segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Mancha de óleo que polui o Nordeste pode chegar às praias do Rio



COMENTÁRIO:

Há 19 anos atrás, eu exercia o cargo de presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente - FEEMA, órgão ambiental pioneiro e emblemático da gestão pública do meio ambiente no Brasil.

Na ocasião, enfrentei um dos maiores desastres ambientais do país: o vazamento de óleo na Baía de Guanabara causado pela Refinaria Duque de Caxias, a REDUC. Identificamos os responsáveis, combatemos as manchas de óleo, em conjunto com o IBAMA, aplicamos a maior multa ambiental aplicada até então - a multa máxima prevista pela Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998), que recentemente havia sido promulgada.

Cobramos da Petrobras a responsabilidade da empresa pela limpeza da Baía, de reparação dos danos através de Compensações Ambientais e encaminhamos ao legislativo estadual um projeto de lei para a regulamentação da lei federal (produzido pelo então assessor Jurídico da FEEMA, o atual procurador do estado Rodrigo Mascarenhas), que resultou na  Lei Estadual 3.467/2000, que Dispõe Sobre as Sanções Administrativas Derivadas de Condutas Lesivas ao Meio Ambiente no Estado do Rio de Janeiro, e Dá Outras Providências.

No combate ao óleo, mobilizamos toda a equipe da FEEMA, outros órgãos governamentais, forças militares, trouxemos especialistas em resgate da fauna e organizamos a atuação dos voluntários. Reorganizamos o Plano de Emergência Ambiental da Baía de Guanabara e decidimos dar um freio nas frequentes ocorrências de derramamento de óleo na Baía de Guanabara, impondo uma estratégia de tolerância zero contra as "manchas de óleo".

Fazíamos pelo menos um voo semanal de helicóptero e passamos a fiscalizar diariamente a Baía de Guanabara, multando responsáveis e tomando a iniciativa de reportar à imprensa cada uma das manchas de óleo encontradas, mesmo as pequenas. Cada caso ganhava a primeira página dos jornais. Alguns nos acusavam de criar uma "paranóia" das manchas de óleo, mas o fato é que o número de ocorrências diminuiu muito.

Eu também era presidente da FEEMA quando houve a explosão e naufrágio da plataforma P-53 e depois o incidente com a P-07, ambas da Petrobras, e que resultaram em extensos vazamentos de óleo. Nos dois episódios, mobilizamos o plano de contingência e evitamos que grandes porções do óleo derramado no mar chegasse ao litoral, onde ecossistemas mais frágeis e vulneráveis, como manguezais, costões e outros, poderiam ser afetados.

Desastre nas praias do Nordeste

O que vemos agora é o maior desastre ambiental já visto no litoral brasileiro, que ocorre justamente durante uma gestão federal que decidiu promover o desmonte da estrutura governamental do país, da legislação ambiental e que extinguiu conselhos e desmobilizou os planos de respostas para acidentes. É o caso do Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo, criado por lei em 2013, cujos dois conselhos que o compunham foram extintos no início do Governo Bolsonaro. Como consequência, passados dois meses do aparecimento das manchas (borras) de petróleo, o governo foi incapaz de articular uma resposta e ainda não se vê os protocolos do PNC sendo devidamente acionados.

As cenas que temos assistido são grandes grupos de voluntários (pescadores, ambientalistas, moradores e até turistas), dedicados ao difícil e perigoso trabalho de retirada do óleo, trabalhando de forma improvisada, eventualmente com algum apoio de governos e empresas locais.

E o problema continua aumentando a cada dia. Áreas já limpas continuam a receber mais óleo e a extensão de litoral afetado segue aumentando. Como diz a matéria abaixo, do jornal O Dia, autoridades admitem que o óleo poderá chegar ao litoral norte do Rio de Janeiro.

Investigação e respostas

Após o acidente da REDUC e outros que ocorreram no país logo depois, como o acontecido poucos meses depois na refinaria em Araucária, no Paraná, motivaram um esforço legislativo que resultou na Lei 9.966/2000, a chamada Lei do Óleo.

Esta Lei, contrariando os órgãos ambientais, acabou por definir a responsabilidade sobre derramamentos de óleo no mar para a Marinha do Brasil.

Cumprindo essa missão, a Marinha do Brasil iniciou gestões para tentar apurar responsabilidades, enquanto outras autoridades federais, de forma açodada, confusa e irresponsável, davam declarações de cunho ideológico sobre a origem venezuelana do óleo, um dos países escolhidos como inimigo pela presidência da República e seus seguidores mais próximos.

Até agora, não se tem pistas dos responsáveis pelo lançamento do óleo. Pesquisadores da COPPE/UFRJ e outros centros de pesquisa tentam ajudar fazendo simulações com modelos matemáticos que apontam o possível foco de dispersão do óleo muitos quilômetros oceano a dentro. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, que também poderia dar uma contribuição, acabou desmoralizado por acusações do próprio governo federal, durante outro episódio ambiental vexaminoso que são os incêndios na Amazônia.

Considerações

Tenho ouvido algumas versões de amigos, oficiais da Marinha, sobre algumas hipóteses que explicariam a origem do óleo, admitindo a possibilidade de derramamento acidental ou criminoso de um navio em movimento, ou uma operação clandestina de transferência de um navio para outro em alto-mar.

O que teria acontecido? Um naufrágio? Poderia um navio naufragar na atualidade sem que se tivesse qualquer notícia ou capacidade de se identificar através dos modernos mecanismos de monitoramento de rotas? Um navio clandestino? Mas, transportando petróleo cru? Qual refinaria aceitaria tal encomenda?

Não quero aqui lançar mais hipóteses especulativas, mas me chama a atenção a quantidade de óleo que vem chegando ao litoral. É muita coisa para ser desperdiçado em eventual acidente ou simples descarte.

Acho que ainda vamos sofrer muito com os impactos deste acidente, mas também vamos aprender muito. Mas, que a lição mais importante seja que a questão ambiental seja encarada de forma responsável e por profissionais competentes. A imprevidência e desleixo do governo brasileiro com a segurança ambiental do país tem custado um elevado prejuízo ao patrimônio natural do país e nos desmoralizado perante a comunidade internacional.

Que as investigações avancem com competência e com a devida transparência e que o Governo Federal acione o Plano de Contingência como era esperado e que repare os danos mesmo que tardiamente. É o que a sociedade brasileira deseja e, por falta de escuta nos gabinetes do Planalto, tem exigido através do Ministério Público e da Justiça.

Que o Brasil saia da inércia e sobreviva!

Axel Grael




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Mancha de óleo que polui o Nordeste pode chegar às praias do Rio

No litoral de Alagoas, um grupo de trabalho retira óleo da praia - Felipe Brasil/Fotos Públicas


Especialista diz que entrada poderá ser por São Francisco de Itabapoana, Barra de São João e Quissamã

Por GUSTAVO RIBEIRO

Rio - A partir desta semana, pesquisadores da Coppe/UFRJ investigarão quais áreas do país ainda poderão ser atingidas pelo óleo que já se espalhou pelo litoral de nove estados do Nordeste. Será a segunda fase de um estudo que apontou a possível origem do material poluente: uma área entre 600 e 700 quilômetros da costa brasileira, na fronteira entre Sergipe e Alagoas.

"Considerando os pontos onde foi localizado óleo, foi feito um trabalho de modelagem inversa. A partir das condições hidrodinâmicas, calculamos a trajetória do óleo voltando no tempo para tentar achar a origem", ressaltou Carina Bock, pesquisadora do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da Coppe/UFRJ.

O próximo passo será fazer a mesma modelagem para frente. O objetivo é descobrir para onde o óleo pode se deslocar. Será possível saber, por exemplo, se ele chegará ao Estado do Rio, em quanto tempo e possíveis pontos de entrada. A primeira fase do estudo concluiu que o material deve ter começado a se espalhar entre julho e agosto.

O oceanógrafo David Zee, da Uerj, se preocupa com a falta de ações de contenção por parte do governo federal e vê grandes chances de o Espírito Santo e o Rio de Janeiro serem atingidos. A mancha se estende do Maranhão ao Norte da Bahia.

"As praias do Norte e Nordeste vão ficar com resquícios do óleo pelos próximos 20 anos. Se chegar ao Sul da Bahia, o Espírito Santo é a bola da vez", comentou Zee. No Rio, segundo ele, a entrada se daria pelos municípios de São Francisco de Itabapoana, Barra de São João e Quissamã, no Norte do estado. "Se chegar àquela região, a pesca vai ser afetada e muita gente faz pesca de subsistência nessas cidades".

Segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), o Ibama garantiu que não foi identificada mancha em alto mar nem tendência de deslocamento nas proximidades do Estado do Rio. O órgão informou que possui um plano de contingência que abrange o cenário de surgimento de óleo em praias, e que mantém a vigilância.

Marinha e PF investigam o acidente ambiental

Levantamento divulgado pelo Ibama na quinta-feira mostrou que 187 localidades do Nordeste foram atingidas pela mancha em 76 municípios de nove estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. De acordo com o órgão, a investigação da origem do material poluente está sendo conduzida pela Marinha. Já a investigação criminal é objeto da Polícia Federal.

Ainda segundo o Ibama, o poluente se concentra em camada sub-superficial da água. "Por essa razão, as manchas não são visualizadas em imagens de satélite, sobrevoos e monitoramentos com sensores para detecção de óleo, sendo detectadas apenas quando alcançam a costa", explicou o Ibama. O órgão informou que os prejuízos para a fauna e a flora estão sendo avaliados.

Na quinta-feira, o Ministério Público Federal ajuizou ação contra a União por omissão no desastre ambiental. A Procuradoria pede que seja colocado em prática o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água. "Tudo que se apurou é que a União não está adotando as medidas adequadas em relação a esse desastre ambiental que já chegou a 2.100 quilômetros dos nove estados da região", afirma o MPF, que pede multa diária de R$ 1 milhão em caso de descumprimento.


Fonte: O Dia









TRANSOCEÂNICA e PRO SUSTENTÁVEL são destaque no site da CAF



Em 2014, quando eu era vice-prefeito de Niterói e já tínhamos certeza que a TransOceânica seria uma realidade, comecei a desenvolver o Programa Região Oceânica Sustentável - PRO Sustentável, por determinação do prefeito Rodrigo Neves. Nosso objetivo era promover um investimento em infraestrutura, recuperação e proteção ambiental, para potencializar os benefícios da TransOceânica e elevar a Região Oceânica a um patamar mais elevado de sustentabilidade.

As prioridades do programa são a implantação do Parque Orla de Piratininga (POP), a Renaturalização do Rio Jacaré, a implantação do Parque Natural Municipal de Niterói (PARNIT), a recuperação do Sistema Lagunar de Piratininga e Itaipu, a Urbanização do Canto de Itaipu, implantação do Centro de Referência de Sustentabilidade Urbana (CERSU) (inclui o prédio do Médico de Família do Jacaré), saneamento e regularização fundiária de comunidades, estabilização da Praia de Piratininga, além da pavimentação e drenagem de bairros como Boavista, Santo Antônio, Fazendinha do Cafubá, Avenida Romanda Gonçalves etc. Também foram incluídos no programa alguns importantes equipamentos da TransOceânica, como as estações, a iluminação do Túnel Charitas-Cafuba, dentre outros.

Saiba mais no site do PRO Sustentável

Já tínhamos captado recursos para obras de infraestrutura e tecnologia junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID (PRODUIS) e decidimos, desta vez, captar para o PRO Sustentável junto ao Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).

Pedi à minha amiga de longa data, a geógrafa Dionê Marinho Castro, para estruturar a proposta e iniciamos a longa e trabalhosa negociação com o banco e com o Governo Federal para viabilizar o contrato de empréstimo, que se concretizou no final de 2016.

Agora, os projetos começam a sair do papel e as transformações que tanto sonhamos estão saindo do papel e se tornando realidade.

O nosso agradecimento à equipe da CAF que tem contribuído muito para a viabilização do PRO Sustentável, iniciativa que, estamos certos, será um marco da sustentabilidade urbana no nosso país.

Axel Grael
Coordenador Geral do PRO Sustentável

Secretário
Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão - SEPLAG




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Niterói avanza en los sistemas inteligentes de transporte colectivo

La Región Oceánica de Niterói corresponde a una zona confinada entre el mar y una área montañosa de preservación ambiental, lo que ocasiona una situación de aislamiento de los principales polos económicos (empleos) y de servicios (escuelas, hospitales, universidades), distribuidos en su centro y en la ciudad vecina de Rio de Janeiro. En consecuencia, su población se acostumbró a elevados tiempos de viaje.

