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terça-feira, 30 de junho de 2026

SB64, em Bonn: Mais um evento da agenda global do clima a acabar em frustração?



Retornei recentemente de mais uma agenda em Bonn, a bela e histórica "Cidade Federal" da Alemanha, localizada às margens do Rio Reno. 

Entre os dias 08 e 13 de junho de 2026, representei o ICLEI - Local Governments for Sustainability (organização que reúne mais de 2.500 cidades e regiões em todo o mundo), em três eventos importantes realizados em Bonn: 



Membros do GexCom do ICLEI (2025).

SB64 - DIÁLOGOS DE BONN

Bonn foi a capital da Alemanha no pós-guerra, de 1949 até 1999, quando a capital retornou para Berlin, após a reunificação alemã. Mas, a cidade manteve o status de "Capital Federal" e permaneceu relevante no cenário diplomático, sediando vários organismos internacionais, principalmente organizações da estrutura da ONU. Assim, Bonn tornou-se o ponto focal da diplomacia climática global, uma vez que sedia a Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - UNFCCC e, portanto, a cidade recebe muitas reuniões técnicas e diplomáticas relevantes para a agenda climática. 

64ª Sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), ou SB64, é uma reunião promovida regularmente (sempre no meio do ano) pelos chamados Órgãos Subsidiários, sendo eles: Subsidiary Body for Scientific and Technological Advice - SBSTA (Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico e Tecnológico) e o Subsidiary Body for Implementação - SBI (Órgão Subsidiário para a Implementação). Ambas estruturas subsidiam as atividades da Secretaria Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas - UNFCCC, organização com sede em Bonn e que é responsável pela condução da agenda climática sob a responsabilidade da ONU.

Os chamados "Diálogos de Bonn" dão prosseguimento aos entendimentos das COPs anteriores e buscam estruturar temas para acordos e documentos a serem aprovados na COP seguinte. Oficialmente, os diálogos da SB64 tiveram dezenove tópicos para discussão, mas o objetivo principal foi dar continuidade e buscar acordos para os temas debatidos na COP30, de Belém (PA), sob a presidência brasileira, e estruturar documentos que façam parte da agenda da COP31. Representantes das cidades e a sociedade civil mantiveram entre as suas prioridades a cobrança por avanços dos temas relacionados ao financiamento, à adaptação climática, à transição energética e outros temas que têm sido sistematicamente bloqueados pelos lobbies que atuam nos bastidores diplomáticos da agenda do clima.

MAIS UM EVENTO DA AGENDA CLIMÁTICA OFICIAL QUE ACABA EM FRUSTRAÇÃO, MAS COM ALGUNS AVANÇOS 

A grande dificuldade de produzir acordos no âmbito da UNFCCC é a necessidade de alcançar consensos dentre todos os países signatários da convenção para que as decisões sejam formalizadas. É um enorme desafio construir consensos entre países com realidades tão desiguais (exemplo: grandes potências econômicas x pequenas nações insulares) e com interesses tão distintos (exemplo: países industrializados precocemente e com mais responsabilidade nas emissões históricas de Gases do Efeito Estufa e países em desenvolvimento). A necessidade de consenso também facilita o trabalho dos lobistas do petróleo e dos inimigos da descarbonização.

A SB64 concluiu os seus trabalhos no dia 18 de junho. Mais uma vez, observadores da sociedade civil, muitos representantes governamentais e especialistas acadêmicos manifestaram frustração e preocupação com os resultados alcançados na rodada de Bonn (SB64), que indicam tendências de impasses persistentes para próxima COP. 

Como estive em Bonn apenas na primeira semana e participei agendas também de outros eventos, utilizarei informações disponíveis em alguns sites especializados de reconhecida qualidade de informação e idoneidade, organizados principalmente por organizações da sociedade civil que acompanham de perto os debates. 

Dentre as principais críticas dos observadores sobre os resultados (ou falta de resultados) dos Diálogos de Bonn, são destaques:

Discurso x ação: Segundo o Climate Action Network International (CAN), os impasses que persistiram em Bonn comprovam a crescente lacuna existente entre a retórica de implementação e as entregas efetivas. Segundo a CAN, em vez de marcar a transição entre o compromisso com a implementação, o que se viu foi uma estratégia de negociação que valoriza a linguagem da implementação, mas sempre recua para argumentos procedimentais quando chegava-se à necessidade de tomada de decisão. Durante as duas semanas de discussões, governos afirmavam a importância da adaptação, transição justa, resiliência e o apoio às comunidades mais vulneráveis e que já sofrem os efeitos da crise climática. O tema de uma transição centrada nas pessoas (people-centred) se tornou o conceito dominante.

Quando o debate chegava às finanças a conversa sempre retrocedia para medidas de obstrução ou protelatórias, como pedidos de revisões, questionamentos sobre "tecnicidades", solicitações de termos de referência e debates procedimentais. Para o CAN, "o debate passou a ser não mais sobre a necessidade de ação, mas sobre quem tem o poder e os meios para viabilizar a implementação".

Financiamento: o primeiro grande impasse foi no tema sempre mais sensível: quem paga, quanto paga e como paga. Este é o principal entrave para que se avance nas medidas de mitigação e adaptação climática. As expectativas de triplicar o financiamento do financiamento foi bloqueado pelos países mais ricos já no primeiro dia. Os debates e a decisão foram mais uma vez empurrados para frente e devem ser retomado na COP31.

Adaptação: As negociações de adaptação em Bonn terminaram com um balanço preocupante, especialmente pela falta de acordo sobre a Meta Global de Adaptação (GGA, em inglês). O tema foi encerrado sob a Regra 16 (Rule 16), o que significa que as Partes não chegaram a um consenso e que a discussão será retomada apenas na COP31, em novembro, na Turquia. Na prática, isso adia decisões importantes para a implementação, principalmente em um ano de El Niño. Com as previsões de que o fenômeno se desenvolva com força entre o fim do próximo semestre e início de 2027, os impactos da crise climática podem ser acentuados e sentidos de forma desigual pelas populações vulnerabilizadas. (Política por Inteiro)

Transição justa: Neste tema tivemos avanços. Segundo o Política por Inteiro, "no Programa de Trabalho sobre a Transição Justa (JTWP, na sigla em inglês), o principal resultado foi menos relacionado ao conteúdo substantivo e mais à arquitetura institucional que definirá o futuro do processo. Os negociadores concordaram com os termos de referência para uma revisão formal do programa, que ocorrerá na Turquia, durante a COP31 e que servirá de base para sua decisão quanto à continuidade. A revisão avaliará a efetividade do programa desde sua criação, a utilidade de seus produtos para Partes e atores não estatais, a qualidade de seus formatos de trabalho e possíveis melhorias para aumentar sua relevância e impacto".

Mapa do Caminho para longe dos Fósseis: O Mapa do Caminho da Presidência brasileira da COP30 para o Abandono Gradual dos Combustíveis Fósseis (“TAFF Roadmap”, como é conhecido em inglês) consolidou-se como uma das principais iniciativas políticas para operacionalizar o chamado do primeiro Balanço Global do Acordo de Paris (Global Stocktake) para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Segundo a Presidência, o ambiente político em Bonn foi significativamente mais favorável do que em Belém, refletindo uma crescente percepção de que o TAFF Roadmap funcionará como uma ferramenta de implementação, e não como uma tentativa de reabrir negociações já concluídas.

