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segunda-feira, 11 de maio de 2026

INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM divulgam nota técnica sobre o El Niño e indicam aumento da probabilidade do fenômeno em 2026

Anomalia da temperatura da super´fície do mar: abr/2026. Fonte: CPTEC/INPE

Documento aponta cerca de 60% de chance de formação do fenômeno ao longo do segundo semestre, com possível atuação até o início de 2027

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM) publicaram uma nota técnica conjunta com as análises mais recentes sobre a possível evolução do fenômeno El Niño ao longo de 2026. O documento indica aumento da probabilidade de formação do fenômeno ainda neste ano, especialmente ao longo do segundo semestre.

De acordo com a nota técnica, a parte mais superficial do Oceano Pacífico equatorial encontra-se, desde o início do ano, em condições próximas da neutralidade. No entanto, o oceano subsuperficial vem apresentando sinais de aquecimento anômalo das águas. Essas anomalias se propagam em direção ao continente pelo Pacífico e afloram na superfície, especialmente na porção leste do oceano, onde a termoclina – camada que separa as águas mais profundas das superficiais – tende a se localizar mais próxima da superfície. O aquecimento das águas superficiais observado ao longo de abril reforça o indicativo de transição para o El Niño nos próximos meses.

Segundo previsões do Centro de Previsão Climática (CPC) da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), há cerca de 60% de probabilidade de estabelecimento do fenômeno no trimestre maio-junho-julho. As previsões da nota conjunta indicam ainda alta probabilidade, superior a 80%, de configuração do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência até o início de 2027. A intensidade do fenômeno ainda não pode ser definida, embora exista a possibilidade de que o evento atinja, ao menos, intensidade moderada.

Previsão probabilística para ocorrência de condições de El Niño (barras em vermelho), neutras (barras em cinza) e de La Niña (barras em azul), emitida pelo CPC/NOAA em abril de 2026. Fonte: Nota Técnica - EL NIÑO 2026 (INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM)

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, que altera a circulação atmosférica e influencia as condições meteorológicas e oceânicas em diversas regiões do planeta. Como explica o chefe da Divisão de Previsão do Tempo e Clima do INPE, Enver Ramirez, “o El Niño é um fenômeno que obedece às interações entre diversos componentes do sistema terrestre, principalmente entre o oceano e a atmosfera. Pequenas alterações podem impactar vários parâmetros, como a intensidade, a duração do evento e os efeitos que o fenômeno pode ter em diferentes regiões do planeta. Assim, mesmo que o ápice do evento aconteça no final do ano, alguns episódios associados ao fenômeno podem ser sentidos em diferentes regiões ao longo do seu desenvolvimento”.

No Brasil, os impactos do El Niño tendem a se manifestar de forma distinta entre as regiões. Em geral, há aumento da probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul e déficit de precipitação em áreas da Amazônia, especialmente em sua porção leste, além de condições mais secas em partes das regiões Norte e Nordeste. Essas características, no entanto, podem variar conforme a intensidade do fenômeno e a influência de outros fatores climáticos, como as condições do Oceano Atlântico, que têm se mostrado importantes especialmente para as regiões Norte e Nordeste.

A nota técnica também alerta para o risco de ocorrência de eventos climáticos extremos associados ao fenômeno e seus potenciais impactos em diferentes setores da sociedade e da economia, como abastecimento de água, segurança alimentar, geração de energia, mobilidade, saúde pública e atividades produtivas.

Nesse contexto, as instituições que assinam a nota destacam a importância do acompanhamento sistemático das condições oceânicas e atmosféricas, bem como das previsões meteorológicas e climáticas divulgadas pelos órgãos oficiais, uma vez que o monitoramento contínuo permite aprimorar as previsões e subsidiar ações de planejamento, prevenção, mitigação e resposta frente aos possíveis impactos identificados.

Acesse a nota técnica completa aqui ou no site do CPTEC.

Fonte: INPE



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Aprovação do acordo MERCOSUL-União Europeia fortalece compromissos do Brasil com clima, florestas e desenvolvimento sustentável


O Governo do Brasil destaca o avanço do Acordo de Parceria entre o MERCOSUL e a União Europeia como um marco para o fortalecimento da agenda ambiental, climática e de desenvolvimento sustentável do país.

A decisão do Conselho do bloco europeu, anunciada nesta sexta-feira (9/1), reconhece os compromissos ambientais assumidos pelo Brasil e pelo MERCOSUL, bem como cria bases sólidas para a promoção de um comércio internacional alinhado à proteção do meio ambiente e ao enfrentamento da mudança do clima.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a data da aprovação como um “dia histórico para o multilateralismo”. “Em um cenário internacional de crescente protecionismo e unilateralismo, o acordo é uma sinalização em favor do comércio internacional como fator para o crescimento econômico, com benefícios para os dois blocos”, destacou.

Para a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, a decisão reflete a credibilidade internacional reconquistada pelo Brasil.

“Depois de 25 anos, a aprovação deste acordo está ancorada na confiança de que o governo do presidente Lula conduz uma agenda ambiental séria, consistente e comprometida com resultados. Em três anos, conseguimos reduzir o desmatamento na Amazônia em 50% e em 32,3% no Cerrado e, ao mesmo tempo, abrir mais de 500 novos mercados para o agronegócio do país, demonstrando que o Brasil é capaz de fortalecer a economia enquanto protege seus biomas e cumpre seus objetivos ambientais e climáticos.”

Concluídas em 6 de dezembro de 2024, as negociações resultaram em um texto equilibrado e alinhado aos desafios ambientais, sociais e econômicos contemporâneos. O acordo reafirma os compromissos de desenvolvimento sustentável assumidos pelas partes, incluindo o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, assim como o respeito à soberania de cada país para definir seus padrões ambientais, de acordo com suas circunstâncias e níveis de desenvolvimento, com base em dados e evidências aportados pela melhor ciência disponível.

O documento incorpora avanços significativos nas agendas de clima e biodiversidade, com referências ao financiamento ambiental, ao reconhecimento da importância da valoração dos serviços ecossistêmicos e ao apoio à conservação das florestas.

Nesse contexto, o acordo prevê a elaboração de uma lista de produtos da bioeconomia que receberão tratamento adicional mais favorável no mercado europeu, além de facilitar o acesso a outros bens produzidos segundo critérios de sustentabilidade, como o uso de energia limpa.

As partes acordaram também a adoção de ações para promover produtos sustentáveis no comércio birregional, ampliando oportunidades para pequenos produtores, cooperativas, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais.

A União Europeia se compromete a utilizar os dados fornecidos pelos países do MERCOSUL para verificar os níveis de desmatamento e o cumprimento da legislação ambiental dos países exportadores.

O acordo estabelece salvaguardas para assegurar que a ampliação do comércio contribua para a promoção da sustentabilidade, prevenindo possíveis impactos ambientais negativos. O anexo sobre comércio e meio ambiente dedica-se, também, à promoção de cadeias de valor sustentáveis voltadas à transição energética.

O Acordo de Parceria aproxima dois dos maiores blocos econômicos do mundo, ao integrar mercados que somam cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto superior a US$ 22 trilhões. Trata-se do maior acordo comercial já firmado pelo MERCOSUL e de um dos mais relevantes já celebrados pela União Europeia, reforçando o compromisso com um comércio internacional baseado em regras, diálogo e cooperação.

Com a aprovação pelas instâncias europeias, o acordo entra agora na fase final de tramitação e ratificação, conforme os procedimentos institucionais de cada parte. No Brasil, o texto será encaminhado ao Congresso Nacional, assim como aos parlamentos dos demais países do MERCOSUL. No âmbito da União Europeia, a legislação prevê que a aprovação do Parlamento Europeu é suficiente para a entrada em vigor do pilar comercial.

Para além do comércio, o acordo institui mecanismos permanentes de cooperação política e diálogo institucional, reafirmando compromissos com a democracia, os direitos humanos e o multilateralismo.

Fonte: MMA




Controle do petróleo venezuelano pelos EUA desafia a transição energética

Montagem ClimaInfo em cima de imagem gerada por IA

Política trumpista reafirma distanciamento dos EUA das renováveis, na contramão do resto do mundo.

Ao atacar a Venezuela, o negacionista Donald Trump não negou seus verdadeiros interesses no país. Democracia? Que nada, segundo Trump, a Venezuela “roubou” petróleo dos EUA. “Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, motivação e habilidade americanos, e o regime socialista roubou isso de nós durante esses governos anteriores”, alegou, em referência à ExxonMobil e à ConocoPhillips, petrolíferas cujos ativos foram expropriados por Hugo Chávez.

