sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Metade das cidades brasileiras está em alta vulnerabilidade climática, aponta relatório

Bairro passo de estrela, onde todas casas foram destruídas pela enchente de abril 2024. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Documento revela desigualdade socioambiental, risco de desastres e falhas no planejamento urbano e climático. O trabalho apresenta soluções em áreas estratégicas para basear a construção de políticas públicas

No Brasil, 2.801 dos 5.570 municípios já estão em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade climática, segundo a plataforma Adapta Brasil. O dado integra o relatório Cidades Verdes-Azuis Resilientes, que reúne conhecimento científico e tecnológico atualizado para apoiar com informações programas e ações de governos e empresas e a própria sociedade na construção de ambientes urbanos mais preparados e sustentáveis diante da crise climática. O documento foi lançado pelo Centro de Síntese em Mudanças Ambientais e Climáticas (Simaclim).

Os desastres que provocam cada vez maior instabilidade social não são causados pelo evento climático em si, mas pela interação desse evento com a vulnerabilidade do território, das pessoas e do ambiente construído exposto. O documento reforça que, sem enfrentar a desigualdade, a adaptação não será transformadora, consistente ou duradoura. O texto também alerta para os riscos de respostas somente reativas — como canalização de rios ou piscinões isolados —, que podem, inclusive, agravar a situação dependendo dos efeitos não planejados, principalmente sobre justiça socio-climática.

Segundo o texto, o Brasil tem 12.348 favelas e comunidades urbanas, com 16,5 milhões de pessoas. Mais de 8,2 milhões delas vivem em áreas sujeitas a inundações, enxurradas e deslizamentos. Apesar desse cenário, metade dos municípios não tem plano diretor atualizado e, mesmo entre os que têm, há pouca integração com planos climáticos. Outro dado alarmante é que, em 2023, o País foi o que mais registrou deslocamentos internos por desastres nas Américas, com 745 mil pessoas atingidas. O número de eventos extremos relacionados à chuva também triplicou desde os anos 1990, e os prejuízos já somam R$ 132 bilhões somente nessa década.

O trabalho apresenta diagnóstico e soluções para setores estratégicos, como uso e ocupação do solo, áreas naturais, mobilidade e transporte, saneamento e habitação social. A principal proposta é o planejamento urbano integrado, preventivo e participativo, baseado em uma “adaptação transformativa”: mudanças estruturais capazes de enfrentar a desigualdade como raiz da vulnerabilidade e promover justiça climática.

“Temos desafios múltiplos. Isso só vai ser possível se fizermos um esforço de inclusão. Não tem como produzir cidades justas sem que as pessoas participem das decisões. Precisamos de um esforço coletivo em todas as escalas, do global ao local, e uma integração de setores da sociedade e de gestão pública. Isso é necessário para o que a gente chama de adaptação transformativa”, afirma a professora de urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e autora-organizadora do relatório, Maria Fernanda Lemos.

Soluções baseadas na natureza

O projeto aprofunda que a preservação e a restauração da infraestrutura verde e azul são essenciais para enfrentar enchentes, ilhas de calor, poluição e crises hídricas. As chamadas soluções baseadas na natureza (SbN) promovem a integração entre sistemas urbanos e ecossistemas, por meio de corredores ecológicos, arborização urbana, recuperação de corpos d’água, telhados verdes e colos permeáveis, entre outras soluções. Entre os benefícios estão o aumento da biodiversidade, o equilíbrio hídrico, a redução de temperaturas e a melhoria da qualidade do ar.

As mudanças também impactam diretamente a saúde. Ambientes verdes contribuem para reduzir doenças como hipertensão, que atinge 27,9% da população brasileira, incentivam a prática de atividade física e ajudam a diminuir a poluição do ar. No entanto, o acesso a esses espaços ainda é desigual: bairros ricos concentram áreas verdes estruturadas, enquanto a população pobre depende de áreas periurbanas sem infraestrutura.

No Brasil, o Cadastro Ambiental Urbano (CAU) é apontado como instrumento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança de Clima para ampliar e qualificar áreas verdes, mas a implementação dele ainda é limitada pelas prefeituras. Outros mecanismos em destaque são os Planos Municipais da Mata Atlântica (PMMA) e planos de floresta urbana, que permitem mapear áreas prioritárias e reduzir desigualdades no acesso ao verde.

Políticas públicas

Para transformar cidades em territórios verdes, azuis e resilientes, o relatório defende uma governança inclusiva, que envolva diferentes setores e escalas. O sucesso da adaptação climática urbana depende do fortalecimento da capacidade técnica dos municípios e de mecanismos de financiamento inovadores, como fundos internacionais (Green Climate Fund, BID, C40 Cities Finance Facility) e instrumentos nacionais (IPTU progressivo, outorga onerosa e operações urbanas consorciadas).

A educação climática também é apontada como essencial, assim como a participação social, que deve ser um pilar para consolidar apoio político e popular às medidas de resiliência. O documento conclui que a construção de cidades sustentáveis no Brasil exige articulação entre planejamento urbano, justiça social e preservação ambiental, garantindo a universalização dos benefícios e a redução das desigualdades.

Fonte: Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação



BICAMPEÃ: Niterói reconhecida em primeiro lugar no Brasil no Índice de Gestão Fiscal da Firjan, nos anos de 2023 e 2024!

 



FIQUEI MUITO FELIZ COM O RESULTADO DIVULGADO PELA FIRJAN: NITERÓI NA LIDERANÇA NACIONAL DOIS ANOS CONSECUTIVOS (2023 E 2024).

Mais uma vez, Niterói foi destaque nacional conquistando o 1° lugar no ranking do Índice Firjan de Gestão Fiscal - IFGF. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro - FIRJAN publica desde 2013 estudos anuais que fazem o diagnóstico da situação fiscal de mais de 5.100 municipios, para avaliar a performance e qualidade da gestão de cada governo local. O estudo tem abrangência e repercussão nacional, contribuindo para fortalecer políticas públicas federativas no Brasil. 

Desde 2016, Niterói ocupa a 1ª posição no ranking do RJ. Em 2023 e 2024, Niterói foi além e liderou com a melhor performance fiscal dentre mais de 5.100 municípios brasileiros.

Niterói já havia conquistado outras certificações da qualidade da sua gestão, como foi o caso da agência Standard and Poor's que atribuiu à cidade a nota 'BB-' na escala global e 'brAAA/Estável', na escala nacional, ou seja, alcançamos a maior escala no critério. Outras agências também deram notas máximas e reconheceram a gestão de Niterói, como a Moody's, que considerou Niterói como a melhor do país em governança e sustentabilidade.

Este é o reconhecimento de um trabalho incansável e competente de toda a equipe da Prefeitura de Niterói. Com muito orgulho, olho para o nosso mandato e vejo o quanto pudemos realizar com planejamento, dedicação e respeito ao dinheiro público. Foram R$ 4,3 bilhões de investimento da Prefeitura em infraestrutura em 10 anos, sendo que na gestão de 2021-2024 os investimentos chegaram a quase R$ 3 bilhões. Priorizamos ações e obras importantes para os niteroienses, imprescindíveis para a construção de uma cidade cada vez mais sustentável, com justiça social, oportunidade e dignidade para seus cidadãos. 

