sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Não é a quantidade de chuva que muda com o calor extremo, mas sua distribuição; entenda estudo

Calor extremo — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Pesquisa publicada na Nature Geoscience, com base em registros climáticos de até 50 milhões de anos, mostra que o aquecimento intenso altera o ritmo, a frequência e a intensidade das chuvas, desafiando as projeções climáticas atuais.

Por O Globo — Utah

A história do clima guarda pistas que os modelos atuais ainda não conseguem decifrar por completo. Em períodos de aquecimento extremo do passado remoto, a chuva não apenas mudou de quantidade, mas passou a cair de forma irregular, concentrada e imprevisível — um padrão que pode se repetir num planeta cada vez mais quente.

É o que aponta um estudo recente publicado em dezembro na Nature Geoscience, que analisou como a precipitação respondeu a episódios de calor intenso no início do Paleógeno, entre 66 e 47,8 milhões de anos atrás. Ao examinar registros geológicos desse período, os pesquisadores buscaram entender os riscos climáticos que podem emergir nas próximas décadas.

Quando chover passa a ser tão importante quanto quanto chove

Os dados indicam que regiões polares experimentaram condições úmidas, semelhantes a regimes de monções, enquanto áreas continentais de latitudes médias e baixas enfrentaram longos períodos de aridez, interrompidos por chuvas intensas. Segundo os autores, essas transformações ocorreram cerca de três milhões de anos antes e persistiram por sete milhões de anos após o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (PETM), quando as temperaturas globais superaram os níveis pré-industriais em até 18 °C.

O achado contraria a lógica tradicional segundo a qual áreas úmidas tenderiam a ficar mais úmidas e regiões secas, mais secas com o aquecimento global. “A umidade polar e a aridez em latitudes médias indicam um desvio da resposta esperada”, afirma o artigo, destacando que as mudanças não estavam associadas às médias anuais de precipitação, mas à sua distribuição sazonal e interanual — com estações chuvosas mais curtas e intervalos mais longos entre eventos.

Para reconstruir esse cenário, a equipe combinou evidências indiretas preservadas no registro geológico, como fósseis de plantas, solos antigos e sedimentos fluviais. Esses indicadores permitiram estimar não só o volume de chuva, mas também sua intermitência e intensidade. Em declaração à Universidade de Utah, o coautor Thomas Reichler explica que o formato e o tamanho de folhas fossilizadas ajudam a inferir condições climáticas passadas, enquanto a estrutura dos antigos leitos dos rios revela se a água corria de forma constante ou em enxurradas violentas após longas secas.

Embora reconheçam margens de incerteza nessas reconstruções, os autores alertam que elas representam a melhor ferramenta disponível para entender a resposta da atmosfera ao calor extremo. O estudo sugere ainda que os modelos climáticos atuais subestimam o potencial de chuvas caóticas em cenários de aquecimento acentuado, o que pode comprometer estratégias de gestão hídrica e de proteção da agricultura.

A principal lição, concluem os cientistas, é clara: em um mundo mais quente, a confiabilidade e o momento das chuvas serão mais decisivos do que as médias anuais. Para ecossistemas e sociedades, não bastará saber quanta água cairá ao longo do ano, mas se ela virá de forma previsível — ou concentrada em tempestades destrutivas após períodos prolongados de seca.

Fonte: O Globo





quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Governo lança painel inédito para rastrear gastos públicos em clima, biodiversidade e desastres

 

Estudo analisa gastos públicos para transição mais justa e inclusiva 

Publicação apresenta dados e informações, associados à mudança do clima, que contribuem para políticas públicas e investimentos mais assertivos

Quais são (e quais os valores) dos gastos públicos associados à mudança do clima, proteção da biodiversidade e gerenciamento de riscos e desastres? A dúvida, muito comum nas análises de mitigação, adaptação e resposta a emergências, ganha relevância inédita na publicação “Classificadores do Gasto Público em Mudança Climática, Biodiversidade e Gestão de Riscos e Desastres”, resultado de projeto de cooperação técnica entre o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O documento destaca a importância de desenvolver um conjunto robusto de dados e informações essenciais para subsidiar decisões estratégicas e fortalecer a gestão pública.

“Considerando que o financiamento público para promover medidas de mitigação e adaptação não é abundante, se faz necessário sempre aprimorar a alocação orçamentária e ainda atrair e mobilizar recursos de entes privados e internacionais. Gestores públicos, controladores e investidores precisam de informações confiáveis e base de dados sólidas para analisar lacunas, planejar políticas e investimentos, direcionando recursos de forma mais assertiva”, afirma Sarah Irffi, especialista em economia do clima no Instituto Clima e Sociedade.

Segundo ela, o estudo sinaliza ao mercado brasileiro e internacional, bem como aos demais países que já realizam a classificação orçamentária, que o Brasil está continuamente fortalecendo seus instrumentos técnicos e de governança. “E, ainda, possibilita aos governos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil aprofundar análises sobre os gastos e sua correlação com o desenho, formulação e implementação de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável e uma transição ecológica mais justa e inclusiva no país”, lembra Sarah Irffi.

O Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF), donatário do iCS, foi convidado pelo MPO a participar e apoiar as discussões que ajudaram a nortear o relatório. O convite surgiu em virtude do produto “Análise do Orçamento Federal Verde e Marrom e Evolução dos Custos Sociais e Econômicos de Desastres Ambientais no Brasil”, desenvolvido pelo CICEF, também apoiado pelo iCS. O Observatório do Clima, Instituto Talanoa e WRI-Brasil, também donatários do instituto, foram outros que contribuíram com o estudo.

Fonte: Instituto Clima e Sociedade - iCS


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Governo lança painel inédito para rastrear gastos públicos em clima, biodiversidade e desastres

Relatório e painel interativo, frutos de parceria entre MPO e BID, revelam despesas nos últimos 14 anos e criam base para políticas públicas de mitigação, prevenção e adaptação climática mais eficazes


O Governo do Brasil lançou nesta terça-feira (09/12), o Relatório Final do Projeto Classificadores do Gasto Público em Mudança Climática, Biodiversidade e Gestão de Riscos e Desastres. A iniciativa é resultado de um projeto de cooperação do Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que contou com a parceria do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Ministério da Fazenda (MF).

As informações levantadas durante o projeto deram origem a um painel interativo para tornar mais acessível os resultados alcançados. O objetivo é ampliar a transparência e qualificar o monitoramento do gasto público em temas transversais, apoiando análises e o aprimoramento de políticas públicas.

Pela primeira vez, o Brasil passa a contar com uma metodologia sistemática para identificar, classificar e quantificar os gastos climáticos do Governo Central destinados a três agendas: mudança climática, biodiversidade e gerenciamento de riscos e desastres. O levantamento aponta que, entre 2010 e 2023, o eixo mudança climática recebeu a maior fatia (R$421 bilhões), seguida pela proteção da biodiversidade (R$250 bilhões) e pelo gerenciamento de riscos (R$111 bilhões).

Annette Killmer, chefe da Representação do BID no Brasil, a iniciativa representa um avanço estratégico. “Juntar o poder da gestão fiscal justamente com a agenda ambiental de clima e de prevenção de desastres é muito poderoso e um passo sumamente importante para um futuro mais resiliente”, disse.

Até agora, a ausência de uma metodologia para rastrear esses gastos nos Orçamentos da União dificultava o planejamento e a avaliação de políticas públicas. Nas palavras de Elaine de Melo Xavier, Subsecretária de Temas Transversais da Secretaria de Orçamento Federal do MPO, era como se “tateássemos no escuro esses anos todos”. A falta de dados consistentes representava um obstáculo para a formulação de estratégias nacionais, como o Plano Clima e o Plano de Transição Ecológica, e para a análise de riscos fiscais ambientais na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que agora podem ser enfrentados com base em evidências concretas.

