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domingo, 22 de março de 2026

Serviço Florestal Brasileiro avança na implementação da agenda da Cota de Reserva Ambiental (CRA)


Oficina sobre o Registro e Negociação das CRAs reúne representantes de instituições públicas e do sistema financeiro em Brasília

O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) realizou, nos dias 26 e 27 de fevereiro, em Brasília, uma oficina técnica sobre o registro e a negociação da Cota de Reserva Ambiental (CRA). O encontro foi coordenado pelo SFB, por meio da Diretoria de Regularização Ambiental Rural (DRA), em parceria com a Dataprev, e reuniu cerca de 30 participantes entre representantes de instituições públicas e do sistema financeiro.

A oficina teve como foco discutir a arquitetura tecnológica, os requisitos técnicos e o cronograma de implantação da comunicação bidirecional entre o módulo de CRA do Sistema de Cadastro Ambiental Rural (SICAR) e instituições financeiras. Essa conexão permitirá operacionalizar o registro inicial das cotas, sua transferência e, futuramente, a negociação em ambiente regulado.

Durante as atividades, foram analisados os fluxos de comunicação entre os sistemas, a estrutura preliminar de troca de dados, a priorização das funcionalidades essenciais e o modelo operacional para registro e comunicação das transações. As discussões também abordaram aspectos de segurança da informação e conformidade com o marco legal e regulatório vigente.

A estruturação dessa conexão com o sistema financeiro é considerada etapa estratégica para garantir rastreabilidade das operações e maior confiabilidade ao mercado regulado de CRAs, fortalecendo a relação entre produtores rurais, instituições financeiras, investidores e o poder público.

De acordo com o Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), a CRA é um título nominativo representativo de área com vegetação nativa existente ou em processo de recuperação. Cada título corresponde a um hectare e permite gerar retorno financeiro para proprietários que preservam ou restauram a vegetação nativa, contribuindo para a conservação ambiental e para o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono.

Nos termos do Decreto nº 9.640/2018, o SFB é o órgão gestor da CRA. A instituição trabalha em parceria com a Dataprev e o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) no desenvolvimento de um novo módulo integrado ao SICAR para gerir o registro inicial das cotas e suas transferências. Paralelamente, também avança na elaboração de normas e procedimentos voltados à operação desse mercado, com foco em segurança jurídica, transparência e previsibilidade.

Com esses avanços, o SFB busca consolidar as bases para o desenvolvimento do mercado de CRA, contribuindo para a valorização da vegetação nativa e para o fortalecimento da política florestal brasileira.

Fonte: Serviço Florestal Brasileiro 


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Produtos não madeireiros têm potencial para financiar projetos de reflorestamento

 

Exemplar de araucária (Araucaria angustifolia), árvore do pinhão: espécie é uma das mais estudadas, segundo levantamento de pesquisadores. Por fornecer alimento, pode ser uma opção para reflorestamento com aproveitamento econômico (foto: Paulo G. Molin/NewFor)

Estudo identifica 167 espécies nativas da Mata Atlântica com aplicação bioeconômica: 58% na área médica, 12% em cosméticos e 5% no setor alimentício; 78 espécies (46,7%) têm patentes registradas em 61 países, apenas 8% delas no Brasil

André Julião | Agência FAPESP 

Um obstáculo considerável para a restauração florestal é o custo, o que tem suscitado discussões nos últimos anos sobre como viabilizar economicamente sua execução. Como o manejo de madeira nativa, a obtenção de créditos de carbono e o pagamento por serviços ecossistêmicos são soluções de longo prazo – sendo as duas últimas com mercado ainda incipiente –, um grupo de pesquisadores propõe a exploração de produtos florestais não madeireiros com valor agregado como opção para obter renda das áreas de recomposição florestal.

Em artigo publicado na revista Ambio, o grupo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) aponta que 59% das espécies de plantas amostradas na região do Vale do Paraíba do Sul têm algum potencial bioeconômico.

“A vantagem do manejo de produtos não madeireiros é que ele se baseia na coleta de folhas, galhos, sementes e frutos, constituindo um manejo não destrutivo, mantendo a floresta de pé e podendo trazer ganhos em médio prazo”, afirma Pedro Medrado Krainovic, primeiro autor do estudo realizado como parte de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP com bolsa da FAPESP.

O trabalho também foi apoiado por meio de dois Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs), o BIOTA Síntese e o Estratégia Mata Atlântica (CCD-EMA), além do projeto NewFor, que integra o Programa BIOTA FAPESP.

Os pesquisadores analisaram parte do banco de dados do NewFor – 46 parcelas de 900 metros quadrados (m2) de floresta presentes no Vale do Paraíba do Sul, região entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nessas áreas delimitadas, foram identificadas todas as árvores com diâmetro acima de 5 centímetros na altura do peito. A área total amostrada foi de 41.400 m2.

Entre as 329 espécies encontradas no levantamento, 283 eram nativas. Destas, 167 (59%) têm algum potencial bioeconômico, de acordo com uma busca que os pesquisadores realizaram de estudos sobre as plantas encontradas, como trabalhos de química analítica, estudos in vitro e in vivo, pré-clínicos e clínicos e de práticas de silvicultura. Das espécies com potencial, 58% têm potencial médico, 12% cosmético e 5% alimentício. Em apenas 13% dos estudos chegou-se ao estágio de produto final. A araucária (Araucaria angustifolia) e a juçara (Euterpe edulis), conhecidas por fornecerem alimentos, foram algumas das espécies que apareceram em mais estudos.

Os pesquisadores realizaram ainda uma estimativa do interesse mercadológico por meio da busca por patentes depositadas no mundo inteiro a partir das plantas encontradas. Nesse quesito, 78 espécies (46,7%) têm patentes registradas em 61 países, apenas 8% delas no Brasil.

“O número de patentes é uma evidência do potencial econômico dessas espécies. Ele nos dá uma dimensão do que já pode suscitar interesse e potencial comercial, enquanto as que não possuem patente demonstram quanto ainda pode ser encontrado por meio de pesquisa e desenvolvimento, como novas moléculas medicinais, cosméticas e mesmo alimentos”, explica Krainovic.

Opção econômica

Segundo os autores, a exploração de produtos não madeireiros constitui uma forma de amortizar os custos da restauração, mesmo quando outro objetivo econômico está definido, como a extração de madeira nativa. Uma vez que as espécies madeireiras mais valiosas têm longos ciclos de vida, a exploração de produtos não madeireiros pode ser uma fonte intermediária de receita enquanto a madeira não está pronta para ser extraída.

Além disso, a exploração de madeira, segundo o Código Florestal, é proibida em áreas de preservação permanente (APPs), como margens de rios, encostas íngremes e topos de montanhas. Em projetos de recuperação dessas áreas, em grande déficit no Brasil, o manejo sustentável de baixo impacto para a extração de produtos não madeireiros pode ser uma opção econômica para financiar o próprio reflorestamento, adicionando multifuncionalidade a florestas nativas que já cumprem importante função ecossistêmica, como provisão de água, proteção do solo, sequestro de carbono e polinização.

“É preciso considerar que o objetivo final da restauração de ecossistemas é o retorno da provisão de serviços ecossistêmicos, importantes inclusive para a atividade agropecuária. Buscar formas sustentáveis de viabilizar esses projetos, porém, é uma maneira de tornar a restauração mais atrativa para os produtores rurais”, pontua o pesquisador (leia mais em: agencia.fapesp.br/55340) .

Qualificação do trabalho

Os projetos de reflorestamento com espécies nativas são conhecidos ainda por gerar um grande número de empregos que não demandam qualificação. Um estudo de 2022 publicado na revista People and Nature da British Ecological Society, que tem entre os autores alguns dos membros do trabalho atual, estimou que o Brasil pode gerar 2,5 milhões de empregos se atender à meta, estabelecida no Acordo de Paris, de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.

No entanto, é preciso considerar que a exploração de ativos florestais precisa levar em conta planos de manejo e regulação do mercado que não levem à superexploração das espécies e que acabem incentivando o desmatamento em vez da recuperação. Um exemplo do passado é o do pau-rosa (Aniba rosaeodora), árvore amazônica valorizada por seu óleo essencial, utilizado na indústria de perfumaria fina, que teve seu pico de exploração nas décadas de 1940 e 1950. Hoje a espécie está ameaçada de extinção.

Os pesquisadores citam ainda medidas como compras públicas, certificações e outras políticas que poderiam contribuir para a abertura de mercados sustentáveis para os produtos não madeireiros.

O cruzamento das bases de dados utilizadas no estudo (abundância das espécies amostradas, potencial de uso relatado na literatura científica e patentes registradas) pode ser usado em outros biomas brasileiros a fim de orientar futuros projetos de restauração florestal.

