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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Árvores gigantes de florestas tropicais superam limites físicos para transportar água até o topo

 

O pesquisador Arne Scheire, um dos autores do artigo, escala um dipterocarpo de 67 metros na Malásia (imagem: Arne Scheire/University Exeter)

Estudo publicado na Science mostra que espécies com altura equivalente à de prédios de 30 andares desenvolveram adaptações internas e – ao contrário do que se pensava – não são mais vulneráveis a secas do que a vegetação mais baixa.

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Contrariando um paradigma da botânica, uma pesquisa divulgada hoje (02/07) na revista Science revelou que as árvores gigantes das florestas tropicais – com altura equivalente à de prédios de 20 ou 30 andares – não têm dificuldade em transportar água da raiz até o topo e tampouco são mais vulneráveis à seca do que as menores. O trabalho detalha o mecanismo de sobrevivência dessas espécies ainda pouco compreendidas pela ciência, embora essenciais para a regulação do clima por sua capacidade de armazenar carbono.

Pesquisas anteriores sugeriam que, conforme as árvores ganham altura, a capacidade de mover água até o alto poderia ser prejudicada pela maior distância entre raízes e folhas e pelos efeitos da gravidade. Isso reduziria a fotossíntese, limitaria o crescimento e aumentaria a vulnerabilidade à seca.

Mas, de acordo com o novo artigo, as árvores gigantes desenvolveram adaptações internas que compensam os desafios de transportar água até os galhos mais altos. Além disso, testes realizados durante secas severas mostraram que elas não tiveram declínio acentuado de crescimento em comparação com árvores menores, contrariando a hipótese de que espécimes muito altos seriam mais suscetíveis ao estresse hídrico.

Os pesquisadores descobriram que ajustes dos conduítes do xilema (“tubos” microscópicos que a planta usa para conduzir água e nutrientes até as folhas), com diâmetros maiores conforme fica mais alta, compensaram o aumento da resistência ao fluxo de água durante o trajeto. Na prática, é como se a árvore precisasse de uma mangueira maior para levar água mais longe. Essas adaptações complexas são capazes de reduzir a chance de falhas no transporte hídrico quando a planta está em situações de seca.

No caso das folhas, o efeito da gravidade as obriga a funcionar com menor hidratação (potencial hídrico mais negativo), levando-as a ficar murchas e ter que fechar o estômato (estrutura microscópica que funciona como “poros”) mais cedo, reduzindo sua fotossíntese. O estudo mostra, porém, que as árvores gigantes aumentam a tolerância a essas condições, sem prejuízo ao seu funcionamento.

Esses achados avançam na biologia das árvores gigantes, ajudando a explicar como conseguem superar limitações físicas e fisiológicas para conduzir água e continuar crescendo; aprimoram olhares sobre o papel das florestas nas mudanças climáticas e geram evidências para orientar ações de conservação, visando manter o equilíbrio do ciclo de carbono, de chuvas e da biodiversidade.

“Existem poucos dados sobre como as funções hidráulicas de uma planta mudam conforme ela cresce. É aceito que árvores maiores têm dificuldade em transportar água e, por isso, podem morrer mais em função de secas. Ficamos muito surpresos com o resultado do nosso estudo, verificando que elas têm um mecanismo interno de ajuste”, diz à Agência FAPESP o autor correspondente do artigo, Paulo Bittencourt, professor da Escola de Ciências da Terra e Ambiente da Universidade Cardiff (Reino Unido) e pesquisador colaborador do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Segundo o ecólogo, 1% das maiores árvores do planeta armazena mais da metade do carbono em ecossistemas florestais tropicais, além de contribuir com o ciclo de chuvas pela evapotranspiração.

O trabalho teve apoio da FAPESP por meio de um projeto Jovem Pesquisador concedido ao biólogo Peter Groenendijk, que assina o artigo com Rafael Oliveira, ambos do Centro de Ecologia Integrativa do IB-Unicamp.

(Esquerda) Palasiah Jotan, pesquisadora, usa câmara de pressão para medir o potencial hídrico de folhas de dipterocarpo antes do nascer do sol, quando as árvores estão bem hidratadas; (centro) vista de um dipterocarpo de grande porte; (direita) autores do artigo diante de um dipterocarpo: da esquerda para a direita Arne Scheire, Palasiah Jotan, Martin Svátek, David Burslem e Paulo Bittencourt (créditos: Palasiah Jotan/Czech University of Life Sciences Prague e Lindsay Banin /UK Centre for Ecology & Hydrology))

‘Escalando a floresta’

Para realizar o estudo, que levou mais de dois anos, o grupo utilizou uma amostra de 38 árvores da família Dipterocarpaceae, de cinco espécies, localizadas na Reserva Florestal Kabili-Sepilok (Malásia), na ilha asiática de Bornéu. A reserva é mundialmente conhecida por abrigar centros de conservação, inclusive o primeiro criado no mundo para reabilitação de orangotangos.

Essas árvores, variando de 7,1 a 71 metros, são consideradas as mais altas com flores dos trópicos.

O trabalho de campo foi possível com a contribuição de escaladores treinados por Jamiludding Jami, arborista ligado à Parceria de Pesquisa da Floresta Tropical do Sudeste Asiático (SEARPP, na sigla em inglês). Jami foi responsável, em 2018, por escalar e medir um dipterocarpo (meranti amarelo, Shorea faguetiana) de 100,8 metros, considerado a árvore tropical mais alta encontrada até agora.

Escalar uma árvore de mais de 70 metros é um trabalho muito especial, que pouquíssimos fazem no mundo. São pessoas que conseguem, no meio da floresta, passar uma corda em uma árvore da altura de um prédio de 20 a 30 andares, subir e coletar galhos, por exemplo. Algumas coletas tiveram de ser sem sol, à noite. Não é só saber passar a corda e ter condicionamento físico. Precisa ver se tem vespeiro, saber se aquele galho é bom, se a madeira é forte, não é uma coisa trivial”, relata Bittencourt.

Essa expertise foi levada a escaladores no Amapá, pertencentes a comunidades ribeirinhas no Estado, que, após o treinamento, contribuíram com a coleta de material para pesquisa semelhante na floresta amazônica. Parte desses resultados deve ser divulgada até o final de 2026.

Há alguns anos, esse grupo de cientistas vem estudando gigantes da Amazônia na região do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e da Floresta Nacional do Amapá, para onde já foram realizadas algumas expedições. O projeto busca entender reações fisiológicas da floresta amazônica às mudanças climáticas. É liderado pela ecóloga britânica Lucy Rowland, da Universidade de Exeter, com quem Bittencourt trabalhou diretamente quando estava na instituição e que também é autora da pesquisa publicada na Science.

Estimativa apresentada em outro estudo liderado por Robson Borges de Lima, da Universidade do Estado do Amapá, e do qual Bittencourt e Groenendijk fizeram parte, indica que a Amazônia brasileira tem cerca de 55,5 milhões de árvores gigantes, mas a distribuição geográfica é desigual. Apenas 1% da área de floresta concentra 14% delas e metade está localizada em aproximadamente 11% do bioma. Ficam principalmente em Roraima e no Escudo das Guianas (formação geológica que inclui parte do Amapá), onde a disponibilidade de água é alta.



Impactos das mudanças climáticas

Para analisar como os dipterocarpos reagem ao estresse hídrico, os pesquisadores mediram as taxas de crescimento dos troncos antes, durante e depois do forte período de seca associado ao El Niño em 2023-2024. Fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial, o El Niño de 2023-2024 foi considerado um dos cinco mais intensos já medidos. Classificado no limite da categoria “muito forte”, elevou as temperaturas em cerca de 2°C acima da média, com diferentes impactos no clima de vários países.

No estudo, os resultados da comparação entre os períodos não mostraram declínios na taxa de crescimento associada à altura das árvores durante a seca severa. Ou seja, as maiores foram tão afetadas quanto as menores, sofrendo impactos semelhantes das mudanças climáticas.

Nossos achados demonstram que os sistemas hidráulicos de dipterocarpos muito altos evoluíram de forma a se adequar perfeitamente à sua altura, não devendo sofrer mais do que os de menor porte expostos às mesmas condições de seca”, afirma Rowland, por meio de comunicado à imprensa.

Nesse sentido, a pesquisa sugere que diferenças na capacidade das árvores de evitar bolhas de ar (embolia) que interrompem a circulação interna de água durante a seca podem estar mais relacionadas ao microclima da copa e ao sombreamento do que à altura.