“A gente também faz uma coisa bastante audaciosa nesse projeto, que é identificar os gastos tanto pelo impacto positivo quanto negativo. Isso é importante pois permite ao governo e à sociedade fazer uma discussão a respeito de alinhamento dos gastos climáticos com os nossos objetivos climáticos”, disse Elaine Xavier. “Essa discussão sobre clima, ela envolve também uma questão estrutural das finanças públicas brasileiras. Por isso que esse casamento entre agenda ambiental e agenda de finanças públicas é muito bem-vinda. Não vamos desenrolar o problema ambiental e climático sem lidarmos com as questões de finanças públicas”, completou.

Dois períodos distintos

Ao olhar a série histórica das despesas do Governo Central ligadas à mudança do clima, o estudo aponta dois períodos. Até 2015, os valores ficaram em um patamar mais alto. A partir daí, houve uma queda. Segundo Elaine, a redução se relaciona a restrições fiscais e ao Teto de Gastos, mas não apenas. A descontinuidade do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) entre 2019 e 2022, um importante vetor de investimentos e a crescente alocação de recursos para emendas parlamentares, sendo que menos de 5% desses valores foram direcionados a despesas climáticas, também ajudaram a derrubar o volume de recursos no eixo de mudança do clima.

O estudo também aponta uma mudança no perfil do que se financia. Segundo Marcio Luiz de Albuquerque Oliveira, secretário-executivo adjunto do MPO, a participação das despesas na categoria de adaptação e gerenciamento de riscos climáticos “aumentou de cerca de 24%, em 2010, para quase 70% em 2023". O dado sugere uma transição: o foco do gasto federal migrou de ações de mitigação, voltadas a reduzir as causas da crise climática, para medidas de enfrentamento de efeitos já presentes, como a resposta a eventos extremos.

“Há várias questões em andamento no Orçamento e no Tesouro. Por isso, é importante fazer uma pausa para olhar com mais cuidado como esses recursos estão sendo aplicados e buscar mais informação. Tenho dito, há algum tempo, que o país avançou muito na área de dados, e comentei antes do início do evento: o Brasil tem muitas instituições que produzem informação”, disse Oliveira ressaltando a necessidade de usar da melhor forma possível os dados já existentes na administração pública.

A análise dos eixos de biodiversidade e gestão de desastres revela dinâmicas complexas e, por vezes, paradoxais, que são cruciais para entender a resiliência do país.

No eixo de biodiversidade, os gastos com impacto negativo superam os de impacto positivo. O relatório expõe que algumas ações, como a construção de hidrelétricas, podem ter um impacto positivo para o clima ao gerar energia limpa, mas, ao mesmo tempo, um impacto negativo severo para a biodiversidade local ao alterar ecossistemas.

Segundo Aloísio Lopes de Melo, secretário Nacional de Mudança do Clima, essa dualidade exige uma análise mais integrada e criteriosa na alocação de recursos de infraestrutura. “Acho que cresce, cada vez mais, a necessidade de olhar para toda e qualquer área de ação governamental com essas lentes: quanto essa ação contribui para mitigar impactos e quanto induz uma resposta efetiva, com redução de emissões de gases de efeito estufa”, afirmou.

Assim como os dados de biodiversidade revelam complexos trade-offs, a análise dos gastos com gerenciamento de riscos e desastres aponta para um foco crescente em medidas reativas. O estudo aponta que o gasto nesta área tem crescido, impulsionado principalmente pelo aumento da frequência de eventos climáticos extremos. Esse cenário eleva os pagamentos de seguros rurais, como o Proagro, que se tornou um componente crescente da despesa federal. O relatório mostra que, para o Governo Central, a maior parte dos recursos se concentra na redução de riscos, mas há um baixo investimento em governança e, especialmente, na compreensão dos riscos.

Um modelo para o futuro

O desenvolvimento da nova metodologia foi um processo colaborativo de fôlego, que se estendeu por quase dois anos. O trabalho envolveu reuniões técnicas com diversas instituições, incluindo órgãos federais como o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), além de organizações da sociedade civil como o Observatório do Clima e o WRI – Brasil, que contribuíram para o aperfeiçoamento da classificação.

O resultado é uma ferramenta com enorme potencial de replicabilidade, que posiciona o Brasil como uma referência internacional no campo das finanças climáticas. A metodologia foi desenhada para ser aplicada em diferentes níveis de governo (estados e municípios) e pode ser adaptada para outros países da região. O relatório completo e o novo painel interativo, que permite explorar todos os dados de forma detalhada e visual, já estão disponíveis para consulta pública no site do MPO.

Confira no vídeo um tutorial de acesso:


Fonte: GOV.BR



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

MMA lança plano nacional para fortalecer o combate à desertificação

 

Ações devem beneficiar cerca de 39 milhões de pessoas em mais de 1,6 mil municípios localizados em áreas suscetíveis à desertificação - Foto: Rogério Cassimiro/MMA

Medida apresenta 38 objetivos estratégicos e 175 ações com indicadores de monitoramento que guiarão os esforços do governo federal nos próximos 20 anos; o plano beneficiará 39 milhões de pessoas

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) divulgou, nesta terça-feira (16/12), o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil). A medida estabelece 38 objetivos estratégicos e 175 ações com indicadores de monitoramento que serão usados para nortear os esforços do governo federal na prevenção e combate à desertificação e na recuperação de terras degradadas em todos os biomas até 2045. As ações devem beneficiar diretamente cerca de 39 milhões de pessoas que residem nos mais de 1,6 mil municípios localizados em áreas suscetíveis à desertificação (ASD). A extensão equivale a aproximadamente 18% do território nacional.

Definida como um processo complexo de deterioração da terra em áreas de climas áridos, semiáridos e subúmidos, a desertificação é provocada por dimensões ambientais, sociais, culturais e econômicas que esgotam a capacidade de regeneração do solo e o torna improdutivo. O fenômeno tem sido acelerado significativamente pela emergência climática.

A instituição do PAB, enfatizou a secretária-executiva adjunta do MMA, Anna Flávia de Senna Franco, materializa os compromissos do país para cumprir as diretrizes estabelecidas pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), o que envolve a participação de cerca de 20 ministérios, além de diversos órgãos federais. “O lançamento do plano representa mais um passo na consolidação de uma política pública efetiva, construída ao longo de muitos anos, com base na experiência, no diálogo e na participação dos territórios do semiárido”, acrescentou Anna Flávia.

Na avaliação da secretária-executiva adjunta, o semiárido possui um papel estratégico no debate sobre resiliência e adaptação climática. “Quando a mudança do clima se intensifica, o semiárido já traz experiências consolidadas, porque é um território que historicamente aprendeu a conviver com a escassez. Não apenas a natureza, mas a própria população se tornou um exemplo de resiliência”, enfatizou.

A valorização da floresta seca como estratégica para o fortalecimento da resiliência climática foi defendida pelo diretor geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), Garo Batmanian. “É fundamental que a gente ajude a promover e valorizar a manutenção da floresta seca. Esses ecossistemas são essenciais para criar resiliência, funcionando como um instrumento importante de combate à desertificação”, pontuou.

A cerimônia de lançamento foi realizada em Brasília e também foi marcada pela conclusão do projeto Redeser, iniciativa liderada pelo MMA junto à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para impulsionar o combate à desertificação em áreas suscetíveis na Caatinga. Saiba mais aqui.

Além do alinhamento com o UNCCD, o PAB-Brasil concretiza a Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PNCD) de 2015. Os esforços, ressaltou a secretária nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT) do MMA, Edel Moraes, são para impulsionar a resiliência das populações e a conservação ambiental. “O PAB Brasil é um importante instrumento para implementação da Política Nacional de Combate à Desertificação e sua implementação será resultado de um esforço conjunto do governo. Somente juntos vamos avançar no combate à desertificação e mitigação dos efeitos da seca.”

A recuperação de 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga é uma das principais metas da iniciativa. A área corresponde ao tamanho de Pernambuco, um dos estados mais atingidos pela degradação do solo. A ação será desenvolvida no âmbito do Programa Recaatingar, que será criado no âmbito do PAB, explicou o diretor do Departamento de Combate à Desertificação da SNPCT, Alexandre Pires.

