quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Brasil pode enfrentar uma elevação de 4°C a 4,5°C em relação à temperatura pré-industrial, diz Paulo Artaxo

 

Artaxo citou que projetos de restauração ecológica são importantes para revitalizar serviços ecossistêmicos essenciais, como a manutenção do regime de chuvas, mas que a escala das iniciativas não consegue compensar a continuidade do uso de combustíveis fósseis (foto: Aline Pontes Lopes/Pesquisa FAPESP)

Em evento na Zona Azul da COP30, o físico e climatologista disse que o mundo está próximo de superar o limite de 1,5 °C de aquecimento médio, seguindo para 2,8 °C

Luciana Constantino, de Belém | Agência FAPESP – O mundo está próximo de superar o limite de 1,5 °C de aquecimento global médio e segue rumo a perigosos 2,8 °C. No Brasil, por estar em uma região tropical e continental, os impactos tendem a ser os mais severos: o país pode enfrentar uma elevação de 4 °C a 4,5 °C em relação ao período pré-industrial.

Para frear essa trajetória, seria necessária a eliminação da exploração e uso de combustíveis fósseis a curto prazo em uma transição justa e factível. Por isso, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém, é vista como uma oportunidade crucial para que os países definam um roteiro claro de substituição do uso de petróleo, gás e carvão. O alerta foi feito pelo físico e climatologista Paulo Artaxo durante apresentação realizada no estande da Finlândia, na Zona Azul da COP30, na sexta-feira (14/11).

O limite de 1,5 °C foi estabelecido no Acordo de Paris, em 2015, e é tratado pela comunidade científica como um patamar razoavelmente seguro para impedir impactos ainda mais severos da crise climática.

“Para evitar esse cenário, é preciso adotar técnicas como a chamada carbon dioxide removal, ou seja, remover dióxido de carbono [CO2] que já foi emitido para a atmosfera nas últimas décadas. Há algumas potenciais maneiras de fazer isso, sendo uma delas a recuperação ecológica em larga escala, ou seja, recuperar áreas de florestas, replantando o que desmatamos”, afirmou Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP).

“O problema é que nenhuma técnica existente hoje efetivamente funciona na escala necessária e com um preço que possa ser pago. O alto custo chega a milhares de dólares por tonelada de CO2 removida. O que não quer dizer que a ciência daqui a 20, 30, 40 anos não desenvolva outras técnicas inovadoras. Por isso, a melhor solução é atacar o problema pela raiz, fazendo uma transição energética justa e rápida e acabando com a exploração de combustíveis fósseis.”

Artaxo é um dos nove cientistas internacionais que apresentaram uma declaração com um aviso semelhante, destacando a importância de dados e ciência para a tomada de decisões. Também assinam o documento os pesquisadores brasileiros Thelma Krug, integrante do Conselho Superior da FAPESP; Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e copresidente do Painel Científico para a Amazônia; e Marina Hirota, do Instituto Serrapilheira.

A “declaração sobre o estado atual das negociações da COP” foi divulgada no Pavilhão de Ciências Planetárias, o primeiro desse tipo em conferências do clima das Nações Unidas.

“Cada aumento de 0,1 °C no aquecimento global resulta em impactos e riscos substancialmente maiores, incluindo ondas de calor mais longas e mortais, incêndios florestais mais frequentes e intensos, tempestades e precipitações extremas, com danos desproporcionais a comunidades vulneráveis, economias frágeis e povos indígenas. Isso significa que a adaptação deve ser um foco importante na COP30”, escrevem os cientistas (leia a íntegra aqui: planetarysciencepavilion.org/2025/11/14/statement-from-scientists-at-the-planetary-science-pavilion-about-the-current-state-of-cop-negotiations/).

Perseguir a meta de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5 °C mesmo que as perspectivas sejam de ultrapassá-la também já havia sido a conclusão de debate realizado entre integrantes de Conselho Científico da presidência da COP30 (leia mais em: agencia.fapesp.br/56438).

Caminhos

Artaxo citou que projetos de restauração ecológica são importantes para revitalizar serviços ecossistêmicos essenciais, como a manutenção do regime de chuvas, mas que a escala das iniciativas não consegue compensar a continuidade do uso de combustíveis fósseis. “Não vai ser possível plantar árvores suficientes na superfície da Terra para sequestrar CO₂ se continuarmos emitindo como hoje”, disse.

O pesquisador destacou a proposta de produzir um “mapa do caminho” para a descarbonização de todos os setores da economia. “O que fizermos hoje determina o que as próximas gerações terão de limpar daqui a 20, 30 ou 100 anos”, afirmou Artaxo. O termo “mapa do caminho” – roadmap – é usado em negociações internacionais para planos de ação que estabelecem etapas, prazos e metas concretos rumo a um objetivo comum, definindo quem faz o quê, em qual prazo e com quais recursos.

Nos bastidores, o Brasil tem se mobilizado para oficializar um roadmap de abandono dos combustíveis fósseis na agenda da COP30, que entra nesta semana na reta final de negociações, com previsão de terminar na sexta-feira (21/11). A proposta já teve a adesão de vários países europeus e em desenvolvimento.

Fonte: Agência FAPESP




segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Minha participação em matéria sobre a criação do TFFF, o fundo para a proteção das florestas tropicais

Floresta Amazônica vista de cima. Foto Brasil Escola UOL.

TFFF é avanço histórico por recompensar serviços ambientais

por Cintia Salomão

Especialistas ouvidos pelo Integridade ESG celebram criação do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, que obteve apoio de vários países ao ser anunciado pelo governo brasileiro durante a Cúpula de Líderes. “Pela primeira vez, haverá valorização e recompensa pelos serviços ecossistêmicos”, ressalta o climatologista Carlos Nobre

O Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado pelo presidente Lula durante a Cúpula de Líderes em Belém, representa uma novidade importante para estimular a conservação dos biomas, de acordo com especialistas ouvidos pelo Integridade ESG.

Para o cientista Carlos Nobre, o novo mecanismo representa o surgimento de uma forma recompensa por serviços ecossistêmicos.

A implementação do TFFF é muito importante. Pela primeira vez, haverá valorização e recompensa pelos serviços ecossistêmicos, mantendo as florestas e a água, essencial para manter a biodiversidade aquática e terrestre. Vamos torcer muito para que esse Fundo seja efetivamente implementado”, define o Prêmio Nobel da Paz (2007) como integrante da equipe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O TFFF aplica a lógica de mercado ao financiamento climático e captar cerca de US$ 125 bilhões em investimentos privados. O capital será reinvestido em projetos com maior taxa de retorno. A diferença entre o que é pago aos investidores e o que é obtido nessas aplicações (spread) será destinada a remunerar financeiramente países que preservam suas florestas tropicais, de forma proporcional à área conservada. Já anunciaram contribuição financeira Noruega, França, Indonésia e Alemanha, além do próprio Brasil.

Desde que a ideia foi lançada pelo Brasil na COP28, em Dubai, pelo presidente brasileiro e pelo ministros Marina Silva e Fernando Haddad, o seu método veio sendo desenvolvido, assim como os seus valores, lembra o climatologista.

O governo brasileiro quer, rapidamente, nos próximos dias, durante a COP, ultrapassar os 10 bilhões de dólares. O montante seria investido só em ações renováveis. Ou seja, nenhum empréstimo desse fundo iria para qualquer iniciativa de risco ou destruição das florestas, agropecuária, mineração, combustíveis fósseis, ou seja, nada disso. Iria só para ações de proteção da floresta e para a grande escala de restauração florestal. Pela primeira vez na história, se colocariam 4 dólares por hectare da floresta mantida, protegida, por ano. Estamos falando de mais de 10 milhões de quilômetros quadrados, mais de 1 bilhão de hectares. Isso corresponde a 4 bilhões de dólares por ano, que serão destinados a todos os países que mantêm as florestas”, calcula.

O TFFF prevê a destinação de pelo menos 20% dos pagamentos recebidos por cada país para povos indígenas e comunidades locais, o que é positivo para Carlos Nobre.

Essas comunidades já protegem muito bem as florestas. Vamos torcer muito para que isso seja efetivamente implementado. Certamente levará alguns anos para a efetivação desse fundo, mas é muito boa a ideia, além de necessária, pois trata-se da primeira vez que todos os serviços ecossistêmicos serão valorizados, mantendo as florestas e a água, essencial para manter a biodiversidade aquática e terrestre, e o uso humano de todos os produtos da biodiversidade. A floresta amazônica recicla muito bem a água e exporta grande quantidade de vapor de água para o sul, abastecendo de 40% a 50% da chuva do Cerrado e boa parte da chuva da Mata Atlântica. Temos que torcer muito que o setor financeiro dos governos e o setor financeiro privado apoie esse projeto, para que, em poucos anos, já tenhamos esse valor calculado, de 125 milhões de dólares”, conclui.

O cálculo para o pagamento do fundo será baseado em dados de monitoramento por satélite e em padrões técnicos internacionais a fim de permitir o nível de conservação de cada território.

