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sábado, 30 de maio de 2026

RETROCESSO: Empresas não são mais obrigadas a fazer relatório de sustentabilidade

 

Foto Agência Nacional de Mineração

Mais um retrocesso no arcabouço da legislação ambiental brasileira que foi construído ao longo das últimas décadas. 

A Comissão de Valores Mobiliários - CVM, uma autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, que tem o objetivo de fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado de valores, anunciou na noite de ontem (29 de maio), a aprovação de uma alteração da Resolução 193/2023, revogando a obrigação das empresas de capital aberto a publicarem e divulgarem os seus Relatórios de Sustentabilidade. Com o documento, as empresas tinham a obrigatoriedade de reportar as informações financeiras relacionadas à ação de sustentabilidade praticadas pela companhia. 

A Resolução 193/2023 (com as suas alterações posteriores) estabelecia que:
ART.2° Fica estabelecida, para as companhias abertas, a obrigatoriedade de elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base nas normas emitidas pelo CBPS, e aprovadas pela CVM, a partir dos exercícios sociais iniciados em, ou após, 1º de janeiro de 2026.
De acordo com a Resolução CVM 193, as empresas precisavam elaborar relatórios estruturados de acordo com as normas internacionais do ISSB (International Sustainability Standards Board), conhecidas como IFRS S1 e S2. Os relatórios seguiam a mesma periodicidade estabelecida para as respectivas demonstrações financeiras.

A aprovação da exigência pela CVM foi considerada uma inovação mesmo no âmbito internacional e tinha por finalidade enfrentar o chamado "greenwashing", maquiagem ambiental, ou o marketing enganoso de um pretenso compromisso socioambiental e ecológico corporativo, sem comprovação ou respaldo nas práticas efetivas das empresas. Com a nova Resolução CVM 244, que "reforma a CVM 193", as empresas não têm mais a obrigatoriedade de apresentar esse compromisso.

A CVM ofereceu as seguintes explicações na sua página no GOV.BR:
As alterações visam a aperfeiçoar o modelo de adoção voluntária, preservando a transparência e a comparabilidade trazidas pela necessidade de observância dos padrões contábeis, mas resgatando o necessário respeito à liberdade das entidades para estimar os custos e benefícios esperados de suas decisões sobre como usar os recursos dos investidores. 

A principal mudança é a remoção da obrigatoriedade que a versão original da norma impusera às companhias abertas, após período de adoção voluntária. Com isso, o regime aproxima-se daquele que a própria redação anterior já previa para fundos de investimento e sociedades securitizadoras, pois para tais entidades não havia previsão de adoção forçada do reporte de informações de sustentabilidade nos padrões contábeis. 

O padrão contábil internacional é mantido: as companhias que optarem por publicar informações financeiras de sustentabilidade só poderão fazê-lo se observarem as normas do CBPS e ISSB, com isso preservando a confiabilidade e aumentando a comparabilidade dessas publicações. Por outro lado, as companhias que entenderem que essa adoção não é adequada para seus negócios não terão tal obrigação, devendo apenas publicar sua opção por meio de comunicado ao mercado, em modelo de "pratique ou explique".
"Pratique ou explique"? Fui procurar saber o que era isso e, segundo o IA do Google, significa: 
O "Pratique ou Explique" é um mecanismo de autorregulação (muito utilizado pela B3 e pela CVM) onde empresas listadas na bolsa devem adotar boas práticas de governança e sustentabilidade, ou explicar publicamente o motivo de não o fazerem.
LOBBY OU TIRO NO PÉ?

Segundo o portal RESET, a CVM cedeu às pressões da Associação Brasileira das Companhias Abertas - ABRASCA, que no final de 2025, às vésperas de entrada em vigor (2026) da obrigação de contabilização os dados para divulgação em 2027, protocolou um documento pedindo a derrubada das regras ou o seu adiamento por três anos. A CVM surpreendeu o mercado, recuou na obrigação e sequer estabeleceu um prazo para retomar a obrigatoriedade.

A ABRASCA argumentou que o cumprimento da norma, ou seja, a preparação do relatório, "poderia chegar a representar 70% dos gastos de auditoria".

ORA, SE AS EMPRESAS NÃO QUEREM TER GASTOS COM UM RELATÓRIO, QUAL DEVE SER O NÍVEL DE COMPROMISSO E MOTIVAÇÃO DAS MESMAS NO CUMPRIMENTO DAS SUAS RESPONSABILIDADES AMBIENTAIS E CLIMÁTICAS? 

QUAL A COMPARAÇÃO ENTRE OS GASTOS QUE PRATICAM COM "PUBLICIDADE VERDE" E RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E O QUE EFETIVAMENTE INVESTEM EM SUSTENTABILIDADE?

Obviamente, as despesas que as empresas da ABRASCA estão reclamando não são as referentes a preparação do relatório em si, mas a obrigação de fazer as suas obrigações ambientais estabelecidas na legislação ou no licenciamento ambiental, ou ainda aquelas ações de responsabilidade socioambiental que os seus acionistas, o mercado e a sua clientela exigem.

O RESET também informou que durante os debates houve reação de outros setores como o Instituto de Auditoria Independente do Brasil (IBRACON), do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) a AMEC, APIMEC e a FIPECAFI. Alertaram que seria um "retrocesso relevante para a eficiência do mercado". O grupo de organizações alertou que tornar as normas opcionais abriria brechas estruturais para o "greenwashing involuntário ou estratégico" sem capacidade de influenciar de modo disciplinador o comportamento corporativo e o custo do capital.

Em fevereiro de 2026, a CVM havia rejeitado o pleito da ABRASCA alegando que seria injusto com empresas que já testavam o modelo, como Vale, Renner, C&A e Natura. Importante lembrar que a CVM ganhou um prêmio internacional por ser o primeiro regulador do mundo a adotar as exigências do ISSB.

Lembro-me que quando presidi (1999-2001 e 2007-2008) a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA (órgão ambiental licenciador pioneiro no país e que foi incorporado ao INEA), assinei um Termo de Ajuste de Conduta - TAC com uma empresa de capital aberto que tinha sérias pendências ambientais e recebi a visita de um estrangeiro que representava um grupo de acionistas. Estava preocupado com a performance ambiental da referida empresa. Sim, os acionistas também cobram das empresas, pois isso pode representar a qualidade da gestão ou o risco do investimento.

INTERFERÊNCIA POLÍTICA: MAIS UMA BOIADA

Mais uma vez, é o mesmo grupo da "terra arrasada" no Congresso que atua criminosamente para "passar outra boiada". A mudança de posição da CVM parece ter nome.

A mudança de direção da CVM coincide com a mudança de gestão na autarquia. Como informou o site G1, no dia 20 de maio, o Senado aprovou o nome do advogado Otto Lobo (Comissão de Assuntos Econômicos CAE, após muita polêmica, aprovou 31 votos favoráveis a 13 contrários. Posteriormente, o Plenário do Senado aprovou por 19 a 4) para assumir o cargo de novo presidente da CVM. A nomeação foi alvo de críticas devido a votos dados por Lobo em decisões envolvendo a Ambipar e o Banco Master, quando era diretor e presidente interino da autarquia, em 2025. Um dos beneficiados foi o investidor Nelson Tanure. O Tribunal de Contas da União questiona as decisões de Lobo.