“Espécies raras, pouco abundantes, mas com bastante potencial econômico, poderiam ser adicionadas a projetos de restauração ativa, com plantio de mudas. Por sua vez, espécies abundantes e de fácil manejo, que nascem naturalmente, podem ser mais bem estudadas para que se encontrem usos econômicos, empilhando valores tangíveis e intangíveis das florestas e das espécies nativas e criando a multifuncionalidade ecológica-econômica”, aponta Krainovic.

O artigo Bioeconomic opportunities in restored tropical forests pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13280-025-02234-5.

Fonte: Agência FAPESP


domingo, 6 de julho de 2025

NEGACIONISMO CLIMÁTICO NO BRASIL

SÉRIE "TEXTOS SELECIONADOS SOBRE NEGACIONISMO CLIMÁTICO"



Imagem: Renato Trivella

No ano de 2012, o programa Jô Soares, exibido pela Rede Globo de televisão, produziu uma entrevista com o professor Ricardo Felício da Universidade de São Paulo (USP), que teve como tema o aquecimento global, ou melhor, nas palavras do entrevistado: “a farsa do aquecimento global”. Naquela entrevista, o então anônimo professor argumentou que “o aquecimento global é apenas uma hipótese” e que o “efeito estufa é a maior falácia da história”. Em seguida, declarou que “a floresta amazônica nada influencia no clima da Terra, e que se fosse completamente desmatada, a floresta se reconstituiria em 20 anos”. Aquele era o momento em que o negacionismo climático ganhava sua primeira grande aparição na mídia no Brasil, em um contexto político muito oportuno: às vésperas do final do prazo para o veto presidencial do novo Código Florestal, que concedeu o perdão para os produtores rurais que desmataram áreas de preservação e reservas legais até o ano 2008.

Três anos antes da entrevista de Felício a Jô Soares, o professor Luiz Carlos Baldicero Molion, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) comparecera a uma audiência pública da Câmara dos Deputados Federais, a convite de membros da bancada ruralista, para discutir a relação entre o desmatamento e as mudanças climáticas. Com o objetivo de sustentar a proposta ruralista de reformulação do Código Florestal, Molion argumentara que havia um entendimento errado da relação entre o problema do desmatamento e as emissões de CO2 (gás carbônico) como causa das mudanças climáticas. Segundo ele: “o CO2 não controla o clima global; podem colocar quanto CO2 quiserem na atmosfera, que será benéfico”. Além disso, segundo Molion, há um entendimento errado da relação entre o problema do desmatamento e as emissões de CO2 como causa das mudanças climáticas. “Devemos evitar o desmatamento por conta da manutenção da biodiversidade, pois o CO2 não é o vilão, nem o poluente que mostram pela televisão”, argumentara o professor. Tais argumentos lançavam suspeitas aos fatos científicos sustentados por 99% da comunidade científica mundial representada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), plataforma da Organização das Nações Unidas (ONU), que fornece aos formuladores de políticas avaliações científicas regulares sobre as mudanças climáticas.

​Munidos dos argumentos negacionistas, deputados a favor da causa ruralista sustentaram que existia algum tipo de conspiração por trás do regime internacional de mudanças climáticas e do ativismo ambientalista relacionado. Para o deputado federal Aldo Rebelo (relator da comissão especial que discutia a alteração do Código Florestal no ano de 2009, na época, do PCdoB), o argumento negacionista deixava claro que havia em torno da questão climática levantada nas discussões sobre o Código Florestal brasileiro uma “ideologia distinta das questões ecológicas e científicas”, mais especificamente: “a ideologia imperialista norte-americana”, representada pelas ONGs e organismos internacionais, que visava “conter o avanço do setor agropecuário no Brasil”. Para Rebelo, seria “uma perda de tempo o encontro em Copenhague” (se referindo à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas realizada naquele ano em Copenhague), pois esse encontro se referia às “pressões exercidas pelos países desenvolvidos sobre as responsabilidades ambientais dos países emergentes”. Comungando dessa visão conspiratória, o deputado federal Moreira Mendes (um dos líderes ruralistas mais ativos no processo do Código Florestal na Câmara) afirmou que existia uma forma de “colonialismo ambiental” em curso, que tornava a questão ambiental uma “nova maneira de subjugar os países em desenvolvimento”. A utilidade do negacionismo climático para os ruralistas naquele debate era evidente. Apresentava-se uma outra “opinião” sobre o assunto, supostamente advinda da ciência, que introduzia suspeitas, dando a entender que havia “um outro lado da história” que estava sendo omitido e, com isso, tentava-se afastar a questão das mudanças climáticas do debate sobre o Código Florestal.

Apesar da visibilidade obtida na TV e da utilidade do negacionismo climático como suporte para a posição ruralista nos embates parlamentares, aquele ainda não seria o grande momento do negacionismo climático no Brasil. Durante os governos Lula (2003-2010) as questões ambientais se tornaram parte importante da agenda de política externa, e a ciência e a política climática tiveram seu maior desenvolvimento. Lula sancionou a lei nacional de mudanças climáticas e, na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas em Copenhague (COP 15), adotou uma posição ousada ao estabelecer metas voluntárias de redução de carbono, comprometendo o Brasil a reduzir as emissões de gases do efeito estufa de 36,1% a 38,9% até 2020. Na área da ciência climática, foram estruturadas importantes redes de pesquisas científicas nacionais como a Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), que se tornaram redes abrangentes de pesquisas interdisciplinares em mudanças climáticas embasadas na cooperação de 90 grupos de pesquisa de 108 instituições e universidades brasileiras e 18 estrangeiras, que produziram estudos científicos que deram suporte à política climática nacional e à posição geopolítica do governo nas arenas internacionais. Assim, a estruturação político-científica das mudanças climáticas produziu um regime no qual o negacionismo climático se tornaria residual na ciência e na política ambiental brasileira naquele período.

​Entretanto, uma década depois, os ventos mudariam de direção. No ano de 2019, logo após a posse do presidente Jair Bolsonaro, Ricardo Felício e Luiz Molion reapareceram na cena pública. Junto a 20 professores de universidades brasileiras, eles publicaram em um site chamado “notícias agrícolas”, e endereçaram ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, uma carta aberta em que reivindicaram uma “agenda climática baseada em evidências e nos interesses reais da sociedade”. Para os autores, as questões climáticas continuavam sendo "pautadas, predominantemente, por equivocadas e restritas motivações ideológicas, políticas, econômicas e acadêmicas” e que “não há evidências científicas da influência humana no clima global”. Deixando de lado a discussão climatológica, os autores adotaram na carta um tom predominantemente político, argumentando que a proposta de “economia de baixo carbono” é “uma pseudo-solução para um problema inexistente”.

​A carta dos negacionistas parece ter chegado ao endereço certo. Ricardo Salles, um dos Fundadores do Movimento Endireita Brasil (MEB) e ex-secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (cargo no qual tornou-se alvo de ação movida pelo Ministério Público de São Paulo sob a acusação de alterar ilegalmente o plano de manejo da várzea do rio Tietê, com a intenção de beneficiar interesses privados), foi escolhido por Bolsonaro para ocupar a pasta do Meio Ambiente com a finalidade de “agilizar” os processos de licenciamento ambiental e tratar das questões ambientais “sem viés ideológico”. Em relação ao tema das mudanças climáticas, Salles adotou como primeiras ações administrativas fechar a Secretaria de Mudanças Climáticas e Florestas e, em decisão conjunta com o Itamaraty, desistir de sediar no Brasil a COP25 em 2019. Questionado por repórteres a respeito de sua posição, Salles declarou que as mudanças climáticas antropogênicas permanecem “um assunto acadêmico controverso” e que há “muito alarmismo sobre o assunto”.

​Após a publicação da carta negacionista, Molion e Felício foram convidados a comparecer à audiência realizada pela comissão de Relações Exteriores e de Meio Ambiente do Senado em maio de 2019. A comissão teve como objetivo discutir a importância do tema das mudanças climáticas para a agenda política nacional e internacional, indicando que, após décadas de aprovação de políticas, leis e acordos internacionais sobre mudanças climáticas, poder-se-ia voltar atrás nos compromissos firmados pelo Estado. Além dos negacionistas, a comissão convidou para uma sessão paralela os cientistas membros do IPCC: Paulo Artaxo, Carlos Nobre, Mercedes Bustamante e o astrofísico Luiz Gylvan Meira Filho. Em uma longa sessão de exposição de estudos, eles corroboraram a validade das informações científicas sobre as mudanças climáticas e alertaram a respeito dos riscos do aquecimento atmosférico para a sociedade brasileira. Na ocasião, o meteorologista Carlos Nobre, surpreso por ter que defender a validade científica das mudanças climáticas após cinco relatórios do IPCC e do amplo consenso alcançado pela comunidade científica internacional a respeito do tema, declarou que: “nós estamos vivendo um momento que nós cientistas não previmos – nem mesmo os cientistas sociais – que no século XXI estaríamos vendo um movimento mundial anti-ciência, anti-intelectualismo”.

