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terça-feira, 28 de outubro de 2025

FAO LANÇA RELATÓRIO "AVALIAÇÃO DOS RECURSOS FLORESTAIS MUNDIAIS 2025"

A FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura publicou a nova edição do Global Forest Resources Assessment 2025, documento que é apresentado a cada 5 anos e com dados atualizados sobre a situação das florestas no mundo.

Veja alguns dados:

  • As florestas cobrem mais de 4 bilhões de hectares no mundo, o que representa 32% dos continentes.
  • Florestas tropicais representam 45% de todas as florestas no mundo.
  • Somente 5 países (Brasil, Canadá, China, Federação Russa e os EUA possuem mais de 50% das florestas mundiais.
  • Florestas primárias representam 1/3 do total de florestas (1,18 bilhão de hectares, ou seja, 29% do total de florestas).
  • 20% das florestas no mundo estão protegidas por unidades de conservação formais (813 milhões de hectares). 
  • 71% das florestas são de domínio público. 24% são privadas e 4% têm a propriedade não definida..  
  • O Brasil lidera o desmatamento no mundo

RESUMO:

La FAO completó su primera evaluación de los recursos forestales mundiales en 1948. Desde entonces, la Evaluación de los Recursos Forestales Mundiales (FRA) se ha convertido en una evaluación exhaustiva de los recursos forestales, su estado, gestión y usos, que abarca todos los elementos temáticos de la gestión forestal sostenible. Esta, la más reciente de estas evaluaciones, examina el estado y las tendencias de los recursos forestales durante el período 1990-2025, aprovechando la labor de cientos de expertos de todo el mundo. Los resultados de la FRA 2025 están disponibles en varios formatos, incluyendo este informe, un artículo interactivo sobre las principales conclusiones y una base de datos en línea en https://fra-data.fao.org.

PARA CITAÇÃO:

FAO. 2025. Evaluación de los recursos forestales mundiales 2025. Rome. 

Para resumo das estatísticas do novo relatório, acesse aqui.


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

45 anos de caminhada pela Engenharia Florestal

 

Vista aérea do Prédio Principal (P1) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Sede do Instituto de Florestas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRuRJ


Me dei conta que há exatos 45 anos, por este período de início de ano, eu começava a estudar engenharia florestal na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRuRJ, onde estive de 1977 a 1983. Na época, a Rural ainda era longe da área urbana, então localizada no KM 47 da Antiga Rio-São Paulo, no município de Itaguaí. Após a emancipação, passou a estar no município de Seropédica. 

Cheio de saudades e de orgulho, quero fazer aqui um breve relato sobre como cheguei lá, sobre as lembranças daquele período e como a Rural e a engenharia florestal influenciaram a minha trajetória profissional, política e cidadã.

Origens...

Decidir uma profissão! Somos obrigados a escolher uma profissão muito cedo, ainda adolescentes, e essa decisão poderá impactar as nossas vidas para sempre. Naquele estágio da vida, ainda nos falta maturidade, informação sobre as opções e principalmente certezas sobre as nossas vocações. Portanto, a escolha da profissão é um momento de precipitada responsabilidade, o que naturalmente gera muita insegurança e ansiedade em quase todas as pessoas. 

Comigo, parecia que seria diferente. Enquanto todos os meus amigos de adolescência viviam o dilema sobre a carreira profissional a seguir, eu desde muito cedo tinha certeza do que seria: advogado! 

Quando aproximava-se o momento de fazer a inscrição no vestibular, provavelmente em algum momento de 1976, adquiri um catálogo de profissões da Fundação Cesgranrio, fundação que promovia o concurso no Rio de Janeiro, e abri justamente na página da engenharia florestal, até então uma profissão desconhecida para mim. Li com atenção, me identifiquei e decidi que aquela seria a minha profissão. Levei a decisão ao meu pai, o coronel Dickson Grael. A primeira reação dele foi: "E o que aconteceu com a advocacia?" Minha mãe, por sua vez, assustou-se, quase chorou e disse "Meu filho vai para o mato!" 😱 

Coisa de avô?

Vô Romão: Passada a surpresa, meu pai dedicou-se a me ajudar a ter certeza da escolha e atribuiu o meu interesse a uma possível herança do meu avô paterno, Romão Grael, que infelizmente não conheci pois faleceu antes de eu nascer. Ele era farmacêutico na cidade natal do meu pai, Dois Córregos, no interior de São Paulo. Era dono da gloriosa farmácia "Drograel", que o tornou conhecido e influente na pequena cidade, a ponto de leva-lo a ser prefeito, entre 1930-1933

Avós paternos, Romão e Luiza Grael

Quadro no meu gabinete na Prefeitura de Niterói, com o material de campanha do meu avô Romão Grael a prefeito de Dois Córregos, SP., cargo que exerceu de 1930 a 1933.

Como o meu pai sempre dizia, os farmacêuticos naquela época precisavam ser bons conhecedores de botânica, uma vez que quase todos os medicamentos eram de manipulação, usando plantas e outros produtos naturais. Meu avô era muito interessado no assunto, tanto que o nome dos filhos foram homenagens a iminentes botânicos. Vô Romão chegou a cultivar o Eucalyptus citriodora para produzir a essência, que era oferecida aos seus clientes. 

Herdei do meu avô Romão um secular exemplar de uma publicação do agrônomo Edmundo Navarro de Andrade, pioneiro da silvicultura no Brasil, que plantava eucalipto no Horto Florestal de Rio Claro-SP e, em 1902, já publicava os resultados dos seus primeiros estudos. O livro chama-se "O Eucalipto no Brasil".

Vô Preben: Também encontro raízes do meu interesse pelo meio ambiente no meu avô materno, Preben Tage Axel Schmidt, um imigrante dinamarquês que escolheu Niterói para morar e trouxe para a nossa família a tradição da vela, esporte que desenvolve uma sensibilidade especial para interpretar sinais meteorológicos e a natureza como um todo, principalmente o ambiente marinho e das águas interiores. 


Preben Tage Axel Schmidt

A primeira formação foi em filosofia, mas depois tornou-se engenheiro civil, com afinidades com obras relacionadas ao mar ou à água (curriculum das principais obras aqui). Era muito culto e um profundo conhecedor de geologia e geomorfologia (estudo do relevo) e desde criança, ao velejar com ele, recebia aulas sobre a origem dos morros e rochas da paisagem da Baía de Guanabara. 

Ele adorava o Brasil, mas sentia falta do frio e a cada quatro ou cinco anos ia para um lugar bem frio. Em 1972, quando eu tinha 14 anos, meu avô Preben me levou numa viagem para a Europa. Além de visitar os parentes na Dinamarca, fomos sentir o frio que ele tanto gostava no norte da Noruega e Finlândia, além de visitar a Groelândia e a Islândia. Cerca de um ano depois, com meus país e irmãos fomos com ele, de navio, para a Antártica. No espaço de um ano cruzei os dois Círculos Polares!


Com crianças Inuit (esquimós), em Kulusuk, Groelândia. Foto de Preben Schmidt, 1972.

Assistindo dança tradicional, Kulusuk, Groelândia. Foto Preben Schmidt. 1972


Minha mãe Ingrid na Antártica com os filhos Lars, Torbem e Axel. Foto de Preben Schmidt. 1973. No espaço de um ano cruzei os dois Círculos Polares: Ártico e Antártico.

