sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Diretora da COP do Brasil acusa Estados Unidos de frear políticas climáticas de outros países

 

COP30 - Ana Toni, Diretora Executiva da COP30 — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Ana Toni afirma que o uso de tarifas e pressões comerciais pelos EUA trava metas de descarbonização em outros países

Com sua estratégia comercial, os Estados Unidos “influenciaram muito negativamente” as políticas climáticas de outros países, afirma Ana Toni, que foi diretora-executiva da COP30 no Brasil e promove para o encontro deste ano um “mapa de caminho” sobre o abandono dos combustíveis fósseis.

Em conversa com a AFP a poucas semanas da cúpula do clima organizada pela ONU em Antália (9 a 20 de novembro), Ana Toni criticou a “falta de solidariedade” das nações mais ricas com os países em desenvolvimento, que cobram recursos econômicos para se adaptar à mudança climática.

E criticou os Estados Unidos, que por decisão de seu presidente Donald Trump se retiraram em 2025 do Acordo de Paris, e com sua política tarifárias e pressões vêm condicionando, segundo ela, o cumprimento da agenda climática de outros países.

— Direta e indiretamente, os Estados Unidos influenciaram muito negativamente a capacidade de outros países de avançar na sua implementação [de medidas para combater o aquecimento global] — disse Ana Toni, diretora executiva da COP30 realizada no ano passado em Belém.

Nessa engrenagem influi a rivalidade entre Estados Unidos e China, explicou a brasileira.

Os países “são mais reticentes na hora de importar produtos chineses de baixo carbono, por medo de represálias dos Estados Unidos” ou porque “os Estados Unidos pressionaram esses países para que comprem produtos com maior pegada de carbono” e de fabricação norte-americana.

— Isso logicamente atrasa a capacidade desses países de aplicar metas mais ambiciosas de descarbonização — estimou.

Transição voluntária

Ana Toni destacou que a crise no estreito de Ormuz, que se traduziu em escassez de combustível na Ásia e altas generalizadas nos preços da energia, demonstra que a dependência do petróleo pode ser “muito prejudicial para o equilíbrio geral” do mundo.

— É a prova de que fazer a transição para além dos combustíveis fósseis não é apenas para combater a mudança climática, mas também uma questão de soberania, e serve igualmente para resolver um problema econômico e garantir segurança energética — explicou à AFP.

Após um acordo histórico em 2023 em Dubai no qual se anunciou o “princípio do fim” dos combustíveis fósseis, a questão ficou fora do encontro de Belém dois anos mais tarde, por pressão dos países produtores.

A presidência brasileira não desanimou e se comprometeu a promover um “mapa de caminho” global de saída progressiva e voluntária do petróleo, do carvão e do gás.

Toni teve um papel-chave nesse documento que será apresentado no início de novembro, dias antes da reunião em Antália, onde a Austrália, grande exportadora de carvão, ficará encarregada de pilotar as negociações.

A responsável detalhou que esse documento não fará recomendações país por país, nem proporá metas quantificadas ou cronogramas, mas as formulará de maneira geral, segundo o nível de dependência de cada nação em relação aos combustíveis fósseis.

— Todos os países podem avançar para diminuir sua exposição [ao petróleo, ao gás e ao carvão] e caminhar por essa transição, mesmo que partam de lugares muito diferentes — apontou.

Consenso sobre a eletrificação

Toni considerou “positiva” a iniciativa turca de promover voluntariamente a eletrificação de diversos setores econômicos (transporte, construção, indústria) para reduzir emissões.

Algumas organizações socioambientais alertam que o incremento proposto pela Turquia — 35% de eletricidade no consumo energético global daqui até 2035 — deve vir de fontes renováveis.

A responsável brasileira respondeu que a eletrificação de combustíveis fósseis “melhora a eficiência do uso desse combustível”, e asseverou que há um “consenso de que a eletrificação, por si só, já é importante”.

Em contrapartida, lamentou que os países mais ricos não estejam dispostos a aumentar suas contribuições financeiras, apesar do choque causado pelo colapso fatal de uma geleira no Nepal, que os climatologistas vinculam ao aquecimento global.

— A gente se pergunta o que mais precisa acontecer para que essas imagens vistas no Nepal sensibilizem a população dos países ricos — disse.

O Brasil decidirá em 25 de outubro no segundo turno entre o presidente esquerdista cessante, Luiz Inácio Lula da Silva, e o direitista Flávio Bolsonaro, o mais votado no primeiro turno.

Em caso de mudança, Toni pede para não retornar à política de Jair Bolsonaro de desmatamento massivo e para manter a tendência do último ano, no qual a Amazônia brasileira registrou o menor nível de desmatamento da última década.

