, incluindo os olhos d’água, continuam sistematicamente negligenciados por políticas públicas, consultores ambientais, proprietários rurais e órgãos de fiscalização (leia mais em: agencia.fapesp.br/55287).

O artigo Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability pode ser lido em: nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.71027.

Fonte: Agência FAPESP



Quase 50 países já têm planos para eliminar os combustíveis fósseis


Estudo mapeou 46 países com planos de descarbonização do setor elétrico; outros 11 estudam limitar ou reduzir oferta de petróleo, gás e carvão.

Um estudo publicado na 3ª feira (10/3) indica que quase 50 países têm algum tipo de planejamento para eliminar os combustíveis fósseis no setor energético. O levantamento chega em um momento em que o debate sobre o afastamento de petróleo, gás fóssil e carvão ganha urgência após os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, que levaram o preço do petróleo às alturas.

Liderado pelo centro de pesquisa IISD (Canadá), com participação de E3G (Reino Unido), Ecco (Itália), Sefia (Turquia) e Observatório do Clima (Brasil), o estudo centra-se na questão prática de como conceber roteiros eficazes para a transição, tanto em nível global como nacional, explica o IISD. Especialistas enxergam o cenário atual como “um copo meio cheio, meio vazio”.

O estudo mapeou 46 países com algum tipo de plano de descarbonização do setor elétrico. Outras 11 nações, como Brasil e Colômbia, estudam limitar ou reduzir a oferta de petróleo, gás e carvão, detalha O Globo.

O documento inclui estudos de caso que abrangem as Parcerias de Transição Energética Justa (JETPs) na África do Sul, Indonésia, Vietnã e Senegal; processos nacionais de eliminação gradual do carvão na Alemanha, Chile, Canadá e Dinamarca; e esforços emergentes de elaboração de mapas do caminho domésticos na Colômbia, Turquia e Brasil. Logo, elementos para a construção dos mapas do caminho já vêm sendo testados na prática em vários países, mas a governança estruturada e a previsibilidade de financiamento são decisivos, destaca o relatório.

Quanto aos desafios, o documento lista que a transformação econômica gerada pela redução da dependência dos combustíveis fósseis demanda aumento da eletrificação dos transportes, expansão de fontes renováveis como eólica e solar e reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis. Este último ponto, em especial, mostra-se complexo por ser uma indústria ligada ao funcionamento político de muitos países, explica o Observatório do Clima.

“A dependência dos combustíveis fósseis não é apenas uma vulnerabilidade econômica, mas um motor de instabilidade global, expondo produtores e consumidores igualmente à crescente volatilidade, aos riscos de segurança e aos riscos climáticos”, afirma Katrine Petersen, assessora sênior de políticas da E3G. “O forte apoio na COP30 a um mapa do caminho global reflete um reconhecimento crescente de que a transição já está em curso.”

O Canal Solar lembra que em pouco mais de um mês acontecerá em Santa Marta, na Colômbia, a primeira conferência internacional voltada a discutir a transição para longe dos combustíveis fósseis. O encontro deverá reunir cerca de 80 países que já declararam ter interesse no mapa do caminho na COP30.

Fonte: ClimaInfo

 

Adaptação ou cada vez mais mortes

Mais uma excelente publicação do site ClimaInfo, desta vez apresentando um resumo dos desastres climáticos ocorridos nos primeiros meses de 2026, suas causas e consequências em vidas humanas, prejuízos materiais e financeiros.

E o alerta está correto. As mudanças são inexoráveis e afetarão as cidades brasileiras cada vez mais. A adaptação é urgente, precisa ser implementada de forma descentralizada, uma vez que cada cidade tem uma realidade própria. A política de financiamento da adaptação é uma grande prioridade. O Brasil adotou na sua NDC o princípio do "federalismo climático", um conceito inovador mesmo no cenário mundial. Significa que cada nível de governança (nacional, estadual e municipal) deve ter as suas atribuições bem definidas e trabalhar de forma integrada. 

O Governo Federal tem avançado na sua missão de disponibilizar recursos, embora ainda insuficientes. O problema é que estados e municípios precisam ser capacitados e preparados para cumprir com os seus papeis. Principalmente, as cidades, a quem cabe a função de implementar as ações de adaptação, precisam ter os seus Planos de Ação Climática - PLAC, de forma a estabelecer as suas prioridades, ter os seus arranjos institucionais para gerir a política climática e poder agir, além de serem capacitadas tecnicamente para elaborar projetos e colocá-los em prática.