O processo já recebeu mais de 100 contribuições de governos, demonstrando, segundo a Presidência da COP30, um interesse crescente em moldar o conteúdo do roteiro e manter o debate sobre sua implementação vivo. Apesar desse avanço, permanecem desafios políticos importantes. O apoio ao TAFF Roadmap é claramente desigual entre os grupos negociadores. Enquanto alguns países desenvolvidos e membros do Environmental Integrity Group1 (Grupo de Integridade Ambiental) demonstraram apoio explícito, grupos como o African Group of Negotiators (Grupo Africano de Negociadores), o Grupo Árabe e os Like-Minded Developing Countries2 (Países em Desenvolvimento de Pensamento Similar) ainda não sinalizaram alinhamento claro. Em proposições paralelas, representantes africanos buscaram inclusive reforçar a dimensão de equidade do debate por meio da ideia de um “Equitable TAFF Roadmap”, indicando que questões de diferenciação e justiça distributiva continuarão centrais para ampliar o apoio político ao processo (Política por Inteiro).

CONJUNTURA GLOBAL

A conjuntura atual é de grande instabilidade e pouco favorável ao avanço das negociações internacionais da agenda climática. Diante das tensões geopolíticas, causadas principalmente pela posição do governo dos EUA, acontecem retrocessos no multilateralismo, com consequências para o enfraquecimento da ONU e suas organizações. 

Além disso, cabe destaque aos seguintes aspectos:

Guerra do Irã: Em fevereiro de 2026, EUA e Israel deram início a um ataque contra o Irã, sob o pretexto de destruir um pretenso arsenal nuclear daquele país. Diante da agressão, o Irã fechou o Estreito de Ormuz e atacou instalações militares dor EUA nos países vizinhos. A crise causada pela guerra e pela impossibilidade de escoamento do petróleo e seus derivados a partir do Estreito de Ormuz, causou uma crise de abastecimento energético global e alta do preço do petróleo. A guerra aumenta o debate e a pressão pela descarbonização da economia e por uma transição energética global que nos afaste da dependência do petróleo ("phase out" do petróleo). 

Também cabe aqui fazer alguns alertas. Uma análise feita pelo Climate and Community Institute e divulgada pelo The Guardian, apontou que somente os primeiros 14 dias da Guerra contra o Irã produziu uma emissão de 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (tCO2e). Relatório da ONU denunciou que os gastos militares bateram um novo recorde mundial no ano passado chegando a US$ 2,7 trilhões. Mais de 100 países, de todas as regiões do planeta, aumentaram os orçamentos de defesa levando a corrida armamentista a um patamar jamais visto. Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, "gastos militares excessivos não garantem a paz" e podem, inclusive, prejudicá-la, “alimentando corridas armamentistas, aprofundando desconfianças e desviando recursos das verdadeiras bases da estabilidade”. Segundo o relatório, apenas 4% desse gasto já seria suficiente para acabar com a fome no mundo e 10% acabariam com a pobreza extrema. (Saiba mais aqui). Também é fato que o aumento dos gastos militares desviam recursos que antes tinham prioridade para a agenda climática e outros temas ambientais.

Ondas de Calor na Europa causa mortes: Logo após a SB64, de 20 a 28 de junho, aconteceu a Semana de Ação Climática de Londres (London Action Climate Week 2026), quando cerca de 75 mil pessoas, dentre elas muitas das principais lideranças climáticas, dentre gestores públicos, representantes da sociedade civil, empresários, reuniram-se novamente para debater a transição para o "Net Zero" e indicar caminhos para as negociações na COP31. 

Fonte: Earth.org

Os dois eventos ocorreram quando vimos a Europa enfrentar mais uma grave onda de calor, que segundo a Organização Mundial da Saúde - OMS, já causou mais de 1.300 mortes - sendo mais de 1.000 só na França, somente na semana do dia 21 de junho, com causas "associadas às altas temperaturas na Europa". A atual onda de calor já é considerada a mais intensa na história da Europa e seria a consequência do que os meteorologistas chamam de Bloqueio Ômega, um padrão atmosférico  que mantém a massa de ar quente estagnada sobre uma mesma região, impedindo a chegada das frentes frias. Nos últimos dias, o nível de calor bateu recordes em várias partes da Europa (fonte: G1):
  • Na França, os termômetros ultrapassaram os 40°C em diferentes regiões ao longo da semana. 
  • Na Alemanha, a temperatura chegou a 41,5°C no sábado, a maior já medida no país. O serviço meteorológico alemão ainda alertou que os termômetros poderiam se aproximar dos 42°C. 
  • Na República Tcheca, a temperatura chegou a 40,8°C ao norte de Praga, com previsão de ultrapassar os 41°C neste domingo. 
  • Em Basileia, na Suíça, os termômetros marcaram 39°C, estabelecendo pelo terceiro dia seguido um novo recorde para o mês de junho. 
  • Já a Dinamarca registrou 37°C, a maior temperatura desde o início das medições no país.
Fonte: Earth.org, com dados do World Weather Attribution (WWA).

Alguns relatos afirmam que foram registrados quase 59°C no pavimento das ruas. Devido ao calor, escolas fecharam, transporte ferroviário foi paralisado por medo de dilatação dos trilhos. 

A OMS afirmou que cerca de 150 milhões de pessoas vivem atualmente sob condições de calor extremo, que já pressionam os sistemas de saúde, afetam a infraestrutura e sobrecarregam as redes elétricas em diferentes países. Cerca de 489 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência de problemas de saúde associados ao calor extremo. Desse total, 45% das mortes ocorrem no Sudeste Asiático e 36% na Europa, evidenciando que o calor já é uma das ameaças climáticas mais letais do mundo (fonte: OMS, in Política por Inteiro). Eventos da Semana do Clima de Londres chegaram a ser cancelados devido ao excesso de calor!

Uma Copa sob a marca das Mudanças Climáticas: A Copa do Mundo de Futebol em curso, que se realiza no México, EUA e Canadá, já é considerada a mais quente da história. Portanto, foram estabelecidas regras relacionadas às previsões de ondas de calor e a possibilidade de como tempestades, granizo e outros eventos climáticos extremos que seriam potencializados pela ocorrência do Super El Niño. Diante disso, foram estabelecidas novas regras como a Pausa para Hidratação dos atletas em cada tempo do jogo e, para jogos nos EUA, haverá a suspenção dos jogos a qualquer momento, sempre que houver ocorrência de raios a uma determinada distância dos estádios. Interessante a regra estabelecida justamente no país com o governo mais negacionista climático do planeta.

Negacionismo climático do Governo Trump: A CEO da COP30, Ana Toni, comentou em entrevista à GloboNews que os EUA acabam de lançar um plano de resiliência climática, que curiosamente não se refere uma vez sequer à emergência climática. Portanto, mantendo a atitude negacionista mesmo diante de todos os alertas da Ciência, como nos documentos emitidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, o relatório do governo Trump tenta convencer da normalidade dos fenômenos climáticos observados em todo o mundo.

O QUE TEREMOS PELA FRENTE?

Duplo comando na COP31: A COP31 tem um grave complicador que vem atrapalhando o avanço dos debates além do normal: a conferência será liderada pela Turquia, que sediará o evento (Antalya), e a Austrália que terá a presidência da conferência, comandando as negociações. O duplo comando foi o resultado da falta de entendimento entre os países membros da UNFCCC e, obviamente, será um desafio a mais para a próxima COP. 