Na Islândia, tive o momento mais marcante junto ao meu avô. A Islândia é uma ilha de origem vulcânica e geologicamente muito recente. É como se os eventos que formaram o relevo local tivessem acabado de acontecer. Ou seja, um lugar ideal para uma boa aula de geomorfologia! Num passeio para o interior do país, me sentei com o meu avô nas proximidades da cachoeira de Gullfoss, onde por cerca de duas horas ficamos observando a paisagem, ele me explicando a formação daquele relevo ao nosso redor e até o motivo daquela cachoeira existir. E ele tinha uma forma muito divertida e peculiar de explicar, com o seu gostoso sotaque dinamarquês, um expressivo gestual e uma divertida sonoplastia para designar as fraturas, soerguimentos e colapsos das rochas, bradados na forma de: Foam!, Bang!, Crack!, Poom!... Inesquecível. 

Nunca mais perdi a mania de olhar para os morros, tentar interpretar a sua origem geológica, imaginando o meu avô me explicando, com aquele gostoso jeitinho dele, aquilo que estava na minha frente.


Axel Grael e Preben Schmidt na Gullfoss

Gullfoss, sudoeste da Islândia.

Definição...

Na época da definição pela minha profissão, morávamos em Brasília, onde meu pai exercia suas últimas funções na carreira militar, antes de ir para a reserva. 

Ainda hoje, quando digo que sou engenheiro florestal, muitas pessoas olham com perplexidade, por desconhecimento da profissão. Imagine há 45 anos! Para que eu tivesse a certeza final sobre a minha decisão, meu pai me levou para conversar com um dos maiores nomes da história ambiental do país, o saudoso Dr. Paulo Nogueira Neto, que curiosamente tinha a sua primeira formação em direito e depois em história natural. Foi um dos representantes do Brasil na Conferência da ONU de Estocolmo, em 1972, ocasião em que o Brasil, sob governo militar, estava muito apegado a teses nacional-desenvolvimentistas e, com a tese que a poluição era bem-vinda, desde que trouxesse o crescimento econômico. Obviamente, nosso país saiu como um dos principais vilões da conferência. Para reverter a péssima imagem, Dr. Paulo convenceu o governo brasileiro a criar o primeiro órgão ambiental federal: a Secretaria Especial do Meio Ambiente - SEMA, um histórico, emblemático, mas acanhado escritório no meio da burocracia de Brasília. 

Foi lá onde eu o encontrei. Meu pai me apresentou e disse: 

"Meu filho quer ser engenheiro florestal!"
 
Lembro até hoje as palavras do Dr. Paulo, que em meio a uma longa explanação, disse algo como:

"É uma profissão que ainda não tem presente, mas tem futuro. Se você acredita no futuro, vai em frente!"


Era o que eu queria ouvir. Fui em frente!

Universidade Rural

Fiz o vestibular no final de 1976 e fui aprovado na minha primeira escolha: engenharia florestal (a segunda era direito 😊). Nas primeiras semanas de 1977, lá estava eu na Universidade Rural, acompanhado do meu pai, fazendo matrícula e procurando uma vaga no alojamento. 

Lembro até hoje do meu número de matrícula: 77030044 e do significado dos números no registro:

77 = o ano do início do meu curso
03 = indicava o curso de engenharia florestal
004 = Indicava que havia sido o quarto colocado no vestibular
4 = era apenas um dígito que finalizava a matrícula.


Além de ser uma boa universidade, a Rural é uma grande escola de vida. Fui morar no 2° Alojamento, quarto 234, onde dividia o espaço com outras sete pessoas, compartilhando uma grande mesa de estudos por quarto e um banheiro por andar. Passávamos a semana (de segunda a sexta) na universidade, convivendo com centenas de outros estudantes, fazendo as refeições juntos no bandejão, praticando esportes e nos encontrando pelos lindos prédios de uma das mais belas universidades que conheço. 

Me beneficiei muito daquela imersão no ambiente ruralino, do convívio com uma comunidade de estudantes de diferentes origens, classes sociais e com ricas histórias pessoais. Do convívio no quarto 234, surgiu a amizade com pessoas queridas como Herbert Vianna, Bi Ribeiro e Barone, que naquela época criaram a banda Paralamas do Sucesso. Muitas das amizades daquela época tornaram-se relações duradouras, que persistem até hoje.

Uma forte lembrança do campus da Rural é a beleza da arquitetura, mas também a distância entre os prédios e as longas caminhadas sob o sol para ir de um local de aula para outro. 

Outra lembrança eram as lutas estudantis que muitas vezes nos levavam a longas greves. A mais famosa no meu período foi a "Greve dos 100 dias", que travamos contra o chamado "crédito zero", instituído justamente no meu semestre inaugural. A direção da universidade considerava que os alunos lá chegavam com deficiências e decidiram que deveríamos aprender em um semestre tudo aquilo que supostamente não havíamos absorvido em todos os anos anteriores de educação.  Me lembro bem que após todo o stress e o esforço para passar no vestibular, a minha primeira aula numa universidade foi de Cálculo Zero e para a nossa indignação a aula era sobre: conjunto unitário, conjunto vazio e coisas do tipo.

Com a greve conseguimos que a universidade abandonasse o famigerado Crédito Zero, mas já era tarde: perdemos um semestre do nosso valioso tempo.

Me formei em 1983, após trancar a matrícula por um ano, quando fiz uma viagem: fui velejando de Niterói até a Grécia. 

Estágios

A minha determinação por aprender e acumular experiências era tão grande que praticamente aproveitei todas as chances que tive para fazer estágios, fazer trabalhos voluntários, participar de congressos, eventos científicos e profissionais. Não era fácil, pois morando na Universidade Rural, estávamos longe do mercado e das instituições que ofereciam estágios. Mas, aproveitava todas as férias, feriadões e definia os meus horários na universidade para que pudesse conciliar os estágios e até mesmo as competições esportivas.

Alguns dos meus principais estágios e trabalhos voluntários foram os seguintes: 

  • ETEPLAN: a época era o auge dos incentivos fiscais ao reflorestamento e a empresa dedicava-se a desenvolver projetos florestais. Foi uma importante oportunidade para aprender a trabalhar planilhas de custos e conhecer detalhes de um projeto de reflorestamento.
  • FEEMA: inicialmente, fui estagiário do setor de Botânica, do Departamento de Conservação Ambiental – DECAM da FEEMA. A sede do DECAM era na Vista Chinesa, no Alto da Boa Vista e tive como orientadores os botânicos Pedro Carauta e Henrique Martins.
  • Parque Nacional de Itatiaia: aproveitei um período de férias para desenvolver um levantamento das atividades nas propriedades no entorno do Parque Nacional de Itatiaia.
  • Instituto Florestal de São Paulo: fui estagiário com orientação do engenheiro florestal Sebastião Fonseca Cesar e do engenheiro agrônomo Hideyo Aoki e o principal resultado do meu trabalho foi desenvolver o planejamento e a implantação da Trilha de Interpretação da Natureza no Setor da Pedra Grande, no Parque Estadual da Cantareira, em São Paulo. O parque estava fechado à visitação há muitos anos e as visitas guiadas permitiram que a população pudesse voltar a usufruir de uma das mais importantes áreas verdes da Região Metropolitana de São Paulo. Para a fazer o estágio, eu viajava para São Paulo todo final de semana, feriado e períodos de férias, durante dois anos.
  • BANERJ: fui estagiário do setor de Crédito Rural do Banco do Estado do Rio de Janeiro - BANERJ, com a oportunidade de viajar o interior do estado do Rio de Janeiro e contribuir com a fiscalização das propriedades que utilizavam o sistema de crédito do banco.