Gestão 

Em abril de 2021, no começo da gestão, lançamos o Plano de Sustentabilidade Fiscal, que incluiu 33 medidas, incluindo 6 projetos de lei e 27 decretos, que visavam o fortalecimento da administração municipal. O plano resultou no Pacto de Compromisso com a Gestão Fiscal com todos os dirigentes municipais para disciplinar a gestão fiscal em suas respectivas pastas. Também fizemos um grande esforço para a modernização da gestão de Niterói, com foco na melhoria das práticas internas e,  so retudo, na melhoria dos serviços e outras entregas para a população. 

Importante lembrar também que em 2021 e 2022 estávamos enfrentando a COVID-19, o que Niterói fez com muito destaque, inclusive com iniciativas de proteção à população, assim como às empresas, aos empregos e à economia. Nos anos seguintes, aqueles que obtiveram o reconhecimento do IFGF (2023-2024), implementanos uma estratégia de retomada da economia que se chamou Plano Niterói 450 Anos. A prioridade era a retomada da economia e a volta à normalidade, ou ao Novo Normal, como nos referimos na época.

Nossa prioridade, dentre outras medidas, era dinamizar a contratação de obras, pois é a forma mais rápida de gerar empregos, principalmente para a mão-de-obra menos qualificada e que tanto sofreu na pandemia. Também lançamos a Moeda Social Arariboia, o maior programa de transferência de renda do país. 

A Prefeitura é a maior contratadora de obras na cidade. No segundo biênio do governo (2023-2024), período que lideramos o IFGF, o Plano Niterói 450 Anos deslanchou e a cidade se transformou num canteiro de obras, com grandes ganhos de infraestrutura para a cidade. Só em 2024, os investimentos chegaram a cerca de R$ 1 bilhão. 

Cabe destaque também à criação pela Prefeitura do Fundo de Equalização de Receitas - FER, em 2019. Trata-se de um fundo soberano que recebe aportes trimestrais de 10% das Participações Especiais dos royalties de petróleo. O recurso é uma poupança pública destinada a garantir resultados mais duradouros da oportunidade que Niterói tem com as receitas dos royalties do petróleo. O saldo atual do FER (18/09/25) é de R$ 1.435.740.917,42.

Tudo isso, cuidando do planejamento de curto, médio e longo prazo, da transparência da gestão, da integridade da administração pública e dos serviços públicos prestados à população.

Sobre o índice

O IFGF avalia as contas públicas a partir de quatro indicadores-chave: 
  • Autonomia (capacidade de gerar receita própria), 
  • Gastos com Pessoal, 
  • Liquidez (capacidade de honrar compromissos de curto prazo) e 
  • Investimentos.
A escala vai de 0 a 1, sendo que, quanto mais próximo de 1, melhor a situação fiscal do município. Niterói teve nota 1 em todos os indicadores, um reflexo direto de anos de planejamento, austeridade e compromisso com o interesse público.

Nos dados agregados, o IFGF médio do país ficou em 0,6531 em 2024, maior nível da série histórica, iniciada em 2013 — o indicador, de 0 a 1, é construído com dados das contas públicas, que todas as prefeituras são obrigadas, por lei, a enviar ao Tesouro Nacional, sendo 1 a melhor gestão.

O relatório da Firjan evidencia também os desafios nacionais que tornam a conquista de Niterói ainda mais significativa: 1.282 cidades não geram receita suficiente para custear sequer as despesas do Legislativo e do Executivo municipal; 540 municípios comprometem mais de 54% de seu orçamento com gastos de pessoal, limitando outros investimentos; 413 prefeituras começaram 2025 no “cheque especial”, sem recursos para quitar despesas; e 938 cidades investem criticamente pouco, destinando em média apenas 3,2% de sua receita para investimentos.

Evolução de Niterói

Em 2013, Niterói ocupava a 21ª posição no ranking estadual e a 962ª no ranking nacional. Ao final do primeiro mandato do prefeito Rodrigo Neves, a nota já havia subido para 0,90 e Niterói passou a ocupar o 1º lugar no ranking estadual, evidenciando o compromisso com a responsabilidade fiscal. No ranking nacional, a cidade sempre teve um viés de alta, embora oscilasse eventualmente. Na nossa gestão, nos anos de 2023 e 2024, alcançou a nota máxima e a cidade chegou ao topo do ranking nacional.

Veja no gráfico abaixo a evolução de Niterói ao longo das edições do IFGF:



Niterói seguirá em frente trabalhando para o seu desenvolvimento econômico e social, buscando sempre o caminho da qualidade da gestão, qualidade de vida do cidadão, a justiça social e a sustentabilidade.

Parabéns Niterói!!!

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)

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LEIA TAMBÉM:

STANDARD & POOR’S: NITERÓI É A CIDADE MAIS CONFIÁVEL DO PAÍS PARA INVESTIMENTOS 
Brazilian City of Niteroi Global Scale Rating Outlook Revised To Positive From Stable Following Similar Action On Brazil 
Contas municipais melhoram, mas gasto crescente nas prefeituras mostra urgência da Reforma Administrativa, aponta indicador da Firjan (O Globo)




quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Produtos não madeireiros têm potencial para financiar projetos de reflorestamento

 

Exemplar de araucária (Araucaria angustifolia), árvore do pinhão: espécie é uma das mais estudadas, segundo levantamento de pesquisadores. Por fornecer alimento, pode ser uma opção para reflorestamento com aproveitamento econômico (foto: Paulo G. Molin/NewFor)

Estudo identifica 167 espécies nativas da Mata Atlântica com aplicação bioeconômica: 58% na área médica, 12% em cosméticos e 5% no setor alimentício; 78 espécies (46,7%) têm patentes registradas em 61 países, apenas 8% delas no Brasil

André Julião | Agência FAPESP 

Um obstáculo considerável para a restauração florestal é o custo, o que tem suscitado discussões nos últimos anos sobre como viabilizar economicamente sua execução. Como o manejo de madeira nativa, a obtenção de créditos de carbono e o pagamento por serviços ecossistêmicos são soluções de longo prazo – sendo as duas últimas com mercado ainda incipiente –, um grupo de pesquisadores propõe a exploração de produtos florestais não madeireiros com valor agregado como opção para obter renda das áreas de recomposição florestal.

Em artigo publicado na revista Ambio, o grupo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) aponta que 59% das espécies de plantas amostradas na região do Vale do Paraíba do Sul têm algum potencial bioeconômico.

“A vantagem do manejo de produtos não madeireiros é que ele se baseia na coleta de folhas, galhos, sementes e frutos, constituindo um manejo não destrutivo, mantendo a floresta de pé e podendo trazer ganhos em médio prazo”, afirma Pedro Medrado Krainovic, primeiro autor do estudo realizado como parte de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP com bolsa da FAPESP.

O trabalho também foi apoiado por meio de dois Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs), o BIOTA Síntese e o Estratégia Mata Atlântica (CCD-EMA), além do projeto NewFor, que integra o Programa BIOTA FAPESP.

Os pesquisadores analisaram parte do banco de dados do NewFor – 46 parcelas de 900 metros quadrados (m2) de floresta presentes no Vale do Paraíba do Sul, região entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nessas áreas delimitadas, foram identificadas todas as árvores com diâmetro acima de 5 centímetros na altura do peito. A área total amostrada foi de 41.400 m2.