Para solucionar esta situación, en septiembre del 2016 CAF aprobó una operación de crédito de USD 100 millones para el Programa Región Oceánica con la ciudad de Niterói, que tiene como objetivo aumentar la oferta de transporte público y revertir el proceso de degradación ambiental, especialmente en esta región, por medio de intervenciones en vialidad, transporte masivo, ciclovías, recalificación urbana y recuperación de áreas degradadas.

Para solventar la barrera física se construyó el Túnel Charitas, una obra soñada desde los años 50 que posibilitó acortar las distancias entre los barrios y los polos económicos y de servicios. Aprovechando esa nueva conexión se implantó el BHLS (Bus with High Level of Service) Transoceánica, el primer sistema con estas características en América Latina. El BHLS consiste en un autobús de alto nivel de servicio, con enfoque dirigido a mejorar la experiencia del viajero, brindando mayor comodidad, accesibilidad y confiabilidad. El BHLS de Niterói cuenta con un carril exclusivo de 12km de extensión, con 11 estaciones de transferencia y una flota nueva de 40 buses que disponen de aire acondicionado, internet gratuito, billetería electrónica, GPS integrado e indicación sonora de los puntos de parada. Estas nuevas tecnologías permiten que el usuario pueda monitorear, en tiempo real, la llegada de los buses así como la duración de los viajes. Adicionalmente, el Programa prevé la implantación de 50 km ciclovías, 6 grandes estaciones de bicicletas y otras 100 pequeñas (paraciclos), lo que también contribuirá para una matriz de transporte más sostenible.


#Brasil La primera etapa del corredor del BHLS ya está generando un ahorro de 21 minutos/pasajero en los tiempos de viaje


Los beneficios del Programa en la población local son notables y pueden ser medidos. Según los cálculos de la Secretaría de Urbanismo y Movilidad de Niterói, la primera etapa del corredor del BHLS ya está generando un ahorro de 21 minutos/pasajero en los tiempos de viaje. Considerando que el rendimiento promedio de estos usuarios es de aproximadamente USD 5 por hora, el Programa está generando un ahorro de USD 1,58 por pasajero al día, equivalente a USD 488 al año. Multiplicando estas cifras por los actuales 20.000 usuarios, se alcanza una reducción de USD 9,76 millones al año. En estos cálculos, no se incluyen los beneficios asociados a la reducción de accidentalidad vial y de la emisión de gases invernadero (externalidades positivas) que los sistemas de transporte colectivo evidentemente generan.

Como se puede observar, las intervenciones de CAF en Niterói están promoviendo significativas ganancias de productividad para sus habitantes. Estas acciones confirman el “pacto por la productividad”, eje de acción prioritario dentro de la estrategia de CAF de apoyo a sus países accionistas.

En los últimos años la actuación de CAF en Brasil se ha sido dirigida principalmente a las ciudades. De hecho, 17 de las 21 operaciones tienen a las alcaldías como prestatarias, lo que significa más de USD 1.200 millones en financiación de proyectos. Trabajar en la escala municipal permite generar impactos profundos en el territorio y mejoras en la calidad de vida de los ciudadanos.


Diego Vettori




Ejecutivo del Sector Público en Brasil

Experto en el Sector Público actualmente responsable por diversas operaciones de crédito soberano en Brasil. Cuenta con más de 12 años de experiencia en el sector, especialmente en programas de inversión de infraestructura, planificación estratégica, concesiones/APPs y regulación de contractos de transporte público.

Anteriormente, ejerció posiciones de dirección y asesoría en el Gobierno de Minas Gerais, entre ellas Subsecretario de Regulación de Transportes, Jefe de Gabinete, Director Financiero de Metrominas y Superintendente de Infraestructura de Transportes.

Es licenciado en Administración Pública de la Escuela de Gobierno de la Fundação João Pinheiro y Máster en Economía y Regulación, por la Universidad de Barcelona.

Fonte: CAF










quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Pasto na Amazônia aumenta 74% em 30 anos; entenda em 3 pontos a relação entre pecuária e desmatamento




Em áreas alvo de exploração irregular, o primeiro passo é a retirada de árvores menores, depois as maiores, e na sequência o fogo é usado para abrir espaço para o pasto.

Por Carolina Dantas, G1

As queimadas são apenas uma das etapas do ciclo de uso da terra na Amazônia. Depois do desmate, se nada de novo acontecer, a floresta pode se regenerar. Uma floresta secundária, no entanto, nunca será como uma original, mesmo que uma parte da biodiversidade consiga se restabelecer. Mas na prática o que acontece é que a mata não tem tempo de crescer de novo.


Uso da terra no Brasil — Foto: Roberta Jaworski/G1

Em áreas alvo de exploração irregular, o primeiro passo é a retirada de árvores menores, depois as maiores, e na sequência o fogo é usado para abrir espaço para o pasto. O resultado dessa prática criminosa em terras amazônicas é uma alta de 74% nas áreas de pasto nos últimos 30 anos, de acordo com dados do Mapbiomas. Estima-se que 80% das áreas desmatadas sejam usadas para este fim.


GIF mostra a mudança da terra desde 85 na Amazônia — Foto: Igor Estrella/G1. Acesse aqui.


Uma floresta pode voltar a ser floresta?

Sim, mas demora muito tempo. O mais antigo dos indígenas Karipuna, Aripã, diz que não tem medo dos madeireiros, porque depois de um tempo a floresta volta a crescer. Eles diz que é o pasto que acaba com a terra.

De acordo com Carlos Rittl, "a estrutura de biodiversidade demora centenas de anos para se recuperar, mas a estrutura de recomposição florestal pode demorar algumas décadas".

Segundo o coordenador do Observatório do Clima, isso não é motivo para não criar planos de recuperação da floresta. "O manejo voltado para a recuperação dessas áreas pode acelerar determinados processos, e pode ajudar no ponto de vista de carbono e melhorar à biodiversidade, mesmo que não volte a ser o que era antes".


Pasto após queimada ao redor do território Karipuna, em Rondônia — Foto: Fábio Tito/G1


Quando a Amazônia vira pasto?

Depois do processo de queimada, para evitar que novas sementes de árvores voltem a germinar, os agricultores usam o pasto, que cresce rápido, para começar a produção pecuária. É necessário que a área seja plana e, por isso, algumas regiões da Amazônia têm mais produção agrícola no lugar do gado, como soja e milho.


A soja dourada é vizinha da Floresta Nacional do Tapajós — Foto: Marcelo Brandt/G1


É necessário desmatar para aumentar a produção? Temos muitas áreas abandonadas?

Estudo publicado pela revista “Science” em julho deste ano mostra que o Brasil tem 50 milhões de hectares vazios. Esta área foi degradada e abandonada muitas vezes pelo agronegócio.

Para Rittl, as áreas já afetadas são suficientes para resolver a questão da expansão da produção agropecuária, sem precisar derrubar mais qualquer árvore.

"São áreas que, se houver um bom manejo de solo, elas podem oferecer espaço suficiente inclusive para a expansão da produção de alimentos, e para outras atividades, por exemplo, o plantio de árvores para fins energéticos, mas hoje infelizmente se avança em áreas de vegetação natural", completa Rittl.

Alta nos alertas

O ano de 2019 já é o pior desde 2016 na comparação da área com alertas de desmatamento na Amazônia registrados pelo sistema Deter-B, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Divulgado publicamente pela plataforma Terra Brasilis na sexta-feira (11), os dados de setembro mostram que, nos primeiros nove meses do ano, a área com alertas chegou a 7.853,91 km². Esse número é quase o dobro da comparação do mesmo período de 2018: o aumento foi de 92,7%.

Considerando todo o ano de 2018, o balanço parcial de 2019 também é maior: o avanço foi de 58,7% – os dados do Inpe mostram que o total da área incluída em alertas entre janeiro e dezembro do ano passado foi de 4.947,40 km².


Fonte: G1










segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Cacá Diegues publica artigo elogiando a política de cultura de Niterói





Do outro lado da Baía

Em proporção a seu orçamento, Niterói já é a 9ª cidade do país que mais investe em cultura. E a primeira do estado

No final do ano passado, Renata Almeida Magalhães, minha esposa e produtora, produziu, em Niterói, o filme “Aumenta que é rock’n’roll”, dirigido pelo jovem realizador Tomás Portella, a partir do livro “A onda maldita”, de Luiz Antonio Mello. O autor do livro foi o fundador da célebre Rádio Fluminense que, a partir de 1982, lançou todas as jovens bandas populares daquele momento e se tornou um sucesso único entre a juventude das cidades próximas, como o Rio de Janeiro. E ainda colaborou com uma renovação cultural e de costumes, para a nova democracia que se anunciava no horizonte.

Voltei portanto a Niterói, para onde, quando era criança, minha mãe me levava com meus irmãos, para tomar banho de mar no Saco de São Francisco. E onde, adolescente aspirante a cineasta, visitei Nelson Pereira dos Santos e sua família, que então moravam na cidade. Redescobri Niterói.

Todo estudioso do assunto sabe que a primeira sessão de cinema na América do Sul, deu-se no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, em 8 de julho de 1896. Mas há controvérsias quanto à primeira imagem filmada no Brasil, a inauguração da produção cinematográfica no país. Minha aposta é em Affonso Segretto que, com seus irmãos Paschoal e Caetano, se tornaria depois o mais importante grupo exibidor de cinema do Rio de Janeiro, a então capital federal.

A imagem que o empresário ítalo-brasileiro registrou do navio em que voltava da Europa foi a da entrada da Baía de Guanabara, com suas águas transparentes protegidas pelos picos do Maciço da Tijuca. E ainda as baleias que ali nasciam, se criavam e vinham mais tarde visitar. Seu projeto talvez fosse registrar a capital. Mas, ocupando inevitavelmente parte do enquadramento, lá estava também Niterói, do outro lado da Baía, com suas praias e prédios serenos.

Mais de um século depois, Niterói confirma essa presença fundadora, tornando-se uma espécie de futura capital brasileira do cinema. Semana passada, estive lá para a inauguração, pelo prefeito Rodrigo Neves, do Auditório Nelson Pereira dos Santos.

Com 490 lugares, a sala é parte de conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer. Ela servirá à exibição de filmes, bem como a concertos, conferências, espetáculos teatrais ou de música popular, como parte de um complexo cultural. Ali, o prefeito Rodrigo Neves anunciou, para o futuro próximo, a criação de um Museu do Cinema Brasileiro. Seria bem oportuno, porque, do jeito que o governo federal o tem tratado, nosso cinema pode mesmo desaparecer em breve.

Quando a cultura se torna um alvo preferencial a ser abatido, com a eliminação de incentivos federais e a tentativa disfarçada de reinstaurar a censura, a prefeitura de Niterói abre os braços generosos para ela. Proporcionalmente a seu orçamento, Niterói já é a nona cidade do país que mais investe em cultura. E a primeira do estado. A atual prefeitura criou incentivos para que empresas locais possam abater do IPTU e do ISS aquilo que investirem na cultura. E qualquer produção brasileira de audiovisual pode também se servir do fomento, quando utilizar a cidade como cenário.

A prefeitura de Niterói também cuida da preparação de profissionais da área, numa cooperação frutuosa com a Faculdade de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), uma das primeiras escolas de cinema do Brasil, fundada pelo mesmo Nelson Pereira dos Santos. Alguns desses profissionais participaram, com louvor, da equipe de “Aumenta que é rock’n’roll”.

Segundo o prefeito Rodrigo Neves, a Secretaria de Cultura do município toca um Museu de Arte Popular; o Teatro Municipal, criado por João Caetano no século XIX; uma companhia de balé, como a do Municipal do Rio; o Arte na Rua, um apoio a artistas de rua; o Teatro Oscar Niemeyer; e o Aprendiz, programa de iniciação musical em escolas públicas. “Investimos no Aprendiz”, diz o prefeito, “porque, como sociólogo e amante da cultura, tenho a convicção de que a criança e o adolescente que têm contato com a arte dificilmente vai, um dia, empunhar uma arma. A cultura é fundamental para a autoestima de Niterói, mas também para a redução das desigualdades e prevenção à violência”.

Como seria bom que o resto do Brasil seguisse esse exemplo de Niterói.

Fonte: O Globo











domingo, 13 de outubro de 2019

Obras no Canto de Itaipu começam esta semana



COMENTÁRIO:

A obra de Urbanização do Canto de Itaipu é mais uma entrega do Programa Região Oceânica Sustentável - PRO Sustentável, financiado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina - CAF e coordenado pela Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão - SEPLAG.

Para saber mais sobre as iniciativas do PRO Sustentável, acesse o site do programa e informações aqui no Blog do Axel Grael.

Axel Grael
Coordenador Geral do PRO Sustentável
Prefeitura de Niterói



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Obras no Canto de Itaipu começam esta semana

Assinatura da Ordem de Início da obra de Urbanização do Canto de Itaipu. Mais uma entrega do Programa Região Oceânica Sustentável - PRO Sustentável.



O Canto da Praia de Itaipu, na Região Oceânica, um dos locais mais visitados de Niterói, passará por uma repaginação urbanística no acesso à praia, com reordenamento do estacionamento e adequação de acessibilidade. O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, visitou a área, neste sábado ( 12), e deu ordem de início para o projeto, que será desenvolvido pela Emusa em parceria com a Secretaria Municipal de Planejamento e Modernização da Gestão (Seplag) e a Cooperação Andina de Fomento (CAF). O investimento será de R$ 2 milhões. As obras terão inicio esta semana, e a previsão é que sejam concluídas em cinco meses.




O projeto contempla uma área de 6.186 m² com a implantação de praça de eventos em frente ao Museu Arqueológico de Itaipu, espaços de estar, deck e rampa de acessibilidade, passeio público e edifícios de apoio à atividade pesqueira com centro de beneficiamento. O empreendimento tem como objetivo aumentar ainda mais o potencial turístico da região e promover a restauração paisagística do local.

“Quando fizemos o planejamento para o túnel, pensamos num conjunto de obras e estamos investindo neste projeto que criamos, o Pro-Sustentável, que engloba infraestrutura, pavimentação e uma série de outras obras em vários bairros”, disse o prefeito. “Com isso, o Canto de Itaipu vai ser muito mais visitado. Vamos manter as características ambientais, evidenciando a natureza e identificando potencialidades produtivas, propondo práticas e estratégias para o desenvolvimento sustentável, que permitam integrar o Canto de Itaipu ao resto da cidade. Todos sairão ganhando com esta obra. Teremos incentivo ao turismo e a pesca artesanal”.

O secretário de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão, Axel Grael observou que, com esta iniciativa, será possível construir salas de reunião, de administração e depósito de pescado, o que vai incentivar e ajudar os habitantes que vivem da pesca artesanal da região .

“Todo o projeto de requalificação urbanística do Canto de Itaipu tem como objetivo agregar, tornando-se uma alternativa de lazer, comércio e desenvolvimento da atividade pesqueira. Todos os espaços foram desenhados para manter a facilidade do acesso e circulação aos usuários que apresentam algum tipo de dificuldade de locomoção. Os espaços buscaram estar integrados entre si. Mais uma vez a prefeitura mostra sua preocupação com o conjunto”, disse Axel Grael.

O projeto privilegia a inclusão social e, para isso, serão construídas passagens com acessibilidade ao banho de mar para as pessoas com dificuldades de locomoção, principalmente, cadeirantes.

Para o novo projeto de paisagismo do Canto de Itaipu, a meta é preservar o maior número de espécies arbóreas existentes, privilegiando as espécies do ecossistema da Mata Atlântica e de restinga condições saudáveis.





Comerciantes e pescadores aprovam a obra

O presidente da Associação dos Comerciantes de Itaipu, Jorge Bellas, o Jorginho, ficou satisfeito com a iniciativa da Prefeitura .

“Itaipu tem uma característica diferenciada. É um recanto que agrega diversas faixas etárias e classes sociais. Um local de convivência que tem ótimas opções de bares e restaurantes, isso sem contar a beleza da paisagem natural. Nada mais justo que o local seja repaginado e ganhe mais estrutura. Isso dará mais conforto para os frequentadores e, com certeza, ajudará muito a fomentar o turismo. Mais uma vez estamos podendo contar com o apoio da prefeitura” observou Jorginho.

A presidente da colônia de pesca de Itaipu, Lidiane Vieira Freitas, disse que a colônia de pesca ganhará um novo impulso.

“Além de valorizar os pescadores artesanais, poderemos com isso ajudar a manter essa cultura tão importante em Itaipu. Vamos ter mais chance de empregos e ainda estaremos colaborando e preservando todo o espaço. É uma iniciativa muito importante e estávamos aguardando muito por isso ”, observou.


Fonte: A Tribuna










NITERÓI CIDADE CAMPEÃ DA VELA: nova lei faz justiça ao pioneirismo e protagonismo da cidade no esporte



Capa de O Globo Niterói deste sábado, 12 de outubro, dando destaque ao reconhecimento de Niterói como  "Cidade Campeã da Vela".


A cidade de Niterói foi reconhecida legalmente como a "Cidade Campeã da Vela" através da Lei Estadual 8.534, de 26 de setembro de 2019, de autoria do deputado Waldeck Carneiro e que foi sancionada pelo governador Wilson Witzel.




A nova lei reflete a importância e o protagonismo de Niterói para o esporte no Brasil, em particular nos esportes náuticos. Aqui foi instalado o primeiro iate clube, aconteceu a primeira regata. Niterói é a cidade com o maior número de medalhas olímpicas na vela e deve ser uma das cidades com a maior frequência de eventos náuticos. Ainda mais se considerarmos outras modalidades de esportes náuticos, como a Canoa Havaiana, em que Niterói é hoje uma referência nacional. Cabe destaque também o esporte do remo, que remonta às origens do esporte moderno no país (o remo deu origem a muitos dos atuais clubes famosos pelo futebol, como o Clube de Regatas do Flamengo, Club de Regatas Vasco da Gama, Botafogo de Futebol e Regatas. Em todos estes clubes e outros país a fora, foram fundados para o esporte do remo). Registros históricos mostram que remadores de Niterói participaram de competições pioneiras no país, ainda no século 19, contra atletas do Rio de Janeiro.

Saiba mais sobre a importância da atividade náutica para Niterói em:
NITEROI SERÁ RECONHECIDA LEGALMENTE COMO A "CIDADE CAMPEÃ DA VELA"

A tradição de Niterói com esportes e barcos inspirou atletas da nossa tribo a alcançar vitórias em escala planetária. Velejadores de Niterói conquistaram títulos mundiais e medalhas olímpicas. Com 9 medalhas olímpicas, oito atletas de Niterói (Torben Grael, Marcelo Ferreira, Lars Grael, Clínio de Freitas, Nelson Falcão, Martine Grael, Ronnie Senfft e Isabel Swan), se Niterói fosse um país, estaria em 74° lugar num imaginário quadro de medalhas de todas as olimpíadas (não existe oficialmente), estaria na frente de países como o Chile, Venezuela, Uruguai, Peru... Cabe ressaltar que esse ranking informal considera dados históricos, contabilizando inclusive países que não existem mais, como a URSS, Alemanha Oriental etc. Outra observação é que o quadro também inclui as medalhas das olimpíadas de inverno.

Na América Latina e no Caribe, Niterói estaria em 9° lugar, só perderia para Cuba, Brasil, Jamaica, Argentina, México, Bahamas, Colômbia e República Dominicana.

Como um orgulhoso torcedor e organizador de torcida pela família, lembro das medalhas olímpicas já conquistadas pelos meus irmãos, Torben e Lars, e a mais recente, conquistada pela minha sobrinha Martine na Rio 2016, somam 8 dentre as nove medalhas, tendo como exceção apenas a medalha conquistada, em Pequim, por Isabel Swan, também velejadora do Rio Yacht Club. A medalha de bronze de Isabel foi a primeira conquistada por uma tripulação feminina brasileira.

Leia também:
FAMÍLIA SCHMIDT-GRAEL SERÁ HOMENAGEADA PELA "BEM AMADO" NO CARNAVAL 2018

Também cabe destaque que Niterói inovou ao promover o Projeto Grael, que de forma pioneira, utilizou barcos para educar e incluir socialmente. Iniciado em 1998, pelos irmãos Grael, com o apoio da Prefeitura de Niterói, a iniciativa influenciou políticas públicas no âmbito nacional e regional e recebeu prêmios e reconhecimentos no Brasil e no exterior. Portanto, o Projeto Grael reforça a percepção nacional e internacional que a cidade de Niterói é um polo irradiador da náutica como uma oportunidade para o desenvolvimento local.

O título de "Cidade Campeã da Vela" dá prosseguimento a uma das prioridades estabelecidas no programa "Niterói que Queremos", que estabeleceu metas para a cidade com o horizonte de 2033, incluindo a vela e a náutica como um dos indutores de desenvolvimento econômico e social, estabelecendo que a atividade deverá ser uma das formas de geração de empregos na cidade.

Com este objetivo, em 2017, participamos do Annapolis Boat Show, onde tivemos um stand de Niterói e desenvolvemos parcerias para atrair investimentos de empresas do setor náutico em Niterói.

Saiba mais sobre a parceria de Niterói com a cidade de Annapolis acessando:
Parcerias entre Niterói e Annapolis nos Estados Unidos
Em 2007, Niterói e Annapolis - Capital da Vela nos EUA - tornaram-se cidades-irmãs.
Parcerias entre Niterói e Annapolis nos Estados Unidos

Niterói seguirá de vento em popa buscando aproveitar todo o seu potencial, vocação, história e conquistas no setor náutico para fazer dos barcos uma oportunidade para o desenvolvimento esportivo, turístico, econômico e social da cidade.

Sigamos avante nesse rumo!

Axel Grael






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Velas ao mar: regata no último fim de semana reuniu 140 barcos na enseada. Foto: Bruno Oliveira / Divulgação


Reconhecimento atrairá investimentos e eventos, aposta Axel Grael

Lívia Neder

NITERÓI - Já reconhecida pelos desportistas e torcedores como terra de iatistas campeões, Niterói agora ostenta o título de Cidade Campeã da Vela. A homenagem em forma de lei foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio ( Alerj ) e sancionada no fim do mês passado pelo governador Wilson Witzel.

Para representantes dos esportes náuticos, o título pode inspirar novos atletas e garantir maior apoio aos que disputam um lugar no pódio, além de atrair investimentos e eventos do setor para o município, como a 47ª Regata a Vela do Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (Ciaga) da Marinha do Brasil, realizada sábado passado, próximo ao Clube Naval de Charitas . A competição reuniu cerca de 400 atletas em 140 barcos.

A lei, de autoria do deputado estadual Waldeck Carneiro , teve a colaboração do secretário municipal de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão (SEPLAG), Axel Grael , um dos fundadores do Projeto Grael. Ontem, o instituto, que capacita jovens para a prática da vela e os prepara para o mercado de trabalho, realizou um evento para ressaltar a importância do novo título aos representantes dos clubes de vela da cidade.

— Apesar de a lei ser simples, dando apenas o título, estimula e traz outros desdobramentos que são importantes para a cidade. Ilha Bela, em São Paulo, por exemplo, criou toda uma identidade em torno da vela. Isso é uma marca, um selo que estamos atribuindo a Niterói. Não existe uma organização que credencie um lugar dessa forma; só é possível através de uma lei como essa — explicou Axel, irmão e tio dos medalhistas olímpicos Torben e Martine Grael.

Convênios e ações

De acordo com a nova lei, o Poder Executivo poderá celebrar convênios e promover ações, programas e eventos que contribuam para a divulgação do título, além de estimular a prática da vela no estado entre estudantes das redes públicas e particular de educação básica.

— Há dois anos participamos de um evento nos Estados Unidos para atrair investimentos para a cidade na área náutica e agora estamos tendo desdobramentos desses contatos. Um das possibilidades é trazer investimentos para a implantação de marinas de vagas secas. Esse título impulsiona ainda mais essa captação — completou o secretário.

Comodoro do Clube Naval de Charitas, Bruno Paim destaca a união dos iates clubes da cidade e acredita que o título reforça a imagem que Niterói tem em tradição na vela.

— Niterói é um lugar ímpar pelas suas condições geográficas, o que exige muito do velejador. E eles acabaram se diferenciando devido aos ventos desafiadores da nossa enseada — avalia Paim. — Em abril do ano que vem, vamos realizar pela primeira vez o evento Vela Show, e quando saiu esse título de Cidade da Vela, os organizadores destacaram que foi uma constatação do potencial da cidade.


