terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Groenlândia sob risco, paz ameaçada, mundo sob mais uma agressão de Trump


Encontro com crianças de Kulusuk, no litoral sudeste da Groenlândia. Lembrança da minha visita à Groenlândia, em 1972. 

Cobiça sobre a Groenlândia. A paz ameaçada. O mundo sob a tensão de mais uma crise produzida por Trump. 

Ao longo da história, a Groenlândia teve limitada relevância estratégica global. As pessoas tinham pouca informação sobre o local, considerado inóspito e habitado mais por focas e ursos polares que por humanos. 

Mas, nos últimos meses, isso vem mudando e a Groenlândia está nos "trending topics" por um motivo muito preocupante. A maior ilha do mundo passou a ser alvo da ambição da política internacional de Donald Trump. O presidente americano ameaça anexar a Groenlândia aos EUA, seja por acordo, pela compra ou pela força. Ignora que a ilha tem o seu povo, um governo autônomo, mas vinculado historicamente à Dinamarca. Logo, é parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN, uma aliança militar criada há 77 anos, que os próprios EUA fazem parte e sempre lideraram. A OTAN é fundamental para o equilíbrio de forças no mundo, mas diante da atitude dos EUA contra a Dinamarca e toda a Europa, está agora ameaçada.

Trump alega, sem qualquer fundamento, que a Rússia e a China teriam a intenção de tomar a Groenlândia, acusando a Dinamarca de não se esforçar ou ter meios de proteger a ilha. Segundo ele, isso seria uma ameaça à segurança dos EUA e da própria Europa. A União Europeia nega e reage. Rússia e China, por sua vez, afirmam não ter qualquer interesse ou plano com relação à Groenlândia e condenam a atitude dos EUA de usá-los como pretexto.

Diante da reação contrária da União Europeia, dos países europeus e de todo o mundo, Trump parte para a coerção e ameaça os países que se posicionam contra com tarifas comerciais. A Europa também ameaça reagir com retaliações contra os EUA.

Trump conseguiu instaurar mais uma crise internacional, desta vez com os seus mais tradicionais aliados: os países europeus. O conflito enfraquece a OTAN e a Europa, que se vê ameaçada pela agressão e expansionismo russo, representado pela Guerra na Ucrânia. 

Groenlândia

Considerada a maior ilha do mundo, a Groenlândia tem dimensões continentais e situa-se no Atlântico Norte. Quase todo o seu território está localizado dentro do Círculo Polar Ártico e 80% é permanentemente coberto por gelo e geleiras. As temperaturas ficam acima de 0°C apenas um mês por ano. A Groenlândia possui uma população de 57 mil habitantes (2024), quase todos da etnia Inuit (esquimós) e possui autonomia administrativa, embora esteja vinculado à Dinamarca. Seu território possui 2,17 milhões de km², o que corresponde a um pouco menos da soma da Região Sudeste e Nordeste do Brasil. A capital é Nuuk, sitiada na costa sudoeste da ilha. 

Geografia

A terra é redonda! Mas, nos acostumamos com mapas planos. Em cartografia, existem várias formas de projeção, que visam representar o globo terrestre na superfície plana, sendo que a mais comum é a de Mercator. O problema é que ela distorce as proporções a medida que a representação se aproxima dos polos. Isso faz com que as pessoas tenham uma noção errada da Groenlândia. Ela é muito grande, mas não tanto quanto parece. Também, não parece, mas a Groenlândia é mais perto da Sibéria do que as pessoas imaginam. Olhando o globo por cima dos polos, entende-se isso melhor. 

Por exemplo, a distância da capital americana, Washington (DC), para a capital da Groenlândia, Nuuk, é de cerca de 3.300 km em linha reta. De Kulusuk, localidade no sudeste da Groenlândia que visitei em 1972, até Zapolyarny, no norte da Sibéria, é de cerca de 4.000 km. Para comparação, a distância de 4.000 km equivale aproximadamente à que separa Nova York de Los Angeles.

Importância geopolítica 

Um dos maiores alvos de Trump é o multilateralismo, que tem atacado e sistematicamente enfraquecido pelos EUA, com a retirada do apoio financeiro e a própria presença do país em organismos da ONU e outras instituições internacionais.

O interesse maior é reforçar a hegemonia dos EUA, conquistar territórios e alcançar ganhos econômicos e se apossar do patrimônio natural de outros países: petróleo, minérios etc. O seu discurso aponta para um caminho de confronto e o mundo ainda assiste com perplexidade.

