terça-feira, 15 de novembro de 2016

OBRIGADO DORA HEES DE NEGREIROS: saudades da amiga, da militante ambientalista e da conselheira



Dora Hees de Negreiros nos deixou hoje de surpresa. Ontem, tivemos a notícia por familiares que ela tinha passado mal e que havia sido internada. Hoje sofremos com a triste notícia da sua partida. Foi uma surpresa, pois Dora sempre foi uma forte. Eu a conheço há muitos anos e não me lembro de vê-la doente. Sempre aparentou uma saúde de ferro e muita disposição, mesmo no alto dos seus 82 anos.

Recordando...

Conheci Dora ainda na minha adolescência, no Rio Yacht Club. Posteriormente, no final da década de 1970, passei a interagir com a Dora técnica e dirigente de órgão público. Eu dava os meus primeiros passos como ambientalista, que resultaram na fundação, em 1980, da organização ambientalista pioneira denominada Movimento de Resistência Ecológica - MORE, que tinha sede em Niterói.

Estudante de engenharia florestal e velejador, eu me indignava com a poluição da Baía de Guanabara causada pelas fábricas de sardinha de Jurujuba, da Ilha da Conceição e do Barreto. A Baía de Guanabara, principalmente a Enseada de Jurujuba, fedia a peixe podre e os velejadores tinham que conviver com a revoltante rotina de limpeza dos barcos encardidos com o óleo de sardinha.

Eu tinha a indignação, mas fui buscar a informação em duas pessoas experientes e muito especiais: Ricardo Silveira e Dora Hees de Negreiros.

Ambos eram engenheiros químicos, fundadores da Feema e oriundos da antiga SANERJ - a empresa de saneamento do antigo estado do Rio de Janeiro. Ricardo Silveira municiava as nossas campanhas de subsídios técnicos e zelava para que aquela garotada não falasse muitas bobagens! Dora fazia a mesma coisa, mas com aquele jeito de mãezona, puxava as nossas orelhas quando gastávamos mais energia e munição brigando contra a Feema, do que contra os poluidores das fábricas de sardinha.

Com a "ajuda secreta" deles (afinal eram dirigentes do órgão ambiental), organizamos "Regatas de Protestos" e manifestações para denunciar os poluidores e cobrar ações da Feema.

A ação pioneira do MORE ajudou a colocar os problemas ambientais da Baía de Guanabara em pauta (no início da década de 1980) e desenvolveu outras campanhas importantes, como a que resultou na criação do Parque Estadual da Serra da Tiririca - PESET.

Com a ajuda inicial da Dora e do Ricardo, o MORE formou uma geração de ambientalistas, ativos e produtivos até hoje e muitos destes dos quadros do IBG.

Dora e a despoluição da Baía de Guanabara

Anos depois, em 1991, Dora teve um dos seus mais destacados papéis, quando foi o braço direito de Manuel Sanches no Grupo Executivo de Despoluição da Baía de Guanabara - GEDEG, que teve como missão liderar as negociações com o Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID e estruturar o Projeto de Despoluição da Baía de Guanabara - PDBG.

Em 1993, quando eu era presidente do Instituto Estadual de Florestas e Dora já se aproximava da aposentadoria, pude contar com a valiosa ajuda direta dela como assessora da presidência do órgão.

No mesmo ano, foi criado o Instituto Baía de Guanabara (IBG), inspirado na experiência da Chesapeake Bay Foundation, que Dora foi conhecer nos EUA. Dora era a grande liderança do IBG, tendo presidido a organização por quase toda a sua existência. Num dos raros intervalos intervalos, eu assumi o cargo de presidente do IBG, mas prudentemente tendo a Dora como vice-presidente. O IBG tem um importante acervo de projetos e outras contribuições (vide em Instituto Baía de Guanabara).

Depois, tivemos a honra de contar com a experiência da Dora no Conselho Diretor do Instituto Rumo Náutico (Projeto Grael) e na diretoria do Comitê Rio de Janeiro-Maryland da organização Companheiros das Américas.

O legado de Dora para a Baía de Guanabara

Após tanto tempo atuando na área governamental ou liderando o IBG, Dora deixa um grande legado para a causa da Baía de Guanabara. Tinha a visão que a recuperação da Baía de Guanabara não seria alcançada pela ação exclusivamente governamental, mas viria acima de tudo como uma conquista cidadã: com a participação ativa de toda a sociedade. Por isso, priorizou e teve um papel fundamental na construção da governança da Baía de Guanabara, tendo atuado pessoalmente na estruturação do Comitê da Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara e o do Subcomitê Leste da Baía de Guanabara.

Orientou a ação do IBG para ser o fomentador de iniciativas de educação ambiental, de mobilização das comunidades para a proteção dos ecossistemas da Baía de Guanabara e buscou parcerias com governos (federal, estadual e municípios), com as comunidades, com as ONG's, com universidades, com esportistas, com empresas e parceiros internacionais. Tudo para construir uma coalisão de atores em favor da Baía de Guanabara.

Não há dúvidas que ainda há um longo caminho a se trilhar para que a Baía de Guanabara seja aquela sonhada por tantos e que a militância da Dora tanto buscou. Mas, não resta dúvida que poderá se encontrar sempre pelo menos "um dedinho" da Dora nos avanços obtidos até agora e muitos dos que virão.