Para Daniel Caiche, professor de pós-graduação em ESG e Sustentabilidade Corporativa da Fundação Getulio Vargas (FGV), o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre marca um avanço histórico na forma como o Brasil e o mundo passam a enxergar as florestas. No entanto, para alcançar credibilidade, o TFFF precisa unir transparência, governança e tecnologia de alta precisão.

Os mecanismos de verificação devem basear-se em sistemas que utilizem imagens de satélite com adequada resolução e frequência temporal, capazes de detectar variações sutis na cobertura florestal. Esses dados devem ser integrados em modelos geoespaciais para garantir acurácia científica e rastreabilidade total. Além disso, a validação por instituições independentes e centros de pesquisa é uma medida recomendável, para assegurar que as informações sejam consistentes e verificáveis, analogamente aos mercados voluntários e regulados de carbono”, pondera.

Esforço em conjunto do setor financeiro e do setor ambiental, frisa Rita Scarponi

Rita Maria Scarponi, advogada e defensora dos biocréditos, interpreta a novidade como uma etapa importante rumo ao financiamento climático.

Estou bastante otimista em relação aos benefícios e ao potencial inovador do TFFF. Enxergo como um passo essencial na direção certa rumo ao financiamento climático, com potencial de redefinir como a conservação é abordada globalmente. O setor financeiro é essencial para proporcionar soluções ambientais. Afinal, somente o sistema organizado é capaz de transmitir a confiança regulatória e fiscalizatória de governança, elementos essenciais para que um Fundo dessa natureza atinja esses objetivos. Sempre defendi que, na verdade, nós estamos tratando, quando falamos da ligação do ambiente com o sistema financeiro, de bioeconomia, que representa nada mais do que essa união de esforços do setor financeiro com o meio ambiente como um todo, criando produtos capazes de gerar essa segurança”, frisa a especialista em regulação, mercados financeiro e de capitais e meio ambiente e pesquisadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Para o jurista Guilherme Vinhas, autor do livro “Fundamentos da Transição Energética”, a iniciativa do governo brasileiro é bastante importante, pois o fundo cria um estímulo econômico para os países que mantiverem as florestas em pé.

E a combinação de recursos públicos com recursos privados cria uma lógica sustentável em termos financeiros. Se o TFFF tiver recursos relevantes, vão gerar uma receita e uma parte do resultado dessa receita, o spread, vai ser convertido em investimento em florestas”, esclarece, citando a Noruega como exemplo de grande produtor de petróleo e gás que detém dos maiores fundos soberanos do mundo e maior investidor do Fundo Amazônia, alimentado com o recurso da produção de fósseis.

Para ele, seria um sinal de que, “por enquanto, não dá para parar de produzir petróleo”.

A transição energética, como diz o próprio nome, é uma transição, um processo gradual. Temos que descarbonizar a própria produção de petróleo e também gerar mais eficiência energética, aumentar a produção de renováveis, e tudo isso demora e leva tempo e dinheiro. Em resumo, acho que foi uma iniciativa bastante importante. Afinal, as florestas sequestram um volume de carbono muito grande. Portanto, é fundamental pararmos parar com a invasão de florestas e o desmatamento, mas também regenerar o que já foi desmatado”.

O engenheiro florestal e ambientalista Axel Grael também celebrou a “iniciativa criativa do governo brasileiro que começa a ganhar musculatura na COP30”.

Como engenheiro florestal e militante ambientalista, que acompanha a agenda do clima, vejo a importância de se ter um mecanismo que viabilize os investimentos para proteger as florestas tropicais é fundamental. Há na Amazônia um risco muito grande de se chegar a um ponto de não retorno, a partir do qual tende a passar por um processo de savanização. Se perdemos essa capacidade das florestas tropicais em função de desmatamento, queimadas e falta de gestão, a situação climática poderá ficar muito pior”, alerta, lembrando que estamos na década da restauração florestal, instituída pela ONU, estimulando a convergência de uma série de iniciativas que fortalecem a recuperação florestal para enfrentar as mudanças climáticas”, destaca o ex-prefeito de Niterói (RJ), ao se referir à Década da Restauração de Ecossistemas da ONU (2021-2030).

Fonte: Integridade ESG



terça-feira, 11 de novembro de 2025

IBGE: Niterói tem renda média de R$ 5,3 mil e supera RJ e SP

 

Niterói voltou a se destacar no cenário socioeconômico brasileiro. Dados do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o município fluminense alcançou uma das maiores rendas médias do país: R$ 5.371,43 por trabalhador, mais que o dobro da média nacional, estimada em R$ 2.851 no período analisado.

O desempenho coloca a cidade entre as 19 únicas no Brasil cujo rendimento ultrapassa quatro salários mínimos da época (R$ 1.212). O valor também supera com folga o que é registrado em capitais como São Paulo (R$ 4.547,62) e no próprio Rio de Janeiro (R$ 4.081,71).

Segundo o IBGE, as regiões Sudeste e Sul concentram as cidades com maiores rendimentos per capita do país. Entre os dez primeiros colocados aparecem Nova Lima (MG), líder com R$ 4.300; São Caetano do Sul (SP), com R$ 3.885; e Florianópolis (SC), com R$ 3.636. Balneário Camboriú (SC) e Niterói (R$ 3.577) completam o grupo das cinco primeiras posições. A lista também inclui municípios catarinenses como Marema, Petrolândia e Tunápolis, além de Vitória (ES).

Comparação regional

No estado do Rio, Niterói aparece isolada na liderança da renda média. A diferença se torna mais evidente quando comparada aos municípios vizinhos da Região Metropolitana. São Gonçalo, por exemplo, registra R$ 2.122,54, menos da metade do rendimento médio niteroiense. Maricá, impulsionada pelos royalties do petróleo, aparece com R$ 2.778,51. Itaboraí tem o pior desempenho entre as cidades analisadas, com apenas R$ 1.896,86.
Entre os municípios mais ricos do país

A presença de Niterói entre as 20 cidades de maior renda no Brasil reflete um padrão comum identificado pelo IBGE: municípios de médio porte, integrados a grandes regiões metropolitanas e com alta concentração de moradores de renda elevada. É o caso também de Nova Lima (MG), São Caetano do Sul (SP) e Santana de Parnaíba (SP).

Desigualdade estrutural persiste

Apesar dos números expressivos, o Brasil segue marcado por grandes contrastes socioeconômicos. Na outra ponta, Uiramutã (RR), na fronteira com a Venezuela e a Guiana, registrou a menor renda média do país: apenas R$ 288,65 mensais per capita.

No total, 520 municípios brasileiros tinham rendimento inferior a um salário mínimo na época do levantamento. Apenas 19 cidades ultrapassavam quatro salários mínimos.

De acordo com o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, a renda elevada observada em regiões metropolitanas mais ricas “é um reflexo das desigualdades estruturais do país”. Segundo ele, o mercado de trabalho é diretamente influenciado pelo nível de desenvolvimento econômico, acesso a serviços e infraestrutura local.

Mulheres ganham bem menos

O recorte de gênero é um dos pontos mais preocupantes do levantamento. Enquanto a diferença salarial entre homens e mulheres no Brasil alcança 24%, em Niterói o índice chega a 27%.

Homens no município recebem, em média, R$ 6.192,22, enquanto as mulheres têm rendimento médio de R$ 4.484,01, uma diferença de R$ 1.708,21.

Em nível nacional, o Censo registrou que trabalhadoras ganhavam, em média, R$ 2.506 em 2022, contra R$ 3.115 dos trabalhadores homens. Apesar de Niterói figurar entre as cidades mais ricas do país, a desigualdade salarial permanece acentuada e acima da média brasileira.

Fonte: IG


domingo, 9 de novembro de 2025

Presidência da COP divulga a 9ª Carta aos países para avanços no enfrentamento da Emergência Climática


O presidente designado da COP30 (assume a presidência oficialmente nesta segunda-feira), embaixador André Corrêa do Lago, publicou nesse sábado a Nona Carta da Presidência Brasileira. Mais uma vez, seguindo o tom dos documentos anteriores, a Carta exorta os países a avançar para assumam o compromisso para a efetiva ação e que as medidas para enfrentar a Emergência Climática: 

"Esta carta trata do desafio decisivo de manter vivo o objetivo de 1,5 °C – respondendo à urgência climática por meio da aceleração da implementação e do fortalecimento da cooperação internacional", enfatiza o comunicado.

Leia a íntegra do texto, a seguir:

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Prezadas amigas, prezados amigos,

Na continuidade do nosso Mutirão Global contra a mudança do clima, a Presidência brasileira da 30ª Sessão da Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) apresenta sua nona carta à comunidade internacional. Esta carta trata do desafio decisivo de manter vivo o objetivo de 1,5 °C – respondendo à urgência climática por meio da aceleração da implementação e do fortalecimento da cooperação internacional.