"Com isso, queremos alavancar todo o processo de restauração socioprodutiva, assegurando a recuperação do solo degradado, da recomposição vegetal, da disponibilidade de água, da produção de alimentos saudáveis, da geração de trabalho e emprego e de outros serviços ecossistêmicos que sejam importantes para o enfrentamento às mudanças do clima, com sustentabilidade e inclusão social”, informou.

Outra entrega abrange a inclusão de todos os povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares (PIPCTAFs) no cadastro de pagamento por serviços ambientais (PSA), mecanismo econômico que remunera proprietários rurais ou comunidades que realizam ações de conservação e melhoria ambiental para toda sociedade.

Construção do PAB-Brasil mobilizou 1,5 mil pessoas

A elaboração do PAB foi iniciada em 2024 e mobilizou mais de 1,5 mil pessoas, entre representantes da sociedade civil, instituições de ensino, iniciativa privada e governos de estados e municípios. Os diálogos foram promovidos em 10 seminários estaduais, quatro regionais e um nacional, além de consulta pública realizada no Participa + Brasil. As considerações foram pactuadas pela Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD), colegiado coordenado pelo MMA.

Já a implementação dos compromissos para essa agenda começou a ser consolidada, em 2004, com a criação do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN- Brasil). Um dos principais legados da iniciativa foi a consolidação do conceito de convivência com a semiaridez, que tornou-se um princípio norteador para a implementação de práticas sustentáveis, contextualizadas e adaptadas às características do território.

Com esse direcionamento, o documento atual é estruturado em cinco eixos temáticos, que consideram: gestão sustentável para neutralidade da degradação da terra; adaptação às mudanças climáticas e mitigação dos efeitos da seca; pesquisa, inovação e gestão da informação; melhoria das condições de vida da população afetada; e governança e fortalecimento institucional.

O PAB-Brasil apresenta ainda um cenário completo sobre o processo de desertificação no país. A publicação repercute, por exemplo, um estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) de 2023 que indica que as áreas classificadas como semiáridas aumentaram 75 mil km² por década, em média.

Atualmente, os municípios afetados estão inseridos nos nove estados do Nordeste, no norte de Minas Gerais, no noroeste do Espírito Santo, no nordeste do Rio de Janeiro e no noroeste do Mato Grosso do Sul.

O PAB informa ainda que, pela primeira vez, foram identificadas ASD e entorno também no Pantanal, além da expansão da área no Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica, resultado que “pode ser reflexo das mudanças climáticas em curso que alteram os padrões globais de precipitação e temperatura do ar, intensificando a aridificação”, detalha o documento.

Confira as principais entregas previstas pelo PAB-Brasil:
  • Construção do Sistema de Alerta Precoce de desertificação e Seca (SAP);
  • Apoio técnico e financeiro aos estados que integram o Semiárido (nove estados do Nordeste, mais Minas Gerais e Espírito Santo) para elaboração dos Planos Estaduais de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca;
  • Promoção da conectividade da paisagem a partir da recuperação da vegetação nativa, de soluções baseadas na natureza, de áreas verdes e da arborização urbana, de forma integrada ao Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR) e ao Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU);
  • Realização de cursos de formação para mil extensionistas rurais, agricultores familiares, indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais em mudança do clima e agroecologia;
  • Identificação e publicação de plataforma digital com tecnologias voltadas ao acesso à água e ao esgotamento sanitário, com valorização de alternativas adaptativas já desenvolvidas pelas populações locais;
  • Apoio e acompanhamento da regularização ambiental de todos os imóveis rurais em territórios de povos e comunidades sociais e da agricultura familiar;
  • Acompanhamento e apoio da implementação das ações dos Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas (PPCDs) dos biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal) para contribuir com a Neutralidade da Degradação da Terra;
  • Definição e acompanhamento das Metas Brasileiras para o Marco Estratégico 2018/2030 da UNCCD para Neutralidade da Degradação da Terra (LDN);
  • Apoio para a criação de unidades de conservação;
  • Construção de estratégia para o monitoramento integrado da contaminação por agrotóxicos em matrizes ambientais, alimentos e populações expostas;
  • Implementação de projetos de recuperação socioambiental dos Núcleos de Desertificação identificados e outras áreas degradadas pela mineração, salinização, alcalinização, sobrepastoreio, agricultura intensiva, dentre outros;
  • Implementação de projetos de recuperação socioambiental nos municípios identificados com clima árido, a partir de estudo técnico-científico;
  • Construção e implementação de pacto da restauração de terras degradadas no Semiárido com o setor privado da mineração, agropecuário e de energias.
Acesse aqui o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca.

Fonte: MMA


Aprovação do acordo MERCOSUL-União Europeia fortalece compromissos do Brasil com clima, florestas e desenvolvimento sustentável


O Governo do Brasil destaca o avanço do Acordo de Parceria entre o MERCOSUL e a União Europeia como um marco para o fortalecimento da agenda ambiental, climática e de desenvolvimento sustentável do país.

A decisão do Conselho do bloco europeu, anunciada nesta sexta-feira (9/1), reconhece os compromissos ambientais assumidos pelo Brasil e pelo MERCOSUL, bem como cria bases sólidas para a promoção de um comércio internacional alinhado à proteção do meio ambiente e ao enfrentamento da mudança do clima.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a data da aprovação como um “dia histórico para o multilateralismo”. “Em um cenário internacional de crescente protecionismo e unilateralismo, o acordo é uma sinalização em favor do comércio internacional como fator para o crescimento econômico, com benefícios para os dois blocos”, destacou.

Para a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, a decisão reflete a credibilidade internacional reconquistada pelo Brasil.

“Depois de 25 anos, a aprovação deste acordo está ancorada na confiança de que o governo do presidente Lula conduz uma agenda ambiental séria, consistente e comprometida com resultados. Em três anos, conseguimos reduzir o desmatamento na Amazônia em 50% e em 32,3% no Cerrado e, ao mesmo tempo, abrir mais de 500 novos mercados para o agronegócio do país, demonstrando que o Brasil é capaz de fortalecer a economia enquanto protege seus biomas e cumpre seus objetivos ambientais e climáticos.”

Concluídas em 6 de dezembro de 2024, as negociações resultaram em um texto equilibrado e alinhado aos desafios ambientais, sociais e econômicos contemporâneos. O acordo reafirma os compromissos de desenvolvimento sustentável assumidos pelas partes, incluindo o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, assim como o respeito à soberania de cada país para definir seus padrões ambientais, de acordo com suas circunstâncias e níveis de desenvolvimento, com base em dados e evidências aportados pela melhor ciência disponível.

O documento incorpora avanços significativos nas agendas de clima e biodiversidade, com referências ao financiamento ambiental, ao reconhecimento da importância da valoração dos serviços ecossistêmicos e ao apoio à conservação das florestas.

Nesse contexto, o acordo prevê a elaboração de uma lista de produtos da bioeconomia que receberão tratamento adicional mais favorável no mercado europeu, além de facilitar o acesso a outros bens produzidos segundo critérios de sustentabilidade, como o uso de energia limpa.

As partes acordaram também a adoção de ações para promover produtos sustentáveis no comércio birregional, ampliando oportunidades para pequenos produtores, cooperativas, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais.

A União Europeia se compromete a utilizar os dados fornecidos pelos países do MERCOSUL para verificar os níveis de desmatamento e o cumprimento da legislação ambiental dos países exportadores.

O acordo estabelece salvaguardas para assegurar que a ampliação do comércio contribua para a promoção da sustentabilidade, prevenindo possíveis impactos ambientais negativos. O anexo sobre comércio e meio ambiente dedica-se, também, à promoção de cadeias de valor sustentáveis voltadas à transição energética.