Para Oliveira, os resultados sinalizam a necessidade de entender melhor os mecanismos que determinam a mortalidade das árvores gigantes durante secas extremas. “Em vez de assumir que a altura por si só aumenta a vulnerabilidade hidráulica, os achados apontam que existem outros mecanismos fisiológicos e anatômicos que podem ser igualmente ou mais importantes para explicar a sobrevivência dessas árvores às mudanças climáticas. Essa nova perspectiva pode ajudar o desenvolvimento de modelos mais realistas sobre o funcionamento das florestas e suas respostas a climas cada vez mais secos”, afirma Oliveira à Agência FAPESP.

Groenendijk reforça a importância de compreender as taxas de crescimento dessas espécies. “Entender quais idades as gigantes atingem, como crescem e como se comportam frente à variabilidade climática são questões cruciais que estamos tentando responder usando sensores automatizados e a análise de anéis de crescimento”, completa.

No Brasil, um grupo internacional de cientistas está coletando dados na Reserva Florestal Adolfo Ducke, em Manaus (AM), para quantificar e mapear as causas e os fatores de morte de árvores tropicais altas. O “Projeto Gigante” vem sendo desenvolvido por integrantes do Cary Institute of Ecosystem Studies Millbrook (Estados Unidos) em cooperação com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Oliveira destaca que, provavelmente, um mecanismo que compensa a resistência a secas está ligado à capacidade das folhas mais altas de absorver orvalho e neblina. “Pesquisas anteriores que fizemos mostraram que fontes atmosféricas podem ser importantes para manter a hidratação de plantas em geral, mesmo as de folhas muito grandes”, conclui.

O artigo Height does not impair the hydraulic system of the tallest tropical Dipterocarp trees pode ser lido em: science.org/doi/10.1126/science.aea9013.

Fonte: Agência FAPESP



segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sem medidas de adaptação eficazes, Europa aquece em ritmo superior à média global e tem 1.300 mortes adicionais em uma semana

Pessoas tentam se refrescar na frente de um jato d'água instalado em uma caminhonete da Defesa Civil perto do Coliseu — Foto: Andreas SOLARO / AFP

Pessoas pulam no Canal Saint-Martin durante uma onda de calor na França, em Paris — Foto: Ludovic MARIN / AFP

Continente enfrenta mudança climática ao mesmo tempo em que passa por profunda transformação demográfica, com aumento de população vulnerável

Por Amanda Scatolini

Quando a Europa enfrentou uma histórica onda de calor em 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, o episódio foi inicialmente tratado como um ponto fora da curva. Nos anos seguintes, porém, temperaturas extremas passaram a fazer parte da rotina dos verões europeus — como o deste ano, que mal começou e trouxe poderosa onda de calor em sua primeira semana, que já causou, informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no domingo, mais de 1,3 mil mortes adicionais.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicou no X que "neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob um calor extremo, escolas estão fechadas e redes elétricas em colapso". Sublinhou que "o estresse pelo calor é frequentemente chamado de 'assassino silencioso', e as casas, locais de trabalho e escolas europeias não foram construídos para suportar essas temperaturas". Na França, a agência nacional de saúde pública especificou que o surto afeta principalmente pessoas com mais de 65 anos e destacou aumento de 40% nas mortes em casa.

Enquanto sucessivos recordes de altas temperaturas são registrados em diferentes países, a Europa passa por uma transformação demográfica profunda, com população cada vez mais envelhecida e, consequentemente, mais vulnerável a extremos. A combinação dos fenômenos levanta uma questão que especialistas tentam responder há anos: até que ponto a Europa realmente se adaptou para enfrentar o problema?

Apesar de altas temperaturas não serem fenômeno exatamente novo para os europeus, a frequência, a duração e a intensidade de eventos extremos aumentaram significativamente desde a década de 1980, aponta a Agência Europeia do Ambiente (EEA). Além disso, segundo o observatório climático Copernicus, o continente é o que aquece mais rapidamente no planeta. A temperatura média europeia aumentou cerca de 0,49°C por década desde 1979 e, considerando só os últimos 30 anos, o ritmo é de 0,56°C por década — mais que o dobro da média global.

Os verões mais quentes registrados na Europa — Foto: Arte/ O GLOBO


100 milhões afetados

Recordes recentes, sobretudo a partir dos anos 2010, ilustram a tendência, com o verão de 2024 sendo o mais quente da série histórica até então. Naquele ano, a temperatura média do continente foi 1,54°C acima das registradas entre 1991 e 2020. Mais de 62,7 mil mortes relacionadas ao calor foram estimadas, o que põe o verão daquele ano como o segundo mais letal, atrás do de 2003.

Ainda que seja cedo para dizer que o verão deste ano entrará para o rol dos mais quentes registrados na Europa, seus primeiros dias (a estação começou no dia 21) já são históricos para a média de junho. Parte do continente é hoje assolada por uma nova onda — provocada por uma massa de ar extremamente quente proveniente do Norte da África e mantida sobre a Europa Ocidental por um sistema de alta pressão, formando um "domo de calor" — que já quebrou recordes em diversos países, com termômetros marcando mais de 40°C em alguns locais.

De acordo com a agência AFP, pelo menos 191 milhões de pessoas enfrentaram 35°C ou mais neste domingo, com temperaturas particularmente altas na Alemanha, República Tcheca, Hungria e Polônia.

Diante do quadro alarmante, que tende a se agravar, a principal estratégia recomendada pela OMS são os chamados Planos de Ação em Saúde para o Calor (HHAP, na sigla em inglês). Eles integram serviços de meteorologia, saúde pública e defesa civil para reduzir impactos.

O guia, que foi atualizado pela OMS este ano, indica a implementação de sistemas de alerta antecipado, protocolos para hospitais e serviços de emergência, campanhas de comunicação, mecanismos de monitoramento de grupos vulneráveis e procedimentos para resposta durante episódios de calor extremo.

— As ondas de calor deixaram de ser anomalias isoladas. São uma crise recorrente que causa sofrimento, ceifa vidas e sobrecarrega sistemas e infraestrutura de saúde — afirmou o diretor da OMS Europa, Hans Kluge.

Impacto humano das ondas de calor no continente — Foto: Arte/O Globo

Contudo, apesar dos avanços, a cobertura desses mecanismos não é universal no continente. Segundo levantamento de 2024 da EEA e do Observatório Europeu do Clima e da Saúde, 10 dos 38 países analisados não têm HHAPs estabelecidos (Bósnia e Herzegovina, Eslováquia, Estônia, Finlândia, Islândia, Kosovo, Montenegro, Noruega, Polônia e Sérvia). Outros três ainda estão em processo de desenvolvimento (Chipre, Dinamarca e Romênia).

Noruega e Finlândia registraram onda de calor em junho de 2025, com temperaturas acima de 30°C até em áreas próximas ao Ártico. No mesmo período, Polônia e Sérvia foram atingidas pelo fenômeno, que elevou a temperatura da superfície acima de 50°C em partes da Europa Central.

Além das medidas voltadas à saúde pública, algumas cidades também passaram a investir em adaptações urbanas para tentar amenizar os efeitos do calor cada vez mais intenso. Em Paris — que sofre intensamente com a atual onda de calor —, a estratégia começou a ganhar forma em 2015, quando a prefeitura mapeou uma rede de “ilhas de frescor”, com parques, áreas verdes, piscinas, bibliotecas, museus, igrejas e espaços públicos considerados adequados para enfrentar o calor extremo. Em 2018, a capital francesa já contava com mais de 800 locais acessíveis durante o dia e cerca de 150 à noite.

Na Espanha, Barcelona lançou uma rede de abrigos climáticos em 2020, inicialmente com 70 locais, ampliada para mais de 350 espaços, entre bibliotecas, centros comunitários, parques, mercados, museus e piscinas públicas. Outras intervenções incluem a ampliação da cobertura vegetal urbana, a criação de áreas sombreadas, a adoção de materiais mais refletivos em edifícios e pavimentos e a incorporação do risco de calor ao planejamento urbano.

Porém, não parece ser suficiente. Especialistas apontam que a transformação estrutural das cidades avança em ritmo lento, uma vez que grande parte da infraestrutura urbana foi concebida para enfrentar invernos rigorosos, e não verões cada vez mais quentes como o deste ano.

— Muitos países investiram em sistemas de alerta precoce e em planos de ação após 2003. Essas medidas salvaram muitas vidas, mas não são suficientes — afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro Climático da Cruz Vermelha, ao jornal britânico Guardian. — Precisamos de mais investimentos em casas, cidades e infraestrutura resistentes ao calor.

