| Tempos sombrios. |
Esperança! Como fazemos todos os anos, nos despedimos de 2025 e chegamos a 2026 desejando paz e felicidade a todos os nossos familiares, amigos, colaboradores e pessoas que nos relacionamos e queremos bem.
Mas, poucas horas após o Réveillon, o clima de otimismo e esperança foi atropelado por um duro choque de realidade: na madrugada do dia 3 de janeiro, tropas dos EUA invadiram a Venezuela, prenderam Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os levaram à força para os EUA, sob o pretexto de submete-los à justiça americana sob a acusação de tráfico de drogas e outras acusações.
Segundo informações na imprensa, a operação matou 58 pessoas, dentre elas, 32 militares cubanos que faziam a segurança de Maduro e 23 militares venezuelanos. No dia da invasão, durante coletiva de imprensa Donald Trump se vangloriou com a seguinte declaração: “o domínio dos Estados Unidos na América Latina nunca mais será questionado”.
No mesmo pronunciamento, Trump não escondeu qual era o verdadeiro objetivo da operação militar: se assenhorar das maiores reservas de petróleo do mundo! Anunciou que os EUA governarão a Venezuela por um tempo e que chamará as empresas petroleiras americanas ("as maiores do mundo") para resolver os problemas da infraestrutura de produção, que estariam em péssimas condições. As tais empresas citadas por Trump não mostraram grande entusiasmo e têm mantido uma postura cuidadosa sobre o assunto.
Segundo o governo Trump, o óleo produzido será gerido e comercializado pelos EUA. Os recursos obtidos da venda do petróleo serão utilizados "exclusivamente" na compra de produtos americanos e o invasor definirá as prioridades de utilização do restante dos recursos, que serão investidos conforme "a prioridade do povo venezuelano". Assim decidiu unilateralmente o governo dos EUA!
Uma pergunta: as grandes empresas têm se submetido voluntariamente a procedimentos éticos de governança corporativa, como o badalado ESG (Environment, Social, Governance) e tantos outros processos para a garantia de integridade e compliance. Explorar o petróleo da Venezuela, sob intervenção militar e as regras impostas por Trump estará em conformidade com estes preceitos?
O episódio da Venezuela vai muito além do desrespeito à soberania de um país e do discurso da necessária restauração da democracia, da qual a Venezuela, de fato, havia se afastado. Há muito mais coisa por trás.
Há muita incerteza sobre o que está por vir. Mas, a chegada de 2026 parece ter feito "cair a ficha" que o mundo mudou de forma acelerada e radical. Vivemos um novo cenário mundial, muito mais perigoso e instável. Vejamos alguns desses aspectos:
EUA: AUTORITARISMO, RETROCESSOS POLÍTICOS E ECONÔMICOS
Por muitas décadas, os EUA ostentaram a reputação de ser a maior economia e a maior democracia do mundo. O que estamos vendo nos últimos tempos parece contradizer ou sinalizar mudanças nessa realidade. Trump inaugurou o seu segundo mandato ainda mais radicalizado e autoritário, isolando os EUA econômica e politicamente, ao estabelecer tarifas sobre os principais países do mundo, destruindo alianças estratégicas e relações comerciais construídas ao longo de muito tempo. As consequências estão se mostrando piores para a economia dos EUA do que dos países sancionados. O maior mercado consumidor do mundo está enfrentando o desabastecimento e, logo, a inflação está subindo a níveis elevados.
A agressividade demonstrada na política internacional, também é praticada por Trump no nível doméstico. Extinguiu órgãos tradicionais da administração pública, demitiu sumariamente um grande número de funcionários públicos e paralisou políticas sociais. Implantou um estado policialesco, com uma política agressiva contra imigrantes, com as obscuras tropas do ICE (órgão responsável pelo controle da imigração) aterrorizando as comunidades, no mais fiel estilo Gestapo. O presidente abriu guerra contra adversários políticos, determinando intervenções na área de segurança de estados e cidades governadas pela oposição. Também vem perseguindo universidades e a intelectualidade do país.
Com maioria no Congresso, Trump conseguiu neutralizar o legislativo, que se vê impotente diante de tantas decisões desastradas do Executivo, que lhe cabe fiscalizar. Com a conivência dolosa da bancada republicana, todas as tentativas de controlar os excessos são bloqueados. Com o parlamento sob controle, Trump decidiu inclusive ignorá-lo. Até mesmo as competências exclusivas do Congresso são atropeladas, sem reação efetiva dos parlamentares: além da operação militar na Venezuela há poucos dias, Trump bombardeou no ano passado (2025) sete países sem autorização do Congresso.
Como consequência, os EUA vê crescer uma mobilização cidadã. Manifestações têm tomado as ruas de muitas partes do país. A popularidade de Trump vem caindo, mas isso não tem impedido que mantenha a sua sanha autoritária.
O mundo parece estar de cabeça para baixo. Os EUA resolveram abrir mão da liderança mundial que exerciam quase que sozinhos desde a queda do Muro de Berlim? Parecem ter aceito dividir o seu poder com China e Rússia, ao brandir seus pretensos "direitos políticos" sobre a América Latina e o Caribe: "É o nosso hemisfério!", dizem os trumpistas. Anunciaram a reedição da Doutrina Monroe, lembrada como a política do "Big Stick", que no passado marcou a relação truculenta dos EUA com a América Latina. Isso não nos traz boas lembranças ou boas perspectivas! Em um ano de governo, Trump invadiu a Venezuela, bombardeou sete países, ameaçou o México, a Colômbia, o Panamá e Cuba.
A atitude americana perante a América Latina fortalece e oferece argumentos para Vladimir Putin tentar dar legitimidade à sua guerra contra a Ucrânia. O mesmo pode acontecer na pretensão da China sobre Taiwan.
A América Latina passou algumas décadas com baixa relevância geopolítica em comparação a outras regiões, como a Europa, Ásia, países árabes. Recentemente, passou a ser um player mais importante, atraindo o interesse da China, que passou a investir maciçamente na infraestrutura da região e desenvolver acordos comerciais. Isso resultou num crescimento da influência política chinesa na região. É bom lembrar que China e Rússia eram os principais compradores do petróleo venezuelano.
A Europa também reconhece a importância da região ao decidir, finalmente, após 25 anos de negociação, o Acordo Comercial União Europeia - Mercosul. Trata-se da maior zona de livre comércio do mundo, com uma população agregada de 721 milhões de habitantes e um total de US$ 22,341 trilhões, ou seja, 25% do PIB global. A crise causada por Trump obrigou a Europa a agir e concluir as negociações.
O Acordo UE-MERCOSUL é uma grande vitória do multilateralismo, que chega num momento oportuno para confrontar a atitude de força que paira sobre a América Latina atualmente.
| Arte O Globo. |
Portanto, o Acordo UE-MERCOSUL ajuda tanto a América Latina como a Europa. No novo cenário geopolítico, preocupada com a Guerra da Ucrânia, a Europa está sendo isolada e perdendo relevância geopolítica. A União Europeia tem centrado forças na ameaça russa e, contraditoriamente, vê o enfraquecimento da OTAN, diante do afastamento de Trump dos compromissos de financiamento do poder militar do bloco.
A situação se agravou com a absurda e recorrente menção do presidente americano da intenção dos EUA de incorporar a Groelândia, país autônomo, mas associado à Dinamarca.
Um outro movimento que contraria a atitude dos EUA perante a America Latina e dá peso geopolítico para a região é o protagonismo do Brasil no BRICS, um bloco de nações influentes e que reúne uma grande parte da população mundial, como: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul. Outros países aderiram em 2024 e 2025, ou são considerados parceiros da iniciativa. Trump, preocupado, já ameaçou aplicar tarifas aos países do BRICS.
MULTILATERALISMO
Mesmo nos governos democratas, os EUA nunca se interessam pelo multilateralismo. Mas, sob Trump, os EUA passaram a atuar de forma a inviabilizar estas instâncias. No dia 7 de janeiro, Trump ordenou a retirada dos EUA de 66 organismos internacionais, sob a alegação que "operam contrariamente aos interesses nacionais dos EUA". A investida foi contra agências, comissões e painéis consultivos ligados à ONU, ou independentes, que se concentram em questões climáticas, trabalhistas e outras que o governo Trump classificou como voltadas para iniciativas de diversidade e "woke".
Dentre as organizações da ONU, estão: Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres); Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC); Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD); Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ONU Energia, ONU Habitat, ONU Oceanos, Universidade das Nações Unidas, dentre outras. O governo Trump já havia suspendido o apoio a agências como a Organização Mundial da Saúde, a UNRWA (Agência das Nações Unidas para a Refugiados da Palestina), o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a UNESCO (Agência das Nações Unidas para a Cultura).
As organizações internacionais não vinculadas à ONU são: a tradicional e histórica União Internacional para a Conservação da Natureza - UICN, Aliança Solar Internacional, Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.
CLIMA
Como vimos acima, os EUA retiraram o apoio à UNFCCC e ao IPCC, as principais iniciativas que dão suporte à agenda climática global. A UNFCCC é a convenção do clima que promove as COPs, como a COP30 que acabamos de sediar em Belém. O IPCC reúne os principais cientistas que dão o embasamento técnico às ações de enfrentamento às mudanças climáticas.