Novas formas para buscas de consenso: O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, em entrevista para a Sumaúma, usou duas frases importantes: “Nós somos muito mais livres para implementar do que para negociar” e "A negociação exige consenso, a implementação, não”. 

Não é possível que o mundo fique refém da ação dos lobbies, de interesses mesquinhos e da busca obrigatória de consensos. É preciso reunir e trabalhar com os "convertidos" e agentes desejosos de ver as ações implementadas imediatamente, formando coalisões de forças com compromissos com a segurança climática global. 

Com base nesse sentimento, há um movimento para o fortalecimento de fóruns de discussão alternativos ou complementares aos espaços formais da UNFCCC, onde pode-se avançar sem estar atrelado às regras de obrigatoriedade de consenso. Entre 24 e 29 de abril de 2026, realizou-se a I Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, na Colômbia (Conferência de Santa Marta), um encontro voluntário e paralelo à agenda oficial da ONU, realizada pela primeira vez, com o objetivo de avançar na transição para longe do petróleo, do carvão e do gás. A realização do encontro foi decidida durante a COP30, quando houve lamentavelmente um bem-sucedido movimento lobista contra qualquer decisão ou até menção nos documentos finais sobre o tema da descarbonização.

O nível de apoio da Conferência de Santa Marta, realizada com o apoio do governo da Colômbia e da Holanda, surpreendeu com a presença de 57 países (1/3 da economia mundial). Um encontro preparatório reuniu cerca de 400 especialistas acadêmicos para gerar argumentação para o resultado do encontro. Também foi dada especial atenção à participação de povos indígenas e representações da sociedade civil. (Saiba mais em Carbon Brief).

O fórum de Santa Bárbara é um exemplo do que se está chamando de 'Multilateralismo Climático de Dois Níveis", uma ideia que permaneceu como legado da COP30. Significa que, diante das dificuldades nas instâncias formais de se construir acordos multilaterais, propõe-se o caminho que de "um lado, permanece o eixo formal das negociações da UNFCCC, responsável por garantir legitimidade, universalidade e direção normativa. De outro, ganha força um eixo voltado à implementação, baseado na mobilização de governos, instituições financeiras, sociedade civil, setor privado, especialistas e atores subnacionais capazes de acelerar a execução das metas climáticas", como explica a Plataforma Cipó.

Foco estratégico no metano: O metano é 80 vezes mais potente do que o CO2 e permanece na atmosfera por apenas 10 ou 15 anos, ou seja, bem menos do que o CO2. Como declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, "Cortar o metano é o freio mais rápido que podemos ter para o aquecimento do planeta". Por isso, há uma mobilização para a priorização às ações de mitigação das emissões de metano, que pode ter grande efetividade e onde não há um lobby contrário tão poderoso como no caso do petróleo. Ou seja, avançamos no metano, enquanto enfrentamos as resistências contra o phase out do petróleo.

Cidades ganharão relevância: Em março de 2027, o IPCC lançará o novo relatório, dessa vez tendo como o tema "Cidades e Clima" (Special Report on Climate and Cities). O foco estará nos impactos urbanos e nos esforços de adaptação climática em curso nas cidades. Espera-se que o relatório fortaleça o reconhecimento da importância das ações locais e a necessidade de avanços nas políticas climáticas multinível.

Axel Grael
Doutorando PPGAU/UFF
Membro do GexCom/ICLEI


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Texto produzido com observações e conclusões pessoais, bem como com informações de:


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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guerra pode custar mais de US$ 1 tri ao mundo, mas petrolíferas terão lucros “obscenos”


Enquanto seis petrolíferas ganham US$ 3.000 por segundo, o impacto dos preços do petróleo e do gás chega a US$ 600 bilhões, calcula a 350.org.

Enquanto seis grandes petrolíferas do mundo lucram US$ 3.000 por segundo, como mostrou a Oxfam International, todos os países sofrem com a escalada dos preços dos combustíveis fósseis e as restrições de oferta decorrentes da guerra no Oriente Médio. Com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a 350.org calculou o valor desse impacto. São cifras que impressionam e reforçam a urgência da transição energética – não só pelo clima, mas também pela economia das nações.

A crise do petróleo e do gás gerada pelos ataques dos EUA e de Israel ao Irã imporá custos adicionais à economia global que poderão superar US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões), de acordo com a 350.org. Mesmo que o Estreito de Ormuz volte rapidamente à normalidade, o impacto dos altos preços do petróleo e do gás fóssil chegará a cerca de US$ 600 bilhões (R$ 3 trilhões).

Entretanto, é provável que essa seja uma estimativa conservadora, destaca o Guardian. A análise não inclui os efeitos indiretos substanciais da inflação, particularmente o aumento dos custos de fertilizantes e alimentos, a menor atividade econômica e o aumento do desemprego.

Mas se a grande maioria paga a conta do conflito – que é ainda maior para as populações dos países mais pobres -, há quem esteja ganhando e muito com o choque do petróleo. O grande causador da guerra, os EUA, bateram recorde de exportações de óleo cru e de gás liquefeito (GNL). E as grandes petrolíferas, mesmo impactadas por restrições às suas operações no Oriente Médio, estão rindo de uma orelha à outra com tanto dinheiro entrando em suas caixas.

Somente as estadunidenses Chevron, ConocoPhillips e Exxon, a britânica BP, a anglo-holandesa Shell e a francesa TotalEnergies lucrarão US$ 2.967 por segundo em 2026 devido à guerra, segundo a Oxfam. A BP, inclusive, foi alvo de críticas após revelar que seus lucros mais do que dobraram nos primeiros três meses do ano graças à disparada do preço do petróleo causada pela guerra, segundo o The Independent. A empresa teve lucro de US$ 3,2 bilhões (R$ 16 bilhões) no primeiro trimestre, ante US$ 1,38 bilhão (R$ 7 bilhões) no mesmo período de 2025 e US$ 1,54 bilhão (R$ 7,8 bilhões) nos três últimos meses do ano passado.

“Nos próximos dias, as grandes petrolíferas divulgarão lucros astronômicos do primeiro trimestre, obtidos em grande parte às custas de uma guerra que já matou milhares e empobreceu milhões. Mesmo que o Estreito de Ormuz seja reaberto amanhã, uma quantia obscena de dinheiro continuará a fluir para os cofres do petróleo às custas das pessoas comuns que já lutam para pagar combustível, eletricidade e comida”, diz Anne Jellema, diretora executiva da 350.org.

A organização defende a implementação urgente de um imposto sobre lucros extraordinários das petrolíferas, que poderia arrecadar recursos para a proteção social e para investimentos em energias renováveis, mais baratas, limpas e confiáveis do que as alternativas fósseis. Apelos reiterados na 1ª conferência sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis, em Santa Marta, na Colômbia, onde ativistas indígenas e da sociedade civil marcharam pelas ruas da cidade com faixas que diziam “Chega de petróleo”, “Amazônia Livre de Petróleo” e “Outro caminho é possível”, informa a Folha.

Em tempo: Mais dinheiro para as petrolíferas, mais pobreza para as populações. O barril do Brent atingiu ontem (29/4) seu maior valor desde o início da guerra no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, informa o Valor. O Brent, com entrega em junho, encerrou o dia em alta de 6,08%, cotado em US$ 118,03 por barril. Já o WTI, dos EUA, com entrega para o mesmo mês, subiu 6,95%, para US$ 106,88 por barril.