Petróleo, petróleo, petróleo, é só isso que consta na agenda de Trump. Para o cientista político norte-americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia, ouvido pela Folha, os EUA cometeram um erro estratégico ao preterir a transição energética, o que resultou em uma política externa unilateral, pouco coordenada com aliados e uma diplomacia movida por impulsos pessoais. Ao contribuir para um ambiente global instável, os EUA figuram na 1ª posição entre as ameaças à ordem global, segundo o relatório do grupo Eurasia sobre os maiores riscos de 2026.

A Deutsche Welle explica por que o petróleo venezuelano importa para os EUA: apesar de ser um grande produtor de petróleo bruto, o país não produz o tipo mais pesado e viscoso, que muitas de suas refinarias, em especial no Golfo do México, são equipadas para refinar.

Esse é o tipo de petróleo extraído da Venezuela. Apesar da indústria venezuelana estar defasada, o país abriga as maiores reservas globais de petróleo pesado, tendo abastecido a indústria americana por muitas décadas.

“Os Estados Unidos estão cada vez mais retrocedendo na transição energética e, além disso, estão muito dispostos e aptos a mobilizar forças militares para atingir esse objetivo”, afirmou Li Shuo, diretor do centro de clima da China no Instituto de Política da Sociedade Asiática, à CNN Brasil.

Enquanto Washington trata a transição energética como ativismo “woke”, a China consolida sua liderança em energia renovável, barata e em grande escala, sem muita resistência de sua oponente no xadrez global. O governo Trump informou à presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que o país deve cortar laços com a nação asiática e também com o Irã, a Rússia e Cuba e concordar em vender seu petróleo exclusivamente para os EUA.

Além da audácia descarada, o fanatismo de Trump o cega a uma informação óbvia: a China não precisa do petróleo da Venezuela, enquanto a economia da Venezuela precisa da China. A China é uma das maiores compradoras de petróleo venezuelano, mas os investimentos na transição energética, em especial na eletrificação do setor de transporte, estão distanciando o país da dependência de combustíveis fósseis. O país liderou com folga a venda de veículos elétricos globalmente em 2025: dos 18,5 milhões, 11 milhões foram vendidos na China.

No mesmo ano, o país também estava construindo 510 gigawatts de capacidade de geração de eletricidade solar e eólica. A promessa era chegar a 3.600 gigawatts implantados em energia solar e eólica, o que equivale a seis vezes mais do que em 2020. Especialistas projetam que o país já atingiu, ou atingirá muito em breve, seu pico de consumo de petróleo.

O tabuleiro geopolítico ainda é incerto devido aos passos imprevisíveis de Trump. Mas já sabemos quem perde: o povo venezuelano, que tem sua economia refém da variabilidade dos preços internacionais dos combustíveis fósseis e atrelada à concentração de renda, à guerra e às mudanças climáticas. Perde também o povo estadunidense, que vê o país desmontar órgãos e políticas climáticas como nunca antes, o multilateralismo e a política climática global.

Quanto mais investimento em fósseis e guerras, menos espaço temos para avançar em agendas como o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis, tão necessárias para limitar o aquecimento global a 1,5°C.

IstoÉ Dinheiro, Estadão, Globo, Um Só Planeta, Nexo, g1 e Climate Change News também falaram do assunto.

Fonte: ClimaInfo


domingo, 11 de janeiro de 2026

Como Trump quer deter o silencioso avanço chinês na América do Sul

Donald Trump e Xi Jinping em encontro na Coreia do Sul — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Região está na disputa entre China e EUA por concentrar a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás do Oriente Médio. Empresas chinesas se tornaram sócias de reservas no Brasil

Por Bruno Rosa — Rio de Janeiro

Pouco depois de os Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em Caracas, há uma semana, o Departamento de Estado americano publicou uma foto do presidente Donald Trump com uma frase: “Este é o nosso hemisfério”. Foi uma referência à renovação da Doutrina Monroe, de domínio das Américas pelos EUA, em curso na Casa Branca. No entanto, concordam analistas, a frase poderia muito bem ser substituída por “Este é o nosso petróleo”.

Trump nem fez questão de esconder que o controle do comércio da commodity mais importante do planeta está no centro da motivação da intervenção militar na Venezuela, sem precedentes dos EUA na América do Sul. A região vai para o centro da disputa global pelo ainda cobiçado recurso mineral por concentrar a segunda maior reserva do mundo, atrás do Oriente Médio.

Dados do setor apontam não só o aumento das compras de petróleo sul-americano pela China nos últimos anos, mas também uma transformação silenciosa do país, de cliente a detentor de reservas na região.

Essa disputa entre EUA e China tem razão econômica: as duas maiores economias do mundo consomem 35% do petróleo global, diz a Agência Internacional de Energia.

A geopolítica do setor na região — Foto: Editoria de arte

Para especialistas, a ação de Trump na Venezuela — dona da maior reserva conhecida do mundo, com produção atual longe do potencial — é parte de sua tentativa de redesenhar a geopolítica energética do continente, reforçando a presença de petroleiras americanas na América do Sul para conter o avanço das chinesas em meio a uma onda de investimentos bilionários em novas fronteiras petrolíferas que se abrem em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina. Neles, empresas americanas e chinesas já disputam reservas estratégicas diretamente.

Os principais fornecedores da China na região são Brasil e Venezuela, que somam cerca de 10% de todas as importações de petróleo do país liderado por Xi Jinping. Desde a década de 2010, petroleiras chinesas passaram a se associar a outras, como a Petrobras, para atuar na produção de óleo e gás na região, assegurando acesso a reservas estratégicas como as do pré-sal brasileiro não só como cliente.

A movimentação ainda não faz sombra à atuação das americanas, mas tende a crescer com a abertura de novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial, no litoral norte da América do Sul.

Atuação discreta

Especialistas observam que essa expansão chinesa é “silenciosa”, com petroleiras que têm atuação discreta nos países e cujas cifras investidas escapam dos principais levantamentos do setor.

Muitos investimentos chineses no setor são feitos em associação com empresas de outros países e por meio de aquisição de ativos de outras companhias de fora, sem chamar a atenção nas estatísticas de investimento estrangeiro. Essa característica faz com que os investimentos da China no setor na América Latina sejam subestimados.

Um levantamento da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), por exemplo, mapeou US$ 47,5 bilhões em investimentos em óleo e gás na região, entre 2020 e 2024, sendo US$ 1,3 bilhão chinês. Já o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) apurou US$ 6 bilhões em investimentos chineses no setor só no Brasil no período.

— Os EUA são os principais investidores na região por meio de relações antigas, sobretudo em petróleo, mas a China tem crescido na América Latina, com investimentos amplos no setor e também em energia renovável, mineração, tecnologia e infraestrutura — diz Fernanda Brandão, coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Mackenzie Rio. — Agora, os EUA vão tentar consolidar sua presença e têm mostrado que podem recorrer a meios militares para que a América Latina continue sendo uma zona de influência exclusiva, coibindo a presença chinesa.

Marcelo de Assis, sócio da Consultoria MA2Energy, também vê incômodo aos interesses dos EUA na expansão chinesa, mas acredita que a ofensiva de Trump não deve afastar a China do petróleo sul-americano. O país asiático precisa dessa fonte de energia, ainda que invista pesado em renováveis. Para o especialista, o jogo geopolítico está apenas começando na região:

— O fornecimento de 400 mil a 450 mil barris por dia da Venezuela para a China é algo fácil de ser suprido por outros países, principalmente num mercado em baixa e bem abastecido no momento. Por enquanto, é mais uma sinalização política do que um impacto econômico na China. A sinalização americana foi clara ao ser mais assertiva na presença e no controle americano na América Latina. Não espero nenhuma mudança brusca da diplomacia ou pragmatismo econômico chinês em relação à América Latina, que é o principal parceiro comercial de vários países da região.

O diretor de Conteúdo do CEBC, Tulio Cariello espera mais investimento chinês:

— A China é o principal comprador de petróleo do Brasil, cerca de 60% das exportações brasileiras. Enquanto houver leilões no Brasil, haverá presença chinesa. É uma questão de oportunidade. Há muita incerteza sobre como será o processo de transição na Venezuela, mas há um interesse claro da China na região.