Projeto Rondon

A Universidade Rural me proporcionou também a oportunidade de ter a minha primeira experiência na Amazônia, através do Projeto Rondon, uma política pública de grande relevância que levava estudantes das universidades federais a conhecer realidades do interior do país e desenvolver projetos de apoio às atividades locais.

Em Mazagão, com outros estudantes integrantes da equipe do Projeto Rondon: Achilles (ao fundo) e Margnus.


Com marceneiros locais que trabalharam na construção de um "ripado", ou viveiro, cuja finalidade inicial era a produção de mudas para a arborização urbana. Acabei direcionando a produção do viveiro para a produção de espécies frutíferas e hortaliças que pudessem contribuir para melhorar a alimentação da população local.

"Ripado" tomando forma.


Através do Projeto Rondon fui designado para um trabalho na cidade de Mazagão, uma pequena cidade e sede municipal no sul do Amapá, onde só se chegava de barco pelo Rio Amazonas e subindo o "Furo do Mazagão". Não havia estradas, embora na época estava se construindo uma ponte sobre o Furo do Mazagão, na esperança de que algum dia a estrada chegasse. 


Moradores locais nos visitando na casa que era a sede da nossa equipe em Mazagão.


O meu projeto original, previsto pelos dirigentes do Projeto Rondon, era construir um "ripado" para a produção de mudas de arborização urbana para as ruas da cidade. As ruas eram realmente áridas, sem sombra naquele calor intenso, mas a cidade era muito pequena e as suas poucas ruas terminavam na Floresta Amazônica. Considerei que plantar mais árvores talvez não fosse a prioridade dos moradores e consultei lideranças locais e pessoas que lá conheci e direcionei os recursos que levei para a aulas de horticultura e fruticultura com espécies locais.

Formação profissional e reflexões políticas

Do meu aprendizado profissional, conquistei o privilégio de ter as florestas e o meio ambiente como uma das minhas principais lentes para enxergar a sociedade e o mundo que vivemos, adotando a sustentabilidade como sonho e projeto de vida. É bom lembrar que o termo sustentabilidade só surgiu mais de uma década depois, nos preparativos para a Rio 92.

Ao olhar político e social que já havia sido incutido pelos ensinamentos do meu pai, agreguei as intensas reflexões políticas que fazíamos no movimento estudantil. Vivíamos sob a ditadura militar. Lembro-me de episódios como a absurda invasão do campus da universidade pelas forças de repressão e das agressões contra os estudantes nas manifestação contra a destruição do prédio da UNE. Diante da luta pela redemocratização do país e a construção do sonho de um Brasil melhor, travávamos longos, intensos e acalorados debates ideológicos. Éramos todos de esquerda, mas de diferentes interpretações ideológicas do que era ser esquerda. 

Eu achava que muitos colegas estavam mais avançados no conteúdo e levavam vantagem no debate político e me vi instado a mergulhar na leitura de alguns bons clássicos da ciência política e outras fontes importantes para a formação ideológica. Não era nada trivial enfrentar as disputas das diversas matizes políticas que buscavam a liderança do movimento estudantil. Eram muitas as tendências ideológicas e lembro que elas se alinhavam em torno de jornais. Com a derrota da ditadura e a reconstrução da vida democrática, muitas dessas tendências deram origem a partidos políticos. Eu lia vários jornais, mas não perdia um número do jornal "Movimento" e "Pasquim". 

Ambientalista

Dos meus estudos ideológicos, ainda na universidade avancei para alguns clássicos da ecologia política e do ambientalismo, que me aproximaram do movimento que levou à fundação do Partido Verde - PV. Dentre muitos outros, li naquela época: 

  • "Silent Spring" e "The Sea Around Us", de Rachel Carson, uma pioneira do ambientalismo e que chamou a atenção dos impactos dos agrotóxicos.
  • "Introdução à Crítica da Ecologia Política", do francês Jean-Pierre Dupuy, que ajudou a embasar a ecologia como caminho político, 
  • "Antes que a Natureza Morra", de Jean Dorst, que alertava sobre a extinção das espécies.
  • Vários títulos do francês Rene Dubos, com conteúdo mais filosófico e quase teológico, antecipando o que seria chamado depois de "deep ecology".
  • Warriors of the Rainbow, que conta a história da fundação do Greenpeace e me inspirou na formação do MORE 💪
  • Vários títulos de Lester Brown, publicações com conteúdos mais basilares sobre temas estratégicos e globais e
  • Me aprofundei nos relatórios do Clube de Roma ("Limites do Crescimento") e outros documentos prévios e posteriores à Conferência de Estocolmo, de 1972.

Me lembro de conversar sobre essas leituras com o meu avô Preben. Certa vez, ele me deu uns textos de autores críticos aos ambientalistas. Diante da minha perplexidade e contrariedade, me disse: "Quer defender esse ponto de vista, saiba o que pensam os contrários, para que possa se preparar para o debate". Aprendi!

Certa vez, peguei uma imagem de satélite emprestada do professor da cadeira de Sensoriamento Remoto e levei para que o meu avô, entusiasta da tecnologia, pudesse conhecer. Era uma imagem em "falsa cor" da Baía de Guanabara. Enquanto conversávamos "sobrevoando" aquela imagem, encantados com toda a tecnologia de filtros que permitiam destacar o relevo, florestas etc, ele mais uma vez me impressionou. Disse que estávamos ali saboreando aquela tecnologia, mas que nenhuma outra geração tinha visto tanta transformação que a dele. Ele havia nascido, em 1898, na pequena cidade dinamarquesa de Fredericksberg, que mantinha-se praticamente igual através de gerações, com poucas mudanças. Ele viu a chegada dos primeiros automóveis, viu surgir os primeiros voos comerciais, viu os telefones se popularizarem, a chegada dos computadores, teve como professor de física Nils Bohr, prêmio Nobel, na Escola Politécnica de Copenhague, e via agora imagens de satélites... Preben Schmidt faleceu em Niterói, em 1978, aos 80 anos.

Aprofundando no conhecimento florestal e na reflexão ambientalista, comecei a me informar sobre os problemas da Baía de Guanabara e as suas soluções e um problema de dava uma especial indignação: a poluição causada pelas chamadas "fábricas de sardinha", Niterói tinha mais de uma dúzia delas e todas eram absurdamente poluidoras. Segundo relatórios da FEEMA, a carga orgânica lançada pelas fábricas de sardinha de Niterói na Baía de Guanabara correspondia a toda carga gerada pelos esgotos da cidade, que na época praticamente não tinha tratamento. Comprei uma briga com as três fábricas localizadas em Jurujuba: Atlantic, Ribeiro e Santa Iria. As indústrias causavam uma poluição na Enseada de Jurujuba (Saco de São Francisco) que fazia todos os bairros, inclusive São Francisco, onde eu morava, feder a peixe podre. A cada velejada, precisava esfregar o meu barco para livra-lo do fétido "óleo de sardinha" que ficava grudado no barco. 

Em 1979, resolvi agir e organizei no ano seguinte uma "Regata de Protesto", mobilizando os velejadores que eu conhecia. Reunimos cerca de 100 embarcações numa manifestação pioneira em defesa da Baía de Guanabara e conseguimos atrair alguns pescadores e outras pessoas interessadas. O evento alcançou uma grande repercussão, chegando à televisão e aos jornais.