​A preocupação apresentada por Carlos Nobre com o fenômeno atual de desvalorização da ciência diz respeito a uma condição que tem sido chamada de “pós-verdade”. Trata-se de situações nas quais os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. A negação da ciência e dos fatos objetivos não é fenômeno novo. Contudo, na era digital, as conclusões baseadas em evidências parecem ser cada vez mais ameaçadas por crenças baseadas em emoções e experiências pessoais compartilhadas, o que configura uma nova situação. Nesse contexto, redes anticientíficas como, por exemplo, as de antivacina e terraplanismo, estão em ascensão na internet, formando grupos numerosos, organizados para defender teorias que questionam fatos há muito tempo consolidados (para não dizer evidentes) como o fato de que as vacinas combatem doenças e de que a Terra é redonda. Da mesma forma, o negacionismo climático tem se disseminado pela internet. Entrevistas com Ricardo Felício realizadas em 2019 somam milhões de visualizações no YouTube, o que indica um estágio avançado de compartilhamento dos argumentos negacionistas. O negacionismo se propagou, principalmente, por meio de apoiadores do governo Bolsonaro, dentre eles, o próprio Ricardo Felício, que foi candidato a deputado federal pelo PSL em 2018.

​É notório que, com a ascensão de Bolsonaro à presidência e na eclosão de tudo aquilo que esse fenômeno representa em termos políticos e ideológicos, o negacionismo climático foi acolhido em uma cosmovisão que lhe conferiu plausibilidade, e acabou por torná-lo parte do discurso e da política oficial do governo sobre temas do meio ambiente. Dentre os ideólogos do governo, Olavo de Carvalho teve grande influência sobre a formação do pensamento que norteia as ações de quadros importantes da atual gestão. Destaca-se que os ministros Ernesto Araújo, Relações Exteriores, e o ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, foram indicados ao presidente por Carvalho. O atual ministro da Educação Eduardo Weintraub e Felipe Martins, um dos conselheiros mais próximos do presidente, declaram-se publicamente “olavistas”; assim como os filhos de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro. Uma das teses de Olavo de Carvalho é a de que as universidades brasileiras têm sido dominadas por décadas pelo “pensamento da esquerda”, também a grande mídia, que propaga o que ele chama de “marxismo cultural”, a saber, um projeto da “esquerda globalista” dedicado ao empreendimento de destruir a cultura ocidental capitalista e cristã. A “conspiração globalista da esquerda” visa, segundo Carvalho, submeter os povos a um único governo mundial através da ONU e demais órgãos internacionais.

​Para Olavo de Carvalho e seus discípulos, o aquecimento global é um “truque para implementar um governo global”. Para tanto, a “fraude científica se tornou o meio, uma tática da esquerda para produzir o alarmismo”. Portanto, nesse imaginário conspiratório, o negacionismo climático se associa à luta contra o “comunismo internacional” e seu projeto de “dominação ambiental contra a civilização cristã”. Tais ideias não são produto somente da imaginação de Olavo de Carvalho, pois contam com um número de livros e publicações que têm sido divulgados entre bolsonaristas como, por exemplo, o livro de Pascal Bernardin, “O Império Ecológico”, e o livro de Dom Bertrand Oliveira e Bragança, “Psicose Ambientalista”, este último, citado por Bolsonaro na reunião do G20 em 2019. Compartilhando dessa visão, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, denominou “climatismo” essa conspiração global, argumentando que:

O ‘climatismo’ (sic) juntou alguns dados que sugeriam uma correlação do aumento de temperaturas com o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, ignorou dados que sugeriam o contrário, e criou um dogma “científico” que ninguém mais pode contestar sob pena de ser excomungado da boa sociedade. Esse dogma vem servindo para justificar o aumento do poder regulador dos Estados sobre a economia e o poder das instituições internacionais sobre os Estados nacionais e suas populações, bem como para sufocar o crescimento econômico nos países capitalistas democráticos e favorecer o crescimento da China.

Não há nenhuma originalidade por parte do ministro e demais “olavistas” na associação entre “aquecimento global e conspiração marxista”. Em sua genealogia do negacionismo climático norte-americano, os cientistas e escritores Naomi Oreskes e Erik Conway indicaram que a ação de think tanks[1] associados à ala conservadora do Partido Republicano, junto a alguns grupos da mídia, construíram já na década de 1990 uma contra narrativa às mudanças climáticas que defendia valores considerados pelos conservadores como sendo legitimamente americanos: a defesa do livre mercado, o combate ao comunismo e o direito de opinião em assuntos públicos. Em Merchants of Doubt, estes pesquisadores argumentam que a estratégia dos negacionistas junto a mídia visava confundir “equilíbrio” com “objetividade” ao exigir que “todas as partes interessadas numa determinada questão devem ter igual voz na cobertura dos fatos”. Para os autores, esse “balanço” das informações dos “dois lados” é falacioso porque não reflete o modo como a ciência trabalha, pois “uma vez que uma questão científica é fechada, só existe um lado”. Eles concluem que a conivência da mídia com o negacionismo climático tornou fácil ao governo americano decidir por “não fazer nada” em relação ao aquecimento global.

​De acordo com Myanna Lahsen, antropóloga e pesquisadora no Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a difusão das teorias da conspiração no debate sobre as mudanças climáticas induzidas pelo homem tem um longo histórico. Particularmente, nos Estados Unidos, há uma certa facilidade de reivindicações não confirmadas e sugestões de conspiração serem disseminadas entre o público que não simpatiza com a ideia do aquecimento global e suas implicações políticas por conta da ação dos think tanks conservadores junto a mídia. Adam Hodges, linguista e professor da Universidade do Colorado, ressalta que as decisões do governo Trump de negar compromissos com a política climática são sustentadas por redes negacionistas cujo discurso é paranoico e de cunho conspiratório e de grande aceitação pelo público conservador. Para o autor, o impacto final que o estilo paranoico tem sobre a política americana “gera uma forma de pós-verdade cínica que pode efetivamente interromper o debate sobre questões legítimas, movendo o discurso para o reino da fantasia ideologicamente distorcida".

​Notoriamente, os negacionistas climáticos brasileiros do governo Bolsonaro importaram suas narrativas de trabalhos e conferências realizadas por think tanks conservadores norte-americanos. Em julho de 2019, o Itamaraty enviou um diplomata para participar de uma conferência com negacionistas do clima realizada pelo think tank “The Heartland Institute” em Washington. Após a reunião, circulou no Itamaraty um telegrama que reportava os principais pontos abordados na reunião. Em um trecho do telegrama, o diplomata resume o que acredita ser o real motivo dos alertas feitos no mundo sobre as mudanças climáticas: "[...] eles estão colocando em risco nosso modo de vida. O debate não é sobre mudança do clima, nem sobre dióxido de carbono. Não é sobre clima, nem ciência. É sobre socialismo contra capitalismo [...]". Em setembro de 2019, o ministro Ricardo Salles, reuniu-se nos Estados Unidos com grupo negacionista do clima do Competitive Enterprise Institute (CEI), meses antes da COP25.

​O fato de que think tanks conservadores norte-americanos fazem parte das redes de informação do governo pode ter tido influência direta na postura adotada pelo Brasil na COP25. Na reunião realizada em dezembro de 2019 na Espanha, a comissão brasileira compareceu em pequeno número, acanhada e sem proposta clara. Diferente das outras reuniões, o Brasil posicionou-se junto a países como os Estados Unidos, Austrália e Arábia Saudita na tentativa de obstruir as negociações. Com essa decisão, a comissão brasileira negou-se a dar continuidade a sua posição de liderança dos países emergentes e de exigir metas ousadas de redução de emissões CO2 dos países desenvolvidos. Esse realinhamento geopolítico demonstra que o governo brasileiro optou por adotar a trajetória dos maiores emissores de carbono, seguindo os passos de Donald Trump. Após a reunião, em uma atitude de escárnio ao que havia sido discutido na conferência, o ministro Ricardo Salles postou em suas redes sociais uma foto de um farto prato de carne bovina com a legenda: “para compensar nossas negociações na COP, um almoço veggie!”.

