| Resgate em Copacabana, Zona Sul da capital fluminense: estado do Rio responde por mais de um quarto dos registros de buscas e salvamentos no país — Foto: Daniel Ramalho/ AFP/31-12-2025 |
Por Luis Felipe Azevedo
Com uma média de uma ocorrência por minuto, o Brasil bateu recorde anual de operações de busca e salvamento em 2025, segundo painel disponibilizado pelo Ministério da Justiça com dados fornecidos pelos estados e o Distrito Federal. Especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam o agravamento das mudanças climáticas, que resultam em uma maior incidência de desastres naturais, ao longo dos últimos dez anos como principal causa da escalada no período.
O número de ocorrências no ano passado (510.349) é quase o dobro do total de casos reportados em 2015 (287.690), quando começou a série histórica. Houve um crescimento ano a ano de buscas e salvamentos no país ao longo deste intervalo, com exceção de 2024, quando houve queda de 14,8%. As ações de busca e salvamento englobam diferentes frentes, como afogamentos, a tentativa de localização de pessoas perdidas, a retirada de pessoas de ferragens após acidentes de trânsito e a retirada de animais de posições de risco.
Professor titular do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), Tercio Ambrizzi avalia que os dados refletem as consequências dos recordes de temperatura nos últimos dez anos. O cientista explica que a atmosfera tem reagido ao aquecimento com o aumento de eventos extremos de chuvas, como a ocorrida no Rio Grande do Sul há quase dois anos.
— A queda nas ocorrências em 2024, mesmo com os temporais no Sul, se explica por um bloqueio atmosférico em diversas regiões do Brasil, que estavam com temperaturas elevadas e sem registro de chuvas naquele ano. Os dados de 2025 confirmam a tendência de alta dos últimos dez anos. Desta vez, não houve bloqueios atmosféricos e o país teve eventos extremos em todas as regiões, principalmente no Sudeste — afirma.
| Fonte: Ministério da Justiça |
Estão no Sudeste os estados com mais registros no ano passado: Rio (130.361), São Paulo (72.379) e Minas Gerais (61.557). O pódio é o mesmo do compilado com os dez anos da série histórica. A região concentrou aproximadamente 50% dos alertas emitidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Desastres Naturais (Cemaden) em 2025.
As razões que explicam a liderança fluminense no ranking nacional são diversas, aponta o tenente-coronel Fábio Contreiras, porta-voz do Corpo de Bombeiros do Rio. Ele elenca desde a alta concentração de diferentes tipos de acidentes geográficos até o número elevado do efetivo da corporação, o que permite atender a mais chamados. Contreiras destaca também o potencial turístico de aventura no estado, que responde por mais de um quarto dos registros de buscas e salvamentos no país.
— As características naturais do Rio resultam em um leque grande de salvamentos, seja por afogamentos, pessoas presas em ferragens após acidentes de carros ou, até mesmo, para resgatar animais. O estado também tem alta densidade demográfica, o que costuma causar desordem — afirma o militar.
| Desaparecimento. Roberto Farias Thomaz no Pico Paraná: cinco dias de buscas — Foto: Divulgação |
Afogamentos no litoral
Do total de salvamentos no Rio em 2025, cerca de 20 mil estão relacionados a ações por afogamento. Somente nos cinco primeiros dias do ano passado 971 pessoas foram resgatadas na praia de Copacabana, um dos principais pontos turísticos da cidade.
A tendência segue em 2026. Como mostrou O GLOBO ontem, os resgates nas praias do estado dobraram nos primeiros três dias do carnaval deste ano, na comparação com o registrado em 2025 — de 224 para 453.
Em outra frente de salvamento, há os resgates como o de Roberto Farias Thomaz, de 19 anos, que desapareceu durante o réveillon no Pico Paraná e mobilizou as autoridades locais. Ele foi encontrado cinco dias após se perder de outras pessoas durante uma trilha pelo ponto mais alto do Sul do Brasil, o que reacendeu o debate sobre a necessidade de preparo na realização do turismo de aventura.
| Fonte: Ministério da Justiça |
Efeitos fatais
A população de Norte a Sul do Brasil sente os efeitos dos fenômenos extremos. Há dois anos, mais de 180 pessoas morreram na pior tragédia climática do Rio Grande do Sul. As tempestades afetaram mais de 2,3 milhões de gaúchos ao atingirem 95% das cidades do estado (471 municípios).
Já em São Paulo, as chuvas ocorridas entre dezembro de 2024 e janeiro do ano passado deixaram ao menos 17 mortos. A capital do estado que aparece no ranking como o segundo com mais salvamentos teve um salto anual de 47% no total de enchentes e alagamentos em 2025.
Em um caso que exemplifica os riscos desta condição, que costuma se repetir a cada início de ano em São Paulo, Maria Deusdete da Mata Ribeiro, de 67 anos, e Marcos da Mata Ribeiro, de 68 anos, estavam parados na Avenida Carlos Caldeira Filho, no Campo Limpo, Zona Sul, quando o carro do casal foi arrastado pela força da água de um córrego, que transbordou com o temporal que caiu na cidade em janeiro de 2026. Os dois foram encontrados mortos dias depois.
Ontem, em mais um indicativo da persistência do quadro, uma mulher de 60 anos morreu arrastada pela enxurrada na capital paulista. Segundo a Defesa Civil, em dois meses 17 pessoas morreram em decorrência dos fortes temporais no estado.
O biólogo Lucas Ferrante, professor da USP e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), diz que a tendência de alta de registros de salvamento indica que não se trata apenas de um efeito demográfico, mas de um aumento real na frequência e na intensidade de eventos extremos:
— A crise climática tem intensificado as anomalias de El Niño e La Niña e promovido o aquecimento das águas do Hemisfério Sul. Em artigo publicado na Conservation Biology, averiguamos que este cenário, aliado ao avanço do desmatamento, causa a ampliação da ocorrência de secas severas, ondas de calor, chuvas extremas e grandes incêndios.
Ferrante afirma que a emergência climática “já se traduz em mais incêndios, mais desastres e uma pressão crescente sobre os serviços de emergência, com impactos sobre a segurança da população”.
— Há a necessidade urgente de políticas de desmatamento zero e de uma transição energética rápida, com o abandono do uso de combustíveis fósseis — conclui.
Fonte: O Globo

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