Envelhecimento rápido

O arquiteto e urbanista Luiz Florence, do Grupo de Trabalho Clima e Cidade do Instituto de Arquitetos do Brasil-SP, explica que a própria formação histórica das cidades europeias impõe desafios. Antigos núcleos medievais, marcados por ruas estreitas e edificações muito próximas, favorecem áreas de sombra, mas dificultam a circulação natural do ar.

— Quando essas cidades foram criadas, o convívio muito próximo com a natureza poderia oferecer uma exposição a vetores de doenças sanitárias. Então as cidades eram uma negação da natureza — disse ao GLOBO. — Hoje, com técnicas mais avançadas e políticas de saúde pública, é possível trazer a natureza de volta.

Em meio a esse cenário, a população europeia envelhece a passos largos. Combinados, os quadros põem em evidência um dos principais desafios associados ao calor extremo, que é a proteção de grupos mais vulneráveis, especialmente os idosos.

Hoje, pessoas com 65 anos ou mais representam cerca de 21,6% da população da União Europeia, segundo o Eurostat. Com o envelhecimento, o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e responder ao estresse térmico. Idosos também apresentam maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas, que podem ser agravadas por temperaturas elevadas.

Fonte: O Globo





terça-feira, 2 de junho de 2026

ENTREVISTA | O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil?

Pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) Gilvan Sampaio. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Entrevista com Gilvan Sampaio, meteorologista do INPE, ajuda a compreender o que é o aquecimento anormal nas águas do Pacífico equatorial, o que se sabe sobre a perspectiva do fenômeno para 2026 e a relação com a mudança do clima

As chances de o fenômeno El Niño se confirmar no segundo semestre e persistir até o fim de 2026 são de 82%, segundo o prognóstico mensal atualizado nesta quinta-feira (14/05) pelo Centro de Previsão da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), órgão que monitora a temperatura no oceano Pacífico equatorial. Contudo, ainda não há evidências científicas suficientes para assegurar qual será a intensidade do fenômeno, devido à estação de transição.

“É prematuro falar qualquer coisa em relação à intensidade do El Niño somente observando a temperatura da massa de água do oceano, especialmente agora, durante a estação de transição”, explica o meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e especialista em El Niño, Gilvan Sampaio. Durante a primavera e o outono, os modelos climáticos ficam menos precisos.

Pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), Sampaio esclarece os principais aspectos relacionados ao fenômeno, como a caracterização e os diferentes impactos no Brasil. Ele enfatiza ainda a necessidade de colocar a mudança do clima à frente do El Niño no rol de preocupações climáticas. “O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”, afirma.

Leia a entrevista com Gilvan Sampaio:

Quem faz o monitoramento dos dados primários para saber qual é a temperatura da água na região do Pacífico Equatorial?

Há uma rede de monitoramento sob responsabilidade da NOAA, que se chama TOGA [Tropical Ocean Global Atmosphere], que fornece os dados primários obtidos a partir das boias oceanográficas instaladas na região equatorial do oceano Pacífico, justamente para monitorar o El Niño. Essa rede integra o Programa de Pesquisa Climática Global da Organização Meteorológica Mundial para aferir a temperatura em pontos estratégicos no oceano ao longo da região na Linha do Equador.

Legenda: anomalia de temperatura no Oceano Pacífico. Dados divulgados pelo CPC/NOOA em 11/05/2026. Valores em graus Celsius.

Repercute uma imagem com uma massa de água quente no oceano Pacífico. O que está acontecendo?

Essa imagem mostra uma onda com águas muito mais quentes do que a média para essa época do ano, em profundidade de cerca de 100 a 150 metros no oceano, se deslocando do Pacífico oeste em direção à costa oeste da América do Sul. Muitas pessoas olham essa imagem e interpretam que vai haver um aquecimento muito forte do Pacífico equatorial, levando a um El Niño muito intenso. Embora esse tipo de onda no oceano seja lenta, ainda é cedo para dizer se vai perdurar ao longo do segundo semestre, e, se perdurar, qual será a intensidade do aquecimento das águas. Pode haver mudanças rápidas e a onda perder intensidade. Entre abril e maio, estamos em uma estação de transição, e os modelos climáticos são menos confiáveis. É claro que temos que monitorar. Se continuar como está, aí sim nós podemos ter um El Niño de moderado a forte. A partir de junho, os modelos começam a ficar mais confiáveis, teremos um quadro melhor da evolução e podemos falar com mais segurança sobre a intensidade do El Niño.

Como saber quando se configura o fenômeno El Niño?

Configura El Niño quando as temperaturas da água persistem acima de, pelo menos, meio grau Celsius, por alguns meses, nas regiões do oceano chamadas de Niño 3.4, Niño 3, Niño 2, que estão localizadas entre as latitudes 5 graus ao norte e 5 graus ao sul no Pacífico, ao longo da Linha do Equador. Não basta só o aquecimento do oceano, tem que ter a resposta da atmosfera junto. O principal sinal de que mexeu com a circulação atmosférica é quando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste na região da Linha do Equador, perdem a intensidade. Isso provoca uma modificação da célula de circulação de Walker, alterando o padrão de ventos e formação das chuvas na troposfera, que é a camada mais baixa da atmosfera. É uma mudança total da circulação atmosférica, não apenas nessa região, mas em praticamente todo o globo. Isso não aconteceu ainda neste ano.

À esquerda, o funcionamento da Célula de Circulação Walker em condições normais. À direita, a célula sob a influência do El Niño. Fonte: CPTEC/INPE

Quais são os impactos do El Niño no Brasil?

Para o Brasil, o El Niño tem impactos de seca no norte e no leste da Amazônia e no norte do Nordeste, durante o primeiro semestre do ano. Se o El Niño persistir no segundo semestre de 2026, poderá ter impactos no ano que vem.

Para o Sul do Brasil, o impacto é na primavera do hemisfério Sul [em setembro]. Veja, por exemplo, aqueles impactos grandes no Sul do Brasil — que foram dois episódios de chuvas muito intensas durante o El Niño de 2023 —, ocorreram em setembro de 2023. Depois, outro impacto em abril/maio de 2024.

Caso se configure El Niño em julho ou agosto, significa que a região Sudeste terá um inverno menos frio do que o normal e pode ser que tenha períodos com ondas de calor. A depender da intensidade, o principal impacto nos próximos meses serão temperaturas mais altas do que a média histórica.

Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul para os períodos de verão (dezembro a fevereiro) e inverno (junho a agosto) Fonte: BTR1/CPTEC/INPE

Esse fenômeno está ocorrendo em um cenário de aquecimento global. As pessoas estão olhando para o El Niño, mas deveriam estar mais preocupadas com a mudança do clima?

Exatamente, a mudança do clima é o principal fator. O golpe de misericórdia, digamos assim, vem com o El Niño porque aumenta os extremos climáticos, ou seja, períodos quentes, chuvas intensas, ondas de calor. O El Niño potencializa, mas o principal é o que vem do aquecimento global. Independentemente de ter El Niño ou não, estamos vendo os extremos aumentando a frequência em toda a região tropical, principalmente.

Pensando em questões estratégicas, como agricultura e abastecimento de água, as pessoas devem se preocupar?

Se continuar esse aquecimento subsuperficial das águas do Pacífico ao longo dos próximos meses, teremos um El Niño moderado, no mínimo. O El Niño moderado traz consequências para o Brasil. Por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, ocorre o aumento das chuvas durante a primavera, isso traz impacto muito grande para a agricultura.

O inverno um pouco mais quente no Sul, Sudeste e em parte do Centro-Oeste pode trazer problemas associados, como atraso na próxima estação chuvosa. Hoje, os reservatórios do Sudeste estão com problemas. Persistindo a seca, o problema pode ser potencializado para o ano que vem.

E no caso da Amazônia?

Na Amazônia, as secas são provocadas por dois fenômenos e em duas regiões distintas. O El Niño provoca secas no norte e leste da Amazônia e ocorrem no primeiro semestre do ano, que é o período chuvoso na região.

As secas que ocorrem no oeste e sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e Rondônia, estão associadas com o aquecimento do Atlântico Tropical Norte. No momento, não tem nenhum aquecimento abrupto no Atlântico Norte, que fica ao norte da América do Sul. E, se tivesse, esse sim ocorre agora em julho, agosto e setembro.

Os fenômenos El Niño estão se tornando mais frequentes?