Ainda em 1980, fundei o Movimento de Resistência Ecológica - MORE, organização com sede em Niterói e dedicada a denunciar e enfrentar o processo de poluição da Baía de Guanabara. Fui o seu primeiro presidente, da fundação até 1985, quando passei a exercer outros cargos na instituição. O MORE fez história, chegou a ter mais de 1.000 associados e formou uma geração de ambientalistas, muitos deles ainda ativos atualmente. Além de enfrentar as fábricas de sardinha e pressionar a FEEMA para que exigisse que instalassem as Estações de Tratamento de Despejos Industriais - ETDI, defendemos as Lagoas de Piratininga e Itaipu, lutamos pelo saneamento, ciclovias em Niterói e pela criação do Parque Estadual de Serra da Tiririca.

Desde cedo, ainda na década de 1980, eu já tinha a questão climática entre as minhas preocupações, a ponto de escrever artigos no "Informativo do MORE". Também, na década de 1990, desenvolvi uma proposta com o Dr. Patrick Kangas, da Universidade de Maryland, para desenvolver do RJ um grande projeto de restauração florestal com base no que viria a ser no futuro, após o Protocolo de Quioto, aprovado em 1997 como desdobramento da Rio 92, o sistema de compensações de crédito de Carbono.

Em 1989, após uma crise interna do MORE, fundamos o Movimento Cidadania Ecológica, que presidi até 1991, quando me afastei para assumir a presidência do Instituto Estadual de Florestas - IEF/RJ. Também presidi o Instituto Baía de Guanabara - IBG.

Em 2000, junto com os meus irmãos Torben e Lars Grael, fundamos o Instituto Rumo Náutico, organização que tem como objetivo dar suporte institucional para o Projeto Grael, iniciado em 1998. O Projeto Grael dá oportunidades para que estudantes da rede pública de educação possam dar início em esportes náuticos, participar de oficinas profissionalizantes voltadas para o mercado náutico e atuar em programas ambientais focados na Baía de Guanabara e particularmente no problema do lixo marinho. Em quase 24 anos de atividades, o Projeto Grael já beneficiou mais de 20 mil crianças e jovens e conquistou várias premiações nacionais e internacionais.

Carreira

Tornei-me engenheiro florestal e não me imagino como advogado!

Minha trajetória sempre oscilou ou contou com atuações concomitantes entre a ação governamental, na iniciativa privada e no terceiro setor, com uma passagem pela academia (dei aulas e em 2003/2004, iniciei um doutorado em Geografia, na UFRJ).

Quando me casei com a Christa, disse a ela que como engenheiro florestal, íamos morar no mato, como a minha mãe havia previsto, mas mesmo trabalhando na Amazônia e outras partes do país, sempre tive como base o RJ. Até hoje, a Christa me cobra o mato!

Comecei a minha carreira na iniciativa privada. Meu primeiro emprego foi no Estaleiro Verolme, em Angra dos Reis, onde fui responsável pela área ambiental, desenvolvi projetos de paisagismo urbano e industrial, acompanhamento e fiscalização de obras, recuperação de áreas degradadas e outras atividades. Já no primeiro emprego, era responsável por chefiar uma equipe de mais de 230 funcionários.


Com a antropóloga Mirian Nuti, o arqueólogo Cláudio Delorenci na Aldeia Mapuera, na Área Indígena Nhamundá-Mapuera.

Meninos arqueiros, Aldeia Mapuera.


Em 1986, fui contratado pela ENGE-RIO Engenharia e Consultoria S/A. Rio de Janeiro- RJ, empresa com forte atuação em projetos de engenharia em hidrelétricas. Desenvolvi estudos e projetos ambientais na Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e região sul do Brasil. Posteriormente, assumi a coordenação de contratos para projetos ambientais em mineração (Projetos de Recuperação de Áreas Mineradas- PRAD). Dentre os principais trabalhos de campo realizados, desenvolvi estudo ambiental na Área Indígena Nhamundá-Mapuera (Rio Mapuera, PA); realizei mapeamentos e inventários florestais; estimativas de fitomassa e projetos de resgate de recursos genéticos em áreas de inundação de reservatórios de hidrelétricas.

Depois da Enge-Rio, passei por outras empresas de projetos e consultoria, como a finlandesa Jaakko Pöyry Engenharia, Haztec e outras, até que em 2011 constituí a minha própria empresa: a Grael Ambiental.

Na área pública, tive a minha primeira experiência em 1991, quando assumi a presidência da Fundação Instituto Estadual de Florestas - IEF/RJ, no segundo Governo Brizola, permanecendo durante toda a gestão, até o fim de 1994. O IEF/RJ era o órgão responsável pela gestão de todos os parques estaduais do Rio de Janeiro, da biodiversidade, fiscalização do desmatamento, reflorestamento e restauração de áreas degradadas. Depois, assumi a diretoria executiva da Fundação Parques e Jardins (Prefeitura do Rio), onde fiquei de 1995-1997. A seguir, assumi a Coordenação de Planejamento e Educação Ambiental da SMAC- Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Cidade do Rio de Janeiro, onde tive a minha primeira experiência de estruturação de grandes projetos e captação de recursos internacionais, ao assumir a coordenação geral do do PROJETO DE RECUPERAÇÃO AMBIENTAL DA MACROBACIA DE JACAREPAGUÁ, (US$ 330 milhões, negociados com o JBIC- JAPAN BANK FOR INTERNATIONAL COOPERATION, Governo Japonês).

Assumi a presidência da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA em duas ocasiões (1999-2000 e 2007-2008). A FEEMA é um órgão ambiental pioneiro no país, o maior e mais importante da estrutura ambiental do RJ e era responsável pelo licenciamento ambiental das atividades potencialmente poluidoras, gestão e monitoramento da qualidade ambiental no estado. Na FEEMA, passei a assumir responsabilidades sobre o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara.

Em 2007, o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, me designou gerente da reforma da estrutura ambiental do estado e coube a mim conceber e implementar o processo que extinguiu o IEF-RJ, FEEMA e SERLA e criou o INEA-RJ, o atual órgão ambiental do estado do Rio de Janeiro.

Tanto como presidente do IEF-RJ, como da FEEMA, representei o estado do Rio de Janeiro no Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA, onde pude participar de debates técnicos, reflexões sobre políticas públicas, complexas negociações com diferentes grupos de pressão e votações de grande responsabilidade. Foram momentos históricos da construção da legislação e normatização ambiental do país. Hoje, o CONAMA, que tinha representação federal, dos estados, dos municípios, de organizações de setores econômicos do país e da sociedade civil, foi desfigurado pelo atual governo federal e tornou-se um órgão apenas homologador das tentativas de "passar a boiada" (como disse um certo ex-ministro de triste memória) na política ambiental do país. Mas não tenho dúvidas que será reconstruído em breve.

Niterói

Em 2013, a minha vida deu uma guinada, quando a convite de Rodrigo Neves concorri pela primeira vez a um cargo eletivo, participando como candidato a Vice-Prefeito na sua chapa. Fomos eleitos e demos início a uma grande transformação na cidade de Niterói. O primeiro passo foi estabelecer um projeto de cidade, o que aliás é um dos maiores problemas do Brasil: nos falta um projeto de nação!

O sonho de fazer de Niterói uma referência de sustentabilidade urbana e de justiça social teve as suas bases estabelecidas em 2013, quando começamos a desenvolver o planejamento estratégico "Niterói que Queremos", projetando o sonho coletivo a ser alcançado em 2033. Mais de 10 mil pessoas contribuíram para o plano, que tem sido a nossa carta de navegação.