Fonte: ClimaInfo



quinta-feira, 23 de abril de 2026

ICLEI: A reforma da ONU e a salvação do multilateralismo


Faltam apenas quatro anos para o final do prazo da Agenda 2030, instituída pela ONU, em 2015, com a assinatura de 193 países que compartilhavam muita esperança em promover a transição global para a sustentabilidade. O fim do prazo chega diante de uma das maiores crises já vividas pela ONU, que se vê diante dos ataques retóricos e pela retirada de apoio financeiro por parte do atual governo dos EUA e pela cobrança crescente de muitos dos seus membros por uma reforma institucional que reforce a sua democracia interna e capacidade de mediação de conflitos e sua liderança mundial. Na verdade, trata-se de uma crise do multilateralismo, que reflete na dificuldade de avanços da agenda global e na paz mundial, com sanções econômicas, agressões armadas, guerras unilaterais, com sérias consequências humanitárias e econômicas.

É nesse contexto, que o texto abaixo, assinado por Yunus Arikan, diretor de Advocacy do ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade, analisa o momento de crise, mas também as iniciativas reformistas em curso e as perspectivas para uma nova ONU e para uma governança mais multinível e com uma participação mais ativa das instâncias subnacionais e, portanto, das cidades. 

O ICLEI  foi fundado em setembro de 1990, durante o Congresso Mundial de Governos Locais por um Futuro Sustentável na sede da ONU em Nova York. Atualmente, a sua sede está em Bonn, na Alemanha, reunindo mais de 2.500 cidades e governos regionais, em mais de 125 países, abrangendo todos os continentes. O ICLEI possui mais de 25 escritórios pelo mundo. Para mais informações, acesse www.iclei.org  

Como ressalta o nosso amigo Yunus, "o que falta não é ambição, mas alinhamento". Ou seja, é preciso avançar em direção a consensos que permitam os necessários acordos em torno de uma nova ONU.

Axel Grael
Membro do Comitê Executivo Global, com o Portfolio de Mudanças Climáticas.
ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade

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UN beyond 80: An opportunity to position multilevel collaboration and urbanization to save multilateralism and sustainability

By Yunus Arikan

The United Nations marked its 80th anniversary in 2025. Over time, numerous UN Secretaries-General have sought reforms of the UN system, but were unable to achieve more than incremental progress due to limited buy-in from Member States.

This year is different.

The question is no longer whether the system needs reform, but whether it can deliver significant enough reform in time. With just four years until the review of the 2030 Agenda, the negotiations on what comes next will shape not only the future of sustainability, but also the credibility of the multilateral system itself. In a world shaped by overlapping crises – armed conflict, climate, biodiversity, inequality, and technological disruption – the gap between global commitments and real-world delivery is becoming almost impossible to ignore.

But this is not due to a lack of ambition – it is due to a lack of alignment.

The UN80 Initiative – an ambitious, system-wide reform effort – as well as the reform of the United Nations Economic and Social Council (ECOSOC) and the High-Level Political Forum, the review of the New Urban Agenda and SDG 11, the push for stronger synergies across the Rio Conventions, and the transition toward new UN leadership are all unfolding at once. The challenge is whether they can be composed into a coherent system for action, or remain fragmented efforts in an increasingly complex global landscape.

UN-wide reforms process: A portfolio of notes waiting for a composer to turn into a symphony

The Secretary-General of the United Nations, António Guterres – who will leave the position in December 2026 –, launched the UN80 Initiative to make the UN system more agile, integrated, and fit for today’s overlapping crises. The process also built on the outcomes of the Summit of the Future in 2024.

The start of the process happened to coincide with the beginning of the second Trump Administration in early 2025. The plan for the UN80 Initiative included budgetary implications amongst others, and it gradually transformed into a three-track process, focusing on administrative changes, options for redesigning existing institutions and opening the space for a more holistic system-wide approach.

The process reached a new momentum with the historic resolution of the UN General Assembly in March 2026, which introduced a strong support from UN Member States to the effort of the UN Secretary-General and extended the process until April 2027.

The ongoing reviews of the UN Economic and Social Council (ECOSOC) and the UN High-level Political Forum on Sustainable Development (HLPF) point in that same direction but through slightly different mandates and processes. While ECOSOC is the main UN body since 1945 covering all issues related to development, HLPF was created in 2015 to lead the 2030 Agenda for Sustainable Development. It merged the Commission for Sustainable Development under Agenda 21 – led by the environmental community since 1992 – and the Millenium Development Goals – dominated by economic and social actors since 2000. Joint review of ECOSOC and HLPF is especially important as the global community has to decide on the modalities for sustainable development beyond 2030, which is the target year for Sustainable Development Goals.

This July will herald the review of SDG 11 on Sustainable Cities and Communities by the HLPF and the midterm review of the New Urban Agenda by the UN General Assembly – two particularly important moments for the urban community. Until the inclusion of a dedicated goal for cities among 17 Sustainable Development Goals in 2015, urbanization was not considered part of sustainable development by the national governments and the UN system under Agenda 21.

Similarly, the HABITAT II community evolving since 1996 did not relate itself to sustainability until the New Urban Agenda in 2016. It would be desirable that with these two separate, consecutive and parallel reviews in July, a more systematic approach to converge urbanization and sustainable development can be established as one of the concrete inputs in the UN reforms package.

The UN reforms agenda is an opportunity for the environment community as well. For decades, global environmental governance was scattered around the Conference of Parties (COPs) of numerous multilateral environmental agreements, in particular of the three Rio Conventions on climate (UNFCCC), biodiversity/nature (CBD) and desertification/land (UNCCD), the UN Environment Assembly and the overall sustainable development community under the HLPF.

The Work Package 27 on Environment under UN80 Initiative to be led by UNEP and the UNFCCC could conclude this long overdue synergy process, building on ongoing efforts such as the CBD’s Bern Process, the UNCCD’s efforts and the Riyadh Action Agenda, as well as UNFCCC´s Action Agenda and COP30 Global Implementation Accelerator and reach to renewed modalities that are embedded into the overall UN reforms package.

Progress and, more importantly, the implementation and follow-up from 2026 onward of all these processes, will be shaped by the selection of the next UN Secretary-General, expected to take office in January 2027. Efforts are evolving from a diversity of Member States, the Presidency of the UN General Assembly, the UN SG Office and civil society that ensure transparency and accountability in the selection process which heavily depends on the veto power of the five Permanent Members of the UN Security Council, as well as high expectations for a female leader to take this helm for the first time in the history of the United Nations.

Non-UN processes: For good or for worse

If the formal multilateral system is under pressure, it is no surprise that alternative processes are emerging around it.

Some examples are positive – such as the The Fossil Fuel Non-Proliferation Treaty Initiative and the upcoming First Conference on the Transition Away from Fossil Fuels – a coalition of willing nations coming together outside of the climate negotiations process to drive forward the transition, which was a part of the outcomes of COP28.

But other examples seek to undermine the UN. The Board of Peace was organized outside the UN system and endorsed only in limited terms by the UN Security Council to coordinate reconstruction efforts in Gaza, and is an example of exclusive processes, which has yet to prove its effectiveness, taking into account consequences of escalation of military conflicts in the Gulf came after the launch of the initiative in early 2026.