Temos um longo caminho pela frente, mas adaptar não é uma escolha, mas uma obrigação para salvar vidas, principalmente da população mais vulnerável.

Axel Grael

 

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Crédito: Maria Elisa Diniz/TV Interação

Chuvas extremas - e mortais - dos últimos dias no Sudeste reforçam urgência de adaptar as cidades brasileiras ao “novo anormal” climático.

O mês de fevereiro de 2026 ainda não terminou e ficará marcado pelo recorde de chuvas em várias regiões do Brasil, mas principalmente no Sudeste. Os temporais típicos de verão estão cada vez mais frequentes e intensos na região – especialmente em regiões costeiras e de encostas como o litoral de São Paulo e na Zona da Mata mineira. Um sinal claro das mudanças climáticas, que têm na queima de combustíveis fósseis sua principal causa.

Como mais de 20 mortos em decorrência das chuvas extremas apenas nos últimos dias, sem falar nos estragos materiais, é cada vez mais evidente que adaptar as cidades deixou de ser uma discussão técnica distante e passou a ser uma necessidade prática e urgente. Prefeituras, governos estaduais e o governo federal precisam olhar para os territórios com estratégia: saber onde a água sempre volta; quais morros oferecem risco; quais bairros alagam primeiro. Isso envolve revisar mapas de risco, investir de forma consistente em drenagem, manter galerias limpas, proteger e recuperar áreas naturais que ajudam a absorver o excesso de água e fortalecer sistemas de alerta que realmente cheguem às pessoas a tempo.

A adaptação climática precisa ser vista de maneira integrada em todos os setores, uma vez que sistemas de saúde, que ficam sobrecarregados em casos de eventos extremos, também podem sofrer danos e estragos em um efeito cascata, como visto em Ubá (MG). Também é fundamental que os protocolos de evacuação funcionem na prática, não apenas no papel.

Adaptar não substitui o esforço de reduzir as emissões que estão aquecendo o planeta e alterando o regime de chuvas. Mas é o que diminui o impacto imediato sobre quem está na linha de frente, evitando que cada novo temporal se transforme novamente em perdas humanas, sociais e econômicas.

O que aconteceu?

Desde 19 de fevereiro, chuvas extremas atingiram o litoral de São Paulo, bem como áreas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Os temporais foram resultado de uma frente fria combinada com grande umidade em toda a região. Os acumulados ficaram muito acima da média para o mês, concentrados em curto intervalo de tempo.

No município de Peruíbe, no litoral paulista, por exemplo, em apenas seis horas, foram registrados cerca de 176 mm, o equivalente a 90% do total esperado para o mês. Outros municípios do litoral paulista também tiveram acumulados expressivos no período, como Ubatuba, Praia Grande, Bertioga e Caraguatatuba, indicando um evento amplo ao longo da costa.

No Rio de Janeiro, diversos municípios entraram em estado de alerta para deslizamentos, enchentes e inundações. Os principais municípios atingidos foram Angra dos Reis, Paraty, Petrópolis, e a capital Rio de Janeiro. Na Baixada Fluminense, várias cidades registraram 100 mm de chuvas em apenas uma hora. Em São João de Meriti, houve uma morte em decorrência dos temporais.

Já no dia 23 de fevereiro, as chuvas extremas atingiram Minas Gerais, onde municípios da Zona da Mata sofreram com recorde de precipitação. Em Juiz de Fora, os volumes acumulados ao longo do mês alcançaram 584 mm, tornando este o fevereiro mais chuvoso já registrado na cidade, com chuva quase quatro vezes acima da média histórica para o período.

Na madrugada do dia 24, as chuvas intensas fizeram o Rio Paraibuna transbordar, provocando alagamentos generalizados, deslizamentos de terra e bloqueios de vias. Foi decretado estado de calamidade pública pela prefeitura para agilizar a resposta emergencial.

Na vizinha Ubá, as chuvas também deixaram estragos. Em seis horas foram registrados 124 mm de chuva, um volume concentrado que provocou enchentes, alagamentos de ruas e transbordamento de cursos d’água, com carros sendo arrastados pela enchente e a infraestrutura urbana severamente afetada.