Convido a comunidade internacional a enfrentar a verdade que nos aguarda em Belém. A COP30 representa um ponto de inflexão para o cumprimento do objetivo último da Convenção – o mesmo propósito que orienta o Protocolo de Quioto e o Acordo de Paris. Devemos escolher: permitir que a inércia nos conduza ao colapso, ou unir-nos, com coragem e cooperação, para conduzir o mundo ao avanço.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) adverte que os riscos decorrentes da mudança do clima vão muito além do aumento na frequência e na intensidade dos eventos climáticos extremos. Cada incremento no aquecimento global eleva a probabilidade de mudanças abruptas e irreversíveis no sistema climático, inclusive aquelas desencadeadas quando pontos críticos de inflexão são alcançados. Essas transformações podem comprometer a resiliência dos sistemas sociais, econômicos e políticos, com consequências devastadoras. Em poucas palavras, desequilibrar os sistemas vitais da Terra pode precipitar um colapso sistêmico de economias, sociedades e instituições.

À beira dos pontos de inflexão: a Ciência se une ao nosso Mutirão Global

Lançado durante a Pré-COP30 (Brasília, outubro), o Relatório de 2025 sobre Pontos de Inflexão Globais confirmou que o mundo entrou em uma nova realidade. O aquecimento global caminha para ultrapassar 1,5 °C, empurrando a humanidade para uma zona de perigo na qual múltiplos pontos de inflexão podem desencadear transformações em cadeia e que se reforçam mutuamente. À medida que um sistema desestabiliza outro, o equilíbrio do qual depende a vida humana começa a se desfazer.

Os pontos de inflexão representam, portanto, uma interferência antrópica perigosa no sistema climático – exatamente o que a UNFCCC e o Acordo de Paris foram concebidos para evitar. A ciência adverte que minimizar o excedente além de 1,5 °C é essencial para evitar efeitos em cascata, mas a janela de ação está se fechando rapidamente. Cada fração de grau e cada ano além do limite de 1,5 °C fazem diferença.

A mesma ciência que nos alerta sobre os riscos também revela caminhos para a esperança. Ela mostra que é possível acionar pontos de inflexão positivos – limiares em que mudanças tecnológicas, comportamentais e sociais se aceleram em direção a um desenvolvimento de baixo carbono e resiliente. Quedas rápidas nos custos das energias renováveis já criam processos de retroalimentação positiva, impulsionando transformações mais velozes do que aquelas alcançadas por políticas públicas isoladamente. Ao conectar essas dinâmicas por meio da cooperação e da ação coletiva, a humanidade pode transformar a crise em regeneração. Entre as principais alavancas identificadas pelo Relatório sobre Pontos de Inflexão Globais estão infraestrutura pública digital, financiamento acessível para países em desenvolvimento, regeneração da natureza, instrumentos de política pública que orientam a transição energética e transições geridas pelas comunidades para enfrentar a fome, a pobreza e a desigualdade.

Pontos de inflexão positivos já começam a gerar efeitos em cascata em diferentes setores e regiões. Embora a janela de oportunidade esteja se estreitando, manter vivo objetivo de 1,5 °C ainda é possível – desde que a cooperação internacional seja direcionada para catalisar círculos virtuosos de transformação acelerada. Este é o momento de transformar o risco de pontos de inflexão planetários em oportunidade para uma guinada global.

De lacunas a alavancas: Acelerando a implementação, a solidariedade e a cooperação

Caminhos em direção a Belém ainda enfrentando grandes lacunas em ação e ambição climática global. O Relatório de Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), publicado pelo Secretariado da UNFCCC, juntamente com o Relatório de 2025 sobre a Lacuna de Adaptação e o Relatório de 2025 sobre a Lacuna de Emissões, ambos do PNUMA, revelam um cenário preocupante.

Ainda assim, apesar dos desafios crescentes, a transição climática global já se afirma como uma tendência irreversível e um motor essencial do desenvolvimento sustentável – demonstrando que o Acordo de Paris está funcionando. A tarefa adiante é acelerar a implementação para manter 1,5 °C ao nosso alcance, ao mesmo tempo em que construímos resiliência aos impactos crescentes e compartilhamos os benefícios dessa transformação de forma justa e equitativa, entre países e dentro deles.

Registro meu apreço aos países que apresentaram novas NDCs em resposta ao primeiro Balanço Global (GST) e conclamo os demais a fazê-lo até a COP30.

Coletivamente, as novas NDCs apontam para uma redução projetada inédita nas emissões até 2035. Por meio da cooperação internacional e de esforços nacionais, a humanidade está curvando a trajetória das emissões para baixo pela primeira vez na história. Mas ainda não nos movemos rápido o suficiente. Nossa direção está melhorando, mas agora enfrentamos uma verdade inegável: precisamos de mais velocidade.

Esses resultados reforçam a urgência de transformar lacunas em alavancas de progresso. O desafio que se coloca não é apenas identificar o que falta, mas mobilizar o que impulsiona – converter os déficits de ambição, financiamento e tecnologia em forças de aceleração.

A ação climática já não pode mais se limitar a uma agenda linear de descarbonização. Ela deve ser impulsionada pelo desenvolvimento sustentável em todas as suas dimensões – social, econômica e ambiental – rumo a uma transformação não linear, exponencial em velocidade e escala. Essa abordagem multidimensional constitui a base das três prioridades interligadas definidas pela Presidência da COP30: (1) reforçar o multilateralismo e o regime climático sob a UNFCCC; (2) conectar o regime climático à vida real das pessoas e à economia real e; (3) acelerar a implementação do Acordo de Paris.

Na COP30, manter vivo o objetivo de 1,5 °C deve, portanto, continuar sendo nossa Estrela Polar. Para alcançá-la, devemos mobilizar as cinco dimensões da ação climática – mitigação, adaptação, financiamento, tecnologia e capacitação – orientados pelo Cruzeiro do Sul, nossa bússola de cooperação e equidade. Que as estrelas se alinhem em Belém. Que os hemisférios se encontrem rumo à transformação. Norte e Sul, Leste e Oeste – uma só humanidade, um só planeta.

De soluções ilusórias a um ecossistema de soluções

A COP30 não oferecerá uma única resposta às lacunas de implementação e ambição do mundo – porque nenhuma resposta isolada é capaz de corresponder à escala e à diversidade desse desafio. Em vez disso, Belém reunirá um conjunto de respostas, entrelaçadas entre as negociações, a Agenda de Ação, a Cúpula de Líderes e uma mobilização global – todas voltadas a acelerar a implementação e fortalecer a cooperação internacional.

A implementação acelerada deve tornar-se nosso novo parâmetro de ambição diante da urgência climática. Conclamamos todos os atores a trabalharem juntos para ampliar e acelerar significativamente a ação climática em todo o mundo, em todos os setores, níveis e esferas de atuação, como parte de uma mobilização global contra a mudança do clima.

Na COP30, nossa resposta coletiva à urgência climática deve se materializar por meio da implementação acelerada, da solidariedade e da cooperação internacional. Essas ações nos darão confiança, recursos e capacidade para estabelecer metas ainda mais ambiciosas. Financiamento, tecnologia e fortalecimento de capacidades devem evoluir de instrumentos de negociação para alavancas de transformação, permitindo que os países em desenvolvimento avancem com mais rapidez e alcance. Desde a mobilização do financiamento climático até a integração da agenda climática no sistema financeiro, precisamos avançar simultaneamente na provisão de recursos e no alinhamento de fluxos financeiros rumo a um desenvolvimento de baixa emissões e resiliente ao clima. Juntamente com a Presidência da COP29, a Presidência da COP30 espera que o “Mapa do Caminho de Baku a Belém para 1,3T” sirva tanto como um caminho para liberar esse potencial como uma ponte entre ambição climática e mudança sistêmica em nossa arquitetura financeira internacional.

Em minha sexta carta, de 19 de agosto, lancei as Consultas da Presidência da COP30, antecipando discussões que de outra forma ficariam restritas às duas semanas da Conferência. Essas consultas incluíram reuniões virtuais e encontros presenciais à margem da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas (Nova York, setembro) e da Pré-COP30. Senti-me honrado e inspirado pelo que ouvi. De todas as Partes, escutei um compromisso inabalável com o multilateralismo, com o Acordo de Paris e com resultados bem-sucedidos na COP30, capazes de enviar uma forte mensagem de unidade na celebração do décimo aniversário do Acordo de Paris. Todos reconhecemos que a transição climática é a tendência do nosso tempo, como observou o presidente da China, Xi Jinping. Há muito mais que nos une do que nos separa.

Também ouvi das Partes uma determinação clara de enfrentar as lacunas de implementação e ambição na COP30, por meio da aceleração da implementação e do fortalecimento da cooperação internacional, em especial nos meios de implementação – como parte dos esforços contínuos para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C, levando em consideração as diferentes circunstâncias nacionais, trajetórias e abordagens, bem como as disposições legais, princípios e objetivos de longo prazo do Acordo de Paris.