Não dá para afirmar ainda, mas todas as projeções indicam que eles se tornarão mais frequentes e intensos. O aquecimento global não aquece só a atmosfera, ele aquece também os oceanos. Algumas projeções indicam que, no final do século XXI, teremos um clima semelhante ao El Niño semipermanente, com mais volume de chuvas no Sul e menos no norte e leste da Amazônia e norte do Nordeste. Se você olhar as projeções climáticas para o Brasil, é mais ou menos esse o retrato dessas projeções.

Quais são as fontes de informação para que as pessoas possam ser esclarecidas sobre o El Niño?

No Brasil, no âmbito do MCTI, o órgão responsável pelo monitoramento e a previsão de El Niño é o INPE, por meio do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, o CPTEC. Em breve, vamos lançar um boletim de acompanhamento do El Niño, assim como fizemos em 2023.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação



quinta-feira, 19 de março de 2026

Fundo Clima: BNDES investe R$ 150 milhões para recuperar 15 mil hectares de Mata Atlântica no Norte do RJ

Foto: Lucas Ninno/Getty Images

Projeto apoiado com recursos do Fundo Clima terá foco inicial nas cidades fluminenses de Campos dos Goytacazes, São Francisco de Itabapoana e Quissamã 

No longo prazo, a recuperação da cobertura vegetal contribuirá para proteger a biodiversidade, reduzir enchentes, mitigar a estiagem, melhorar a infiltração da água no solo e estabilizar áreas sujeitas à erosão

O financiamento reforça a posição do Brasil como referência global em restauração florestal. Desde 2023, BNDES já mobilizou mais R$ 7 bilhões para o setor

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a empresa Tree Agroflorestal S.A. (Tree+) assinaram nesta segunda-feira, 2,contrato de financiamento de R$ 151,8 milhões para apoio a restauração ecológica de 15 mil hectares de áreas degradadas do bioma Mata Atlântica. Os recursos são provenientes do Fundo Clima – Florestas Nativas e Recursos Hídricos e destinam-se ao plantio e à regeneração de vegetação nativa. Participaram da assinatura do contrato, a diretora Socioambiental do Banco, Tereza Campello e o diretor geral da Tree+, Sandro Longuinho.

A Tree+ desenvolve suas atividades inicialmente no Norte Fluminense, nos municípios de Campos dos Goytacazes, São Francisco de Itabapoana e Quissamã. O território-alvo poderá incluir áreas complementares no sul do Espírito Santo e na Zona da Mata Mineira, fortalecendo a conectividade ecológica regional. Ao longo de 2025, a Tree+ já realizou ações de recuperação em cerca de 2 mil hectares.

Foto: André Telles/BNDES

A recuperação será realizada em Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reservas Legais (RLs) e áreas voluntárias adicionais, em conformidade com o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica. Serão utilizadas exclusivamente espécies nativas do bioma, de forma a estimular a reconexão de fragmentos florestais, a recuperação de habitats e o retorno gradual da fauna silvestre.

“O governo Lula recolocou o Brasil no centro da agenda global do clima, com compromisso real com a redução do desmatamento e a restauração de florestas. A Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos e, ao mesmo tempo, mais degradados do país. Apoiar projetos de recuperação em escala é essencial para proteger a biodiversidade, enfrentar eventos climáticos extremos e gerar emprego e renda nos territórios”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

O bioma Mata Atlântica abriga cerca de 20 mil espécies vegetais — aproximadamente 35% das espécies brasileiras, muitas delas endêmicas. Segundo dados do MapBiomas, a Mata Atlântica é o bioma brasileiro com menor cobertura vegetal remanescente, cenário particularmente crítico no Norte Fluminense.

No longo prazo, a iniciativa promoverá a recuperação estrutural do solo, com melhoria significativa de suas condições físicas, biológicas e hidrológicas, ampliando a infiltração e o armazenamento de água, mitigando alagamentos sazonais e processos erosivos. O projeto adota uma abordagem integrada da paisagem, que incorpora os produtores rurais como parceiros estratégicos do negócio. Utilizando sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) como ferramenta-chave de incentivo produtivo, essa abordagem recupera a funcionalidade e produtividade das áreas de agropecuária, criando viabilidade econômica para a adesão voluntária à restauração florestal. Assim, o modelo de desenvolvimento rural se torna sustentável e alia conservação ambiental, segurança hídrica e geração de renda, além de ser um instrumento de mitigação climática.

Portanto, além dos ganhos ambientais, o projeto vai gerar impactos socioeconômicos na região. Durante a fase de implantação, a estimativa é de criação de mais de 800 empregos diretos e indiretos, com destaque para atividades de campo, viveiros, coleta de sementes, manutenção florestal e serviços técnicos especializados. A iniciativa também tem um compromisso com a inclusão de mulheres e está desenvolvendo parcerias para capacitação de mão-de-obra feminina e projetos de incentivo ao empreendedorismo local, com foco especial nesse público.

A certificação de créditos de carbono, estruturada segundo metodologias internacionais de alta integridade, associa a recuperação florestal à remoção de gases de efeito estufa e amplia o potencial de geração de receitas através de serviços ambientais. O projeto contribui ainda para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6, 13 e 15, relacionados à água, à ação climática e à vida terrestre.

“O investimento do BNDES representa um valor que vai além do econômico: é um indicativo de que a recuperação de áreas degradadas se tornou uma prioridade nacional, estimulando também o engajamento do capital privado nesse propósito. Essa parceria, além de promover ganhos ambientais por meio do restabelecimento de habitats, cria um verdadeiro hub de serviços florestais e ecossistêmicos que expressam a vocação natural do Brasil e do Norte fluminense, gerando emprego e renda a partir de seus recursos renováveis” afirmou a diretora de ESG da Tree+, Adauta Braga.

O financiamento reforça o papel do BNDES para posicionar o Brasil como referência global em restauração florestal, bioeconomia e soluções baseadas na natureza, em consonância com o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

A diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, destaca que a operação reforça o papel do Banco como indutor do desenvolvimento sustentável nos territórios. “A restauração florestal é uma política pública estratégica. Ela recupera o meio ambiente, gera trabalho, fortalece economias locais e reduz a vulnerabilidade climática. Ao apoiar projetos como este no Norte Fluminense, o BNDES contribui para diversificar a base econômica da região e construir uma nova trajetória de desenvolvimento associada à bioeconomia”, afirmou.

O apoio à Tree+ está alinhado à estratégia BNDES Florestas, que posiciona a restauração florestal e a bioeconomia de espécies nativas como eixos estruturantes do desenvolvimento sustentável. A atuação do Banco vem sendo significativamente ampliada nesse setor. Desde 2023, o BNDES já mobilizou mais de R$ 7 bilhões para a conservação e a restauração de florestas brasileiras, por meio de instrumentos reembolsáveis e não reembolsáveis, crédito, garantias, concessões e apoio produtivo. Esses recursos têm fortalecido cadeias produtivas associadas à restauração, como viveiros de mudas, redes de sementes, brigadas florestais, manejo sustentável e projetos de reflorestamento e recuperação ambiental em diferentes biomas.

Sobre o Fundo Clima – Operado pelo BNDES, o Fundo Clima é um dos principais instrumentos da Política Nacional sobre Mudança do Clima. O fundo apoia projetos voltados à mitigação e adaptação climática, à conservação e recuperação de florestas, à proteção da biodiversidade e à segurança hídrica, promovendo o desenvolvimento sustentável e a transição para uma economia de baixo carbono. O Fundo Clima é destinado a pessoas jurídicas de direito privado com sede e administração no País e oferece financiamento para atividades de restauração e mitigação climática, com foco em áreas prioritárias para biodiversidade e desenvolvimento socioeconômico.

Sobre o BNDES Florestas – O BNDES Florestas é a estratégia do Banco para impulsionar a restauração florestal e a bioeconomia de espécies nativas em escala, integrando instrumentos que se reforçam mutuamente, como o BNDES Florestas Crédito (Fundo Clima), o Floresta Viva, o Arco da Restauração, o ProFloresta+, as concessões florestais com restauro e manejo sustentável, o BNDES Floresta Inovação e o Fundo Amazônia, fortalecendo cadeias produtivas e ampliando impactos ambientais, climáticos e sociais.