O Acordo de Parceria aproxima dois dos maiores blocos econômicos do mundo, ao integrar mercados que somam cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto superior a US$ 22 trilhões. Trata-se do maior acordo comercial já firmado pelo MERCOSUL e de um dos mais relevantes já celebrados pela União Europeia, reforçando o compromisso com um comércio internacional baseado em regras, diálogo e cooperação.

Com a aprovação pelas instâncias europeias, o acordo entra agora na fase final de tramitação e ratificação, conforme os procedimentos institucionais de cada parte. No Brasil, o texto será encaminhado ao Congresso Nacional, assim como aos parlamentos dos demais países do MERCOSUL. No âmbito da União Europeia, a legislação prevê que a aprovação do Parlamento Europeu é suficiente para a entrada em vigor do pilar comercial.

Para além do comércio, o acordo institui mecanismos permanentes de cooperação política e diálogo institucional, reafirmando compromissos com a democracia, os direitos humanos e o multilateralismo.

Fonte: MMA




Controle do petróleo venezuelano pelos EUA desafia a transição energética

Montagem ClimaInfo em cima de imagem gerada por IA

Política trumpista reafirma distanciamento dos EUA das renováveis, na contramão do resto do mundo.

Ao atacar a Venezuela, o negacionista Donald Trump não negou seus verdadeiros interesses no país. Democracia? Que nada, segundo Trump, a Venezuela “roubou” petróleo dos EUA. “Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, motivação e habilidade americanos, e o regime socialista roubou isso de nós durante esses governos anteriores”, alegou, em referência à ExxonMobil e à ConocoPhillips, petrolíferas cujos ativos foram expropriados por Hugo Chávez.

Petróleo, petróleo, petróleo, é só isso que consta na agenda de Trump. Para o cientista político norte-americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia, ouvido pela Folha, os EUA cometeram um erro estratégico ao preterir a transição energética, o que resultou em uma política externa unilateral, pouco coordenada com aliados e uma diplomacia movida por impulsos pessoais. Ao contribuir para um ambiente global instável, os EUA figuram na 1ª posição entre as ameaças à ordem global, segundo o relatório do grupo Eurasia sobre os maiores riscos de 2026.

A Deutsche Welle explica por que o petróleo venezuelano importa para os EUA: apesar de ser um grande produtor de petróleo bruto, o país não produz o tipo mais pesado e viscoso, que muitas de suas refinarias, em especial no Golfo do México, são equipadas para refinar.

Esse é o tipo de petróleo extraído da Venezuela. Apesar da indústria venezuelana estar defasada, o país abriga as maiores reservas globais de petróleo pesado, tendo abastecido a indústria americana por muitas décadas.

“Os Estados Unidos estão cada vez mais retrocedendo na transição energética e, além disso, estão muito dispostos e aptos a mobilizar forças militares para atingir esse objetivo”, afirmou Li Shuo, diretor do centro de clima da China no Instituto de Política da Sociedade Asiática, à CNN Brasil.

Enquanto Washington trata a transição energética como ativismo “woke”, a China consolida sua liderança em energia renovável, barata e em grande escala, sem muita resistência de sua oponente no xadrez global. O governo Trump informou à presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que o país deve cortar laços com a nação asiática e também com o Irã, a Rússia e Cuba e concordar em vender seu petróleo exclusivamente para os EUA.

Além da audácia descarada, o fanatismo de Trump o cega a uma informação óbvia: a China não precisa do petróleo da Venezuela, enquanto a economia da Venezuela precisa da China. A China é uma das maiores compradoras de petróleo venezuelano, mas os investimentos na transição energética, em especial na eletrificação do setor de transporte, estão distanciando o país da dependência de combustíveis fósseis. O país liderou com folga a venda de veículos elétricos globalmente em 2025: dos 18,5 milhões, 11 milhões foram vendidos na China.

No mesmo ano, o país também estava construindo 510 gigawatts de capacidade de geração de eletricidade solar e eólica. A promessa era chegar a 3.600 gigawatts implantados em energia solar e eólica, o que equivale a seis vezes mais do que em 2020. Especialistas projetam que o país já atingiu, ou atingirá muito em breve, seu pico de consumo de petróleo.

O tabuleiro geopolítico ainda é incerto devido aos passos imprevisíveis de Trump. Mas já sabemos quem perde: o povo venezuelano, que tem sua economia refém da variabilidade dos preços internacionais dos combustíveis fósseis e atrelada à concentração de renda, à guerra e às mudanças climáticas. Perde também o povo estadunidense, que vê o país desmontar órgãos e políticas climáticas como nunca antes, o multilateralismo e a política climática global.

Quanto mais investimento em fósseis e guerras, menos espaço temos para avançar em agendas como o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis, tão necessárias para limitar o aquecimento global a 1,5°C.

IstoÉ Dinheiro, Estadão, Globo, Um Só Planeta, Nexo, g1 e Climate Change News também falaram do assunto.

Fonte: ClimaInfo


UNFCCC: saída dos EUA coloca em xeque diplomacia climática


A irresponsabilidade de Trump não apaga a responsabilidade histórica dos EUA pela crise climática nem a omissão do país em enfrentá-la.


Os Estados Unidos de Donald Trump começaram o ano de 2026 testando os limites do multilateralismo e da diplomacia. Dias após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, em flagrante violação ao direito internacional, o governo anunciou na última 4ª feira (7/1) a saída de vários organismos e regimes internacionais por supostamente “contrariarem” os interesses do país. Um dos alvos foi a governança climática global, que agora não conta com o envolvimento da maior economia do planeta.

Entre os acordos e organizações abandonados pelos EUA, estão o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Convenção-Quadro da ONU sobre Clima (UNFCCC). A decisão formaliza algo que vinha ocorrendo na prática desde a volta de Trump ao poder em Washington, há quase um ano. Ao longo de 2025, os EUA não participaram de nenhuma sessão de negociação sobre o clima e sequer enviaram representantes a eventos importantes, como a COP30 em novembro passado.

O distanciamento dos EUA da diplomacia climática global faz parte dos esforços de Trump para desmontar as bases da ação climática dentro e fora do país. No último ano, a Casa Branca acabou com as políticas climáticas deixadas pelo ex-presidente Biden e enfraqueceu os órgãos e as leis ambientais federais. Ao mesmo tempo, favoreceu os interesses da indústria de combustíveis fósseis, com sinal verde para exploração em áreas ambientalmente sensíveis e para o crescimento da exploração nos próximos anos.

Na relação de 66 órgãos e regimes internacionais que deixarão de contar com os EUA, estão também a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). Em alguns casos, a saída é imediata, dependendo apenas de comunicação pelo Departamento de Estado.

Já no caso da UNFCCC, o caminho para a porta de saída é mais incerto. Formalmente, os EUA devem comunicar ao Secretariado da Convenção a denúncia do tratado, o que inicia o período de um ano para a formalização da saída. No entanto, como assinalou o Guardian, há dúvidas quanto à constitucionalidade da decisão nos EUA, já que a adesão do país à UNFCCC foi referendada pelo Senado norte-americano em 1992; alguns juristas argumentam que, da mesma forma, a denúncia da Convenção também precisaria ser aprovada pelos senadores.

As reações à decisão de Trump foram fortes, ao menos no discurso. O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, lembrou o papel crucial dos EUA na construção do regime multilateral para o clima desde os anos 1990 e ressaltou que, apesar dos solavancos que essa medida pode causar nas negociações climáticas, os EUA serão os principais prejudicados. “Enquanto todas as outras nações avançam juntas, este último passo atrás na liderança global, na cooperação climática e na ciência só poderá prejudicar a economia, os empregos e o padrão de vida dos EUA”, afirmou em nota.

Já as organizações da sociedade civil condenaram a irresponsabilidade do governo dos EUA ao dar as costas para um problema que eles próprios causaram. “O anúncio não apaga a responsabilidade histórica [dos EUA] por prejudicar nosso planeta e as pessoas, nem por não fornecer os fundos necessários para apoiar os países em desenvolvimento no enfrentamento das consequências de seu modelo econômico irresponsável”, destacou Tasneem Essop, diretora-executiva da Climate Action Network (CAN International).

