quinta-feira, 18 de junho de 2026

Ondas de calor causaram 120 mil mortes em duas décadas no Brasil, diz Fiocruz

Onda de calor atinge o Rio de Janeiro. Na foto, passageiros procuram se proteger do sol quente na sombra de um poste em ponto de ônibus da Avenida Presidente Vargas, na Cidade Nova — Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Cientistas cruzaram dados de óbitos com histórico de temperaturas e sugerem que situação está piorando com mudança climática; altas temperaturas explicam 0,6% da mortalidade no país

Rafael Garcia, O Globo, São Paulo.

Um estudo que cruzou históricos de temperaturas no país com dados sobre óbitos indica que, em um período de vinte anos, as ondas de calor causaram mais de 120 mil mortes no Brasil.

O trabalho, realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta que os esses períodos extensos com temperaturas extremas explicam 0,6% da mortalidade no país entre os anos de 2000 e 2019.

A pesquisa não faz uma projeção sobre quanto o fenômeno está se agravando, mas os autores do trabalho sugerem que, com a mudança climática, o peso desses eventos extremos tende a aumentar na saúde dos brasileiros.

— Quando uma pessoa está exposta a muito calor, o corpo produz uma reação fisiológica para manter a temperatura corporal interna entre 36,5°C e 37°C, que é o intervalo ótimo para nossas funções vitais — explica Beatriz Oliveira, cientista da Fiocruz coautora do trabalho. — Quando isso ocorre em conjunto com esforço físico, uso de roupas, e outros fatores, se você não consegue dissipar esse calor que está recebendo ou produzindo internamente, começa a sobrecarregar esses mecanismos de termorregulação e comprometer algumas funções, principalmente as cardiovasculares e respiratórias.

Ao mapear a variação local de temperatura em todo o país com uma precisão de 9 km, os cientistas conseguiram cruzar esses dados com informações específicas nos registros de óbitos das pessoas, para tentar enxergar o efeito do calor em problemas de saúde impactados por ele.

Como critério, o estudo considerou que uma onda de calor é um período de 48 horas no qual a temperatura está acima do percentil 95% para a média de temperatura histórica de determinado local. O estudo apontou uma relação clara entre esse tipo de evento e as mortes por causas que podem ser agravadas pelo tempo muito quente.

— Essas 120 mil mortes podem ser interpretadas como o número de mortes atribuídas a esses eventos — diz Oliveira.

O mapeamento nacional feito pelos cientistas buscou entender também como esse fenômeno variou entre as cidades e os estados, mas as diferenças sociais e etárias pareceram ser mais relevantes para identificar populações e maior risco.

Os dados mostram que os idosos, que possuem mais limitações em manter os mecanismos de homeostase corporal para controle de temperatura, foram os mais afetados pelas ondas de calor. Mais de 97 mil óbitos de pessoas com 65 anos ou mais foram associados a esses eventos, compondo 80% do total no estudo.

O trabalho também avaliou o impacto da persistência de temperaturas altas na quantidade de internações feitas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), para alguns dos municípios estudados. Nessa outra seção do estudo, as crianças se mostraram um grupo de risco relevante, afetadas também por problemas gastrointestinais.

— As crianças são muito vulneráveis à desidratação, e o calor estimula a proliferação de micro-organismos de transmissão por via oral entre elas, tanto por alimentos que podem estar contaminados quanto pela ingestão de água não própria para o consumo — explica Oliveira.

Os problemas renais também foram uma condição médica relevante, segundo o estudo da Fiocruz e da UFBA.

Termômetro desigual

Um outro fator que pesou muito no desequilíbrio de impacto foi o grau de escolaridade das vítimas dos problemas de saúde relacionados ao calor. A quantidade de anos de estudo foi uma maneira indireta que os pesquisadores usaram para estimar tanto o acesso a ambientes com temperatura controlada (como residências com ar-condicionado) quanto à qualidade do atendimento de saúde, com hospitais privados mais bem preparados para acomodar a demanda.

A variação local foi menor do que se poderia esperar. Enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste, do país apresentaram os maiores valores de dias de ondas de calor e de duração média, as regiões Sudeste e Sul tiveram eventos relativamente mais intensos, o Nordeste teve valores intermediários.

O Amapá foi o estado que registrou o maior impacto de letalidade das ondas de calor. Ali, um total de 1,07% das mortes no período analisado foram atribuídas a esses fenômenos. Na Paraíba, o estado menos impactado, esse número foi de 0,30%. São Paulo e Rio de Janeiro tiveram números mais perto da média (0,65% e 0,61% respectivamente).

O estudo da Fiocruz também incluiu uma seção dedicada a autoridades e lideranças locais sobre como lidar com o problema que tende a se agravar no futuro.