Mudança de estratégia

Até o início dos anos 2000, a exploração de petróleo em países sul-americanos que abriram o setor à concorrência, como o Brasil, tinha empresas europeias e americanas como protagonistas.

Apropriação de barris, controle da venda e mercado para empresas americanas: Como Trump quer usar o petróleo da Venezuela

Isso começou a mudar nos anos 2010, quando os EUA passaram a direcionar suas atenções para o seu próprio shale gas (gás de xisto que deu ao país a autossuficiência), abrindo espaço para a incursão de estatais chinesas na região como investidoras, fazendo aquisições ou se associando a consórcios que operariam, por exemplo, os megacampos do pré-sal em parceria com a Petrobras, lembra Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV.

Neste período, a China também intensificou sua busca no mundo por outros insumos para seu crescimento acelerado, como cobre e minério de ferro, acompanhados do crédito de seus bancos estatais e investimentos em infraestrutura nos países-alvo.

Onde estão os investimentos das petroleiras americanas e chinesas na América do Sul — Foto: Editoria de arte

No Brasil, as chinesas CNOOC, CNPC e Sinopec já respondem por 6,2% da produção de petróleo, cerca de 305 mil barris por dia. Ainda estão atrás das europeias (como Shell, Total, Petrogal e Equinor), com mais de 920 mil barris diários (19%), mas à frente das americanas, que se concentram atualmente em campos brasileiros ainda em fase de exploração. A Exxon produz no Brasil hoje 7 mil barris diários, mas, com a Chevron, soma 40 áreas em desenvolvimento, contra 28 das chinesas.

Influência sobre o preço

O pesquisador da FGV observa que, com Trump, os EUA voltaram a ver o petróleo como recurso estratégico. O republicano indicou a interlocutores semana passada que quer influenciar o mercado para baratear combustíveis nos EUA com a queda do preço do petróleo, da faixa atual de US$ 60 para US$ 50, o que pode colidir com os interesses das petroleiras.

A advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou destaca o “elevado risco político” e a “fragilidade” estrutural do país. Seriam necessários ao menos R$ 100 bilhões em investimentos para retomar a capacidade de produção que a Venezuela já teve. Trump quer que as petroleiras americanas façam esses aportes em troca de altos lucros, mas executivos saíram cautelosos de uma reunião com ele na sexta-feira.

EUA prometem aumentar produção de petróleo na Venezuela: qual é o impacto no Brasil e na Petrobras?

— Do outro lado, a China vai buscar diversificar seus investimentos — pontua Paz.

Nos leilões recentes no Brasil, americanas e chinesas foram os destaques no pré-sal e em novas áreas como as bacias marítimas de Pelotas, no Sul, e Foz do Amazonas, no Norte. O mesmo se dá no Suriname e na Guiana, que recebeu investimentos de US$ 13 bilhões em 2024, e conseguiu fazer chineses e americanos se tornarem sócios no principal bloco de sua porção da Margem Equatorial.


Fonte: O Globo


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VENEZUELA, PETRÓLEO E O FUTURO CLIMÁTICO: prenúncio de tempos sombrios





sábado, 10 de janeiro de 2026

VENEZUELA, PETRÓLEO E O FUTURO CLIMÁTICO: prenúncio de tempos sombrios


Tempos sombrios.

Esperança! Como fazemos todos os anos, nos despedimos de 2025 e chegamos a 2026 desejando paz e felicidade a todos os nossos familiares, amigos, colaboradores e pessoas que nos relacionamos e queremos bem.

Mas, poucas horas após o Réveillon, o clima de otimismo e esperança foi atropelado por um duro choque de realidade: na madrugada do dia 3 de janeiro, tropas dos EUA invadiram a Venezuela, prenderam Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os levaram à força para os EUA, sob o pretexto de submete-los à justiça americana sob a acusação de tráfico de drogas e outras acusações. 

Segundo informações na imprensa, a operação matou 58 pessoas, dentre elas, 32 militares cubanos que faziam a segurança de Maduro e 23 militares venezuelanos. No dia da invasão, durante coletiva de imprensa Donald Trump se vangloriou com a seguinte declaração: “o domínio dos Estados Unidos na América Latina nunca mais será questionado”.

No mesmo pronunciamento, Trump não escondeu qual era o verdadeiro objetivo da operação militar: se assenhorar das maiores reservas de petróleo do mundo! Anunciou que os EUA governarão a Venezuela por um tempo e que chamará as empresas petroleiras americanas ("as maiores do mundo") para resolver os problemas da infraestrutura de produção, que estariam em péssimas condições. As tais empresas citadas por Trump não mostraram grande entusiasmo e têm mantido uma postura cuidadosa sobre o assunto

Segundo o governo Trump, o óleo produzido será gerido e comercializado pelos EUA. Os recursos obtidos da venda do petróleo serão utilizados "exclusivamente" na compra de produtos americanos e o invasor definirá as prioridades de utilização do restante dos recursos, que serão investidos conforme "a prioridade do povo venezuelano". Assim decidiu unilateralmente o governo dos EUA!

Uma pergunta: as grandes empresas têm se submetido voluntariamente a procedimentos éticos de governança corporativa, como o badalado ESG (Environment, Social, Governance) e tantos outros processos para a garantia de integridade e compliance. Explorar o petróleo da Venezuela, sob intervenção militar e as regras impostas por Trump estará em conformidade com estes preceitos?

O episódio da Venezuela vai muito além do desrespeito à soberania de um país e do discurso da necessária restauração da democracia, da qual a Venezuela, de fato, havia se afastado. Há muito mais coisa por trás.

Há muita incerteza sobre o que está por vir. Mas, a chegada de 2026 parece ter feito "cair a ficha" que o mundo mudou de forma acelerada e radical. Vivemos um novo cenário mundial, muito mais perigoso e instável. Vejamos alguns desses aspectos:

EUA: AUTORITARISMO, RETROCESSOS POLÍTICOS E ECONÔMICOS

Por muitas décadas, os EUA ostentaram a reputação de ser a maior economia e a maior democracia do mundo. O que estamos vendo nos últimos tempos parece contradizer ou sinalizar mudanças nessa realidade. Trump inaugurou o seu segundo mandato ainda mais radicalizado e autoritário, isolando os EUA econômica e politicamente, ao estabelecer tarifas sobre os principais países do mundo, destruindo alianças estratégicas e relações comerciais construídas ao longo de muito tempo. As consequências estão se mostrando piores para a economia dos EUA do que dos países sancionados. O maior mercado consumidor do mundo está enfrentando o desabastecimento e, logo, a inflação está subindo a níveis elevados. 

A agressividade demonstrada na política internacional, também é praticada por Trump no nível doméstico. Extinguiu órgãos tradicionais da administração pública, demitiu sumariamente um grande número de funcionários públicos e paralisou políticas sociais. Implantou um estado policialesco, com uma política agressiva contra imigrantes, com as obscuras tropas do ICE (órgão responsável pelo controle da imigração) aterrorizando as comunidades, no mais fiel estilo Gestapo. O presidente abriu guerra contra adversários políticos, determinando intervenções na área de segurança de estados e cidades governadas pela oposição. Também vem perseguindo universidades e a intelectualidade do país. 

Com maioria no Congresso, Trump conseguiu neutralizar o legislativo, que se vê impotente diante de tantas decisões desastradas do Executivo, que lhe cabe fiscalizar. Com a conivência dolosa da bancada republicana, todas as tentativas de controlar os excessos são bloqueados. Com o parlamento sob controle, Trump decidiu inclusive ignorá-lo. Até mesmo as competências exclusivas do Congresso são atropeladas, sem reação efetiva dos parlamentares: além da operação militar na Venezuela há poucos dias, Trump bombardeou no ano passado (2025) sete países sem autorização do Congresso. 

Como consequência, os EUA vê crescer uma mobilização cidadã. Manifestações têm tomado as ruas de muitas partes do país. A popularidade de Trump vem caindo, mas isso não tem impedido que mantenha a sua sanha autoritária. 

GEOPOLÍTICA

O mundo parece estar de cabeça para baixo. Os EUA resolveram abrir mão da liderança mundial que exerciam quase que sozinhos desde a queda do Muro de Berlim? Parecem ter aceito dividir o seu poder com China e Rússia, ao brandir seus pretensos "direitos políticos" sobre a América Latina e o Caribe: "É o nosso hemisfério!", dizem os trumpistas. Anunciaram a reedição da Doutrina Monroe, lembrada como a política do "Big Stick", que no passado marcou a relação truculenta dos EUA com a América Latina. Isso não nos traz boas lembranças ou boas perspectivas! Em um ano de governo, Trump invadiu a Venezuela, bombardeou sete países, ameaçou o México, a Colômbia, o Panamá e Cuba. 