Otto Lobo terá um mandato-tampão até julho de 2027, concluindo a gestão do ex-dirigente João Pedro Nas, que deixou o cargo em julho do ano passado. A indicação de Lobo foi encaminhada pelo governo e contrariou o então ministro da Fazenda Fernando Haddad e o atual ministro Dario Durigan e foi mal recebido também no mercado financeiro. Apesar da indicação do presidente Lula, o nome de Lobo teria sido apadrinhado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que pressionou o governo pela sua indicação. Alcolumbre nega a responsabilidade.

SUSTENTABILIDADE NAS EMPRESAS: ESG

A sustentabilidade no ambiente corporativo é uma realidade consolidada nas melhores empresas, com exemplos expressivos de boas práticas socioambientais e existem profissionais altamente qualificados trabalhando nos setores de ESG (Environment, Social and Governance). Como dirigente de órgãos ambientais, sempre tive nesses profissionais importantes aliados para o cumprimento da legislação e das licenças ambientais. Sempre acreditamos ser muito estratégico fortalecer o papel destes profissionais na governança das empresas, pois são eles que mais conhecem os desafios de sustentabilidade dessas instituições. 

Nem sempre estes profissionais são devidamente valorizados. A cobrança dos órgãos ambientais e normas como as que exigem os Relatórios de Sustentabilidade fortalecem a importância do setor de ESG na empresa, tirando-a de uma importância apenas periférica. 

A QUEM INTERESSA...?

A quem interessa o retrocesso promovido pela decisão nefasta da CVM? Interessa a aquelas empresas mais atrasadas e reativas, que não estão alinhadas com a tendência mundial de responsabilidade corporativa. Interessa a certas empresas como as que encontramos pelas COPs do clima, promovendo seus pretensos resultados ambientais, enquanto sabotam os avanços da agenda climática.

Importante lembrar que a atitude extemporânea e retrógrada acontece no momento em que se consolida o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, que tem tido reações de segmentos da economia europeia usando como um dos mais fortes argumentos o afrouxamento da legislação ambiental no Brasil e países do Mercosul, o que causaria um "dumping ambiental", ou seja, concorrência desleal pois o custo ambiental do produto brasileiro seria distorcido de forma desleal com a concorrência europeia.

CHEGA DE RETROCESSOS

Em outubro, tem eleição e é a chance de depurar a representação política no Congresso Nacional. É preciso mudar a correlação de forças que temos atualmente no Congresso e evitar a influência nefasta de grupos políticos que atual criminosamente contra a política ambiental, para garantir a continuidade dos avanços e não o triunfo do atraso. A sustentabilidade só será alcançada com a participação da sociedade como um todo e as empresas têm um papel decisivo no processo.

Axel Grael
Pré-candidato a Deputado Federal (PDT-RJ)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Presidente da FEEMA (1999-2001 e 2007-2008)




sábado, 7 de março de 2026

Brasil bate recorde de intoxicações por agrotóxicos em 2025

Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Aumento de intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo; Brasil bateu recorde de aprovação de pesticidas em 2025.

Em 2025, 27 pessoas se intoxicaram diariamente por agrotóxicos no país, mostra um levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde. Foram 9.729 casos registrados, com alta de 84% sobre 2015, ano de início da série histórica, e um recorde.

As principais vítimas das intoxicações não intencionais – o que exclui episódios em que a contaminação foi deliberada – são homens de 20 a 39 anos (70%). Nesse grupo, 54% dos acidentes aconteceram no trabalho, e 80% estão relacionados ao uso de agrotóxico no meio agrícola. Desde 2015, o país soma 73.391 intoxicações por agrotóxicos, mostra o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

O estado campeão em intoxicação por agrotóxicos foi o Espírito Santo, com 10% dos casos registrados em 2025. Em seguida vem Tocantins, Rondônia, Acre e Roraima, todos da região Norte, mostrando os resultados nefastos da expansão do agronegócio na região.

Para especialistas, o aumento das intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo de pesticidas. O Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização desses produtos. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% sobre 2024. Já as vendas chegaram a 826 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em comparação a 2023, mostra o IBAMA.

“Com mais agrotóxicos disponíveis, há uma tendência de que o preço caia, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

A nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava o cenário e representa um retrocesso regulatório, reforçam os especialistas. “Já faz tempo que as intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados, mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A geógrafa e especialista em agrotóxicos Larissa Bombardi lembra que enquanto muitos químicos estão proibidos ou com uso restrito na União Europeia, eles ainda são largamente usados – por empresas europeias – no Brasil. É o que Larissa chama de “colonialismo químico”, explica o Outras Palavras.

“A população rural no Brasil está cronicamente exposta a substâncias que são cancerígenas ou que provocam desregulação hormonal”, ressalta a geógrafa no Brasil de Fato. “Por estudos que temos, já sabemos que as áreas em que mais se utiliza agrotóxico são aquelas em que há maior prevalência de câncer.”

Em nota enviada à Repórter Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) relaciona o avanço das intoxicações ao peso econômico e político do agronegócio. Fato que, segundo a pasta, tem favorecido a adoção de medidas de interesse do setor.

ICL Notícias e Racismo Ambiental também repercutiram o assunto.

Em tempo: A gigante química alemã Bayer chegou a um acordo de US$ 7,25 bilhões (R$ 37 bilhões) com autores de ações judiciais para encerrar dezenas de milhares de processos que alegam que o herbicida Roundup causou linfoma não Hodgkin. As alegações são de que a Bayer falhou ao não alertar nos rótulos do produto sobre os supostos riscos carcinogênicos representados pelo glifosato. Segundo O Globo e UOL, o acordo foi submetido a um tribunal do Missouri, nos Estados Unidos, e visa resolver reivindicações atuais e futuras, criando um fundo financiado ao longo de até 21 anos.

Fonte: ClimaInfo





sábado, 21 de fevereiro de 2026

"O NOVO TABACO" - Cidades estão banindo propaganda de combustíveis fósseis

A BBC publicou um artigo assinado por Isabella Kaminski (leia abaixo), apontando a iniciativa de um número crescente de cidades pelo mundo que estão aprovando leis para banir publicidades em lugares públicos que exponham a utilização de combustíveis fósseis. 

O tema ganhou força com uma declaração enfática e indignada do secretário-geral da ONU, o português António Guterres, no Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho de 2024, em evento realizado no Museu de História Natural de Nova York, António Guterres declarou que "Os combustíveis fósseis são os padrinhos do caos climático e a indústria do petróleo está obtendo lucros recordes". Considerou inaceitável que continuem fazendo publicidade com a destruição do planeta!

Assista o discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, no Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho de 2024), no Museu de História Natural de Nova York.

O secretário-geral se insurgia contra o lobby do petróleo que age fortemente contra a agenda de avanços climáticos, colocando-se contra a formalização de compromissos para o "phase-out" do petróleo, ou seja, para a transição energética, e o fim da dependência do petróleo. Na ocasião, vivia-se a preparação para a COP29, realizada em Baku, Azerbaijão, que teve como tema o financiamento climático. O dirigente denunciava a conspiração das empresas para o esvaziamento daquela agenda tão estratégica para o enfrentamento da crise climática.

Referindo-se ao grande desastre que causou a extinção da megafauna no Cretáceo, Guterres alertou: "Na questão climática, não somos os dinossauros. Nós somos o meteorito. Não estamos apenas em perigo. Nós somos o perigo". Também disse que "estamos fazendo roleta-russa com o planeta" e ainda, referindo-se às empresas que fazem "green washing", publicando pomposos relatórios de responsabilidade climática, enquanto nos bastidores promovem lobbies anticlima, advertiu as empresas que "os combustíveis fósseis não estão apenas envenenando o planeta, mas são tóxicos para as suas marcas". 

Reforçou a necessidade de se alcançar um caminho consensual que nos tire do fracasso humano no planeta: "Precisamos de uma rampa de saída da rodovia que leva ao inferno climático"

NOVO TABACO

Guterres, exortou os países a proibirem a publicidade do uso de combustíveis fósseis e disse que os "combustíveis fósseis seriam o NOVO TABACO", comparando com o banimento da propaganda de cigarros ocorrido mundo afora. 

Muitos governos restringem ou proíbem a publicidade de produtos que prejudicam a saúde humana, como o tabaco. Alguns estão fazendo o mesmo agora com os combustíveis fósseis. Peço a todos os países que proíbam a publicidade dessas empresas, e apelo aos meios de comunicação social e às empresas tecnológicas que parem de aceitar publicidade de combustíveis fósseis”, disse Guterres.

A diretora de Saúde Pública e Clima da Organização Mundial da Saúde - OMS, Maria Neira, também reforçou a visão de que os combustíveis fósseis são o "novo tabaco". 

Poucos dias após o discurso de Nova York, participei do Diálogo de Bonn Sobre Mudanças Climáticas - chamada na diplomacia climática de SB60, evento da ONU realizado em Bonn, na Alemanha. Representei o ICLEI - Local Governments for Sustainabilitydebatemos a crescente liderança das cidades na agenda climática e pude perceber a força da repercussão da manifestação de Guterres.

CIDADES SE MOBILIZAM

Após o chamado da ONU para a ação, mais uma vez, foram as cidades que responderam e passaram a liderar. A primeira cidade do mundo a aprovar uma lei nesse sentido foi Haia, na Holanda, que adotou a medida em 2024, com validade a partir de janeiro de 2025. Edimburg, na Escócia; Saint-Gilles, na Bélgica; Estocolmo, na Suécia, Sheffield e Portsmouth, na Inglaterra; Sydney e outras 19 cidades na Austrália; Wellington, são outros exemplos de cidades que adotaram a mesma medida. Nem todas tiveram sucesso. Toronto, no Canadá, tentou, mas o parlamento não aprovou a legislação.

Diferente das cidades, pressionados pelos lobbies, os governos nacionais estão atuando de forma mais discreta e com dificuldades, agindo sobre o conteúdo das publicidades, embora alguns países estejam trabalhando pela proibição da publicidade na escala nacional. A França foi o primeiro país a aprovar uma lei nacional, mas segundo informações, desde a sua formalização, a implementação está paralisada. Na Espanha, um projeto com o mesmo objetivo está tramitando e acredita-se que haverá muita dificuldade de aprovação no parlamento.

BANIR PROPAGANDA RESOLVE?

É tudo muito recente e, segundo o artigo, é cedo para afirmar positivamente ou não. No entanto, como exemplo, vale lembrar que no passado, marcas de cigarro, bebidas alcoólicas e outras consideradas não saudáveis eram as principais patrocinadores de eventos esportivos e culturais. Campanhas de restrição publicitárias motivadas por políticas antitabagismo e antiálcool, afastaram essas práticas. O mesmo aconteceu com campanhas "anti-junk food", que afastaram alimentos de baixa qualidade e não saudáveis das crianças, adolescentes e jovens. 

Campanhas de controle dos excessos publicitários que promovem o consumismo entre jovens e adolescentes, assim como controles de jogos de azar e ações afirmativas de inclusão e democracia racial tem sido muito debatidas. 

O declínio tabaco por controle de publicidade e campanhas de conscientização no Brasil é um dos melhores exemplos de assertividade da estratégia. 

Segundo o artigo, restrições de publicidade tiveram alguns bons resultados em outros casos citados. Londres baniu a propaganda de alimentos não saudáveis, alcançando a redução de consumo de uma média de 1.000 calorias/semana para as famílias londrinas, reduzindo também as taxas de obesidade. O Chile alcançou uma queda de 24% de consumo de bebidas açucaradas.

O artigo também destaca desafios de implementação. Mas, assim como aconteceu em outras políticas de restrição de publicidade, até o debate produz um processo educativo e de conscientização. É uma parte importante do que precisamos para produzir uma transição para uma economia de baixo carbono e seguir avançando para a sustentabilidade.

Axel Grael
Engenheiro florestal, ambientalista.
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/UFF)


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Some cities have introduced bans for petrol cars in a bid to encourage more sustainable behaviour (Credit: Serenity Strull / BBC). Serenity Strull / BBC

'The new tobacco': The cities banning fossil fuel adverts

Isabella Kaminski

Cities across the world are clearing their billboards of flight ads, SUVs, cruise ships and petrol cars in an attempt to cut emissions.

When it comes to billboards, the centre of The Hague isn't exactly Times Square. Still, the cosmopolitan Dutch political capital has its share of looming displays and brightly lit bus shelters.

When I visited in late 2024, these were merrily advertising an array of colourful products and services in the run-up to Christmas, with one promoting trips to sunny beaches thousands of miles away in the Dutch Caribbean.

I was in the city to report on the International Court of Justice's landmark hearings on whether countries can sue each other over climate change. But when I returned seven months later to hear the court's final ruling there was a subtle difference in these adverts: there were no posters for petrol or diesel cars, or for cruises or flights to far-flung holiday destinations.

The change was the result of The Hague's 2024 decision to ban advertising for high-carbon products. The city was the first place in the world to do so through a local law, but is just one of dozens of municipalities across the world that have now agreed to ban fossil fuel adverts, including the district of Saint-Gilles in Belgium, the Swedish capital of Stockholm and most recently the Italian city of Florence. In January 2026, the Netherlands' Amsterdam became the world's first capital to put a ban into law.

"As the International City of Peace and Justice and an important UN city, we find it important to show that we're serious about tackling [the climate crisis]," says Robert Barker, deputy mayor of The Hague. "So it's really a bit weird if in a public space we have a lot of fossil ads, while at the same time you say to people, 'We should reduce them.'"

The advertising sector is increasingly coming under the spotlight for its role in promoting and normalising polluting activities and for misrepresenting their environmental and health impacts, according to a report by the Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment. (Read more about the adverts banned for misleading climate claims).

In a scathing speech in New York in 2024, UN Secretary General António Guterres said climate misinformation by the fossil fuel industry in particular had been "aided and abetted by advertising and PR companies".

Guterres urged every country in the world to ban the fossil fuel industry from advertising altogether, a call later echoed by Maria Neira, director for public health and climate at the World Health Organization, who described fossil fuels as "the new tobacco".

"We know that advertising is a really major driver of unsustainable consumption," says Cassie Sutherland, managing director of climate solutions and networks at C40 Cities, a US-based climate think tank. "Advertisers wouldn't be spending billions upon billions of dollars every year if it wasn't affecting people's behaviour."

Indeed, a 2023 scientific advice paper for Dutch policymakers concluded that fossil advertising "normalises and promotes unsustainable behaviour". It also "discourages sustainable behaviour, actively undermining climate policy", it added.

In recent years, several campaigns have emerged calling on public authorities to ban such advertising, including Adfree Cities, World Without Fossil Fuel Ads and Reclame Fossielvrij ("Fossilfree advertising" in Dutch).

Some have already had success, and the Netherlands in particular has become a hotspot for bans. In 2020, in response to a letter from campaigners and political groups, Amsterdam passed a world-first motion seeking to end the "excesses" of unsustainable advertising, such as "flying vacations at rock-bottom prices". And the city's newly passed ban, which comes into effect on 1 May 2026, goes even further than The Hague by restricting advertising for meat as well as fossil fuel products.
"Climate campaigners have now turned their attention to the UK capital, where transport operator Transport for London (TfL) has one of the largest advertising estates in the world".
More than a dozen municipalities across the country have now tried to put in place some form of restriction either through local laws or public contracts.