— Uma das primeiras coisas a fazer é reconhecer que as onda de calor e o calor extremo são um risco prioritário para a saúde pública — diz Oliveira. — Em 2023 e 2024 a gente teve muitos eventos de onda de calor no país, e pouquíssimos locais declararam emergência por isso.

Além de estabelecer sistemas de monitoramento que permitam às prefeituras e o SUS anteciparem impactos, diz a cientista, é preciso que campanhas estimulem mudanças culturais na população, porque o calor ainda não é percebido como um risco relevante pela população.

— A própria população precisa entender que, em momentos de eventos extremos, a gente tem que se proteger e diminuir a exposição — defende Oliveira. — Precisamos mudar horários de fazer atividade física e evitar locais com muita exposição. Existem muitas pessoas que precisam trabalhar em baixo de sol, por exemplo, e precisam existir garantias para que esse trabalho seja intercalado com hidratação e momentos de pausa, para não sobrecarregar o sistema cardiorrespiratório das pessoas.

Oliveira afirma que uma das intenções do estudo da Fiocruz é estimular mais pesquisas na área, que possam inclusive cobrir algumas das limitações do estudo. Um dos problema foi que o trabalho só uso dados até 2019, porque a mortalidade pandemia de Covid-19 tornou difícil identificar e isolar o impacto as ondas de calor após aquele ano. Novos dados serão essenciais para guiar o poder público, diz.

Fonte: O Globo


terça-feira, 2 de junho de 2026

ENTREVISTA | O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil?

Pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) Gilvan Sampaio. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Entrevista com Gilvan Sampaio, meteorologista do INPE, ajuda a compreender o que é o aquecimento anormal nas águas do Pacífico equatorial, o que se sabe sobre a perspectiva do fenômeno para 2026 e a relação com a mudança do clima

As chances de o fenômeno El Niño se confirmar no segundo semestre e persistir até o fim de 2026 são de 82%, segundo o prognóstico mensal atualizado nesta quinta-feira (14/05) pelo Centro de Previsão da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), órgão que monitora a temperatura no oceano Pacífico equatorial. Contudo, ainda não há evidências científicas suficientes para assegurar qual será a intensidade do fenômeno, devido à estação de transição.

“É prematuro falar qualquer coisa em relação à intensidade do El Niño somente observando a temperatura da massa de água do oceano, especialmente agora, durante a estação de transição”, explica o meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e especialista em El Niño, Gilvan Sampaio. Durante a primavera e o outono, os modelos climáticos ficam menos precisos.

Pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), Sampaio esclarece os principais aspectos relacionados ao fenômeno, como a caracterização e os diferentes impactos no Brasil. Ele enfatiza ainda a necessidade de colocar a mudança do clima à frente do El Niño no rol de preocupações climáticas. “O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”, afirma.

Leia a entrevista com Gilvan Sampaio:

Quem faz o monitoramento dos dados primários para saber qual é a temperatura da água na região do Pacífico Equatorial?

Há uma rede de monitoramento sob responsabilidade da NOAA, que se chama TOGA [Tropical Ocean Global Atmosphere], que fornece os dados primários obtidos a partir das boias oceanográficas instaladas na região equatorial do oceano Pacífico, justamente para monitorar o El Niño. Essa rede integra o Programa de Pesquisa Climática Global da Organização Meteorológica Mundial para aferir a temperatura em pontos estratégicos no oceano ao longo da região na Linha do Equador.

Legenda: anomalia de temperatura no Oceano Pacífico. Dados divulgados pelo CPC/NOOA em 11/05/2026. Valores em graus Celsius.

Repercute uma imagem com uma massa de água quente no oceano Pacífico. O que está acontecendo?

Essa imagem mostra uma onda com águas muito mais quentes do que a média para essa época do ano, em profundidade de cerca de 100 a 150 metros no oceano, se deslocando do Pacífico oeste em direção à costa oeste da América do Sul. Muitas pessoas olham essa imagem e interpretam que vai haver um aquecimento muito forte do Pacífico equatorial, levando a um El Niño muito intenso. Embora esse tipo de onda no oceano seja lenta, ainda é cedo para dizer se vai perdurar ao longo do segundo semestre, e, se perdurar, qual será a intensidade do aquecimento das águas. Pode haver mudanças rápidas e a onda perder intensidade. Entre abril e maio, estamos em uma estação de transição, e os modelos climáticos são menos confiáveis. É claro que temos que monitorar. Se continuar como está, aí sim nós podemos ter um El Niño de moderado a forte. A partir de junho, os modelos começam a ficar mais confiáveis, teremos um quadro melhor da evolução e podemos falar com mais segurança sobre a intensidade do El Niño.

Como saber quando se configura o fenômeno El Niño?

