quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cientistas acham resto de poluição gerada por mineração dos incas há 500 anos


 

Descoberta nos Andes é resquício de nuvem de poeira causada por extração de prata em Potosi, na Bolívia

por Renato Grandelle

RIO - Quem quiser escrever sobre a história da poluição atmosférica em larga escala nas Américas deve recuar muito além da Revolução Industrial. Pesquisadores da Universidade do Estado de Ohio fizeram esse exercício e descobriram, no pico da geleira de Quelccaya, nos Andes peruanos, indícios de metais pesados carregados pelos ventos no século XVI. Vinham do cume das minas bolivianas de Potosí, a 800 quilômetros de distância, onde os espanhóis obrigavam os incas a trabalhar na extração de prata. A produção levou à emissão de espessas nuvens de pó de chumbo.

Os minúsculos restos de poluentes permaneceram enterrados sob neve por séculos em Quelccaya. Em 2003, os pesquisadores de Ohio descobriram a camada de gelo onde estavam os pedaços de chumbo, que preservavam uma espécie de assinatura química das minas de prata de Potosí.

— Esta descoberta corrobora a ideia de que o impacto humano sobre o meio ambiente é generalizado, mesmo antes da Revolução Industrial — destaca Paolo Gabrielli, pesquisador do Centro de Pesquisas Polar Byrd, coautor do estudo, publicado ontem na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”.

Professor de Ciências da Terra em Ohio, Lonnie Thompson, que também assina o estudo, destaca que os poluentes encontrados em Quelccaya são um sinal das origens da poluição atmosférica. Novos estudos poderiam ajudar a medir o peso da mineração e a emissão de combustíveis fósseis na América do Sul no cenário global.

— O registro de gelo nos Andes peruanos é uma espécie de “Pedra de Rosetta” para medir as mudanças climáticas nos trópicos — assinala. — É um buraco da fechadura para entendermos o passado da atividade humana e seu impacto naquele ambiente.

MUDANÇAS HISTÓRICAS NAS EMISSÕES

De acordo com Thompson, Quelccaya é um dos poucos locais no mundo onde os cientistas podem conferir como a ação do homem influenciou a qualidade do ar antes da Revolução Industrial.

Gabrielli e Thompson usaram um espectrômetro de massa para medir a quantidade e o tipo de substâncias químicas presentes na camada de gelo da época da colonização das Américas. O elemento mais procurado era o chumbo, que era emitido em maior quantidade na atmosfera através da técnica espanhola de refino da prata.

A história de emissão de poluentes nos Andes passou por altos e baixos, segundo Gabrielli. Até 1830, ela permaneceu relativamente alta, mas as guerras de independência travadas contra a Espanha levaram à destruição de minas na Bolívia e no Peru.

— A poluição atmosférica voltou a subir no início do século XX, mas diminuiu novamente devido à crise econômica global — lembra o pesquisador. — Por fim, sua força foi renovada após a Segunda Guerra Mundial. Sabemos agora que, nos últimos cem anos, ela chegou a níveis sem precedentes na História da Humanidade.

Fonte: O Globo






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