Com o trabalho que desenvolvi de estruturação do Escritório de Gestão de Projetos - EGP, desenvolvemos um ambicioso projeto de captação de recursos. Trouxemos recursos do BID, CAF e do governo federal, além de trazer parcerias com a AFD. Niterói passou a ter uma das maiores carteiras de investimentos no país, ganhou o túnel Charitas-Cafubá, a TransOceânica e obras de infraestrutura na Região Oceânica que eram muito esperadas há décadas. 

Também estruturei as políticas de Niterói Cidade Inteligente, as ações de resiliência e defesa civil e diversas outras ações. No tema da sustentabilidade, elevamos a cobertura de áreas protegidas em Niterói para mais de 53% do seu território. Qual outra cidade num contexto metropolitano tem essa oportunidade? Concebi e coordenei o Programa Niterói de Bicicleta e o Programa Niterói Mais Verde e o Programa Região Oceânica Sustentável - PRO Sustentável. Como parte deste último programa, iniciamos a implantação do Parque Orla de Piratininga Alfredo Sirkis e obras emblemáticas como da Ilha da Boa Viagem.

Uma das conquistas que eu mais me orgulho foi colocar de pé o Programa Niterói Jovem EcoSocial. Assim como conseguimos associar esportes náuticos, capacitação profissionalizante e meio ambiente no Projeto Grael, com o EcoSocial, consegui unir floresta, capacitação profissionalizante, inclusão social e prevenção à violência.

Com o advento da COVID-19, assumi a coordenação dos programas sociais do governo, estruturando o Renda Básica Temporária - RBT, que beneficiou quase a metade da população de Niterói. Mais uma vez Niterói foi referência, sendo reconhecida pela imprensa nacional e internacional e conquistado prêmios.

O engenheiro florestal e ambientalista virou prefeito

Ser prefeito da cidade que a gente ama é um grande privilégio e um orgulho sem fim.

Após oito anos de gestão, o prefeito Rodrigo Neves concluiu o seu ciclo com mais de 70% de aprovação. Com o apoio dele, fui candidato a prefeito para dar continuidade ao projeto de cidade, à gestão e ao projeto político, tendo sido eleito no primeiro turno, com 62,5% dos votos e contando com Paulo Bagueira como vice-prefeito. O segundo colocado teve 9%.

No primeiro ano de gestão (2021) demos continuidade aos esforços de Rodrigo Neves para combater a COVID-19 e estruturamos a prioridade para os anos seguintes: a retomada da economia e a retomada do emprego. Anunciamos um plano de investimentos histórico que gerará empregos e trará melhorias de infraestrutura, que permitirá atrair mais empresas e oportunidades para a cidade. Serão obras e serviços para melhorar a vida das pessoas e que injetará R$ 2 bilhões na economia. Concluiremos as obras do Parque Orla de Piratininga, avançaremos na despoluição do sistema lagunar de Piratininga e Itaipu, a malha cicloviária ultrapassará a marca de 120 km e faremos a revitalização do Centro da cidade com obras estruturantes como a nova Avenida Visconde do Rio Branco, o Parque Esportivo (onde hoje é a Concha Acústica) e vários outros investimentos. Na Região Norte, os investimentos terão como principal alavanca as obras de revitalização da Alameda São Boaventura. Saúde, Educação, Cultura terão investimentos como nunca terão na cidade. Várias dessas obras estão em licitação ou já estão iniciando.

Criei a primeira Secretaria Municipal do Clima do país. Com a experiência de Niterói e na condição de vice-presidente de ODS da Frente Nacional de Prefeitos - FNP, participei em novembro de 2021 da COP-26, em Glasgow, Escócia.

Niterói honrou a sua tradição progressista e vocação para a sustentabilidade. Escolheu para prefeito um engenheiro florestal, ambientalista, esportista, empreendedor social e gestor público e continuará avançando para ser aquilo que sempre sonhamos: a melhor cidade para se viver e ser feliz e um modelo para outras cidades.

Axel Grael
Engenheiro florestal (com muito orgulho!)


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domingo, 3 de março de 2019

New Deal Verde: discurso pela sustentabilidade lidera o antagonismo político a Trump



COMENTÁRIO:

O movimento New Deal Verde ganha força no cenário político dos EUA com a liderança de setores mais à esquerda do Partido Democrático e tem sido considerado a reação às maluquices megalomaníacas e sectárias de Donald Trump.

A porta-voz do movimento é a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de 29 anos, a mais jovem eleita para o Congresso dos EUA tornou-se um fenômeno de popularidade, vista como a representante da nova geração, dos latinos e da renovação da política americana.

Em oposição a Trump, que insiste na tese negacionista e refratário às iniciativas em favor do combate às mudanças climáticas, Ocasio-Cortez usa os relatórios do IPCC - Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU e, através do New Deal Verde propõe mudanças radicais na economia americana em dez anos, fazendo com que 100% da demanda por energia nos EUA seja atendida por meio de fontes energéticas limpas, renováveis e com zero emissão de carbono e reformar todos os prédios do país, assim como construir novos, “para atingir o máximo de eficiência energética, eficiência de água, segurança, preços acessíveis, conforto e durabilidade”.

Ação e reação: sustentabilidade x retrocessos civilizatórios

O debate está aberto e incendiando a política e o processo pré-eleitoral nos EUA. O interessante é que vemos o discurso da sustentabilidade como oposição ao obscurantismo da extrema direita de Trump, que turbinou candidaturas populistas e radicais de direita mundo afora, como foi o caso de Bolsonaro no Brasil.

O confronto que se delineia é a sustentabilidade x "business as usual", nova economia com bases sustentáveis x lobby do petróleo, responsabilidade global x o isolacionismo segregacionista do muro de Trump.

A reação republicana, dos apoiadores do presidente americano procuram desqualificar as ideias de Ocasio-Cortez insistindo nas mesmas teses reacionárias que levaram Trump ao poder.

Podemos estar vendo o início de um processo histórico de transição para a sustentabilidade. Vamos acompanhar com interesse e aprender com a evolução dos debates norte-americanos e trabalhar para que inspirem ventos saudáveis de inovação e renovação por aqui também, para que o Brasil avance para o caminho da sustentabilidade e não continue retrocedendo, como estamos vendo na atual gestão federal.

Axel Grael




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New Deal Verde, o antagonista do muro de Trump

A congressista Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Ed Markey durante a apresentação do "New Deal Verde" em Washington Foto: Jonathan Ernst / REUTERS


Impulsionado pela congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez, plano ambicioso é visto como 'caro e irrealista', mas suscita debates em Washington

Paola De Orte — Especial para O GLOBO

WASHINGTON — O gabinete de Alexandria Ocasio-Cortez chama a atenção de quem passa pelos longos corredores do Edifício Cannon, um dos prédios que abrigam escritórios de parlamentares perto do Capitólio, a sede do Congresso americano em Washington. Em vez de ostentar apenas bandeiras dos Estados Unidos e do estado de origem da deputada do Partido Democrata, a porta do escritório está cercada de post-its coloridos, com recados de seus apoiadores. Eles não param de chegar ao local, e tiram fotos ao lado da placa com o nome da parlamentar, conhecida pelas iniciais AOC.

— Ela representa as latinas no Congresso — diz Brimady Ramirez-Garcia, estudante de ensino médio que veio de Berwyn, Illinois, a mais de mil quilômetros de Washington, para conhecer a capital — Isso nos incentiva a participar da política.

Mulher mais jovem eleita para o Congresso americano, AOC, de 29 anos, é um fenômeno de popularidade da era das redes sociais. Com mais de 3 milhões de seguidores no Twitter, a deputada de origem porto-riquenha que representa os distritos nova-iorquinos do Bronx e do Queens supera nesse quesito a veterana democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados. E, já no início da legislatura, aproveita a atenção para emplacar seu primeiro projeto.

