quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Restauração ecológica junto com agricultura



Área de Mata Atlântica em Teresópolis, na serra do Rio de Janeiro, depois de dois anos de regeneração
André Nave / Bioflora
A mesma área, antes de a floresta ser restaurada. André Nave / Bioflora


Nova metodologia indica que conciliar recuperação da Mata Atlântica com interesse do agricultor pode diminuir custos e aumentar benefícios

Uma nova metodologia mostrou que conciliar a recuperação da Mata Atlântica com os interesses do agricultor não só é possível, como potencialmente lucrativo. Em artigo publicado nesta segunda-feira (17/12) na revista Nature Ecology & Evolution, uma equipe interdisciplinar liderada pelo economista e cientista ambiental Bernardo Strassburg, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Diretor Executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), desenvolveu um modelo que indica áreas onde o reflorestamento seria mais barato, com menor perda de terras produtivas e, ao mesmo tempo, maximizaria a proteção da biodiversidade e o sequestro de carbono da atmosfera.

A metodologia se apoia na possibilidade de que cada agricultor promova a recuperação devida (20% da cobertura original, conforme estabelecido no Código Florestal) fora de sua propriedade — algo previsto pela legislação, mas pouco praticado. “Agricultores em áreas de alta produtividade fariam a recuperação de sua quota legal em outras propriedades”, diz o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), um dos autores do estudo. “Assim, não há perda de terra produtiva.” O reflorestamento, por outro lado, poderia ocorrer em áreas dedicadas à pecuária de baixa produtividade, seja por afloramentos rochosos ou inclinação acentuada, mas que são propícias para o crescimento da floresta e mais fáceis de serem restauradas porque o solo não foi degradado pela agricultura intensiva.

Essa troca cria uma possibilidade nova no planejamento ambiental: a formação de extensas regiões de floresta recuperada, mantida por diversos proprietários. Afinal, se os proprietários de áreas de alta produtividade promoverem a recuperação em regiões de baixa produtividade, o resultado será a formação de áreas agregadas em vez de fragmentos isolados dentro de propriedades individuais, que é o padrão atual.

Partindo dessa ideia simples, mas inovadora, os pesquisadores resolveram quantificar esse ganho de mão dupla. Para isso, desenvolveram um algoritmo que, baseado em dados de publicações científicas e informações de campo, indica o local do bioma mais favorável para a recuperação, levando em conta três variáveis: o custo para o agricultor, a preservação da biodiversidade e o sequestro de carbono. “O algoritmo dividiu a área original da Mata Atlântica, com 130 milhões de hectares, em quadrados de 1 quilômetro quadrado (km2), já desconsiderando as áreas urbanas”, diz Strassburg. “Depois, calculou quanto deve ser restaurado em cada quadrado para maximizar os custos e benefícios.” Para formar cada mapa, o algoritmo resolveu 1,3 milhão de equações simultaneamente.

O desenho do mapa varia de acordo com os parâmetros estabelecidos. Por exemplo, se for priorizada a proteção da biodiversidade, evitar extinções se torna oito vezes mais barato do que se isso fosse feito sem planejamento. O mesmo ocorre quando se prioriza o sequestro de carbono da atmosfera: o custo-benefício aumenta oito vezes. Já a solução média, que equilibra preservação de biodiversidade com sequestro de carbono, apresenta valores intermediários: aumento de 257% nas extinções evitadas, 105% de aumento no sequestro de carbono e custo 57% menor, sempre comparando com a ausência de planejamento.

No total, foram elaborados 362 mapas, que poderão ajudar os tomadores de decisão a decidir o melhor local para reflorestar e regularizar a situação das propriedades. “Qualquer mapa é melhor do que a falta de planejamento que caracteriza a situação atual”, avalia Strassburg.

Ecologia em escala

Do ponto de vista ecológico, os resultados se explicam pelo efeito de borda, nome que se refere à fronteira entre a mata e outros usos do solo, caracterizada por impactos das condições externas no ecossistema natural. Em áreas pequenas, praticamente todo o terreno é constituído de bordas. Em manchas maiores de floresta, a proporção total da borda diminui e a biomassa e a biodiversidade se consolidam. “Além disso, regiões maiores costumam formar corredores ecológicos, que conectam áreas diferentes da mata e permitem a passagem de animais e plantas, o que também favorece o desenvolvimento da floresta e o aumento da diversidade de nichos”, diz Rodrigues. Dados de restauração conduzidos por ONGs em terrenos de diferentes tamanhos evidenciaram o ganho de escala: a recuperação de uma área de 1 hectare, por exemplo, custou R$ 30 mil, enquanto em 100 hectares o custo caiu para R$ 20 mil por hectare, ou 33% a menos.

A publicação do artigo ocorre em momento estratégico, uma vez que o prazo para o cadastro rural termina no final deste ano. Em 2019, o proprietário com passivo ambiental já deverá propor um projeto de regularização. “O pecuarista em áreas de baixa produtividade vai ganhar mais com o extrativismo de madeira nobre em sistema de rodízio, plantio de espécies frutíferas, plantas medicinais e ornamentais e produção de mel, além de alugar a floresta para o proprietário que não tem reserva legal”, diz Rodrigues. Segundo o pesquisador, há espaço suficiente para recuperar. Ele estima que em São Paulo haja 1 milhão de hectares de áreas agrícolas de baixa aptidão, e no Brasil, entre 6 e 8 milhões de hectares – o tamanho do Rio de Janeiro e do Espírito Santo juntos.

Uma limitação do modelo é diminuir os incentivos para a recuperação em pequena escala. No entanto, isso deve ser compensado pela obrigatoriedade de recuperar as matas ciliares, as encostas e topos de montanhas, áreas que somariam outros 5,2 milhões de hectares. Esse fator, tal qual os serviços ecológicos — a qualidade da água, a proteção do solo, a exploração de madeira e outros produtos da mata, além da polinização que favorece a própria agricultura —, ainda não foi contabilizado e poderá revelar uma relação custo-benefício ainda melhor.

Fonte: Revista Pesquisa - FAPESP














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