A atitude americana perante a América Latina fortalece e oferece argumentos para Vladimir Putin tentar dar legitimidade à sua guerra contra a Ucrânia. O mesmo pode acontecer na pretensão da China sobre Taiwan.

A América Latina passou algumas décadas com baixa relevância geopolítica em comparação a outras regiões, como a Europa, Ásia, países árabes. Recentemente, passou a ser um player mais importante, atraindo o interesse da China, que passou a investir maciçamente na infraestrutura da região e desenvolver acordos comerciais. Isso resultou num crescimento da influência política chinesa na região. É bom lembrar que China e Rússia eram os principais compradores do petróleo venezuelano.

A Europa também reconhece a importância da região ao decidir, finalmente, após 25 anos de negociação, o Acordo Comercial União Europeia - Mercosul. Trata-se da maior zona de livre comércio do mundo, com uma população agregada de 721 milhões de habitantes e um total de US$ 22,341 trilhões, ou seja, 25% do PIB global. A crise causada por Trump obrigou a Europa a agir e concluir as negociações. 

O Acordo UE-MERCOSUL é uma grande vitória do multilateralismo, que chega num momento oportuno para confrontar a atitude de força que paira sobre a América Latina atualmente.

Arte O Globo.

Portanto, o Acordo UE-MERCOSUL ajuda tanto a América Latina como a Europa. No novo cenário geopolítico, preocupada com a Guerra da Ucrânia, a Europa está sendo isolada e perdendo relevância geopolítica. A União Europeia tem centrado forças na ameaça russa e, contraditoriamente, vê o enfraquecimento da OTAN, diante do afastamento de Trump dos compromissos de financiamento do poder militar do bloco. 

A situação se agravou com a absurda e recorrente menção do presidente americano da intenção dos EUA de incorporar a Groelândia, país autônomo, mas associado à Dinamarca. 

Um outro movimento que contraria a atitude dos EUA perante a America Latina e dá peso geopolítico para a região é o protagonismo do Brasil no BRICS, um bloco de nações influentes e que reúne uma grande parte da população mundial, como: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul. Outros países aderiram em 2024 e 2025, ou são considerados parceiros da iniciativa. Trump,  preocupado, já ameaçou aplicar tarifas aos países do BRICS.

MULTILATERALISMO

Mesmo nos governos democratas, os EUA nunca se interessam pelo multilateralismo. Mas, sob Trump, os EUA passaram a atuar de forma a inviabilizar estas instâncias. No dia 7 de janeiro, Trump ordenou a retirada dos EUA de 66 organismos internacionais, sob a alegação que "operam contrariamente aos interesses nacionais dos EUA". A investida foi contra agências, comissões e painéis consultivos ligados à ONU, ou independentes, que se concentram em questões climáticas, trabalhistas e outras que o governo Trump classificou como voltadas para iniciativas de diversidade e "woke". 

Dentre as organizações da ONU, estão: Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres); Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC); Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD); Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ONU Energia, ONU Habitat, ONU Oceanos, Universidade das Nações Unidas, dentre outras. O governo Trump já havia suspendido o apoio a agências como a Organização Mundial da Saúde, a UNRWA (Agência das Nações Unidas para a Refugiados da Palestina), o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a UNESCO (Agência das Nações Unidas para a Cultura).

As organizações internacionais não vinculadas à ONU são: a tradicional e histórica União Internacional para a Conservação da Natureza - UICN, Aliança Solar Internacional, Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

CLIMA 

Como vimos acima, os EUA retiraram o apoio à UNFCCC e ao IPCC, as principais iniciativas que dão suporte à agenda climática global. A UNFCCC é a convenção do clima que promove as COPs, como a COP30 que acabamos de sediar em Belém. O IPCC reúne os principais cientistas que dão o embasamento técnico às ações de enfrentamento às mudanças climáticas. 

Como afirmamos aqui no blog, a atitude reativa dos EUA é um problema para o avanço do processo de negociação contra as emergências climáticas, mas os EUA perdem muito mais do que dificultam. Afinal, em 30 anos de discussão climática, por suas dificuldades com os fortes lobbies internos, o país nunca foi protagonista, muito menos liderou o processo. Portanto, a agenda climática nunca contou muito com os americanos, embora os EUA sempre tenham sido os principais financiadores do sistema ONU. 

O afastamento dos norte-americanos nunca impediu que a agenda avançasse no país em outras instâncias. Por exemplo, em contradição com a atitude federal, estados e municípios dos EUA têm algumas das melhores experiências de implementação de políticas climáticas e ajudam a fazer o tema avançar. 

Além de esvaziar as organizações climáticas, a Administração Trump coloca o petróleo no centro do conflito geopolítico global e toma para si a maior reserva fóssil do mundo (20% de todo o petróleo do mundo), que é a da Venezuela. Isso acontece justamente quando a transição energética chega ao centro do debate climático. 

Segundo Paasha Mahdavi, professor de ciência política da Universidade da California - Santa Barbara (The Guardian), a elevação da produção de petróleo da Venezuela, dos atuais cerca de 1 milhão de barris/dia para 1,5 milhões de barris/dia, produziria a emissão anual de cerca de 500 milhões de toneladas de CO2. Isso corresponde às emissões anuais de carbono de países como o Brasil e o Reino Unido. Há ainda o agravante de que o óleo da Venezuela é um dos mais concentrados e poluentes.

A transição para uma economia de baixo carbono é indispensável para enfrentar a emergência climática. Segundo especialistas, não há mais tempo a perder e se a temperatura média do planeta ultrapassar 1,5°C as consequências serão gravíssimas. Por isso, há uma métrica utilizada para medir o progresso das medidas globais para a redução do carbono atmosférico, conhecida como "Orçamento de Carbono" (Carbon Budget). Ou seja, há um limite de concentração de carbono e um tempo para reduzi-lo. A protelação das medidas nos deixa com a obrigação ainda maior a medida que o tempo passa. 

Em Belém, um dos grandes esforços foi para aprovar o Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis, que seria uma metodologia e guia político para o abandono gradativo dos combustíveis fósseis, foi uma das mais importantes bandeiras da COP30. Acabou não havendo consenso para a sua aprovação, mas a Presidência Brasileira, que atua até a próxima COP, anunciou que fará um esforço paralelo para apresentar voluntariamente dois mapas do caminho. A primeira reunião está marcada para o final de abril, em Santa Marta, na Colômbia, país que foi muito enfático na COP30, na cobrança pelo compromisso pela transição. O movimento busca atrair o apoio dos mais de 80 países que já se manifestaram a favor da iniciativa. 

A informação, a seguir, consta das informações disponíveis no site oficial da COP30:

Apesar da ausência de consenso, com mais de 80 países apoiando uma linguagem explícita e mais de 80 se opondo a ela, a Presidência brasileira anunciou, por iniciativa própria, processos para elaboração de duas iniciativas:

• Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis de maneira justa, ordenada e equitativa;
• Mapa do Caminho para interromper e reverter o desmatamento.
Todo esse esforço contrasta com os episódios recentes como o da Venezuela. Os planos anunciados por Trump são de aumento da extração do petróleo, seguindo o seu mantra  "drill, baby, drill". O próprio Brasil está prestes a abrir novas frentes de exploração, como na Foz do Rio Amazonas. Portanto, na conjuntura atual, ao contrário do que precisamos, a exploração do petróleo está com viés de alta. Isso, certamente, inviabilizará todas as metas climáticas estabelecidas.

Com tudo o que vimos, há um grande quadro de incertezas pela frente e, sem dúvida, um cenário muito adverso para o avanço da agenda climática, ai incluída a transição energética. 

A crise climática não espera! Seguiremos na louca corrida rumo ao caos climático?