No dia 7 de fevereiro, ao lado do senador Ed Markey, Ocasio-Cortez apresentou ao Congresso uma resolução que propõe um “New Deal Verde”. Citando estudos do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, o texto propõe reformas radicais na economia americana. Entre elas, “fazer com que 100% da demanda por energia nos EUA seja atendida por meio de fontes energéticas limpas, renováveis e com zero emissão de carbono”, e reformar todos os prédios do país, assim como construir novos, “para atingir o máximo de eficiência energética, eficiência de água, segurança, preços acessíveis, conforto e durabilidade”. O projeto prevê um prazo de dez anos para sua implementação.

— É uma declaração de desejos — diz Alex Brill, especialista em política fiscal do centro de estudos conservador American Enterprise Institute, ao explicar que uma resolução, mesmo que aprovada, não é de aplicação obrigatória.

Ainda assim, o New Deal Verde ganha espaço no debate político em Washington e tende a ser uma referência dos debates que ocorrerão até a corrida presidencial de 2020, assim como foi o muro de Donald Trump em 2016. Tanto democratas quanto republicanos acabaram se posicionando publicamente sobre a proposta.

O plano de Roosevelt

O Green New Deal é uma versão atualizada do New Deal de Franklin D. Roosevelt, série de programas implementados entre 1933 e 1937 nos EUA com o objetivo de recuperar a economia do país após a recessão gerada pela crise de 1929.

Segundo o historiador Eric Rauchway, autor de “A Grande Depressão e o New Deal”, o programa foi prometido por FDR em sua campanha eleitoral em 1932. Ao GLOBO, Eric afirmou que, para compreender as circunstâncias atuais, é preciso entender que o New Deal “prometia um programa de vastas obras públicas, particularmente para criar novas formas de eletricidade, conservar os recursos ambientais, ao mesmo tempo em que promovia justiça social”.

O programa propunha uma rede de usinas hidrelétricas que geraria empregos e iria atender a regiões desassistidas. Ele afirma que o paralelo entre o New Deal de FDR e o Green New Deal está justamente no objetivo de financiar maciçamente obras públicas para implantar “formas sustentáveis de energia” que também gerem empregos.

“Socialistas”

O interesse pelo tema ambiental cresce nos EUA. Segundo uma pesquisa das universidades de Yale e George Mason de 2018, 72% dos americanos dizem que o aquecimento global é importante para eles pessoalmente, um aumento de 16 pontos desde a pesquisa anterior.

Entre os republicanos, a rejeição ao New Deal Verde era esperada. O presidente do Senado, Mitch McConnell, disse que vai pôr o projeto em votação, em uma provocação aos democratas, que se veriam obrigados a votar em um texto que poderia desagradar suas bases menos progressistas.

AOC responde às críticas com humor. Quando o senador republicano John Barrasso acusou-a de querer acabar com os sorvetes e cheeseburgers, respondeu:

— Gosto demais de sorvete para fazer isso.

Trump também se pronunciou. Em um comício, disse que o texto parece “um trabalho de ensino médio que recebeu uma nota baixa”. Ele tenta associar o projeto à ideia de que os novos democratas são radicais demais, “socialistas”.

Não está claro se a pecha de socialista teria impacto tão negativo quanto aposta o presidente. A revista “The Economist” estampou em sua capa que o socialismo é tendência na geração millennial. A própria Ocasio-Cortez se diz uma “socialista democrática”, e uma pesquisa do Gallup mostra que parcela crescente dos democratas vê o socialismo como positivo: 57% hoje contra 53% em 2010. Já sua visão positiva do capitalismo, no mesmo período, caiu de 53% para 47%.

Mesmo entre os democratas, o New Deal Verde não é consenso. Apesar de ter recebido apoio de alguns dos pré-candidatos do partido à Presidência — Kamala Harris, Kirsten Gilibrand, Elizabeth Warren, Corey Booker e Bernie Sanders —, a resolução deve enfrentar resistência interna.

— Há democratas que vêm de áreas onde se produz carvão ou onde a geração de eletricidade depende do gás natural — diz Kenny Stein, diretor de políticas públicas do centro de estudos pró-mercado Instituto para Pesquisa sobre Energia, ao argumentar que o projeto não tem chance de ser aprovado no Congresso.

O projeto inclui, além das prescrições ambientais, uma série de recomendações econômicas. Uma das propostas é “criar milhões de empregos bons com alta remuneração e garantir a prosperidade e a segurança econômica para todas as pessoas dos EUA”.

Quem já demonstrou reservas foi a própria Nancy Pelosi. Em entrevista ao site “Politico”, a presidente da Câmara chegou a chamar a resolução de “sugestão”. Na mesma entrevista, se referiu ao projeto como “o sonho verde”. Mais tarde, no entanto, voltou atrás no tom desdenhoso e disse que o entusiasmo com o projeto é bem-vindo.

— É mais uma plataforma política para uma campanha do que uma legislação de fato — ressalta Stein, que afirma que o projeto traz proposições vagas e não explica como colocá-las em prática.

Ele também alega que haveria impactos ambientais negativos: seriam gastos muita energia e material para reformar todos os prédios do país, e a poluição visual e a escassez de espaços adequados são entraves à disseminação de usinas de energia eólica.

— Uma usina comum ocupa 607 hectares, enquanto para uma usina eólica precisamos de milhares de hectares.

Ainda segundo Stein, para atingir o objetivo de suprir todo o consumo energético americano com fontes renováveis seria preciso ocupar 12% da área continental do país apenas para atender à demanda atual. Implementar essas mudanças em dez anos é, para ele, “completamente irrealista”.

“Irrealista”

Alex Brill admite que as mudanças climáticas são um problema, mas diz que a solução apresentada é “muito ruim, muito cara, muito irrealista”. Segundo ele, as propostas custariam trilhões de dólares, e o melhor seria a regulamentação por meio de impostos sobre a emissão de carbono.

A conselheira para energia limpa do centro de estudos progressista Third Way, Lindsey Walter, concorda que a proposta de AOC é ambiciosa, mas se diz otimista por ela introduzir novos parâmetros na discussão ambiental:

— Nunca havíamos visto algo nessa escala nos EUA.

Lindsey admite que o projeto enfrenta obstáculos políticos, mas o vê como um “ponto de partida”, que define como serão as discussões ambientais no Congresso americano daqui por diante, mesmo que o texto não seja aprovado como foi apresentado:

— Ele estabelece padrões de como deve ser uma política ampla e ambiciosa para o clima.
Fonte: O Globo




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domingo, 9 de setembro de 2018

NITEROI RESILIENTE: O difícil trabalho de Niterói para proteger as suas encostas



COMENTÁRIO:

A cidade de Niterói ainda se ressente da tragédia das chuvas de 2010, que causou o triste "episódio do Morro do Bumba", quando muitas vidas foram perdidas não só no Bumba, mas em várias partes da cidade.

Para controlar ou mitigar o problema do risco geotécnico em várias partes de Niterói, a Prefeitura elaborou uma programação de obras de contenção de encostas e acaba de concluir um mapeamento de áreas de riscos, identificando e hierarquizando as áreas mais prioritárias, de forma a permitir o planejamento das próximas intervenções.