Configura El Niño quando as temperaturas da água persistem acima de, pelo menos, meio grau Celsius, por alguns meses, nas regiões do oceano chamadas de Niño 3.4, Niño 3, Niño 2, que estão localizadas entre as latitudes 5 graus ao norte e 5 graus ao sul no Pacífico, ao longo da Linha do Equador. Não basta só o aquecimento do oceano, tem que ter a resposta da atmosfera junto. O principal sinal de que mexeu com a circulação atmosférica é quando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste na região da Linha do Equador, perdem a intensidade. Isso provoca uma modificação da célula de circulação de Walker, alterando o padrão de ventos e formação das chuvas na troposfera, que é a camada mais baixa da atmosfera. É uma mudança total da circulação atmosférica, não apenas nessa região, mas em praticamente todo o globo. Isso não aconteceu ainda neste ano.

À esquerda, o funcionamento da Célula de Circulação Walker em condições normais. À direita, a célula sob a influência do El Niño. Fonte: CPTEC/INPE

Quais são os impactos do El Niño no Brasil?

Para o Brasil, o El Niño tem impactos de seca no norte e no leste da Amazônia e no norte do Nordeste, durante o primeiro semestre do ano. Se o El Niño persistir no segundo semestre de 2026, poderá ter impactos no ano que vem.

Para o Sul do Brasil, o impacto é na primavera do hemisfério Sul [em setembro]. Veja, por exemplo, aqueles impactos grandes no Sul do Brasil — que foram dois episódios de chuvas muito intensas durante o El Niño de 2023 —, ocorreram em setembro de 2023. Depois, outro impacto em abril/maio de 2024.

Caso se configure El Niño em julho ou agosto, significa que a região Sudeste terá um inverno menos frio do que o normal e pode ser que tenha períodos com ondas de calor. A depender da intensidade, o principal impacto nos próximos meses serão temperaturas mais altas do que a média histórica.

Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul para os períodos de verão (dezembro a fevereiro) e inverno (junho a agosto) Fonte: BTR1/CPTEC/INPE

Esse fenômeno está ocorrendo em um cenário de aquecimento global. As pessoas estão olhando para o El Niño, mas deveriam estar mais preocupadas com a mudança do clima?

Exatamente, a mudança do clima é o principal fator. O golpe de misericórdia, digamos assim, vem com o El Niño porque aumenta os extremos climáticos, ou seja, períodos quentes, chuvas intensas, ondas de calor. O El Niño potencializa, mas o principal é o que vem do aquecimento global. Independentemente de ter El Niño ou não, estamos vendo os extremos aumentando a frequência em toda a região tropical, principalmente.

Pensando em questões estratégicas, como agricultura e abastecimento de água, as pessoas devem se preocupar?

Se continuar esse aquecimento subsuperficial das águas do Pacífico ao longo dos próximos meses, teremos um El Niño moderado, no mínimo. O El Niño moderado traz consequências para o Brasil. Por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, ocorre o aumento das chuvas durante a primavera, isso traz impacto muito grande para a agricultura.

O inverno um pouco mais quente no Sul, Sudeste e em parte do Centro-Oeste pode trazer problemas associados, como atraso na próxima estação chuvosa. Hoje, os reservatórios do Sudeste estão com problemas. Persistindo a seca, o problema pode ser potencializado para o ano que vem.

E no caso da Amazônia?

Na Amazônia, as secas são provocadas por dois fenômenos e em duas regiões distintas. O El Niño provoca secas no norte e leste da Amazônia e ocorrem no primeiro semestre do ano, que é o período chuvoso na região.

As secas que ocorrem no oeste e sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e Rondônia, estão associadas com o aquecimento do Atlântico Tropical Norte. No momento, não tem nenhum aquecimento abrupto no Atlântico Norte, que fica ao norte da América do Sul. E, se tivesse, esse sim ocorre agora em julho, agosto e setembro.

Os fenômenos El Niño estão se tornando mais frequentes?

Não dá para afirmar ainda, mas todas as projeções indicam que eles se tornarão mais frequentes e intensos. O aquecimento global não aquece só a atmosfera, ele aquece também os oceanos. Algumas projeções indicam que, no final do século XXI, teremos um clima semelhante ao El Niño semipermanente, com mais volume de chuvas no Sul e menos no norte e leste da Amazônia e norte do Nordeste. Se você olhar as projeções climáticas para o Brasil, é mais ou menos esse o retrato dessas projeções.

Quais são as fontes de informação para que as pessoas possam ser esclarecidas sobre o El Niño?

No Brasil, no âmbito do MCTI, o órgão responsável pelo monitoramento e a previsão de El Niño é o INPE, por meio do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, o CPTEC. Em breve, vamos lançar um boletim de acompanhamento do El Niño, assim como fizemos em 2023.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação