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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Lars Grael: "Não podemos achar que os Jogos do Rio foram um sonho de verão que terminou no ano passado" 



Grael elogiou estrutura do Recreio da Juventude Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Maurício Reolon

Dirigente da Confederação Brasileira de Clubes esteve em Caxias nesta terça-feira

O sobrenome dele se confunde com a história da vela no Brasil. Há 19 anos, um fatídico acidente abreviou a carreira profissional de Lars Grael, que teve a perna direita decepada ao ser acertado por uma lancha, mas não o impediu de seguir lutando por um futuro melhor para o esporte brasileiro. Se o irmão Torben continua brilhando nas competições, o paulista de 53 anos veleja por hobby, ainda compete em disputas amadoras e trabalha efetivamente para a evolução de todas as modalidades, não apenas na qual fez história.

Como superintendente técnico da Conferação Brasileira de Clubes, Lars esteve em Caxias do Sul nesta terça-feira para prestigiar a inauguração do novo centro aquático do Recreio da Juventude, na sede Guarany.
Grael posou com dirigentes do RJ no novo espaço da ginástica artísticaFoto: Roni Rigon / Agencia RBS

Antes, durante à tarde, o dirigente conheceu e elogiou muito a estrutura do RJ. Medalhista de bronze em duas Olimpíadas, bicampeão mundial e dono de 10 títulos continentais e outros 27 nacionais, o ex-atleta falou com o Pioneiro sobre a importância dos clubes, a formação de jovens atletas e o futuro do esporte no país. Confira alguns trechos da entrevista:

O peso dos clubes

– É muito importante esse trabalho e a expansão para diferentes locais. O Recreio da Juventude é uma referência. Hoje, meio por cento do valor das loterias é destinado ao Comitê Brasileiro de Clubes (CBC) para fazer a descentralização de recursos para clubes formadores de atletas olímpicos e paralímpicos. Então, clubes que têm tradição, infraestrutura pronta, recursos humanos e se pode potencializar essa ação para formar atletas, esse é o objetivo. O Recreio é uma referência positiva desde que entrou no edital por conta de participações esportivas e, de lá para cá, está evidenciando esse crescimento. Então, estar aqui, conhecer o local, o trabalho sério feito por aqui, já demonstrado pelos resultados, é o que podemos fazer para também replicar isso em outros locais do Brasil.

Representação

– Notadamente, a matriz esportiva do Brasil é clubística na formação. Basta ver que 80% dos atletas da equipe olímpica do país em 2016 tinha essa origem, em especial nas regiões Sul e Sudeste. Sem desperdício– Numa fase em que temos limitações orçamentárias, dada a crise econômica, é preciso combater o desperdício e otimizar recursos. Temos de buscar parcerias com quem sabe fazer, que tem ações contínuas em favor do esporte. Se tem uma área que funciona no esporte olímpico brasileiro, é a formação, sobretudo nos clubes. Por isso, precisamos potencializar essa ação. Ao invés de pensar em construir novas estruturas, utilizar os clubes e sua contrapartida, oferecendo a eles subsídios, agregando valor para que eles possam formar mais e melhor. Essa é a nossa visão sobre a formação de atletas, com troca de experiências, somando a quem sabe fazer bem.

Atleta e dirigente

– Na verdade, nunca parei de velejar, mesmo após o meu acidente em 1998. Continuei na prática da vela. De lá para cá, foram cinco títulos sul-americanos e outro norte-americano, além de um mundial em 2015. Ao mesmo tempo, desde quando houve o ocorrido, em setembro daquele ano, passei a trabalhar na inclusão social, com o Projeto Grael, hoje o Instituto Rumo Náutico. A gente foi adquirindo experiência e fui chamado a somar em várias oportunidades, trazendo a voz da representação do atleta na gestão esportiva. É como atuo hoje como superintendente do CBC. Mas dedico um tempo para a vela, mesmo que como atleta amador, por paixão, observando jovens oriundos do nosso projeto e tentando oxigenar a vela brasileira, que formou tantos atletas olímpicos, para que também possa dar continuidade em outras gerações.


Foto: Roni Rigon / Agencia RBS


Nova fase

– Nós temos hoje um processo em curso. Depois dos Jogos Rio 2016, é um momento normal de parada para reorganizar a casa, uma fase de reconstrução. Por vezes, podemos pecar por generalizar a crítica como se todo esporte brasileiro estivesse ruim. Não é o caso. Temos boas exceções de confederações estaduais e clubes. Mas, é importante saber mostrar o exemplo de boas práticas e reproduzir por todo o Brasil, assim como evidenciar o que há de errado.

A força dos atletas

Os atletas, lá em 2001, constituíram uma comissão nacional. Depois veio a ONG Atletas pelo Brasil, que hoje é liderada pelo Raí (ex-jogador de futebol). Esse grupo influenciou a mudança da Lei Pelé há três anos, quando se criou um artigo exigindo a participação dos atletas em órgãos de colegiado. Então, aos poucos se mudou e, muito em breve, podemos ter confederações nacionais anunciando eleições diretas, com votação dos atletas federados. Ou seja, eles assumindo o controle da entidade.

Legado olímpico

– À medida que o Brasil desejou ser uma potência olímpica e avançou para isso, precisamos ter coerência para melhorar a governança do esporte brasileiro. Aprimorar a gestão. E o atleta ter uma participação maior no processo decisório. Não podemos achar que os Jogos do Rio 2016 foram um sonho de verão que terminou no ano passado. A gente tem de otimizar recursos. O Brasil vive uma crise e temos de saber qualificar o uso de recursos públicos, buscar mais parcerias com a iniciativa privada. É o caso daqui. Os clubes acreditam no esporte. Quem mantém o Recreio da Juventude? São os sócios. Esse é o grande investidor. Precisamos aproveitar da melhor forma possível a estrutura para lá na frente crescer no quadro de medalhas, como fez o Reino Unido. Depois de sediar a Olimpíada, quatro anos na frente, evoluiu. Ao contrário do que fez a Grécia, que se endividou e voltou a um patamar inferior.

Política esportiva

– Eu acho que tem evolução. A mudança da Lei Pelé, o Profut exigindo contrapartidas dos clubes de futebol, o atleta tendo participação efetiva e, principalmente, o fim das capitanias hereditárias, aqueles dirigentes que se perpetuavam por décadas nas confederações. O processo agora é turbulento, de contestação, de mudança. Acredito que no médio e longo prazo vamos aprimorar o modelo de governança do esporte brasileiro. Esse é o nosso papel.

Orgulho familiar

— Transmissão de paixão e garantia de resultado é algo muito difícil. Um campeão fazer um filho ou neto campeão não é fácil. Na minha família veio do nosso avô, que era um velejador dinamarquês. Nossos tios foram atletas olímpicos e campeões pan-americanos. Então, quando eu e o Torben (irmão) chegamos ao pódio olímpico já tinha sido uma alegria muito grande. Mas, qual a garantia que seria transferida para outra geração? Vejo hoje meu filho Nicholas campeão brasileiro e sul-americano juvenil na Snipe. Mas a Martine, filha do Torben, ter chegado à primeira Olimpíada e no degrau mais alto do pódio, foi uma satisfação muito grande. É um sentimento de dever cumprido.

Fonte: Pioneiro









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