Entre as 329 espécies encontradas no levantamento, 283 eram nativas. Destas, 167 (59%) têm algum potencial bioeconômico, de acordo com uma busca que os pesquisadores realizaram de estudos sobre as plantas encontradas, como trabalhos de química analítica, estudos in vitro e in vivo, pré-clínicos e clínicos e de práticas de silvicultura. Das espécies com potencial, 58% têm potencial médico, 12% cosmético e 5% alimentício. Em apenas 13% dos estudos chegou-se ao estágio de produto final. A araucária (Araucaria angustifolia) e a juçara (Euterpe edulis), conhecidas por fornecerem alimentos, foram algumas das espécies que apareceram em mais estudos.

Os pesquisadores realizaram ainda uma estimativa do interesse mercadológico por meio da busca por patentes depositadas no mundo inteiro a partir das plantas encontradas. Nesse quesito, 78 espécies (46,7%) têm patentes registradas em 61 países, apenas 8% delas no Brasil.

“O número de patentes é uma evidência do potencial econômico dessas espécies. Ele nos dá uma dimensão do que já pode suscitar interesse e potencial comercial, enquanto as que não possuem patente demonstram quanto ainda pode ser encontrado por meio de pesquisa e desenvolvimento, como novas moléculas medicinais, cosméticas e mesmo alimentos”, explica Krainovic.

Opção econômica

Segundo os autores, a exploração de produtos não madeireiros constitui uma forma de amortizar os custos da restauração, mesmo quando outro objetivo econômico está definido, como a extração de madeira nativa. Uma vez que as espécies madeireiras mais valiosas têm longos ciclos de vida, a exploração de produtos não madeireiros pode ser uma fonte intermediária de receita enquanto a madeira não está pronta para ser extraída.

Além disso, a exploração de madeira, segundo o Código Florestal, é proibida em áreas de preservação permanente (APPs), como margens de rios, encostas íngremes e topos de montanhas. Em projetos de recuperação dessas áreas, em grande déficit no Brasil, o manejo sustentável de baixo impacto para a extração de produtos não madeireiros pode ser uma opção econômica para financiar o próprio reflorestamento, adicionando multifuncionalidade a florestas nativas que já cumprem importante função ecossistêmica, como provisão de água, proteção do solo, sequestro de carbono e polinização.

“É preciso considerar que o objetivo final da restauração de ecossistemas é o retorno da provisão de serviços ecossistêmicos, importantes inclusive para a atividade agropecuária. Buscar formas sustentáveis de viabilizar esses projetos, porém, é uma maneira de tornar a restauração mais atrativa para os produtores rurais”, pontua o pesquisador (leia mais em: agencia.fapesp.br/55340) .

Qualificação do trabalho

Os projetos de reflorestamento com espécies nativas são conhecidos ainda por gerar um grande número de empregos que não demandam qualificação. Um estudo de 2022 publicado na revista People and Nature da British Ecological Society, que tem entre os autores alguns dos membros do trabalho atual, estimou que o Brasil pode gerar 2,5 milhões de empregos se atender à meta, estabelecida no Acordo de Paris, de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.

No entanto, é preciso considerar que a exploração de ativos florestais precisa levar em conta planos de manejo e regulação do mercado que não levem à superexploração das espécies e que acabem incentivando o desmatamento em vez da recuperação. Um exemplo do passado é o do pau-rosa (Aniba rosaeodora), árvore amazônica valorizada por seu óleo essencial, utilizado na indústria de perfumaria fina, que teve seu pico de exploração nas décadas de 1940 e 1950. Hoje a espécie está ameaçada de extinção.

Os pesquisadores citam ainda medidas como compras públicas, certificações e outras políticas que poderiam contribuir para a abertura de mercados sustentáveis para os produtos não madeireiros.

O cruzamento das bases de dados utilizadas no estudo (abundância das espécies amostradas, potencial de uso relatado na literatura científica e patentes registradas) pode ser usado em outros biomas brasileiros a fim de orientar futuros projetos de restauração florestal.

“Espécies raras, pouco abundantes, mas com bastante potencial econômico, poderiam ser adicionadas a projetos de restauração ativa, com plantio de mudas. Por sua vez, espécies abundantes e de fácil manejo, que nascem naturalmente, podem ser mais bem estudadas para que se encontrem usos econômicos, empilhando valores tangíveis e intangíveis das florestas e das espécies nativas e criando a multifuncionalidade ecológica-econômica”, aponta Krainovic.

O artigo Bioeconomic opportunities in restored tropical forests pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13280-025-02234-5.

Fonte: Agência FAPESP


quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Desmatamento causa 74% da redução das chuvas e 16% do aumento da temperatura na Amazônia durante a seca

 

Área de desmatamento de floresta próxima ao rio Negro (2016): cientistas alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Luciana Constantino | Agência FAPESP* – O desmatamento da Amazônia brasileira é responsável por cerca de 74,5% da redução de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura do bioma nos meses de seca. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram quantificar os impactos da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais sobre a floresta.

Liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), o estudo traz resultados fundamentais para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação, temas-alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, marcada para novembro em Belém (PA). Os resultados do trabalho estão publicados na última edição da Nature Communications e são destaque da capa da revista.

Os cientistas analisaram dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados (km2) – 29 blocos com área de cerca de 300 km por 300 km cada um – na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020). Utilizando modelos estatísticos paramétricos, destrincharam os efeitos da perda florestal e das alterações na temperatura, na precipitação e nas taxas de mistura de gases de efeito estufa.

As chuvas apresentaram uma redução de cerca de 21 milímetros (mm) na estação seca por ano, com o desmatamento contribuindo para uma diminuição de 15,8 mm. Já a temperatura máxima aumentou cerca de 2 °C, sendo 16,5% atribuídos ao efeito da perda florestal e o restante às mudanças climáticas globais.

“Vários artigos científicos sobre a Amazônia já vêm mostrando que a temperatura está mais alta, que a chuva tem diminuído e a estação seca aumentou, mas ainda não havia a separação do efeito das mudanças climáticas, causadas principalmente pela poluição de países do hemisfério Norte, e do desmatamento provocado pelo próprio Brasil. Por meio desse estudo, conseguimos separar e dar peso para cada um desses componentes, praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”, resume o professor Luiz Augusto Toledo Machado.

Pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, Machado diz à Agência FAPESP que os resultados reforçam a importância da conservação da floresta em pé para manter a resiliência climática.

Isso porque a pesquisa mostrou que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem já nos primeiros 10% a 40% de perda da cobertura florestal.

“Os efeitos das transformações, principalmente na temperatura e precipitação, são muito mais importantes nas primeiras porcentagens de desmatamento. Ou seja, temos que preservar a floresta, isso fica muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como áreas de pastagem. Se houver algum tipo de exploração, precisa ser de forma sustentável”, complementa o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Franco é primeiro autor do artigo e recebeu bolsa de pós-doutorado da FAPESP, que também apoiou o trabalho por meio de outra bolsa, do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) e de um projeto vinculado ao Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

O programa é desenvolvido em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e tem a pesquisadora Xiyan Xu como uma das responsáveis no exterior e autora do trabalho.