Como afirmamos aqui no blog, a atitude reativa dos EUA é um problema para o avanço do processo de negociação contra as emergências climáticas, mas os EUA perdem muito mais do que dificultam. Afinal, em 30 anos de discussão climática, por suas dificuldades com os fortes lobbies internos, o país nunca foi protagonista, muito menos liderou o processo. Portanto, a agenda climática nunca contou muito com os americanos, embora os EUA sempre tenham sido os principais financiadores do sistema ONU.
O afastamento dos norte-americanos nunca impediu que a agenda avançasse no país em outras instâncias. Por exemplo, em contradição com a atitude federal, estados e municípios dos EUA têm algumas das melhores experiências de implementação de políticas climáticas e ajudam a fazer o tema avançar.
Além de esvaziar as organizações climáticas, a Administração Trump coloca o petróleo no centro do conflito geopolítico global e toma para si a maior reserva fóssil do mundo (20% de todo o petróleo do mundo), que é a da Venezuela. Isso acontece justamente quando a transição energética chega ao centro do debate climático.
Segundo Paasha Mahdavi, professor de ciência política da Universidade da California - Santa Barbara (The Guardian), a elevação da produção de petróleo da Venezuela, dos atuais cerca de 1 milhão de barris/dia para 1,5 milhões de barris/dia, produziria a emissão anual de cerca de 500 milhões de toneladas de CO2. Isso corresponde às emissões anuais de carbono de países como o Brasil e o Reino Unido. Há ainda o agravante de que o óleo da Venezuela é um dos mais concentrados e poluentes.
A transição para uma economia de baixo carbono é indispensável para enfrentar a emergência climática. Segundo especialistas, não há mais tempo a perder e se a temperatura média do planeta ultrapassar 1,5°C as consequências serão gravíssimas. Por isso, há uma métrica utilizada para medir o progresso das medidas globais para a redução do carbono atmosférico, conhecida como "Orçamento de Carbono" (Carbon Budget). Ou seja, há um limite de concentração de carbono e um tempo para reduzi-lo. A protelação das medidas nos deixa com a obrigação ainda maior a medida que o tempo passa.
Em Belém, um dos grandes esforços foi para aprovar o Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis, que seria uma metodologia e guia político para o abandono gradativo dos combustíveis fósseis, foi uma das mais importantes bandeiras da COP30. Acabou não havendo consenso para a sua aprovação, mas a Presidência Brasileira, que atua até a próxima COP, anunciou que fará um esforço paralelo para apresentar voluntariamente dois mapas do caminho. A primeira reunião está marcada para o final de abril, em Santa Marta, na Colômbia, país que foi muito enfático na COP30, na cobrança pelo compromisso pela transição. O movimento busca atrair o apoio dos mais de 80 países que já se manifestaram a favor da iniciativa.
A informação, a seguir, consta das informações disponíveis no site oficial da COP30:
Apesar da ausência de consenso, com mais de 80 países apoiando uma linguagem explícita e mais de 80 se opondo a ela, a Presidência brasileira anunciou, por iniciativa própria, processos para elaboração de duas iniciativas:
• Mapa do Caminho para a Transição dos Combustíveis Fósseis de maneira justa, ordenada e equitativa;
• Mapa do Caminho para interromper e reverter o desmatamento.
Com tudo o que vimos, há um grande quadro de incertezas pela frente e, sem dúvida, um cenário muito adverso para o avanço da agenda climática, ai incluída a transição energética.
A crise climática não espera! Seguiremos na louca corrida rumo ao caos climático?
Axel GraelEngenheiro florestal
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/UFF)
Prefeito de Niterói (2021-2024)
Membro do Comitê Executivo Global do ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade
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Bela síntese dos novos desafios que nos esperam. Uma mudança e tanto no cenário de escolhas que teremos pela frente. Qual a postura da China nesse contexto? Qual o papel que ainda caberá à velha Senhora, a Europa? Qual o futuro papel da ONU e da cooperação internacional? Quais as possibilidades de uma transição energética e de um desenvolvendo menos predatório? Porém, cabe também refletir sobre a África e outras regiões do planeta, sua pobreza extrema, as diferentes formas de desigualdades e violência, seus problemas extremos de saúde pública. Povos que ainda sobrevivem da “generosidade” da cooperação internacional. Cooperação essa que ou está sendo descontinuada pela retirada das instituições e universidades americanas, mas também de outras organizações e nações (sobretudo europeias) que transferem recursos para atender a outras prioridades (defesa, por exemplo). Temos sim, muitos motivos para estar preocupados com o futuro do planeta, mas especialmente das suas partes mais miseráveis.
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