Fonte: O Globo Niterói









terça-feira, 8 de outubro de 2019

Vozes pela Amazônia: “O Brasil está numa posição de ouro”, diz economista



Platais: “Precisamos saber mercadejar os serviços ambientais da floresta" (Arquivo Pessoal/Divulgação)


Segundo Gunars Platais, ex-economista ambiental do Banco Mundial, país deve "negociar" benefícios da biodiversidade e dos serviços ambientais da floresta


São Paulo – Durante mais de duas décadas em missões como economista ambiental sênior do Banco Mundial, o mineiro Gunars Platais rodou o mundo mostrando aos governos nacionais que as florestas valem mais de pé do que tombadas. Esta não é uma tarefa fácil.

“Precisamos falar na língua da tomada de decisão, que é uma língua econômico-financeira, e para isso precisamos trabalhar para transformar ciência em números capazes de demonstrar que descuidar do meio tem um custo alto”, defende.

Gunars falou ao site EXAME por telefone da Universidade do Colorado, onde atualmente pesquisa sobre mecanismos financeiros inovadores de conservação ambiental. O economista ambiental e membro da Rede de Especialistas de Conservação da Natureza (RECN) contou como é possível explorar economicamente o potencial da floresta, sem desrespeitar os povos tradicionais e o meio ambiente. Confira na íntegra abaixo:

EXAME: O governo brasileiro se declara um defensor do desenvolvimento econômico da Amazônia. Segundo o presidente Jair Bolsonaro, a região é a mais rica do planeta e pode se tornar a “alma econômica” para o crescimento do Brasil. Parte da estratégia passa pela extração de matéria prima e produção primária. A exploração de recurso natural é o caminho para um país alcançar o desenvolvimento sustentável?

Platais: Olha, isso é uma coisa tão triste de ouvir. Essa visão é daquele desenvolvimento dos anos 1970, nós já tentamos isso. Não funciona. Aonde isso vai nos levar? Vamos transformar a Amazônia num pasto gigante cheio de barragens? A concentração de florestas ali tem um impacto sobre o sistema climático planetário, como tem sido demonstrado há anos pelos cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, como o ecólogo Philip Fearnside [leia a entrevista com Fearnside aqui]. Temos maneiras tão mais razoáveis de usufruir do potencial da floresta.

A biodiversidade é ouro, uma coisa que o resto do mundo não tem. Do ponto de vista econômico, falando de forma bem grosseira, quando você tem um produto escasso, o valor aumenta. Para isso, precisamos de estadistas, pessoas de visão, que encaminhem o Brasil para o futuro por meio de políticas que coloquem o país num ponto em que possamos negociar todos os benefícios da biodiversidade e dos serviços ambientais da Amazônia. E isso não tem acontecido. Nós exploramos tão pouco o potencial da biodiversidade para gerar novos produtos e farmacologia. Nossa sorte é que temos o Inpa, que vem trabalhando paulatinamente mesmo com os cortes e abalos sofridos, e continua a fazer um trabalho de grande valor, reconhecido mundialmente.

A Amazônia tem um futuro, mas não é esse futuro desenvolvimentista, no qual se entra com tratores e correntes para botar tudo abaixo para exploração predatória. E aí, quando acabar a floresta, o que sobra? Vamos chorar as perdas que tivemos e as riquezas que poderíamos ter tido.

EXAME: Como é possível forjar um modelo de economia que respeite a floresta e as populações locais?

Platais: É uma questão de olharmos para a economia da biodiversidade, a chamada bioeconomia, e enxergarmos o valor da nossa biodiversidade que é fantástica, muito maior do que uma pedaço de madeira ou uma pepita de ouro. Em outras palavras, a soma das partes é maior do que partes individuais. Nossa floresta tem valor que vai além disso tudo. Agora, temos um trabalho importante de convencer e demonstrar esse valor.

Claro que todos os povos da Amazônia têm direito igualmente aos benefícios da cultura moderna, mas o governo pode garantir isso sem destruir essa maravilha que temos. Como se faz isso? Trabalhando primeiro com a valorização dessa biodiversidade e os recursos naturais. Há ainda alguns pontos conflituosos quanto à sustentabilidade da extração de produtos, que pode acabar sendo sobrepujada pela lógica econômica financeira tradicional a despeito do meio ambiente. Felizmente, existem esforços para entender melhor essa relação, de que maneira é possível explorar a bioeconomia.

Outro exemplo é a farmacologia, que tem um potencial significativo, e o turismo ecológico, um ramo que tem crescido significativamente mundo a fora. Outra atitude para minimizar impactos ambientais é ter um bom planejamento de uso da terra. Para isso, o Brasil precisa escutar seus cientistas. Nós sabemos que a devastação de florestas para práticas econômicas insustentáveis intensificarão a crise climática. Já preservá-la e reflorestá-la ajuda a frear esse processo.

Assim, temos que colocar nossas florestas na bandeja e dizer ao mundo ‘olha, isso aqui tem um valor significativo para vocês, cada quilômetro quadrado destruído impacta no aquecimento global’. Nós temos a Amazônia fornecendo um serviço mundial e então precisamos saber como mercadejar isso.

Internamente, o ecossistema amazônico em si é de imensa importância e significância para os padrões meteorológicos regionais. A floresta tem uma contribuição para as chuvas que chegam no Cerrado e abastecem a economia da região, muito baseada em plantação de soja e criação de gado. Daí a importância de trazer o agronegócio para esse processo de valorização do serviço ambiental. Vejo que o setor está atento a isso, mas muito em função da pressão internacional, já que o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo e os países europeus se preocupam com a origem da carne.

EXAME: O sr. trabalhou muitos anos no Banco Mundial, que possui regras de compliance e orientações para incentivar ou obrigar empresas e fundos internacionais a obedecer a uma lógica global de respeito ao meio ambiente. Tudo indica que Brasil está quebrando essa lógica. Há riscos de se fazer isso?

Platais: Absolutamente. A partir do instante em que o consumidor chega e diz que não quer e não compra, acabou. Agora, como do ponto de vista da produção vamos poder certificar que o produto físico ou aquele quilo de carne vem de uma área que não foi desmatada, ou ao contrário, como o consumidor europeu vai poder identificar isso? Esse é um ponto importante que o Brasil tem olhar com cuidado para poder convencer o consumidor consciente de que o produto não vem de área desmatada.

Além disso, existe uma quantidade grande de fundos de pensão, como os escandinavos, com mais de um trilhão de dólares disponíveis para investimentos que sejam verdes. Há empresas de seguro e de resseguro que também buscam isso. Em toda minha carreira trabalhando com mecanismos de conservação ambiental, estamos buscando maneiras de demonstrar que tais investimentos são realmente verdes e sustentáveis. São pouquíssimos os projetos que conseguimos fazer isso. O Brasil com toda nossa criatividade, poderia fazer coisas maravilhosas nesse sentido, o que aumentaria ainda mais o investimento estrangeiro direto no país. Se pudermos demonstrar para esses fundos que temos projetos que atendem às preocupações quanto à sustentabilidade.

EXAME: Em julho, Alemanha e Noruega suspenderam os repasses de recurso para o Fundo Amazônia, maior mecanismo de cooperação internacional focado em floresta tropical e também um importante instrumento de preservação no Brasil. Na ocasião, o governo desdenhou das doações. O sr. considera esse tipo de atitude razoável?

Platais: Estamos falando em um valor de cerca de 280 milhões de dólares, não é um montante desprezível. Esse repasse beneficia ao menos 100 projetos de preservação ligados ao governo estadual, à sociedade civil e à programas de órgãos federais, como Ibama. Mas é um valor que o Brasil por si só teria capacidade de gerar e dedicar à Amazônia. Acontece que os recursos que são repassados para o Ministério de Ciência e Tecnologia e para o Ministério do Meio Ambiente, estão cada vez menores, principalmente sob o governo atual.

Então, qualquer recurso que tenhamos à disposição é muito importante, como é o caso dessas doações estrangeiras. No atual ambiente político do Brasil, não acredito que esse valor sairá de outro lugar. Então, é um montante absolutamente importante. E a significância que isso tem para conhecer melhor o bioma amazônico, as relações das comunidades locais com sua floresta, a possibilidade de trazer esses produtos da biodiversidade para o mercado, tudo isso são coisas apoiadas por esses projetos e fundamentais para evitar que a Amazônia vire pasto.

EXAME: Recentemente, um relatório da consultoria Fitch Solutions Macro Research sugeriu que no futuro a carne vermelha pode ser alvo de impostos mais altos devido às críticas ao papel do setor agropecuário na mudança climática e no desmatamento. Tributar a carne seria uma solução?

Platais: Isso me fez pensar na ideia do certificado de origem. Então, a gente estabelece um processo com certificado de origem geográfica fixa. Uma vez que uma área é certificada como sendo de não desmatamento, então você teria a possibilidade de isentar aquela carne de uma tributação ou aumentar as taxas cobradas em regiões que não tem certificação. Você coloca a etiqueta no produto discriminando a origem, e o consumidor pode decidir sobre comprar ou não. No final das contas, o consumidor é o rei. No sistema de mercado, é ele que manda. Se conseguimos chegar nesse consumidor e convencê-lo de que se trata de um produto de qualidade que não afetou o meio ambiente, é por aí que temos que caminhar.

EXAME: Há mais de 12 anos o Congresso discute o projeto de lei de regulamentação de pagamentos por serviços ambientais (PSA). Um dos principais obstáculos é a falta de dinheiro. Como é possível destravar isso?

Platais: Pagamento por serviço ambiental funciona basicamente assim: você dá incentivo financeiro para quem ajuda na conservação e manutenção dos serviços ambientais.

Você precisa ter alguém que está fornecendo um serviço e alguém que quer pagar por ele. Por exemplo, no estado do Espírito Santo tem um programa estadual de pagamento por serviço ambiental chamado Projeto Reflorestar, que é bastante exitoso. O Reflorestar trabalha com a ideia de diminuir a quantidade de pastagem degradada, que causa sedimentação no rio e carrega sedimentos até Vitória ao ponto de captura de água da Cesan [Companhia Espírito Santense de Saneamento]. Ao receber uma água cada vez mais túrbida, a Cesan precisa então aumentar a capacidade de filtragem da suas plantas de tratamento de água, já que as chuvas carregam mais lodo e sedimentos.

O pagamento por serviço ambiental faz todo sentido para a empresa, cujas plantas de tratamento estão rio abaixo. Então, a Cesan paga aqueles agricultores rio acima para que cuidem daquela pastagem de tal maneira que reduza a produção de sedimentos, afinal quanto menos sedimento chega na planta de tratamento, mais barato é para a concessionária tratar essa água que será servida aos capixabas. Ou seja, a Cesan em vez de estar pagando para aumentar sua capacidade de filtragem, através de plantas maiores, eles simplesmente alocam recurso para um esquema como o Reflorestar e fazem com que o agricultor, que é voluntário no programa, seja um parceiro na manutenção da qualidade da água. É uma relação de ganha-ganha. A concessionária gasta menos pagando o agricultor, e tem um resultado melhor, e o agricultor no final das contas tem um rendimento maior, e além disso tem o benefício de que as áreas reflorestadas aumentam a biodiversidade que acaba gerando uma produtividade maior, dado que gado ganha um pasto melhor e com mais sombra.

Ou seja, o dinheiro para destravar programas assim deveria vir a partir de um cálculo para medir justamente esse tipo de ganho pelo pagamento de serviços ambientais. Tipicamente, estamos falando de projetos locais, estaduais. A nível de Brasil, nacional, é complicado, porque cada região tem sua particularidade. Mas na ponta de lápis, é questão de sentar e analisar caso a caso, estabelecer bem as regras.

EXAME: É possível estabelecer um programa nacional de PSA?

Platais: Veja só, o México tem um programa de pagamento por serviços ambientais da floresta com abrangência nacional em curso há mais de 15 anos, que gira de 200 a 400 milhões de dólares ao ano. A China também está fazendo isso agora, com o maior pagamento por serviço ambiental do mundo. Obviamente, é um regime diferente com um governo central determinado a fazer isso, mas o Brasil também tem capacidade de fazer isso, só sentar e calcular os números, é uma questão de vontade mesmo. Também é preciso participação local, anuência da população envolvida no esquema. Você pode ver o exemplo do município de Extrema, em Minas Gerais, é impressionante o trabalho realizado com apoio da população. No Brasil, como temos essa mania de fazer tudo federal, tudo grande, às vezes demora para sair do papel um programa de PSA. Deveria ser uma lei marco, e pronto, se não nos perdemos em detalhes difíceis de serem resolvidos dada a infinidade de situações que você teria em diferentes contextos no país.

EXAME: Como angariar recurso financeiro para programas de PSA nesse momento de corte de gastos públicos que o País atravessa? Buscar dinheiro no setor privado e no mercado é um caminho possível? Ou um modelo de financiamento misto, com recursos públicos e privados?