At the same time, initiatives such as the Article 109 Coalition move in a slightly different style and direction. Rather than bypassing the UN system, they call for its review, operate on the provisions of its Charter, and update reflecting on the changing realities of the world. They argue that the current institutional architecture can no longer absorb the pressures placed upon it.

Seizing the time for multilevel collaboration and urbanization

This is precisely where local and regional governments matter, not as symbolic participants, but as institutional connectors.

Since 2012, the Global Taskforce of Local and Regional Governments, where ICLEI is a founding member and leads actively as its focal point to the Rio Conventions related processes, has shown what coordinated self-organization can achieve. It has unified a constituency, created common advocacy positions, and enabled more structured engagement across UN processes. The good practice in engaging with the UN Secretary-General’s Advisory Group on Local and Regional Governments built on that momentum and produced a strategy for more permanent and structured engagement of local and regional governments in intergovernmental processes and UN political bodies, which is actively presented at the ECOSOC/HLPF review process.

Another practical entry point into the UN system is the Forum of Mayors under the UN Economic Commission for Europe, format and impact of which have significantly evolved since its inception in 2020. Innovative practices like Forum of Mayor and proactive proposals of Global Task Force for constituency-based engagements should be seen as complementary efforts that can be discussed with Members States and partners within the UN system partners to ensure multilevel collaboration is appropriately reflected into the UN reforms packages.

The Local Governments and Municipal Authorities (LGMA) Constituency to the UNFCCC has been one of the good practices in constituency-based engagement in the UN system and shape the evolution of global climate governance by demonstrating that multilevel collaboration and urbanization as two-sides of the same coin to advance climate emergency action. Its COP30 Position – endorsed by more than 50 networks of local and regional governments from around the world – already made clear the relevance and importance of this, with a call to connect the COP30 outcomes to the UN80 reforms, for a new era for multilevel cooperation in the global climate and sustainability agenda. The LGMA has also wholeheartedly supported the Coalition for High Ambition Multilevel Partnership (CHAMP) launched at COP28 in Dubai in 2023 and since then, actively supported its implementation as well as advancing its governance and implementation. The CHAMP experience – where national governments commit to collaborate with their local and other subnational governments in design and implementation of national plans – can be considered as a good practice in evolving the UN system towards enhanced multilevel collaboration.

As part of UN75 consultations in 2020, ICLEI released a blueprint with four concrete proposals for UN reforms to enhance collaboration with local and regional governments and advanced it further in 2022. In 2025, ICLEI’s first Annual Review of Local and Subnational Action on the Rio Conventions confirmed how urgent this is. Climate, biodiversity, and land are converging. Governance is becoming more complex. Innovation is increasingly happening below and beyond formal structures. And local and regional governments are where this convergence is already being managed in practice, through land use, infrastructure, food systems, ecosystems, risk management, and public services.

Fonte: ICLEI/City Talk





quarta-feira, 25 de março de 2026

Guerra no Irã gerou 5 milhões de toneladas de CO₂ em apenas 14 dias


Especialistas detectaram um aumento na queima de gás em instalações petrolíferas, evidenciando o crescimento das emissões decorrentes da guerra.

O ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é uma tragédia social, com milhares de mortos e desabrigados pelos bombardeios. É um choque energético, ao provocar a disparada dos preços do petróleo e do gás fóssil e ao restringir o abastecimento, jogando por terra a suposta segurança dos combustíveis fósseis. Além disso, o conflito é um desastre para o clima.

Uma análise do Climate and Community Institute mostra que a guerra está consumindo o orçamento global de carbono mais rapidamente do que 84 países reunidos. Enquanto aviões, drones e mísseis matam milhares, destroem infraestrutura e transformam o Oriente Médio em uma gigantesca zona de sacrifício, o conflito gerou 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (tCO2e) em seus primeiros 14 dias.

A análise, compartilhada com o Guardian, acrescenta uma nova dimensão às reportagens sobre os danos ambientais catastróficos causados por ataques a infraestruturas de combustíveis fósseis, bases militares, áreas civis e navios no mar. “Cada ataque com mísseis é mais uma parcela paga por um planeta mais quente e instável, e nada disso torna ninguém mais seguro”, disse Patrick Bigger, diretor de pesquisa do instituto e coautor do levantamento.

Os edifícios destruídos são o principal componente do custo estimado de carbono. Com base em relatos da organização humanitária Crescente Vermelho Iraniano de que cerca de 20 mil edifícios civis foram danificados pelo conflito, a análise estima que as emissões totais desse setor sejam de 2,4 milhões de tCO₂e.

O combustível é o segundo maior fator, com bombardeiros pesados dos EUA voando de locais tão distantes quanto o oeste da Inglaterra para atacar o Irã. A análise estima que entre 150 milhões e 270 milhões de litros de combustível foram consumidos por aeronaves, embarcações de apoio e veículos nos primeiros 14 dias, gerando emissões totais de 529 mil tCO₂e.

Uma das imagens mais chocantes da guerra foi a de nuvens escuras e a “chuva negra” sobre Teerã após Israel bombardear quatro grandes depósitos ao redor da cidade, incendiando milhões de litros de combustível. A análise estima que entre 2,5 milhões e 5,9 milhões de barris de petróleo foram queimados nesse ataque e em ações semelhantes – incluindo retaliações iranianas contra vizinhos do Golfo – emitindo cerca de 1,88 milhão de tCO₂e.

A Bloomberg traz uma observação particular: a guerra levou as petrolíferas a queimar mais gás fóssil do que o habitual, uma vez que suas instalações foram atacadas ou as exportações foram bloqueadas.

De 28 de fevereiro a 22 de março, a usina de gás liquefeito (GNL) da Ilha de Das, nos Emirados Árabes Unidos, queimou combustível suficiente para emitir 74.100 tCO₂e. Enquanto isso, a instalação de Ras Laffan, no Catar, o maior centro de exportação de GNL do mundo, adicionou cerca de 101.300 tCO₂e – o mesmo que as emissões anuais de mais de 20.000 carros.

Quanto aos equipamentos de guerra, nos primeiros 14 dias, sua destruição gerou emissões incorporadas de carbono de 172 mil tCO₂e. Há também bombas, mísseis e drones: a análise estima que as munições contribuíram com cerca de 55 mil tCO₂e em emissões.

“Esperamos que as emissões aumentem rapidamente à medida que o conflito avança, principalmente devido à velocidade com que instalações de petróleo estão sendo atacadas em ritmo alarmante”, frisa Fred Otu-Larbi, da University of Energy and Natural Resources em Gana, principal autor do estudo detalhado pelo Guardian. “Todos nós teremos de conviver com as consequências climáticas. Ninguém sabe exatamente quais serão os custos. Queimar, em duas semanas, o equivalente às emissões anuais da Islândia é algo que realmente não podemos nos dar ao luxo.”

Fonte: ClimaInfo


quinta-feira, 19 de março de 2026

Cenário geopolítico faz risco ambiental perder prioridade para líderes globais

 

A preocupação ambiental está perdendo espaço no ranking de riscos considerados por líderes globais, segundo a edição 2026 do relatório Riscos Globais, publicada pelo Fórum Econômico Mundial. Dos seis riscos ambientais considerados na metodologia, quatro perderam posições para o horizonte de curto prazo (dois anos):
– Eventos climáticos extremos caiu de 2° para 4°;
– Poluição caiu de 6° para 9°;
– Mudança crítica nos sistemas da Terra caiu de 17° para 24°; e
– Perda de biodiversidade e colapso ecossistêmico de 21° para 26°.