Sensível equilíbrio do ecossistema

A Amazônia, como a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, tem um importante papel na regulação do clima global. É responsável, por exemplo, pelos chamados “rios voadores” – cursos de água invisíveis que circulam pela atmosfera e abastecem outros biomas, como o Cerrado. As árvores retiram água do solo por meio das raízes, transportam até as folhas e a liberam para a atmosfera em forma de vapor.

No final do ano passado, um grupo internacional de pesquisadores, com a participação de Machado e do professor Paulo Artaxo, também do IF-USP, publicou um estudo na Nature mostrando, pela primeira vez, o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas no bioma. Envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, ocorridas entre a noite e o dia, resultando em uma espécie de “máquina” de aerossóis que vão produzir nuvens (leia mais em: agencia.fapesp.br/53490).

No entanto, o desmatamento e os processos de degradação da floresta contribuem com a alteração desse ciclo de chuvas, provocando a intensificação da estação seca em escala local e aumentando os períodos de incêndios florestais. A Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023, de acordo com dados do MapBiomas, atingindo uma área de 553 mil km2, o equivalente ao território da França. A pastagem foi a principal causa no período. Mesmo chegando ao segundo menor nível de desmate entre agosto de 2024 e julho de 2025 – uma área de 4.495 km² –, o desafio tem sido conter a degradação, especialmente provocada pelo fogo.

A estação seca – entre junho e novembro – é o período em que os impactos do desmatamento são mais pronunciados, principalmente sobre a chuva. Os efeitos cumulativos intensificam mais a sazonalidade.

Destrinchando os dados

Para chegar aos resultados, os cientistas trabalharam com equações paramétricas de superfície considerando tanto as variações anuais quanto do desmatamento. Elas permitiram separar as contribuições específicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Usaram ainda conjuntos de dados de sensoriamento remoto e de reanálises de longo prazo, incluindo as classificações de uso da terra produzidas pelo MapBiomas.

Além dos achados relacionados à chuva e à temperatura, o grupo analisou dados de gases de efeito estufa. Concluiu que, ao longo do período de 35 anos, o aumento nas taxas de dióxido de carbono (CO₂) e de metano (CH₄) foi impulsionado praticamente pelas emissões globais (mais de 99%). Foi observada uma alta de cerca de 87 partes por milhão (ppm) para CO₂ e cerca de 167 partes por bilhão (ppb) para CH₄.

Foram analisados dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de km2 na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020) (gráfico: Marco Aurélio Franco et al./Nature Comm., versão)

“Em um primeiro momento, esse resultado parecia antagônico com outros artigos que mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade de a floresta retirar CO2 da atmosfera. Mas não é porque a concentração de CO2 é algo em grande escala. Naqueles eram medições locais de fluxo de CO2. Quando se trata de concentração, o aumento é predominantemente devido às emissões globais”, explica Machado.

No artigo, os pesquisadores alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura.

Estudos recentes indicam que o desmatamento na Amazônia já está alterando os padrões da monção sul-americana (fenômeno climático que leva chuvas abundantes para o centro e Sudeste do Brasil durante o verão), resultando em condições mais secas que podem comprometer a resiliência de longo prazo da floresta. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, só agravam a situação.

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser lido em www.nature.com/articles/s41467-025-63156-0.

Fonte: Agência FAPESP 




segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Brasil avança na construção de diretrizes nacionais para Regeneração Natural Assistida de ecossistemas (RNA)


Oficina promovida pelo MMA reuniu especialistas de todo o país para subsidiar resolução da Conaveg sobre o tema

Entre os dias 2 e 4 de setembro, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), promoveu a oficina virtual “Regeneração Natural Assistida no Brasil”. O encontro reuniu cerca de 50 representantes de organizações da sociedade civil, órgãos governamentais e instituições acadêmicas para subsidiar a construção de uma resolução da Comissão Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa (Conaveg).

O documento irá estabelecer diretrizes nacionais para a implementação da regeneração natural assistida (RNA), considerada uma das estratégias mais promissoras para a restauração florestal no país

O debate foi realizado em parceria com o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), com apoio do Fundo Bezos Earth.

Conteúdo da oficina

Entre os assuntos debatidos, estiveram o marco legal da RNA, conceitos e definições técnicas, diretrizes e diagnósticos sobre o tema, além do mapeamento do potencial de implementação no Brasil. Os participantes também discutiram metodologias de monitoramento da regeneração natural e a proposta de estruturação de uma estratégia nacional de RNA.

Foram ainda apresentadas análises sobre as condições ecológicas e socioeconômicas locais que podem garantir a efetividade da regeneração natural, trazendo benefícios ambientais e sociais relacionais, como conservação da biodiversidade, mitigação da crise climática e geração de renda em territórios rurais.

Importância estratégica

A oficina destacou que o Brasil dispõe de milhões de hectares aptos à regeneração natural, capazes de contribuir de forma decisiva para o alcance das metas nacionais de restauração e para compromissos internacionais assumidos pelo país no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica e do Acordo de Paris.

Fonte: MMA


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Floresta secundária com aproximadamente 12 anos de idade regenerando em área que foi previamente usada para roça de mandioca. Distrito Agropecuário da Suframa, Manaus, AM, Brasil. A foto mostra uma paisagem típica da Amazônia, que é composta por plantios permanentes (banana, frutíferas, etc), roçados de mandioca, florestas secundárias e remanescentes de florestas maduras ao fundo. Foto: Catarina Jakovac

A restauração das florestas tropicais pela regeneração natural é uma solução de baixo custo

As florestas em regeneração natural alcançam, depois de 20 anos, quase 80% da fertilidade e estoque de carbono do solo e da diversidade de árvores das florestas maduras

A década entre 2020 e 2030 foi escolhida pelas Nações Unidas como a década da restauração. O objetivo é inspirar e apoiar iniciativas que auxiliem a reverter a degradação dos ecossistemas. Um dos caminhos para restaurar as florestas tropicais é por meio da regeneração natural, que acontece quando se garante que as florestas voltem a crescer naturalmente após o desmatamento. Um estudo publicado esta semana na Science mostra que, por esse processo de regeneração natural, as florestas podem atingir, após 20 anos, quase 80% da fertilidade do solo, do estoque de carbono do solo e da diversidade de árvores das florestas maduras. O estudo conclui que a regeneração natural é uma solução de baixo custo para a mitigação das mudanças climáticas, conservação da biodiversidade e restauração do ecossistema.

Segundo os autores, proteger ativamente as florestas maduras e impedir o desmatamento é essencial, mas também é muito importante considerar as florestas em regeneração e suas contribuições para as metas locais e globais de restauração de ecossistemas. Atualmente, mais da metade das florestas tropicais do mundo não são maduras, mas florestas em processo de regeneração natural. Na América Latina tropical, essas florestas em regeneração cobrem até 28% da área terrestre.

A equipe internacional envolvida neste estudo, composta por mais de 90 pessoas, teve a participação de pesquisadores do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose) do CNPq . A equipe analisou mais de 2.200 fragmentos de florestas em regeneração e maduras em 77 locais da América tropical e subtropical e da África Ocidental. O objetivo foi analisar como essas florestas se recuperam durante esse processo natural por meio do acompanhamento de características relacionadas ao solo, o funcionamento do ecossistema, à estrutura da floresta e à biodiversidade das árvores.