Thelma Krug, cientista brasileira e ex-vice-diretora do IPCC, afirmou à Folha que, com a saída dos EUA, Trump pretende aumentar a incerteza nas conclusões dos próximos relatórios do Painel sobre a crise climática. “A partir do instante em que deixa de ter muitas publicações [de pesquisas norte-americanas], vai ficando mais incerto [o conhecimento científico], e eu acho que é isso que o Trump quer. Ele quer dar mais incerteza às conclusões, porque não vamos ter observações, não vamos ter alguns dados”, pontuou.

A saída dos EUA da Convenção do Clima e do IPCC teve grande repercussão na imprensa, com destaques na BBC, Carbon Brief, Climate Home, CNN, Deutsche Welle, Guardian, NBC News, NY Times e Reuters. No Brasil, veículos como Capital Reset, Folha, Neomondo, ((o)) eco, Um Só Planeta e Valor repercutiram a notícia.

Fonte: ClimaInfo




segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Trump’s exit from global climate treaties will have little effect outside US

Donald Trump at an event during his campaign for the 2024 presidential election. Photograph: Alex Brandon/AP

For much of the last 30 years, the rest of the world has been forced to persevere with climate action in the face of US intransigence

Fiona Harvey and Oliver Milman

Donald Trump’s latest attack on climate action takes place amid rapidly rising temperatures, rising sea levels, still-rising greenhouse gas emissions, burgeoning costs from extreme weather and the imminent danger that the world will trigger “tipping points” in the climate system that will lead to catastrophic and irreversible changes.

The US president’s decision to withdraw from the UN Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) and the world’s leading body of climate scientists, the Intergovernmental Panel on Climate Change, will not alter any of those scientific realities.

Nor will it do much, at least in the short term, to alter the economic reality that the push to a low-carbon world is proving an engine of growth for scores of countries. Global investment in low-carbon energy now outstrips that in fossil fuels by two to one. Taking over Venezuela’s basket-case oil industry will make no perceptible difference.

Simon Stiell, the UN’s climate chief, said US citizens and companies would bear the impact. “It is a colossal own goal which will leave the US less secure and less prosperous,” he said. “It will mean less affordable energy, food, transport and insurance for American households and businesses as renewables keep getting cheaper than fossil fuels, as climate-driven disasters hit American crops, businesses and infrastructure harder each year and as oil, coal and gas volatility drives more conflicts, regional instability and forced migration.”

Trump’s actions were hardly unexpected: withdrawing from the Paris agreement, to which the UNFCCC is the parent treaty, was one of his second-term priorities, begun on his first day. Withdrawing from the UNFCCC will mean the US no longer has a seat at the annual “conference of the party” (Cop) meetings, and withdrawing from the IPCC will mean the US no longer has a veto over the “summary for policymakers” that accompanies its seven-yearly reports.

Seen from other countries, the experience is a familiar one. For much of the last 30 years, the rest of the world has been forced to persevere with climate action in the face of US intransigence: the 1997 Kyoto protocol was prevented from coming into force until 2004 because the US Senate would not ratify it; under George W Bush, the US attended the annual Cops but often obstructed them; and in Trump’s first term, the withdrawal from the Paris agreement failed to provoke any others to follow suit.

Mohamed Adow, the director of the thinktank Power Shift Africa, predicts countries will take a similar attitude this year, carrying on without the US. “The climate movement is bigger than any one nation,” he said. “African nations and the global south will continue pushing for climate justice, demanding that wealthy polluters honour their historical responsibilities, and building the clean energy future our people deserve.”

While the political aspect of climate action struggles to gain top-level attention in a world beset by conflict, the economics of the low-carbon transition have taken on a life of their own. That may be where Trump’s actions look increasingly, in the words of the former secretary of state John Kerry, like a “self-inflicted wound”.

Investment in low-carbon forms of energy is now above $2tn a year, dwarfing the $1tn spent on fossil fuels. Renewable energy alone grew 15% last year, accounting for more than 90% of all new power generation capacity. Electric vehicles now account for about a fifth of new cars sold around the world. Low-carbon power makes up more than half of the generation capacity of China and India, and China’s exports of low-carbon goods and services topped $20bn in a single month last year.

Solar panels in Pingjing village in Anqing, China. Photograph: Costfoto/NurPhoto/Rex/Shutterstock

China is likely to remain committed to its increasingly vibrant low-carbon economy, according to Li Shuo, the director of the China Climate Hub at the Asia Society Policy Institute. “This commercial dynamism is happening increasingly between China and the global south,” he said. “These economic forces provide a more meaningful counter to Trump [than geopolitics].”

Under Trump, the US risks being left on the sidelines – a position that Kerry called a “gift to China”. The economist Nicholas Stern said: “The economics of the [low-carbon] transition look ever more attractive. Every time we look at the science it looks more worrying, and every time we look at the technology it is more encouraging. In an increasingly insecure world, countries and industries will be seeking independence from fossil fuels and the great volatility such dependence brings. In a world with sluggish growth, countries and industries will be seeking new opportunities. These will be in the technologies of the 21st century, not the 19th and 20th centuries.”

But he noted that Trump, though he could not change the economic direction of travel, could unsettle some investors on the margins. “Any actions that slow down the pace are unhelpful,” he said.

Whether Trump can unilaterally yank the US from a treaty that the Senate voted 92-0 to ratify in 1992 is a question that has legal scholars divided, although in practice America has walled itself off from the rest of the world regardless of regular processes.

In his presidential memo, Trump said the exit meant “ceasing participation in or funding to those entities to the extent permitted by law”. At the annual UN climate summit in Brazil last year, there was for the first time no official US delegation – this will now become the norm.

Keir Starmer, Luiz Inácio Lula da Silva and Prince William at Cop30 in Brazil last year, where there was no US delegation. Photograph: Mauro Pimentel/Reuters

Similarly fraught legal questions linger over what might happen should a future president seek to reengage with the world on the climate crisis. If two-thirds of a bitterly divided Senate is required to rejoin the climate treaty, American absence could become permanent. Trump’s legacy will unspool long after he withdraws to Mar-a-Lago for more golf, both in terms of US participation in climate talks and the impact of the climate crisis itself on billions of people around the world.

Meanwhile, people living in the US will be confronted with increasing frequency with the effects of the climate crisis. Wildfires last January in California forced the evacuation of more than 200,000 people. Farmers are struggling with pests, drought and floods. Homes in some areas are becoming uninsurable, and extreme weather cost the US at least $115bn last year.

The effects will be felt even by the president. Jean-Pascal van Ypersele, a former vice-chair of the IPCC, said: “The Palm Beach area of Florida, where Trump’s Mar-a-Lago residence is located, is among the areas most vulnerable to sea level rise due to global warming. The US is not immune to this problem.”

Fonte: The Guardian



Editorial O Globo: "Novos desastres climáticos desafiam as autoridades"

Enchentes no Rio Grande do Sul — Foto: Edilson Dantas/Agência O Globo

Pelo menos 83% do território do Rio e metade dos municípios brasileiros são vulneráveis a tragédias ambientais

Por Editorial

A tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio, um dos maiores desastres naturais da História do país, com mais de 900 mortes, completou 15 anos ontem. Desde 2011, líderes mundiais participaram de 14 conferências do clima, os alertas de especialistas sobre a iminência de novas catástrofes foram mais enfáticos e constantes, e novas tragédias aconteceram para confirmar que não são alarmistas. Temporais mataram 242 pessoas em Petrópolis e 133 em Pernambuco em 2022, 65 no Litoral Paulista em 2023 e 185 no Rio Grande do Sul em 2024, deixando cidades inteiras debaixo de água. Os números assustadores aparentemente não bastaram para que as medidas de prevenção necessárias fossem tomadas.

