segunda-feira, 29 de agosto de 2016

OURO DE MARTINE E KAHENA: Para Martine Grael e Kahena Kunze, a ficha ainda não caiu

 

Martine Grael e Kahena kunze com as medalhas de ouro no píer do Rio Yacht Club – Saillin, na Estrada Fróes, em São Francisco - Fabio Rossi / Agência O Globo



Leonardo Sodré

Dupla conquistou a medalha de ouro na vela nos Jogos Olímpicos

NITERÓI - “Outro dia na rua, um cara veio e disse: ‘Parabéns!’. Eu perguntei: ‘Parabéns, por quê?’. ‘Você ganhou uma medalha de ouro’. Foi aí que eu percebi do que ele estava falando e agradeci: ‘Ah, obrigada, obrigada’.”

Desde que saiu eufórica e realizada das águas da Baía de Guanabara há dez dias, com a conquista do ouro olímpico na classe 49er FX da competição de vela do Rio-2016, disputada ao lado da paulista Kahena Kunze, a niteroiense Martine Grael tenta assimilar a façanha. Aos 25 anos, ela se tornou a primeira mulher da família Grael a subir no mais alto degrau do pódio numa olimpíada — Torben, seu pai, é o maior medalhista olímpico do país com cinco medalhas; e seu tio, Lars, já ganhou dois bronzes. Outro fato inédito para a tradicional família de velejadores de Niterói foi a conquista ter acontecido, sem fugir de clichês, no quintal de casa: a Baía de Guanabara, onde há décadas reina absoluta. E esse fator foi preponderante para a conquista.

— Ter competido aqui fez com que nos sentíssemos em casa. Sempre fazemos uma ambientação nos locais de competição, chegamos com antecedência para treinar, mas aqui a sensação de estar em casa nos deixou mais à vontade — conta Martine, na última quinta-feira no restaurante do Rio Yacht Club — Sailing, na Estrada Fróes, em São Francisco.

Além das brasileiras, o pódio da classe 49er FX foi todo formado por atletas que optaram pelo clube niteroiense na preparação para os Jogos, como a dupla da Nova Zelândia, Alex Maloney e Molly Meech, que conquistou a prata; e as dinamarquesas Jena Hansen e Katja Salskov-Iversen, que ficaram com o bronze.


A torcida brasileira mergulhou na Baía de Guanabara para comemorar o ouro de Martine e Kahena com as duas campeãs. Foto: BENOIT TESSIER / REUTERS

Martine Grael e Kahena Kunze comemoram a medalha de ouro. Foto: Jorge William / Agência O Globo

Martine Grael e Kahena Kunze comemoram pulando no pódio. Foto: Jorge William / Agência O Globo

Os barcos se enfileram nas águas da Baía de Guanabara na regata das medalhas da classe 49er FX. Foto: BRIAN SNYDER / REUTERS

França, Estados Unidos, Nova Zelândia, Itália e Brasil na disputa da regata, com a torcida ao fundo, na Praia do Flamengo. Foto: BENOIT TESSIER / REUTERS


Criada em meio a campeões, Martine diz que nunca se sentiu pressionada.

— Não pensei muito nisso. Quando eu era pequena, foi a minha mãe que me ensinou a velejar. A gente ia passear. Só mais tarde eu comecei a praticar por conta própria. Com 11 anos, comecei a competir. Mas no início, ia mais pela descontração, com um grupo de amigos, aquele campeonatozinho estadual mini-intergalático (sic), ali na esquina... Mas foi o que me fez tomar gosto pela competição — lembra ela. — Hoje, a competição está no sangue. Acontece até para ver quem chega primeiro no carro.

Martine e Kahena, que também é de família de velejadores, conheceram-se em 2009, quando, juntas, venceram o mundial da juventude na classe 420, em Búzios. Logo depois, a dupla se separou. Martine tentou vaga na Olimpíada de Londres com Isabel Swan, medalhista em Pequim-2008. Elas disputaram na classe 470, mas não conseguiram se classificar. Em 2013, Martine e Kahena voltaram com a parceria e logo venceram os três primeiros campeonatos internacionais de que participaram, todos disputados em Miami, nos Estados Unidos, entre janeiro e fevereiro. Em setembro, ficaram com o segundo lugar no campeonato mundial, disputado em Marselha, na França. O auge veio em 2014, quando foram campeãs mundiais em Santander, Espanha. Para Martine, a tradição familiar na vela ajudou muito:

— O diferencial de ter uma família que veleja é a paixão pelo mar. A gente não só compete como também gosta de passar os momentos de lazer no mar.

As medalhistas de ouro iniciaram os estudos de Engenharia Ambiental, mas trancaram o curso para se dedicar exclusivamente ao esporte. Kahena estuda na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio; Martine, na Universidade Federal Fluminense (UFF). A primeira conta que a decisão de priorizar o esporte foi consciente.

— A gente tem que fazer a coisa bem feita, porque para fazer de qualquer jeito não dá resultado em nenhum dos dois lados. Por isso, preferi trancar e me dedicar exclusivamente à preparação para a Olimpíada — diz.

Acervo O GLOBO: Com tradição olímpica desde os anos 60, vela do Brasil brilha com medalhas de Grael e Scheidt

O amadurecimento da relação da dupla também foi fundamental para a conquista do ouro olímpico. Kahena diz que durante os últimos três anos de parceria, elas aprenderam a se comunicar melhor, respeitando o estilo de cada personalidade.

— Já nos confrontamos com algumas coisas que depois foram ótimas para seguirmos em frente. Eu aprendi a ouvir muito mais, a ceder. Nossa comunicação melhorou de 2 para 10 — avalia a paulista.

Sintonia mais do que confirmada, a dupla agora vai dar um tempo, mas só para férias. Martine vislumbra um futuro promissor para as duas:

— Nosso planejamento foi até ganhar a medalha. Não pensamos em nada para depois. Tudo indica que temos um futuro promissor, mas não fizemos nenhum plano ainda. Agora precisamos descansar, viajar, de férias, para depois fazermos novos planos.


Fonte: O Globo Niterói








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