Platais: Olha, temos financiamentos entrando para programas de PSA que vem de todos os lados. Lembro do programa na Costa Rica, onde fui gerente, tinha fonte que vinha de várias entidades privadas, como a companhia de cerveja local que repassava valores para a entidade que gerenciava PSA no local para garantir que a água tivesse um certo nível de qualidade, tinham hotéis que pagavam pela manutenção daquela beleza cênica, tinha a companhia de luz [que era do governo] contribuindo. As fontes podem ser diversas e dependem de quem está se beneficiando pelo serviço ambiental.

EXAME: O mercado internacional tem apresentado apetite por títulos verdes, ou green bonds, que são instrumentos de dívida emitidos por entidades em que os recursos captados são usados para financiar projetos e ativos sustentáveis. Como o Brasil pode surfar essa onda?

Platais: Há alguns anos, o Banco Mundial lançou os “forests bonds”, voltados ao financiamento de manejo sustentável em florestas tropicais. Foram 500 milhões de dólares lançados na bolsa de Londres e foi um sucesso. Isso indica o apetite que o mercado tem por esse tipo de oferta. A questão é demonstrar que o produto é realmente verde. Se o agronegócio entrar nessa onda, por exemplo, seria possível pensar em criar um bond da soja sustentável. Tem várias ONGs grandes, como a TNC, que está olhando isso com cuidado para ver como desenvolver os green bonds na floresta. Tem vários bancos e conglomerados atentos a esse movimento, pois o mercado demonstrou que tem interesse em investimentos verdes e sustentáveis. Seria muito sábio por parte do agronegócio e do próprio setor ambiental brasileiro aproveitar melhor esse instrumento. Tem muito dinheiro lá fora buscando projetos e não existem projetos suficientes.

Também temos que explorar os mecanismos da tecnologia a favor do meio ambiente. Hoje, temos uma geração de jovens empreendedores, com startups e projetos baseados em celular, fazendo tantas coisas atrativas. Imagina essa rede voltada para despertar a consciência das pessoas para a questão ambiental? Imagina que coisa mais linda se o brasileiro, que hoje não tem ideia da importância da sua biodiversidade, tivesse um orgulho dessa riqueza e passasse a valorizá-la mais. Essa valorização faz os bolsos se abrirem, as pessoas passam a apoiar porque acreditam naquilo.

Eu sou parte do laboratório de sustentabilidade e inovação, e justamente o que buscamos é como alcançar inovação para caminharmos para uma sustentabilidade real.

Precisamos ligar os pontos, conectar o consumidor ao financiador e à realidade local e fazer com que projetos fluam. Juntar quem oferece e quem demanda, e garantir institucionalidade, que é fundamental para se ter governança e transparência. As pessoas tem que saber que o dinheiro está vindo na direção certa. No México, que já citei anteriormente, nos primeiros projetos de PSAs, situados em comunidades ao redor de florestas, o dinheiro estava entrando no bolso de alguns líderes. Então, a gente modificou a institucionalidade e agora o dinheiro entra para a comunidade através de uma comissão, que decide sobre a distribuição do recurso. Temos que experimentar, ir em frente e fazer ajustes onde for necessário. Isso serve para os PSAs Brasil, não pode ficar tão amarrado com tanta regra, o negócio é simplificar.

EXAME: Pensando nos povos indígenas, que estão sob o holofote do governo, há um discurso sobre levar desenvolvimento para os povos da floresta. Que instrumentos existem para garantir a sobrevivência dessas populações, respeitando sua cultura, território e a biodiversidade que protegem?

Platais: O primeiro passo é respeitar a identidades desses povos, sua cultura, respeitar o direito que eles têm da terra, cumprir a legislação e não permitir que a grilagem avance sobre as terras indígenas. Tem que respeitar e ouvir. Eu trabalhei num projeto de saúde no México baseado na implementação de clínicas de saúde nas comunidades indígenas. Construíram clínicas modernas, tudo lindo, branco, claro, com cerâmica e tudo mais. Os grupos indígenas entraram só uma vez e saíram correndo. Afina era tudo branco, e branco para eles significa morte. Houve uma falta imensa de comunicação com aqueles povos. Redesenharam o projeto e agora adaptaram o espaço para melhor receber os indígenas, respeitando suas crenças e culturas. As maternidades têm espaço para as mulheres terem seus bebês de cócoras, tem espaço para receber a família inteira da grávida, não é uma coisa isolada.

Você tem que ouvir as populações para que as soluções apropriadas sejam tomadas dentro da mística e visão do povo. Isso retoma à questão do planejamento do uso da terra. Terras indígenas são terras indígenas. Já está marcada pela lei. Não sei como podem inventar de invadir terra indígena para abrir garimpo. Não vamos conseguir avançar se não for por um caminho sustentável. Nós precisamos encontrar esse meio da rua de tal maneira que possamos fazer isso sem devastar mais.

EXAME: Qual o desafio para estreitar a distancia entre o conhecimento gerado pelos cientistas e economistas ambientais como o sr., e mesa de decisão dos governantes?

Platais: Nós como ambientalistas e pessoas que defendem a ecologia e biodiversidade não temos feito um bom trabalho de realmente falar na língua da tomada de decisão, que é uma língua econômico-financeira. Precisamos trabalhar para transformar a ciência do ambiente em números, que possam demonstrar que descuidar do meio tem um custo significativo. Precisamos transmitir essas informações de forma que as pessoas possam se identificar e se mobilizar para fazer algo a respeito.

O Brasil agora em setembro teve a reunião bianual de economia ecológica, a Ecoeco, e a cada ano tem mais pessoas apresentando trabalhos e um público crescente. Isso indica o aumento do conhecimento e capacidade que temos de reconhecer o valor que tem o ambiente e a biodiversidade para a sociedade brasileira. Nós brasileiros lideramos esforços dessa natureza e precisamos avançar. A dificuldade é a seguinte e vou te dar um exemplo prático. Quando eu vou em missão onde trabalho com governos para implementar algum projeto ambiental, no final das contas nós tipicamente temos uma reunião com o ministro do meio ambiente, mas as reuniões mais importantes sempre são com o ministro de finanças, que é quem toma a decisão.

O ministro do ambiente é quem recebe o recurso do governo. Numa reunião de gabinete, com vários ministros, o do ambiente diz que precisa de 20 milhões de dólares para abrir uma reserva onde ocorre uma espécie endêmica que sem proteção pode ser extinta, chega o ministro da saúde e diz: me dá 20 milhões e eu vou salvar crianças de não terem eventos diarreicos evitando que tenham problemas de desenvolvimento cerebral no futuro. Quem ganha? O ministro da saúde. De um ponto de vista humanístico, faz todo sentido. Agora, se o ministro do meio ambiente diz assim: olha, eu preciso desse dinheiro porque vou proteger as bacias hidrográficas rio a cima e dessa forma vou garantir que a água que chega às cidades tenha uma tal qualidade que evitará a diarreia na população. Claramente, ele levará a melhor.

Nós como ambientalistas não temos sido tão exitosos em transformar nossa linguagem ambiental numa linguagem de tomada de decisão. No caso que contei, o ministro da saúde quer evitar que crianças bebam água contaminada, e o ministro do MMA está provendo uma solução para esse problema. Cada vez mais é possível demonstrar que a conservação da biodiversidade, das nossas florestas, realmente trazem benefícios para nossa sociedade. Mas precisamos botar isso na ponta do lápis e demonstrar pra sociedade esses benefícios. Transformar isso em coisas tangíveis para as pessoas e os tomadores de decisão. No final das contas, a linguagem de tomada de decisão é a linguagem econômico-financeira. E temos que conversar dessa forma. Eventualmente, chegaremos a um ponto daqui a cem, duzentos anos, em que as gerações vão dizer “meu deus do céu que brutos que não conservaram a biodiversidade”. Felizmente, ainda não estamos nesse ponto, mas em momento de evitar isso.

EXAME: O que todo brasileiro deveria saber sobre a Amazônia?

Platais: Como nossa conversa seguiu um viés econômico, eu diria que existe um potencial econômico gigantesco para o país. Além de toda beleza única da sua biodiversidade, a floresta amazônica tem um valor absurdo, mas só quando ela está de pé. Então, devemos cuidar desse tesouro que temos, e explorar de forma sustentável, com respeito ao meio ambiente, às comunidades locais e povos indígenas e que respeite o Brasil.

EXAME: O sr. pensa no futuro com otimismo ou pessimismo?

Platais: Para podermos continuar no planeta com os recursos que temos, precisamos buscar maneiras de ser menos agressivos no Planeta. Não tenho a menor dúvida de que nós somos uma espécie entre milhares de espécies e que a mãe natureza sabe o que faz. Quando alguma espécie está fora do eixo, ela dá um jeito. Essa lógica desperta meu lado pessimista quanto ao futuro da humanidade.

Mas o meu lado otimista vem da criatividade, da inteligência, da maneira pela qual buscamos soluções. Um dos nossos fortes é a capacidade de desenvolver empatia e amor. E acredito que isso pode nos levar pelo bom caminho. Mas às vezes só um desastre batendo na porta nos faz despertar. E o que o cientistas do IPCC estão falando há algum tempo é que o desastre está batendo na porta.

Outras duas coisas fundamentais em tudo isso é ter educação e saúde, essenciais para o desenvolvimento social. Temos que investir nessas frentes no Brasil. Ter um povo sano e educado não tem quem para. Volto a dizer: precisamos de estadista. Pessoas que tenham visão e capacidade de olhar para o futuro, pensar em quais mudanças precisam ser feitas agora para chegar lá, ter capacidade de negociação, de convencimento para enfiar no barco e realmente trilhar esse caminho.

Não vejo isso hoje. Atualmente, os ciclos políticos são curtos, com governantes de interesses particulares, e isso no mundo todo. Veja esse aumento do populismo em vários países. E isso está muito ligado à educação, ou falta dela. No Brasil, as pessoas votam porque são obrigadas a votar. Aqui nos EUA, não há obrigatoriedade e pouca gente vota. As pessoas tinham que ver a votação como uma responsabilidade civil e participar ativamente da sua comunidade. É importante que cada cidadão assuma esse papel. E com isso, enxergar a importância e significância que o meio ambiente tem para a sua boa vivência e das próximas gerações.

O Brasil está numa posição de ouro. Tem que agarrar essa posição, abraçar essa oportunidade e não deixá-la passar, aproveitá-la para impulsar o Brasil para a frente. É um país verde, que vai para frente abraçando essa identidade

Além disso temos um povo criativo, inteligente, precisamos de sair desse “descanso” e caminhar para frente. E a questão ambiental é a ponta de lança disso tudo. Nesse mundo em que estamos vivendo, o Brasil tem muita a oferecer e muito a ganhar com isso.
Fonte: Revista Exame 





domingo, 6 de outubro de 2019

PROTEÇÃO ANIMAL: Niterói agendou mais 660 castrações de animais domésticos



A grande presença de interessados no agendamento de castração de animais domésticos. 

Com o vereador Leandro Portugal (PV), incentivador da CEDA e combativo defensor das prioridades para a política de proteção animal, e o biólogo Marcelo Pereira da Costa, coordenador de Proteção Animal da Prefeitura de Niterói.

Técnicos da CCPAD/CEDA e voluntários atendendo a população para a formalização dos agendamentos.

Nova edição da Cartilha de Proteção Animal.


Na sexta-feira, 04 outubro - Dia Mundial dos Animais (!!!), a Prefeitura de Niterói promoveu mais um dia de agendamento para castração de animais domésticos. A iniciativa é do Centro De Controle Populacional De Animais Domésticos - CCPAD, localizado na Travessa Luiz de Matos, 118, Fonseca, Niterói-RJ. O CCPAD é gerenciado pela Coordenadoria de Defesa Animal - CEDA, hoje é subordinado à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade - SMARHS.

Eu participei da criação do CCPAD e da construção da sua sede, que passou a ficar vinculado à Secretaria Executiva da Prefeitura, quando eu era o secretário (janeiro 2017 a abril de 2019). 

Cabe destaque ao trabalho realizado pelo biólogo Marcelo Pereira da Costa e sua equipe, na estruturação e criação das rotinas que hoje oferecem serviços de castração que é muito procurado por responsáveis por animais domésticos em Niterói.


Assista ao vídeo clicando aqui.

Castrações

As castrações são realizadas por profissionais de medicina veterinária, atendendo os padrões éticos e os protocolos técnicos para esta atividade.