Importante lembrar que as mudanças climáticas tem aumentado a temperatura no Ártico, reduzindo áreas antes permanentemente cobertas pelo gelo. Isso tem viabilizado novas rotas de navegação antes impossíveis. 

Como dizem algumas lideranças mundiais e analistas, estamos vivendo um momento histórico de ruptura. Trump rompe os vínculos de confiança com os seus principais aliados históricos e é dificil antever o que virá pela frente. O fato é que as perspectivas não são boas.

Groenlândia e as mudanças climáticas 

O clima da Europa é muito influenciado pelos ventos frios que vêm da Groenlândia e do Ártico, pelos ventos quentes e secos que vêm do Saara, cruzando o Mediterrâneo, e a umidade que vêm das correntes do Atlântico Norte. O sistema de correntes do Atlântico Norte é conhecido por Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico - AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation) e cientistas estão alertando para alterações que estão ocorrendo devido às mudanças climáticas e podem ter resultados trágicos. Os impactos podem causar o aquecimento do Ártico, mudando todo o padrão climático, principalmente do hemisfério norte, mas com consequências globais. Pode ser o mais grave ponto de não-retorno ("tipping point") causado pelas mudanças climáticas.

O degelo das calotas polares é uma das principais preocupações relacionadas às mudanças climáticas, pois pode potencializar o problema da elevação do nível do mar.

A estratégia de Trump

Trump governa como se dirigisse as suas empresas e não um país com tradição democrática e responsabilidade planetária. Porta-se como se estivesse sempre fazendo negócios, da forma agressiva, autoritária e desrespeitosa. Aposta sempre na intimidação, na crise e na confusão. E não faz segredo disso.

Seu método é exatamente aquilo que ele pregou no seu livro "A arte da Negociação" (The Art of the Deal), lançado em 1987, em coautoria com o jornalista Tony Schwartz: "Meu estilo de negociar é bem simples e direto. Miro bem alto e fico insistindo, insistindo, insistindo para conseguir o que busco". 

É o que tem feito com relação à Groenlândia: Trump repete a sua ameaça à exaustão e espera conquistar o seu intento. É o mesmo que faz ao aplicar altas tarifas aos países onde tem algum interesse comercial. Estes países acabam fazendo algum acordo e se sentem contemplados e triunfantes com condições inferiores ao que tinham antes. Ou seja, fiel ao método: primeiro instaura-se o conflito e o caos e, depois, negocia-se. Assim Trump lida com o Canadá, México, Venezuela, Ucrânia, Panamá e, agora, a Groenlândia.

Enfim, Trump é um lider narcisista, perigoso e age sem qualquer freio. Nos perguntamos onde estão as instituições nos EUA? Onde está a justiça? Onde está o Congresso? Onde está a oposição? Onde está a cidadania?

Axel Grael 


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LEMBRANCA DE UMA VISITA À GROENLÂNDIA

Assistindo a uma manifestação cultural em Kulusuk, Groenlândia, em 1972.

Estive na Groenlândia em 1972, quando eu tinha 14 anos, levado pelo meu avô materno, o dinamarquês Preben Tage Axel Schmidt

Recém formado em engenharia civil na Escola Politécnica de Copenhague, Preben chegou ao Brasil em 1924, a serviço da construtora dinamarquesa Christiani-Nielsen. O que era para ser uma rápida viagem, acabou virando uma vida inteira. Encantado com o Brasil e com Niterói, decidiu estabeler-se na cidade e constituir família. Quando ainda na Dinamarca, sagrou-se campeão europeu de hipismo cross-country, mas diante do esplendor da Baía de Guanabara, trocou de esporte e se dedicou à vela, tornando-se sócio do Rio Sailing Club, no Saco de São Francisco.

Ele adorava o Brasil e se dizia "mais brasileiro do que muita gente que nasceu aqui". Mas, sentia falta do frio e viajava periodicamente para algum lugar muito frio. Em 1972, tive o prazer de fazer a primeira dessas viagens com ele. Conheci a Dinamarca, Suécia, Noruega (norte do país), Finlândia, Islândia e Groenlândia. 

Com a minha mãe Ingrid e os meus irmãos Torben e Lars, no solo gelado da Antártica (1973). 

No ano seguinte (1973), levou nossa família para visitar a Antártica, no primeiro cruzeiro comercial realizado para o continente gelado.

Axel Grael 



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