domingo, 6 de agosto de 2017

Mangue de Itaipu ganha mais vida com ações voluntárias de reflorestamento



Biólogo Luiz Gonzaga caminha por uma área alagadiça onde recentemente foram plantadas 2.940 mudas de vegetação de mangue - Agência O Globo


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Floresta de mangue surge das mais de 20 mil mudas plantadas e fauna retorna ao local

NITERÓI - Quando fala sobre o mangue, o biólogo marinho Luiz Gonzaga repete como um mantra o lema que traduz a sua experiência com a recuperação da vegetação do ecossistema: “É só dar uma forcinha, o resto a natureza faz”. Comprometido com essa filosofia, desde 2010 ele e outros voluntários fincam, um a um, propágulos (ramos de plantas capazes de multiplicá-las) na terra alagadiça à beira das lagoas, principalmente na de Itaipu, para acelerar o desenvolvimento da vegetação de mangue naquele entorno. O resultado que se vê hoje nos lugares tocados por essas iniciativas é inspirador: começa a surgir uma floresta das mais de vinte mil mudas plantadas em diferentes trechos. As áreas recuperadas fazem o campo do Maracanã parecer pequeno.

O mais recente plantio em massa foi feito no mês passado, quando 2.940 propágulos foram colocados por Gonzaga na área da lagoa aos fundos do condomínio Boa Vista, numa área de cinco mil metros quadrados. No maior trecho onde foi feito o reflorestamento, na margem próxima ao Itaqua Soccer, entretanto, foram dezenas as mãos responsáveis pela recuperação. Ali, com apoio e divulgação do Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset), dezenas de pessoas se juntaram em mutirões e plantaram 12 mil mudas, numa área descampada com cerca de 50 mil metros quadrados — cinco vezes o campo do Maracanã. Um resultado já visível nas áreas onde as plantas se desenvolveram é a aparição cada vez mais frequente de espécies da fauna. Essa ocupação do local por diferentes animais, explica o professor de Zoologia da UFF Sávio Freire, é uma das consequências diretas da preservação.

— Existe um processo lento e natural de propagação da vegetação ali. Mas é evidente que o aceleramento desse processo de cobertura de manguezal, que é o trabalho que está sendo feito, vem acompanhado, naturalmente, de uma expressiva colonização de espécies, que passam a interagir com essa cobertura vegetal que se forma — explica Freire.




São espalhadas sempre três espécies de mangue que ocorrem na margem da lagoa (Rhizophora mangle, Avicennia shaueriana e Laguncularia racemosa) e os propágulos são retirados das próprias plantas. É só caminhar pela margem recuperada para ver que já vivem ali incontáveis pássaros, vários tipos de caranguejos, diferentes aves de grande porte. A poluição da água é um limitante, mas jacarés e camarões sobrevivem ali também. Outra evidência da melhoria do ecossistema costeiro é o retorno em abundância de algumas espécies que andavam sumidas, explica o biólogo Luiz Gonzaga:

— O caranguejo aratu não tinha nesse pedaço. É uma espécie considerada indicativa da qualidade do ecossistema, uma vez que é mais sensível e desaparece quando há desequilíbrio.

A consolidação da vegetação também impressiona. As mudas, menores do que uma garrafa PET, plantadas há dois anos — iniciativa mostrada à época pelo GLOBO-Niterói —, hoje já passam da altura do joelho do biólogo. O desenvolvimento chama mais atenção ainda no primeiro trecho onde houve plantio, no entorno do Canal de Camboatá. Há dois anos, as plantas ali estavam na altura do peito dele; hoje já são árvores com dois, três metros.


Sumido. Caranguejo Aratu voltou a ser figurinha fácil - Agência O Globo

— Cresceram, né? Eu, às vezes, não percebo tanto a diferença, mas o pessoal sempre fica impressionado. Daqui a pouco isso tudo vai ser uma floresta de mangue mesmo, como aquela parte ali — diz Gonzaga, apontando para um trecho preservado com árvores bem mais antigas. — O mais legal é ver que a recuperação da vegetação traz de volta também essa fauna, pássaros, aves grandes, caranguejos, peixes.... Isso aqui é um paraíso.

Pela riqueza natural, alguns trechos de mangue no entorno da lagoa passaram a figurar também na rotina acadêmica de algumas escolas municipais e particulares, com aulas de campo. Na semana retrasada, foram ali alunos do projeto social do Maquinho (o Módulo de Ação Comunitária, no Morro do Palácio), conta o chefe do Peset, Alexandre Ignácio.

— É importante porque a população cria essa relação com o lugar e passa a preservar, o que inibe a degradação e a especulação imobiliária daquelas terras — explica Ignácio.

Recuperação de mais de 200 hectares




O entorno das lagoas de Piratininga e Itaipu está em vias de receber também o apoio de um projeto de restauração da prefeitura. O município anunciou que vai recuperar 203,1 hectares de áreas verdes através do Projeto Restauração Ecológica, aprovado pelo BNDES. O recuperação compreende 65 hectares de manguezal no entorno das lagoas, além de 30 hectares em quatro ilhas da cidade, 21 hectares de restinga nas praias e 86 hectares no Morro da Viração. Segundo a prefeitura, a cidade foi a única gestão pública no Brasil entre 78 projetos a receber o aval do banco para a recuperação das áreas verdes. Serão empregados R$ 4,43 milhões na iniciativa, sendo R$ 2,96 milhões com recursos do BNDES e R$ 1,47 milhão de contrapartida da prefeitura.

A maior parte do manguezal no entorno da lagoa de Itaipu é relativamente nova. Surgiu como consequência natural da salinização daquele ecossistema após a abertura permanente de uma ligação da lagoa com o mar, em 1979. Antes, quase não havia mangue. O entorno também era alagadiço, mas composto por vegetação de brejo, explica o ambientalista Paulo Bidegain:

— A abertura da barra salinizou a lagoa, e o único tipo de vegetação que dá nessas condições e suscetível à variação de maré é o mangue. O brejo ainda existe, porém mais para dentro, atrás do mangue.



Fora a poluição, a maior ameaça ao mangue e ao brejo é o setor imobiliário. Toda a área verde que cerca a Lagoa de Itaipu foi anexada ao Peset em 2008, por decreto. Construtoras donas de terrenos ali, porém, entraram na Justiça para reclamar o direito de uso de suas propriedades. A disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal, que, no fim de 2014, em decisão monocrática da ministra Cármen Lúcia, foi favorável à retirada de terrenos da área do parque. A Procuradoria-Geral do Estado entrou com recurso e aguarda o andamento do processo.

Fonte: O Globo Niterói



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