​Verifica-se, portanto, que o negacionismo climático se tornou uma política do governo Bolsonaro. Para que isso acontecesse, as autoridades do atual governo ignoraram a ciência e atacaram membros da comunidade científica, como é o caso dos ataques dirigidos ao ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ricardo Galvão. Após o INPE divulgar os dados de aumento das queimadas na Amazônia, Bolsonaro chamou Galvão de “mentiroso” e alegou que o diretor deveria estar “a serviço de alguma ONG”. Esse episódio, foi seguido de um debate entre Ricardo Salles e Ricardo Galvão na rede de televisão Globo News em agosto de 2019. Na ocasião, Galvão afirmou que o governo não consultou em nenhum momento a ciência brasileira em assuntos que dizem respeito à Amazônia. Ricardo Salles retrucou dizendo: “o problema é quando a ideologia está disfarçada dentro da ciência”, endossando a acusação feita por Bolsonaro. Em entrevista posterior, Ricardo Galvão relatou que após o debate com Salles em frente às câmeras, conversou com o ministro nos bastidores, e se desapontou ainda mais ao ouvir do ministro que “ele não acreditava na ciência brasileira porque a ciência brasileira estava toda aparelhada pela esquerda contra os americanos”. As infundadas acusações do presidente e do ministro repercutiram internacionalmente, expondo o quanto o governo Bolsonaro ignora a legitimidade da ciência brasileira no mundo. Em dezembro, a prestigiada revista Nature abriu sua lista dos dez cientistas que fizeram a diferença em 2019 com a foto de Ricardo Galvão, o chamando de “herói” que desafiou o governo em defesa da Amazônia.

​Diante do que foi apresentado até aqui, podemos refletir a respeito das razões para se negar as mudanças climáticas. Em um primeiro momento, compreendemos que o negacionismo climático serve como um artifício retórico para aqueles que têm como objetivo a desregulamentação das leis ambientais e o não compromisso com acordos internacionais, como foi ilustrado pelo caso dos ruralistas na tramitação do novo Código Florestal brasileiro e no fraco comprometimento do Brasil na COP25. Nesse sentido, o negacionismo climático é frequentemente alistado por grupos que defendem iniciativas liberais, que consideram a legislação ambiental e os acordos internacionais um entrave ao livre comércio, à livre iniciativa, ao pleno uso da propriedade privada. A primeira razão para se negar as mudanças climáticas, portanto, é dar continuidade às atividades econômicas que impactam o meio ambiente sem qualquer regulação ou compromisso público.

​Posteriormente, percebemos que o negacionismo climático também faz parte de uma visão de mundo de certos grupos que realmente acreditam que o aquecimento global é uma fraude. A percepção de que as instituições públicas de ensino estão corrompidas pela ideologia da esquerda e que as mudanças climáticas fazem parte dessa conspiração revela que, para além das razões dos grupos econômicos liberais, o negacionismo climático faz parte de um regime discursivo inserido em uma determinada rede de práticas compartilhadas por grupos que se sentem de alguma maneira enganados e desiludidos. Eles buscam no negacionismo “um outro lado da história” que lhes foi omitido, que a ciência oficial os negou, mas que pode ser encontrado nas palavras de outsiders e organizações que denunciam a corrupção das instituições científicas e políticas. A partir disso, o negacionismo climático passa a transcender os aspectos políticos e científicos e a se referir a significados sociais enraizados em realidades subjetivamente vivenciadas como abrangentes e completas. É ilustrativa a declaração de Ernesto Araújo: “fui a Roma em maio e havia uma onda de frio”, experiência que, para o ministro, torna-se prova de que o aquecimento global não existe. A razão, portanto, para negar as mudanças climáticas nesse caso não diz respeito ao conteúdo científico, mas a uma visão e experiência de mundo incompatíveis com aquelas de quem acredita nas mudanças climáticas.

​Por fim, cabe ainda destacar uma outra razão apontada pela filósofa Déborah Danowski. Segundo ela, há vários tipos de negacionistas e negacionismos:

[...] há os por assim dizer independentes e há os que, por baixo do pano, são pagos por grandes corporações, pelas companhias de carvão, petróleo e gás para produzir artigos de jornal baseados em falsas pesquisas científicas. Mas há ainda um outro tipo de gente que, por motivos diferentes, ou “não aceita” a realidade das mudanças climáticas, ou aceita, mas “não tanto assim”. São pessoas até bem esclarecidas, que dizem frases como: “ah, nisso eu não posso acreditar”, “isso também não, aí já é demais”, “isso aí já é catastrofismo” ... “Catastrofismo não”. Uma razão por que se nega o inegável é que isso que é inegável é também intolerável. Se fôssemos encarar diretamente o que temos pela frente, isso exigiria de nós, aqui e agora, muito mais do que estamos realmente dispostos a fazer. (grifo nosso).

Nesse sentido, muitos daqueles que acreditam nas mudanças climáticas, podem também negar, em alguma medida, a urgência que essa verdade implica para continuar vivendo suas vidas da mesma maneira. Então, delegam a responsabilidade de decidir e encontrar soluções às autoridades e, frequentemente, se frustram com os resultados. Essa é uma forma mais tênue de negacionismo, mas com efeitos igualmente paralisadores. Demonstra-se preocupação com a questão, mas sem se engajar seriamente na causa, sem querer transformar radicalmente o modo de vida, sem levar a sério a urgente necessidade de transformação política. Talvez seja essa a forma de negacionismo que mais tem contribuído para que a questão das mudanças climáticas se encontre tão vilipendiada no Brasil atual.

NOTAS

[1] Think Tanks são grupos de especialistas associados para debater temas específicos e influenciar a formulação de políticas públicas ou processos de tomada de decisão pública. Geralmente, são financiados por corporações e lobbys que têm interesses privados nos resultados de determinada questão pública.

PARA SABER MAIS

AMADO, G. (2019). Ernesto Araújo nega aquecimento global: “Fui a Roma em maio e havia uma onda de frio”. Época. 03 de agosto de 2019. Disponível em: https://epoca.globo.com/guilherme-amado/ernesto-araujo-nega-aquecimento-global-fui-roma-em-maio-havia-uma-onda-de-frio-23851347 Acesso: 06/01/2020.

​ARAÚJO, E. (2018). “Sequestrar e Perverter”. Disponível em: https://www.metapoliticabrasil.com/post/sequestrar-e-perverter Acesso: 06/01/2020.

CARVALHO, O. (2002). Do marxismo cultural. Disponível em: http://olavodecarvalho.org/do-marxismo-cultural/ Acesso: 06/01/2019.

CARVALHO, O. (2012). Aquecimento global para Olavo de Carvalho. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=t8FgrKnk2AA Acesso 24/04/2019.

CARVALHO, O. (2016). “ONU, Nova Ordem Mundial e a escravização mundial”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=e2bBHef6u60 Acesso: 06/01/2019.

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O Autor:

Jean Miguel é sociólogo, mestre e doutor em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente, realiza pós-doutorado na Escola de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Foi pesquisador visitante da School of Environmental Sciences da University of East Anglia no Reino Unido. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia, tendo interesse, principalmente, nos seguintes temas: ciência, tecnologia e desenvolvimento sustentável; transições sociotécnicas para a sustentabilidade; governança da ciência e da tecnologia em questões socioambientais; mudanças climáticas e sociedade. Atualmente, participa do projeto internacional CLIMAX (Climate Services Through Knowledge Co-production: A Euro-South American Initiative for Strengthening Societal Adaptation Response to Extreme Events - Belmont Forum e FAPESP: n. 2015/50687-8) como co-coordenador do Grupo de Trabalho 3 - Processos sociais que explicam a apropriação da informação climática por tomadores de decisão.

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Fonte: Coletiva. O texto faz parte do interessante Dossiê Emergência Climática, publicado em 2020. Também vale acessar o Dossiê Negacionismos & Autoritarismos, publicado em 2023, principalmente o elucidativo texto: "Negacionistas: uma definição em camadas", de José Szwako.

Segundo informações do site

"A Coletiva é uma revista eletrônica de divulgação científica, publicada pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) desde 2010. Sediada em Recife, a revista disponibiliza dossiês temáticos quadrimestrais e outras seções periódicas, com uma perspectiva de diálogo entre os saberes acadêmicos e outras formas de conhecimento, prezando pela diversidade sociocultural e liberdade de expressão. É voltada para um público amplo, curioso e crítico.

O projeto da Coletiva é uma atividade de extensão do Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional (ProfSocio/Fundaj), ligado à Diretoria de Formação Profissional e Inovação (Difor) da Fundaj. Conta com o apoio do multiHlab - Laboratório Multiusuários em Humanidades, com bolsistas financiados pela Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe)".

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LEIA TAMBÉM:

TEXTOS SELECIONADOS "NEGACIONISMO CLIMÁTICO"

Negacionistas minimizam impacto da crise climática em tragédia no Rio Grande do Sul

sábado, 30 de maio de 2020

Amazônia perdeu em média 2,1 mil hectares de floresta por dia em 2019, aponta levantamento



Área corresponde a quase 2 mil campos de futebol por dia em devastação. Apenas 0,5% da área total de desmatamento detectada em 2019 está dentro da legalidade, de acordo com Relatório Anual de Desmatamento do MapBiomas.