Ouvi igualmente das Partes o quão orgulhosos estamos da arquitetura do Acordo de Paris que construímos juntos. Convido os países a chegarem à COP30 de cabeça erguida: o progresso e o legado institucional alcançados desde a adoção do Acordo de Paris na COP21 (Paris, 2015) são uma realização monumental. Com a conclusão do Livro de Regras de Paris na COP29 (Baku, 2024), a COP30 marcará a primeira conferência em que o ciclo de políticas do Acordo de Paris estará plenamente em funcionamento. NDCs, NAPs e GSTs periódicos, bem como a Estrutura Aprimorada de Transparência (ETF) – incluindo o primeiro ciclo de Relatórios Bienais de Transparência (BTRs) e a Consideração Multilateral Facilitadora do Progresso (FMCP) – não são meros processos burocráticos, mas uma demonstração inegável da sofisticação institucional do multilateralismo climático. Para além da UNFCCC, esse ciclo de políticas serve como sinal e guia para que atores e instituições se alinhem a decisões multilaterais e repositórios de recursos.

Conclamo todas as Partes a fazerem de nosso trabalho sob a agenda de negociações um verdadeiro Mutirão, capaz de transformar o ciclo de políticas do Acordo de Paris do desenho à entrega. A COP30 pode representar a maturidade do regime climático – a passagem da negociação para a implementação coordenada, ancorada na equidade, na ciência e na cooperação.

Uma Agenda de Ação Acelerada

Conectando ambição e implementação em seis eixos – de florestas, oceanos e sistemas alimentares a energia, transporte, cidades, finanças, empregos e tecnologia –, a Agenda de Ação foi concebida como uma plataforma para canalizar a cooperação e a coordenação globais em torno de pontos de inflexão positivos, guiada pelo resultado do primeiro Balanço Global (GST), acordado na COP28.

Mais do que um repositório de instrumentos, o celeiro de soluções torna-se agora um integrador de soluções. Combinadas, soluções existentes e emergentes podem tornar-se maiores do que a soma de suas partes. Ao mesmo tempo em que fortalece a transparência de iniciativas lançadas em COPs anteriores, os planos de aceleração da transição funcionarão como planos de ação para pontos de inflexão positivos – conectando iniciativas entre setores e regiões, de modo que se reforcem e multipliquem transformações, em vez de competirem por visibilidade.

Por meio dessa abordagem em rede, a COP30 encarnará a transição da governança pela negociação para a governança pela ativação – onde decisões se traduzem em implementação e compromissos evoluem em colaboração. A Agenda de Ação funcionará como um ecossistema vivo de implementação, conectando atores, recursos, mecanismos e processos a soluções concretas.

Ao longo dos dias temáticos da Agenda de Ação, a Presidência da COP30, em parceria com diversos atores, anunciará iniciativas emblemáticas voltadas a responder à urgência climática por meio da implementação acelerada e do reforço da cooperação internacional. A redução do metano e a restauração de florestas e ecossistemas representam medidas de ação rápida e de grande impacto. Elas são capazes de atuar como freios de emergência acionados pela humanidade – desacelerando o aquecimento global na década crítica que temos pela frente, mantendo 1,5 °C ao nosso alcance e protegendo os mais vulneráveis ao redor do mundo.

A COP30 também representa uma oportunidade histórica para unir as transições digital e climática em uma única transformação planetária. As tecnologias digitais podem oferecer a velocidade e a escala necessárias para acelerar o desenvolvimento de baixo carbono e resiliente ao clima em todo o mundo. A Presidência do G20 da Índia em 2023 demonstrou que uma infraestrutura pública digital (DPI) bem desenhada, ampliada pela inteligência artificial, pode viabilizar o uso de dados para acelerar o progresso rumo aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) por meio de uma transformação digital inclusiva. Em apenas alguns anos, o ecossistema de pagamentos digitais PIX, no Brasil, transformou profundamente a economia e a sociedade brasileiras, impulsionando a inclusão financeira, o empreendedorismo e a prosperidade de empresas e cidadãos. No enfrentamento da mudança do clima, as aplicações de DPI podem abranger desde o compartilhamento de dados em tempo real para alertas precoces e resposta a desastres, até a geração de renda para pequenos agricultores que recebam pagamentos por práticas agrícolas sustentáveis, e para famílias que comercializam a energia que produzem por meio de sistemas descentralizados. O acesso aberto a dados e a interoperabilidade podem nos permitir criar uma rede inédita de inteligência planetária, capaz de acelerar a implementação e conectá-la às pessoas.

Aproveitando a transparência radical, a modularidade, a escala e a velocidade proporcionadas pela infraestrutura pública digital (DPI), a Presidência da COP30 tem trabalhado de perto com parceiros internacionais para fortalecer instituições e construir capacidades estatais. Instituições mais robustas – especialmente nos países em desenvolvimento – são fundamentais não apenas para o desenho e a implementação dos NAPs, NDCs e BTRs, mas também para o planejamento de longo prazo, a resposta a crises e a preparação para transições integradas em toda a administração pública, a sociedade e a economia rumo ao futuro. Com o apoio da cooperação internacional, instituições nacionais sólidas de planejamento e implementação podem permitir que os países em desenvolvimento aproveitem plenamente as oportunidades da transição climática, transformando NAPs e NDCs em planos nacionais de investimento de propriedade dos países, conectados ao financiamento internacional, aos mercados de capitais e às tecnologias de ponta.

O mundo vem à Amazônia: Quando fazemos a virada juntos

A COP30 acontecerá no coração da Amazônia, um ecossistema que sustenta a vida – e que hoje se encontra à beira de um ponto de inflexão irreversível. O Relatório de 2025 sobre Pontos de Inflexão Globais adverte que a mudança do clima e o desmatamento, em conjunto, colocam a floresta amazônica sob o risco de um colapso ecológico generalizado acima de 1,5 °C e abaixo de 2 °C, com consequências capazes de devastar a biodiversidade, desestabilizar os sistemas de chuvas em toda a América do Sul e ameaçar a vida de mais de cem milhões de pessoas que dependem da floresta para sua água, alimento e cultura.

A Amazônia encarna a verdade que nos aguarda em Belém: o futuro da humanidade e a saúde do planeta são inseparáveis. A floresta não é uma fronteira distante, mas sim um centro vivo do sistema climático global, o coração pulsante dos ciclos hidrológicos e uma guardiã do equilíbrio de carbono do mundo. Se a Amazônia ultrapassar seu ponto de não retorno, o planeta lutará para recuperar o equilíbrio.

Ainda assim, há esperança nos dados mais recentes. Em 2025, o Brasil registrou o terceiro ano consecutivo de queda no desmatamento da Amazônia, alcançando a terceira menor taxa da série histórica. Desde o início do governo do Presidente Lula, o desmatamento no bioma caiu 50% em termos acumulados. O Cerrado também registrou o segundo ano consecutivo de redução do desmatamento.

À medida que os esforços para combater o desmatamento avançam, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) inaugura uma nova forma de financiar a proteção das florestas tropicais – um mecanismo baseado em resultados, que recompensará os países com florestas tropicais por cada hectare conservado, ajudando a corrigir a falha de mercado que ainda torna as florestas mais valiosas destruídas do que em pé. O Brasil comprometeu-se com 1 bilhão de dólares para o TFFF, acolhe compromissos já anunciados e convida outros países e parceiros a apresentarem contribuições igualmente ambiciosas.

Como disse o Presidente Lula, a COP30 deve ser a COP da Verdade. Em Belém, a verdade deve encontrar a transformação, e a ciência deve tornar-se solidariedade. Podemos transformar nossa luta climática do colapso ao avanço. A COP30 pode ser a COP em que mudamos o rumo da luta climática.

Vamos puxar as alavancas juntos. Vamos mover o mundo. Mudando por escolha, juntos.

André Aranha Corrêa do Lago
Presidente Designado da COP30

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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Mundo vai passar do aquecimento médio de 1,5°C, afirma ONU

Plataforma de petróleo realiza operação de 'flaring' (queima de controle) na costa do Congo — Foto: Stephane Lesbats/WikiCommons/CC

Às vésperas da COP 30, Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas que corte de emissões atrasou demais e será inevitável remover carbono do ar para cumprir meta do Acordo de Paris

Por Rafael Garcia

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) reconheceu pela primeira vez que as promessas de corte de emissões de CO2 avançaram muito pouco, o planeta vai exceder a meta de aquecimento de 1,5°C, e será preciso remover carbono do ar para esfriar a atmosfera caso países queiram cumprir as metas do Acordo do Paris para o clima neste século.

Esta é a principal mensagem da edição de 2025 do Emissions Gap Report (Relatório da Lacuna de Emissões), o estudo que essa divisão da ONU realiza anualmente para balizar as negociações climáticas. O objetivo do Pnuma, um órgão consultivo, é estimular a Convenção do Clima da ONU, um órgão deliberativo, a avançar na agenda de combate ao aquecimento global.

Se o cenário geopolítico já não é favorável para a ocorrência de grandes avanços na COP 30, a conferência do clima de Belém, o Emissions Gap Report coloca ainda mais pressão sobre os negociadores ao lhes mostrar o quão real é o risco de Paris fracassar.