Axel Grael
Engenheiro florestal
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/UFF)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Membro do Comitê Executivo Global do ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade


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terça-feira, 25 de novembro de 2025

NITERÓI É UMA DAS CIDADES MAIS AMIGAS DA BICICLETA NO MUNDO

 



Mais um grande reconhecimento para Niterói. A organização dinamarquesa Copenhagenize publicou há poucos dias (novembro de 2025) o relatório The Copenhagenize Index 2025 - EIT Urban Mobility Edition, com uma análise e um ranking das 100 cidades com a melhor política de incentivo à mobilidade por bicicleta no mundo. Analisaram dados sobre mais de 100 cidades no mundo e apresentaram um balanço do uso das bikes em cidades de todos os continentes. O relatório apresenta Niterói como a melhor cidade da América Latina e a 43ª melhor do mundo na política cicloviária e adesão da população ao uso da bicicleta.

Niterói lidera na implementação de políticas para a bicicleta na América Latina.

A prioridade para o transporte ativo tem sido uma prioridade em muitas cidades do mundo e é considerado uma das alavancas para a transição para a sustentabilidade urbana. O esforço de algumas cidades tem sido emblemático. É o caso de Paris, citada com o 5° lugar no ranking, que é a cidade com um dos maiores investimentos em adaptação climática no mundo, como já detalhamos aqui no Blog

Em novembro de 2024, o Conselho de Paris aprovou o Plano Climático 2024-2030, com a preocupação com as previsões de um aumento da temperatura da cidade nos próximos anos, com o trânsito e a poluição. Com a inspiradora palavra de ordem: "Mais rápido, mais justo e mais local", o plano declara guerra aos automóveis principalmente na área central da cidade, substituirá 60 mil vagas de estacionamento por espaços verdes, para pedestres e ciclovias, e também anunciou a implantação de 300 hectares de florestas urbanas até 2030, sendo que 10% já estará implantado até 2026. O objetivo é reduzir a poluição e enfrentar as ilhas de calor e os efeitos das ondas de calor que tem afetado a cidade de uma forma crescente. Também será possível evitar alagamentos, por permitir melhores soluções de drenagem e a infiltração no solo dos canteiros e áreas verdes. 

No dia 23 de março de 2025, os parisienses aprovaram, num referendo, um salto a frente ainda maior: com 66% dos votos, os eleitores decidiram retirar o acesso dos carros em mais 500 ruas. O objetivo é fazer de 5 a 8 ruas por bairros para pedestres e áreas verdes e a população local dos bairros será consultada novamente para definir quais ruas. A prioridade é para as ruas onde existem escolas para incentivas o deslocamento dos alunos a pé ou de bike. A ideia geral é que a requalificação do espaço público aconteça numa proporção de 2/3 de áreas de calçadas e pavimentadas para 1/3 de áreas plantadas. Cada rua terá um orçamento médio de 500 mil euros. Saiba mais aqui.

De acordo com o plano, serão implantados mais 180 km de ciclovias na capital francesa até 2030. Essa expansão inclui: 130 km de novas faixas exclusivas para bicicletas e 52 km de restauração e conversão de vias já existentes em ciclovias permanentes (algumas eram temporárias, criadas durante a pandemia). Hoje, a bicicleta já supera os automóveis no transporte de Paris.

Bicicletas e sustentabilidade

Avaliar o uso da bicicleta é uma forma de medir o esforço de uma cidade pela sustentabilidade, conforme expresso no documento da Copenhagenize: 

"o Índice existe por que a bicicleta é mais do que uma forma de transporte, mas uma lente através da qual se pode perceber como uma cidade funciona. Avaliar a performance cicloviária revela como cidades gerenciam o espaço, priorizam o as pessoas e como equilibram mobilidade e qualidade de vida. Ao mirar no uso da bicicleta, o Índice Copenhagenize captura o microcosmo do planejamento urbano em plena implementação: cidades que permitem o deslocamento por bicicleta seguro e confortável normalmente são aquelas que funcionam melhor para todos os seus cidadãos, independentemente de como cada um decide se deslocar".

Metodologia

A metodologia conta com 13 indicadores, distribuídos em 3 pilares, e as notas são atribuídas de 0 a 100, de acordo com as informações obtidas de cada cidade. Os pilares e indicadores adotados podem ser traduzidos da seguinte forma:

Pilar I: Segurança e Conectividade da Infraestrutura (Nota de Niterói no pilar: 44,9)

1- Infraestrutura cicloviária
2- Bicicletários
3- "Traffic calming"
4- Segurança

Pilar II: Uso e Acesso (Nota de Niterói no pilar: 38,8)

5- Participação do modal da bicicleta na mobilidade da cidade
6- Crescimento do modal da bicicleta
7- Percentual das mulheres nos deslocamentos por bicicleta
8- Sistema de bicicletas compartilhadas
9- Bicicletas de carga

Pilar III: Política e Apoio (Nota de Niterói no pilar: 62,7)

10- Compromisso político
11- "Advocacy"
12- Imagem da bicicleta
13- Planejamento Urbano

A nota geral de Niterói foi de 45,3.

O relatório publicado apresenta o resultado para as 100 melhores cidades analisadas. Na listagem geral, Niterói está em 43° lugar, sendo que Fortaleza ficou em 69° lugar, Curitiba ficou em 92° e Rio de Janeiro em 93°. Veja, no quadro abaixo, o comparativo das notas que Niterói obteve em cada um dos pilares em comparação com outras cidades:

Quadro produzido pelo autor com base nos dados do relatório do Copenhagenize Index.

O relatório dá destaque a Niterói também por outro motivo importante: 

O relatório aponta que Niterói é uma das cinco cidades, dentre as 100 monitoradas, que não teve acidente fatal entre 2020 e 2024.

Muito me orgulha ter reivindicado como ambientalista, desde 1980, a implantação de ciclovias na cidade. Posteriormente, como vice-prefeito, demos início ao Programa Niterói de Bicicleta em 2013, uma política pública que lideramos ao longo do tempo que estivemos na Prefeitura de Niterói. Saímos praticamente do zero e chegamos a mais de 90 km de ciclovias. Temos as duas ciclovias mais movimentadas do Brasil e a maior proporção de mulheres e idosos pedalando no país. A bicicleta já representa cerca de 4,5% de todos os deslocamentos na cidade de Niterói, de acordo com dados do IBGE. Enfrentamos resistências no início, mas soubemos fazer o debate com a cidade e mostrar os benefícios de uma cidade que pedala.

Saiba mais sobre o trabalho de Niterói e de outras cidades no mundo pela sustentabilidade urbana, acessando: CIDADES NA TRANSIÇÃO PARA A SUSTENTABILIDADE E RESILIÊNCIA CLIMÁTICA: conheça a experiência de Niterói e de outras cidades

Hoje, Niterói é uma referência nacional e internacional de uma Cidade Amiga da Bicicleta e que caminha cada vez mais adiante em busca da sustentabilidade urbana.

Axel Grael
Prefeito de Niterói (2021-2024)


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Niterói é considerada a cidade mais amiga da bicicleta na América Latina

Niterói ficou em primeiro lugar na América Latina em um dos índices globais mais importantes da atualidade, o Copenhagenize, que avalia as cidades mais amigas da bicicleta. O município ficou na frente de Bogotá, Fortaleza, Guadalajara e Buenos Aires e alcançou o sétimo lugar entre as cidades não europeias. Já no ranking geral, Niterói ficou na 43° posição.

O Índice Copenhagenize é divulgado a cada dois anos. Em 2025, analisou 100 cidades de 44 países, por meio de uma metodologia baseada em diversos dados. Ao todo são três pilares: infraestrutura segura e conectada; uso e alcance; e políticas de apoio.

“É muito importante o reconhecimento do Índice Copenhagenize 2025. Isso reafirma a escolha de Niterói por um futuro mais sustentável e inclusivo, reconhecendo a bicicleta como elemento central da mobilidade urbana. Vamos seguir avançando, com investimentos que melhorem a vida de quem pedala na cidade”, destacou o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.

Nos últimos 12 anos, Niterói se consolidou como referência em mobilidade sustentável. A Prefeitura expandiu a malha cicloviária que hoje alcança 90 quilômetros, incluindo ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e calçadas compartilhadas. A Avenida Marquês do Paraná tem a ciclovia mais movimentada do Brasil. Na quarta-feira passada (12), a ciclovia bateu mais um recorde diário de passagens: quase 7.500 ciclistas.

O NitBike, sistema gratuito de bicicletas compartilhadas, já ultrapassou 1,7 milhão de viagens, possui cerca de 150 mil usuários cadastrados e é um dos sistemas mais movimentados do país. O município também conta com o Bicicletário Arariboia, primeiro bicicletário público gratuito do Brasil, com 815 vagas, que também sedia o Polo Cicloviário Arariboia, focado na educação e cultura da bicicleta.