Catarina Jakovac , da Universidade Federal de Santa Catarina e vice-coordenadora do projeto Regenera, do SinBiose, explica que o grande diferencial deste estudo é ter analisado como a recuperação dessas diferentes características estava inter-relacionada e em uma escala continental. “Nós descobrimos que o tamanho máximo da árvore, a variação na estrutura da floresta e a riqueza de espécies de árvores são indicadores robustos de recuperação de múltiplos atributos da floresta. Esses três indicadores são relativamente fáceis de medir e podem ser usados ​​para monitorar a restauração florestal. Atualmente já é possível utilizar sensoriamento remoto para monitorar o tamanho e a variação das árvores em grande área espacial e temporal, por exemplo”, explica a pesquisadora.

Recuperação das florestas tropicais ao longo do tempo. Mais informações em: science.org/doi/10.1126/science.abh3629

Segundo o estudo, em áreas que tiveram um histórico de uso do solo pouco intensivo, a recuperação da fertilidade do solo da floresta em regeneração acontece mais rápido: em menos de 10 anos. Características funcionais das plantas são recuperadas em menos de 25 anos e a estrutura da vegetação e diversidade de espécies entre 25 a 60 anos. Já a recuperação da biomassa acima do solo e a composição de espécies exige um período maior, de cerca de 120 anos. De maneira geral, as florestas em regeneração natural alcançam, depois de 20 anos, quase 80% da fertilidade e estoque de carbono do solo e da diversidade de árvores das florestas maduras, o que foi considerado surpreendentemente rápido pelos pesquisadores.

Para Catarina Jakovac o marco de 20 anos é bastante importante, “há uma ideia que circula na sociedade de que uma floresta demora muito mais tempo para se recuperar, o que estamos mostrando é que em 20 anos muita coisa já se recupera”. Os resultados também reforçam a importância da adoção da regeneração natural como uma solução de baixo custo baseada na natureza para cumprir as metas de desenvolvimento sustentável e da década da restauração da ONU.

A pesquisadora Rita Mesquita , do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, coordenadora do projeto Regenera do SinBiose e co-autora do estudo, ressalta que “o potencial de regeneração das florestas secundárias é dependente da presença de florestas maduras como fontes de sementes e fauna dispersora na paisagem. Sem as florestas maduras a diversidade de espécies não será recuperada tão rápido. Portanto, é preciso atrelar a conservação de remanescentes florestais a ações de restauração e recuperação de áreas degradadas.”

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

EMERGÊNCIA CLIMÁTICA: Brasil tem 20% de todas as terras no mundo disponíveis para a restauração florestal

O Observatório do Clima divulgou a matéria abaixo sobre um estudo da universidade de Sun Yat-sen, de Taiwan, que mostra que o mundo teria 398 milhões de hectares aptos para receber plantios de florestas, que ajudariam no enfrentamento da crise climática. Desta área, 20% estariam no Brasil. Caso fosse totalmente reflorestado, a área resultaria na retirada de 40 bilhões de toneladas de carbono da atmosfera até 2050.

A estimativa é bem menor do que um estudo anterior realizado pelo Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, que estimava que a área disponível seria de 900 milhões de hectares, o que resultaria na retirada de 25% do carbono na atmosfera. O estudo suíço deu origem ao número emblemático que é repetido com frequência de uma meta de plantio de 1 trilhão de árvores. 

O estudo agora lançado alerta que dos 398 milhões de hectares disponíveis globalmente, apenas cerca de 30% (120 milhões de hectares) são passíveis de reflorestamento de acordo com os compromissos atuais dos governos mundo afora. Mesmo muito abaixo do possível, caso esse número seja atingido, ou seja, que os países de fato cumpram o que prometeram, atingiríamos apenas 12 bilhões de toneladas em 25 anos, mas que já seria um ganho.

Em 2019, a Assembleia Geral da ONU proclamou a Década da Restauração de Ecossistemas (2021-2030), embalado pelo Desafio de Bonn, lançado pelo governo alemão em 2011, desafiando os países a chegar a uma meta de restauração de 350 milhões de hectares de ecossistemas degradados até 2030. Pelo ritmo atual não chegaremos perto da meta traçada.

O Brasil tem avançado para fazer a sua parte e lançou um ambicioso programa de restauração de áreas degradadas, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa - PLANAVEG. O plano prevê a restauração de 12 milhões de hectares até 2030, e a sua implementação já foi iniciada e faz parte da nova NDC brasileira. A iniciativa demanda um grande esforço de planejamento, de logística e de suprimentos, mas com o PRONAVEG, o Brasil já liderará o mundo na restauração florestal, ficando atrás apenas da China.

Axel Grael
Engenheiro florestal
Prefeito de Niterói (2021-2024)

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Amazônia (Foto: Rodrigo Vargas/OC)

Falta espaço no mundo para expandir florestas, diz estudo

Área apta para plantio de árvores visando a combater crise do clima é quase um terço menor do que se imaginava

DO OC – Conter as mudanças climáticas por meio do plantio de centenas de bilhões de árvores pelo mundo não esbarra apenas em limitações econômicas e geopolíticas. Estudo publicado na quinta-feira (28) na revista Science indica que a disponibilidade de áreas para florestamento e reflorestamento é muito menor do que o previsto.

Liderado por pesquisadores da universidade Sun Yat-sen (Taiwan), o trabalho afirma que cerca de 398 milhões de hectares estariam aptos globalmente a abrigar tais iniciativas, dos quais 20% deles concentrados em áreas desmatadas do Brasil.

O número equivale a pouco mais de um terço da estimativa feita em 2019 pelo Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, segundo a qual o planeta poderia abrigar 900 milhões de hectares de novas florestas e, por meio delas, capturar 25% do carbono então presente na atmosfera. À ocasião, ficou famoso o cálculo de que o espaço seria suficiente para 1 trilhão de novas árvores.

O plantio maciço de florestas é uma das técnicas para atingir as chamadas “emissões negativas”, ou seja, para o mundo eventualmente sequestrar mais CO2 da atmosfera do que emite. Todos os modelos computacionais que simulam a possibilidade de limitar o aquecimento global a 1,5oC, como preconiza o Acordo de Paris, levam em conta muitas emissões negativas. A indústria fóssil defende o plantio maciço de florestas como uma alternativa ao abandono imediato do petróleo.

O novo estudo começou com a produção de mapas com as taxas globais de sequestro de carbono dos ecossistemas (solo e biomassa) no caso de um potencial reflorestamento. O resultado bruto foi então analisado a partir do cruzamento com uma série de fatores limitantes.

Áreas com reduzida disponibilidade hídrica para sustentar uma floresta, por exemplo, foram excluídas. Savanas e outros campos naturais, onde iniciativas do gênero colocariam em risco a biodiversidade local, também foram excluídas da conta.

O resultado dessa primeira triagem, segundo o estudo, seria capaz de retirar cerca de 40 bilhões de toneladas de carbono até 2050 se integralmente colocado em prática. Mas havia outro grande fator limitante a ser considerado: a política.

