terça-feira, 25 de julho de 2017

A história do militar reformado que influencia gerações de atletas em Niterói



Escolhinha de Badminton no Morro do Bumba em Niterói - Alexandre Cassiano / Agência O Globo


POR ALESSANDRO ALVIM

Via badminton e vela, José Inácio dos Santos inspira jovens há quase duas décadas

O suboficial aposentado da Marinha José Inácio dos Santos integrou a missão de recebimento de uma das quatro fragatas compradas pelo Brasil à Inglaterra, entre 1977 e 1978. Enquanto aguardava o fim da montagem do navio, morou por 13 meses com sua mulher e um casal de filhos em Hythe Field, na cidade de Southampton, na Inglaterra. Um dia, foi convidado a jogar badminton na escola dos filhos.

INFOGRÁFICO: Veja a trajetória de José Inácio dos Santos, da vela ao badminton

— Fiquei apaixonado. Comprei raquetes e petecas e enchi dois sacos de marinheiro para trazer na volta — conta Inácio.

Na viagem para o Brasil, a vontade de praticar era tamanha que o militar jogava escondido no convés da fragata.

— Eu e mais dois amigos jogávamos no fim do expediente. Um dia, passamos do horário e ouviram nossas passadas. O comandante nos pegou e não gostou, mas teve sensibilidade de liberar o jogo em nossas folgas — relembra Inácio.

Terminada a missão, o militar voltou à rotina de professor de vela e remo nos cursos de especialização da Marinha. Mas adicionou uma tática pedagógica: passou a ensinar badminton quando não havia vento para vela. Veio a reserva e continuou atuando em escolas navais, clubes de iates e em grupos de escotismo.


Assista ao vídeo sobre a contribuição do Inácio clicando aqui.



BADMINTON E VELA

No fim dos anos 1980, o badminton uniria Inácio e Lars Grael, que, mais à frente, estariam juntos no início do Projeto Grael.

— Vi a cultura do badminton nos Jogos da Coreia do Sul, em 1988. Incentivei o esporte em Niterói, busquei novos adeptos, e Inácio se juntou ao nosso grupo. Em 1998, surgiu o Projeto Grael, e logo pensei nele para ensinar vela — conta Lars.

Assim, o professor integrou a primeira turma do Projeto Grael, em Jurujuba, no qual, com apoio de Lars, conjugava a vela e o badminton. A maioria das crianças era do Preventório, comunidade ao lado do projeto, e as aulas de vela duravam três meses.

— Terminava a colônia, e as crianças paravam de velejar. Hoje, ficam no mínimo um ano e fazem até cursos profissionalizantes. Decidi montar um projeto próprio com barcos doados por amigos para que elas continuassem na vela. Lars me apoiou, e assim nasceu o Prevela — explica o professor.

As aulas aconteciam em frente à comunidade, na Praia de Jurujuba. Com o tempo, os bombeiros cederam uma quadra, e as crianças também faziam aulas de badminton. Algumas que conheceram a vela no Projeto Grael preferiram as raquetadas no Prevela e seguiram no esporte até a seleção de base do Brasil, como: Gabriel Alcântara, Elaine Terra e Fabiana Silva, que hoje é atleta militar e ocupa a sexta posição no ranking nacional. Mas o Prevela nunca teve patrocínio, e a formação dos atletas era difícil, como explica Elaine:

— A gente disputava torneios pela seleção em São Paulo, Blumenau, Porto Alegre, lugares que nunca imaginei ir morando em comunidade. As despesas eram por nossa conta e o professor fazia de tudo para pagar: vendia bolo, fazia rifa e até catava lata após os bailes funk no Preventório — diz.

Elaine teve a carreira abreviada por uma cirurgia no joelho direito. Gabriel parou de jogar, estudou e virou técnico de badminton. Morador do Cubango, presenciou a tragédia do Morro do Bumba e decidiu montar uma rede do esporte na rua para diminuir a dor das crianças — nascia o projeto social Éobad. Hoje, sem apoio fixo, atende a cinquenta crianças na quadra do Centro Pró-Cubango, também no bairro, e diz que carrega um legado.

— Se o Éobad tem campeões sul-americanos e pan-americanos, devemos à persistência do professor. Sem ele, eu não estaria aqui — afirma Gabriel

Inácio ainda joga e ensina badminton, mas, quando perguntado sobre o que foi o Prevela, diz:

— Foi um “bravo zulu” — que, na linguagem náutica significa “ótimo feito”.

Fonte: O Globo - Esporte













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