The road has not always been easy. The Netherlands' travel trade organisation ANVR and three travel operators went to court in 2024, claiming The Hague's law breached their right to freedom of speech and would not actually reduce fossil fuel use. But a judge ruled that the ban could help combat climate change and improve people's health, and said the city had properly substantiated its reasons for putting it in place. It has been in force since April 2025. The ANVR did not respond to a request for comment. The Netherlands Board of Tourism and Conventions was also asked for comment but did not respond.

Several UK cities have also introduced bans. In 2024, the city of Edinburgh banned advertising for fossil fuel companies, airlines, airports, fossil fuel-powered cars, SUVs and cruise ships on council-owned advertising spaces, including bus stops and digital media. Sheffield introduced a similar policy the same year, also including any content "which might reasonably be deemed to promote more flying". In February 2026, Portsmouth also introduced a ban.

Climate campaigners have now turned their attention to the UK capital, where transport operator Transport for London (TfL) has one of the largest advertising estates in the world. In November, London mayor Sadiq Khan agreed to review the body's advertising policy to see if it could be greener.

In Australia, 19 jurisdictions have already voted for or implemented some level of restriction on fossil fuel advertising, including Sydney, its largest city. And the regional council in Greater Wellington, New Zealand, agreed in 2023 to stop fossil fuel adverts on public transport and council assets.

Belinda Noble, founder and chief executive of Comms Declare, an advocacy group working to ban fossil fuel advertising in Oceania, argues local authorities have "enormous" influence over what their constituents see every day and are a powerful force for change. "They are more responsive to community needs and are usually less beholden to the interests of industry or big coal and gas donors," she adds.

Sutherland says there is often a much stronger focus on shifting consumption at city level than a national one. "Cities are often very ambitious on climate," she says. They also have a strong track record of making changes that are being replicated nationally such as clean transport and waste reduction, she adds.

Still, not all attempts to pass bans in cities have worked. A campaign in Toronto, Canada, for example, was voted down in July 2025, with some councillors raising concerns about the complexity of deciding whether advertising is false or misleading.

Introducing bans in the US, meanwhile, is difficult because advertising is protected under the Constitution's First Amendment, says Ellen Goodman, professor of law at Rutgers Law School in New Jersey. That means any restrictions would be subject to "fairly stringent" judicial review, she says. Instead, US climate activists have focused on legal action trying to hold fossil fuel companies accountable for their impact on climate change.

To date, most national governments have focused more on the messages contained within corporate advertising, often through their regulator, rather than the adverts themselves. (Read more about the adverts banned for misleading climate claims).

Still, some countries are already exploring national bans.

In 2022, France became the first European country to ban adverts for fossil fuels through a climate law, although advocates say implementation has since stalled.

The Spanish government voted in June 2025 in favour of a draft bill that would ban advertising of fossil fuels and vehicles exclusively powered by fossil fuels, as well as short flights if there are more sustainable alternatives. However, it still has to pass parliament, which experts say will be difficult.

More widely in Europe, there is more support than opposition for advertising restrictions, according to one study.

DO BANS WORK?

It is too early to know the full impact of the bans in place so far, but the evidence of previous advertising restrictions shows they may well create changes.

After TfL introduced a junk food advertising ban in London in 2019, for example, families put an average of 1,000 less calories in their weekly shops, with a particularly big drop in chocolate and sweets and a likely knock-on reduction in obesity and public healthcare costs. And it did not result in a drop in advertising revenue as some had feared – in fact, this increased.

Likewise, fast food advertising restrictions in Chile aimed at improving children's health led to a 24% drop in purchases of sugary drinks and a rise in healthier options.

Tobacco consumption around the world has also dropped following advertising restrictions, which began in the 1960s and became progressively tougher. And a 2022 review of the research on gambling adverts suggests that cracking down on them could "reduce overall harm and mitigate the impact of advertising on gambling-related inequalities".

Trying to draw lessons from bans motivated by public health concerns, a group of sustainability researchers concluded in 2025 that restricting advertising of a harmful product could encourage the development of "benign" alternatives with a lower environmental footprint. Norway's alcohol advertising restrictions, for example, led companies to brew new ranges of low or alcohol-free beer.

"There's clear evidence that advertising bans do have an impact," says Sutherland. "We don't have that data yet on fossil fuel ad bans... but we expect to see a similar thing."

THE DRAWBACKS OF BANS

However, the sustainability researchers also noted concerns that the development of cleaner and healthier products can help to greenwash a company's corporate image and support sales of the more harmful original. A way forward here could be only allowing companies to advertise benign alternatives if they already sell a significant quantity of them, they said.

And advertising bans could have other limitations. For example, when the gambling industry agreed to voluntarily stop advertising in the UK during live sports programmes, it appeared to increase its levels at other times. Towns and cities can also do little about what people see and hear on the internet – even national governments have struggled with regulating advertising online.

"Why would we stimulate something that has a devastating impact on the planet?" – Robert Barker

Restrictions targeting products are much easier to define and enforce than those banning an industry from advertising altogether, notes Sutherland, and probably less likely to face legal challenge. There are also "grey" areas, adds The Hague's Barker. "If you were to have an advertisement about a certain country that you can only reach by plane, then is that allowed?"

A more extreme option is to scrap outdoor advertising altogether, as Brazilian city São Paulo did in 2006.

What is clear is that bans do not work in a vacuum. The Dutch government has been advised to combine bans with other policies in order to truly shift consumer behaviour. Alongside its ban, for example, The Hague is encouraging people to drive electric cars by offering more charging points around the city and giving householders interest-free loans to install insulation and heat pumps, says Barker.

Barker says public communication in The Hague was pretty straightforward because news about the ban was so widespread. "We focused on explaining why it is important to tackle the climate crisis and that ads in the public space stimulate the opposite," Barker says.

In a 2025 report, special rapporteur on human rights and climate change Elisa Morgera criticised how fossil fuel adverts have shaped public perceptions for decades "by downplaying human rights impacts and emphasising the role of fossil fuel products in economic growth and modern life". Bans on these adverts, she argued, would help to challenge the "taken-for-granted presence of fossil fuel products in our lives" and "underlying patterns of systemic inequalities, overproduction and overconsumption".

In the study on Dutch bans, the policy officials interviewed felt that while the impact of bans on consumer behaviour was still unclear, they have given important signals on unsustainable consumption and encouraging other places to follow suit.

"I think the comparison with tobacco is very accurate," says Barker. "Smoking ruins our lungs while fossil fuel ruins the lungs of the planet. Why would we stimulate something that has a devastating impact on the planet?"

Fonte: BBC




sábado, 10 de janeiro de 2026

VENEZUELA, PETRÓLEO E O FUTURO CLIMÁTICO: prenúncio de tempos sombrios


Tempos sombrios.

Esperança! Como fazemos todos os anos, nos despedimos de 2025 e chegamos a 2026 desejando paz e felicidade a todos os nossos familiares, amigos, colaboradores e pessoas que nos relacionamos e queremos bem.

Mas, poucas horas após o Réveillon, o clima de otimismo e esperança foi atropelado por um duro choque de realidade: na madrugada do dia 3 de janeiro, tropas dos EUA invadiram a Venezuela, prenderam Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os levaram à força para os EUA, sob o pretexto de submete-los à justiça americana sob a acusação de tráfico de drogas e outras acusações. 

