| A rotunda Sankt Kjelds Plads é um dos mais de 250 espaços de Copenhague que foram reformulados. Foto Cidade de Copenhague. |
Seguindo a nossa série de postagens sobre os planos de adaptação das cidades que mais se destacam em prevenção às mudanças climáticas, abordamos hoje o caso de Copenhague, a capital da Dinamarca. A cidade surgiu em 1.167, como uma vila de pescadores vikings em terreno pantanoso. Toda a Dinamarca tem relevo plano e baixo, portanto sujeito a inundações e vulnerável à elevação do nível do mar.
"O Instituto Meteorológico Dinamarquês prevê um aumento de até 55% na precipitação nos meses de inverno até 2100, com aguaceiros cada vez mais intensos, caso as temperaturas globais subam de 2 a 3 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais. Os mares adjacentes à Dinamarca — o Mar do Norte e o Mar Báltico — podem subir até 1,2 metro" (Yale, E360).
Copenhague foi uma das cidades pioneiras e das mais ambiciosas em apresentar um plano para alcançar a neutralidade líquida de emissões de carbono, tendo inclusive anunciado o objetivo de atingir essa meta em 2025, o que não aconteceu. Cerca de um ano e meio após sediar a COP-15 (realizada de 7 a 18 de dezembro de 2019), no dia 2 de julho de 2011, Copenhague foi assolada por uma chuva torrencial, que causou grande transtorno e prejuízo.
"Infraestruturas críticas do maior hospital da cidade foram alagadas, assim como importantes vias, subsolos e estabelecimentos comerciais. A cidade, que vinha investindo em planejamento de sustentabilidade avançado há décadas, mostrou-se lamentavelmente despreparada para a forte chuva, que causou prejuízos de US$ 1,8 bilhão" (Yale, E360).
O episódio ficou conhecido localmente como a "Chuva do Milênio". A cidade percebeu a sua vulnerabilidade e passou a priorizar a sua resiliência contra chuvas torrenciais e buscou soluções inovadoras de drenagem sustentável.
"Abalada pela calamidade, a cidade e seus cidadãos compreenderam que tais desastres climáticos — e inundações ainda mais severas — eram inevitáveis e exigiam uma resposta rápida e enérgica. Para tanto, Copenhague reuniu seus melhores urbanistas, paisagistas, consultores e arquitetos para transformar a cidade, que se estende por duas ilhas principais no Mar Báltico, na primeira “cidade-esponja” do mundo . Esse sistema de defesa de última geração — que combina elementos naturais na superfície, como áreas úmidas e parques, com grandes estruturas subterrâneas, como tubulações de armazenamento e bacias de retenção — deverá proteger a cidade contra tempestades e a elevação do nível do mar por 100 anos" (Yale, E360).- Parques e áreas verdes urbanas (semi)naturais
- Áreas Azuis
- Áreas verdes para o manejo da água
- Espaços verdes urbanos conectados à infraestrutura cinza.
-----------------------------------------------------
| A ideia é criar espaços públicos que também sirvam para reter água, caso necessário. Foto: Tredje Natur. |
| Como o espaço acima poderia ficar após uma chuva forte e repentina. Foto: Tredje Natur. |
Como Copenhague virou uma "cidade-esponja" contra cheias
Publicado 4 de março de 2024. Última atualização 6 de maio de 2024
Capital da Dinamarca está entre as cidades no mundo que previnem enchentes tornando espaços públicos lugares de lazer, de biodiversidade e, ao mesmo tempo, áreas de absorção de águas pluviais.
Embora seja uma das rotatórias mais movimentadas do leste de Copenhague, o ar em Sankt Kjelds Plads não é pesado, não tem o cheiro e a textura dos gases de escape. E, em vez do rugido dos motores, a paisagem sonora é caracterizada pelo som melodioso produzido por pássaros.
A rotatória, que é cercada por arbustos e árvores, faz parte de um experimento em grande escala para transformar os espaços públicos da capital dinamarquesa. A ideia é tornar Copenhague mais "habitável", criando locais para os cidadãos se encontrarem e um habitat para a biodiversidade, ao mesmo tempo em que cria engrenagens em uma máquina de controle de enchentes.
Essa transformação foi desencadeada pelos eventos de 2 de julho de 2011, quando Copenhague foi atingida pelo que foi apelidado de "a chuva do milênio".
O aguaceiro maciço causou inundação de ruas e casas. E, sem ter para onde escoar, a água permaneceu por dias. Ratos mortos foram vistos flutuando pela cidade, e uma pesquisa posterior revelou que durante os trabalhos de limpeza um quarto dos trabalhadores do saneamento foi infectado com doenças como a leptospirose. Um deles até morreu.
| Fonte: Interlace |
Nos sete anos seguintes, esse tipo de tempestade começou a se tornar cada vez mais comum, com quatro eventos de "chuvas do século" registrados nesse período. Isso custou à cidade pelo menos 800 milhões de euros (R$ 4,3 bilhões) em prejuízos, deixando claro para os formuladores de políticas públicas que era hora de repensar a capital dinamarquesa.