Quais foram os principais impactos?
  • O núcleo mais intenso da frente fria esteve no litoral do estado de São Paulo.
  • Pelo menos 100 pessoas ficaram desabrigadas em Peruíbe após as chuvas intensas; um abrigo solidário foi montado para atendimento emergencial.
  • As aulas foram suspensas nas escolas municipais em função dos riscos e impactos locais.
  • Estradas foram parcialmente danificadas devido ao volume das chuvas ao longo do fim de semana.
  • A Defesa Civil mobilizou um gabinete de crise para coordenar a resposta operacional diante do agravamento das chuvas.
  • Trechos como a Estrada do Guaraú foram interditados pela Defesa Civil após formação de “cachoeiras” sobre a pista por causa da água acumulada.
  • Rios e córregos transbordaram, levando a alagamentos de ruas e bairros, sobretudo no Caraguava e Balneário Samburá.
  • Municípios do litoral Norte de São Paulo como Caraguatatuba e Ubatuba também sofreram inundações e resgates de moradores ilhados por causa da intensidade das chuvas. A prefeitura de Ubatuba decretou situação de emergência.
  • Estradas e rodovias importantes no norte do litoral foram fechadas devido a queda de barreiras ou risco de escorregamentos (incluindo partes da Mogi-Bertioga e da Oswaldo Cruz).
  • Em Natividade da Serra, um deslizamento atingiu uma residência, com uma fatalidade registrada. Em Ubatuba, duas pessoas morreram após uma embarcação de pesca naufragar durante a tempestade na noite de sábado (21/2).
  • Em Juiz de Fora, o temporal resultou em pelo menos 24 mortes confirmadas e 45 pessoas desaparecidas, com dezenas de ocorrências de deslizamentos, soterramentos e desabamentos atendidas pelo Corpo de Bombeiros.
  • Cerca de 440 moradores ficaram desabrigados na cidade, levando a um decreto de estado de calamidade pública e suspensão das aulas na rede municipal de ensino.
  • Em Ubá, as chuvas causaram transbordamento de rios e enchentes que deixaram pelo menos seis mortos.
O que diz a ciência?
  • Um estudo publicado na revista NPJ Natural Hazards (Nature) indica que a frequência e a intensidade de eventos extremos de chuva aumentaram no Sudeste e Sul do Brasil ao longo das últimas décadas, em linha com as projeções de elevação da temperatura global do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).
  • O número de desastres climáticos provocados pelas chuvas no Brasil cresceu 222,8% nesta última década, segundo um estudo coordenado pelo Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
  • A proporção de municípios brasileiros afetados por desastres relacionados a chuvas extremas aumentou de 27% nos anos 1990 para 68% nos anos 2000, e atingiu 83% em 2025.
  • As chuvas apresentaram uma tendência de aumento de 30% nas regiões Sul e Sudeste, enquanto no Norte e Nordeste, a redução pode chegar a até 40%, segundo projeção até o ano de 2100, conforme dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC).
  • Especialistas têm destacado que mudanças climáticas estão associadas ao aumento da frequência e intensidade de sistemas de instabilidade, os quais podem amplificar episódios de chuva extrema no litoral Sul e Sudeste.
Quais são os prejuízos econômicos?
  • Total de prejuízos das chuvas reportados entre 1995 e 2023: R$ 146,7 bilhões.
  • Perda econômica 2020-2023: R$ 43,1 bilhões, o que é 40 vezes maior que a perda registrada na década de 1990 (R$ 1,1 bilhão). Anualmente, a perda de 2020-2023, de R$ 10,8 bilhões, é 58% superior à da década anterior (R$ 6,8 bilhões/ano, 2010-2019) e 50 vezes maior que à da década de 1990 (R$ 215 milhões/ano).
  • Prejuízos privados correspondem a 83% do total de perdas econômicas no período de 1995 a 2023. Os setores mais afetados foram a agricultura (47%) e o comércio (30%).
  • Os prejuízos públicos somam R$ 24,4 bilhões entre 1995 e 2023. Os setores mais afetados foram transporte (52%), saneamento básico (28%) e ensino (8%).
Fonte: ClimaInfo





Aquecimento global está avançando mais rápido nos últimos dez anos

Pessoas se protegem do sol em mais um dia de calor no Rio de Janeiro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Estudo demonstra com alto grau de precisão estatística que a taxa de aumento na temperatura da Terra quase dobrou na última década.