Desde o início da gestão do prefeito Rodrigo Neves (2013), a Prefeitura passou a priorizar estes investimentos (contenção de encostas, drenagem etc.), bem como a modernização e estruturação da Defesa Civil de Niterói (com tecnologia, pessoal e a implantação dos NUDEC´s), que a elevou a ser considerada uma das melhores do país, além de ter instituído o Grupo Executivo de Controle do Crescimento Ordenado e Proteção às Áreas Verdes - GECOPAV, com o objetivo de impedir e demolir construções irregulares.

Outra ação que contribui para a resiliência é o Programa Niterói Mais Verde, decretado pelo prefeito em 2014 (Decreto 11.744/2014), que elevou a cobertura de áreas protegidas de Niterói a mais de 50% do território municipal e que promove o reflorestamento de encostas.

O resultado é que desde 2013, mesmo que já tenhamos tido chuvas com intensidades iguais ou superiores à da época do Bumba, a cidade não sofreu a perda de uma vida causada pelas chuvas.

A matéria abaixo retrata o avanço de mais um lote de obras que integra a estratégia da Prefeitura nesta área.

Vamos em frente!

Axel Grael
Secretário Executivo
Prefeitura de Niterói



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O Morro do Estado na região central está entre os locais contemplados com as intervenções do Executivo. Foto: Prefeitura de Niterói / Leonardo Simplício


Encostas repaginadas pela cidade

Prefeitura de Niterói investiu R$ 22 milhões para a realização das intervenções que serão entregues em setembro

O mês de setembro será marcado pela entrega de obras de contenção em diferentes pontos de Niterói. No Caramujo, quatro intervenções estão sendo concluídas: Travessa Jurandir, Rua Selma, Bombeiro Américo e Jerônimo Afonso. No Fonseca, o Morro do Bonfim também terá o trabalho finalizado. O cenário é o mesmo na região central da cidade, com a obra da Rua Moacir Padilha, no Morro do Estado, e na Rua Jandira Pereira, em Santa Bárbara. Para a execução dessas intervenções, a Prefeitura de Niterói investiu, aproximadamente, R$ 22 milhões.

“As obras de contenção de encostas representam maior segurança e qualidade de vida para as famílias que vivem nessas regiões. Essas intervenções que estão sendo realizadas pela atual gestão municipal permitiram que Niterói não registrasse nenhum evento como deslizamento de terra nos últimos anos e, por conta disso, nenhuma vida foi perdida, diferentemente do que ocorreu em 2010, com a tragédia do Bumba”, lembrou o secretário municipal de Obras, Vicente Temperini.

Em andamento – Mais obras de contenção de encostas estão sendo realizadas em outros pontos da cidade. Na Rua Jonathas Botelho, no Cubango, a obra foi dividida em cinco frentes de trabalho. Em todas essas áreas estão sendo executadas técnicas como cortina atirantada com vigas estaqueadas, solo grampeado e a instalação de guarda-corpos. Com investimento de R$9 milhões, a previsão é de que a intervenção seja concluída no primeiro semestre de 2019.

Já no Morro do Arroz, no Centro, equipes desenvolvem técnicas para a implantação da cortina atirantada com vigas estaqueadas e solo grampeado. Na Ponta da Areia, a Rua São Paulo, na altura do número 121, recebe intervenções desde o fim de julho. 


Fonte: O Fluminense











quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Parques rendem 200 bilhões de dólares anuais para a economia dos EUA



COMENTÁRIO DE AXEL GRAEL:

Os dados publicados pela National Recreation and Park Association - NRPA, uma forte organização que representa profissionais e empresas do setor de parques e recreação nos EUA, são impressionantes e mostram a importância e, principalmente, o reconhecimento que as áreas protegidas têm nos EUA.

A publicação "The Economic Impact of Local Parks" mostra que os parques locais e regionais nos EUA geram uma atividade econômica de US$ 140 bilhões anuais e oferecem 1 milhão de empregos. Se somados aos parques estaduais e nacionais, as áreas públicas protegidas nos EUA geram a impressionante cifra de US$ 200 bilhões anuais! O valor corresponde quase ao valor do PIB (2016) de Portugal e é maior do que o do Peru.

O que se pode depreender dos dados citados é que, ao contrário do Brasil, onde parques ainda são vistos por muita gente como meros sorvedores de dinheiro e um obstáculo ao desenvolvimento, nos EUA as áreas protegidas estão inseridas na economia e são relevantes inclusive na geração de empregos.

Axel Grael




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The Economic Impact of Local Parks

We have always known that local and regional public parks add significant value and benefits to their communities in terms of Conservation, Health & Wellness and Social Equity. Beyond that, local and regional park agencies are also engines of economic activity in their communities.

When the spending at local and regional parks is combined with that of national and state parks, public parks are responsible for more than $200 billion in annual economic activity.

America’s local and regional public park agencies generated nearly $140 billion in economic activity and supported almost 1 million jobs from their operations and capital spending alone in 2013. When the spending at local and regional parks is combined with that of national and state parks, public parks are responsible for more than $200 billion in annual economic activity. These are the key findings of research conducted by the Center for Regional Analysis at George Mason University and led by Dr. Terry Clower.

Discover more about how local and regional parks contribute to economic prosperity in their communities here.




The study, the first nationwide study of its kind, focuses exclusively on the direct, indirect and induced effects local and regional park agencies’ spending have on economic activity. The analysis is based on data compiled from both the U.S. Census Bureau and the NRPA’s PRORAGIS database. Read a more thorough, technical discussion of the study here.

The economic benefits of local and regional public parks span coast-to-coast across the U.S. Learn what the economic contribution local and regional parks make in your state here.

Policymakers and elected officials at all levels of government should take notice. Investments made to local and regional parks not only raise the standard of living in our neighborhoods, towns and cities, but they also spark activity that can ripple throughout the economy. Yet public park funding is at threat.

Perhaps you have questions about NRPA’s The Economic Impact of Local Parks study? Here are a few FAQs.


Fonte: NRPA












segunda-feira, 31 de julho de 2017

‘As cidades devem discutir o meio ambiente’, diz economista da UFRJ



Cadu diz que a gestão das unidades de conservação está cada vez mais sob o domínio de prefeituras e estados - Fernando Lemos / Agência O Globo



Renato Grandelle


Carlos Eduardo Young destaca o papel das unidades de conservação para aumentar receita dos municípios

SÃO PAULO — O meio ambiente deve fazer parte do desenvolvimento econômico. Esta é a principal mensagem do economista Carlos Eduardo Young, que estuda as receitas que as unidades de conservação podem trazer às cidades.

No Rio, por exemplo, investimentos em atrações no Parque Nacional da Tijuca fariam o turista aumentar sua estadia e, assim, injetariam mais de R$ 800 milhões na economia local. A cidade já é considerada um modelo em sua integração com a natureza.

Young destaca que a política voltada ao meio ambiente deve ser encarada no plano municipal, e não apenas como um projeto desenvolvido pelo governo federal. Para Young, um morador da Região Sudeste encara o desmatamento de 100 hectares do bioma como algo tão ou mais importante que 10 mil hectares da Amazônia, que é distante de sua realidade. Em ambos os locais, um problema se destaca: a falta de preparo para os eventos extremos, que, de acordo com as projeções climáticas, serão cada vez mais comuns e provocarão estragos crescentes para a infraestrutura e a população.

Alguns ambientalistas falam da dificuldade para entender aquilo que mais chama a atenção da sociedade: a preservação do meio ambiente ou o desenvolvimento econômico. Como responder?