É importante destacar que a política de castração é importante para evitar o crescimento da população de animais de rua, que os expõe a riscos, a fome, a maus-tratos e a doenças. Por isso, a castração é considerada uma medida de proteção animal.
 
Inscrição 

No evento, foram oferecidos 660 vagas de castração e mais de 1000 pessoas estiveram na quadra esportiva do Horto do Fonseca para o agendamento das castrações.Também foi feito o lançamento da nova cartilha educacional de Proteção Animal. 

O CCPAD tem oferecido agendamentos para castração em média a cada três meses. O próximo evento deverá ser no início de 2020. 

Legislação específica

A Política Municipal de Proteção Animal de Niterói tem sido considerada uma referência nacional e a CEDA tem sido convidada para expor a experiência da cidade em vários fóruns técnicos. Além do CCPAD, a pioneira LEI MUNICIPAL DE PROTEÇÃO E BEM ESTAR DE ANIMAIS DOMÉSTICOS (Lei Nº 3153 de 21 de julho de 2015), que introduziu várias novas diretrizes e conceitos jurídicos inovadores.

A legislação estabelece normas para proteção animal contra condutas lesivas à sua integridade física e mental, e tem como objetivos promover a melhoria da qualidade do meio ambiente, garantindo condições de saúde, segurança e bem-estar público; assegurar e promover a prevenção, a redução e a eliminação da morbidade e da mortalidade decorrentes de zoonoses e dos agravos causados pelos animais; e assegurar e promover a participação, o acesso à informação e a conscientização da sociedade nas atividades envolvendo animais e que possam redundar em comprometimento da saúde pública e do meio ambiente.

Os animais passaram a ser um sujeito de direitos e não só tratado como produto de venda. A lei permitirá autuar, multar o abandono e maus tratos aos animais, regulamentar os pet shops, definição dos deveres dos proprietários, regulamentação da exposição dos animais domésticos em pets, bem como critérios para as clínicas veterinárias.

Castramóvel

Um próximo passo na estruturação da política de proteção animal é a aquisição de um castramóvel, um veículo equipado para manter uma estratégia itinerante de atendimento às demandas de castração e de controle de colônias de animais.

Com o castramóvel, o CCPAD aumentará em quase 50% sua capacidade de castração. Portugal estima que, uma vez em funcionamento, a capacidade de animais castrados por mês passará de 300 para 500.

Axel Grael
Secretário
Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão - SEPLAG
Prefeitura de Niterói



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Torben Grael e Marcelo Ferreira: triunfo em Atlanta, glória em Atenas



Torben Grael e Marcelo Ferreira são recebidos em Niterói com a medalha de ouro em Atlanta (1996), mediante uma grande festa e reconhecimentos público. No alto do carro de bombeiros, já estava a nova geração dos Grael: Marco e Martine.


Campeões em 1996, nos Estados Unidos, e em 2004, na Grécia, velejadores viajam no tempo para relembrar as conquistas que fizeram com que os dois ganhassem lugar em um dos grupos mais seletos do país: o dos bicampeões olímpicos

A última regata da classe Star dos Jogos olímpicos de 1996, disputada em 29 de julho, em Savannah – cidade a 400 quilômetros de Atlanta e que sediava as provas de vela daquela Olimpíada –, já estava em curso havia quase meia hora quando o carioca Marcelo Ferreira, ao contornar a primeira boia do percurso, notou uma placa de sinalização que mudaria totalmente a sua vida e a de seu parceiro, o paulista Torben Grael, ambos a bordo do barco Vida Bandida.

O que a placa mostrava era que a embarcação dos australianos Colin Beashel e David Giles havia queimado a largada e que por isso a dupla rival tinha sido desclassificada. Ao perceber isso, foi impossível para Marcelo e Torben não serem tomados por uma sensação de júbilo. Afinal, com aquela informação, os dois – antes mesmo de cruzarem a linha de chegada, longe dos olhos do público e sem qualquer festa ou aplausos – tinham se tornado campeões olímpicos.


Marcelo Ferreira e Torben Grael, com as medalhas de ouro das Olimpíadas de Atlanta 1996: Sonho realizado em Savannah. Foto: Jorge Peter/Agência O Globo

“Não caiu a ficha na hora não”, lembra Marcelo. “Esse troço só quem passa é que entende como funciona. Essa é a realidade. Até quando a gente cruzou a linha, a gente estava comemorando, mas é uma sensação tão indescritível que você não realiza. Você está lá no meio do oceano. É diferente de quando você está dentro de uma arena fechada ou em uma pista de atletismo, com o público em volta. Não tinha nem spectator boat (barco que é usado para levar o público para acompanhar a regata de perto). Foi diferente de outros eventos. É o ouro que ninguém viu, vamos dizer assim”, resume Marcelo.

As lembranças daquela tarde, passados 20 anos, também seguem frescas na memória de Torben. “Na realidade, a gente começou a fazer uma marcação forte nele (Colin Beashel ) na largada dessa última regata, porque a gente queria ficar sempre junto dele. Como a gente tinha vantagem e ele tinha que ganhar, ele, pressionado, acabou queimando a largada”, recorda o velejador. “A gente já vinha na frente do Colin e quando chegamos lá perto da boia, quando o Marcelo viu a placa, realmente foi aquela comemoração. A gente estava bem ciente de que tinha dado certo”, prossegue Torben.

A medalha de ouro nos Jogos de Atlanta 1996 representou uma espécie de redenção para Torben e Marcelo em relação à experiência que a dupla vivera nas Olimpíadas de Barcelona, 1992. Na Espanha, eles competiram juntos pela primeira vez nos Jogos e terminaram na 11ª posição.

Para Torben, em especial, o significado da conquista em Savannah ia além. Quando desembarcou na Geórgia para os Jogos de 1996, ele já tinha no currículo dois pódios olímpicos. A primeira medalha, de prata, foi arrebatada em Los Angeles 1984, na classe Soling (ao lado de Daniel Adler e Ronaldo Senfft). Quatro anos depois, em 1988, em Seul, veio o bronze na classe Star, ao lado de Nelson Falcão.

Assim, aos 36 anos – seis a mais do que Marcelo –, o experiente Torben Grael finalmente havia chegado ao sonhado título olímpico. “Foi uma sensação maravilhosa, aquela sensação de dever cumprindo, de você ter chegado ao topo da pirâmide. Realmente foi uma curtição o restante da regata”, descreve Torben.

Campanha favorável

Ao contrário da campanha de Barcelona, quando os dois terminaram a primeira regata dos Jogos Olímpicos de 1992 em nono lugar, em Savannah os ventos sopraram a favor desde o início. A estreia nos Jogos de 1996 se deu em 22 de julho e a dupla começou vencendo a primeira regata. No dia seguinte, quando foram disputadas duas provas, eles conquistaram um sexto e um segundo lugares. Em 24 de julho, Torben e Marcelo terminaram em sétimo, mas se recuperaram um dia depois, quando cruzaram a linha de chegada em primeiro. No dia 26, quando novamente duas disputas, e os brasileiros chegaram em quarto e em nono. Depois disso, um segundo lugar no dia 27 e um sexto no dia 28 deixaram os dois em posição confortável para a última prova, no dia 29.


Grael e Ferreira em ação: sintonia do time assegurou dois ouros e um bronze em Jogos Olímpicos à dupla. Fotos: Marcelo Ferreira/arquivo pessoal

“Atlanta foi um lugar bom para a gente porque as condições eram parecidas com o que a gente estava acostumado no Rio de Janeiro”, lembra Torben. “Era vento térmico, calor, umidade, sem vento de manhã, vento só à tarde, com aqueles temporais de verão de final de tarde... Enfim, era uma série de coisas com as quais a gente ficou super à vontade. Muita gente ficou achando ruim aquelas condições, mas para nós era como a gente velejava sempre, então nos adaptamos bem lá”, continua.

“A gente também foi fazer o evento-teste, fomos treinar duas vezes antes dos Jogos, e isso tudo ajudou muito. A gente conhecia bem o lugar. Estávamos com um barco que desenvolvemos para competir lá. Testamos bastante os equipamentos antes e isso tudo ajudou. Nós estávamos rápidos para a competição. Desenvolvemos um cockpit bem fechado para correr lá e em Savannah tinha bastante onda. Então o barco drenava mais rápido, ficava com menos água dentro, e isso ajudou. Mas a realidade foi que a gente velejou super bem”, prossegue Torben. Ele ressalta ainda que, além de ele e Marcelo terem ido bem em Savannah, outro fator contribuiu para a conquista do ouro em 1996.

“Nós disputamos muito com o Colin desde o começo a ponteira da competição. A gente alternava bastante os resultados com ele, mas quando ele ia bem a gente nunca ia mal. E quando a gente ia bem, às vezes ele dava uma escorregadinha. Aí, quando foi chegando o fim do campeonato, o que aconteceu foi que como a gente conseguiu abrir uma distanciazinha de pontos e no final ele tinha que ganhar a regata para ficar com o ouro”, detalha.

Superstição e camisa furada

Nas lembranças de Torben Grael, talvez por ser mais experiente, talvez por ter se sentido tranquilo por tudo o que haviam feito nas nove regatas anteriores, a noite do dia 28 de julho, véspera da decisão da classe Star nos Jogos de 1996, não foi angustiante.

“Nós não ficamos muito nervosos porque a gente vinha dos Jogos em Barcelona, onde nós tivemos um péssimo resultado, e (em Savannah) nós já estávamos matematicamente com a medalha de prata garantida. A gente já estava com aquela sensação de que já tinha conquistado um excelente resultado”, afirma.

Para Marcelo Ferreira, entretanto, aquela noite foi tudo menos calma. “Passava pela minha cabeça que a gente poderia ser campeão olímpico, sim. Mas não foi muito fácil tentar dormir nessa noite não. Na verdade, eu até saí como tio do Torben, o Erik, nosso técnico, para tomar uma cervejinha com ele. Porque não adiantava ficar deitado fritando na cama, né? Eu dormi mal na noite anterior à competição. É aquela situação de estar indo para a última prova sabendo que tem chances reais (de conquistar o ouro)”, recorda Marcelo.

Em seguida, Marcelo narra como foram as horas antes do início da regata que renderia a ele e a Torben a consagração nos Jogos de Atlanta:


Marcelo Ferreira, com a blusa furada abaixo da axila direita: superstição o fez usar a mesma camisa em todas as regatas dos Jogos de Atlanta 1996. Foto: Ivo Gonzalez/Agência O Globo

“A regata era tipo uma hora da tarde. Você acorda como sempre naquele horário do café da manhã, umas 8 horas, para depois sair no ônibus e ir para o canal onde a gente pegava o ferry para ir para a marina”, conta. E cabe aqui uma observação em relação ao local de competição da vela em Savannah: ao contrário de muitas regatas onde o público em terra ainda consegue ver os barcos, mesmo que à distância, a marina olímpica de 1996 era flutuante, ficava a mais de uma hora de distância de barco mar adentro, muito longe dos olhares de qualquer torcedor.

“Aí chega lá e tem aquele velho ritual, porque a gente não muda nada, a superstição impera”, prossegue Marcelo. “Nem roupa a gente trocava. A camisa, se você olhar uma foto que eu tenho que saiu no jornal, tem um buraco embaixo da axila que continua até hoje. Foi uma camisa que eu usei durante todo o evento. A minha roupa de velejar, que era de feltro, foi feita aqui na confecção da minha esposa por uma costureira. Todos esses detalhes foram ficando mais fortes durante todos os dias do evento. Você não troca nada. Eu acho que isso é com todo mundo. E o Torben é pior do que eu. Ele não vai falar, mas é bem pior. Aquele cara com superstição é brincadeira...”, entrega.

O resto é história. Torben e Marcelo trataram de colocar em prática a estratégia de pressionar o australiano Colin Beashel e seu parceiro desde o início e a pressão surtiu o efeito desejado.

“Não estava nada ganho, mas a coisa estava muito na mão para a gente. E a tática de pressioná-lo na largada acabou funcionando”, lembra Torben. “Acho que foram três largadas. As duas primeiras foram invalidadas por muitos barcos partindo fora da linha. Mas nessas duas a gente saiu bem melhor do que ele, pressionando. Nessa terceira, ele viu que se continuasse daquele jeito não ia ter chances de ganhar a regata e acabou acelerando cedo. Ele saiu melhor do que nas outras duas, mas acabou queimando a largada. Mesmo assim a gente saiu bem também. Chegamos à bóia de contravento à frente dele. E foi lá na bóia de contravento que a gente viu pela primeira vez a placa com a sinalização da Austrália como barco escapado. Aí o resto da regata foi uma curtição só, porque a gente já sabia que tinha conquistado aquele sonho grande”, detalha Torben.