A Terra está aquecendo em ritmo mais acelerado nos últimos dez anos. Desde 1970, ao longo de mais de 40 anos, o índice de elevação da temperatura era constante por década, cerca de 0,2°C. De 2014 em diante, porém, a taxa passou para 0,35°C por década – quase o dobro do registrado até então.

A aceleração do aquecimento global é apontada por um estudo de cientistas do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), da Alemanha, publicado na revista Geophysical Research Letters. É a primeira vez que uma pesquisa demonstra com alto grau de precisão estatística que o aumento da temperatura está avançando mais rápido, segundo a Folha.

O estudo alerta que, se o ritmo atual de aquecimento persistir, o limite de 1,5°C de aumento da temperatura sobre os níveis pré-industriais, estabelecido pelo Acordo de Paris, será ultrapassado nos próximos anos, destaca o Carbon Brief. Isso intensificará os eventos climáticos extremos e causará mais perdas catastróficas, com impactos humanos, sociais e econômicos crescentes.

O calor extremo dos últimos anos – 2023, 2024 e 2025 foram os anos mais quentes da história recente – foi intensificado por flutuações naturais, como ciclos solares, erupções vulcânicas e o fenômeno climático El Niño. Isso levou os cientistas a questionarem se as leituras de temperatura alarmantes são casos isolados ou resultado de um aumento no aquecimento global.

Assim, os pesquisadores do PIK aplicaram um método de redução de ruído para filtrar o efeito estimado de fatores não humanos em cinco grandes conjuntos de dados compilados por cientistas para avaliar a temperatura da Terra. Em cada um deles, constataram uma aceleração no aquecimento global provocada por ações humanas em 2013 ou 2014, explica o Guardian.

Os cinco prestigiados conjuntos de dados da temperatura global foram: NASA (agência espacial dos Estados Unidos), NOAA (agência dos EUA de ciência climática), HadCRUT (sistema do instituto nacional de meteorologia britânico), Berkeley Earth (instituto climático sem fins lucrativos) e ERA5 (do observatório climático europeu Copernicus). Os cientistas constataram um aumento da taxa na última década que vai de 70% (HadCRUT) a 110% (ERA5).

Os autores ressaltam que os ajustes que retiram os efeitos do El Niño e do máximo solar reduzem a temperatura global em 2023 e 2024. Ainda assim, demonstram que a aceleração do aquecimento não se deve a anos atípicos, mas sim a uma tendência que vem desde 2015.

CNN, Time, Ecodebate, Bloomberg e Business Green também repercutiram o estudo.

Fonte: ClimaInfo


sexta-feira, 13 de março de 2026

Governo do Brasil publica documentos do Plano Clima Adaptação

 


Medidas definem diretrizes, metas e ações para reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de adaptação do país aos impactos da mudança do clima

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) publicou, nesta sexta-feira (13/2), a Estratégia Nacional de Adaptação e seus 16 Planos Setoriais e Temáticos que integram o Plano Clima, consolidando as diretrizes e as estratégias de adaptação.

O Plano Clima é o guia de implementação da meta climática nacional sob o Acordo de Paris (a NDC, na sigla em inglês), pela qual o Brasil se comprometeu a reduzir entre 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 em relação a 2005.

Acesse aqui os documentos do Plano Clima Adaptação

Os documentos estabelecem diretrizes, objetivos, metas e ações voltadas à redução de vulnerabilidades e ao fortalecimento da capacidade adaptativa do país, em articulação com diferentes setores e entes federativos. Também reconhecem que os efeitos da mudança do clima atingem de forma desigual a população brasileira, com maior impacto sobre grupos socialmente mais vulneráveis.

Com 84,5% do total de municípios brasileiros e 324,6 milhões de pessoas afetados por desastres na última década, a adaptação é orientada pelos princípios da justiça climática, da proteção dos direitos humanos, da inclusão social e da redução das desigualdades, buscando apresentar uma resposta abrangente e sensível às particularidades de cada comunidade, setor e região, observando a intersetorialidade do problema.

Coordenada pelos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a elaboração do Plano Clima Adaptação foi construída por meio de processo participativo e interinstitucional, no âmbito do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), sob a presidência da Casa Civil da Presidência da República (CC/PR).

O processo contou com envolvimento de órgãos e entidades da administração pública federal, representantes de governos estaduais e municipais, comunidade científica, sociedade civil, setor produtivo e demais atores estratégicos.