O Pnuma resiste a dizer, porém, que o estouro da meta de 1,5° C (o "overshoot", no jargão da área) representa necessariamente um fracasso. Se essa quebra de limite puder ser revertida, de preferência rapidamente e sem chegar aos 2,0°C, o mundo ainda conseguiria se resfriar de novo até o objetivo original neste século.

— O Acordo de Paris não é muito específico sobre aceitar ou não o overshoot, mas a maior parte das interpretações do texto indicam que sim — afirmou ao GLOBO a cientista dinamarquesa Anne Olhoff, que coordenou o relatório do Pnuma.

Matematicamente, e contando com alguma alguma sorte dentro da margem de erro, ainda seria possível tentar segurar a chegada aos 1,5° C, mas a própria pesquisadora reconhece que na prática isso não é mais possível.

— Na ausência das ações estritas que esses cenários melhores exigiam que tomássemos, incluindo a de reduzir as emissões entre 2020 a 2025, esses cenários não são mais possíveis de serem atingidos — afirmou.

Essa notícia não chega a ser novidade para a comunidade acadêmica, sobretudo após um ano em que a temperatura global já esteve 1,5° C acima da marca de referência, mesmo que a média da década não tenha chegado a tanto. Com o Pnuma anunciando oficialmente que o overshoot é inevitável, porém, essa realidade adquire um peso político maior.

O planeta deve estourar a meta, em primeiro lugar, porque os países não têm feito promessas de cortes de emissão de gases-estufa profundos o bastante. Em segundo lugar, poucos deles agiram o bastante para cumprir as promessas que fizeram nos últimos dez anos, o período em que Paris esteve em vigor.

O Emissions Gap Report faz as estimativas a partir dos compromissos oficiais dos países para o clima contidas nos documentos chamados de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que estão aquém da ambição esperada.

Levando tem conta todas as promessas colocadas na mesa até agora, que cenário que o planeta encara é um aumento de aumento de 2,3°C a 2,5°C. Se levarmos em conta que as promessas não estão em vias de serem cumpridas, esse número chegará a 2,8°C antes de 2100.

O Pnuma reconhece que houve algum progresso. Quando essa mesma análise foi feita no ano passado a realidade que estávamos encarando era de um aumento de até 3,1°C, o que significa uma melhora de 0,3°C na perspectiva.

"Entretanto, uma parcela de 0,1°C dessa melhora se deve a aprimoramentos de metodologia, e a iminente saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris deve cancelar outros 0,1°C do progresso", afirmou no prefácio do relatório Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma. "Isso significa que as novas promessas praticamente nem mexeram o ponteiro."

A maior parte dos países entregou apenas NDCs para o período até 2030. A rodada de documentos que está sendo cobrada dos países da UNFCCC neste ano é relativa ao período de 2030-2035.

Além da falta de ambição, o cenário na Convenção do Clima transparece um desinteresse, porque dois terços dos países nem sequer entregaram suas NDCs. No estudo do Pnuma deste ano, emissões da China e da União Europeia foram calculadas com base em apresentações extraoficiais.

Com o overshoot agora oficialmente declarado inevitável, o Pnuma reitera que serão cruciais os esforços para que ele dure o mínimo possível. Cada ano de atraso torna a economia fóssil mais inflexível, os custos de adaptação mais elevados e elevará a necessidade de tirar carbono do ar. A remoção de CO2 é uma tarefa para a qual só existe hoje uma tecnologia com bom custo-benefício: o plantio de florestas, que faz isso de maneira relativamente lenta.

O Emissions Gap Report põe boa parte de seu foco nos países do G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, que respondem sozinhos por 77% das emissões globais. A maior parte do progresso que foi feito por este grupo grupo está contido nas NDCs do Brasil, que promete zerar o desmatamento nesta década, e dos EUA, que promete cortar mais de 60% das emissões até 2035. Mesmo esses compromissos, porém, estão ainda desalinhadas com os objetivos de Paris, e a NDC americana se torna letra morta assim que o país desembarcar oficialmente de Paris, em janeiro próximo.

Abismo de emissões

Quando se leva em conta todos os países do mundo, a "lacuna" de emissões anuais à qual o relatório do Pnuma se refere ainda é do tamanho de um abismo.

Para conseguirmos chegar a 2100 ainda com menos de 1,5°C de acréscimo, precisaríamos estar em 2035 emitindo entre 22 bilhões e 23 bilhões de toneladas de CO2 a menos do que o que está previsto nas promessas. Isso representa "uma China" e "um EUA" a mais de emissões além do limite.

Segundo Olhoff, mesmo que uma nova rodada de NDCs não esteja prevista para acontecer durante a COP 30, o melhor que os negociadores em Belém podem fazer para começar a reverter esta situação é recolocar o assunto na pauta.

— Nós precisamos que a COP 30 entregue uma resposta às NDCs insuficientes, e vejo que a presidência da COP está muito focada nisso — afirma a cientista. — Se queremos transformar as COPs em COPs de ação, então precisamos analisar como podemos facilitar e acelerar a implementação de soluções que nós já temos.

O presidente da COP 30, André Corrêa do Lago, agradeceu ao Pnuma pelo relatório.

— É importantíssimo a gente ter dados corretos, que sejam os mais próximos da realidade, mesmo que eles não tragam as noticias que a gente prefere — disse ao GLOBO. — Nesse momento a prioridade é ação, Temos que atuar porque sabemos que não temos muito tempo e não chegamos em 2025 onde poderíamos ter chegado.

Ainda não está claro, porém, como a questão da lacuna nas NDCs poderá ser tratada em Belém.

— O tratamento disso na COP é uma questão delicada, porque isso não está agenda da COP. Mas esse relatório é um tema importantíssimo e vai ter que ser considerado — disse Corrêa do Lago.

Fonte: O Globo





Potencial de absorção de carbono por florestas secundárias é discutido em oficina técnico-científica

 

Crédito: Divulgação Inpe

Equipe do projeto Ciência&Clima participou de oficina internacional que abordou lacunas de conhecimento científico e oportunidades para aprimoramento sobre o tema no Brasil

A equipe técnica responsável pelo setor Uso da Terra, Mudança do Uso da Terra e Florestas (LULUCF, na sigla em inglês) do Inventário Nacional de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa participou dos debates técnico-científicos sobre o potencial de remoção de carbono da vegetação secundária. A oficina ‘Sintetizando emissões e remoções de carbono pós-distúrbio nos biomas florestais do Brasil’ reuniu, no fim de outubro, em São José dos Campos (SP), especialistas nacionais e internacionais com conhecimento transdisciplinar sobre o tema que estão desenvolvendo trabalhos para avançar na compreensão sobre o potencial de acúmulo de carbono durante o crescimento da vegetação em florestas que se encontram em regeneração no Brasil.

“As florestas secundárias desempenham um papel muito importante na contabilidade de emissões do setor LULUCF por serem um sumidouro de carbono e têm grande importância frente às políticas públicas relacionadas ao cumprimento das metas de redução das emissões de GEE”, explica a especialista no setor LULUCF do projeto Ciência&Clima, Juliana Davis.

O setor LULUCF é relevante para o país, pois ‘modula’ as emissões de GEE nacionais, tendo sido responsável por 39,5%, conforme os resultados das estimativas de emissões para 2022. Conforme definição do Relatório Nacional de Inventário, as remoções de carbono em vegetação secundária são contabilizadas somente quando ocorre a conversão de uma classe de uso e cobertura para a classe de vegetação secundária. Porém, a determinação dos padrões de crescimento e dinâmica das áreas de vegetação secundária ainda não está bem estabelecida para todas as formações vegetacionais brasileiras. Há lacunas de conhecimento relacionadas à impossibilidade de identificação da dinâmica e tempo de crescimento dessas áreas entre os anos mapeados, por exemplo.

“O Inventário Nacional tem como princípio estar alinhado com a melhor ciência disponível e precisa ser abastecido com a literatura científica mais recente sobre o tema. A partir dos estudos científicos de campo ou sensoriamento remoto entendemos como e quanto a vegetação em recuperação pode absorver em termos de carbono, assim como as diversas variáveis que influenciam nesse processo”, relata Davis.

As discussões da oficina envolveram aspectos sobre o mapeamento de florestas secundárias, abordando onde e em que extensão elas estão crescendo de acordo com os diferentes conjuntos de dados disponíveis. Outro aspecto abordado foi a contabilização das taxas de crescimento e do acúmulo de carbono nesse tipo de vegetação.

O pesquisador do Inpe e cocoordenador científico da Rede Clima, Jean Ometto, destaca que o mapeamento mais detalhado das florestas secundárias permite que o balanço nacional de carbono seja apresentado com o nível de detalhamento. Além de absorver carbono, essa vegetação presta benefícios como serviços ecossistêmicos associados à biodiversidade, regulação do clima local, questões hidrológicas locais. Contudo, o pesquisador enfatiza que para apresentar os benefícios citados, as florestas secundárias precisam ter um tempo de permanência, ou seja, mecanismos de conservação que possam se restabelecer como floresta original. “No Brasil, as florestas secundárias têm tempo de permanência relativamente baixo e isso não traz benefícios para que consigam se restabelecer”, afirma Ometto.