Um subiu uma posição:
– Escassez de recursos naturais subiu de 18° para 17°.

E um risco ambiental, que não está relacionado com as questões climáticas, manteve-se estável:
– Desastres naturais não relacionados ao clima seguiu no 32° lugar.

O ranking acima foi elaborado a partir de entrevistas com 1.300 atores relevantes, na academia, nos negócios, em governos, organizações internacionais e sociedade civil. Eles foram consultados para estimar o impacto provável (severidade) de uma lista de 33 riscos no horizonte de dois e de dez anos.

As respostas sobre a possibilidade de impacto desses fatores no prazo maior de dez anos mostram que a percepção dos riscos relacionados à mudança do clima seguem altas. Isto é, são aspectos que persistem, independentemente da conjuntura.

As entrevistas foram realizadas entre 12 de agosto e 22 de setembro de 2025. Desde então, o nível de tensão geopolítica global se elevou.

O relatório também entrevista executivos sobre os riscos específicos para cada país. No caso do Brasil, os top 5 riscos identificados foram:

1. Desaceleração econômica (ex.: recessão, estagnação)
2. Serviços públicos e proteções sociais insuficientes (incluindo educação, infraestrutura, pensões)
3. Endividamento (pública, corporativa, familiar)
4. Criminalidade e atividades econômicas ilícitas
5. Inflação

O top 5 de pouquíssimos países incluem riscos ambientais.

Equipe Editorial (Liuca Yonaha, Marta Salomon, Marco Vergotti, Renato Tanigawa, Taciana Stec, Daniel Porcel, Caio Victor Vieira, Beatriz Calmon e Rayandra Araújo).

Fonte: Instituto TALANOA





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Discurso de Mark Carney, em Davos: "Estamos passando por uma ruptura da ordem mundial, não uma transição"

A cidade de Davos, na Suíça, está recebendo o Fórum Econômico Mundial entre os dias 19 e 23 de janeiro. O evento, realizado anualmente, é um dos mais importantes acontecimentos da agenda internacional, reunindo os principais chefes de estado e líderes mundiais, dirigentes destacados da sociedade civil, bem como representantes das principais organizações empresariais. 

Nos primeiros dias, tivemos duas participações diametralmente opostas. Em contraste com a fala de ontem, de Donald Trump, com retórica agressiva, arrogante, preconceituosa e racista, recheada de informações falsas ou distorcidas, com provocações irresponsáveis contra os países europeus - aliados dos EUA há no mínimo 70 anos, ouvimos um dia antes a fala lúcida, realista e edificadora de Mark Carney, primeiro ministro do Canadá, que transcrevemos e apresentamos o vídeo no YouTube

Dentre as muitas mensagens de Carney, o alerta sobre a ruptura da ordem mundial, a crítica contra a ambição de Trump sobre a Groenlândia, dizendo que o Canadá honrará o tratado da OTAN e defenderá a Groenlândia em caso de ataque militar. Exortou a importância das "médias potências", defendeu o multilateralismo e disse que nas atuais relações internacionais, "Ou se está sentado à mesa, ou se está no menu". Em outras palavras, "Ou se está na mesa de negociação, ou serás consumido". Ou como interpretou o jornalista Fernando Gabeira, em comentário na GloboNews: "Quem não comer, será comido". Veja um trecho da fala do primeiro ministro Carney:

“Serei direto: estamos no meio de uma ruptura da ordem mundial, não de uma transição. (...) O fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal, em que a geopolítica das grandes potências não está sujeita a nenhuma restrição. (...) Todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências, que a ordem baseada em regras está se esvaindo, que os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”, afirmou Carney (G1).

Leia no texto ou assista no vídeo, a seguir, a íntegra do discurso de Carney, conforme foi divulgado pela própria organização do Fórum Econômico Mundial, de Davos:


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Canadian Prime Minister Mark Carney praised the strengths of the middle powers in his special address at Davos 2026. Image: World Economic Forum / Ciaran McCrickard


This transcript was produced using AI and subsequently edited for style and clarity. The edits do not alter the substance of the speaker’s remarks.

"Thank you very much, Larry. I'm going to start in French, and then I'll switch back to English".

[The following is translated from French]

"Thank you, Larry. It is both a pleasure, and a duty, to be with you tonight in this pivotal moment that Canada and the world going through.

Today I will talk about a rupture in the world order, the end of a pleasant fiction and the beginning of a harsh reality, where geopolitics, where the large, main power, geopolitics, is submitted to no limits, no constraints.

On the other hand, I would like to tell you that the other countries, especially intermediate powers like Canada, are not powerless. They have the capacity to build a new order that encompasses our values, such as respect for human rights, sustainable development, solidarity, sovereignty and territorial integrity of the various states.

The power of the less power starts with honesty"
.

Assista o discurso de Mark Carney no YouTube.

[Carney returns to speaking in English]

"It seems that every day we're reminded that we live in an era of great power rivalry, that the rules based order is fading, that the strong can do what they can, and the weak must suffer what they must.

And this aphorism of Thucydides is presented as inevitable, as the natural logic of international relations reasserting itself.

And faced with this logic, there is a strong tendency for countries to go along to get along, to accommodate, to avoid trouble, to hope that compliance will buy safety.

Well, it won't.

So, what are our options?

In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.

For decades, countries like Canada prospered under what we called the rules-based international order. We joined its institutions, we praised its principles, we benefited from its predictability. And because of that, we could pursue values-based foreign policies under its protection.

We knew the story of the international rules-based order was partially false that the strongest would exempt themselves when convenient, that trade rules were enforced asymmetrically. And we knew that international law applied with varying rigour depending on the identity of the accused or the victim.

This fiction was useful, and American hegemony, in particular, helped provide public goods, open sea lanes, a stable financial system, collective security and support for frameworks for resolving disputes.

So, we placed the sign in the window. We participated in the rituals, and we largely avoided calling out the gaps between rhetoric and reality.

This bargain no longer works. Let me be direct. We are in the midst of a rupture, not a transition.

Over the past two decades, a series of crises in finance, health, energy and geopolitics have laid bare the risks of extreme global integration. But more recently, great powers have begun using economic integration as weapons, tariffs as leverage, financial infrastructure as coercion, supply chains as vulnerabilities to be exploited.

You cannot live within the lie of mutual benefit through integration, when integration becomes the source of your subordination.

The multilateral institutions on which the middle powers have relied – the WTO, the UN, the COP – the architecture, the very architecture of collective problem solving are under threat. And as a result, many countries are drawing the same conclusions that they must develop greater strategic autonomy, in energy, food, critical minerals, in finance and supply chains.

And this impulse is understandable. A country that can't feed itself, fuel itself or defend itself, has few options. When the rules no longer protect you, you must protect yourself.

But let's be clear eyed about where this leads.

A world of fortresses will be poorer, more fragile and less sustainable. And there is another truth. If great powers abandon even the pretense of rules and values for the unhindered pursuit of their power and interests, the gains from transactionalism will become harder to replicate.

Hegemons cannot continually monetize their relationships.

Allies will diversify to hedge against uncertainty.

They'll buy insurance, increase options in order to rebuild sovereignty – sovereignty that was once grounded in rules, but will increasingly be anchored in the ability to withstand pressure.

This room knows this is classic risk management. Risk management comes at a price, but that cost of strategic autonomy, of sovereignty can also be shared.

