sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

‘Ilhas de calor’ na capital paulista causam temporais mais fortes do que no resto do estado


Influência das ilhas de calor na precipitação da cidade de São Paulo. Fonte da ilustração


Os fortes temporais ocorridos ao longo do mês de janeiro na cidade de São Paulo estão diretamente ligados ao fenômeno conhecido como ilha de calor. Segundo o meteorologista Fabrício Daniel dos Santos, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a grande quantidade de chuvas no início do ano mostra uma discrepância entre o clima na capital e no restante do estado.

O janeiro deste ano foi o mais chuvoso desde 1943, quando o Inmet começou a fazer as medições. Em cidades do interior como Franca e Presidente Prudente, no entanto, a chuva ficou abaixo da média histórica, de acordo com Santos. Mesmo nos locais onde o índice pluviométrico excedeu a média para o mês, ficou próximo ao esperado para a época do ano.

A diferença da capital para o restante do estado está na grande aglomeração urbana que concentra fontes e receptores de energia. “A ilha de calor é muito bem caracterizada na cidade”, ressalta o meteorologista.

O professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo Edmilson Dias de Freitas explica que o acúmulo de calor causado pelas grande quantidade de edificações e a impermeabilização do solo, além do uso de equipamentos como ar-condicionado e automóveis, ampliam a corrente que leva o vapor de água para a atmosfera. Esse processo acaba por criar nuvens maiores do que o normal. “Quanto mais intensa a corrente ascendente que leva a água lá para cima, mais desenvolvimento vertical essa nuvem vai ter.”

Essas grandes nuvens dão origem a tempestades que descarregam em um curto espaço de tempo a precipitação que demoraria várias horas ou até alguns dias para voltar à terra. “O fato é que chove a mesma coisa em um número menor de vezes”, explica o professor. Com isso, a cidade vai adquirindo uma espécie de clima próprio, “muito particular”, acrescenta Freitas.

São Paulo “é a capital brasileira que tem a maior tendência para eventos extremos, principalmente precipitações”, afirma Fabrício dos Santos com base nas observações feitas em todo o país pelo Inmet. Isso deve piorar com o acirramento das mudanças climáticas nos próximos anos. “É uma cidade típica que vai estar sofrendo mais por conta do aquecimento [global].”

Isso porque a magnitude da ilha de calor está diretamente ligada ao tamanho da cidade, explica Freitas. Segundo ele, é possível amenizar o fenômeno com ações que reduzam a absorção de energia pela metrópole. Entre elas, o professor aponta o aumento das áreas de vegetação e utilização de calçamentos mais permeáveis, no sentido de “permitir que o solo receba mais água, transpire essa água e receba menos quantidade de energia”. Além disso, ajudaria reduzir a circulação de automóveis, principalmente nos horários de pico.

Reportagem de Daniel Mello, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 04/02/2011

Para saber sobre "ilhas de calor" no Rio de Janeiro, leia outras informações do Blog acessando aqui.

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OPINIÃO:

Conservar florestas e a arborização urbana são medidas indispensáveis para mitigar o efeito das "Ilhas de Calor", que contribuem para as tragédias nas cidades como as cheias de São Paulo e as chuvas concentradas na Região Serrana do RJ.

A preocupação e o cuidado com o microclima das cidades ainda não é devidamente abordado na legislação, nas políticas públicas e nem no trabalho dos urbanistas e outros planejadores das cidades brasileiras. Continuamos privilegiando políticas de expansão urbana, de conurgação, a supressão de áreas verdes e espaços urbanos "vazios" que são facilmente vistos por especuladores e dirigentes públicos como áreas disponíveis para a implantação de mais edificações.

Um bom exemplo a ser seguido é a experiência de Berlim, Alemanha, que estabeleceu uma legislação conhecida como Fator de Biótopo, que promove e incentiva com vantagens econômicas a criação de telhados verdes. Telhados verdes são técnicas que substituem lajes e telhados por um jardim ou cobertura vegetal rústica, diminuindo o acúmulo de calor e a reflexão da radiação solar, evitando o aquecimento do ambiente.

Enfim, como vemos na matéria acima, gerir o calor da cidade não é apenas uma questão de conforto para os seus moradores. É bom pensar também que cidades mais quentes causam os seguintes problemas:
  • O CALOR MATA E DESTROI NA CIDADE: o calor promove uma maior incidência de catástrofes como verificamos recentemente (janeiro de 2011) em São Paulo e na Região Serrana do RJ.
  • O CALOR SOBRECARREGA A REDE: o aquecimento das cidades aumenta o consumo de energia, causando os apagões que temos verificado nos últimos dias na cidade quando o calor aumena muito.
  • O CALOR DESMATA: o aumento da demanda de energia serve de argumento para aqueles que querem nos empurrar goela abaixo as "Belo Montes da vida". Ou seja, como o governo tem anunciado que as próximas opções significativas de geração de energia hidrelétrica no Brasil serão na Amazônia, podemos depreender que quanto mais calor no Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades, mais teremos estímulos para o desmatamento da Amazônia.
  • O CALOR CUSTA CARO: cidades mais quentes custam caro ao bolso do cidadão. A refrigeração dos ambientes residenciais, comerciais e locais de trabalho aumentam significativamente o valor das contas de luz.
  • O CALOR AUMENTA A POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA: veículos com o ar condicionado ligado gastam mais combustíveis e emitem mais gases para a atmosfera.
Axel Grael



Um comentário:

  1. É um problema decorrente do modelo de uso e ocupação do solo vigente. São Paulo está sofrendo as conseqüências de um processo de urbanização com altas taxas de impermeabilização do solo. Estudos indicam a relação entre essas taxas e a formação de ilhas de calor. Em uma análise bem simples temos a seguinte situação: Mais impermeabilização do solo produz ilhas de calor que aumentam a quantidade de chuvas concentradas nestas áreas que perderam a capacidade de infiltrar água no solo. Por isso tantas enchentes e inundações. Os rios não conseguem escoar esse grande volume de água e transbordam.
    No Rio de Janeiro, cujo clima local sofre interferência da geografia, devemos atentar para as conseqüências desse processo de urbanização. Não faltam instrumentos de planejamento e gestão que orientam o uso e ocupação do solo. As “áreas verdes” faixas marginais de proteção dos rios, por exemplo, têm importância fundamental na dinâmica de escoamento das águas e precisa receber uma atenção especial.
    Aprender a partir de outras experiências, planejar e prevenir!
    Dois links sobre o tema:
    http://www.apolo11.com/clima.php?titulo=Bairros_com_alta_impermeabilizacao_registraram_mais_chuva_em_2009&posic=dat_20100119-100208.inc
    http://www.apolo11.com/mudancas_climaticas.php?titulo=Inpe_Calor_e_enchentes_vao_aumentar_em_SP_ate_o_fim_do_seculo&posic=dat_20100617-100825.inc

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