Inventário Nacional - Em sua apresentação, a especialista do setor LULUCF do projeto Ciência&Clima Íris Roitman, destacou como os dados sobre emissões e remoções por florestas secundárias são contabilizados atualmente no setor LULUCF do Inventário Nacional de GEE. Esse setor reporta gases CO2, emissões oriundas de desmatamento e degradação, e remoções efetuadas por vegetação primária de áreas de conservação e terras indígenas e por vegetação secundária; e gases não CO2 que são decorrentes de processos de corte e queima. Além disso, informa emissões e remoções de GEE de produtos madeireiros. “Mencionei ainda os principais desafios que temos para avançar, as lacunas no conhecimento científico, e as oportunidades para aprimoramento”, afirmou Roitman.

A oficina foi coorganizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pelo Centro Alemão de Geociências (GFZ Helmholtz) e pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), com financiamento parcial da Agência Espacial Europeia (ESA). Além de pesquisadores, participaram representantes do governo federal, como Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Serviço Florestal Brasileiro (SFB), Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Saiba mais: Ciência&Clima é o projeto de cooperação técnica internacional executado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na sua implementação e recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), que elabora as Comunicações Nacionais, os Relatórios de Atualização Bienal e os Relatórios Bienais de Transparência do Brasil à Convenção do Clima. O projeto trabalha para fortalecer as capacidades nacionais na implementação da Convenção do Clima e promover a conscientização sobre os impactos da mudança do clima no país.

Acesse: https://www.gov.br/mcti/cienciaclima

Fonte: MCTI



O que é o negacionismo climático e como ele se manifesta?


Uma árvore de baobá desaba na floresta, em Madagascar, e é inspecionada por um especialista. Acontecimentos extremos no clima marcam o "novo normal" que se está se criando com as mudanças climáticas. Foto de William Daniels.

Rejeitar a realidade e os avanços científicos não é algo novo na história da humanidade. Quando o assunto é o clima, saiba como essa rejeição aos fatos científicos acontece.

Por Redação National Geographic Brasil

O negacionismo pode ser definido como uma recusa em aceitar a validade de fatos comprovados cientificamente, ainda que sejam apresentadas evidências concretas sobre ele. É como explica um artigo dedicado ao tema publicado no site do Instituto Butantan – centro brasileiro de pesquisa em biologia e biomedicina do estado de São Paulo –, uma referência em investigação científica.

Esse termo abrange diversas áreas de estudo, entre elas a história, de onde credita-se o surgimento do conceito. "O termo se popularizou no final da década de 1980, depois que o historiador francês Henry Rousso passou a usá-lo para se referir a grupos e indivíduos que negavam a existência das câmaras de gás e o extermínio em massa de judeus pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial", explica o Butantan.

Como o negacionismo vai contra fatos provados, o ato de rechaçar a realidade impacta na evolução do conhecimento, completa a fonte governamental.

Já o negacionismo climático, especificamente, é conceituado como "a manifestação contrária ao fenômeno do aquecimento global provocado pelo aumento das emissões antrópicas", como detalha um artigo publicado pela Fundação Instituto de Administração (FIA), entidade privada sem fins lucrativos ligada à Universidade de São Paulo.

O negacionismo climático atrapalha uma maior compreensão da conscientização ambiental e das mudanças de consumo e comportamento necessárias para melhorar o relacionamento dos seres humanos com a natureza.

Uma mãe foca e seu filhote se refugiam em pedaço de gelo marinho que se desintegra rapidamente na região de Terra Nova e Labrador, no Canadá. Foto de Jennifer Hayes

Existe consenso sobre a crise climática na ciência, mas isso não impede o negacionismo

De acordo com a Sociedade Australiana de Psicologia (APS), "embora a maioria das pessoas afirme estar preocupada com o clima, também é verdade que um grande número delas evita, minimiza, desliga ou se distancia do envolvimento efetivo com os problemas".

Segundo a mesma fonte, a maioria dos cientistas climáticos (cerca de 97%) concorda entre si que a mudança climática é causada pelo comportamento humano. Mesmo assim, existe uma certa “lacuna de consenso” neste assunto, e essa diferença de percepção sobre o grau de concordância entre os cientistas é o que reforça o negacionismo climático entre as pessoas.

Estudos sobre as percepções da mudança climática feitos na Austrália, no Reino Unido e nos Estados Unidos mostraram, por exemplo, que varia entre 5 a 8% da população o número de pessoas que contestam as alterações no clima do planeta, segundo a APS. Já no Brasil, a parcela de negacionistas da população é de 15%, diz uma pesquisa do Datafolha realizada em julho de 2019. Esse número de pessoas que não acredita no aquecimento global e na sobrecarga da Terra, por exemplo.

Moradores de uma cidade na Java Central, na Indonésia, andam ao longo de um caminho alagado após uma inundação. Efeitos extremos devem ocorrer com maior intensidade e frequência em um mundo impactado pela crise do clima. Foto de Aji Styawan

Como a consciência ambiental ajuda a combater o negacionismo climático

Já faz décadas que os cientistas dos mais variados campos de estudo alertam para o aquecimento global e seus impactos no clima, explicando como comunidades de todo o mundo enfrentarão "riscos cada vez maiores devido a níveis sem precedentes de inundações, incêndios florestais, estresse térmico, aumento do nível do mar e muito mais", conta um artigo sobre o tema da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

Embora as comprovações sejam sólidas – "inclusive mostrando que os desastres naturais relacionados ao clima e induzidos pelas pessoas estão aumentando em frequência e intensidade mais cedo do que o previsto originalmente" –, diz a fonte, existe uma lacuna de entendimento a qual é usada por essa pequena parcela da população mundial para rechaçar os avanços da ciência e gerar confusão acerca do assunto.

Sobre esse tema, a entidade australiana completa dizendo que "uma das maneiras de lidar com essa lacuna é aumentar a conscientização sobre o consenso científico em relação às mudanças climáticas", diz.

"A importância disso não pode ser subestimada – pesquisas mostram que as pessoas têm maior probabilidade de apoiar ações políticas para reduzir as emissões de dióxido de carbono se estiverem cientes do consenso esmagador entre os especialistas de que estamos causando o aquecimento global", defende a fonte.

Fonte: National Geographic Brasil




Valores ideológicos influenciam negacionismo climático no Brasil

Foto: Canva. In UFJF

Conclusão é de um estudo de percepção da população brasileira sobre mudanças climáticas, realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia.

Por Aline Weschenfelder

Para entender os fatores que influenciam as percepções dos brasileiros sobre as mudanças climáticas, pesquisadores do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT/Fiocruz) entrevistaram 2.069 homens e mulheres com 16 anos ou mais de todas as regiões do país – considerando variáveis sociodemográficas como gênero, idade, religião, escolaridade e renda – e descobriram que 90% dos brasileiros acreditam nas mudanças climáticas.

De acordo com o estudo, realizado entre agosto e outubro de 2022, 86% acreditam que elas são causadas por ação humana, enquanto 12% sustentam que o fenômeno acontece por mudanças naturais do clima — uma fração preocupante, segundo os autores.

Os pesquisadores verificaram que o grau de escolaridade tem um efeito importante: 93% das pessoas entrevistadas com ensino superior e 87% das que têm ensino fundamental acreditam que as mudanças climáticas existem e que é um problema real, independentemente da faixa etária e do gênero. Aqueles mais informados ou favoráveis à paridade de gênero, à justiça social e à melhor distribuição de renda também são menos negacionistas.

“Nosso estudo indica a importância de algumas variáveis sociodemográficas para a formação de opiniões sobre o tema, especialmente renda e escolaridade, assim como a relevância do conhecimento e da familiaridade com noções de ciência. No entanto, letramento científico e acesso à informação explicam uma parte das atitudes, mas não contam toda a história”, afirmam os autores em artigo publicado na revista Mídia e Cotidiano, em setembro de 2024.

Outros fatores também influem no fenômeno, incluindo atitudes negacionistas como a hesitação vacinal. Entre as pessoas que dizem vacinar os filhos, 4% não acreditam nas transformações que o clima vem sofrendo em decorrência das ações humanas. Esse índice salta para 18% entre os anti-vacinas. Os pesquisadores constataram que fatores como a visão de mundo, a ideologia política e as experiências de vida das pessoas são igualmente relevantes para determinar a aceitação ou rejeição das mudanças climáticas.

Além disso, outro ponto é a confiança na ciência. “As pessoas que não confiam ou que dizem confiar menos nos cientistas são aquelas que têm mais chances de não acreditar na mudança climática”, diz Yurij Castelfranchi, professor associado do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do estudo.

Os autores concluem que a comunicação sobre mudanças climáticas precisa ser elaborada com mensagens capazes de dialogar com diferentes públicos, considerando suas dimensões políticas e de valores morais, sejam eles conservadores ou progressistas, e que não basta passar dados científicos à população como um todo.