Histórias e sabedoria

Dora era uma presença marcante que extrapolava apenas a dimensão profissional e da militante ambientalista. Tinha uma rara capacidade de combinar firmeza de posição e ternura. Mas, não era intransigente. Liderava com naturalidade e tinha um jeitinho próprio e eficiente de negociar.

Mas, uma das coisas que eu mais apreciava no convívio com a Dora era ouvir os seus relatos sobre a evolução das políticas ambientais e de saneamento, muitas das quais tinha sido protagonista ou testemunha pessoal, desde os tempos do antigo estado do Rio de Janeiro, com a sua capital em Niterói.

Era uma "eco-enciclopédia". Das memórias da Dora, surgiam explicações para a origem de muitas das normas e rotinas ambientais: licenciamento ambiental, monitoramento da Baía de Guanabara, padrões ambientais. E da reflexão que fazíamos sobre estes aspectos, surgiam boas ideias de solução.

Algumas vezes, ela atendia aos nossos apelos para que escrevesse algumas memórias ou impressões pessoais e, assim, surgiram alguns textos (poucos para o potencial que tinha) que ela permitiu que eu publicasse aqui no meu blog:


Preocupada com a preservação e a disponibilização destas informações, Dora organizou um importante acervo sobre a Baía de Guanabara e sobre questões ambientais na Biblioteca do IBG. Aliás, o futuro deste acervo era uma das grandes preocupações recentes da Dora, que me pediu várias vezes ajuda para proteção e disponibilização mais adequada daquele acervo.

Dora também se preocupava com o resgate da experiência e dos relatos de pessoas, que assim como ela, guardavam na memória valiosas informações. Por estímulo e insistência dela, demos início pela Prefeitura de Niterói do registro em vídeo do depoimento do engenheiro sanitarista José Bedran, um profundo conhecedor e memória-viva do saneamento de Niterói e do antigo Estado do Rio de Janeiro. Havíamos combinado que ela seria a próxima...

Querida amiga, Dora Hees de Negreiros. Que você continue inspirando a todos nós para que o seu legado tenha prosseguimento.

VIVA A BAÍA DE GUANABARA!!!

Vá em paz!

Axel Grael






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Morre aos 82 anos Dora Hees de Negreiros



Dora Hees de Negreiros era presidente de honra do Instituto Baía de Guanabara. Foto: Marcelo Feitosa


Marina Assumpção
 
Presidente de honra do IBG estava internada em Icaraí
 
Morreu na manhã desta terça-feira (15), aos 82 anos, a presidente de honra do Instituto Baía de Guanabara, Dora Hees de Negreiros. Ela estava internada desde a madrugada desta segunda-feira (14) com sintomas de gripe no Centro Hospitalar São Lucas, no bairro de Icaraí, em Niterói.
 
No hospital ela precisou ser encaminhada para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI), devido a uma infecção respiratória, e faleceu pela manhã.
 
Engenheira química, ambientalista com longa trajetória em gestão ambiental exercida junto a órgãos governamentais do Rio de Janeiro, sendo fundadora da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) e do Instituto Baía de Guanabara (IBG), Dora dedicou a vida as causas ecológicas.
 
Amigos, parentes e autoridades de Niterói lamentaram o falecimento da ambientalista. Adauri Souza, superintendente do Instituto Baía de Guanabara, declarou que esta é uma perda imensurável para a sociedade.
 
“Foi uma morte completamente inesperada. A Dora era uma pessoa de vitalidade muito grande, tanto física quanto intelectual. É uma grande perda, do ponto de vista afetivo e institucional. Uma pessoa que lutava pela causa ambiental e que deixa uma lacuna que jamais será preenchida. Perdemos a nossa eterna presidente”, disse.
 
O vice-prefeito de Niterói, Axel Grael, também deixou uma mensagem de homenagem à Dora, de quem sempre foi próximo.
 
“Conheço a Dora há muito anos, mas a convivência cresceu, principalmente, quando comecei com a militância a favor do meio ambiente, no final da década de 70. Ela me acompanhou em diversos trabalhos, era membro do conselho do Projeto Grael, e fará muita falta. Ela tinha uma experiência muito vasta, tanto em políticas públicas como em ações ambientalistas, e eu sempre a consultava durante a tomada de decisões em relação à Baía de Guanabara. Dora era leve, agradável, mas sempre firme em suas decisões e convicções”, declarou.
 
O vereador Daniel Marques deixou seu depoimento em uma rede social. Ele agradeceu pelos ensinamentos e carinho deixados por Dora.
 
“O sentimento é de perda, de surpresa, de saudade. Desde a década de 60 e principalmente das décadas de 70, 80 e 90 até a data de hoje nossa amada Dora Hees de Negreiros dedicou sua vida à questões ambientais, ou seja, ao coletivo, ao bem estar, à vida digna. Muito obrigado pelos ensinamentos, carinho e por estar sempre presente. Deus conforte a família querida. Descanse em paz!”, concluiu.
 
Dora participou como palestrante do Seminário Meio Ambiente e Sustentabilidade, promovido pelo Grupo Fluminense Multimídia, no dia 9 de novembro de 2015. O tema principal do evento foi a escassez de recursos hídricos e a despoluição da Baía de Guanabara.
 
O hospital não divulgou o quadro diagnóstico que resultou no falecimento. O velório acontecerá nesta quarta-feira, às 13h no Cemitério Parque da Colina, em Pendotiba, Niterói, e sem seguida o corpo seguirá para cremação.
 
Fonte: O Fluminense








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