Segundo informações na imprensa, a operação matou 58 pessoas, dentre elas, 32 militares cubanos que faziam a segurança de Maduro e 23 militares venezuelanos. No dia da invasão, durante coletiva de imprensa Donald Trump se vangloriou com a seguinte declaração: “o domínio dos Estados Unidos na América Latina nunca mais será questionado”.

No mesmo pronunciamento, Trump não escondeu qual era o verdadeiro objetivo da operação militar: se assenhorar das maiores reservas de petróleo do mundo! Anunciou que os EUA governarão a Venezuela por um tempo e que chamará as empresas petroleiras americanas ("as maiores do mundo") para resolver os problemas da infraestrutura de produção, que estariam em péssimas condições. As tais empresas citadas por Trump não mostraram grande entusiasmo e têm mantido uma postura cuidadosa sobre o assunto

Segundo o governo Trump, o óleo produzido será gerido e comercializado pelos EUA. Os recursos obtidos da venda do petróleo serão utilizados "exclusivamente" na compra de produtos americanos e o invasor definirá as prioridades de utilização do restante dos recursos, que serão investidos conforme "a prioridade do povo venezuelano". Assim decidiu unilateralmente o governo dos EUA!

Uma pergunta: as grandes empresas têm se submetido voluntariamente a procedimentos éticos de governança corporativa, como o badalado ESG (Environment, Social, Governance) e tantos outros processos para a garantia de integridade e compliance. Explorar o petróleo da Venezuela, sob intervenção militar e as regras impostas por Trump estará em conformidade com estes preceitos?

O episódio da Venezuela vai muito além do desrespeito à soberania de um país e do discurso da necessária restauração da democracia, da qual a Venezuela, de fato, havia se afastado. Há muito mais coisa por trás.

Há muita incerteza sobre o que está por vir. Mas, a chegada de 2026 parece ter feito "cair a ficha" que o mundo mudou de forma acelerada e radical. Vivemos um novo cenário mundial, muito mais perigoso e instável. Vejamos alguns desses aspectos:

EUA: AUTORITARISMO, RETROCESSOS POLÍTICOS E ECONÔMICOS

Por muitas décadas, os EUA ostentaram a reputação de ser a maior economia e a maior democracia do mundo. O que estamos vendo nos últimos tempos parece contradizer ou sinalizar mudanças nessa realidade. Trump inaugurou o seu segundo mandato ainda mais radicalizado e autoritário, isolando os EUA econômica e politicamente, ao estabelecer tarifas sobre os principais países do mundo, destruindo alianças estratégicas e relações comerciais construídas ao longo de muito tempo. As consequências estão se mostrando piores para a economia dos EUA do que dos países sancionados. O maior mercado consumidor do mundo está enfrentando o desabastecimento e, logo, a inflação está subindo a níveis elevados. 

A agressividade demonstrada na política internacional, também é praticada por Trump no nível doméstico. Extinguiu órgãos tradicionais da administração pública, demitiu sumariamente um grande número de funcionários públicos e paralisou políticas sociais. Implantou um estado policialesco, com uma política agressiva contra imigrantes, com as obscuras tropas do ICE (órgão responsável pelo controle da imigração) aterrorizando as comunidades, no mais fiel estilo Gestapo. O presidente abriu guerra contra adversários políticos, determinando intervenções na área de segurança de estados e cidades governadas pela oposição. Também vem perseguindo universidades e a intelectualidade do país. 

Com maioria no Congresso, Trump conseguiu neutralizar o legislativo, que se vê impotente diante de tantas decisões desastradas do Executivo, que lhe cabe fiscalizar. Com a conivência dolosa da bancada republicana, todas as tentativas de controlar os excessos são bloqueados. Com o parlamento sob controle, Trump decidiu inclusive ignorá-lo. Até mesmo as competências exclusivas do Congresso são atropeladas, sem reação efetiva dos parlamentares: além da operação militar na Venezuela há poucos dias, Trump bombardeou no ano passado (2025) sete países sem autorização do Congresso. 

Como consequência, os EUA vê crescer uma mobilização cidadã. Manifestações têm tomado as ruas de muitas partes do país. A popularidade de Trump vem caindo, mas isso não tem impedido que mantenha a sua sanha autoritária. 

GEOPOLÍTICA

O mundo parece estar de cabeça para baixo. Os EUA resolveram abrir mão da liderança mundial que exerciam quase que sozinhos desde a queda do Muro de Berlim? Parecem ter aceito dividir o seu poder com China e Rússia, ao brandir seus pretensos "direitos políticos" sobre a América Latina e o Caribe: "É o nosso hemisfério!", dizem os trumpistas. Anunciaram a reedição da Doutrina Monroe, lembrada como a política do "Big Stick", que no passado marcou a relação truculenta dos EUA com a América Latina. Isso não nos traz boas lembranças ou boas perspectivas! Em um ano de governo, Trump invadiu a Venezuela, bombardeou sete países, ameaçou o México, a Colômbia, o Panamá e Cuba. 

A atitude americana perante a América Latina fortalece e oferece argumentos para Vladimir Putin tentar dar legitimidade à sua guerra contra a Ucrânia. O mesmo pode acontecer na pretensão da China sobre Taiwan.

A América Latina passou algumas décadas com baixa relevância geopolítica em comparação a outras regiões, como a Europa, Ásia, países árabes. Recentemente, passou a ser um player mais importante, atraindo o interesse da China, que passou a investir maciçamente na infraestrutura da região e desenvolver acordos comerciais. Isso resultou num crescimento da influência política chinesa na região. É bom lembrar que China e Rússia eram os principais compradores do petróleo venezuelano.

A Europa também reconhece a importância da região ao decidir, finalmente, após 25 anos de negociação, o Acordo Comercial União Europeia - Mercosul. Trata-se da maior zona de livre comércio do mundo, com uma população agregada de 721 milhões de habitantes e um total de US$ 22,341 trilhões, ou seja, 25% do PIB global. A crise causada por Trump obrigou a Europa a agir e concluir as negociações. 

O Acordo UE-MERCOSUL é uma grande vitória do multilateralismo, que chega num momento oportuno para confrontar a atitude de força que paira sobre a América Latina atualmente.

Arte O Globo.

Portanto, o Acordo UE-MERCOSUL ajuda tanto a América Latina como a Europa. No novo cenário geopolítico, preocupada com a Guerra da Ucrânia, a Europa está sendo isolada e perdendo relevância geopolítica. A União Europeia tem centrado forças na ameaça russa e, contraditoriamente, vê o enfraquecimento da OTAN, diante do afastamento de Trump dos compromissos de financiamento do poder militar do bloco. 

A situação se agravou com a absurda e recorrente menção do presidente americano da intenção dos EUA de incorporar a Groelândia, país autônomo, mas associado à Dinamarca. 

Um outro movimento que contraria a atitude dos EUA perante a America Latina e dá peso geopolítico para a região é o protagonismo do Brasil no BRICS, um bloco de nações influentes e que reúne uma grande parte da população mundial, como: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul. Outros países aderiram em 2024 e 2025, ou são considerados parceiros da iniciativa. Trump,  preocupado, já ameaçou aplicar tarifas aos países do BRICS.