Enfim a celebração em terra

O que se seguiu ao fim da regata naquele 29 de julho de 1996, na qual Torben e Marcelo terminaram em terceiro lugar, foi uma sequência de eventos que marcaram profundamente os dois.

A comemoração para valer só se deu em solo firme em Savannah. Mas, antes, ainda houve tempo para uma breve celebração em alto mar. “Demorou mais de uma hora e meia até voltar para a terra. Já atendemos a imprensa lá no próprio flutuante e já teve a famosa champanhe lá mesmo no flutuante”, conta Marcelo.

“Quando chegamos, todo mundo estava dando os parabéns”, lembra Torben. “Obviamente, a gente tem sempre que chegar em terra e ver o resultado, ver se não tem nenhum protesto, aquela coisa toda de regata. A gente sabia que tinha feito uma regata bem limpa, que o Colin tinha queimado e que ele automaticamente precisava ganhar a regata e então estava bem decidida a coisa”, continua.

O premiação da classe Star dos Jogos Olímpicos de Atlanta só foi realizada no dia seguinte. E até a hora de subir ao pódio Torben e Marcelo comemoram em grande estilo. “Foi um barato porque tinha um bar/restaurante que a gente ia, chamado Spunks. A gente ia para tomar uma cervejinha e dar aquela relaxada e o dono do bar estava lá ensandecido e gritando (após saber que os brasileiros eram campeões olímpicos) e foi muito legal nesse aspecto. Era um lugar pequeno e foi bacana porque tudo acontecia naquela beirada de rio, naquelas arquibancadas para fazer a premiação. Foi um momento único, né? Eu nem lembro que horas a gente voltou pra casa. Nós fomos lá para esse tal de Spunks, botamos o cartão de crédito e fomos embora (celebrar)...”, conta Marcelo.

“Nesse aspecto foi melhor do que Atenas, pois em Atenas me pegaram para o antidoping e tive que fazer o teste de urina e de sangue. Mas aí o pessoal do sangue não estava lá e eu só podia fazer no dia seguinte. E aí o pessoal do COB não me deixou comemorar, porque eu tinha que fazer o antidoping no dia seguinte. Aí eu fiquei chupando dedo. Mas em Atlanta comemoramos com uma cervejinha, né?”, emenda Torben Grael, já se referindo ao que viveu na Grécia, oito anos depois da conquista em Savannah.


Torben, Marcelo e familiares desfilam em carro aberto no Rio de Janeiro no retorno das Olimpíadas de Atlanta 1996: reconhecimento do público não se converteu em apoio para o ciclo seguinte. Foto: Jorge Peter Agência O Globo


Emoção no pódio

No dia 30 de julho de 1996, Torben Grael e Marcelo Ferreira receberam a terceira medalha olímpica de ouro do Brasil na vela, repetindo os feitos que Lars Bjorkstrom e Alex Welter, na classe Tornado; e que Marcos Soares e Eduardo Penido, na classe 470, haviam protagonizado nos Jogos Olímpicos de Moscou 1980.

“Para quem faz qualquer esporte olímpico, você ir para os Jogos é uma coisa fantástica, é uma coisa que poucas pessoas têm a oportunidade. Você ir bem, fazer medalha, é uma coisa que menos pessoas no mundo conseguem, pouquíssimas pessoas conseguem. Você já foi mais longe. E quando você ganha a medalha de ouro realmente a satisfação é enorme. Você ir ao pódio, ver sua bandeira subindo, ouvir o Hino Nacional tocando... É uma sensação muito difícil de descrever, mas é maravilhosa. Mas eu não me lembro de ter chorado”, diz Torben Grael.

“Passa um filme, né? Primeiro porque a gente foi para essa Olimpíada com aquele gosto amargo de Barcelona, que foi o maior aprendizado que eu tive dentro do esporte”, ressalta Marcelo. Para ele, apesar de toda a emoção vivida no pódio nos Estados Unidos, foi somente no retorno ao Brasil que ambos finalmente perceberam a dimensão do que eles haviam conquistado em Savannah.

“A verdade é que demora muito até você realizar o que foi feito. Quando cheguei ao aeroporto (no Rio de Janeiro) foi que eu achei que uma coisa fenomenal. Tinha uma galera no aeroporto. Era uma coisa que a gente da vela nunca tinha visto. A gente nunca teve contato com o publico e com essas coisas. Ali eu falei: ‘Pô, a coisa foi grande mesmo’. Porque a gente fora do Brasil não sabia exatamente o que estava se passando aqui. Aí, quando eu vi o carro de bombeiro esperando e nós viemos lá do Rio até aqui (em Niterói) em cima do carro de bombeiro, isso foi um troço que me marcou muito”, lembra Marcelo.

Perda do patrocínio e ganho na America’s Cup

Em geral, uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos costuma ser um divisor de águas na carreira de qualquer atleta. As portas, após uma conquista dessa magnitude, tendem a se abrir e o caminho a partir dali normalmente é mais tranqüilo em termos de apoio para a preparação visando ao ciclo olímpico seguinte. Mas, para a surpresa de Marcelo Ferreira e de Torben Grael, não foi isso que aconteceu depois que toda a celebração em torno do triunfo nos Jogos de Atlanta 1996 se foi.

“Como atleta, depois que passou essa festa pela medalha, foi uma frustração muito grande e isso eu não posso deixar de falar”, desabafa Marcelo Ferreira. “O que aconteceu, por incrível que pareça, foi que quando acabou a Olimpíada a gente perdeu o patrocínio. O ano de 1997 foi um terror em termos de apoio ao esporte e de incentivo, seja da Confederação, do Comitê Olímpico, de tudo. O nosso prêmio por ter tirado a medalha de ouro foi um ano seguinte muito ruim em termos de apoio. Eu acabei que em 1997 corri o Campeonato Mundial de Star com um alemão nos Estados Unidos e fui campeão mundial com ele”, prossegue.


Torben, com os companheiros da Equipe Prada, da Itália. Foto: Getty Images

Já para Torben Grael, em particular, se a conquista do ouro em 1996 não rendeu apoio em seu país, ela serviu para lhe abrir as portas para uma nova fase de sua carreira. “Em termos de Brasil, você se tornar campeão olímpico é um degrau a mais, mas não houve grandes mudanças. Eu acho que uma mudança grande foi que essa vitória em Atlanta foi logo antes da Prada decidir fazer a America's Cup”, conta o velejador, referindo-se à mais prestigiada competição de vela do iatismo mundial e que detém a honra de ser o troféu mais antigo em disputa no planeta entre todas as modalidades do esporte. A primeira taça foi disputada em 1851, 45 anos antes da primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos, realizada em Atenas, em 1896.

“A pessoa que foi convidada para ser o comandante da equipe Prada foi o De Angelis (o italiano Francesco de Angelis), que foi com quem eu comecei a correr de Oceano na Itália. Obviamente, como a gente tinha uma parceria muito forte, quando o chamaram, me chamaram também, inclusive pelo resultado de Atlanta com a medalha de ouro. Então acho que a conquista da medalha de ouro foi um diferencial grande”, prossegue Torben.

Os compromissos de Torben Grael com a America’s Cup e seu envolvimento com a equipe Prada renderam, anos depois, um patrocínio para ele e Marcelo na preparação da dupla na classe Star visando aos Jogos de Sydney 2000.

“Nós fizemos uma excelente campanha na America’s Cup. Ganhamos a Louis Vuitton Cup, que é uma coisa muito importante, e aí fizemos a final. Acabamos perdendo a final para o defensor, o neozelandês (o barco que derrotou a equipe de Torben era comandado pelo lendário velejador Peter Blake)”.


Torben Grael (à esquerda) e o italiano Francesco de Angelis comemoram a conquista da Regata Louis Vuitton em 2000: campeão olímpico teve sucesso também na vela oceânica. Foto: Getty Images

“Ficamos na luta para retomar a nossa campanha para Sydney, procurando apoio, até que veio a Prada, que chegou em 1998. E aí ficamos com a Prada e a Petrobras. Mas a Prada foi graças ao Torben, que estava velejando na equipe”, destaca Marcelo. “Aí mudou o panorama financeiro para a gente para poder fazer tudo com calma. Só que aí a gente tinha mais recurso para fazer as coisas e menos tempo para a Star, porque tinha o envolvimento do Torben com a America’s Cup. Realmente tínhamos pouquíssimo tempo para treinar como dupla. A gente fez um ano de 1998 horroroso, com vontade de desistir, porque os resultados não vinham. A gente praticamente não tinha treinamento. A gente se encontrava e falava: ‘E aí? Qual é o campeonato?’ E ia lá para o campeonato e corria”, prossegue Marcelo.

“Então foi um ano terrível, desanimador, e em 1999 também não foi muito diferente. Em 1998, para ser sincero, que foi o ano do acidente do Lars, a gente até teve um Mundial fantástico na Eslovênia. A gente acabou o Mundial em segundo, o que valeu a classificação para Sydney (Jogos Olímpicos de 2000) para o país. Acabamos ganhando a eliminatória no Brasil também e fomos para Sydney com um barco novo e diferente. Para nossa surpresa, quando nós chegamos a Sydney nós acabamos conseguindo nos dedicar aos treinos e a gente estava voando baixo”, continua Marcelo.

Sydney 2000: o ouro caiu na água

Os Jogos Olímpicos de 2000, para o Brasil, ficará para sempre marcado como as Olimpíadas do “quase”. Várias de nossas estrelas consideradas favoritas sofreram reveses na hora H e, com isso, a delegação retornou para casa sem nenhuma medalha de ouro na bagagem pela primeira vez desde os Jogos de Montreal 1976.

Com Torben Grael e Marcelo Ferreira não foi diferente. Apesar de eles não terem feito uma preparação considerada ideal, a dupla por muito pouco não conquistou a segunda medalha dourada da parceria.

“A gente estava complemente fora de ritmo e de tempo para os Jogos e fizemos vários erros que a gente normalmente não teria feito se estivéssemos mais bem treinados”, lembra Torben Grael. “Mas ainda assim nós fomos para a última regata liderando, mas não demos muita sorte. A gente estava cinco pontos à frente do Mark Reynolds (norte-americano) e do barco dos ingleses. A gente acabou botando o americano fora da linha e ficamos com o lado bom da raia, só que nesse processo a gente acabou queimando a largada também e não conseguiu se dar conta disso. Normalmente, só do americano ter ido para o lado ruim da raia, a gente já teria ganho dele. Mas acabou que naquela regata em particular vagou o outro lado e então saiu tudo errado. A gente queimou e ele acabou ganhando a regata”, prossegue Torben. Torben e Marcelo acabaram no pódio, mas para receber a medalha de bronze, algo que eles não esperavam. “Nunca seria tão fácil (conquistar o ouro)”, resume Marcelo. “Mas só que mesmo com a largada escapada, e isso eu tenho que falar porque é a verdade, a gente velejou tão mal essa última regata que mesmo assim a gente não ganharia pela matemática. A gente cruzou a linha. Ninguém retirou a gente da regata. Nós cruzamos a linha e só depois soubemos que a gente tinha escapado. Mas com esse resultado de qualquer jeito a gente ficaria com o bronze, que era o pior que a gente poderia fazer no último dia. Antes de largar a gente já tinha o bronze. A gente fez o pior que a gente podia fazer”, reconhece.


No pódio dos Jogos Olímpicos de Sydney 2000: o ouro que quase se veio e que se transformou em bronze determinou a continuação da dupla para as Olimpíadas de Atenas 2004. Foto: Getty Images


“Sydney ficou entalado na gente. Primeiro, ficou entalado porque quando eu cheguei em terra, me lembro como se fosse hoje, teve algum cara lá de imprensa, um brasileiro, que fez uma pergunta tão ridícula que eu dei um coice. Eu falei: ‘Ô babaca, filma lá a festa do norueguês que tirou terceiro no Soling’. Os caras estavam comemorando pra caramba o bronze”. Nós fomos lá, lideramos a Olimpíada quase toda, tiramos um bronze e aí o cara vem dizer que foi um fracasso. É brincadeira isso!. O brasileiro tem essa mania. Se não for o primeiro não serve. Só que no Brasil eu falo o seguinte: ‘Só em ser atleta o cara já é campeão, porque só a gente sabe das dificuldades’’, continua Marcelo.

