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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Do Holoceno ao Antropoceno: as bases conceituais da mudança de Época



 Em três gerações, a produção de plásticos passou de 1 milhão para 300 milhões de toneladas. Foto: Bo Eide/ Flickr (domínio público).


José Eli da Veiga

É desafiador descrever o ambiente científico em que emergiu a proposta de uma nova Época Geológica. O livro O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra, com lançamento previsto para março, busca contribuir para essa compreensão

Civilizações nem teriam surgido não fosse a invenção da agricultura, por sua vez favorecida por atenuação climática, há doze mil anos. Fim de longo período glacial que já durava uns cem mil anos, o abrandamento meteorológico também marcou ruptura com os muitos milênios em que a evolução humana dependeu de predações, extrativismos vegetais, pescas e caçadas.

Tudo o que aconteceu desde tão misteriosa virada coincide com a curtíssima Época, batizada pelos geólogos com o prefixo Holo para bem destacar que é a mais recente. Um ínfimo lapso de doze milênios, inteiramente distinto de tudo que o precedeu em 4,5 bilhões de anos de história planetária.

As principais características do Holoceno foram moderação e constância ecológicas tão formidáveis que propiciaram decisivos avanços sociais impulsionados essencialmente por cooperação e coesão entre os humanos.

Porém – como ninguém tem mais o direito de ignorar – eis uma vantagem comparativa que passou a ser desregulada por excessivas influências artificiais de atividades humanas. Então, para distinguir essa etapa, em que a durabilidade da vida na Terra tanto passou a depender da conduta de uma única espécie – a humana –, é bem mais apropriado o prefixo Antropo do que Holo.

Só que não é nada simples identificar o momento histórico desse grande salto de Holo para Antropo. Há controvérsia sobre a datação desse ponto de mutação, mas tende a haver consenso de que ele ocorreu em meados do século passado, quando as primeiras explosões nucleares coincidiram com o desencadeamento de incomparável surto de progresso material, chamado pelos historiadores ambientais de “A Grande Aceleração”. Tudo indica que será esse o momento escolhido pelos experts que preparam a proposta de oficialização do Antropoceno.

Desde meados do século XX, os humanos passaram a exercer pressões excessivas sobre alguns dos mais relevantes ciclos biogeoquímicos, como os do carbono e do nitrogênio. Ao mesmo tempo em que ocorria inédita escalada geral de outros impactos artificiais (antrópicos) sobre a biosfera. Talvez baste lembrar que, de todo o dióxido de carbono atribuível às atividades humanas hoje estocado na atmosfera, três quartos foram emitidos apenas no curto lapso dos últimos setenta anos.

No piscar de olhos histórico em que viveram as três últimas gerações, o número de veículos motorizados passou de 40 milhões para 850 milhões. A produção de plásticos de mero milhão de toneladas para 350 milhões de toneladas. A quantidade de nitrogênio sintético (principalmente para fertilização agrícola) foi de 4 milhões de toneladas para mais de 85 milhões de toneladas. Somados à erosão da biodiversidade e à acidificação dos oceanos, esses rapidíssimos saltos caracterizam “A Grande Aceleração”.

Bem mais difícil que relatar esse debate sobre a data adequada é descrever o ambiente científico em que emergiu a proposta de uma nova Época. Quer dizer, a evolução das bases conceituais e das evidências empíricas em que se apoiam os cientistas ao fundamentarem a ideia de passagem de Holo a Antropo.

É justamente para facilitar a compreensão desses dois problemas que a Editora 34 lançará, em 30 de março às 20h30 (na Hora do Planeta), meu novo livro – O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra – com três capítulos, bem diferentes em conteúdo e estilo.

No primeiro, são apresentados – nos moldes de divulgação científica – quase todos os aspectos que precisam ser conhecidos sobre os mais pertinentes debates. Convida o leitor a primeiro sobrevoar o que há de mais importante sobre o tema, antes de penetrar em seus fundamentos científicos.

O zoom proposto no segundo capítulo continua a fazer história da ciência para leigos, só que mediante inspeção dos principais documentos e sacrificando o mínimo possível a precisão, em nome de maior eficácia comunicativa. Ao apresentar seleção da literatura científica mais candente, o segundo capítulo é um incisivo convite à reflexão sobre as mais valiosas pérolas do discurso sobre o que tem sido chamado, há três ou quatro décadas, de ‘sistema Terra’.

Tamanha mineração de evidências científicas provoca uma séria dúvida. Não sobre a proposta básica – de legitimação da nova Época na escala do tempo geológico -, mas sim sobre a retórica dos pesquisadores envolvidos no que seria a nova disciplina “Ciência do Sistema Terra”. Não por outra razão, os achados do terceiro capítulo tornam-se indagações. Apresentadas em estilo que só não chega a ser tão leve quanto o do primeiro capítulo porque a inevitável dissecação de certas ideias envolve grau mais elevado de abstração epistemológica.

A rigor, uma ‘Ciência do Sistema Terra’ só começou a surgir nos anos 1980, com os primeiros esforços de formalização incentivados pela Nasa. Praticamente todos os pesquisadores que, desde então, assumiram o desafio (no âmbito do IGBP, da ESSP, do Future Earth e do Planetary Boundaries Research Network), estão hoje em instituições nacionais de primeira linha espalhadas por ao menos uma dezena de países. O que não impede que permaneça bem incipiente a desejada visão transdisciplinar das quatro dinâmicas históricas da Terra: do planeta, da vida, da natureza humana e da civilização.

Tamanha precariedade depois de quase meio século de pesados investimentos científicos não decorre da qualidade das pesquisas, da clarividência dos pesquisadores que as tocam, ou do ambiente institucional em que trabalham. Ao contrário, tudo aponta para um cenário diametralmente oposto: esforços científicos de fronteira empreendidos em centros de indubitável excelência.

Não há como fazer, hoje, uma justa avaliação conclusiva da história dos trinta ou quarenta anos em que a Terra passou a ser estudada como sistema singular. Mas já está bem claro o quanto pode ser abusiva, ou mesmo mistificadora, a vinculação da ideia de Antropoceno a um suposto novo paradigma científico que já teria emergido com a dita Ciência do Sistema Terra.

A argumentação do livro procura mostrar que a nova Época pode ser muito bem (ou até melhor) definida, no âmbito mais restrito da História da Terra, pela singeleza da combinação de conhecimentos historio e estratigráficos sobre o período da chamada ‘Grande Aceleração’.


*Professor sênior de sustentabilidade na USP (IEE), mantém dois sites: www.zeeli.pro.br e www.sustentaculos.pro.br

Fonte: Página 22











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