Collective investments in resilience are cheaper than everyone building their own fortresses. Shared standards reduce fragmentations. Complementarities are positive sum. And the question for middle powers like Canada is not whether to adapt to the new reality – we must. The question is whether we adapt by simply building higher walls, or whether we can do something more ambitious.

Now Canada was amongst the first to hear the wake-up call, leading us to fundamentally shift our strategic posture.

Canadians know that our old comfortable assumptions that our geography and alliance memberships automatically conferred prosperity and security – that assumption is no longer valid. And our new approach rests on what Alexander Stubb, the President of Finland, has termed “value-based realism”.

Or, to put another way, we aim to be both principled and pragmatic – principled in our commitment to fundamental values, sovereignty, territorial integrity, the prohibition of the use of force, except when consistent with the UN Charter, and respect for human rights, and pragmatic and recognizing that progress is often incremental, that interests diverge, that not every partner will share all of our values.

So, we're engaging broadly, strategically with open eyes. We actively take on the world as it is, not wait around for a world we wish to be.

We are calibrating our relationships, so their depth reflects our values, and we're prioritizing broad engagement to maximize our influence, given and given the fluidity of the world at the moment, the risks that this poses and the stakes for what comes next.

And we are no longer just relying on the strength of our values, but also the value of our strength.

We are building that strength at home.

Since my government took office, we have cut taxes on incomes, on capital gains and business investment. We have removed all federal barriers to interprovincial trade. We are fast tracking a trillion dollars of investments in energy, AI, critical minerals, new trade corridors and beyond. We're doubling our defence spending by the end of this decade, and we're doing so in ways that build our domestic industries.

And we are rapidly diversifying abroad. We have agreed a comprehensive strategic partnership with the EU, including joining SAFE, the European defence procurement arrangements. We have signed 12 other trade and security deals on four continents in six months. The past few days, we've concluded new strategic partnerships with China and Qatar. We're negotiating free trade pacts with India, ASEAN, Thailand, Philippines and Mercosur.

We're doing something else. To help solve global problems, we're pursuing variable geometry, in other words, different coalitions for different issues based on common values and interests. So, on Ukraine, we're a core member of the Coalition of the Willing and one of the largest per capita contributors to its defence and security.

On Arctic sovereignty, we stand firmly with Greenland and Denmark, and fully support their unique right to determine Greenland's future.

Our commitment to NATO's Article 5 is unwavering, so we're working with our NATO allies, including the Nordic Baltic Gate, to further secure the alliance's northern and western flanks, including through Canada's unprecedented investments in over-the-horizon radar, in submarines, in aircraft and boots on the ground, boots on the ice.

Canada strongly opposes tariffs over Greenland and calls for focused talks to achieve our shared objectives of security and prosperity in the Arctic.

On plurilateral trade, we're championing efforts to build a bridge between the Trans Pacific Partnership and the European Union, which would create a new trading bloc of 1.5 billion people. On critical minerals, we're forming buyers’ clubs anchored in the G7 so the world can diversify away from concentrated supply. And on AI, we're cooperating with like-minded democracies to ensure that we won't ultimately be forced to choose between hegemons and hyper-scalers.

This is not naive multilateralism, nor is it relying on their institutions. It's building coalitions that work – issues by issue, with partners who share enough common ground to act together.

In some cases, this will be the vast majority of nations.

What it's doing is creating a dense web of connections across trade, investment, culture, on which we can draw for future challenges and opportunities.

Argue, the middle powers must act together, because if we're not at the table, we're on the menu.

But I'd also say that great powers, great powers can afford for now to go it alone. They have the market size, the military capacity and the leverage to dictate terms. Middle powers do not.

But when we only negotiate bilaterally with a hegemon, we negotiate from weakness. We accept what's offered. We compete with each other to be the most accommodating.

This is not sovereignty. It's the performance of sovereignty while accepting subordination. In a world of great power rivalry, the countries in between have a choice – compete with each other for favour, or to combine to create a third path with impact.

We shouldn't allow the rise of hard power to blind us to the fact that the power of legitimacy, integrity and rules will remain strong, if we choose to wield them together – which brings me back to Havel.

What does it mean for middle powers to live the truth?

First, it means naming reality. Stop invoking rules-based international order as though it still functions as advertised. Call it what it is – a system of intensifying great power rivalry, where the most powerful pursue their interests, using economic integration as coercion.

It means acting consistently, applying the same standards to allies and rivals. When middle powers criticize economic intimidation from one direction, but stay silent when it comes from another, we are keeping the sign in the window.

It means building what we claim to believe in, rather than waiting for the old order to be restored. It means creating institutions and agreements that function as described. And it means reducing the leverage that enables coercion – that's building a strong domestic economy. It should be every government's immediate priority.

And diversification internationally is not just economic prudence, it's a material foundation for honest foreign policy, because countries earn the right to principled stands by reducing their vulnerability to retaliation.

So Canada. Canada has what the world wants. We are an energy superpower. We hold vast reserves of critical minerals. We have the most educated population in the world. Our pension funds are amongst the world's largest and most sophisticated investors. In other words, we have capital, talent… we also have a government with immense fiscal capacity to act decisively. And we have the values to which many others aspire.

Canada is a pluralistic society that works. Our public square is loud, diverse and free. Canadians remain committed to sustainability. We are a stable and reliable partner in a world that is anything but.. A partner that builds and values relationships for the long term.

And we have something else. We have a recognition of what's happening and a determination to act accordingly. We understand that this rupture calls for more than adaptation. It calls for honesty about the world as it is.

We are taking the sign out of the window. We know the old order is not coming back. We shouldn't mourn it. Nostalgia is not a strategy, but we believe that from the fracture, we can build something bigger, better, stronger, more just. This is the task of the middle powers, the countries that have the most to lose from a world of fortresses and most to gain from genuine cooperation.

The powerful have their power.

But we have something too – the capacity to stop pretending, to name reality, to build our strength at home and to act together.

That is Canada's path. We choose it openly and confidently, and it is a path wide open to any country willing to take it with us. Thank you very much".

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Groenlândia sob risco, paz ameaçada, mundo sob mais uma agressão de Trump


Encontro com crianças de Kulusuk, no litoral sudeste da Groenlândia. Lembrança da minha visita à Groenlândia, em 1972. 

Cobiça sobre a Groenlândia. A paz ameaçada. O mundo sob a tensão de mais uma crise produzida por Trump. 

Ao longo da história, a Groenlândia teve limitada relevância estratégica global. As pessoas tinham pouca informação sobre o local, considerado inóspito e habitado mais por focas e ursos polares que por humanos. 

Mas, nos últimos meses, isso vem mudando e a Groenlândia está nos "trending topics" por um motivo muito preocupante. A maior ilha do mundo passou a ser alvo da ambição da política internacional de Donald Trump. O presidente americano ameaça anexar a Groenlândia aos EUA, seja por acordo, pela compra ou pela força. Ignora que a ilha tem o seu povo, um governo autônomo, mas vinculado historicamente à Dinamarca. Logo, é parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN, uma aliança militar criada há 77 anos, que os próprios EUA fazem parte e sempre lideraram. A OTAN é fundamental para o equilíbrio de forças no mundo, mas diante da atitude dos EUA contra a Dinamarca e toda a Europa, está agora ameaçada.