Editorial: Mudança climática impõe às cidades maior preparação

Reportagem do GLOBO mostrou que, apenas no conjunto de 30 municípios do estado do Rio, 83% do território é vulnerável a novas tragédias, segundo o relatório de avaliação de riscos de desastres provocados por chuvas, elaborado pela secretaria estadual de Planejamento e Gestão e pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos. Nessas áreas, há quase 1,7 milhão de domicílios em risco. Os municípios com a maior parcela do território sujeita a catástrofes são justamente os mais atingidos em episódios anteriores: Nova Friburgo, 96,3%; Bom Jardim, 94,3%; Petrópolis, 93,6%; Teresópolis, 91,8%.

Nos demais estados brasileiros, a situação não é diferente. Segundo a plataforma Adapta Brasil, 2.807 dos 5.570 municípios do país já estão em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade climática. O dado consta do relatório “Cidades verdes-azuis resilientes”, que reúne conhecimento científico e tecnológico atualizado para apoiar programas e ações de governos, empresas e da própria sociedade na construção de ambientes urbanos mais preparados e sustentáveis diante da crise climática.

Já passou da hora de os governos federal, estaduais e municipais agirem com urgência para, se não evitar por completo, ao menos minimizar os efeitos de tragédias climáticas. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) considera fundamental que as autoridades estejam preparadas para que o socorro imediato inclua — além da disponibilidade de abrigos temporários, medicamentos, alimentos e água — apoio psicológico a todos os impactados, assim como a identificação de áreas seguras e o estabelecimento de rotas de fuga. A lista de investimentos prementes tem de incluir aprimoramento da comunicação, para que a população compreenda riscos, alertas e alarmes. É necessário ainda atualizar mapeamentos de áreas suscetíveis aos riscos, dar destino adequado aos resíduos sólidos, priorizar obras de engenharia, reurbanização, arborização e drenagem, recuperar a vegetação nas margens de rios e controlar a erosão.

O investimento é alto, mas não há outro caminho. Ninguém espera mais que as metas de redução das emissões de gases causadores de efeito estufa sejam cumpridas e evitem que os desastres naturais se tornem cada vez mais frequentes e extremos. É preciso estarmos prontos para reduzir danos. Tragédias podem ocorrer a qualquer momento. Nenhum governante poderá alegar que terá sido por falta de aviso.

Fonte: O Globo


domingo, 11 de janeiro de 2026

Como Trump quer deter o silencioso avanço chinês na América do Sul

Donald Trump e Xi Jinping em encontro na Coreia do Sul — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Região está na disputa entre China e EUA por concentrar a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás do Oriente Médio. Empresas chinesas se tornaram sócias de reservas no Brasil

Por Bruno Rosa — Rio de Janeiro

Pouco depois de os Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em Caracas, há uma semana, o Departamento de Estado americano publicou uma foto do presidente Donald Trump com uma frase: “Este é o nosso hemisfério”. Foi uma referência à renovação da Doutrina Monroe, de domínio das Américas pelos EUA, em curso na Casa Branca. No entanto, concordam analistas, a frase poderia muito bem ser substituída por “Este é o nosso petróleo”.

Trump nem fez questão de esconder que o controle do comércio da commodity mais importante do planeta está no centro da motivação da intervenção militar na Venezuela, sem precedentes dos EUA na América do Sul. A região vai para o centro da disputa global pelo ainda cobiçado recurso mineral por concentrar a segunda maior reserva do mundo, atrás do Oriente Médio.

Dados do setor apontam não só o aumento das compras de petróleo sul-americano pela China nos últimos anos, mas também uma transformação silenciosa do país, de cliente a detentor de reservas na região.

Essa disputa entre EUA e China tem razão econômica: as duas maiores economias do mundo consomem 35% do petróleo global, diz a Agência Internacional de Energia.

A geopolítica do setor na região — Foto: Editoria de arte

Para especialistas, a ação de Trump na Venezuela — dona da maior reserva conhecida do mundo, com produção atual longe do potencial — é parte de sua tentativa de redesenhar a geopolítica energética do continente, reforçando a presença de petroleiras americanas na América do Sul para conter o avanço das chinesas em meio a uma onda de investimentos bilionários em novas fronteiras petrolíferas que se abrem em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina. Neles, empresas americanas e chinesas já disputam reservas estratégicas diretamente.

Os principais fornecedores da China na região são Brasil e Venezuela, que somam cerca de 10% de todas as importações de petróleo do país liderado por Xi Jinping. Desde a década de 2010, petroleiras chinesas passaram a se associar a outras, como a Petrobras, para atuar na produção de óleo e gás na região, assegurando acesso a reservas estratégicas como as do pré-sal brasileiro não só como cliente.

A movimentação ainda não faz sombra à atuação das americanas, mas tende a crescer com a abertura de novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial, no litoral norte da América do Sul.

Atuação discreta

Especialistas observam que essa expansão chinesa é “silenciosa”, com petroleiras que têm atuação discreta nos países e cujas cifras investidas escapam dos principais levantamentos do setor.

Muitos investimentos chineses no setor são feitos em associação com empresas de outros países e por meio de aquisição de ativos de outras companhias de fora, sem chamar a atenção nas estatísticas de investimento estrangeiro. Essa característica faz com que os investimentos da China no setor na América Latina sejam subestimados.

Um levantamento da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), por exemplo, mapeou US$ 47,5 bilhões em investimentos em óleo e gás na região, entre 2020 e 2024, sendo US$ 1,3 bilhão chinês. Já o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) apurou US$ 6 bilhões em investimentos chineses no setor só no Brasil no período.

— Os EUA são os principais investidores na região por meio de relações antigas, sobretudo em petróleo, mas a China tem crescido na América Latina, com investimentos amplos no setor e também em energia renovável, mineração, tecnologia e infraestrutura — diz Fernanda Brandão, coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Mackenzie Rio. — Agora, os EUA vão tentar consolidar sua presença e têm mostrado que podem recorrer a meios militares para que a América Latina continue sendo uma zona de influência exclusiva, coibindo a presença chinesa.

Marcelo de Assis, sócio da Consultoria MA2Energy, também vê incômodo aos interesses dos EUA na expansão chinesa, mas acredita que a ofensiva de Trump não deve afastar a China do petróleo sul-americano. O país asiático precisa dessa fonte de energia, ainda que invista pesado em renováveis. Para o especialista, o jogo geopolítico está apenas começando na região:

— O fornecimento de 400 mil a 450 mil barris por dia da Venezuela para a China é algo fácil de ser suprido por outros países, principalmente num mercado em baixa e bem abastecido no momento. Por enquanto, é mais uma sinalização política do que um impacto econômico na China. A sinalização americana foi clara ao ser mais assertiva na presença e no controle americano na América Latina. Não espero nenhuma mudança brusca da diplomacia ou pragmatismo econômico chinês em relação à América Latina, que é o principal parceiro comercial de vários países da região.

O diretor de Conteúdo do CEBC, Tulio Cariello espera mais investimento chinês:

— A China é o principal comprador de petróleo do Brasil, cerca de 60% das exportações brasileiras. Enquanto houver leilões no Brasil, haverá presença chinesa. É uma questão de oportunidade. Há muita incerteza sobre como será o processo de transição na Venezuela, mas há um interesse claro da China na região.

Mudança de estratégia

Até o início dos anos 2000, a exploração de petróleo em países sul-americanos que abriram o setor à concorrência, como o Brasil, tinha empresas europeias e americanas como protagonistas.

Apropriação de barris, controle da venda e mercado para empresas americanas: Como Trump quer usar o petróleo da Venezuela

Isso começou a mudar nos anos 2010, quando os EUA passaram a direcionar suas atenções para o seu próprio shale gas (gás de xisto que deu ao país a autossuficiência), abrindo espaço para a incursão de estatais chinesas na região como investidoras, fazendo aquisições ou se associando a consórcios que operariam, por exemplo, os megacampos do pré-sal em parceria com a Petrobras, lembra Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV.