Por Elida Oliveira, G1


A Amazônia perdeu em média 2.110 hectares de floresta por dia em 2019, área equivalente 1,9 mil campos de futebol com medidas da Fifa — Foto: Reuters


A Amazônia perdeu em média 2.110 hectares de floresta por dia em 2019, área equivalente 1,9 mil campos de futebol com medidas da Fifa. O bioma foi o mais devastado do país, representando 63% dos 3.339 hectares derrubados por dia no país. Somando todos os biomas, apenas 0,5% da área de desmatamento detectada em 2019 está dentro da legalidade, de acordo com Relatório Anual de Desmatamento, organizado pelo projeto MapBiomas e divulgado nesta terça-feira (26).





Confira os principais destaques do relatório:
  • Em 2019, foram desmatamentos em média 3.339 ha por dia ou 139 ha por hora no Brasil
  • Amazônia e Cerrado somam 96,7% da área desmatada em 2019
  • Amazônia perdeu em média 2.110 hectares por dia ou 87,92 ha por hora
  • Cerrado perdeu em média 1.119,6 hectares por dia ou 46,65 ha por hora
  • Apenas 0,2% do total de alertas e 0,5% da área de desmatamento detectada em 2019 estão dentro da legalidade
  • 15,6% do desmatamento em 2019 ocorreu em terras indígenas e unidades de conservação
  • O Pantanal possui a maior média de área desmatada por alerta, com 77 ha, seguido do Cerrado com 55 ha. Na Amazônia, a média é de 16 hectares
  • 37% das terras indígenas brasileiras tiveram alerta de desmatamento em 2019
  • A velocidade média máxima de desmatamento para um único evento de desmatamento foi alcançada em uma área de 1.148 hectares no município de Jaborandi (BA). Ela foi desmatada entre os dias 8 e 27 de maio de 2019, alcançando uma média de 60 ha por dia
  • Os estados com maior área desmatada são: Pará (299 mil ha), Mato Grosso (202 mil ha) e Amazonas (126 mil ha). Juntos estes três estados responderam por mais da metade da áreas de desmatamento detectado no país em 2019

Área de 1.148 hectares no município de Jaborandi (BA), desmatada entre os dias 8 e 27 de maio de 2019, alcançando uma média de 60 ha por dia - a maior velocidade média máxima detectada — Foto: Reprodução/Relatório Anual de Desmatamento no Brasil/MapBiomas


"A gente só olha onde foi detectado desmatamento. Certamente tem omissão de alerta. A área mínima de detecção varia de sistema para sistema e tem área que é difícil de detectar, como a Caatinga", afirma Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, durante videoconferência.

O MapBiomas é uma iniciativa que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia para mapear a cobertura e uso do solo do Brasil e monitorar as mudanças do território.

O relatório destaca que os dados de desmatamento do MapBiomas devem ser usados com cautela se comparados aos dados oficiais de desmatamento (como o do sistema Prodes, responsável pela detecção oficial de desmate no Brasil). O Sistema Prodes Amazônia, por exemplo, emite alerta para áreas devastadas acima de 6,25 hectares. O Prodes Cerrado emite alerta para áreas acima de 1 hectare. O Atlas Mata Atlântica, 3 hectares. Já o MapBiomas monitora área de 0,3 hectare.


Alertas oficiais de desmatamento batem recorde

Dados oficiais do governo indicam que, em 2020, os sinais de degradação do meio ambiente seguem em alta. Os alertas de desmatamento na Amazônia bateram recorde no primeiro trimestre de 2020, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2020 foram emitidos alertas para 796,08 km² da Amazônia, aumento de 51,45% em relação ao mesmo período de 2019, quando houve alerta para 525,63 km². Em 2018 foram 685,48 km²; em 2017 foram 233,64 km² e em 2016 foram 643,83 km².

Os alertas de desmatamento servem para embasar ações de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Já os dados oficiais de desmatamento são do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), divulgados uma vez ao ano.

Multas paralisadas

As multas por desmatamento ilegal na Amazônia foram praticamente suspensas desde outubro de 2019 devido a um decreto do governo Bolsonaro, de acordo com a organização não-governamental Human Rights Watch.

Informações oficiais obtidas pela ONG mostram que agentes do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aplicaram desde outubro milhares de multas por desmatamento ilegal e outras infrações ambientais na Amazônia e em outras partes do Brasil. No entanto, em apenas cinco casos foi imposta aos infratores a obrigação de pagar multa.

Em outubro do ano passado, o governo iniciou novos procedimentos estabelecendo que as multas ambientais devem ser revistas em audiências de conciliação. Nessas audiências um núcleo de conciliação ambiental pode oferecer descontos ou declarar nulo o auto de infração. O Ministério do Meio Ambiente estabeleceu a suspensão dos prazos para pagar essas multas até que a audiência de conciliação seja realizada.

Ministro do Meio Ambiente defende 'passar a boiada'

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou na reunião ministerial do dia 22 de abril, que o governo deveria aproveitar o momento em que o foco da sociedade e da mídia está voltada para o novo coronavírus para mudar regras que podem ser questionadas na Justiça, conforme vídeo divulgado nesta sexta-feira pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello.

Segundo ele, seria hora de fazer uma “baciada” de mudanças nas regras ligadas à proteção ambiental e à área de agricultura e evitar críticas e processos na Justiça. "Tem uma lista enorme, em todos os ministérios que têm papel regulatório aqui, para simplificar. Não precisamos de Congresso", disse o ministro do Meio Ambiente.

"Enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos" - Ricardo Salles

Depois da divulgação do vídeo, o ministro se justificou em uma rede social. "Sempre defendi desburocratizar e simplificar normas, em todas as áreas, com bom senso e tudo dentro da lei. O emaranhado de regras irracionais atrapalha investimentos, a geração de empregos e, portanto, o desenvolvimento sustentável no Brasil", disse Salles.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

RETROCESSOS: Mundo avança para a sustentabilidade e o Brasil segue na contramão





É de indignar a irresponsabilidade com que o atual governo brasileiro está lidando com o nosso patrimônio natural, estimulando a destruição da Amazônia, Pantanal e outros biomas, praticando o desmonte da legislação e dos órgãos ambientais, para atender interesses de setores ruralistas retrógrados e que nos empurram para o descrédito mundial.

Duas matérias na imprensa hoje mostram o quanto o Brasil está perigosamente andando na contramão.

Vejam o contraste das notícias:

NA ITÁLIA - EDUCAÇÃO PARA A SUSTENTABILIDADE: o noticiário matinal da Rede Globo, Bom Dia Brasil, apresentou reportagem sobre a decisão do governo italiano de incluir a sustentabilidade ambiental no centro do programa educacional das escolas italianas. Os alunos terão pelo menos uma hora por semana de conteúdos específicos de sustentabilidade e as demais disciplinas, como geografia etc, terão o tema como eixo condutor. O objetivo é estimular a formação de uma nova geração comprometida com a sustentabilidade.

Assista a matéria do Bom Dia Brasil

Enquanto isso...

NO BRASIL - BOLSONARO LIBERA PLANTIO DE CANA NA AMAZÔNIA E NO PANTANAL: Leia a matéria abaixo, publicada hoje no jornal O Globo e site G1, sobre a decisão do governo federal de liberar o cultivo da cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal, antes proibidos por um decreto de 2009, revogado pelo presidente. A iniciativa atende os interesses da base ruralista do governo e aumenta a pressão para o desmatamento de novas áreas, a grilagem de terras e queimadas. É bom lembrar que o fogo ainda é parte do trato cultural praticado pela lavoura da cana na maior parte do país.

Axel Grael



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Governo revoga decreto que colocava limites para a expansão da produção de cana na Amazônia e no Pantanal

Segundo governo, decreto estava obsoleto e impedia investimentos na atividade. Para ambientalistas, decisão coloca em risco status de "produto verde" do etanol brasileiro, e, com isso, pode fechar portas no mercado internacional.

Por Mateus Ferreira e Rikardy Tooge, G1

O governo revogou nesta terça-feira (6) um decreto criado em 2009 que colocava limites para a expansão da produção de cana-de-açúcar em áreas, por exemplo, de floresta nativa, terras indígenas, a Bacia do Alto Paraguai e os biomas Pantanal e Amazônia. O fim da legislação foi assinado no evento de 300 dias de governo Jair Bolsonaro.

O decreto revogado impunha condições e locais de produção para que um agricultor ou uma usina pudesse conseguir financiamento agrícola.

Com o fim da legislação, em tese, não existem mais restrições para o plantio da cultura no país, podendo ser possível abrir áreas de produção em biomas que estão protegidos há uma década. Hoje, a atividade está concentrada no Sudeste e Centro-Oeste do país (veja mais abaixo).

Segundo empresas do setor e o Ministério da Agricultura, o texto revogado estava obsoleto e o Código Florestal de 2012 já coloca limites para o desmatamento.

Para ambientalistas, a decisão afrouxa o controle ambiental da produção agrícola, podendo colocar em risco o status de "produto verde" do etanol brasileiro, e, com isso, fechar portas no mercado internacional.