Castelfranchi ressalta que a divulgação científica não funciona igualmente para todo mundo, uma vez que muitas pessoas têm uma relação mais forte com valores políticos e morais do que com a alfabetização científica. “Nosso estudo deixa claro que alguns indivíduos são mais vulneráveis à desinformação climática não porque não têm acesso à informação, mas porque associam o tema das mudanças climáticas a posições políticas com as quais eles discordam”, conclui o sociólogo.

A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Eloisa Beling Loose, que não participou do estudo, concorda que a comunicação sobre mudanças climáticas demanda um diálogo com diferentes públicos, “para que estes sejam capazes de compreender o que é uma informação apurada e o que é mera especulação ou opinião”, diz.

Suas análises na área de comunicação e meio ambiente, com ênfase em mudanças climáticas, sugerem que apesar do empenho de diferentes coletivos e setores da sociedade – como cientistas e comunicadores – atestando a existência das mudanças climáticas e promovendo medidas para reduzir seus efeitos, há grupos que insistem em enfatizar que isso é um exagero.

Segundo Loose, são estratégias de grupos financiados por atividades responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa e, mesmo quando confirmam a existência das mudanças climáticas, atribuem a responsabilidade de encontrar uma solução à ciência e à tecnologia. Ela alega que ​o negacionismo ambiental e climático está relacionado a interesses políticos e econômicos. “O nosso modelo de desenvolvimento é atrelado ao crescimento do PIB, que, no caso brasileiro, é dependente da superexploração da natureza”, diz.

Para Loose, além de uma comunicação mais abrangente e eficaz, como apregoam os pesquisadores do INCT, é necessário haver mais transparência e responsabilização acerca da disseminação de conteúdos enganosos. Para a pesquisadora, se faz urgente uma regulamentação das plataformas digitais.

Fonte: Humanamente, Fiocruz



COP30: “Mapa do Caminho” para US$ 1,3 tri propõe taxar poluidores e troca de dívida


Documento do Brasil e do Azerbaijão sobre financiamento climático diz que dinheiro existe, mas precisa ser direcionado para salvar o planeta.

Os presidentes da COP30, André Corrêa do Lago, e da COP29, Mukhtar Babayev, divulgaram ontem (5/11) o aguardado Mapa do Caminho Baku-Belém. O documento é um plano estratégico para mobilizar os tão necessários US$ 1,3 trilhão anuais em financiamento climático até 2035 para países em desenvolvimento.

A principal mensagem do mapa é que o dinheiro para US$ 1,3 trilhão já existe e há caminhos para obter e canalizar esses recursos, destaca a Sumaúma. Para isso, é preciso empenho político sobretudo dos governos, que podem também direcionar investimentos de bancos multilaterais e de empresas privadas.

O documento propõe a revisão de regras financeiras internacionais e a taxação de fortunas, jatinhos e bens como artigos militares ou de luxo, informa a Folha. Isso implica reformas nos bancos multilaterais, nos fundos climáticos globais e no setor financeiro privado. O mapa incorpora medidas sugeridas por grupos de países, como os africanos, e pelo movimento socioambiental, como a taxação de atividades poluidoras, de transações financeiras e dos bilionários, além da troca de dívida externa por investimentos no meio ambiente e no clima.

O mapa estabelece cinco áreas prioritárias até 2035, cada uma apoiada por pontos de ação específicos: 1) Reabastecimento de subsídios, financiamento concessional e capital de baixo custo; 2) Reequilíbrio do espaço fiscal e da sustentabilidade da dívida; 3) Redirecionamento de financiamento privado transformador e redução do custo de capital; 4) Reestruturação da capacidade e da coordenação para portfólios climáticos em escala; e 5) Reformulação de sistemas e estruturas para fluxos de capital equitativos.

As indicações do documento não são obrigatórias, e não se sabe sequer se haverá apoio às medidas em algum documento da COP30. Ainda assim, o mapa sugere 15 medidas de curto prazo, a serem adotadas por países ricos e em desenvolvimento, bancos multilaterais, grandes empresas e grandes investidores financeiros, entre outros.

Além disso, o “Mapa do Caminho” anuncia que será criado um grupo de especialistas para refinar seus cálculos até outubro de 2026. E diz que o seguimento das recomendações pode ser feito, a pedido dos países, por instituições que já existem na Convenção do Clima (UNFCCC), como o Comitê Permanente sobre Finanças.

Organizações da sociedade civil destacam alguns pontos positivos da iniciativa. Entre eles, a criação de um grupo para debater a dívida dos países em desenvolvimento; uma maior atenção ao financiamento público, cobrando ações políticas para alocar tais recursos que estão disponíveis nos lugares certos; e um sinal positivo importante de integração entre diversos setores.

Mas também há críticas, como a falta de enfrentamento aos combustíveis fósseis, os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. “O documento evita enfrentar a eliminação dos subsídios a petróleo, gás e carvão. Ignorar isso enfraquece a credibilidade do roteiro em relação à transição energética justa e à expansão responsável das energias renováveis, pois negligencia uma das maneiras mais eficazes de liberar financiamento público acessível para ação climática: a redução gradual dos incentivos fiscais aos combustíveis fósseis”, avalia Caio Victor Vieira, especialista em Política Climática, Instituto Talanoa.

A Climate Action Network (CAN) aponta outras lacunas: o mapa não fornece um plano de ação claro. Além disso, a maioria das ações não tem ligação concreta com o aumento efetivo do financiamento, estando mais voltadas a transparência, relatórios, diálogo, coordenação e avaliações.

“O roteiro não é o plano prometido para ampliar o financiamento climático, e os países ricos devem chegar à COP30 prontos para entregar um. Se a UE, o Reino Unido e o Canadá realmente levarem a sério a liderança climática e o multilateralismo, devem mostrar que cumprirão sua parte no financiamento climático público e não repassar a responsabilidade a modelos privados movidos pelo lucro que já fracassaram. O relatório deixa claro que o foco excessivo em financiar por meio do setor privado já se mostrou incapaz de promover uma transição energética, além de aumentar as dívidas do Sul Global e atrasar a eliminação dos combustíveis fósseis”, completa Bronwen Tucker, gerente de Finanças Públicas da Oil Change International.

O Globo, UOL, Bloomberg e R7 também repercutiram o “Mapa do Caminho de Baku a Belém”.

Fonte: ClimaInfo



terça-feira, 4 de novembro de 2025

MICROPOLUENTES: União Europeia avança no controle, mas lobby farmacêutico e de cosméticos reagem

 

The Schönerlinde wastewater treatment plant outside Berlin. Benjamin Pritzkuleit / Berliner Wasserbetriebe

An E.U. Plan to Slash Micropollutants in Wastewater Is Under Attack

Earlier this year, a European Union directive mandated advanced treatment of micropollutants in wastewater, with the cost to be borne by polluters. But the pharmaceutical and cosmetics industries, which are responsible for most of those contaminants, are now pushing back.


By Christian Schwägerl

A  few miles north of Berlin, the Schönerlinde wastewater treatment plant hums with quiet urgency. Dark brown water flows through a series of concrete tanks, alive with microorganisms breaking down almost everything that’s flushed away in the northeastern parts of the nearby German capital. The plant serves 850,000 people, in addition to many businesses, making it one of the largest among the roughly 20,000 sewage plants in the European Union.

By the time treated water leaves the Schönerlinde facility, it has been purified enough — according to current European standards — to be allowed to flow into Tegel Lake, where Berliners swim and sail. But increasingly, experts at Berliner Wasserbetriebe, the state-owned utility responsible for supplying drinking water to nearly 4 million people in the Berlin region, are worried about rising levels of micropollutants — most of them from pharmaceutical and cosmetics waste — that flow into treatment systems and which the plants’ microorganisms are unable to metabolize and break down.

As a result, many micropollutants leave today’s sewage plants mostly unchanged. “We find substances for lowering blood pressure, fighting depression, painkillers — in small quantities, but as one big cocktail,” says Gerhard Mauer, who oversees all the city’s water treatment plants.

A large-scale study of European rivers detected 504 harmful substances — 175 of them pharmaceuticals like painkillers and antidepressants.

Concerns about immediate and longer-term environmental and public health impacts are mounting. So far, micropollutants occur at concentrations too low to harm humans taking an occasional swim. But it’s a different story for aquatic organisms, from small snails to large fish, which are constantly exposed to pharmaceutical and other compounds that are known to affect fertility, trigger sex changes, impair navigation and movement, or increase mortality.

In response to the increase in micropollutants, the E.U. passed a revised Urban Wastewater Treatment Directive, which went into effect in January. It mandates that thousands of medium and large plants across Europe begin planning and installing, between 2027 and 2045, a fourth step in the purification process. According to planning documents, such “quaternary” treatment would slash levels of micropollutants by at least half using technologies like ozonation and activated carbon filtration.

While Switzerland and some regions in Germany and the Netherlands have already taken the lead, the vast majority of sewage plants in Europe — and in the United States — still lack advanced treatment technologies. The hugely expensive upgrades mandated by the E.U. will mainly be funded, according to the directive, by polluters themselves. But lobbying groups for the pharma and cosmetics industries in Brussels and in other European capitals, as well as individual companies, are fighting fiercely against the new rules.