Seja como for, o bronze em Sydney, por mais que não tenha sido o que os dois esperavam diante das circunstâncias do último dia de prova na Oceania, foi determinante para algo incrível que viria quatro anos depois. E hoje, ao olhar para trás, Marcelo consegue curtir em paz tudo o que ele e Torben viveram nos Jogos de 2000.

“A Olimpíada de Sydney, como Olimpíada, para mim foi maravilhosa. Era uma baía linda, um transporte maravilhoso, tudo funcionando, muito aprazível, um negócio muito bacana de você estar ali velejando naquele evento. Velejar naquela baía foi fantástico para a gente. Nós ganhamos duas regatas em um dia, e o resultado, para gente, estava acima das expectativas para as Olimpíadas. Foi o que o Torben falou: ‘Essa (medalha de ouro) bateu no convés e caiu na água’. Barcelona não existiu, deu tudo errado, então tudo bem. Ali não... A gente não contava que fosse chegar lá e arrebentar. Mas quando a gente viu que estava andando muito, que estava tudo bonito, ali realmente a medalha bateu no convés e caiu na água. E aí a gente fez um combinado de que teríamos que fazer mais uma campanha. Ali a gente já combinou. Aquela foi a que culminou em Atenas”, prossegue Marcelo.

Um lugar no Olimpo

No ciclo para os Jogos de Atenas 2004, Torben Grael mais uma vez se viu diante do desafio da America’s Cup. Mas, dessa vez, as coisas saíram diferente do caminho percorrido para os Jogos de Sydney.

“Novamente eu fiz America’s Cup. A diferença é que a Copa (a decisão do título) foi em 2003. Então, como a gente não foi para a final em 2003, a minha participação acabou no final de 2002. E a Olimpíada foi em 2004. Então deu bastante tempo para a gente se preparar bem para os Jogos. Se por um lado a America’s Cup, com a Prada, teve esse impacto, dificultando os treinamentos para a gente, por outro lado eles foram nossos grandes patrocinadores, tanto para Sydney quanto para Atenas, possibilitando fazer uma preparação, principalmente para Atenas, da melhor forma possível. Então são os dois lados da moeda”, pondera Torben.

Vieram os Jogos na Grécia. E no dia 26 de agosto de 2004, após um quarto lugar na décima e penúltima regata da classe Star das Olimpíadas de Atenas, Torben Grael e Marcelo Ferreira conquistaram, por antecipação, a segunda medalha de ouro olímpica de suas vidas.


Torben Grael e Marcelo Ferreira, com as medalhas de ouro dos Jogos de Atenas 2004: passaporte carimbado para o clube dos bicampeões olímpicos do Brasil. Foto: Getty Images

A campanha dourada teve início no dia 21 de agosto, com um quinto lugar e um quarto lugares. No dia seguinte, vieram duas vitórias, que foram seguidas por um segundo lugar no dia 23. Um dia depois, a dupla cruzou a linha de chegada em quinto e voltou a ficar em segundo no dia 25, quando ainda disputou outra prova e terminou em sétimo. Então, no dia 26, após um 11º lugar, veio o histórico quarto lugar na segunda regata, o que selou a conquista do ouro. Eles nem precisaram velejar a 11ª e última prova das Olimpíadas.

“Para Atenas a gente não queria saber de Campeonato Mundial, de Campeonato Europeu, nada disso... A gente queria trabalhar para desenvolver só para Atenas. E esse foi um grande trabalho mesmo. A gente contou com a ajuda do Alan Adler (experiente velejador brasileiro que disputou as Olimpíadas de 1984, em Los Angeles; de 1988, em Seul; e de 1992, em Barcelona), junto com o Roni (Ronald Seifert), que foi proeiro do Pascolato, que é um cara muito bacana. O Alan e o Roni foram com a gente para a Itália, para o Lago de Como, testamos vela, testamos mastro, e fizemos um trabalho de excelência junto com uma tripulação espanhola, que tinha o Roberto Bermudez (velejador espanhol), que fez a volta ao mundo com a gente no Brasil 1 (nome do barco em que Torben, Marcelo, Bermudez e outros sete tripulantes competiram na edição 2005/2006 da Volvo Ocean Race) depois”, recorda Marcelo.

“A gente ficou rápido demais em vento fraco, ficamos rápidos em vento forte, tivemos um barco novo, e nós levamos dois barcos para a Olimpíada de Atenas. O Alan estava lá velejando com a gente de sparring. E o desgraçado era o mais rápido da Olimpíada. O nosso sparring era o cara!”, diz Marcelo às gargalhadas. “Foi muito divertido porque logo no segundo dia de treino a nossa equipe foi protestada para tirar o barco do Alan do evento. Tivemos que tirar o barco de dentro da marina, porque só podia ficar um barco, e acabou que quando a gente ficava do lado dos caras e a gente estava muito rápido. Estava dando tudo certo. Realmente Atenas para a gente foi tudo perfeito. Não tinha uma coisa que você podia falar que não estava funcionando para a gente”, prossegue o bicampeão, que ainda hoje se diverte com uma história que ele presenciou logo no início da competição.

“No primeiro dia de regata da Olimpíada, saímos da água e a gente estava em segundo no geral, se não me engano, ou terceiro, e o americano Paul Cayard estava liderando a Olimpíada. Mas o cara sempre foi meio metidão, né? Nós saímos da marina e a gente descobriu um posto de gasolina que tinha bem pertinho da marina e que tinha uma cervejinha Heineken, aquela pra relaxar depois de um dia longo, e aí nós fomos para lá para tomar uma cervejinha. Aí estava o Alexandre Haddad (jornalista da ESPN) lá fumando o charuto dele e passou o americano vendo a gente tomando uma cervejinha. O cara olhou pra gente e nem cumprimentou, com uma cara de desprezo danada. A brasileirada estava toda nesse posto de gasolina e começou a zuar. E o Alexandre me pega aquele charuto e me enterra o charuto, fazendo lá as mandingas dele. Depois desse dia o cara (Paul Cayard) sumiu da Olimpíada”, recorda Marcelo.


Torben e a felicidade de ter a honra de carregar a bandeira brasileira na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Atenas: momento inesquecível seria coroado com o ouro na classe Star. Foto: Getty Images


No clube dos bicampeões

Em 26 de agosto de 2004, Torben Grael e Marcelo Ferreira entraram para um dos grupos mais seletos que o Brasil possui: o dos bicampeões olímpicos, uma façanha que apenas 12 atletas até hoje conseguiram no país.

Um dia antes, no dia 25, Robert Scheidt havia conquistado sua segunda medalha de ouro nos Jogos Olímpicos na classe Laser e, com isso, tinha se juntado a Adhemar Ferreira da Silva, até então o único bicampeão olímpico do Brasil. Agora, com os feitos de Torben e Marcelo, eram quatro bicampeões. E em Atenas os jogadores de vôlei Maurício e Giovane ampliariam esse número para seis. Esses são, até hoje, os únicos homens com duas medalhas douradas olímpicas no currículo. Seis mulheres, todas do vôlei, completam o clube dos bicampeões olímpicos do Brasil: Paula Pequeno, Sheilla, Jaqueline, Fabiana Oliveira (Fabi), Fabiana Claudino e Thaisa.

“Em Atenas foi muito especial. Primeiro porque é um lugar com muito simbolismo. É o berço do olimpismo moderno e tem aquela coisa toda... A gente teve, eu e Marcelo, a oportunidade de levar a tocha de Atenas, porque a tocha passou aqui no Rio de Janeiro antes. E depois eu levei bandeira no desfile de abertura e acabamos conseguindo o bicampeonato. Então foi uma Olimpíada muito marcante. Até Atenas só tinha o Adhemar (bicampeão olímpico). Isso foi uma coisa muito bacana, porque o Adhemar era aquele farol, aquela luz para a gente, dizendo que era possível. Então foi fantástico a gente conseguir chegar lá. E teve uma coisa curiosa em Atenas. As casas lá não tinham número na Vila. E a gente ficou em uma casa que o nome era Centauros. E dessa casa vieram quatro medalhas de ouro. Foram nós, o Robert Scheidt, o vôlei de quadra e o vôlei de praia (com Emanuel e Ricardo). Todo mundo ficou lá. Era um lugar especial”, conta Torben.

Marcelo Ferreira vai na mesma linha: “Você encerrar seu ciclo olímpico em Atenas, onde tudo começou, eu não precisava mais de nada. Para mim foi a melhor Olimpíada da minha vida. Foi o meu melhor resultado, foi a que mais me tocou, foi a que eu mais curti. Se você me perguntar de Savannah (Jogos de Atlanta 1996), Savannah foi fantástica. Mas Atenas para mim é o ápice, é a glória, não tem mais o que falar. A gente passeou naquilo tudo antes da regata eu e o Torben. Fomos visitar aqueles monumentos... Foi uma harmonia com Atenas”, emenda Marcelo. A tocha dos Jogos de 2004 até hoje decora a sala do velejador, junto com outros troféus, como mais uma lembrança especial de sua carreira.


Em Atenas, o ouro veio com uma regata de antecedência: Tudo a favor no berço dos Jogos Olímpicos. Fotos: Getty Images


Os Jogos no quintal de casa

A entrevista que serviu de base para essa matéria estava perto de terminar quando Marcelo Ferreira respondeu o que é ser um bicampeão olímpico.

“É aquela história da realização. Você dedica uma vida a um trabalho, que é o meu caso e o do Torben, que passamos a vida toda dentro de um esporte. Em todo o esporte o sofrimento é o mesmo. É sair de casa, tem as viagens, tem aquela coisa de abdicar das festas familiares e eu sou um cara muito família e então isso tudo soma no final. Você se dedicar tanto e conseguir algo assim é uma coisa muito forte. Ser campeão olímpico é ter seu trabalho reconhecido, sua recompensa, é chegar ao topo em um evento de uma magnitude que você não consegue mensurar. É o que todo atleta procura. A maioria procura ir para uma Olimpíada. Então você imagina eu, que tive a oportunidade e a chance e a alegria de poder ter ganho duas e ainda ter tido um bronze. É muito difícil descrever em palavras o que é você ser um bicampeão olímpico”, diz Marcelo.

A Torben Grael foi feita a mesma pergunta. E após refletir por vários segundos, ele encontrou uma explicação que vai além das medalhas.

“Cara, acho que primeiro é um orgulho enorme. A gente que optou por dedicar a vida da gente ao esporte, conseguir chegar aonde nós chegamos eu acho que é fantástico. Eu tenho uma amizade enorme com todos os meus tripulantes e ex-tripulantes e isso também é muito bacana, porque não foi só uma coisa do momento. Foi uma coisa muito além do treinamento, da participação, da competição. Eu tenho uma amizade enorme com todos eles e é difícil expressar o que isso significa. Acho que significa tudo pra gente”.


Torben e Marcelo: Alegria por acompanhar os Jogos Olímpicos do Brasil em casa e torcida para que a competição seja um sucesso. Foto: Getty Images

A partir do dia 5 de agosto, Torben Grael e Marcelo Ferreira viverão mais uma emoção ligada aos Jogos Olímpicos. Ambos moradores de Niterói, eles poderão acompanhar os Jogos no quintal de suas casas, algo impensável para qualquer um deles quando ambos, na Grécia, tornaram-se bicampeões olímpicos, em 2004.

Para Marcelo, a crise pela qual passa o país torna ainda mais importante que as Olimpíadas no Brasil sejam bem-sucedidas. “Eu acho fantástico uma Olimpíada no Brasil, mas só que temos tudo isso aí que todos estão acompanhando (na política e na economia). Eu espero de coração que essa Olimpíada seja um grande sucesso e que dê tudo certo. Porque a nossa realidade está muito ruim”, pondera.

“Eu acho que é uma oportunidade fantástica para quem está tendo o privilégio de poder disputar os Jogos Olímpicos em casa”, ressalta Torben. “E é muito bacana eu ter ambos os filhos entre essas pessoas que vão ter esse privilégio”, continua, referindo-se a Martina Grael (que competirá na classe 49erFX, ao lado de Kahena Kunze) e a Marco Grael (que velejará na clase 49er, ao lado de Gabriel Borges).

“A gente ainda tem bastante coisa para fazer para estar tudo pronto para os Jogos, mas eu espero que no final vai dar tudo certo. A gente atravessa momentos difíceis na política e na economia e eu espero que isso também se aprume deixando uma boa mensagem para o futuro. Então, acho que os Jogos vão chegar em um momento legal para o Brasil para botar o esporte mais em evidência, para o país ver coisas boas. Vai ser um período muito bacana da vida da gente”, encerra o velejador.

Luiz Roberto Magalhães – brasil2016.gov.br