Dos 398 milhões de hectares disponíveis globalmente, apenas cerca de 30% (120 milhões de hectares) são passíveis de reflorestamento de acordo com os compromissos atuais dos governos mundo afora.

Se mantido este cenário, segundo os pesquisadores, o potencial de sequestro de carbono com o plantio de árvores despencaria para cerca de 12 bilhões de toneladas em 25 anos.

“Os 15 principais países, que representam 70% do potencial global de área, comprometeram apenas 31% do seu potencial estimado”, aponta o estudo, em um trecho.

A maior parcela de áreas sob compromissos de reflorestamento no planeta está no continente africano (50%). Ocorre que, de acordo com os pesquisadores, a maior parte dessas áreas é de savanas.

“A África, com apenas 4% do potencial global de área (16 Mha), assumiu 50% dos compromissos de florestamento (115,5 Mha). Esse potencial limitado de área deve-se principalmente a preocupações com a biodiversidade.”

O Brasil é citado com destaque no estudo pelo grande potencial para o reflorestamento. São ao todo 78 milhões de hectares disponíveis (um quinto da área global), principalmente em regiões recentemente desmatadas da Amazônia.

A ampliação da fronteira agrícola, porém, poderia anular os esforços nessa direção. “Países como Indonésia e Brasil têm potencial para reflorestamento, mas ainda estão perdendo grandes áreas de terras florestais para a agricultura e a produção de commodities”, apontou o estudo.

Entre as conclusões, o estudo destaca que a proteção e o manejo das atuais florestas é tão ou mais importante do que criar novas. E que, muito embora possam efetivamente contribuir para os esforços globais de mitigação, essas iniciativas não substituem a necessidade de uma transição para longe dos combustíveis fósseis.

Implementação difícil

Vice-presidente do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) de 2015 a 2023, a pesquisadora Thelma Krug, do Inpe, analisou a pedido do OC os dados trazidos pela pesquisa e se disse “totalmente alinhada” às suas conclusões.

Segundo ela, o fim do desmatamento e a proteção e gestão das florestas existentes são muito mais importantes que a criação de novas florestas.

“Novas florestas demoram a crescer e sua contribuição para a mitigação é mais lenta. E a implementação de florestamentos e reflorestamentos bem-sucedidos é desafiadora, apresentando alto custo e difícil execução”, afirmou.

Entre as barreiras à implantação de novas florestas, a pesquisadora citou a alta vulnerabilidade a eventos climáticos extremos, como incêndios florestais, secas ou fortes chuvas.

“Essa vulnerabilidade é agravada pela ausência de ações concretas de redução de emissões fósseis, o que leva a um aumento esperado na intensidade e frequência de secas que, por sua vez, intensificam os incêndios florestais. Ou seja, em termos de contribuições para a mitigação, a descarbonização rápida na indústria e em outros setores é a verdadeira prioridade.”




domingo, 7 de setembro de 2025

Pesquisa analisa motivações de proprietários rurais para conservar ou desmatar áreas de preservação

 

Fernandes, da Esalq-USP: “Compreender percepções e decisões dos agricultores sobre os benefícios promovidos pela floresta pode ajudar a otimizar o cumprimento da lei” (Amanda Fernandes/acervo pessoal)

Apenas 9% de 90 produtores de 13 municípios paulistas entrevistados apontaram o sequestro de carbono como um benefício da conservação e 2% citaram investir tempo e dinheiro para adquirir mudas e promover restauração ativa; levantamento verificou, ao mesmo tempo, que 78% identificaram uma redução da disponibilidade de água de 1985 até hoje

Agência FAPESP* – A legislação brasileira prevê que todas as propriedades rurais tenham áreas destinadas à preservação de florestas. Nas Áreas de Proteção Permanente (APPs) – entorno de nascentes, margens de rios e topos de morro, por exemplo – a vegetação nativa deve ser mantida ou restaurada e protegida de qualquer ação humana. Já as Reservas Legais correspondem a um percentual da área da propriedade no qual a vegetação nativa ou restaurada pode ser explorada desde que de forma sustentável.

Somadas, essas áreas correspondem a 54% da vegetação nativa remanescente do Brasil, o que ressalta a importância da participação de proprietários rurais nas políticas de conservação ambiental.

Um estudo publicado na revista Restoration Ecology por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e colaboradores avaliou as razões que influenciam as decisões de proprietários rurais do Estado de São Paulo sobre essas áreas em suas propriedades.

“Compreender os fatores que motivam as percepções e decisões dos agricultores sobre os benefícios promovidos pela floresta pode ajudar a identificar o que possibilita a conservação e a restauração florestal e otimizar o cumprimento da lei” explica Amanda Fernandes, que desenvolveu a pesquisa em seu mestrado no Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) da Esalq e na Universidade de Wageningen, nos Países Baixos.

Foram realizadas entrevistas com 90 proprietários rurais de 13 municípios do Estado de São Paulo. A pesquisa avaliou três pontos principais na relação entre proprietários, as áreas de cobertura florestal obrigatórias e suas propriedades: as motivações para diminuição, manutenção ou ampliação dessas áreas; os benefícios da sua manutenção ou ampliação e a disposição para a restauração florestal em suas terras.

Proprietários de grandes áreas desmataram mais no período estudado (1985-2015) citando como razões incentivos governamentais (oferecidos entre as décadas de 1970 e 1980, mas que ainda seguem mencionados), aumento da área agrícola, de renda e a “ganância humana”. Entre os que mantiveram as áreas de floresta, a conservação da água e o cumprimento da lei foram motivações mais comuns em grandes propriedades, enquanto a adequação à legislação e o legado familiar foram prioritários para pequenos proprietários. Já entre os que ampliaram a cobertura florestal, as razões incluíram o cumprimento da lei, a conservação da água, terras inadequadas para agricultura e a expansão da APP.

Sobre os benefícios, a conservação da água foi o mais citado. “Em 78% das entrevistas identificamos uma percepção de alteração da disponibilidade de água de 1985 até hoje. Desses, 89% notaram redução na disponibilidade de água, atribuída a fatores naturais [como o El Niño], desmatamento, uso irracional da água, monocultura de eucalipto, assoreamento de rios e altas temperaturas”, explica Fernandes. Os 11% restantes relataram aumento na disponibilidade, associado à proteção de nascentes e à restauração de áreas degradadas.

A maioria dos proprietários se disse disposta a restaurar áreas florestais com apoio e retorno financeiro. Contudo, as contribuições mencionadas limitam-se à preservação das florestas existentes (60%) e à manutenção de áreas restauradas (38%). Apenas 2% citaram investir tempo e dinheiro para adquirir mudas e promover restauração ativa.

Seleção dos entrevistados

Um dos critérios utilizados para selecionar os entrevistados levou em conta municípios onde houve aumento, diminuição ou manutenção da área de vegetação nativa entre 1985 e 2015, uma análise que faz parte do projeto “Compreendendo florestas restauradas para o benefício das pessoas e da natureza”, vinculado ao Programa BIOTA-FAPESP, no qual a pesquisa se insere.