Sobre a Tree+ - A Tree Agroflorestal S.A. é uma empresa brasileira do setor de bioeconomia que desenvolve projetos de restauração ecológica, manejo florestal sustentável e geração de créditos de carbono, integrados à recuperação de paisagens degradadas. A companhia desenvolve a implantação de um mosaico florestal de cerca de 50 mil hectares no Sudeste brasileiro, combinando recuperação da Mata Atlântica, sistemas agroflorestais e manejo florestal sustentável. Os investimentos totais previstos pela Tree+ ultrapassam R$ 800 milhões até 2031, com foco na conectividade ecológica, na recuperação de solos e na proteção de recursos hídricos. A Tree+ pertence ao portfólio da Lorinvest Gestora de Investimentos."

Fonte: Agência BNDES de Notícias 



domingo, 15 de março de 2026

ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA: Copenhague se prepara para resistir às chuvas torrenciais

A rotunda Sankt Kjelds Plads é um dos mais de 250 espaços de Copenhague que foram reformulados. Foto Cidade de Copenhague.

Seguindo a nossa série de postagens sobre os planos de adaptação das cidades que mais se destacam em prevenção às mudanças climáticas, abordamos hoje o caso de Copenhague, a capital da Dinamarca. A cidade surgiu no ano de 1.167, como uma vila de pescadores vikings, em terreno majoritariamente pantanoso. Toda a Dinamarca tem relevo plano e baixo, portanto sujeito a inundações e muito vulnerável à elevação do nível do mar. 

"O Instituto Meteorológico Dinamarquês prevê um aumento de até 55% na precipitação nos meses de inverno até 2100, com aguaceiros cada vez mais intensos, caso as temperaturas globais subam de 2 a 3 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais. Os mares adjacentes à Dinamarca — o Mar do Norte e o Mar Báltico — podem subir até 1,2 metro" (Yale, E360).

Copenhague foi uma cidade pioneira e das mais ambiciosas em apresentar um plano para alcançar a neutralidade líquida de emissões de carbono, tendo inclusive anunciado o objetivo de atingir essa meta em 2025, o que não aconteceu. 

Cerca de um ano e meio após sediar a COP-15 (realizada de 7 a 18 de dezembro de 2019), no dia 2 de julho de 2011, Copenhague foi assolada por uma chuva torrencial, que causou grande transtorno e prejuízo. 

"Infraestruturas críticas do maior hospital da cidade foram alagadas, assim como importantes vias, subsolos e estabelecimentos comerciais. A cidade, que vinha investindo em planejamento de sustentabilidade avançado há décadas, mostrou-se lamentavelmente despreparada para a forte chuva, que causou prejuízos de US$ 1,8 bilhão" (Yale, E360).

O episódio ficou conhecido localmente como a "Chuva do Milênio". A cidade percebeu a sua vulnerabilidade e passou a priorizar a sua resiliência contra chuvas torrenciais e buscou soluções inovadoras de drenagem sustentável.

"Abalada pela calamidade, a cidade e seus cidadãos compreenderam que tais desastres climáticos — e inundações ainda mais severas — eram inevitáveis ​​e exigiam uma resposta rápida e enérgica. Para tanto, Copenhague reuniu seus melhores urbanistas, paisagistas, consultores e arquitetos para transformar a cidade, que se estende por duas ilhas principais no Mar Báltico, na primeira “cidade-esponja” do mundo. Esse sistema de defesa de última geração — que combina elementos naturais na superfície, como áreas úmidas e parques, com grandes estruturas subterrâneas, como tubulações de armazenamento e bacias de retenção — deverá proteger a cidade contra tempestades e a elevação do nível do mar por 100 anos" (Yale, E360).

No mesmo ano das chuvas, em outubro de 2011, Copenhague aprovou o seu Plano de Adaptação Climático, que logo foi complementado pelo Plano de Gestão de Tempestades (Cloudburst Management Plan 2012), adotado no ano seguinte, com o objetivo de transformá-la na primeira "cidade-esponja" do mundo.

Como parte do plano, duas opções foram consideradas para avaliar custos e vantagens/desvantagens potenciais. Um Plano Convencional focou na chamada engenharia cinza, como a ampliação a seção de tubulações de drenagem e esgotamento, além de túneis de drenagem para a área portuária. O Plano Azul-Verde focou no potencial das Soluções Baseadas na Natureza - SBN para estocar o drenar o excesso de água de forma superficial, como abrindo novos rios e canais, ou implantando novos lagos em áreas verdes. A cidade fez a opção pelo Plano Azul/Verde foi considerada a melhor opção, considerando a análise custo/benefício, mas combinou com soluções do Plano Convencional, como novas linhas de macrodrenagem e túneis, nas partes da cidade onde as soluções superficiais não eram possíveis. 

Prioridades nas áreas periurbanas: 
  • Parques e áreas verdes urbanas (semi)naturais
  • Áreas Azuis
  • Áreas verdes para o manejo da água
  • Espaços verdes urbanos conectados à infraestrutura cinza.
Para implementar o plano, a cidade tem a meta de implantar 300 projetos ao longo de 20 anos. A cada ano, a cidade atualiza as prioridades, de acordo com o nível de risco de cada área, áreas de fácil implementação ou áreas em que novos investimentos podem estar conectados com outros projetos de desenvolvimento (Interlace Hub). 

Axel Grael

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A ideia é criar espaços públicos que também sirvam para reter água, caso necessário. Foto: Tredje Natur.

Como o espaço acima poderia ficar após uma chuva forte e repentina. Foto: Tredje Natur.

Como Copenhague virou uma "cidade-esponja" contra cheias

Aditi Rajagopal de Copenhague

Publicado 4 de março de 2024. Última atualização 6 de maio de 2024

Capital da Dinamarca está entre as cidades no mundo que previnem enchentes tornando espaços públicos lugares de lazer, de biodiversidade e, ao mesmo tempo, áreas de absorção de águas pluviais.

Embora seja uma das rotatórias mais movimentadas do leste de Copenhague, o ar em Sankt Kjelds Plads não é pesado, não tem o cheiro e a textura dos gases de escape. E, em vez do rugido dos motores, a paisagem sonora é caracterizada pelo som melodioso produzido por pássaros.

A rotatória, que é cercada por arbustos e árvores, faz parte de um experimento em grande escala para transformar os espaços públicos da capital dinamarquesa. A ideia é tornar Copenhague mais "habitável", criando locais para os cidadãos se encontrarem e um habitat para a biodiversidade, ao mesmo tempo em que cria engrenagens em uma máquina de controle de enchentes.

Essa transformação foi desencadeada pelos eventos de 2 de julho de 2011, quando Copenhague foi atingida pelo que foi apelidado de "a chuva do milênio".

O aguaceiro maciço causou inundação de ruas e casas. E, sem ter para onde escoar, a água permaneceu por dias. Ratos mortos foram vistos flutuando pela cidade, e uma pesquisa posterior revelou que durante os trabalhos de limpeza um quarto dos trabalhadores do saneamento foi infectado com doenças como a leptospirose. Um deles até morreu.

Fonte: Interlace

Nos sete anos seguintes, esse tipo de tempestade começou a se tornar cada vez mais comum, com quatro eventos de "chuvas do século" registrados nesse período. Isso custou à cidade pelo menos 800 milhões de euros (R$ 4,3 bilhões) em prejuízos, deixando claro para os formuladores de políticas públicas que era hora de repensar a capital dinamarquesa.

Design urbano inspirado na esponja

Nos últimos séculos, o foco do desenvolvimento urbano em lugares como Copenhague foi a criação de "cidades-máquina" que pudessem ser construídas rapidamente e fossem eficientes para habitação, indústria e economia. Mas muitos desses centros urbanos acabaram interferindo no ciclo da água, especialmente aqueles que modificaram leitos de rios ou foram construídos sobre planícies aluviais.

Com o concreto e o asfalto cobrindo áreas antes destinadas à grama e ao solo, a água das chuvas mais fortes ficou sem ter para onde ir. Com muita frequência, isso resulta em enchentes, e cidades do mundo todo estão explorando maneiras de reverter esse tipo de desenvolvimento urbano. E elas fazem isso se transformando em "esponjas" urbanas.

Em outras palavras, essas cidades estão criando espaços e infraestrutura para absorver, reter e liberar a água de forma a permitir que ela flua de volta para seu ciclo.

A China está na liderança, com mais de 60 de suas cidades sendo reformadas e agora incorporando estruturas como biovaletas e jardins de chuva para reter a água. Jan Rasmussen, chefe do "Cloudburst Master Plan" (plano diretor para tempestades) de Copenhague, também viu potencial para a Dinamarca.