Segundo ela, essa política não foi apenas boa para o meio ambiente, mas também “fundamental para as relações comerciais e diplomáticas do Brasil”.

— O próprio agronegócio brasileiro deveria lutar para que isso se mantenha — arrematou.

Fonte: O Globo





ONU alerta para ‘janela cada vez menor’ para recuperar florestas no mundo

Flagra de garimpo ilegal na zona de amortecimento do Parque Nacional do Rio Novo, Pará; área está próxima a uma das localizações com PLG analisada pelo relatório — Foto: Laís Modelli / Greenpeace

Relatório da FAO aponta que 489 milhões de hectares de florestas foram desmatados desde 1990 e que apenas um quinto das áreas previstas para restauração está, de fato, sendo recuperado.

Há uma janela de oportunidade cada vez menor para recuperar as florestas do planeta — e o mundo ainda está longe de cumprir os compromissos assumidos para isso. O alerta está no relatório State of the World’s Forests, divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que defende que a restauração de florestas e paisagens degradadas seja tratada pelos governos como uma prioridade nacional.

Desde 1990, mais de 489 milhões de hectares de florestas foram desmatados em todo o mundo. Uma área ainda maior sofreu algum grau de degradação. Nas últimas duas décadas, iniciativas nacionais, regionais e globais estabeleceram a meta de colocar mais de 1 bilhão de hectares sob processos de restauração. Segundo a FAO, porém, apenas cerca de um quinto dessa área está efetivamente sendo recuperado.

O relatório reconhece avanços na proteção de florestas e no plantio de árvores em diferentes partes do mundo, mas considera que o ritmo das ações não acompanha os compromissos assumidos nem a dimensão crescente das necessidades. Para a organização, a combinação entre perda de cobertura florestal e degradação dos ecossistemas aumenta os riscos ambientais, sociais e econômicos.

As florestas ocupam cerca de 4,14 bilhões de hectares, aproximadamente um terço da superfície terrestre. Elas armazenam cerca de 714 gigatoneladas de carbono e abrigam até 80% da biodiversidade terrestre do planeta. Também participam da regulação das chuvas e têm papel na segurança alimentar e na geração de renda: quase um terço da população mundial depende das florestas para sua subsistência.

A pressão sobre esses ecossistemas, no entanto, vem de diferentes frentes. Todos os anos, cerca de 127 milhões de hectares de florestas são afetados por incêndios. Insetos, doenças e eventos climáticos extremos também provocam danos, que se somam à expansão da agricultura, à crise climática, à poluição e à exploração de combustíveis fósseis e outros recursos naturais.

A degradação também cria um problema econômico. Segundo o relatório, a recuperação de 1 bilhão de hectares de florestas e outros ecossistemas degradados poderia gerar cerca de US$ 1,8 trilhão em benefícios por ano. A restauração, portanto, é apresentada pela FAO não apenas como uma estratégia ambiental, mas como uma forma de fortalecer sistemas de produção de alimentos e o desenvolvimento de comunidades rurais.

“É mais do que uma prioridade ambiental — é um investimento estratégico em sistemas agroalimentares resilientes e no desenvolvimento rural”, afirmou Qu Dongyu, diretor-geral da FAO.

Para a organização, o atraso nas iniciativas de recuperação tende a elevar os custos no longo prazo e pode aprofundar desigualdades. O risco é que áreas já degradadas sejam mantidas em trajetórias consideradas insustentáveis, enquanto a demanda mundial por produtos e serviços ligados ao uso da terra continua crescendo.

O diagnóstico da ONU chega em um momento em que a restauração florestal ganhou espaço entre as estratégias de enfrentamento da crise climática. Plantar árvores, porém, não é suficiente para reverter a degradação, segundo o próprio relatório: o desafio envolve recuperar paisagens inteiras e garantir condições para que os ecossistemas permaneçam funcionais no longo prazo.

Fonte: O Globo



terça-feira, 6 de outubro de 2026

Europa Ocidental teve verão mais quente da história, com calor extremo, seca e incêndios

Uma mulher com um leque perto da Torre Eiffel durante onda de calor em Paris, em 20 de junho de 2026. — Foto: REUTERS/Sarah Meyssonnier

Segundo o observatório europeu Copernicus, 52% do continente enfrentou níveis muito fortes de estresse térmico. Rios tiveram os menores fluxos de água em mais de 30 anos.

Por Roberto Peixoto, g1

A Europa Ocidental registrou em 2026 o verão mais quente de sua história, em uma temporada marcada por ondas de calor persistentes, seca, incêndios florestais e níveis excepcionalmente baixos nos principais rios do continente, mostram dados do observatório europeu Copernicus.