Quanto ao perfil dos entrevistados, 57% relataram obter sua renda principal da produção agrícola e da pecuária, 31% apenas da agricultura e 12% apenas da pecuária. Culturas como milho, soja, cana-de-açúcar, feijão, laranja – além de gado de corte e leiteiro – predominam em fazendas de médio e grande porte, enquanto mandioca, quiabo, alface, ovos, banana e limão são produzidos principalmente em pequenas propriedades. Dos entrevistados, 78% dos produtores relataram participar de cooperativas agrícolas e/ou associações de agricultores e 53% indicaram receber assistência técnica para a administração das propriedades.

Implicações práticas

Os resultados mostram que os proprietários rurais paulistas estão bem informados: têm educação formal, assistência técnica, participam de cooperativas, conhecem suas terras e a legislação. “Ainda assim, não estão totalmente dispostos a contribuir ativamente para a restauração de áreas em suas propriedades, mesmo que seja ordenada por lei”, reflete Fernandes. “Surpreendentemente, não consideravam o sequestro de carbono como algo relevante para esse processo, o que nos leva a refletir sobre a importância de avançar com comunicação e capacitação sobre projetos de restauração e carbono na Mata Atlântica, com destaque para os proprietários rurais e organizações que atuam com restauração no bioma.”

Apenas 9% de todos os produtores entrevistados perceberam o sequestro de carbono como um benefício. “A maioria não se interessa pelo tema e os que se interessam precisam de informações sobre o mercado de carbono e como aumentar sua renda com a conservação e restauração florestal dentro de sua propriedade”, frisa a pesquisadora. “A restauração do bioma acontece dentro das áreas rurais privadas e os proprietários precisam saber dos benefícios econômicos e sociais relacionados à captura de carbono”, complementa Fernandes.

“Outro ponto evidente é que o fator econômico é central nas decisões dos proprietários”, explica Cristina Adams, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e uma das autoras do artigo. “No entanto, soluções como as do mercado de carbono e dos pagamentos por serviços ambientais não vão resolver sozinhas essa questão. É preciso começar uma discussão sobre mudanças mais profundas, uma transição. Assim como estamos discutindo a transição energética para formas mais sustentáveis de produção de energia é preciso discutir a transição do modelo agrícola para uma agricultura ecológica que inclua a restauração de florestas.”

O artigo Determinants of farm-level land use decisions and perceptions of associated ecosystem services in the Brazilian Atlantic Forest pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/rec.70089?af=R.

* Com informações de Érica Speglich, do boletim BIOTA Highlights.

Fonte: Agência FAPESP



Conama aprova resolução que normatiza autorização para supressão de vegetação nativa em imóveis rurais

Ainda na reunião, foi apresentado o esboço da plataforma de votação eletrônica do Conama - Foto: Rogerio Cassimiro/MMA

Medida padroniza critérios para a emissão do documento, com transparência e a integração de dados ambientais; reunião contou com a participação da ministra Marina Silva

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) aprovou por unanimidade, na última quarta-feira (3/9), durante a 147ª reunião ordinária do Plenário, realizada em Brasília, resolução que estabelece critérios e condições mínimas para a emissão de Autorização de Supressão de Vegetação (ASV) em imóveis rurais. A medida busca padronizar, em nível nacional, os critérios para a emissão do instrumento, além de promover a transparência e a integração de dados ambientais.

Na avaliação dos conselheiros do Conama, a iniciativa amplia a transparência das informações, reduz a possibilidade de práticas ilegais e reforça a segurança tanto para o setor produtivo quanto para as políticas públicas de monitoramento. A medida também contribui para o alcance da meta de desmatamento zero até 2030.

A construção coletiva, realizada no âmbito do Conama, com “diferentes seguimentos da sociedade” para reforçar a governança ambiental, a ação climática e a proteção da biodiversidade foi destacada pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. “Em um ambiente não democrático, perderíamos toda essa capacidade de aportar tamanhas contribuições para a gestão pública e para o fortalecimento do Sistema Nacional de Meio Ambiente.”

Com a nova regra, as autorizações passam a ser emitidas pelo Sistema Nacional de Controle da Origem de Produtos Florestais (Sinaflor) ou por programas integrados à plataforma, que é gerida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Estados e municípios deverão disponibilizar essas informações de forma padronizada e acessível. A norma não se aplica às autorizações de exploração florestal e entrará em vigor 180 dias após a publicação.

Outro ponto deliberado recomenda que os órgãos que compõem o Sisnama ampliem a divulgação e incorporem, em suas atividades, o Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima).

A pauta incluiu a aprovação de três moções de apoio. Uma delas defende que o Congresso Nacional mantenha os vetos do presidente Lula à Lei Geral do Licenciamento Ambiental. O texto ressalta que os vetos asseguram salvaguardas essenciais, como a exigência do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), a proteção de comunidades tradicionais e de todos os biomas, e alerta para os riscos ambientais e sociais de sua derrubada

O apoio ao fim da exportação de barbatanas e a captura insustentável de tubarões em águas brasileiras também foi destacado. O texto reforça que a “caça de tubarões é uma ameaça significativa à biodiversidade marinha e ao equilíbrio dos ecossistemas”. A terceira apoia o Projeto de Lei 3.093/2021, que proíbe a exportação de animais vivos para abate no exterior. A proposta é de autoria da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa e está em tramitação no Senado Federal. Saiba mais aqui.

Ainda na reunião, foi apresentado o esboço da plataforma de votação eletrônica do Conama. O sistema, desenvolvido pelo MMA, permite o registro de presença e o processo de votação e apuração em tempo real.

Outro destaque da reunião foi a apresentação dos resultados da pesquisa “Como tornar o setor de transportes um contribuidor ativo para a redução das emissões brasileiras”, realizada pela Coalizão pela Descarbonização dos Transportes.

Fonte: MMA


Desmatamento causa 74% da redução das chuvas e 16% do aumento da temperatura na Amazônia durante a seca

 

Área de desmatamento de floresta próxima ao rio Negro (2016): cientistas alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Pesquisa liderada por cientistas da USP quantifica, pela primeira vez, impactos da perda da floresta e das mudanças climáticas globais no bioma

Luciana Constantino | Agência FAPESP* 

O desmatamento da Amazônia brasileira é responsável por cerca de 74,5% da redução de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura do bioma nos meses de seca. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram quantificar os impactos da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais sobre a floresta.

Liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), o estudo traz resultados fundamentais para orientar estratégias eficazes de mitigação e adaptação, temas-alvo da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, marcada para novembro em Belém (PA). Os resultados do trabalho estão publicados na última edição da Nature Communications e são destaque da capa da revista.

Os cientistas analisaram dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de quilômetros quadrados (km2) – 29 blocos com área de cerca de 300 km por 300 km cada um – na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020). Utilizando modelos estatísticos paramétricos, destrincharam os efeitos da perda florestal e das alterações na temperatura, na precipitação e nas taxas de mistura de gases de efeito estufa.

As chuvas apresentaram uma redução de cerca de 21 milímetros (mm) na estação seca por ano, com o desmatamento contribuindo para uma diminuição de 15,8 mm. Já a temperatura máxima aumentou cerca de 2 °C, sendo 16,5% atribuídos ao efeito da perda florestal e o restante às mudanças climáticas globais.