Trump alega, sem qualquer fundamento, que a Rússia e a China teriam a intenção de tomar a Groenlândia, acusando a Dinamarca de não se esforçar ou ter meios de proteger a ilha. Segundo ele, isso seria uma ameaça à segurança dos EUA e da própria Europa. A União Europeia nega e reage. Rússia e China, por sua vez, afirmam não ter qualquer interesse ou plano com relação à Groenlândia e condenam a atitude dos EUA de usá-los como pretexto.

Diante da reação contrária da União Europeia, dos países europeus e de todo o mundo, Trump parte para a coerção e ameaça os países que se posicionam contra com tarifas comerciais. A Europa também ameaça reagir com retaliações contra os EUA.

Trump conseguiu instaurar mais uma crise internacional, desta vez com os seus mais tradicionais aliados: os países europeus. O conflito enfraquece a OTAN e a Europa, que se vê ameaçada pela agressão e expansionismo russo, representado pela Guerra na Ucrânia. 

Groenlândia

Considerada a maior ilha do mundo, a Groenlândia tem dimensões continentais e situa-se no Atlântico Norte. Quase todo o seu território está localizado dentro do Círculo Polar Ártico e 80% é permanentemente coberto por gelo e geleiras. As temperaturas ficam acima de 0°C apenas um mês por ano. A Groenlândia possui uma população de 57 mil habitantes (2024), quase todos da etnia Inuit (esquimós) e possui autonomia administrativa, embora esteja vinculado à Dinamarca. Seu território possui 2,17 milhões de km², o que corresponde a um pouco menos da soma da Região Sudeste e Nordeste do Brasil. A capital é Nuuk, sitiada na costa sudoeste da ilha. 

Geografia

A terra é redonda! Mas, nos acostumamos com mapas planos. Em cartografia, existem várias formas de projeção, que visam representar o globo terrestre na superfície plana, sendo que a mais comum é a de Mercator. O problema é que ela distorce as proporções a medida que a representação se aproxima dos polos. Isso faz com que as pessoas tenham uma noção errada da Groenlândia. Ela é muito grande, mas não tanto quanto parece. Também, não parece, mas a Groenlândia é mais perto da Sibéria do que as pessoas imaginam. Olhando o globo por cima dos polos, entende-se isso melhor. 

Por exemplo, a distância da capital americana, Washington (DC), para a capital da Groenlândia, Nuuk, é de cerca de 3.300 km em linha reta. De Kulusuk, localidade no sudeste da Groenlândia que visitei em 1972, até Zapolyarny, no norte da Sibéria, é de cerca de 4.000 km. Para comparação, a distância de 4.000 km equivale aproximadamente à que separa Nova York de Los Angeles.

Importância geopolítica 

Um dos maiores alvos de Trump é o multilateralismo, que tem atacado e sistematicamente enfraquecido pelos EUA, com a retirada do apoio financeiro e a própria presença do país em organismos da ONU e outras instituições internacionais.

O interesse maior é reforçar a hegemonia dos EUA, conquistar territórios e alcançar ganhos econômicos e se apossar do patrimônio natural de outros países: petróleo, minérios etc. O seu discurso aponta para um caminho de confronto e o mundo ainda assiste com perplexidade.

Importante lembrar que as mudanças climáticas tem aumentado a temperatura no Ártico, reduzindo áreas antes permanentemente cobertas pelo gelo. Isso tem viabilizado novas rotas de navegação antes impossíveis. 

Como dizem algumas lideranças mundiais e analistas, estamos vivendo um momento histórico de ruptura. Trump rompe os vínculos de confiança com os seus principais aliados históricos e é dificil antever o que virá pela frente. O fato é que as perspectivas não são boas.

Groenlândia e as mudanças climáticas 

O clima da Europa é muito influenciado pelos ventos frios que vêm da Groenlândia e do Ártico, pelos ventos quentes e secos que vêm do Saara, cruzando o Mediterrâneo, e a umidade que vêm das correntes do Atlântico Norte. O sistema de correntes do Atlântico Norte é conhecido por Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico - AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation) e cientistas estão alertando para alterações que estão ocorrendo devido às mudanças climáticas e podem ter resultados trágicos. Os impactos podem causar o aquecimento do Ártico, mudando todo o padrão climático, principalmente do hemisfério norte, mas com consequências globais. Pode ser o mais grave ponto de não-retorno ("tipping point") causado pelas mudanças climáticas.

O degelo das calotas polares é uma das principais preocupações relacionadas às mudanças climáticas, pois pode potencializar o problema da elevação do nível do mar.

A estratégia de Trump

Trump governa como se dirigisse as suas empresas e não um país com tradição democrática e responsabilidade planetária. Porta-se como se estivesse sempre fazendo negócios, da forma agressiva, autoritária e desrespeitosa. Aposta sempre na intimidação, na crise e na confusão. E não faz segredo disso.

Seu método é exatamente aquilo que ele pregou no seu livro "A arte da Negociação" (The Art of the Deal), lançado em 1987, em coautoria com o jornalista Tony Schwartz: "Meu estilo de negociar é bem simples e direto. Miro bem alto e fico insistindo, insistindo, insistindo para conseguir o que busco". 

É o que tem feito com relação à Groenlândia: Trump repete a sua ameaça à exaustão e espera conquistar o seu intento. É o mesmo que faz ao aplicar altas tarifas aos países onde tem algum interesse comercial. Estes países acabam fazendo algum acordo e se sentem contemplados e triunfantes com condições inferiores ao que tinham antes. Ou seja, fiel ao método: primeiro instaura-se o conflito e o caos e, depois, negocia-se. Assim Trump lida com o Canadá, México, Venezuela, Ucrânia, Panamá e, agora, a Groenlândia.

Enfim, Trump é um lider narcisista, perigoso e age sem qualquer freio. Nos perguntamos onde estão as instituições nos EUA? Onde está a justiça? Onde está o Congresso? Onde está a oposição? Onde está a cidadania?

Axel Grael 


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LEMBRANCA DE UMA VISITA À GROENLÂNDIA

Assistindo a uma manifestação cultural em Kulusuk, Groenlândia, em 1972.

Estive na Groenlândia em 1972, quando eu tinha 14 anos, levado pelo meu avô materno, o dinamarquês Preben Tage Axel Schmidt

Recém formado em engenharia civil na Escola Politécnica de Copenhague, Preben chegou ao Brasil em 1924, a serviço da construtora dinamarquesa Christiani-Nielsen. O que era para ser uma rápida viagem, acabou virando uma vida inteira. Encantado com o Brasil e com Niterói, decidiu estabeler-se na cidade e constituir família. Quando ainda na Dinamarca, sagrou-se campeão europeu de hipismo cross-country, mas diante do esplendor da Baía de Guanabara, trocou de esporte e se dedicou à vela, tornando-se sócio do Rio Sailing Club, no Saco de São Francisco.

Ele adorava o Brasil e se dizia "mais brasileiro do que muita gente que nasceu aqui". Mas, sentia falta do frio e viajava periodicamente para algum lugar muito frio. Em 1972, tive o prazer de fazer a primeira dessas viagens com ele. Conheci a Dinamarca, Suécia, Noruega (norte do país), Finlândia, Islândia e Groenlândia. 

Com a minha mãe Ingrid e os meus irmãos Torben e Lars, no solo gelado da Antártica (1973). 

No ano seguinte (1973), levou nossa família para visitar a Antártica, no primeiro cruzeiro comercial realizado para o continente gelado.

Axel Grael