MULTILATERALISMO

Mesmo nos governos democratas, os EUA nunca se interessam pelo multilateralismo. Mas, sob Trump, os EUA passaram a atuar de forma a inviabilizar estas instâncias. No dia 7 de janeiro, Trump ordenou a retirada dos EUA de 66 organismos internacionais, sob a alegação que "operam contrariamente aos interesses nacionais dos EUA". A investida foi contra agências, comissões e painéis consultivos ligados à ONU, ou independentes, que se concentram em questões climáticas, trabalhistas e outras que o governo Trump classificou como voltadas para iniciativas de diversidade e "woke". 

Dentre as organizações da ONU, estão: Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres); Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC); Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD); Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ONU Energia, ONU Habitat, ONU Oceanos, Universidade das Nações Unidas, dentre outras. O governo Trump já havia suspendido o apoio a agências como a Organização Mundial da Saúde, a UNRWA (Agência das Nações Unidas para a Refugiados da Palestina), o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a UNESCO (Agência das Nações Unidas para a Cultura).

As organizações internacionais não vinculadas à ONU são: a tradicional e histórica União Internacional para a Conservação da Natureza - UICN, Aliança Solar Internacional, Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

CLIMA 

Como vimos acima, os EUA retiraram o apoio à UNFCCC e ao IPCC, as principais iniciativas que dão suporte à agenda climática global. A UNFCCC é a convenção do clima que promove as COPs, como a COP30 que acabamos de sediar em Belém. O IPCC reúne os principais cientistas que dão o embasamento técnico às ações de enfrentamento às mudanças climáticas. 

Como afirmamos aqui no blog, a atitude reativa dos EUA é um problema para o avanço do processo de negociação contra as emergências climáticas, mas os EUA perdem muito mais do que dificultam. Afinal, em 30 anos de discussão climática, por suas dificuldades com os fortes lobbies internos, o país nunca foi protagonista, muito menos liderou o processo. Portanto, a agenda climática nunca contou muito com os americanos, embora os EUA sempre tenham sido os principais financiadores do sistema ONU. 

O afastamento dos norte-americanos nunca impediu que a agenda avançasse no país em outras instâncias. Por exemplo, em contradição com a atitude federal, estados e municípios dos EUA têm algumas das melhores experiências de implementação de políticas climáticas e ajudam a fazer o tema avançar. 

Além de esvaziar as organizações climáticas, a Administração Trump coloca o petróleo no centro do conflito geopolítico global e toma para si a maior reserva fóssil do mundo (20% de todo o petróleo do mundo), que é a da Venezuela. Isso acontece justamente quando a transição energética chega ao centro do debate climático. 

Segundo Paasha Mahdavi, professor de ciência política da Universidade da California - Santa Barbara (The Guardian), a elevação da produção de petróleo da Venezuela, dos atuais cerca de 1 milhão de barris/dia para 1,5 milhões de barris/dia, produziria a emissão anual de cerca de 500 milhões de toneladas de CO2. Isso corresponde às emissões anuais de carbono de países como o Brasil e o Reino Unido. Há ainda o agravante de que o óleo da Venezuela é um dos mais concentrados e poluentes.

A transição para uma economia de baixo carbono é indispensável para enfrentar a emergência climática. Segundo especialistas, não há mais tempo a perder e se a temperatura média do planeta ultrapassar 1,5°C as consequências serão gravíssimas. Por isso, há uma métrica utilizada para medir o progresso das medidas globais para a redução do carbono atmosférico, conhecida como "Orçamento de Carbono" (Carbon Budget). Ou seja, há um limite de concentração de carbono e um tempo para reduzi-lo. A protelação das medidas nos deixa com a obrigação ainda maior a medida que o tempo passa. 

Em Belém, um dos grandes esforços foi para aprovar o Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis, que seria uma metodologia e guia político para o abandono gradativo dos combustíveis fósseis, foi uma das mais importantes bandeiras da COP30. Acabou não havendo consenso para a sua aprovação, mas a Presidência Brasileira, que atua até a próxima COP, anunciou que fará um esforço paralelo para apresentar voluntariamente dois mapas do caminho. A primeira reunião está marcada para o final de abril, em Santa Marta, na Colômbia, país que foi muito enfático na COP30, na cobrança pelo compromisso pela transição. O movimento busca atrair o apoio dos mais de 80 países que já se manifestaram a favor da iniciativa. 

A informação, a seguir, consta das informações disponíveis no site oficial da COP30:

Apesar da ausência de consenso, com mais de 80 países apoiando uma linguagem explícita e mais de 80 se opondo a ela, a Presidência brasileira anunciou, por iniciativa própria, processos para elaboração de duas iniciativas:

• Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis de maneira justa, ordenada e equitativa;
• Mapa do Caminho para interromper e reverter o desmatamento.
Todo esse esforço contrasta com os episódios recentes como o da Venezuela. Os planos anunciados por Trump são de aumento da extração do petróleo, seguindo o seu mantra  "drill, baby, drill". O próprio Brasil está prestes a abrir novas frentes de exploração, como na Foz do Rio Amazonas. Portanto, na conjuntura atual, ao contrário do que precisamos, a exploração do petróleo está com viés de alta. Isso, certamente, inviabilizará todas as metas climáticas estabelecidas.

Com tudo o que vimos, há um grande quadro de incertezas pela frente e, sem dúvida, um cenário muito adverso para o avanço da agenda climática, ai incluída a transição energética. 

A crise climática não espera! Seguiremos na louca corrida rumo ao caos climático?

Axel Grael
Engenheiro florestal
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/UFF)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Membro do Comitê Executivo Global do ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade


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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

UBER ABANDONA COMPROMISSOS CLIMÁTICOS E ABRAÇA TRUMP

Artigo no newsletter Green Daily, da Bloomberg, traz hoje um artigo "Life in the Slow Lane", de Ben Elgin, mostrando a guinada corporativa que a Uber, empresa com sede em São Francisco, California, deu com relação à sua política de responsabilidade climática e energética. De um compromisso com metas de eletrificação da sua frota, a empresa recua e se desfez na semana passada de todos os programas de incentivos financeiros aos seus motoristas para fazerem a transição.

De uma política de protagonismo corporativo e de cobrança por políticas públicas de transição energética nos transportes, a Uber passou a apoiar a famigerada Lei "Big Beautiful Bill", de iniciativa de Donald Trump, considerada pela "League of Conservation Voters" (Liga dos Eleitores Conservacionistas) como a lei mais nefasta ao meio ambiente da história. A lei desmontou as bases mais fortes de toda a política ambiental e climática vigente até então nos EUA, retirando os incentivos às energias limpas. Segundo a BloombergNEF, as medidas de Trump reduzirão em 40% a adoção de carros elétricos, tirando 14 milhões de novos veículos elétricos das ruas até 2030

Como mostra a matéria abaixo, o CEO da Uber esteve na Casa Branca ao lado de Trump gravando um vídeo de enaltecimento da "Big Beautiful Bill" de Trump. 

Segundo o artigo, com 38 milhões de viagens diárias em todo o mundo, a Uber dobrou as suas emissões em três anos e hoje gera um impacto climático correspondente a toda a Dinamarca. A empresa havia prometido alcançar 100% de eletrificação da frota em Londres em 2025, 100% em toda a América do Norte e Europa até 2030, mas está muito longe da meta. A empresa reconheceu que atualmente 40% das milhas percorridas em Londres são em carros elétricos, enquanto na Europa são 15% e América do Norte são 9%.

A California, a Cidade de Nova York e Toronto aprovaram leis estabelecendo metas de eletrificação para os aplicativos de transporte, medida que a própria Uber pregava. Desde setembro, a empresa pressiona parlamentares para reduzir as exigências e aumentar os prazos estabelecidos.