"Nossos políticos decidiram que há realmente uma necessidade de escoar a água da cidade muito rapidamente", disse Rasmussen. "Eles perguntaram se poderíamos fazer isso de forma inteligente, se poderíamos expandir o sistema de esgoto. Poderíamos lidar com as chuvas na superfície?"

Absorvendo a água da chuva

Tendo estudado projetos de cidades-esponja em todo o mundo, a equipe de Rasmussen pensou na remodelação de cerca de 250 espaços públicos de forma a ajudar na retenção ou redirecionamento de águas pluviais, incluindo parques, parques infantis e a rotatória Sankt Kjelds Plads. A ideia é usar a capacidade natural de retenção das árvores, dos arbustos e do solo e deixar a água pluvial fluir para locais onde não seja destrutiva.

Uma dúzia de lagos que margeiam a rotatória foi então projetada de forma a reter o excesso de água da chuva no caso de uma tempestade. Assim como outros lagos semelhantes espalhados pela cidade e aberturas largas nas laterais de ruas baixas, eles servem para canalizar a água da enchente para uma rede de túneis que está sendo instalada 20 metros abaixo da superfície.

Durante uma chuva "normal", as águas pluviais são direcionadas para o porto por meio desse sistema de drenagem. No entanto, quando há um excesso, como em um cenário de tempestade, uma estação de bombeamento no porto entrará em ação, forçando para o mar a água acumulada nos túneis, criando assim espaço para mais água da chuva e evitando que as ruas sejam inundadas. Essa estação está sendo construída atualmente e estará pronta em 2026.

"Ainda haverá água nas ruas. Quero dizer, elas não ficarão completamente secas. Mas passaremos de um metro [de água de enchente] para no máximo 20 centímetros", disse Jes Clauson-Kaas, engenheiro da Hofor, o departamento de gerenciamento de água responsável pela construção do túnel.
Benefícios de longo prazo

Parte do desafio é conseguir a adesão dos moradores locais. E isso nem sempre é fácil quando se trata de fechar parquinhos infantis ou os parques da cidade por longos períodos para transformá-los em zonas de inundação, ou financiar os planos de adaptação através de uma taxa extra nas contas de água.

Mas Clouson-Kaas diz que equipar para o futuro uma cidade propensa a inundações faz sentido do ponto de vista financeiro. "Perdemos cerca de 1 bilhão com esse único evento [em 2011], mas esperamos que haja vários eventos nos próximos 100 anos. Dizem que a perda potencial pode ser de pelo menos 4 ou 5 bilhões de euros. Portanto, se investirmos 2 bilhões de euros, ainda assim valerá a pena", disse ele.

Copenhague está em posição – financeira e política – de investir nessa infraestrutura agora, em vez de lidar com possíveis danos no futuro. A cidade se tornou um lugar na qual as outras cidades buscam um exemplo para aprender sobre os benefícios de se criar uma esponja urbana.

Fonte: DW


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sábado, 14 de março de 2026

Pesquisa mostra que áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” (foto: Paulo Bernardino)

Regiões são capazes de estocar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, equivalente a cerca de seis vezes o armazenamento da biomassa média da floresta tropical

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Os campos úmidos e as veredas do Cerrado brasileiro são capazes de armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que equivale a cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas na Amazônia. Datações indicam que, em média, esse carbono está no local há 11 mil anos, sendo, em alguns casos, de até 20 mil anos atrás, resultado de um processo lento de acúmulo favorecido pela falta de oxigênio nos solos saturados de água.

Os achados são de um estudo publicado na quinta-feira (12/03) na revista científica New Phytologist e liderado por pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Como essas áreas úmidas dependentes de lençol freático ainda são pouco estudadas, os cientistas fizeram um primeiro mapeamento usando dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina, apontando que elas podem cobrir 167 mil quilômetros quadrados (km²) no Cerrado. Representam uma região, pelo menos, seis vezes maior do que se pensava antes, equivalendo a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro.

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e conhecido como “berço de águas” por contribuir com dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, especialmente das regiões Sul e Sudeste do país. Também abriga os chamados olhos d’água – afloramentos naturais do lençol freático –, incluindo os de caráter difuso, protegidos pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que os classifica como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Imortalizadas na obra Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas. Além do carbono estocado, são fontes significativas de metano (CH₄), especialmente em áreas permanentemente inundadas, onde as emissões são aumentadas em decorrência de temperaturas mais elevadas.

Apesar de pouco visíveis e muitas vezes ignoradas, essas formações desempenham funções ecológicas estratégicas, principalmente por serem fonte para rios e bacias hidrográficas. Porém, segundo os pesquisadores, esses ecossistemas estão altamente vulneráveis a alterações no regime hídrico provocadas pela expansão agrícola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, construção de pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação.

Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nível do lençol freático e transformar esses solos em fontes de emissão de carbono.

“Se a gente corta uma árvore que está há 300 anos na floresta, perdemos um grande estoque de carbono e funções ecossistêmicas importantes que são difíceis de serem recuperadas em sua totalidade. Mas com o processo de restauração florestal, é possível chegar perto disso em 30 ou 40 anos. Ou seja, você consegue plantar árvores e durante sua vida acompanhar esse processo. Agora, o carbono do solo de uma área úmida do Cerrado não vamos recuperar no nosso tempo de vida, pois foi estocado ao longo de dezenas de milhares de anos”, exemplifica à Agência FAPESP a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do artigo.

O trabalho é, em parte, derivado do seu mestrado sob a supervisão do professor Rafael Silva Oliveira e foi premiado em 2024 como melhor dissertação do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal do IB-Unicamp.

Trabalhando atualmente no Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos) com a pesquisadora Amy Zanne, outra autora do artigo, Verona recebeu durante o mestrado bolsa da FAPESP, que também apoiou o estudo por meio de Auxílio à Pesquisa concedido a Oliveira.

“O Cerrado foi escolhido como a principal fronteira agrícola do Brasil, voltada à produção de commodities em larga escala. Situado entre duas formações florestais, a Amazônia e a Mata Atlântica, o bioma sofre intensa pressão de conversão e, ao contrário dessas florestas, não é reconhecido como patrimônio nacional na Constituição e tem previsão legal de apenas 20% para áreas de preservação. Infelizmente, temos a percepção de que manter APPs ao lado dos rios é suficiente para conservar as funções ecossistêmicas do bioma. Estamos vendo que não. Para manter os processos hidrológicos do Cerrado, é preciso entender a conectividade da paisagem. Não basta preservar pequenos fragmentos enquanto o restante do território é convertido”, complementa Oliveira, que também assina o artigo.

Mesmo com tendência de queda, os índices de desmatamento do bioma permanecem altos. De agosto de 2025 a janeiro deste ano, as áreas sob alerta de desmatamento no Cerrado totalizaram 1.905 km², ante 2.025 km² no período anterior (queda de 6%), segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Levantamento realizado pelo MapBiomas mostrou que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico (dados de 2024), sendo 24% para pastagem e 13% para agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Em relação à superfície de água, o documento mostra que 2024 teve a maior área desde 1985, mas com 60% do uso antrópico (boa parte em hidrelétrica).

Imortalizadas no livro Grande Sertão: Veredas – que completa 70 anos em 2026 – de João Guimarães Rosa, as veredas são um tipo de turfeira, um ecossistema de áreas alagadiças e pantanosas (foto: André Dib)

Trabalho de campo

A pesquisa é pioneira no uso de amostras de solo profundo (com profundidade de até quatro metros) para quantificar o carbono nesses ambientes. Foram coletadas amostras de solo de veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023.

“Fazer essas coletas foi um processo de desbravar algumas regiões. Havia local onde a vegetação chegava à altura do meu ombro e, como é alagado, muitas vezes os pés afundam. O nosso solo é mais denso do que outros, por isso foi fisicamente extenuante, às vezes com cinco ou seis pessoas ajudando a usar o equipamento, mas é muito gratificante o resultado”, conta Verona.

O grupo usou um instrumento chamado LI-COR Trace Gas Analyzer, conectado a anéis de PVC instalados no solo para medir o dióxido de carbono e o metano.

Para fazer a datação do carbono, os pesquisadores da Unicamp contaram com cientistas do Instituto Max Planck (Alemanha). Especialistas em sensoriamento remoto, Paulo Negri Bernardino, da Unicamp, e Guilherme Gerhardt Mazzochini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contribuíram no mapeamento das áreas.