“Esse reconhecimento internacional confirma a consistência das políticas cicloviárias de Niterói ao longo dos últimos anos. Investimos em infraestrutura conectada, cultura da bicicleta, serviços públicos a quem usa a bicicleta, lazer e esporte. O resultado mostra que a cidade avançou de forma estruturada e segue sendo referência para o Brasil e para a América Latina na pauta”, afirmou o coordenador do Niterói de Bicicleta, Filipe Simões.

Fonte: Prefeitura de Niterói 


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

ASSUNÇÃO DO PARAGUAI CONQUISTA O DIREITO DE SEDIAR OS JOGOS PAN-AMERICANOS DE 2031



Fotos: Panam Sports.

Realizou-se, na manhã de hoje (10/10), em Santiago do Chile, a Assembleia Geral Extraordinária da Panam Sports, para a eleição da cidade que sediará a 21ª edição dos Jogos Pan-Americanos, em 2031. Eram duas candidaturas: Rio de Janeiro e Niterói (apresentaram uma proposta conjunta) x Assunção, capital paraguaia. 

Assunção venceu por uma diferença de quatro votos (28 a 24) e conquistou o direto de ser a sede do maior evento esportivo do continente americano.

Como disse Marco Antônio La Porta, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro - COB, pesou a favor de Assunção o fato de ser a primeira vez do Paraguai: "Nós usamos o mesmo argumento para conquistar o Pan 2007 e a Rio 2016". Ou seja, eles tiveram méritos e utilizaram os seus argumentos com eficiência. 

Mas, quase deu certo! Nossa candidatura era forte, mas largamos atrasados! Assunção já estava em campanha há mais de quatro anos, quando se candidatou para sediar o Pan 2027. Perderam para Lima, Peru. A cidade não esmoreceu e manteve a mobilização, buscando votos para conquistar o sonho Pan-Americano. 

Rio de Janeiro e Niterói lançaram a candidatura no início de 2025, com a iniciativa da vice-prefeita de Niterói, Isabel Swan, que tem assento na governança da Panam Sports, onde representa os atletas do continente na organização. Ela viu a oportunidade, acionou o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, que construiu a ideia de uma forte candidatura integrando as duas cidades. A proposição foi fortemente abraçada também pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes. 

Como seria

Pela concepção, Niterói sediaria 20 modalidades esportivas, dentre elas, o vôlei de praia, que seria nas areias de Icaraí, numa arena temporária para 8 mil pessoas. A icônica Praia de Itacoatiara receberia o surfe. A vela ficaria na Enseada de São Francisco, palco histórico da modalidade no país. O Rio de Janeiro receberia 39 modalidades, aproveitando as instalações olímpicas e outros espaços da cidade.

Rio e Niterói apresentaram como legado dos Jogos para as duas cidades, grandes obras estruturantes como a Linha 3 do Metrô, ligando as duas cidades e, posteriormente, se estendendo até Itaboraí. O Rio também ofereceu a conversão dos BRTs (ônibus em corredores exclusivos) na Zona Oeste do Rio em VLT (bondes modernos). Niterói apresentou a obra do VLT, ligando o Terminal João Goulart até o Barreto, cujos recursos já haviam sido garantidos em 2024. 

A proposta também reacendeu uma frustrante promessa de 2007 e 2016: a despoluição da Baia de Guanabara. Dessa vez, é uma meta mais factível, considerando os investimentos em saneamento em execução atualmente, proporcionados pelos contratos de concessão dos serviços. 

Todos esses investimentos seriam legados importantes, mas cá entre nós: são metas alcançáveis mesmo sem o Pan. São indispensáveis e já estão na agenda das cidades há muitos anos. 

Bora fazer!

Nova infraestrutura esportiva viabiliza a ambição de Niterói de atrair mais eventos internacionais

Fiquei feliz que investimentos em obras de infraestrutura esportiva iniciadas nos últimos anos, principalmente na minha gestão como prefeito (2021 e 2024), permitiram que Niterói sonhasse com o Pan 2031

Veja aqui alguns exemplos: 

Implantação da Arena Niterói (capacidade de 2.600 pessoas), que fará parte do Parque Poliesportivo da Concha Acústica.

  • Parque Poliesportivo da Concha Acústica, que inclui a Arena Niterói que está em fase avançada de construção e permitirá receber eventos nacionais e internacionais; 
  • Complexo de Atletismo Aída dos Santos (da UFF) foi modernizado e reformado com projeto e investimento da Prefeitura. Segundo a Confederação Brasileira de Atletismo - CBAt, o equipamento de Niterói é hoje uma das melhores instalações para o esporte do país, 
  • Centro Esportivo da Zona Norte, no Barreto, que foi integrado através da municipalização das instalações do antigo ginásio do Tio Sam.

Além disso, Niterói avançou em instalações esportivas entregues nas comunidades durante a gestão, como os mais de 30 campos e quadras públicas, só na Zona Norte da cidade, construídas para oferecer iniciação esportiva, lazer e socialização nas comunidades. Com este objetivo, cabe destacar também:

  • Parques Esportivos e Sociais do Caramujo, cuja implantação foi coordenada por mim, como vice-prefeito (2013-2016)  
  • Parque Esportivo do Viradouro, entregue em 2024. 
  • Núcleo Avançado de Sustentabilidade, Cultura e Esporte - NASCE, que atua na infraestrutura implantada na Ilha do Tibau, como parte do Parque Orla de Piratininga Alfredo Sirkis - POP.
Hoje, estas atividades beneficiam cerca de 10.000 atletas e outros participantes na cidade, cabendo registrar aqui a importância do projeto Niterói Esporte nas Comunidades - NEC, que atua em muitos destes equipamentos esportivos na cidade.

Pan comprova o potencial da parceria Niterói + Rio de Janeiro

Apesar de não lograr sucesso, a candidatura Rio-Niterói serviu para mostrar, mais uma vez, o potencial da aliança das duas cidades, que guardam grande complementariedade econômica, de infraestrutura e serviços, estabelecendo-se como parceiras naturais em ações estratégicas. Vejam aqui a grande sinergia entre as duas cidades, nos exemplos a seguir: 

  • CAPITALIDADE: O Rio de Janeiro é a atual capital do estado e Niterói foi, por muitas décadas, a capital do antigo estado Rio de Janeiro, antes da Fusão;
  • DEFESA: Importância histórica das duas cidades na defesa militar da Baía de Guanabara, que sediam até hoje as mais importantes bases da Marinha do Brasil. Niterói é a sede da Esquadra da Marinha do Brasil;
  • DESPOLUIÇÃO: Liderança na despoluição da Baía de Guanabara, sendo que a Enseada de São Francisco é a mais avançada no esforço de despoluição;
  • PORTOS: As duas cidades compartilham as atividades portuárias na baía
  • OFF-SHORE: Niterói é a cidade mais importante do país na indústria naval e da logística off-shore, atividades compartilhadas com o Rio de Janeiro.
Pelos motivos aqui citados e pela localização geográfica das duas cidades - firmemente posicionadas na entrada da Baía de Guanabara, com um olhar para o horizonte, assim como para o seu cenário interno, considero a cooperação das duas cidades a parceria das "Sentinelas da Baía de Guanabara". 

Parcerias que já deram certo

Cito aqui, apenas três exemplos de parcerias de sucesso entre Rio e Niterói: 

Novos projetos comuns hão de vir pela frente se continuarmos a pensar e trabalhar em cooperação.

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Eventos promovem a cidade, geram empregos e movimentam a economia. Temos outros eventos programados e outros bons em perspectiva.

Enfim, ganhamos mais que perdemos. Niterói confirmou e deu visibilidade à sua capacidade empreendedora e se lança como protagonista para futuros eventos.

Como latino-americanos, sul-americanos e amantes do esporte, torcemos agora para que Assunção faça um excelente Pan 2031! E, por aqui, vamos aproveitar as muitas perspectivas de colaboração que Rio-Niterói têm pela frente. Quem ganha com a união de esforços é a população. 

Que venham mais parcerias!

Axel Grael


segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Brasil avança na construção de diretrizes nacionais para Regeneração Natural Assistida de ecossistemas (RNA)


Oficina promovida pelo MMA reuniu especialistas de todo o país para subsidiar resolução da Conaveg sobre o tema

Entre os dias 2 e 4 de setembro, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), promoveu a oficina virtual “Regeneração Natural Assistida no Brasil”. O encontro reuniu cerca de 50 representantes de organizações da sociedade civil, órgãos governamentais e instituições acadêmicas para subsidiar a construção de uma resolução da Comissão Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa (Conaveg).