Water before (left) and after (right) a fourth stage of purification at a wastewater treatment plant near Frankfurt, Germany. Lando Hass / dpa

Despite stricter regulations and better wastewater treatment across Europe, the U.S., and in other parts of the world, tens of thousands of industrial chemicals, pesticides, and pharmaceutical compounds now circulate widely — many ending up in rivers through factory discharge or sewage plants. Together with pesticide runoff from agricultural fields, industrial discharges, and runoff from streets, urban wastewater is a major cause of what Ralf Schulz, an ecotoxicologist at the Technical University of Kaiserslautern-Landau, in Rhineland-Palatinate, describes as the “chemization” of aquatic habitats. A large-scale 2024 study by chemist Saskia Finckh from the Helmholtz Centre for Environmental Research in Leipzig screened rivers across 22 European countries, detecting 504 harmful substances175 of them pharmaceuticals like painkillers and antidepressants.

One of those painkillers, diclofenac, can accumulate in animals and damage the livers of river otters and the kidneys of fish, leading to increased mortality. Elevated levels of the drug were found in roughly three-quarters of surface water samples taken in Germany, according to the country’s Environmental Protection Agency, or UBA. More and more scientific studies are documenting negative effects of wastewater compounds on fish, crustaceans, algae, and even human immune cells.

“There’s no doubt who has to pay for [advanced treatment],” says a Berlin official. “The industries that cause the pollution.”

Public health officials fear that contaminants will increasingly find their way into drinking water, making it less safe for consumption. Berlin, like many cities around the world, sources most of its drinking water from wells near its rivers and lakes, after it has naturally filtered through layers of soil. So far, Berlin’s drinking water is well below threshold values for the 50 medical substances that are regularly screened. At the Tegel Lake well, however, levels of a transformation product of blood pressure drugs are already above the threshold recommended by UBA for safe lifelong consumption. Gerhard Mauer calls permanently keeping micropollutants out of drinking water “our duty under the precautionary principle.”

That’s why, on a crisp and sunny day in late September, Mauer proudly showed the company’s newest construction project to Andreas Kraus, Berlin’s permanent secretary for climate protection and environment. Scheduled to open in 2027, the Schönerlinde plant will use ozone, synthesized on site, to break down many of the harmful pollutants that have been evading purification. This project puts Berlin at the forefront of a technological revolution in sewage treatment. “Once this facility is operational,” Mauer told Kraus, “the water we pump into Tegel Lake will be largely free of problematic chemicals, and we can extract drinking water without having to worry too much about them.”

The new facility under construction at the Schönerlinde wastewater treatment plant will use ozone to break down micropollutants. Sven Bock / Berliner Wasserbetriebe

A lot of money is at stake. During Kraus’ visit, Mauer said that equipping all six Berlin sewage plants with ozone or similar techniques would cost $584 million. Estimates of equipping 600 similarly large wastewater plants in Germany with quaternary treatment technology range from $10.6 billion to $47 billion. Kraus’ response was unequivocal: “It’s important that we as a city make sure our water is purified using the best available technology, but there’s no doubt who has to pay for it — the industries that cause the pollution.”

Industry, as might be expected, sees it differently. Lobbyists for pharmaceutical and cosmetics companies are pressuring the European Commission to soften — or even scrap — the legislation, which mandates that those sectors cover 80 percent of the construction and operating costs of quaternary treatment. Under the revised Urban Wastewater Treatment Directive, every treatment plant serving more than 150,000 people must be retrofitted by 2045. Smaller plants must also be upgraded if they are located in areas where micropollutants pose a risk to drinking water supplies.

The exact share of costs a company must bear, according to the directive, depends on the quantity of environmentally problematic ingredients it produces and how toxic they are for aquatic organisms. The E.U. Commission has based its findings on an evaluation of scientific studies that found that the pharmaceutical and cosmetics industries are responsible for 66 percent and 26 percent, respectively, of toxicity in urban wastewater.

Industry trade groups are seeking to capitalize on waning enthusiasm for progressive environmental policies.

Initially, pharmaceutical and cosmetics industries said they supported the directive’s overall objectives. But they noted, in a joint statement, that the “arbitrary decision to pick only two sectors, human pharmaceuticals and cosmetics, to pay for the pollution caused by others fails to incentivize greener product development [by] all polluters.”

Since the directive went into force, those industries have pushed back harder. Trade groups are casting doubt on the scientific studies underpinning the new sewage regulations. They are lobbying to cut red tape in environmental policy and seeking to capitalize on waning enthusiasm for progressive environmental policies. Amid active and looming wars in and around Europe, sluggish economic growth, punitive tariffs imposed by the U.S., and aggressive anti-environment rhetoric from right-wing populist parties, many politicians and E.U. Commission strategists are distancing themselves from previous commitments enshrined in 2020 in the landmark European Green Deal — a policy package with carbon dioxide reduction, biodiversity protection, and the phaseout of harmful substances as core priorities.

Between March and July, pharmaceutical and cosmetics trade groups and companies took their case to the European Court of Justice. More than a dozen complaints were filed, with plaintiffs calling either for broader inclusion of other sectors, like the food industry, in the payment mechanism; for the removal of the “polluter pays” requirement; or even for voiding the entire Urban Wastewater Treatment Directive.

Source: European Commission. Yale Environment 360

Manufacturers of generic drugs feel particularly threatened. For the diabetes drug metformin, for example, production costs could increase by a factor of 4.5, warns Josip Mestrovic, managing director of Pro Generika, a trade association. “If this really happens and nothing changes, we will have to take metformin off the market,” he says.

According to the German Federal Environment Agency, the active ingredient in metformin can have hormone-like effects on aquatic organisms. In experiments with fish, it triggered sex changes from male to female and inhibited the growth of larvae.

“The European Commission should stop the implementation of the directive and dare to start afresh,” says Jörg Wieczorek, CEO of the industry association Pharma Deutschland. The VKE cosmetics association — which includes companies such as Chanel and L’Oréal — seeks to at least cap the industry’s share of the costs at 1 percent. Lobbying groups are calling for a model in which water consumers contribute to the cost of advanced treatment. They point to Switzerland, where the cost for upgrading sewage plants is shouldered by water consumers through a levy of $11 per capita through water bills, not by polluters themselves.

Experts are calling for doctors to learn more about the environmental risks of pharmaceuticals they give to patients.

Water utilities and environmental economists argue against that. “The cost of removing micropollutants should not fall upon water users like private households and small local businesses but on those who are causing the problem,” says Oliver Loebel, secretary general of EurEau, a Brussels-based organization that represents 38 national associations of drinking water and wastewater operators across Europe. He argues that the Swiss model doesn’t provide any incentive for manufacturers to reduce micropollutants and replace substances that harm aquatic life.

Loebel hopes the impact of the new urban wastewater directive will go beyond simply cleaning up pollution after the fact. He sees the legislation as a potential driver for industry to replace environmentally harmful substances with safer alternatives. “The pharmaceutical industry prides itself on its ability to develop new substances, so it should be possible to avoid further environmental harm” and market alternative substances that can be removed more easily or that break down into harmless molecules, he says. A less harmful alternative to diclofenac, for example, already exists, says Loebel.

“The pharmaceutical and cosmetics industries have plenty of time to adapt — and a straightforward way to reduce costs by cutting pollution through innovation over the coming years and decades,” Loebel says. A clause in the directive requires regular reviews to assess whether access to medicines is being affected, and whether other sectors, like the food industry, should be included in the cost-sharing mechanism.

Scientists take samples from the Elbe River in Germany as part of a study on pollution in European waterways. André Künzelmann / UFZ

Many experts are calling for doctors and pharmacists to learn more about the environmental risks of pharmaceuticals they give to patients. In the Stockholm region, an expert panel has developed what’s known as the Wise List, a set of prescribing recommendations that prominently includes such information. The idea is that doctors will prescribe the least environmentally harmful substance.

But without improved water treatment, the problems will only get worse. Erik Gawel, chief economist at the Helmholtz Centre for Environmental Research in Leipzig, warns against delaying investment in quaternary treatment: “The longer we wait, the harder the chemization of our lives will catch up with us later, when micropollutants gradually find their way into groundwater and drinking water,” he says.

In August, the powerful E.U. Commission promised to conduct and publish a new study about the costs of quaternary treatment as well as the potential impacts on concerned sectors, based on “the most recent and relevant data.”

“For the time being, I see no appetite in the E.U. Commission to reopen the directive,” Loebel says. But if that should happen, he warns, there’s a danger that “the directive would basically collapse…. Even if fewer politicians are pro-environment these days, they should at least be pro-water.”


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Christian Schwägerl is a Berlin-based journalist who writes for the German newspaper Frankfurter Allgemeine, Spectrum of Science, and other media outlets. He is cofounder of RiffReporter, a freelance cooperative, and author of The Anthropocene: The Human Era and How it Shapes Our Planet. Follow him on Mastodon.


Fonte: Yale 360