O trabalho indicou ainda, por meio de espectroscopia, uma baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais. Cerca de 70% das emissões anuais de CO₂ e CH₄ ocorreram durante a estação seca. Como a maior parte da vegetação nessas áreas úmidas é composta por gramíneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode se transformar em emissões quando os solos secam, o que pode se agravar com as mudanças climáticas e a maior frequência de estações quentes e secas.

No artigo, os pesquisadores fazem um alerta para a necessidade de ampliar a proteção das áreas úmidas e melhorar a conscientização sobre a importância dessas zonas alimentadas por águas subterrâneas. Também destacam a relevância de ampliar o mapeamento e aprofundar os estudos para a compreensão desses ecossistemas.

Nesse sentido, Verona diz que continua a pesquisa em áreas úmidas sazonais para entender a dinâmica de carbono. Já Oliveira está aprofundando a análise do sistema hidrológico para entender melhor como funcionam esses ecossistemas e como restaurá-los.

“Se a gente perde turfeiras ou veredas, demoramos milhares de anos para restabelecer os níveis de carbono estocados, sem contar os prejuízos de outros serviços ecossistêmicos. A preservação é o caminho, mas continuamos tentando compreender melhor os processos”, projeta o professor.

Um outro artigo liderado por Oliveira e publicado no ano passado já destacava que, apesar da importância para a segurança hídrica e de estarem protegidos por lei, os campos úmidos do Cerrado, incluindo os olhos d’água, continuam sistematicamente negligenciados por políticas públicas, consultores ambientais, proprietários rurais e órgãos de fiscalização (leia mais em: agencia.fapesp.br/55287).

O artigo Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability pode ser lido em: nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.71027.

Fonte: Agência FAPESP



domingo, 15 de fevereiro de 2026

Cinco cidades do RJ tiveram a emergência climática reconhecida em 2026. No Brasil, são cerca de 200 cidades

Defesa Civil Nacional libera R$ 324 mil para assistência às vítimas das chuvas em Itaperuna (Foto: Reprodução). Fonte: MIDR.

Passados 45 dias do início do ano de 2026, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil - SEDEC, vinculada ao Ministério da Integração Regional e do Desenvolvimento Regional - MIDR e a Defesa Civil do RJ, divulgaram uma situação muito preocupante com relação à segurança climática das cidades brasileiras e do estado do Rio de Janeiro, no ano em curso.

Segundo a defesa civil estadual, conforme dados atualizados na sexta-feira, 35 cidades fluminenses foram afetadas pelas chuvas desde o dia 1º de fevereiro, resultando em quatro mortes, 1.668 pessoas desalojadas e 118 desabrigadas.

O MIDR divulgou uma lista inicial de municípios em situação de emergência climática no Brasil, em 2026. Dentre estes municípios, três são do estado do Rio de Janeiro: 

  • Piraí e Rio Claro foram reconhecidas pelos resultados de chuvas intensas, 
  • Itaperuna foi incluída em função dos danos dos alagamentos. 

Outros atos do ministério, publicados entre os dias 10 e 12 de fevereiro, estenderam as medidas para outras cerca de 20 cidades no país. Em 13/02, conforme também divulgado pelo MIDR, foi reconhecida a situação de emergência das cidades fluminenses de Cantagalo e São Sebastião do Alto, decisão esta que será publicada no Diário Oficial da União, na quarta-feira, dia 18 de fevereiro. 

Segundo o MIDR, nesta quinta (12/02), a Defesa Civil Nacional aprovou o primeiro plano de trabalho para assistência humanitária para Itaperuna, no valor de R$ 324,7 mil. 

No início de janeiro (07/01), o governo federal já havia aprovado a liberação de R$ 250 milhões em créditos extraordinários, recursos autorizados pelo presidente Lula após edição da Medida Provisória (MP) 1.333 de 7 de janeiro de 2026. O valor de R$ 220 milhões teve destinação para ações de proteção e defesa civil, enquanto o restante foi previsto para o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), para a implementação infraestruturas de segurança hídrica. 

A MP incluiu as seguintes medidas:
  • Atendimento às populações afetadas por desastres naturais, como tornados e secas, em várias regiões do País;
  • Melhoria na segurança hídrica, especialmente no semiárido e em Minas Gerais, por meio de obras de barragens e adutoras;
  • Contribuição para a saúde pública e segurança alimentar, garantindo acesso à água em áreas impactadas por escassez hídrica;
  • Redução de desigualdades e promoção do desenvolvimento sustentável em regiões vulneráveis.
A SEDEC orienta as prefeituras em dificuldades a fazer a solicitação de ajuda federal por meio do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD). O recurso liberado poderá ser usado na compra de cestas básicas, água mineral, refeições, kits de limpeza residencial e higiene pessoal, entre outros itens.

SEGURANÇA HÍDRICA

MIDR e ANA seguem monitorando o Sistema Cantareira (Foto: Sabesp)

Apesar das chuvas, nos últimos meses houve também uma grande preocupação com a segurança hídrica, uma vez que observou-se níveis muito reduzidos de estocagem de água nos principais mananciais que abastecem São Paulo (Cantareira) e Rio de Janeiro (Rio Paraíba do Sul).

CANTAREIRA:  Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico - ANA, o Sistema Cantareira encerrou o mês de janeiro de 2026 com aproximadamente 23% do seu volume útil total, permanecendo, à época, na “Faixa 4 – Restrição”, conforme a Resolução Conjunta nº 925, de 29 de maio de 2017. Entretanto, em fevereiro de 2026, o sistema apresentou recuperação nos níveis de armazenamento, impulsionada pelas chuvas registradas no período. Na atualização mais recente, o Cantareira alcançou 32,01% do volume útil, percentual que retira o sistema da Faixa 4 e o reposiciona em uma condição operacional menos crítica, conforme os critérios estabelecidos pela norma vigente.

PARAÍBA DO SUL: No Reservatório Equivalente do Paraíba do Sul, que integra os reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, os dados técnicos divulgados pela ANA indicam que o sistema encerrou o mês de janeiro de 2026 com níveis de armazenamento abaixo da média histórica, refletindo um quadro de atenção para a gestão dos recursos hídricos da bacia.

No entanto, assim como observado no Cantareira, o Paraíba do Sul também apresentou elevação dos volumes armazenados ao longo de fevereiro. De acordo com a atualização mais recente da ANA, o reservatório equivalente da bacia passou a operar com aproximadamente 40% do volume útil, evidenciando melhora nas condições hidrológicas e redução do risco imediato para o atendimento aos usos múltiplos da água, incluindo o abastecimento da população fluminense.

Axel Grael
Engenheiro Florestal
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/UFF)

(com informações do MIDR, SEDEC e ANA)


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MAIS INFORMAÇÕES

Baseando-se em dados  da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil - SEDEC, atualizados com as informações acima, a coluna de Lauro Jardim, no O Globo, deste domingo, divulgou dados sobre a situação de desastres e emergências climáticas nas primeiras semanas de 2026:

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Governo federal já reconheceu situação de emergência por desastres em 171 cidades só em 2026; veja lista

Por Gustavo Maia — Brasília

Tornado deixa rastro de destruição em São José dos Pinhais (PR) — Foto: Reprodução

Fenômenos climáticos já causaram bastante estrago no país em 2026. Nas primeiras semanas do ano, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil já reconheceu situação de emergência em 171 cidades brasileiras, em decorrência de 12 tipos de desastres.

Chuvas intensas foram as causas do maior número de ocorrências (64), seguidas de estiagem (60), seca (18), inundações (9), enxurradas (5) e vendavais (5).

Completam a lista: granizo (3), alagamentos (3), deslizamento (1), erosão da margem fluvial (1), incêndio florestal (1) e... tornado — o que atingiu em São José dos Pinhais (PR) em janeiro.

Os municípios que tiveram a emergência reconhecida pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional neste ano ficam em 20 estados das cinco regiões do Brasil. Minas Gerais lidera o ranking, com 36 cidades afetadas por seis tipos de desastres.

Rio Grande do Sul (19), Bahia (18), Paraíba (18), Ceará (16), Pernambuco (11), Rio Grande do Norte (11), Santa Catarina (11), Acre (8), Pará (5), Alagoas (5), Rio de Janeiro (3), São Paulo (2), Goiás (2), Mato Grosso (1), Maranhão (1), Paraná (1), Piauí (1), Sergipe (1) e Tocantins (1) foram os outros estados atingidos.