Atualmente, toda a legislação ambiental e de transição energéticas de vigente nos níveis subnacionais estão sob ataque nos EUA. Estamos assistindo à mesma coisa aqui nos trópicos.

Axel Grael



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Photographer: Nick Little

Life in the slow lane

By Ben Elgin

Uber spent years trying to make it easier for ride-hailing drivers to ditch gasoline-powered cars.

When Levi Spires, a 51-year-old Uber driver in Syracuse, New York, hit a deer and damaged his Prius last year, a $2,000 promotion from the ride-hailing giant enticed him to buy a Tesla. Over 23 months, he earned around $3,500 from Uber Technologies Inc. in additional EV bonuses driving about 139,000 miles. It was all part of Uber’s goal to rapidly move its drivers into cleaner cars.

But things changed last week when Uber discontinued the monthly EV bonuses. Losing the incentive, along with steadily declining hourly earnings, has caused Spires to rethink his future: “My goal is for Uber to not be my main profession anymore.”

Uber needs all the clean miles it can get to reach its green goals and various local regulations. With 38 million daily trips globally, the company’s emissions have nearly doubled in the past three years, and its climate footprint now surpasses the entire country of Denmark. Yet despite the rise in emissions and soaring profits, Uber is scaling back some of its key climate efforts.

The company had pledged to reach 100% EVs in London by this year, and 100% in North America and Europe by 2030, but it’s far short of those goals. The San Francisco-based firm reported earlier this year that about 40% of its miles in London are in EVs, while Europe and North America are about 15% and 9%, respectively. Instead of enticing drivers into EVs with cash, Uber is ratcheting back extra payments and backpedaling in other ways.



Uber officials acknowledge they will likely miss their green targets, but they say the company is committed to cleaner vehicles, and their drivers in Europe and North America are moving into EVs much faster than the public. “We’re proud of our progress overall,” says Rebecca Tinucci, the former global head of electrification and sustainability at Uber, who recently took over as chief executive officer of Uber’s freight business.

After long advocating for stronger government policies to speed up EV adoption, Uber did a U-turn this spring and stumped for President Donald Trump’s “Big Beautiful Bill.” This included Chief Executive Officer Dara Khosrowshahi appearing in a White House promotional video for the legislation, which the League of Conservation Voters called “the most anti-environmental bill of all time.” The law slashed clean-energy incentives and is expected to slow EV adoption in the US by about 40% compared to previous projections.


Uber CEO Dara Khosrowshahi, left, at the White House with Donald Trump. Photographer: BRENDAN SMIALOWSKI/Getty Images

A handful of states and cities, including California, New York City and Toronto, have enacted rules requiring ride-hailing companies to rapidly electrify their fleets. Uber is now pushing back, urging California regulators in September to delay enforcement, in part because the scrapped federal incentives make the targets nearly impossible to meet.

“This is why we had to get a law passed,” says Nancy Skinner, a former state senator who authored California’s law, which requires Uber and Lyft Inc. to get 90% of their miles there in EVs by 2030. “They weren’t going to do this on their own.”

Fonte: Bloomberg Green Daily, 10/12/2025



terça-feira, 4 de novembro de 2025

MICROPOLUENTES: União Europeia avança no controle, mas lobby farmacêutico e de cosméticos reagem

 

The Schönerlinde wastewater treatment plant outside Berlin. Benjamin Pritzkuleit / Berliner Wasserbetriebe

An E.U. Plan to Slash Micropollutants in Wastewater Is Under Attack

Earlier this year, a European Union directive mandated advanced treatment of micropollutants in wastewater, with the cost to be borne by polluters. But the pharmaceutical and cosmetics industries, which are responsible for most of those contaminants, are now pushing back.


By Christian Schwägerl

A  few miles north of Berlin, the Schönerlinde wastewater treatment plant hums with quiet urgency. Dark brown water flows through a series of concrete tanks, alive with microorganisms breaking down almost everything that’s flushed away in the northeastern parts of the nearby German capital. The plant serves 850,000 people, in addition to many businesses, making it one of the largest among the roughly 20,000 sewage plants in the European Union.

By the time treated water leaves the Schönerlinde facility, it has been purified enough — according to current European standards — to be allowed to flow into Tegel Lake, where Berliners swim and sail. But increasingly, experts at Berliner Wasserbetriebe, the state-owned utility responsible for supplying drinking water to nearly 4 million people in the Berlin region, are worried about rising levels of micropollutants — most of them from pharmaceutical and cosmetics waste — that flow into treatment systems and which the plants’ microorganisms are unable to metabolize and break down.

As a result, many micropollutants leave today’s sewage plants mostly unchanged. “We find substances for lowering blood pressure, fighting depression, painkillers — in small quantities, but as one big cocktail,” says Gerhard Mauer, who oversees all the city’s water treatment plants.

A large-scale study of European rivers detected 504 harmful substances — 175 of them pharmaceuticals like painkillers and antidepressants.

Concerns about immediate and longer-term environmental and public health impacts are mounting. So far, micropollutants occur at concentrations too low to harm humans taking an occasional swim. But it’s a different story for aquatic organisms, from small snails to large fish, which are constantly exposed to pharmaceutical and other compounds that are known to affect fertility, trigger sex changes, impair navigation and movement, or increase mortality.

In response to the increase in micropollutants, the E.U. passed a revised Urban Wastewater Treatment Directive, which went into effect in January. It mandates that thousands of medium and large plants across Europe begin planning and installing, between 2027 and 2045, a fourth step in the purification process. According to planning documents, such “quaternary” treatment would slash levels of micropollutants by at least half using technologies like ozonation and activated carbon filtration.

While Switzerland and some regions in Germany and the Netherlands have already taken the lead, the vast majority of sewage plants in Europe — and in the United States — still lack advanced treatment technologies. The hugely expensive upgrades mandated by the E.U. will mainly be funded, according to the directive, by polluters themselves. But lobbying groups for the pharma and cosmetics industries in Brussels and in other European capitals, as well as individual companies, are fighting fiercely against the new rules.

Water before (left) and after (right) a fourth stage of purification at a wastewater treatment plant near Frankfurt, Germany. Lando Hass / dpa

Despite stricter regulations and better wastewater treatment across Europe, the U.S., and in other parts of the world, tens of thousands of industrial chemicals, pesticides, and pharmaceutical compounds now circulate widely — many ending up in rivers through factory discharge or sewage plants. Together with pesticide runoff from agricultural fields, industrial discharges, and runoff from streets, urban wastewater is a major cause of what Ralf Schulz, an ecotoxicologist at the Technical University of Kaiserslautern-Landau, in Rhineland-Palatinate, describes as the “chemization” of aquatic habitats. A large-scale 2024 study by chemist Saskia Finckh from the Helmholtz Centre for Environmental Research in Leipzig screened rivers across 22 European countries, detecting 504 harmful substances175 of them pharmaceuticals like painkillers and antidepressants.

One of those painkillers, diclofenac, can accumulate in animals and damage the livers of river otters and the kidneys of fish, leading to increased mortality. Elevated levels of the drug were found in roughly three-quarters of surface water samples taken in Germany, according to the country’s Environmental Protection Agency, or UBA. More and more scientific studies are documenting negative effects of wastewater compounds on fish, crustaceans, algae, and even human immune cells.

“There’s no doubt who has to pay for [advanced treatment],” says a Berlin official. “The industries that cause the pollution.”