"Era o principal diferencial ambiental do biocombustível brasileiro. Foi esse decreto que impediu que as exportações de etanol do país sofressem restrições internacionais como as impostas ao biodiesel da Indonésia, ligado ao desmatamento", disse em nota o Observatório do Clima, uma rede que conta com 47 organizações não governamentais que tratam sobre o meio ambiente.

O governo anunciou a medida como uma modernização da atividade e afirmou que a decisão não vai incentivar o desmatamento.

"As legislações federal e estaduais mantêm restrições ambientais ao plantio de cana-de-açúcar no país. No âmbito federal, os empreendimentos relacionados à cultura têm de cumprir Código Florestal Brasileiro, que institui medidas protetivas mais atualizadas e condizentes com a realidade", disse o Ministério da Agricultura.

Ainda segundo o ministério, a legislação anterior criava “restrições que impactavam negativamente as usinas de açúcar e etanol, que enfrentavam dificuldades para financiar a produção". Números do setor mostram que a atividade apresenta crescimento constante mesmo com a restrição (veja mais abaixo).

Para a União das Indústrias da Cana-de-Açúcar (Unica), o setor continuará cobrando desmatamento zero dos produtores, citando a política nacional de biocombustíveis, o Renovabio, que a partir de 2020 vai dar incentivos e crédito para que a produção deste tipo de combustível seja ampliada no país.

"Para ingresso no programa, a grande aposta do setor, nem mesmo o desmatamento permitido em lei será aceito. Desmatou, está fora do Renovabio, pois o etanol, e todos os nossos produtos, devem ser sustentáveis do início ao fim", disse em nota o presidente da Unica, Evandro Gussi.

Restrição não impediu crescimento

Os números do setor mostram que a restrição não impediu o crescimento da produção de etanol e açúcar no país.

No caso do combustível, as usinas produziam 10,5 mil metros cúbicos no início dos anos 2000 para produzir 33,1 mil metros cúbicos na última safra.


Produção de etanol no Brasil — Foto: Arte G1


No caso do açúcar, o setor saiu de 16,2 milhões de toneladas na temporada 2000/2001 para 29 milhões de toneladas na última safra.


Produção de açúcar no Brasil — Foto: Arte G1


Produção está concentrada no Centro-Sul


A produção de cana-de-açúcar no país está concentrada nos estados do Sudeste (6 milhões de hectares) e Centro-Oeste (2,16 milhões de hectares) do país. Há incentivo do governo para que a atividade cresça no Nordeste (937 mil hectares).


A cana-de-açúcar teve produção menor na última safra e deve repetir a queda neste novo ciclo — Foto: Rodrigo Sanches/G1


O Brasil produziu 620 milhões de toneladas de cana na última safra em uma área de 8,58 milhões de hectares. No início dos anos 2000, a produção era de 256 milhões de toneladas.

O maior estado produtor de cana é São Paulo, com uma área próxima dos 5 milhões de hectares. Na última safra, foram colhidas 325 milhões de toneladas.

Nos 9 estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão) a produção de cana na última safra ocupa 313,8 mil hectares, sendo a maior parte em Mato Grosso (228,8 mil hectares).

Na região, foram colhidas 22,9 milhões de toneladas. Acre, Amapá e Roraima não tem produção, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

No bioma Pantanal, que fica localizado entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, a área de cana no território sul-matogrossense é de 647,4 mil hectares, com produção de 49,9 milhões de toneladas.


Fonte: G1




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Outras matérias também em O Globo:

Desmatamento na Amazônia aumentou 80% em setembro
Funcionários da Funai fazem alerta sobre risco de paralisação na proteção de índios isolados  
Novas regras sobre armas: mesmo desfigurado, projeto aprovado na Câmara amplia acesso (a caça é proibida no Brasil, mas a nova legislação sobre porte de armas autoriza caçadores a andar armados!)







quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Extinção das Reservas Legais causaria prejuízo trilionário ao Brasil



Arte sobre foto de Evandro Rodney/Imprensa MG via Fotos Públicas


Estudo traça cenário do que aconteceria se áreas de preservação obrigatória fossem revogadas. Perda de serviços ecossistêmicos, como regulação climática e proteção da biodiversidade, levaria a prejuízos de R$ 6 trilhões por ano

Por Herton Escobar

O que aconteceria se o Brasil abrisse mão de suas Reservas Legais e todas essas áreas fossem legalmente desmatadas? O prejuízo seria da ordem de R$ 6 trilhões por ano — sim, trilhões, com tê de tatu.

Esse é o valor total dos serviços ambientais prestados por essas áreas de vegetação nativa, incluindo controle de erosão, produção de chuvas e regulação climática, segundo estimativa de um grupo de cientistas brasileiros. O estudo foi publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation, com o apoio de mais de 400 outros pesquisadores, de 79 instituições acadêmicas, que tiveram acesso ao trabalho e concordaram com os resultados.

As Reservas Legais são a porção de uma propriedade privada que precisa ser preservada com vegetação nativa, conforme determina o chamado Código Florestal brasileiro (Lei 12.651/2012). Esse porcentual varia de acordo com o bioma em que a propriedade se encontra: na Amazônia, é de 80%. Numa propriedade de 100 hectares localizada no Estado do Amazonas, por exemplo, significa que 80 hectares têm de ser obrigatoriamente preservados com vegetação nativa, enquanto que os outros 20 hectares podem ser desmatados para construir casas, plantar soja, criar gado ou seja lá o que for.

Nas áreas de Cerrado localizadas dentro da Amazônia Legal, esse índice é de 35%; e em todo o resto do País, 20%.





A somatória disso tudo, segundo os pesquisadores, equivale a uma área do tamanho de Itália, Alemanha, França e Espanha somadas: 167 milhões de hectares de Reserva Legal, o que representa 29% de toda a vegetação nativa remanescente no País.

Agora, junte tudo isso aos mais de 100 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas privadas que já podem ser legalmente desmatados — porque não se encaixam em nenhuma classificação de área protegida — e a revogação das Reservas Legais deixaria uma área do tamanho da Argentina (270 milhões de hectares) aberta ao desmatamento.

Um cenário extremo, e potencialmente catastrófico, mas nada fictício. Um projeto de lei (PL 2.362 / 2019) apresentado ao Congresso no início do ano pelos senadores Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e Marcio Bittar (MDB/AC) propunha exatamente isso: revogar todas as áreas de Reserva Legal no Brasil, “a fim de possibilitar a exploração econômica dessas áreas”.

Fortemente criticado, o projeto foi retirado de tramitação no dia 15 de agosto, em meio à crise internacional das queimadas na Amazônia. Ainda assim, os pesquisadores esperam que o estudo possa “embasar outras discussões relacionadas com a conservação da vegetação nativa e da biodiversidade no Brasil”.




Serviços prestados

O estudo faz um inventário das riquezas naturais contidas nas Reservas Legais e dos serviços ambientais que essas riquezas prestam gratuitamente à sociedade. Entre eles, 11 bilhões de toneladas de carbono (cerca de 21% de todo o estoque de carbono superficial terrestre brasileiro), que, se liberados para a atmosfera (via desmatamento ou queimadas), contribuiriam de forma significativa para o aquecimento global. “As resultantes emissões de carbono teriam fortes impactos no clima regional e global, com efeitos em cascata, tais como maior erosão, secas, inundações e alterações potencialmente irreversíveis dos ecossistemas naturais”, escrevem os pesquisadores.

Outro ativo importantíssimo é a biodiversidade. “Uma das funções primordiais das Reservas Legais é propiciar as condições mínimas para a manutenção da biodiversidade em paisagens produtivas, onde as áreas agrícolas dominam e relegam a vegetação natural remanescente a pequenos fragmentos ou a faixas estreitas ao longo dos rios”, diz o estudo. “Nessas situações, devido à sua ampla distribuição espacial, as Reservas Legais desempenham um papel crucial no estabelecimento de condições que facilitam os fluxos, aumentando assim a conectividade da paisagem e as taxas de recolonização de espécies.”

Não se trata apenas de proteger bichinhos e plantinhas, mas também de reforçar a produtividade e a resiliência da própria produção agrícola. Os ecossistemas naturais abrigam uma grande variedade de espécies essenciais à polinização e ao controle biológico de pragas nas lavouras. “A ligação entre a presença destes inimigos fundamentais de pragas em terras agrícolas e a existência de vegetação natural nas imediações foi amplamente demonstrada em todo o mundo”, destacam os pesquisadores.

Quem gosta de água e energia elétrica também tem motivos de sobra para gostar das Reservas Legais, já que elas “desempenham um papel crucial para a segurança hídrica e energética do País”, apontam os cientistas. O caso mais emblemático é o da Amazônia: “Os altos níveis de transpiração e evapotranspiração das florestas amazônicas são, portanto, importantes não só para sustentar a própria floresta, mas também para manter a pluviosidade no Cerrado e em áreas-chave de recarga, e também mais ao sul, incluindo vários países da Bacia do Prata. Sem esta vegetação, a segurança hídrica e energética ao sul da Amazônia está ameaçada.”