O documento irá estabelecer diretrizes nacionais para a implementação da regeneração natural assistida (RNA), considerada uma das estratégias mais promissoras para a restauração florestal no país

O debate foi realizado em parceria com o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), com apoio do Fundo Bezos Earth.

Conteúdo da oficina

Entre os assuntos debatidos, estiveram o marco legal da RNA, conceitos e definições técnicas, diretrizes e diagnósticos sobre o tema, além do mapeamento do potencial de implementação no Brasil. Os participantes também discutiram metodologias de monitoramento da regeneração natural e a proposta de estruturação de uma estratégia nacional de RNA.

Foram ainda apresentadas análises sobre as condições ecológicas e socioeconômicas locais que podem garantir a efetividade da regeneração natural, trazendo benefícios ambientais e sociais relacionais, como conservação da biodiversidade, mitigação da crise climática e geração de renda em territórios rurais.

Importância estratégica

A oficina destacou que o Brasil dispõe de milhões de hectares aptos à regeneração natural, capazes de contribuir de forma decisiva para o alcance das metas nacionais de restauração e para compromissos internacionais assumidos pelo país no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica e do Acordo de Paris.

Fonte: MMA


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Floresta secundária com aproximadamente 12 anos de idade regenerando em área que foi previamente usada para roça de mandioca. Distrito Agropecuário da Suframa, Manaus, AM, Brasil. A foto mostra uma paisagem típica da Amazônia, que é composta por plantios permanentes (banana, frutíferas, etc), roçados de mandioca, florestas secundárias e remanescentes de florestas maduras ao fundo. Foto: Catarina Jakovac

A restauração das florestas tropicais pela regeneração natural é uma solução de baixo custo

As florestas em regeneração natural alcançam, depois de 20 anos, quase 80% da fertilidade e estoque de carbono do solo e da diversidade de árvores das florestas maduras

A década entre 2020 e 2030 foi escolhida pelas Nações Unidas como a década da restauração. O objetivo é inspirar e apoiar iniciativas que auxiliem a reverter a degradação dos ecossistemas. Um dos caminhos para restaurar as florestas tropicais é por meio da regeneração natural, que acontece quando se garante que as florestas voltem a crescer naturalmente após o desmatamento. Um estudo publicado esta semana na Science mostra que, por esse processo de regeneração natural, as florestas podem atingir, após 20 anos, quase 80% da fertilidade do solo, do estoque de carbono do solo e da diversidade de árvores das florestas maduras. O estudo conclui que a regeneração natural é uma solução de baixo custo para a mitigação das mudanças climáticas, conservação da biodiversidade e restauração do ecossistema.

Segundo os autores, proteger ativamente as florestas maduras e impedir o desmatamento é essencial, mas também é muito importante considerar as florestas em regeneração e suas contribuições para as metas locais e globais de restauração de ecossistemas. Atualmente, mais da metade das florestas tropicais do mundo não são maduras, mas florestas em processo de regeneração natural. Na América Latina tropical, essas florestas em regeneração cobrem até 28% da área terrestre.

A equipe internacional envolvida neste estudo, composta por mais de 90 pessoas, teve a participação de pesquisadores do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose) do CNPq . A equipe analisou mais de 2.200 fragmentos de florestas em regeneração e maduras em 77 locais da América tropical e subtropical e da África Ocidental. O objetivo foi analisar como essas florestas se recuperam durante esse processo natural por meio do acompanhamento de características relacionadas ao solo, o funcionamento do ecossistema, à estrutura da floresta e à biodiversidade das árvores.

Catarina Jakovac , da Universidade Federal de Santa Catarina e vice-coordenadora do projeto Regenera, do SinBiose, explica que o grande diferencial deste estudo é ter analisado como a recuperação dessas diferentes características estava inter-relacionada e em uma escala continental. “Nós descobrimos que o tamanho máximo da árvore, a variação na estrutura da floresta e a riqueza de espécies de árvores são indicadores robustos de recuperação de múltiplos atributos da floresta. Esses três indicadores são relativamente fáceis de medir e podem ser usados ​​para monitorar a restauração florestal. Atualmente já é possível utilizar sensoriamento remoto para monitorar o tamanho e a variação das árvores em grande área espacial e temporal, por exemplo”, explica a pesquisadora.

Recuperação das florestas tropicais ao longo do tempo. Mais informações em: science.org/doi/10.1126/science.abh3629

Segundo o estudo, em áreas que tiveram um histórico de uso do solo pouco intensivo, a recuperação da fertilidade do solo da floresta em regeneração acontece mais rápido: em menos de 10 anos. Características funcionais das plantas são recuperadas em menos de 25 anos e a estrutura da vegetação e diversidade de espécies entre 25 a 60 anos. Já a recuperação da biomassa acima do solo e a composição de espécies exige um período maior, de cerca de 120 anos. De maneira geral, as florestas em regeneração natural alcançam, depois de 20 anos, quase 80% da fertilidade e estoque de carbono do solo e da diversidade de árvores das florestas maduras, o que foi considerado surpreendentemente rápido pelos pesquisadores.

Para Catarina Jakovac o marco de 20 anos é bastante importante, “há uma ideia que circula na sociedade de que uma floresta demora muito mais tempo para se recuperar, o que estamos mostrando é que em 20 anos muita coisa já se recupera”. Os resultados também reforçam a importância da adoção da regeneração natural como uma solução de baixo custo baseada na natureza para cumprir as metas de desenvolvimento sustentável e da década da restauração da ONU.

A pesquisadora Rita Mesquita , do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, coordenadora do projeto Regenera do SinBiose e co-autora do estudo, ressalta que “o potencial de regeneração das florestas secundárias é dependente da presença de florestas maduras como fontes de sementes e fauna dispersora na paisagem. Sem as florestas maduras a diversidade de espécies não será recuperada tão rápido. Portanto, é preciso atrelar a conservação de remanescentes florestais a ações de restauração e recuperação de áreas degradadas.”

domingo, 6 de julho de 2025

Pesquisa analisa como pensam os brasileiros sobre as mudanças climáticas

SÉRIE "TEXTOS SELECIONADOS SOBRE NEGACIONISMO CLIMÁTICO"



Os resultados revelam que embora a maioria absoluta da sociedade brasileira acredite que a mudança do clima existe e é causada por humanos, a severidade de seus efeitos não é consenso


Um estudo da Escola de Relações Internacionais (FGV RI) aponta como pensam os brasileiros sobre as mudanças climáticas. Entre os resultados, nota-se que na sociedade brasileira há forte consenso em relação às crenças segundo as quais a mudança do clima existe e é causada por humanos; no entanto, a população encontra-se polarizada a respeito da crença na severidade da crise climática: quase metade dos entrevistados expressa ceticismo em relação a isso (44%). Esses indivíduos duvidam que a mudança do clima tenha efeito negativo intenso sobre a sua vida.

Os autores do estudo, Matias Spektor, professor titular da FGV RI; Guilherme Fasolin, doutorando da Universidade de Vanderbilt (Estados Unidos) e pesquisador associado à FGV RI; e Juliana Camargo, professora agregada da FGV RI, apresentam abaixo as principais conclusões sobre o Brasil: O fator que mais determina a adesão da população às três crenças é o consenso científico. A percepção de que os cientistas possuem um diagnóstico comum sobre a mudança do clima é o que mais influencia a população a acreditar.
  • O principal fator por trás da descrença na mudança do clima (ceticismo climático) é o grau de individualismo dos cidadãos. Quanto mais individualista, mais descrente é o brasileiro. Individualismo é um perfil psicológico marcado pela busca da autonomia pessoal e pela desconfiança em relação a soluções coletivas para os problemas sociais.
  • A pesquisa ainda mostra que o ceticismo climático ocorre tanto à direita quanto à esquerda do espectro político. Isso é diferente do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, onde a descrença está concentrada em cidadãos de direita.
  • O ceticismo a respeito da severidade da crise climática é mais disseminado no Brasil do que em países vizinhos, como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru.
 
Implicações do Estudo para o Brasil

A pesquisa tem implicações para autoridades públicas, agentes do setor privado e para ativistas da sociedade civil organizada porque as três crenças definem em grande medida o comportamento político dos cidadãos.