Veja a lista de municípios a seguir:

Chuvas intensas (64):

Açucena (MG); Almenara (MG); Angelina (SC); Bom Jesus (PI); Campina das Missões (RS); Campos Borges (RS); Caparaó (MG); Capinópolis (MG); Carvalhópolis (MG); Cândido Godói (RS); Cerro Grande (RS); Cerro Grande do Sul (RS); Chapada (RS); Cotriguaçu (MT); Cumaru do Norte (PA); Dom Feliciano (RS); Dona Francisca (RS); Dores do Turvo (MG); Durandé (MG); Elói Mendes (MG); Encruzilhada (BA); Faxinal do Soturno (RS); Formiga (MG); Gaspar (SC); Ibicaré (SC); Ibirataia (BA); Irecê (BA); Itabira (MG); Jaborá (SC); Jacareacanga (PA); José Gonçalves de Minas (MG); Massaranduba (SC); Matipó (MG); Mongaguá (SP); Nova Palma (RS); Nova Trento (SC); Novo Barreiro (RS); Óbidos (PA); Ouro Verde de Minas (MG); Passos (MG); Pelotas (RS); Pescador (MG); Piraí (RJ); Porto Lucena (RS); Prata (MG); Presidente Prudente (SP); Resplendor (MG); Riachinho (MG); Rio Claro (RJ); Rio Novo (MG); Santa Maria (RS); Santo Cristo (RS); São João Batista (SC); São João da Urtiga (RS); São João do Itaperiú (SC); São Lourenço do Sul (RS); Sobrália (MG); Teófilo Otoni (MG); Três Marias (MG); Uirapuru (GO); Unaí (MG); Varjão de Minas (MG); Várzea da Palma (MG); Viçosa (MG)

Estiagem (60)

Afogados da Ingazeira (PE); Afrânio (PE); Agrestina (PE); Águas Belas (PE); Alagoinha (PE); Algodão de Jandaíra (PB); Altinho (PE); Arara (PB); Araripe (CE); Araripina (PE); Arcoverde (PE); Belém do São Francisco (PE); Bernardino Batista (PB); Boa Nova (BA); Boa Vista do Tupim (BA); Belém do Brejo do Cruz (PB); Camalaú (PB); Canapi (AL); Canhotinho (PE); Canudos (BA); Caraúbas (PB); Caririaçu (CE); Catolé do Rocha (PB); Deputado Irapuan Pinheiro (CE); Girau do Ponciano (AL); Guimarães (MA); Ichu (BA); Irajuba (BA); Itapajé (CE); Itatira (CE); Jaguaribara (CE); Lagoa Real (BA); Lastro (PB); Livramento de Nossa Senhora (BA); Malhada de Pedras (BA); Mansidão (BA); Marcionílio Souza (BA); Mãe D'Àgua (PB); Monsenhor Tabosa (CE); Monte Santo (BA); Olho D`Água do Casado (AL); Ouro Branco (AL); Paramoti (CE); Pereiro (CE); Piripá (BA); Pombal (PB); Potengi (CE); Quixabá (PB); Salitre (CE); Santa Cecília (PB); São Francisco (PB); São João do Cariri (PB); São José do Egito (PE); São José do Sabugi (PB); São Mamede (PB); Senador José Porfírio (PA); Senador Rui Palmeira (AL); Solânea (PB); Tanhaçu (BA); Várzea (PB)

Seca (18)

Acopiara (CE); Barro Alto (BA); Caiçara do Norte (RN); Caicó (RN); Campo Grande (RN); Carira (SE); Jaçanã (RN); Jaguaribe (CE); Jardim do Seridó (RN); Parelhas (RN); Pau dos Ferros (RN); Quixeramobim (CE); Riacho de Santana (RN); São Fernando (RN); Senador Pompeu (CE); Serra Negra do Norte (RN); Solonópole (CE); Várzea (RN)

Inundações (9)

Cruzeiro do Sul (AC); Feijó (AC); Plácido de Castro (AC); Porto Acre (AC); Rio Branco (AC); Santa Rosa do Purus (AC); São Sebastião da Bela Vista (MG); Sena Madureira (AC); Tarauacá (AC)

Enxurradas (5)

Albertina (MG); Chuvisca (RS); Cristina (MG); Itaberaba (BA); Virgínia (MG)

Vendavais (5)

Farroupilha (RS); Laguna (SC); Palmas (TO); Pintópolis (MG); São Gonçalo do Abaeté (MG)

Granizo (3)

Dom Bosco (MG); Lontras (SC); Rio das Antas (SC)

Alagamentos (3)

Itaperuna (RJ); Mário Campos (MG); Santo Antônio do Descoberto (GO)

Deslizamento (1)

Joanésia (MG)

Erosão de margem fluvial (1)

Novo Santo Antônio (MG)

Incêndio florestal (1)

Garrafão do Norte (PA)

Tornado (1)

São José dos Pinhais (PR)

domingo, 25 de janeiro de 2026

The Gardian: Rio de Janeiro é uma das cidades com maior vulnerabilidade hídrica no mundo

Half the world’s 100 largest cities are in high water stress areas, analysis finds

Los Angeles is one of the global cities facing extreme water stress, which is being made worse by climate breakdown. Photograph: Kirby Lee/Getty Images

Exclusive: Beijing, Delhi, Los Angeles and Rio de Janeiro among worst affected, with demand close to exceeding supply

Half the world’s 100 largest cities are experiencing high levels of water stress, with 38 of these sitting in regions of “extremely high water stress”, new analysis and mapping has shown.

Water stress means that water withdrawals for public water supply and industry are close to exceeding available supplies, often caused by poor management of water resources exacerbated by climate breakdown.

Watershed Investigations and the Guardian mapped cities on to stressed catchments revealing that Beijing, New York, Los Angeles, Rio de Janeiro and Delhi are among those facing extreme stress, while London, Bangkok and Jakarta are classed as being highly stressed.

Separate analysis of Nasa satellite data, compiled by scientists at University College London, shows which of the largest 100 cities have been drying or getting wetter over two decades with places such as Chennai, Tehran and Zhengzhou showing strong drying trends and Tokyo, Lagos and Kampala showing strong wetting trends. All 100 cities and their trends can be viewed on a new interactive water security atlas.

Guardian graphic. Source: Watershed Investigations

About 1.1 billion people live in major metropolitan areas located in regions experiencing strong long-term drying, compared with about 96 million in and around cities in regions showing strong wetting trends. However, the satellite data is too coarse to show details and context at the local scale.

Most of the city regions in notably wetting zones are in sub-Saharan Africa, with just Tokyo and Santo Domingo in the Dominican Republic sitting elsewhere. Most of the urban centres in areas with the strongest drying signals are concentrated across Asia, particularly northern India and Pakistan.

Now in its sixth year of drought, Tehran is perilously close to “day zero” when no water will be available for its citizens, and last year the country’s president, Masoud Pezeshkian, said the city may have to be evacuated if the drought continues. Cape Town and Chennai have both come close to day zero and many of the world’s fastest-growing cities are situated in drying zones where they could experience future water shortages.

Mohammad Shamsudduha, professor of water crisis and risk reduction at UCL, said: “By tracking changes in total water storage from space, [the Nasa project] Grace shows which cities are drying and which are getting wetter, offering an early warning of emerging water insecurity.”

On Tuesday the UN announced that the world had entered a state of water bankruptcy where deterioration of some water resources had become permanent and irreversible. Prof Kaveh Madani, director of the United Nations University Institute for Water Environment and Health, said poor management of water is frequently the main cause of bankruptcy and that climate breakdown is seldom the sole reason: “Climate change is like a recession on top of bad management of business.”

The World Bank Group has also been sounding the alarm. Global freshwater reserves have plunged sharply over the past 20 years, according to the group, which says the planet is losing about 324bn cubic metres of freshwater every year, enough to meet the annual needs of 280 million people, or roughly the population of Indonesia. The losses affect major river basins on every continent.

By 2055, England could need to find an additional 5bn litres of water a day to meet demand for public water supply – more than a third of the 14bn litres of water currently put into the public water supply, according to the Environment Agency. Other water sectors, such as agriculture and energy, may need an additional 1bn litres of water a day.

Shamsudduha said the “hidden resource of groundwater offers the UK a more climate-resilient water supply”, but added that “without sustained monitoring and better management we risk managing it blindly amid intensifying development and climate pressures”.

Parts of southern England have recently suffered water outages, which South East Water blamed on winter storms. However, regulators had already written to the company with “serious concerns” about its security of supply.

On Tuesday the government published a water white paper aimed at overhauling the water system, including establishing a new chief engineer role, “MOT checks” on water infrastructure and new powers for a new water regulator.

Fonte: The Gardian