Neste período, a China também intensificou sua busca no mundo por outros insumos para seu crescimento acelerado, como cobre e minério de ferro, acompanhados do crédito de seus bancos estatais e investimentos em infraestrutura nos países-alvo.

Onde estão os investimentos das petroleiras americanas e chinesas na América do Sul — Foto: Editoria de arte

No Brasil, as chinesas CNOOC, CNPC e Sinopec já respondem por 6,2% da produção de petróleo, cerca de 305 mil barris por dia. Ainda estão atrás das europeias (como Shell, Total, Petrogal e Equinor), com mais de 920 mil barris diários (19%), mas à frente das americanas, que se concentram atualmente em campos brasileiros ainda em fase de exploração. A Exxon produz no Brasil hoje 7 mil barris diários, mas, com a Chevron, soma 40 áreas em desenvolvimento, contra 28 das chinesas.

Influência sobre o preço

O pesquisador da FGV observa que, com Trump, os EUA voltaram a ver o petróleo como recurso estratégico. O republicano indicou a interlocutores semana passada que quer influenciar o mercado para baratear combustíveis nos EUA com a queda do preço do petróleo, da faixa atual de US$ 60 para US$ 50, o que pode colidir com os interesses das petroleiras.

A advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou destaca o “elevado risco político” e a “fragilidade” estrutural do país. Seriam necessários ao menos R$ 100 bilhões em investimentos para retomar a capacidade de produção que a Venezuela já teve. Trump quer que as petroleiras americanas façam esses aportes em troca de altos lucros, mas executivos saíram cautelosos de uma reunião com ele na sexta-feira.

EUA prometem aumentar produção de petróleo na Venezuela: qual é o impacto no Brasil e na Petrobras?

— Do outro lado, a China vai buscar diversificar seus investimentos — pontua Paz.

Nos leilões recentes no Brasil, americanas e chinesas foram os destaques no pré-sal e em novas áreas como as bacias marítimas de Pelotas, no Sul, e Foz do Amazonas, no Norte. O mesmo se dá no Suriname e na Guiana, que recebeu investimentos de US$ 13 bilhões em 2024, e conseguiu fazer chineses e americanos se tornarem sócios no principal bloco de sua porção da Margem Equatorial.


Fonte: O Globo


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VENEZUELA, PETRÓLEO E O FUTURO CLIMÁTICO: prenúncio de tempos sombrios





sábado, 10 de janeiro de 2026

VENEZUELA, PETRÓLEO E O FUTURO CLIMÁTICO: prenúncio de tempos sombrios


Tempos sombrios.

Esperança! Como fazemos todos os anos, nos despedimos de 2025 e chegamos a 2026 desejando paz e felicidade a todos os nossos familiares, amigos, colaboradores e pessoas que nos relacionamos e queremos bem.

Mas, poucas horas após o Réveillon, o clima de otimismo e esperança foi atropelado por um duro choque de realidade: na madrugada do dia 3 de janeiro, tropas dos EUA invadiram a Venezuela, prenderam Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os levaram à força para os EUA, sob o pretexto de submete-los à justiça americana sob a acusação de tráfico de drogas e outras acusações. 

Segundo informações na imprensa, a operação matou 58 pessoas, dentre elas, 32 militares cubanos que faziam a segurança de Maduro e 23 militares venezuelanos. No dia da invasão, durante coletiva de imprensa Donald Trump se vangloriou com a seguinte declaração: “o domínio dos Estados Unidos na América Latina nunca mais será questionado”.

No mesmo pronunciamento, Trump não escondeu qual era o verdadeiro objetivo da operação militar: se assenhorar das maiores reservas de petróleo do mundo! Anunciou que os EUA governarão a Venezuela por um tempo e que chamará as empresas petroleiras americanas ("as maiores do mundo") para resolver os problemas da infraestrutura de produção, que estariam em péssimas condições. As tais empresas citadas por Trump não mostraram grande entusiasmo e têm mantido uma postura cuidadosa sobre o assunto

Segundo o governo Trump, o óleo produzido será gerido e comercializado pelos EUA. Os recursos obtidos da venda do petróleo serão utilizados "exclusivamente" na compra de produtos americanos e o invasor definirá as prioridades de utilização do restante dos recursos, que serão investidos conforme "a prioridade do povo venezuelano". Assim decidiu unilateralmente o governo dos EUA!

Uma pergunta: as grandes empresas têm se submetido voluntariamente a procedimentos éticos de governança corporativa, como o badalado ESG (Environment, Social, Governance) e tantos outros processos para a garantia de integridade e compliance. Explorar o petróleo da Venezuela, sob intervenção militar e as regras impostas por Trump estará em conformidade com estes preceitos?

O episódio da Venezuela vai muito além do desrespeito à soberania de um país e do discurso da necessária restauração da democracia, da qual a Venezuela, de fato, havia se afastado. Há muito mais coisa por trás.

Há muita incerteza sobre o que está por vir. Mas, a chegada de 2026 parece ter feito "cair a ficha" que o mundo mudou de forma acelerada e radical. Vivemos um novo cenário mundial, muito mais perigoso e instável. Vejamos alguns desses aspectos:

EUA: AUTORITARISMO, RETROCESSOS POLÍTICOS E ECONÔMICOS

Por muitas décadas, os EUA ostentaram a reputação de ser a maior economia e a maior democracia do mundo. O que estamos vendo nos últimos tempos parece contradizer ou sinalizar mudanças nessa realidade. Trump inaugurou o seu segundo mandato ainda mais radicalizado e autoritário, isolando os EUA econômica e politicamente, ao estabelecer tarifas sobre os principais países do mundo, destruindo alianças estratégicas e relações comerciais construídas ao longo de muito tempo. As consequências estão se mostrando piores para a economia dos EUA do que dos países sancionados. O maior mercado consumidor do mundo está enfrentando o desabastecimento e, logo, a inflação está subindo a níveis elevados. 

A agressividade demonstrada na política internacional, também é praticada por Trump no nível doméstico. Extinguiu órgãos tradicionais da administração pública, demitiu sumariamente um grande número de funcionários públicos e paralisou políticas sociais. Implantou um estado policialesco, com uma política agressiva contra imigrantes, com as obscuras tropas do ICE (órgão responsável pelo controle da imigração) aterrorizando as comunidades, no mais fiel estilo Gestapo. O presidente abriu guerra contra adversários políticos, determinando intervenções na área de segurança de estados e cidades governadas pela oposição. Também vem perseguindo universidades e a intelectualidade do país. 

Com maioria no Congresso, Trump conseguiu neutralizar o legislativo, que se vê impotente diante de tantas decisões desastradas do Executivo, que lhe cabe fiscalizar. Com a conivência dolosa da bancada republicana, todas as tentativas de controlar os excessos são bloqueados. Com o parlamento sob controle, Trump decidiu inclusive ignorá-lo. Até mesmo as competências exclusivas do Congresso são atropeladas, sem reação efetiva dos parlamentares: além da operação militar na Venezuela há poucos dias, Trump bombardeou no ano passado (2025) sete países sem autorização do Congresso. 

Como consequência, os EUA vê crescer uma mobilização cidadã. Manifestações têm tomado as ruas de muitas partes do país. A popularidade de Trump vem caindo, mas isso não tem impedido que mantenha a sua sanha autoritária. 

GEOPOLÍTICA

O mundo parece estar de cabeça para baixo. Os EUA resolveram abrir mão da liderança mundial que exerciam quase que sozinhos desde a queda do Muro de Berlim? Parecem ter aceito dividir o seu poder com China e Rússia, ao brandir seus pretensos "direitos políticos" sobre a América Latina e o Caribe: "É o nosso hemisfério!", dizem os trumpistas. Anunciaram a reedição da Doutrina Monroe, lembrada como a política do "Big Stick", que no passado marcou a relação truculenta dos EUA com a América Latina. Isso não nos traz boas lembranças ou boas perspectivas! Em um ano de governo, Trump invadiu a Venezuela, bombardeou sete países, ameaçou o México, a Colômbia, o Panamá e Cuba. 