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Acesse os dados referentes à figura acima clicando aqui.


Valorização

Considerando todos esses — e mais alguns — serviços prestados pelos ecossistemas naturais contidos nas Reservas Legais, os pesquisadores usaram estimativas da literatura científica para calcular o valor econômico dessas áreas.

“Com base em valores médios de todo o mundo, um hectare de floresta tropical pode gerar um benefício estimado de US$ 5,382/hectare/ano pela prestação de 17 diferentes tipos de serviços ecossistêmicos, incluindo regulação climática, gestão da água, controle da erosão, polinização, controle biológico, serviços culturais e recreativos, entre outros (Costanza et al., 2014). Para campos naturais e pastagens, em geral, a média global é de US$ 4,166/hectare/ano”, diz o trabalho. “Se simplificarmos e assumirmos que a Amazônia, Mata Atlântica e Caatinga são compostas exclusivamente de floresta, Cerrado e Pampa por campos e savanas e Pantanal por planícies aluviais, a perda de 270 milhões de hectares de vegetação nativa desprotegida (incluindo 167 milhões de hectares de Reservas Legais) resultaria em perdas de cerca de R$ 6 trilhões por ano.”

O trabalho é coordenado pelo ecólogo Jean Paul Metzger, do Instituto de Biociências (IB) da USP, em colaboração com colegas da Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (Abeco) e do grupo Coalizão Ciência e Sociedade.

“Quando consideramos o rol de benefícios que essas áreas podem prover, tanto para o proprietário quanto para a sociedade, começamos a entender que esses benefícios não são pequenos”, afirmou Metzger, em entrevista à Rádio USP, na manhã desta sexta-feira (6/9). “Eles são altos! Na verdade, em alguns casos você tem mais benefícios mantendo a Reserva Legal do que retirando e avançando com o cultivo da área.”

Ouça a íntegra da entrevista aqui: https://jornal.usp.br/?p=270884















terça-feira, 10 de setembro de 2019

Manter vegetação nativa em propriedades rurais rende ao Brasil R$ 6 trilhões ao ano



Artigo endossado por 407 cientistas brasileiros calcula o valor de serviços atrelados à conservação da natureza, como polinização, controle de pragas e segurança hídrica (Reserva Legal na região de Caucaia do Alto, município de Ibiúna / foto: Jean Paul Metzger)


Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Os 270 milhões de hectares de vegetação nativa preservados em propriedades rurais – entre áreas desprotegidas e de Reserva Legal – rendem ao Brasil R$ 6 trilhões ao ano em serviços ecossistêmicos, como polinização, controle de pragas, segurança hídrica, produção de chuvas e qualidade do solo.

O cálculo foi publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation e endossado por 407 cientistas brasileiros, de 79 instituições de pesquisa.

“O artigo tem o objetivo de mostrar que preservar a vegetação nativa não é um impedimento ao desenvolvimento social e econômico, e sim parte da solução. É um ativo para o desenvolvimento sustentável do Brasil, de uma forma diferente do que foi feito na Europa há 500 anos – quando o nível de consciência ambiental era diferente”, disse Jean Paul Metzger, do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP) e primeiro autor do artigo.

O trabalho usou estudos de valoração de serviços ecossistêmicos e aplicou esses valores aos 270 milhões de hectares de vegetação nativa dos biomas brasileiros. Essas estimativas estão consolidadas e vêm sendo aplicadas há anos, inclusive pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês).

Esse artigo é importante, pois reúne um conjunto sólido de informações para rebater argumentos que, embora não tenham fundamento, são usados como justificativa para alterações no Código Florestal e nas exigências sobre Reserva Legal”, disse Carlos Joly, coordenador do Programa BIOTA-FAPESP e um dos cientistas que endossam o artigo.

Joly afirma ser importante ressaltar que Reserva Legal e Área de Preservação Permanente têm papel complementar. “Uma não substitui a outra. A Reserva Legal tem uma importância para a manutenção ou restauração de serviços ambientais. Elas são essenciais não só para a questão da biodiversidade, mas também para a proteção e permeabilidade do solo, recarga de aquíferos, proteção de recursos hídricos, estoque de carbono e para manter a população de polinizadores, que é de interesse do próprio agricultor”, disse Joly.

No Brasil, o tamanho da área que deve ser preservada como Reserva Legal varia de acordo com a região: 80% no caso da vegetação florestal da Amazônia, 35% na transição entre Amazônia e Cerrado e 20% nas demais regiões como Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa. Atualmente, a área de Reserva Legal representa quase um terço de toda a vegetação nativa do país.

O Brasil preserva bastante, tem mais de 60% de cobertura de vegetação e tem uma legislação rigorosa. Se olharmos o ranking do Banco Mundial, estamos na trigésima posição, atrás da Suécia e Finlândia, com cerca de 70%. Mas é preciso chamar a atenção de que preservar não é ruim”, disse Metzger.

O artigo foi elaborado em resposta ao Projeto de Lei n° 2362, de 2019, apresentado no Senado Federal. O texto, posteriormente retirado pelos autores, pretendia alterar ou eliminar a exigência de Reserva Legal. Uma versão do artigo em português será levada ao Congresso e apresentada aos deputados, senadores e auxiliares técnicos.

Se o projeto de lei fosse aprovado, uma área de 270 milhões de hectares de vegetação nativa poderia ser perdida, sendo 167 milhões em áreas de Reserva Legal, que se somariam aos 103 milhões atualmente não protegidos pela Lei de Proteção da Vegetação Nativa (conhecida como Novo Código Florestal), nem como Reserva Legal, nem como Área de Proteção Permanente (por não serem margem de rio, topo de morro, área de encosta e outros ecossistemas considerados sensíveis).

Perde-se dinheiro

Um dos argumentos apresentados no artigo é o impacto de polinizadores na produtividade das lavouras de café. “Um estudo realizado pelo nosso grupo mostrou que a produção dos frutos de café é maior com a presença de abelhas, e que isso representa um ganho de R$ 2 bilhões a R$ 6 bilhões por ano no Brasil. Sem o trabalho das abelhas, continuaria tendo produção de café, mas 20% menor”, disse Metzger.

O serviço de polinização, no entanto, ocorre apenas em áreas adjacentes à vegetação natural, geralmente a uma distância inferior a 300 metros, o que exige a criação de interfaces entre culturas agrícolas e mata nativa.

É importante saber que todo ecossistema tem um ponto de equilíbrio. Não adianta perder um Cerrado inteiro para plantar soja e ficar sem esses serviços. Essa é a base da Reserva Legal", disse Paulo Artaxo , membro da coordenação do Programa FAPESP de Mudanças Climáticas Globais, que também endossa o artigo.

“Quem tem uma visão de curto prazo, como parte do agronegócio, pensa em três ou quatro anos de lucro pessoal, e depois o país fica com um prejuízo enorme. Essa filosofia tem de acabar e o artigo deixa isso bem claro”, disse Artaxo.

O artigo Why Brazil needs its Legal Reserves (doi: 10.1158/0008-5472.CAN-19-0490), de Jean Paul Metzger, Mercedes M.C. Bustamante, Joice Ferreira, Geraldo Wilson Fernandes, Felipe Librán-Embid, Valério D. Pillar, Paula R. Prist, Ricardo Ribeiro Rodrigues, Ima Célia G. Vieira, Gerhard E. Overbeck, pode ser lido em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S253006441930118X#bib0625.


Fonte: Agência FAPESP











sábado, 13 de julho de 2019

A destruição da Amazônia aquecerá o planeta



A vegetação nativa do Cerrado está sendo rapidamente convertida em fazendas de gado e plantio. Imagem cedida por Barry Sinervo/UCSC.


A perda de árvores amazônicas pode aumentar a temperatura local em 1,45°C

por James Fair en 11 Julho 2019 | Translated by Lyliah Rossi

  • Um novo estudo de modelagem descobriu que o irrestrito desmatamento da Amazônia brasileira e do cerrado pode resultar na perda de 606.000 quilômetros quadrados de floresta até 2050, levando a aumentos nas temperaturas locais de até 1,45°C, além de aumentos globais de temperatura.
  • Sob um modelo de aplicação do Código Florestal do Brasil, os pesquisadores preveem que o desmatamento seria limitado a 79.000 quilômetros quadrados, com reflorestamento ocorrendo em mais de 110.000 quilômetros quadrados, levando a um aumento médio local de apenas 0,2°C.
  • Pesquisadores dizem que a perda das árvores deve ser interrompida e o programa de reflorestamento começou a proteger as pessoas e a vida selvagem, e a reduzir o aquecimento regional.
  • Répteis e anfíbios em especial ficariam vulneráveis a aumentos de temperatura desencadeados pelo desmatamento e perda de umidade.