Cerca de 6 mil pessoas e 700 instituições foram mobilizadas presencialmente. Além de consultas públicas, oficinas técnicas, reuniões setoriais e temáticas, webinários e plenárias nas cinco regiões do país, a participação social foi impulsionada pela Plataforma Brasil Participativo, garantindo transparência, pluralidade de contribuições e alinhamento às realidades territoriais do país. A plataforma registrou cerca de 300 mil acessos e, na fase de consulta pública, somou mais de 3.600 contribuições aos documentos.

O que o Plano Clima Adaptação estabelece

A partir de um diagnóstico sobre os principais impactos da mudança do clima para os próximos dez anos, a Estratégia Nacional de Adaptação (ENA) contextualiza a agenda climática no Brasil e no mundo, indicando as diretrizes, os objetivos e as metas nacionais a serem seguidos pelo Governo do Brasil, bem como por estados e municípios em seus planos de adaptação, conforme estabelecido no artigo 6º da Lei nº 14.904, de 27 de junho de 2024, fortalecendo a articulação entre os diferentes níveis de governo.

O documento apresenta conceitos técnicos e a base metodológica que orientaram sua construção e a dos Planos Setoriais e Temáticos, com ênfase na abordagem de risco climático e no ciclo iterativo da adaptação, além dos normativos, compromissos internacionais e marcos legais relevantes.

Os 16 Planos Setoriais e Temáticos de Adaptação abrangem áreas fundamentais para a proteção da população, dos territórios e das atividades econômicas:

  • Agricultura e Pecuária
  • Agricultura Familiar
  • Biodiversidade
  • Cidades
  • Energia
  • Igualdade Racial e Combate ao Racismo
  • Indústria e Mineração
  • Oceano e Zona Costeira
  • Povos e Comunidades Tradicionais
  • Povos Indígenas
  • Recursos Hídricos
  • Redução e Gestão de Riscos e de Desastres
  • Saúde
  • Segurança Alimentar e Nutricional
  • Transportes
  • Turismo
Além disso, o Plano está estruturado em:
  • 13 diretrizes nacionais;
  • 9 objetivos nacionais;
  • 12 metas nacionais;
  • 51 objetivos setoriais e temáticos;
  • 312 metas setoriais e temáticas;
  • 810 ações voltadas à redução dos impactos climáticos.

O Plano Clima Adaptação traz a meta de atendimento com obras de prevenção de riscos de desastres, a ampliação em 180 mil hectares da cobertura vegetal em áreas urbanas,100% da carteira de investimentos em infraestrutura contratada pelo Governo do Brasil considerando os riscos climáticos, redução em pelo menos 30% as interrupções operacionais causadas por eventos climáticos em infraestruturas federais de transportes e a redução para 7,5% o total de municípios com nível de segurança hídrica mínimo. De acordo com as metas estabelecidas, o Brasil pretende erradicar a insegurança alimentar e nutricional grave até 2035.

Justiça Climática

O Plano Clima Adaptação prioriza a adaptação centrada nas pessoas, focando na redução de vulnerabilidades e na erradicação de desigualdades que perpetuam a pobreza e agravam os riscos associados à mudança do clima. Para tanto, a busca pela adaptação transformativa é essencial, não apenas para responder à mudança climática, mas também para reconfigurar os atributos fundamentais dos sistemas naturais e humanos.

Considerando a diversidade do Brasil e a realidade desigual que permeia a sociedade, vê-se a justiça climática como eixo norteador desse Plano em todo o ciclo iterativo da adaptação, buscando a identificação de como os riscos climáticos afetam diferentes populações e territórios.

Esta abordagem envolve a integração de temas transversais, como igualdade de gênero, mobilidade humana, racismo ambiental, Adaptação baseada em Ecossistemas (AbE) e cobenefícios com a mitigação de gases do efeito estufa.

Reconhece também a necessidade do fortalecimento do Federalismo Climático como chave para a implementação multissetorial e multinível do Plano Clima, considerando o território como a base das demandas sociais e onde, de fato, as políticas públicas se materializam. Sendo assim, tem como meta nacional garantir que todos os estados e ao menos 35% dos municípios brasileiros tenham Planos de Adaptação até 2035.

Para orientar a implementação das ações de adaptação no âmbito federal, o Plano levou em conta as possibilidades reais de financiamento e os recursos oriundos do orçamento público e fundos especialmente constituídos, em consonância com o planejamento governamental do Plano Plurianual, já destinados aos ministérios responsáveis pela execução dessas políticas.