A atitude americana perante a América Latina fortalece e oferece argumentos para Vladimir Putin tentar dar legitimidade à sua guerra contra a Ucrânia. O mesmo pode acontecer na pretensão da China sobre Taiwan.

A América Latina passou algumas décadas com baixa relevância geopolítica em comparação a outras regiões, como a Europa, Ásia, países árabes. Recentemente, passou a ser um player mais importante, atraindo o interesse da China, que passou a investir maciçamente na infraestrutura da região e desenvolver acordos comerciais. Isso resultou num crescimento da influência política chinesa na região. É bom lembrar que China e Rússia eram os principais compradores do petróleo venezuelano.

A Europa também reconhece a importância da região ao decidir, finalmente, após 25 anos de negociação, o Acordo Comercial União Europeia - Mercosul. Trata-se da maior zona de livre comércio do mundo, com uma população agregada de 721 milhões de habitantes e um total de US$ 22,341 trilhões, ou seja, 25% do PIB global. A crise causada por Trump obrigou a Europa a agir e concluir as negociações. 

O Acordo UE-MERCOSUL é uma grande vitória do multilateralismo, que chega num momento oportuno para confrontar a atitude de força que paira sobre a América Latina atualmente.

Arte O Globo.

Portanto, o Acordo UE-MERCOSUL ajuda tanto a América Latina como a Europa. No novo cenário geopolítico, preocupada com a Guerra da Ucrânia, a Europa está sendo isolada e perdendo relevância geopolítica. A União Europeia tem centrado forças na ameaça russa e, contraditoriamente, vê o enfraquecimento da OTAN, diante do afastamento de Trump dos compromissos de financiamento do poder militar do bloco. 

A situação se agravou com a absurda e recorrente menção do presidente americano da intenção dos EUA de incorporar a Groelândia, país autônomo, mas associado à Dinamarca. 

Um outro movimento que contraria a atitude dos EUA perante a America Latina e dá peso geopolítico para a região é o protagonismo do Brasil no BRICS, um bloco de nações influentes e que reúne uma grande parte da população mundial, como: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul. Outros países aderiram em 2024 e 2025, ou são considerados parceiros da iniciativa. Trump,  preocupado, já ameaçou aplicar tarifas aos países do BRICS.

MULTILATERALISMO

Mesmo nos governos democratas, os EUA nunca se interessam pelo multilateralismo. Mas, sob Trump, os EUA passaram a atuar de forma a inviabilizar estas instâncias. No dia 7 de janeiro, Trump ordenou a retirada dos EUA de 66 organismos internacionais, sob a alegação que "operam contrariamente aos interesses nacionais dos EUA". A investida foi contra agências, comissões e painéis consultivos ligados à ONU, ou independentes, que se concentram em questões climáticas, trabalhistas e outras que o governo Trump classificou como voltadas para iniciativas de diversidade e "woke". 

Dentre as organizações da ONU, estão: Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres); Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC); Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD); Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ONU Energia, ONU Habitat, ONU Oceanos, Universidade das Nações Unidas, dentre outras. O governo Trump já havia suspendido o apoio a agências como a Organização Mundial da Saúde, a UNRWA (Agência das Nações Unidas para a Refugiados da Palestina), o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a UNESCO (Agência das Nações Unidas para a Cultura).

As organizações internacionais não vinculadas à ONU são: a tradicional e histórica União Internacional para a Conservação da Natureza - UICN, Aliança Solar Internacional, Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

CLIMA 

Como vimos acima, os EUA retiraram o apoio à UNFCCC e ao IPCC, as principais iniciativas que dão suporte à agenda climática global. A UNFCCC é a convenção do clima que promove as COPs, como a COP30 que acabamos de sediar em Belém. O IPCC reúne os principais cientistas que dão o embasamento técnico às ações de enfrentamento às mudanças climáticas. 

Como afirmamos aqui no blog, a atitude reativa dos EUA é um problema para o avanço do processo de negociação contra as emergências climáticas, mas os EUA perdem muito mais do que dificultam. Afinal, em 30 anos de discussão climática, por suas dificuldades com os fortes lobbies internos, o país nunca foi protagonista, muito menos liderou o processo. Portanto, a agenda climática nunca contou muito com os americanos, embora os EUA sempre tenham sido os principais financiadores do sistema ONU. 

O afastamento dos norte-americanos nunca impediu que a agenda avançasse no país em outras instâncias. Por exemplo, em contradição com a atitude federal, estados e municípios dos EUA têm algumas das melhores experiências de implementação de políticas climáticas e ajudam a fazer o tema avançar. 

Além de esvaziar as organizações climáticas, a Administração Trump coloca o petróleo no centro do conflito geopolítico global e toma para si a maior reserva fóssil do mundo (20% de todo o petróleo do mundo), que é a da Venezuela. Isso acontece justamente quando a transição energética chega ao centro do debate climático. 

Segundo Paasha Mahdavi, professor de ciência política da Universidade da California - Santa Barbara (The Guardian), a elevação da produção de petróleo da Venezuela, dos atuais cerca de 1 milhão de barris/dia para 1,5 milhões de barris/dia, produziria a emissão anual de cerca de 500 milhões de toneladas de CO2. Isso corresponde às emissões anuais de carbono de países como o Brasil e o Reino Unido. Há ainda o agravante de que o óleo da Venezuela é um dos mais concentrados e poluentes.

A transição para uma economia de baixo carbono é indispensável para enfrentar a emergência climática. Segundo especialistas, não há mais tempo a perder e se a temperatura média do planeta ultrapassar 1,5°C as consequências serão gravíssimas. Por isso, há uma métrica utilizada para medir o progresso das medidas globais para a redução do carbono atmosférico, conhecida como "Orçamento de Carbono" (Carbon Budget). Ou seja, há um limite de concentração de carbono e um tempo para reduzi-lo. A protelação das medidas nos deixa com a obrigação ainda maior a medida que o tempo passa. 

Em Belém, um dos grandes esforços foi para aprovar o Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis, que seria uma metodologia e guia político para o abandono gradativo dos combustíveis fósseis, foi uma das mais importantes bandeiras da COP30. Acabou não havendo consenso para a sua aprovação, mas a Presidência Brasileira, que atua até a próxima COP, anunciou que fará um esforço paralelo para apresentar voluntariamente dois mapas do caminho. A primeira reunião está marcada para o final de abril, em Santa Marta, na Colômbia, país que foi muito enfático na COP30, na cobrança pelo compromisso pela transição. O movimento busca atrair o apoio dos mais de 80 países que já se manifestaram a favor da iniciativa. 

A informação, a seguir, consta das informações disponíveis no site oficial da COP30:

Apesar da ausência de consenso, com mais de 80 países apoiando uma linguagem explícita e mais de 80 se opondo a ela, a Presidência brasileira anunciou, por iniciativa própria, processos para elaboração de duas iniciativas:

• Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis de maneira justa, ordenada e equitativa;
• Mapa do Caminho para interromper e reverter o desmatamento.
Todo esse esforço contrasta com os episódios recentes como o da Venezuela. Os planos anunciados por Trump são de aumento da extração do petróleo, seguindo o seu mantra  "drill, baby, drill". O próprio Brasil está prestes a abrir novas frentes de exploração, como na Foz do Rio Amazonas. Portanto, na conjuntura atual, ao contrário do que precisamos, a exploração do petróleo está com viés de alta. Isso, certamente, inviabilizará todas as metas climáticas estabelecidas.

Com tudo o que vimos, há um grande quadro de incertezas pela frente e, sem dúvida, um cenário muito adverso para o avanço da agenda climática, ai incluída a transição energética. 

A crise climática não espera! Seguiremos na louca corrida rumo ao caos climático?

Axel Grael
Engenheiro florestal
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/UFF)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Membro do Comitê Executivo Global do ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade


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