Design urbano inspirado na esponja
Nos últimos séculos, o foco do desenvolvimento urbano em lugares como Copenhague foi a criação de "cidades-máquina" que pudessem ser construídas rapidamente e fossem eficientes para habitação, indústria e economia. Mas muitos desses centros urbanos acabaram interferindo no ciclo da água, especialmente aqueles que modificaram leitos de rios ou foram construídos sobre planícies aluviais.
Com o concreto e o asfalto cobrindo áreas antes destinadas à grama e ao solo, a água das chuvas mais fortes ficou sem ter para onde ir. Com muita frequência, isso resulta em enchentes, e cidades do mundo todo estão explorando maneiras de reverter esse tipo de desenvolvimento urbano. E elas fazem isso se transformando em "esponjas" urbanas.
Em outras palavras, essas cidades estão criando espaços e infraestrutura para absorver, reter e liberar a água de forma a permitir que ela flua de volta para seu ciclo.
A China está na liderança, com mais de 60 de suas cidades sendo reformadas e agora incorporando estruturas como biovaletas e jardins de chuva para reter a água. Jan Rasmussen, chefe do "Cloudburst Master Plan" (plano diretor para tempestades) de Copenhague, também viu potencial para a Dinamarca.
"Nossos políticos decidiram que há realmente uma necessidade de escoar a água da cidade muito rapidamente", disse Rasmussen. "Eles perguntaram se poderíamos fazer isso de forma inteligente, se poderíamos expandir o sistema de esgoto. Poderíamos lidar com as chuvas na superfície?"
Absorvendo a água da chuva
Tendo estudado projetos de cidades-esponja em todo o mundo, a equipe de Rasmussen pensou na remodelação de cerca de 250 espaços públicos de forma a ajudar na retenção ou redirecionamento de águas pluviais, incluindo parques, parques infantis e a rotatória Sankt Kjelds Plads. A ideia é usar a capacidade natural de retenção das árvores, dos arbustos e do solo e deixar a água pluvial fluir para locais onde não seja destrutiva.
Uma dúzia de lagos que margeiam a rotatória foi então projetada de forma a reter o excesso de água da chuva no caso de uma tempestade. Assim como outros lagos semelhantes espalhados pela cidade e aberturas largas nas laterais de ruas baixas, eles servem para canalizar a água da enchente para uma rede de túneis que está sendo instalada 20 metros abaixo da superfície.
Durante uma chuva "normal", as águas pluviais são direcionadas para o porto por meio desse sistema de drenagem. No entanto, quando há um excesso, como em um cenário de tempestade, uma estação de bombeamento no porto entrará em ação, forçando para o mar a água acumulada nos túneis, criando assim espaço para mais água da chuva e evitando que as ruas sejam inundadas. Essa estação está sendo construída atualmente e estará pronta em 2026.
"Ainda haverá água nas ruas. Quero dizer, elas não ficarão completamente secas. Mas passaremos de um metro [de água de enchente] para no máximo 20 centímetros", disse Jes Clauson-Kaas, engenheiro da Hofor, o departamento de gerenciamento de água responsável pela construção do túnel.
Benefícios de longo prazo
Parte do desafio é conseguir a adesão dos moradores locais. E isso nem sempre é fácil quando se trata de fechar parquinhos infantis ou os parques da cidade por longos períodos para transformá-los em zonas de inundação, ou financiar os planos de adaptação através de uma taxa extra nas contas de água.
Mas Clouson-Kaas diz que equipar para o futuro uma cidade propensa a inundações faz sentido do ponto de vista financeiro. "Perdemos cerca de 1 bilhão com esse único evento [em 2011], mas esperamos que haja vários eventos nos próximos 100 anos. Dizem que a perda potencial pode ser de pelo menos 4 ou 5 bilhões de euros. Portanto, se investirmos 2 bilhões de euros, ainda assim valerá a pena", disse ele.
Copenhague está em posição – financeira e política – de investir nessa infraestrutura agora, em vez de lidar com possíveis danos no futuro. A cidade se tornou um lugar na qual as outras cidades buscam um exemplo para aprender sobre os benefícios de se criar uma esponja urbana.
COPENHAGUE: como a bicicleta chegou a 2/3 dos deslocamentos da população da cidade
Como os dinamarqueses desenvolveram sua cultura do ciclismo

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Contribua. Deixe aqui a sua crítica, comentário ou complementação ao conteúdo da mensagem postada no Blog do Axel Grael. Obrigado.