Não existe esse antagonismo. Estamos acostumados com uma visão míope sobre o que é a atividade econômica. Temos a tendência de pensar que desenvolvimento e evolução da cidade são ligados somente à relação de trabalho ou à sua estrutura física. Um exemplo é a mobilidade. Muitas vezes acreditamos que, quanto mais pessoas usam um meio de transporte, maior o progresso, mas não pensamos nos efeitos colaterais, como os congestionamentos que consomem horas que poderiam ser dedicadas a outras atividades. Também enfrentamos cada vez mais baixas na mão de obra devido aos danos à saúde provocados pela poluição atmosférica. Por isso, nunca podemos falar da economia sem considerar as questões ambientais.

E estamos ignorando esta ligação?

Sim. Começou na exploração da Mata Atlântica, depois no Cerrado e agora na Amazônia. Como vivemos em um país de dimensões continentais, existe uma sensação de abundância, parece que nossos recursos são infinitos. É o caso do setor agropecuário, que pega cada vez mais terras e cujo crescimento do PIB foi significativamente superior à média nacional. Sua expansão, no entanto, não resultou em mais empregos. Em 2000, a atividade gerava 16,7 milhões de ocupações. Em 2014, eram 14,2 milhões, uma queda de 13%. Vale lembrar que esta exclusão tem raízes históricas. Na época do Brasil Colonial, quem tinha mais mão de obra barata recebia uma fatia maior do território para explorar. Não somos desiguais por coincidência.

"Como vivemos em um país de dimensões continentais, existe uma sensação de abundância, parece que nossos recursos são infinitos".


De que forma estamos nos adaptando às mudanças climáticas?

As alterações do clima impactam até 2% do PIB, mas não fazemos esforços de mitigação ou adaptação. Gastamos horrores quando ocorre uma catástrofe, e elas são cada vez mais comuns. Grandes hidrelétricas, pecuaristas e mineradores continuam aprontando problemas e, como não há fiscalização, são estimulados a continuar sua atividade agressiva ao meio ambiente. Desta forma, só existe um destino — se você ficou andando na chuva sem casaco ou guarda-chuva, não diga que pegou gripe por azar.

"As alterações do clima impactam até 2% do PIB, mas não fazemos esforços de mitigação ou adaptação. Gastamos horrores quando ocorre uma catástrofe, e elas são cada vez mais comuns".


Na década de 2000, houve um crescimento exponencial na quantidade de unidades de conservação. Este movimento foi reduzido nos últimos anos. Qual é a relação entre este fenômeno e a política e economia do país?

O crescimento foi nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, que eram lideranças incontestáveis em seus partidos e por isso conseguiram impor uma agenda de crescimento das unidades de conservação. Dilma Rousseff e Temer, por sua vez, nunca revelaram interesse pela área ambiental. A petista acredita que é preciso desmatar para desenvolver e vê a floresta como um empecilho. Por isso, em seu governo houve uma grande expansão do setor hidrelétrico. Temer edita medidas provisórias que facilitam o desmatamento na Amazônia e alimenta a noção de que recebemos mensagens contraditórias sobre o meio ambiente: somos favoráveis aos parques, mas também ao emprego e ao alimento barato. Por que ambos são vistos como opções excludentes?

"...somos favoráveis aos parques, mas também ao emprego e ao alimento barato. Por que ambos são vistos como opções excludentes?" 


E como somos afetados por esta mensagem?

Observamos um aumento gradual da importância dos governos estaduais e das prefeituras na política ambiental, enquanto a administração federal perde influência. Por isso, o cenário é cada vez mais heterogêneo. Para nós, que estamos no Sudeste, a Mata Atlântica parece mais importante, como se o desmatamento de 100 hectares do bioma fosse tão ou mais grave do que a perda de 10 mil hectares da Amazônia.

Entre políticas e projetos tão diversos, existe algum exemplo positivo?

O município do Rio de Janeiro tem uma boa gestão, porque os parques estão mais integrados à natureza e à economia da cidade. É o caso do Jardim Botânico, do Monumento das Cagarras, do Pão de Açúcar, do Parque Lage e o do Cantagalo. Obviamente a crise financeira fluminense afeta assuntos ligados à conservação ambiental, e por isso vemos problemas como a ocupação do Parque Estadual da Pedra Branca. Haverá uma expansão do desmatamento, sobretudo em regiões que dependem de mais investimentos do Palácio Guanabara, como o Norte do estado. Mas outras cidades já se atentaram sobre a necessidade de desenvolver novos projetos. A crise hídrica ocorrida nos últimos anos afetou profundamente o paulistano e ele passou a se preocupar mais com o assunto.

E o que pode ser feito?

As cidades devem discutir o meio ambiente e de que forma ela pode gerar energia. Manter a mata será fundamental para nos defendermos das mudanças climáticas e dos eventos extremos. Os prognósticos alertam que, nas próximas décadas, teremos chuvas menos frequentes, só que mais intensas. E as árvores contribuem para reduzir enxurradas e absorver a água.

"Manter a mata será fundamental para nos defendermos das mudanças climáticas e dos eventos extremos".


A política ambiental pode ser um bom negócio?

Fizemos um estudo sobre o potencial impacto econômico do investimento governamental no Parque da Tijuca. Estimamos que a unidade possa receber 2,9 milhões de visitantes por ano, cujo gasto local seria de R$ 283 por dia — isso se refere ao custo do ingresso e também ao aumento da estadia e alimentação para que as pessoas prolonguem a estadia na cidade, tendo o tempo necessário para explorar a região. Então, o parque pode render de R$ 820 milhões a R$ 1,23 bilhão por ano ao Rio.

"O parque Nacional da Tijuca pode render de R$ 820 milhões a R$ 1,23 bilhão por ano ao Rio".


* O repórter viajou a convite da ONG Andi - Comunicação e Direitos













terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Mais de 90 espécies de pássaros são observadas em unidades de conservação do estado no Sul Fluminense



Observadores de pássaros em ação.

Caboclinho (Sporophila bouvreuil). Foto Felipe Queiroz.

Saí canario (Thlypopsis sordida). Foto Felipe Queiroz.

Sana vermelha. Foto de Felipe Queiroz.


Mais de 90 espécies de pássaros foram “capturados” por observadores que compareceram ao programa Vem Passarinhar neste fim de semana (11 e 12 de fevereiro), realizado nos Refúgios de Vida Silvestre Estaduais (REVIS) da Lagoa da Turfeira e do Médio Paraíba, administrado pelo Instituto Estadual do Ambiente e localizado no Sul Fluminense. O objetivo da ação é estimular a prática de observação de aves como uma ferramenta de conservação através da visitação nas unidades de conservação do Estado do Rio de Janeiro.

Aproximadamente 20 pessoas, das cidades do Rio, Resende, Niterói e até de São Paulo, participaram das atividades, que tiveram início logo pela manhã. Ao longo do dia, os observadores trilharam áreas brejosas e de mata atlântica em busca de aves, na Fazenda Santa Mônica, localizada na Zona de Amortecimento dos refúgios. Dentre os pássaros mais observados, destacam-se a sana vermelha, o curió e o caboclinho, este ameaçado de extinção.

Conhecida como birdwatching, a “observação de aves” vem se despontando como importante atividade de contemplação da natureza agregando cada vez mais adeptos e atraindo seguidores de todas as idades. O Inea encontrou na observação de aves uma excelente oportunidade para a sensibilização da sociedade em prol da preservação nas diversas regiões do Estado.

O Vem Passarinhar teve início em 2015. Apesar do curto período de criação, já apresenta resultados expressivos em favor da conservação e do papel educador que a atividade de observação de aves pode oferecer.

Fonte: INEA