Considerando toda a Europa, este foi o terceiro verão mais quente já registrado.

As altas temperaturas começaram mais cedo que o normal em algumas áreas, com uma grande onda de calor atingindo o oeste europeu ainda no fim de maio, e permaneceram ao longo dos meses seguintes.

Na Europa Ocidental, a temperatura média entre junho e agosto chegou a 21,7°C, 2,5°C acima da média de 1991 a 2020. O resultado superou o recorde anterior, registrado em 2003.

O calor também se espalhou por uma área maior e persistiu por mais tempo. Ao longo de 2026, foram registrados 17 dias em que pelo menos 60% da Europa Ocidental teve temperaturas acima de 30°C. Em 2003, haviam sido 11 dias, e, em 2025, sete.

Além das temperaturas do ar, o levantamento mostra que o calor provocou forte impacto sobre o corpo humano.

Até o fim do verão, 52% da Europa havia enfrentado pelo menos condições classificadas como "muito fortes" de estresse térmico, associadas a temperaturas percebidas de 38°C ou mais.

ENTENDA: O estresse térmico mede como condições de calor, umidade, vento e radiação afetam o corpo humano. Em níveis elevados, aumenta o risco de problemas como desidratação e insolação.

Entenda o que é o fenômeno El Niño

Na Europa Ocidental, foram registrados em média 41 dias de estresse térmico forte, um recorde para a região e cinco dias a mais que em 2003.

Os episódios classificados como muito fortes chegaram a 13 dias, também o maior número já registrado.

"A Europa enfrentou um verão de extremos climáticos combinados em 2026", afirmou Samantha Burgess, líder de Estratégia Climática do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), responsável pelo serviço climático do Copernicus.

Segundo ela, o calor recorde ocorreu ao mesmo tempo que condições secas generalizadas, níveis excepcionalmente baixos nos rios e mares muito quentes, com consequências para a disponibilidade de água, produção de energia, transportes, ecossistemas e saúde humana.



Rios tiveram menor fluxo em mais de 30 anos

A seca prolongada também deixou marcas nos rios europeus. De acordo com o Copernicus, o continente teve em 2026 o verão com os menores fluxos de água desde o início da série histórica, em 1992.

Níveis recordes ou próximos de recordes de baixa foram observados simultaneamente em grandes rios, como Reno, Danúbio, Pó, Loire, Ródano e Sena, principalmente em julho e agosto.

A redução afetou o transporte de cargas e aumentou a pressão sobre sistemas de irrigação, geração hidrelétrica, abastecimento de água e resfriamento de reatores nucleares.

As condições secas, combinadas às sucessivas ondas de calor, também favoreceram os incêndios florestais.

Até 2 de setembro, a área queimada na União Europeia era quase duas vezes maior que a média registrada entre 2006 e 2025 para o mesmo período, segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais. Espanha e França estiveram entre os países mais afetados.

Dados do Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus mostram ainda que as emissões provocadas pelos incêndios na Europa ficaram entre as dez maiores registradas desde 2003, expondo milhões de pessoas a níveis perigosos de poluição do ar.

Navios cargueiros navegam pelo rio Reno, com o nível da água baixo e a Catedral de Colônia ao fundo, na Alemanha, nesta segunda-feira (3). — Foto: Thilo Schmuelgen/Reuters

Mares europeus também tiveram calor excepcional

Aliado a tudo isso, o calor também atingiu os mares ao redor do continente. Durante o verão, foram registradas temperaturas recordes ou próximas de recordes na superfície do oceano em grande parte da costa atlântica europeia e nas regiões oeste e central do Mar Mediterrâneo.

Essas águas excepcionalmente quentes vieram acompanhadas de ondas de calor marinhas fortes a excepcionais, períodos prolongados em que a temperatura do oceano permanece muito acima do normal.

ENTENDA: Ondas de calor marinhas são períodos persistentes de temperaturas anormalmente elevadas no oceano. Além de afetarem os ecossistemas marinhos, elas podem aumentar o calor nas regiões costeiras.

Segundo o Copernicus, mares mais quentes dificultam o resfriamento durante a noite e aumentam a umidade do ar perto da costa, o que pode agravar o estresse térmico enfrentado pela população.

Para Burgess, a combinação observada neste verão mostra como diferentes extremos podem ocorrer ao mesmo tempo e ampliar seus impactos.

"À medida que o clima continua aquecendo, eventos como esses reforçam a importância de aumentar a resiliência diante de riscos climáticos cada vez mais interligados", afirmou.

Fonte: G1