Para as ações que ainda não contam com fontes de financiamento, espera-se que o Plano de Adaptação se traduza numa carteira de projetos em potencial e venha a subsidiar outros instrumentos fiscais e orçamentários para assegurar a execução e o monitoramento de iniciativas que promovam a resiliência climática no país.

Fonte: MMA

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Medidas definem metas e diretrizes para orientar a redução das emissões de gases de efeito estufa e fortalecer a transição do país para uma economia com emissões líquidas zero

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) publicou, nesta sexta-feira (13/3), os documentos da Estratégia Nacional de Mitigação (ENM) e seus oito Planos Setoriais, que integram o Plano Clima e consolidam as diretrizes e estratégias de mitigação.

O Plano Clima é o guia de implementação do esforço climático nacional no âmbito do Acordo de Paris. Por meio da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês), o Brasil se comprometeu a reduzir entre 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035, em relação aos níveis de 2005.

Acesse aqui os documentos do Plano Clima Mitigação.

O conjunto de instrumentos responde à urgência imposta pela crise climática e à necessidade de assegurar que o desenvolvimento nacional ocorra de forma sustentável, garantindo prosperidade econômica, geração de empregos verdes e promoção da justiça climática.

A Estratégia Nacional de Mitigação reconhece que a redução das emissões não é apenas um imperativo ambiental, mas também uma oportunidade para impulsionar a inovação tecnológica, fortalecer cadeias produtivas sustentáveis e ampliar a inserção competitiva do Brasil nos mercados internacionais.

Com horizonte temporal alinhado ao ciclo de revisão da NDC, até 2035, a ENM e os oito Planos Setoriais de Mitigação poderão ser atualizados periodicamente, em sintonia com os processos internacionais de monitoramento e avaliação do progresso climático, como o Balanço Global (Global Stocktake). Esse caráter dinâmico permite incorporar avanços científicos, tecnológicos e institucionais, mantendo o país preparado para responder às demandas nacionais e globais de ação climática.

O que o Plano Clima Mitigação estabelece

O eixo de mitigação do Plano Clima resulta de um amplo processo de elaboração, fundamentado na melhor ciência disponível, na articulação entre ministérios e governos subnacionais e na participação da sociedade em diferentes etapas de mobilização.

Para viabilizar a ambição climática brasileira, a Estratégia Nacional de Mitigação realiza a alocação de emissões e remoções do inventário nacional de emissões e remoções de GEE, com base nas competências institucionais das Pastas Setoriais e agentes econômicos entre oito Planos Setoriais de Mitigação:

• Mudanças do Uso da Terra em Áreas Públicas e Territórios Coletivos
• Mudanças do Uso da Terra em Áreas Rurais Privadas
• Agricultura e Pecuária
• Energia
• Transportes
• Indústria
• Cidades
• Resíduos Sólidos e Efluentes Domésticos

A implementação da Estratégia Nacional de Mitigação ocorre por meio dos Planos Setoriais, que desdobram os objetivos nacionais em metas específicas de emissões ou remoções líquidas para 2030 e 2035. Essas metas setoriais atribuem papéis e responsabilidades claras a cada setor, garantindo que o esforço agregado resulte em uma trajetória nacional consistente de mitigação.

Para 2030, estabelecem-se limites setoriais alinhados à meta nacional de 1,2 GtCO₂e, enquanto para 2035 adota-se o formato de “banda” de emissões (0,85–1,05 GtCO₂e), que define margens máximas e mínimas de esforço, respectivamente. Esse arranjo assegura flexibilidade, ao mesmo tempo em que mantém a integridade ambiental e a coerência com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.

Diretrizes da Estratégia Nacional de Mitigação

A Estratégia Nacional de Mitigação estabelece diretrizes gerais que orientam a formulação de ações voltadas à redução das emissões de GEE nos diferentes setores da economia. Essas diretrizes detalham os princípios da estratégia nacional e apresentam recomendações para orientar a implementação das políticas de mitigação.

As orientações devem ser consideradas tanto na elaboração dos Planos Setoriais de Mitigação quanto na construção de planos de ação climática em estados e municípios.

A definição das diretrizes, metas e ações de cada Plano Setorial resultou de contribuições de órgãos que integram o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) e de processos de consulta e participação com organizações da sociedade civil, movimentos sociais, setor privado, comunidade científica e entes subnacionais.