“Vários artigos científicos sobre a Amazônia já vêm mostrando que a temperatura está mais alta, que a chuva tem diminuído e a estação seca aumentou, mas ainda não havia a separação do efeito das mudanças climáticas, causadas principalmente pela poluição de países do hemisfério Norte, e do desmatamento provocado pelo próprio Brasil. Por meio desse estudo, conseguimos separar e dar peso para cada um desses componentes, praticamente mostrando uma espécie de ‘conta a pagar’”, resume o professor Luiz Augusto Toledo Machado.

Pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e colaborador do Departamento de Química do Instituto Max Planck, na Alemanha, Machado diz à Agência FAPESP que os resultados reforçam a importância da conservação da floresta em pé para manter a resiliência climática.

Isso porque a pesquisa mostrou que o impacto do desmatamento é mais intenso nos estágios iniciais. As maiores mudanças no clima local ocorrem já nos primeiros 10% a 40% de perda da cobertura florestal.

“Os efeitos das transformações, principalmente na temperatura e precipitação, são muito mais importantes nas primeiras porcentagens de desmatamento. Ou seja, temos que preservar a floresta, isso fica muito claro. Não podemos transformá-la em outra coisa, como áreas de pastagem. Se houver algum tipo de exploração, precisa ser de forma sustentável”, complementa o professor Marco Aurélio Franco, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.

Franco é primeiro autor do artigo e recebeu bolsa de pós-doutorado da FAPESP, que também apoiou o trabalho por meio de outra bolsa, do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) e de um projeto vinculado ao Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

O programa é desenvolvido em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e tem a pesquisadora Xiyan Xu como uma das responsáveis no exterior e autora do trabalho.

Sensível equilíbrio do ecossistema

A Amazônia, como a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, tem um importante papel na regulação do clima global. É responsável, por exemplo, pelos chamados “rios voadores” – cursos de água invisíveis que circulam pela atmosfera e abastecem outros biomas, como o Cerrado. As árvores retiram água do solo por meio das raízes, transportam até as folhas e a liberam para a atmosfera em forma de vapor.

No final do ano passado, um grupo internacional de pesquisadores, com a participação de Machado e do professor Paulo Artaxo, também do IF-USP, publicou um estudo na Nature mostrando, pela primeira vez, o mecanismo físico-químico que explica o complexo sistema de formação de chuvas no bioma. Envolve a produção de nanopartículas de aerossóis, descargas elétricas e reações químicas em altitudes elevadas, ocorridas entre a noite e o dia, resultando em uma espécie de “máquina” de aerossóis que vão produzir nuvens (leia mais em: agencia.fapesp.br/53490).

No entanto, o desmatamento e os processos de degradação da floresta contribuem com a alteração desse ciclo de chuvas, provocando a intensificação da estação seca em escala local e aumentando os períodos de incêndios florestais. A Amazônia brasileira perdeu 14% da vegetação nativa entre 1985 e 2023, de acordo com dados do MapBiomas, atingindo uma área de 553 mil km2, o equivalente ao território da França. A pastagem foi a principal causa no período. Mesmo chegando ao segundo menor nível de desmate entre agosto de 2024 e julho de 2025 – uma área de 4.495 km² –, o desafio tem sido conter a degradação, especialmente provocada pelo fogo.

A estação seca – entre junho e novembro – é o período em que os impactos do desmatamento são mais pronunciados, principalmente sobre a chuva. Os efeitos cumulativos intensificam mais a sazonalidade.

Destrinchando os dados

Para chegar aos resultados, os cientistas trabalharam com equações paramétricas de superfície considerando tanto as variações anuais quanto do desmatamento. Elas permitiram separar as contribuições específicas das mudanças climáticas globais e da perda de vegetação. Usaram ainda conjuntos de dados de sensoriamento remoto e de reanálises de longo prazo, incluindo as classificações de uso da terra produzidas pelo MapBiomas.

Além dos achados relacionados à chuva e à temperatura, o grupo analisou dados de gases de efeito estufa. Concluiu que, ao longo do período de 35 anos, o aumento nas taxas de dióxido de carbono (CO₂) e de metano (CH₄) foi impulsionado praticamente pelas emissões globais (mais de 99%). Foi observada uma alta de cerca de 87 partes por milhão (ppm) para CO₂ e cerca de 167 partes por bilhão (ppb) para CH₄.

Foram analisados dados ambientais, de mudanças atmosféricas e de cobertura da terra de aproximadamente 2,6 milhões de km2 na Amazônia Legal brasileira em um período de 35 anos (1985 a 2020) (gráfico: Marco Aurélio Franco et al./Nature Comm., versão)

“Em um primeiro momento, esse resultado parecia antagônico com outros artigos que mostram o impacto do desmatamento na redução da capacidade de a floresta retirar CO2 da atmosfera. Mas não é porque a concentração de CO2 é algo em grande escala. Naqueles eram medições locais de fluxo de CO2. Quando se trata de concentração, o aumento é predominantemente devido às emissões globais”, explica Machado.

No artigo, os pesquisadores alertam que, se o desmatamento continuar sem controle, a extrapolação dos resultados sugere um declínio adicional na precipitação total durante a estação seca e maior elevação da temperatura.

Estudos recentes indicam que o desmatamento na Amazônia já está alterando os padrões da monção sul-americana (fenômeno climático que leva chuvas abundantes para o centro e Sudeste do Brasil durante o verão), resultando em condições mais secas que podem comprometer a resiliência de longo prazo da floresta. Eventos extremos, como as secas de 2023 e 2024, só agravam a situação.

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser lido em www.nature.com/articles/s41467-025-63156-0.

Fonte: Agência FAPESP




sábado, 30 de agosto de 2025

NITERÓI SE DESPEDE DE MÁRCIA SILVEIRA

Niterói se despediu hoje da socióloga Márcia Saad Silveira, uma grande personagem da cidade. Era uma pessoa doce, afável, de presença marcante, apesar da atitude mais discreta. Certamente fará muita falta.

Em 1980, fundei o Movimento de Resistência Ecológica - MORE, uma organização ambientalista pioneira no RJ, de uma época que os termos "sustentabilidade" e "ambientalista" ainda não eram sequer utilizados. Naquela época, ainda éramos chamados de ecologistas e o termo sustentabilidade só surgiu anos depois, na preparação para a Rio-92. 

Eu presidi o MORE por muitos anos e contei com a Márcia como diretora em boa parte desse tempo. 

Filha de Roberto Silveira, ex-governador do antigo estado do RJ e irmã do ex-prefeito Jorge Roberto Silveira (eleito anos depois), dentre nós Márcia era a mais experiente em política, portanto nos ajudava como estrategista e grande conselheira. Muitas das nossas reuniões aconteciam na casa da Beth, prima da Márcia, ou mesmo tendo como anfitriã a saudosa dona Ismélia Silveira, mãe da Márcia.

Lutamos contra a poluição da Baía de Guanabara, pelo saneamento de Niterói, contra a poluição das "fábricas de sardinha" de Jurujuba, da Ilha da Conceição e do Barreto. Também defendemos a recuperação das lagoas de Piratininga e Itaipu e pela criação do Parque Estadual da Serra da Tiririca - PESET.

Que a presença da Márcia continue a nos inspirar e a motivar para as boas causas.

Nossos sentimentos ao seu querido esposo Alberto Vianna, à família Saad Silveira e a todos os seus amigos.

Márcia presente!

Axel e Christa Grael