Public health officials fear that contaminants will increasingly find their way into drinking water, making it less safe for consumption. Berlin, like many cities around the world, sources most of its drinking water from wells near its rivers and lakes, after it has naturally filtered through layers of soil. So far, Berlin’s drinking water is well below threshold values for the 50 medical substances that are regularly screened. At the Tegel Lake well, however, levels of a transformation product of blood pressure drugs are already above the threshold recommended by UBA for safe lifelong consumption. Gerhard Mauer calls permanently keeping micropollutants out of drinking water “our duty under the precautionary principle.”

That’s why, on a crisp and sunny day in late September, Mauer proudly showed the company’s newest construction project to Andreas Kraus, Berlin’s permanent secretary for climate protection and environment. Scheduled to open in 2027, the Schönerlinde plant will use ozone, synthesized on site, to break down many of the harmful pollutants that have been evading purification. This project puts Berlin at the forefront of a technological revolution in sewage treatment. “Once this facility is operational,” Mauer told Kraus, “the water we pump into Tegel Lake will be largely free of problematic chemicals, and we can extract drinking water without having to worry too much about them.”

The new facility under construction at the Schönerlinde wastewater treatment plant will use ozone to break down micropollutants. Sven Bock / Berliner Wasserbetriebe

A lot of money is at stake. During Kraus’ visit, Mauer said that equipping all six Berlin sewage plants with ozone or similar techniques would cost $584 million. Estimates of equipping 600 similarly large wastewater plants in Germany with quaternary treatment technology range from $10.6 billion to $47 billion. Kraus’ response was unequivocal: “It’s important that we as a city make sure our water is purified using the best available technology, but there’s no doubt who has to pay for it — the industries that cause the pollution.”

Industry, as might be expected, sees it differently. Lobbyists for pharmaceutical and cosmetics companies are pressuring the European Commission to soften — or even scrap — the legislation, which mandates that those sectors cover 80 percent of the construction and operating costs of quaternary treatment. Under the revised Urban Wastewater Treatment Directive, every treatment plant serving more than 150,000 people must be retrofitted by 2045. Smaller plants must also be upgraded if they are located in areas where micropollutants pose a risk to drinking water supplies.

The exact share of costs a company must bear, according to the directive, depends on the quantity of environmentally problematic ingredients it produces and how toxic they are for aquatic organisms. The E.U. Commission has based its findings on an evaluation of scientific studies that found that the pharmaceutical and cosmetics industries are responsible for 66 percent and 26 percent, respectively, of toxicity in urban wastewater.

Industry trade groups are seeking to capitalize on waning enthusiasm for progressive environmental policies.

Initially, pharmaceutical and cosmetics industries said they supported the directive’s overall objectives. But they noted, in a joint statement, that the “arbitrary decision to pick only two sectors, human pharmaceuticals and cosmetics, to pay for the pollution caused by others fails to incentivize greener product development [by] all polluters.”

Since the directive went into force, those industries have pushed back harder. Trade groups are casting doubt on the scientific studies underpinning the new sewage regulations. They are lobbying to cut red tape in environmental policy and seeking to capitalize on waning enthusiasm for progressive environmental policies. Amid active and looming wars in and around Europe, sluggish economic growth, punitive tariffs imposed by the U.S., and aggressive anti-environment rhetoric from right-wing populist parties, many politicians and E.U. Commission strategists are distancing themselves from previous commitments enshrined in 2020 in the landmark European Green Deal — a policy package with carbon dioxide reduction, biodiversity protection, and the phaseout of harmful substances as core priorities.

Between March and July, pharmaceutical and cosmetics trade groups and companies took their case to the European Court of Justice. More than a dozen complaints were filed, with plaintiffs calling either for broader inclusion of other sectors, like the food industry, in the payment mechanism; for the removal of the “polluter pays” requirement; or even for voiding the entire Urban Wastewater Treatment Directive.

Source: European Commission. Yale Environment 360

Manufacturers of generic drugs feel particularly threatened. For the diabetes drug metformin, for example, production costs could increase by a factor of 4.5, warns Josip Mestrovic, managing director of Pro Generika, a trade association. “If this really happens and nothing changes, we will have to take metformin off the market,” he says.

According to the German Federal Environment Agency, the active ingredient in metformin can have hormone-like effects on aquatic organisms. In experiments with fish, it triggered sex changes from male to female and inhibited the growth of larvae.

“The European Commission should stop the implementation of the directive and dare to start afresh,” says Jörg Wieczorek, CEO of the industry association Pharma Deutschland. The VKE cosmetics association — which includes companies such as Chanel and L’Oréal — seeks to at least cap the industry’s share of the costs at 1 percent. Lobbying groups are calling for a model in which water consumers contribute to the cost of advanced treatment. They point to Switzerland, where the cost for upgrading sewage plants is shouldered by water consumers through a levy of $11 per capita through water bills, not by polluters themselves.

Experts are calling for doctors to learn more about the environmental risks of pharmaceuticals they give to patients.

Water utilities and environmental economists argue against that. “The cost of removing micropollutants should not fall upon water users like private households and small local businesses but on those who are causing the problem,” says Oliver Loebel, secretary general of EurEau, a Brussels-based organization that represents 38 national associations of drinking water and wastewater operators across Europe. He argues that the Swiss model doesn’t provide any incentive for manufacturers to reduce micropollutants and replace substances that harm aquatic life.

Loebel hopes the impact of the new urban wastewater directive will go beyond simply cleaning up pollution after the fact. He sees the legislation as a potential driver for industry to replace environmentally harmful substances with safer alternatives. “The pharmaceutical industry prides itself on its ability to develop new substances, so it should be possible to avoid further environmental harm” and market alternative substances that can be removed more easily or that break down into harmless molecules, he says. A less harmful alternative to diclofenac, for example, already exists, says Loebel.

“The pharmaceutical and cosmetics industries have plenty of time to adapt — and a straightforward way to reduce costs by cutting pollution through innovation over the coming years and decades,” Loebel says. A clause in the directive requires regular reviews to assess whether access to medicines is being affected, and whether other sectors, like the food industry, should be included in the cost-sharing mechanism.

Scientists take samples from the Elbe River in Germany as part of a study on pollution in European waterways. André Künzelmann / UFZ

Many experts are calling for doctors and pharmacists to learn more about the environmental risks of pharmaceuticals they give to patients. In the Stockholm region, an expert panel has developed what’s known as the Wise List, a set of prescribing recommendations that prominently includes such information. The idea is that doctors will prescribe the least environmentally harmful substance.

But without improved water treatment, the problems will only get worse. Erik Gawel, chief economist at the Helmholtz Centre for Environmental Research in Leipzig, warns against delaying investment in quaternary treatment: “The longer we wait, the harder the chemization of our lives will catch up with us later, when micropollutants gradually find their way into groundwater and drinking water,” he says.

In August, the powerful E.U. Commission promised to conduct and publish a new study about the costs of quaternary treatment as well as the potential impacts on concerned sectors, based on “the most recent and relevant data.”

“For the time being, I see no appetite in the E.U. Commission to reopen the directive,” Loebel says. But if that should happen, he warns, there’s a danger that “the directive would basically collapse…. Even if fewer politicians are pro-environment these days, they should at least be pro-water.”


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Christian Schwägerl is a Berlin-based journalist who writes for the German newspaper Frankfurter Allgemeine, Spectrum of Science, and other media outlets. He is cofounder of RiffReporter, a freelance cooperative, and author of The Anthropocene: The Human Era and How it Shapes Our Planet. Follow him on Mastodon.


Fonte: Yale 360