Fonte: MMA


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quinta-feira, 12 de março de 2026

Super El Niño? Modelos climáticos apontam para possível evento extremo no Pacífico ainda em 2026

 

Mapa de previsão do modelo climático europeu indica forte aquecimento das águas do Pacífico equatorial até julho de 2026, padrão típico associado ao desenvolvimento de El Niño. As cores em vermelho mostram anomalias acima de 2 °C em relação à média histórica. — Foto: ECMWF

Fenômeno pode pressionar temperaturas globais a níveis recordes e provocar secas, chuvas intensas e mudanças em padrões climáticos ao redor do mundo.

Por Roberto Peixoto, g1

O planeta pode estar caminhando para um El Niño forte ou até "super" ainda em 2026.

É o que indicam os dados mais recentes divulgados pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês), que apontam 98% de chance de um El Niño moderado se formar até agosto, com 80% de probabilidade de um evento forte e 22% de chance de atingir a categoria "super".

🌊 ENTENDA: O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico. O fenômeno acontece com frequência a cada dois a sete anos.

No Brasil, quando ele está em atuação, o calor é reforçado no verão e o inverno é menos rigoroso. Isso ocorre porque ele dificulta o avanço de frentes frias no país, fazendo com que as quedas sejam mais sutis e mais breves.

Não há um consenso, contudo, entre meteorologistas e climatologistas para a definição exata de um Super El Niño.

De forma geral, o termo é usado quando o aquecimento das temperaturas do mar nessa região-chave do Pacífico supera 2°C acima da média, provocando uma resposta atmosférica de grande magnitude.

“Os modelos já indicam a possibilidade de um El Niño forte a partir de maio, ganhando força ao longo do inverno. Mas ainda é cedo para falar em um ‘super El Niño’; por enquanto, esse cenário precisa de mais confirmação”, explica o meteorologista César Soares, da Climatempo.

Esses eventos raros ocorrem, em média, uma vez a cada 10 a 15 anos.

Atualmente, o mundo ainda está sob influência de uma La Niña fraca — o fenômeno oposto, marcado por águas mais frias que o normal.

Os modelos indicam que essa fase deve enfraquecer nos próximos meses, com possível transição para El Niño após julho. Até lá, uma janela de neutralidade climática deve predominar.

Mas se as previsões se confirmarem, os impactos serão sentidos em escala global: maior frequência de ondas de calor, concentração de chuvas intensas em algumas regiões e secas severas em outras, além de mudanças nas trajetórias de ciclones tropicais.

No Atlântico, a temporada de furacões pode ser mais tranquila: os ventos intensos nas camadas médias e superiores da atmosfera durante El Niños criam condições menos favoráveis para a formação de tempestades tropicais.

Projeções do modelo climático europeu indicam aquecimento gradual das águas do Pacífico equatorial (região Niño 3.4) ao longo de 2026, sinal associado ao possível desenvolvimento de um episódio de El Niño. — Foto: ECMWF

O histórico dos eventos anteriores serve de alerta para regiões vulneráveis. Durante o Super El Niño de 2015-16, secas severas castigaram partes da África, da América Central, da Ásia e da Oceania. Países tropicais da América do Sul, África, Oriente Médio, Índia e Austrália tendem a registrar calor e umidade extremos nesses períodos.

Há também o risco para as temperaturas globais. Eventos intensos de El Niño quase sempre empurram o planeta para anos recordes de calor, pois o calor liberado pelo oceano se redistribui pela atmosfera com meses de defasagem — o que significa que os efeitos mais intensos podem ser sentidos ao longo de 2027.

Apesar dos sinais crescentes, a incerteza ainda é significativa. As previsões de El Niño tendem a ser menos precisas nesta época do ano, sob influência da chamada "barreira de previsão de primavera" no Hemisfério Norte, um período em que os modelos climáticos apresentam menor confiabilidade.

“Esse tipo de evento é mais raro e, por enquanto, os dados ainda não são suficientes para confirmar um cenário tão intenso”, afirma Soares.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) avalia que o espectro de possibilidades ainda vai de uma La Niña fraca a um El Niño forte, e deve divulgar uma atualização nos próximos dias.

Historicamente, as projeções se tornam mais confiáveis a partir de junho

Fonte: G1