Embora a maioria absoluta da sociedade brasileira acredite que a mudança do clima existe e é causada por humanos, a severidade de seus efeitos não é consenso. Isso, por sua vez, abre amplo espaço na opinião pública brasileira para o negacionismo.

O negacionismo climático no Brasil possui campo fértil não apenas à direita do espectro político, mas também à esquerda. Um resultado positivo do estudo, no entanto, é que tanto cidadãos de direita quanto de esquerda podem apoiar políticas pró-clima, o que não ocorre em outros países do mundo. Os alvos mais fáceis do negacionismo climático são os cidadãos mais individualistas, ou seja, aqueles que duvidam de soluções coletivas para problemas sociais, suspeitam que o estado não resolverá seus problemas e tendem a contar apenas consigo mesmos. Isso é preocupante numa sociedade com níveis baixos de confiança interpessoal e nas instituições públicas.

Para comunicar mensagens pró-clima aos cidadãos mais céticos é preciso ressaltar o papel do mercado e da iniciativa privada na busca de soluções para a crise climática. Para que essa mensagem seja crível, também é preciso dar voz a fontes de informação pró-clima que possuam autoridade moral junto a essa fatia da população, tais como empresários, ruralistas e operadores do mercado financeiro.

Metodologia

A pesquisa foi realizada por coleta de dados através da metodologia de survey em sete países responsáveis por 80% das emissões de CO2 da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru). A amostra incluiu 5.038 respondentes de amostras nacionalmente diversas.

Para ler a pesquisa na integra, clique aqui.

Fonte: Portal FGV


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sábado, 31 de maio de 2025

Minha geração cometeu um erro ingênuo

O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, discursa durante um comício de campanha em 6 de abril de 2024, em Montevidéu, Uruguai. (Ernesto Ryan / Getty Images)

Por José Mujica
Tradução: Cauê S. Ameni

O falecido militante histórico uruguaio José “Pepe” Mujica argumenta que o capitalismo não se resume apenas as relações de propriedade, mas um conjunto de valores culturais que a esquerda deve confrontar com uma cultura de solidariedade.

Minha geração cometeu um erro ingênuo. Acreditávamos que a mudança social era apenas uma questão: desafiar os modos de produção e distribuição na sociedade. Não entendíamos o imenso papel da cultura. O capitalismo é uma cultura e devemos responder e resistir a ele com uma cultura diferente. Em outras palavras: estamos em uma luta entre uma cultura de solidariedade e uma cultura de egoísmo.

Não estou falando sobre a cultura que é vendida, como música ou dança profissional. Tudo isso é importante, claro, mas quando falo de cultura, estou me referindo às relações humanas, ao conjunto de ideias que regem nossos relacionamentos sem que percebamos. É um conjunto de valores tácitos que determinam a maneira como milhões de pessoas anônimas ao redor do mundo se relacionam.

O consumismo faz parte dessa cultura. É uma ética necessária ao capitalismo em sua luta pela acumulação infinita. O pior problema para o capitalismo seria pararmos de comprar ou comprarmos muito pouco ou apenas o necessário. Isso gerou a cultura consumista que nos envolve. Um sistema social capitalista não se resume apenas a relações de propriedade; é também um conjunto de valores comuns à sociedade. Esses valores são mais fortes do que qualquer exército e são a principal força que mantém o capitalismo vivo hoje.

Minha geração acreditava que mudaria o mundo tentando estatizar a mídia e a distribuição, mas não compreendemos que no centro dessa batalha deve estar a construção de uma cultura diferente. Não se pode construir um prédio socialista com pedreiros capitalistas. Por quê? Porque eles vão roubar a armadura, vão roubar o cimento, porque só querem resolver seus próprios problemas, porque é assim que somos formados. Minha geração, racionalista com uma visão programática da história, não compreendeu que os humanos muitas vezes decidem com a intuição e então sua consciência constrói argumentos para justificar as suas decisões. Escolhemos com o coração, e aqui a cultura se torna uma questão vital porque tempera nossa irracionalidade.

“Significa viver como se pensa. Caso contrário, acabamos pensando como vivemos. A luta é por uma sociedade autogerida, para aprendermos a ser nossos próprios chefes e a liderar nossos projetos comuns.”

Por exemplo, o que aconteceu com nossos líderes de esquerda? Líderes de esquerda estão doentes e imersos nessa mesma cultura e é por isso que, muitas vezes, seu modo de vida não é uma mensagem coerente com sua luta. Veja, eles disseram que eu era pobre quando era presidente, mas não entenderam nada! Eu não sou pobre. Pobre é aquele que precisa de muito. Meu objetivo é ser estoico. E o fato é que se o mundo não aprender a viver com uma certa sobriedade, a não esbanjar e não desperdiçar, se não aprender isso logo, nosso próprio mundo não sobreviverá.

A ânsia por dinheiro nos incita a continuar comprando coisas novas, mas sustentar a vida do planeta significa que precisamos aprender a viver com o necessário e não desperdiçar nossos recursos. Agora, como você pode ver, essa luta é uma epopeia cultural. Nós, da esquerda, precisamos construir uma linha de pensamento diferente da que temos.

Isso significa abandonar nossa conexão com o capitalismo. Acabamos ficando sem criatividade em termos de ideias. Queríamos fazer o mesmo que o capitalismo, mas com mais igualdade. E, no fim das contas, tudo isso tem a ver com o que consideramos ser uma vida boa, os valores que podemos valorizar na vida, as coisas às quais podemos aspirar. Significa ter noção de limites. Nada demais, como diziam os gregos.

A esquerda deve ser fiel a outro conjunto de valores e é por isso que insisto no problema da cultura, no problema do comprometimento e no problema de valorizar certas áreas da vida que o capitalismo não valoriza. Há muita tristeza em nossas sociedades, mesmo que sejam ricas em riqueza. Somos um povo superalimentado, mas sufocados pela quantidade de lixo que criamos. Infestamos tudo, compramos coisas que não precisamos e depois vivemos em desespero pagando contas. Precisamos propor outra forma de vida! Para mim, a esquerda precisa ser mais revolucionária do que nunca.

“A esquerda terá que ser diferente porque o tempo muda. A única coisa permanente é a mudança.”

Significa viver como se pensa. Caso contrário, acabamos pensando como vivemos. A luta é por uma sociedade autogerida, para aprendermos a ser nossos próprios chefes e a liderar nossos projetos comuns. Essas coisas terão que ser discutidas por uma nova esquerda. Acredito na existência permanente da esquerda, mas ela não será a esquerda que era. O que era se foi, passou! A esquerda terá que ser diferente porque o tempo muda. A única coisa permanente é a mudança.

Não vou sugerir obstáculos à criação de novos programas revolucionários. Pelo contrário! Mas também não tenho uma fórmula mágica. Parece-me que a criatividade deve ser incentivada, porque vivemos num mundo com uma esquerda velha que vive só de nostalgia, uma esquerda que tem dificuldade em perceber por que falhou e tem grande dificuldade em imaginar novos caminhos a seguir. Acredito que este é um momento de muito ensaio, muita experimentação e criatividade. E para isso existem alguns parâmetros que podemos seguir, porque, como eu disse, a minha geração não deu importância suficiente à cultura. Refiro-me à cultura inerente às relações comuns e ordinárias que as pessoas têm, que, sob o capitalismo, os usa na vida cotidiana apenas para garantir maior acumulação.

A cultura na qual estamos inseridos – e praticamente cercados – serve apenas para a multiplicação do lucro individual. E essa cultura é muito mais forte do que exércitos, poder militar e tudo o mais, porque essa cultura determina os relacionamentos permanentes de milhões de pessoas comuns no mundo todo.

E isso é muito mais forte que a bomba atômica! Portanto, mudar um sistema sem enfrentar o problema da mudança cultural é inútil. Precisamos construir um novo sistema e, paralelamente, uma nova cultura, uma nova ética, porque, caso contrário, o que vimos com a União Soviética acontecerá novamente, onde um movimento revolucionário deu uma volta de 360 ​​graus para estar no mesmo lugar — só que hoje isso seria muito pior! Temos que aprender com essa derrota, certo?


Adaptado do livro Sobrevivendo ao século XXI, de Noam Chomsky e José Mujica, lançado pela editora Civilização Brasileira em 2024.

José Mujica foi um revolucionário e estadista uruguaio que serviu como presidente de 2010 a 2015.

Fonte: Revista Jacobin