Uma árvore de castanha-do-pará dentro do Arco de Desmatamento do Brasil no estado paraense. Um novo estudo examina a relação entre a perda de vegetação nativa e a elevação de temperaturas locais na Amazônia e no cerrado. Imagem cedida por Barry Sinervo/UCSC.


Sabe-se que a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento levam à emissão de dióxido de carbono, elevando as temperaturas em todo o mundo. Menos conhecido é o fato de que a remoção de cobertura das árvores está contribuindo para o aumento das temperaturas em um nível local – por enquanto.

Em um novo estudo publicado no jornal de acesso aberto PLOS ONE, cientistas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e da Universidade da Califórnia, Santa Cruz (UCSC), descobriram que o aumento da temperatura na vizinhança imediata de um área desmatada poderia chegar a 1,45 graus Celsius até 2050 em áreas tropicais como a bacia amazônica ou no cerrado.

“Todos estão familiarizados com o quão quente é nas cidades em comparação com um ambiente florestal, e isso é porque a energia é absorvida e, em seguida, gera radiação infravermelha que aquece o ambiente. O mesmo acontece se você desmata”, explicou o coautor do estudo Barry Sinervo do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da UCSC em uma entrevista com a Mongabay.


Os impactos do desmatamento na temperatura local. Imagem cedida por Barry Sinervo/UCSC.


O estudo explora como o efeito albedo (superfícies mais claras refletem o calor e as mais escuras o absorvem) e a perda de evapotranspiração (a água da terra, das árvores e das plantas volta para a atmosfera) podem conduzir ao aquecimento em escala local em áreas tropicais desmatadas. Em contrapartida, a perda de cobertura vegetativa em florestas boreais subárticas tem pouco impacto nas temperaturas locais.

“Mostramos que o aquecimento naqueles habitats [tropicais] desmatados pode ter um efeito em uma escala local”, disse Sinervo. “E isso significa que, mesmo se a floresta está intacta, está ficando mais quente por causa do desmatamento que está ocorrendo em torno dela.”

Os pesquisadores utilizaram dados recém-lançados sobre cobertura florestal, taxas de evapotranspiração, reflexo da luz solar e temperaturas superficiais da terra para desenvolver um modelo baseado em suas interrelações. Eles então determinaram o que poderia acontecer a respeito do calor em cenários previstos ao longo dos próximos 30 anos.


Uma pequena seção da floresta intacta da Amazônia, incluindo o coautor do estudo Barry Sinervo para fornecer escala. A floresta intacta tem um efeito de resfriamento nas áreas locais. Imagem cedida por Barry Sinervo/UCSC.

O modelo mostrou que o desmatamento causou um aquecimento local consistente em áreas tropicais de 0,38°C entre 2000 e 2010. Em seguida, os cientistas analizaram o que poderia acontecer depois disso em dois cenários: um cenário de típico de “negócios”, que “não assume nenhum controle efetivo do desmatamento no Brasil”, e um cenário em que o Código Florestal do Brasil é devidamente aplicado, restringindo a perda de vegetação nativa.

No primeiro cenário, estima-se que 606.000 quilômetros quadrados da floresta poderiam ser perdidos até 2050, conduzindo aos aumentos locais de temperatura de até 1,45°C, com um aumento médio de 0,11°C.

No cenário do Código Florestal, os pesquisadores preveem que o desmatamento seria limitado a 79.000 quilômetros quadrados até 2050, com reflorestamento ocorrendo em mais de 110.000 quilômetros quadrados, levando a uma média local de aumento de apenas 0,2°C.


Um mapa mostrando as áreas do Brasil susceptíveis a serem afetadas por mudanças de temperatura locais devido ao desmatamento dentro dos dois cenários, como modelado pelo estudo. Imagem cedida por Barry Sinervo/UCSC.


Sinervo contou à Mongabay que os futuros aumentos de temperatura poderiam ser ainda maiores do que os previstos pelo estudo. “Nós só fizemos cálculos com base em 50% de desmatamento versus o Código Florestal”, disse ele. “Se aumentarmos os números (75% de desmatamento) – embora isso não esteja no estudo, eu fiz alguns cálculos – pode-se ter um aumento local de 2°C.”

Ele também apontou que isto está de acordo com os previstos aumentos de temperatura global de até 2°C. “Isso nos dá 2 + 2, que é 4°C de aquecimento contando a mudança climática [global] e o desmatamento [local], e este é um número muito alto para se considerar.”

O estudo deixa claro que grandes aumentos de temperatura local podem escalar as taxas de mortalidade humana, juntamente com a demanda por eletricidade, reduzindo os rendimentos agrícolas e a biodiversidade.

Guarino Colli, um zoólogo da Universidade de Brasília estudando populações de lagartos no cerrado, disse à Mongabay que os répteis são especialmente sensíveis às mudanças de temperatura porque não produzem seu próprio calor através do metabolismo, e também porque o sexo biológico dos jovens em alguns grupos – tartarugas de água doce e crocodilos, mais notavelmente – depende da temperatura de incubação.


O contraste drástico entre a vegetação nativa e as terras degradadas visto no cerrado. A savana do Brasil está atualmente passando por um rápido desmatamento. Imagem cedida por Barry Sinervo/UCSC.

Se as temperaturas locais aumentam abruptamente, especialmente ao meio-dia, ele explicou, muitos répteis tropicais terão tempo disponível reduzido para forragear, acasalar e reproduzir.

“A maioria das pessoas pensam que [animais] vão superaquecer e morrer, mas o impacto é mais sutil”, disse ele. “[Em vez disso,] o período de atividade é reduzido, mas isso pode ter consequências profundas em termos de sucesso reprodutivo e recrutamento.”

Colli postulou que esse efeito térmico pode ser replicado em outros grupos taxonômicos, como insetos, que são bem menos estudados. “O que estamos falando a respeito de lagartos é apenas um fragmento do que pode acontecer a comunidades inteiras”, disse ele.

Há evidências de populações de lagartos locais desaparecendo como resultado de temperaturas crescentes no México. Um artigo publicado por Sinervo e seus colegas na Science em 2010 descobriu que 12% das 200 populações de lagartos locais tinham deixado de existir, e os pesquisadores foram capazes de demonstrar que essa perda foi devido às temperaturas crescentes.


Uma comparação de mudanças projetadas na temperatura local relacionadas ao desmatamento em florestas tropicais, temperadas e boreais. Imagem cedida por Barry Sinervo/UCSC.

Os anfíbios também são bastante sensíveis aos aumentos de temperatura e outras mudanças no clima, como a umidade, de acordo com Denis Otávio Vieira de Andrade, que está colaborando com Sinervo na UCSC. “No caso dos anfíbios, eles são bastante restritos pela umidade, porque eles têm peles muito permeáveis”, disse Andrade. “Se você reduzir a umidade, eles perdem mais água através de sua pele, o que pode causar desidratação e comprometê-los ainda mais.”

Ainda não é possível dizer se e quantas espécies podem ser extintas devido a aumentos de temperatura local e mudanças de umidade na Amazônia, no cerrado e outros ambientes tropicais.

Colli ressaltou que, com seu atual Código Florestal, o Brasil tem fortes leis ambientais: “Na Amazônia, sob o código, você não pode [nunca] cortar mais de 80% [da vegetação nativa em terras privadas, e a percentagem permitida é muitas vezes significativamente menor], e se isso fosse controlado, teríamos uma situação [ambiental] muito melhor”, disse ele. “O estudo do PLOS ONE mostra um modelo de típico de “negócios” versus o Código Florestal, mas o [modelo] de Código Florestal deve ser um de negócios, porque é isso que a lei diz.” No entanto, qual será a posição da administração de direita do Bolsonaro sobre o Código Florestal permanece em questão; o governo já anunciou uma grande desregulamentação ambiental.

Sinervo disse que um programa de reflorestamento ativo é crucial para desajustar os impactos dos aumentos de temperatura globais. Estima-se que há 20 milhões de quilômetros quadrados de terra disponível para reflorestamento em todo o mundo, mas os compromissos globais atuais são de restaurar apenas 3,5 milhões de quilômetros quadrados até 2030.

Florestas já cobriram cerca de 40% da superfície terrestre e perdemos cerca de um quarto da cobertura até hoje – transformando o número inicial em cerca de 30% – com grande parte dessa perda tendo ocorrido nos últimos 300 anos. Se as florestas forem ser efetivamente utilizadas como um meio de sequestrar carbono e manter as temperaturas locais baixas nos trópicos, então o mundo deve reverter a sua tendência de corte de árvores de 3 séculos de duração.

Citação:

Prevedello JA, Winck GR, Weber MM, Nichols E, Sinervo B (2019) Impacts of forestation and deforestation on local temperature across the globe. PLoS ONE 14(3): e0213368. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0213368


Fonte: Mongabay




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