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sábado, 7 de março de 2026

Brasil bate recorde de intoxicações por agrotóxicos em 2025

Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Aumento de intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo; Brasil bateu recorde de aprovação de pesticidas em 2025.

Em 2025, 27 pessoas se intoxicaram diariamente por agrotóxicos no país, mostra um levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde. Foram 9.729 casos registrados, com alta de 84% sobre 2015, ano de início da série histórica, e um recorde.

As principais vítimas das intoxicações não intencionais – o que exclui episódios em que a contaminação foi deliberada – são homens de 20 a 39 anos (70%). Nesse grupo, 54% dos acidentes aconteceram no trabalho, e 80% estão relacionados ao uso de agrotóxico no meio agrícola. Desde 2015, o país soma 73.391 intoxicações por agrotóxicos, mostra o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

O estado campeão em intoxicação por agrotóxicos foi o Espírito Santo, com 10% dos casos registrados em 2025. Em seguida vem Tocantins, Rondônia, Acre e Roraima, todos da região Norte, mostrando os resultados nefastos da expansão do agronegócio na região.

Para especialistas, o aumento das intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo de pesticidas. O Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização desses produtos. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% sobre 2024. Já as vendas chegaram a 826 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em comparação a 2023, mostra o IBAMA.

“Com mais agrotóxicos disponíveis, há uma tendência de que o preço caia, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

A nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava o cenário e representa um retrocesso regulatório, reforçam os especialistas. “Já faz tempo que as intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados, mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A geógrafa e especialista em agrotóxicos Larissa Bombardi lembra que enquanto muitos químicos estão proibidos ou com uso restrito na União Europeia, eles ainda são largamente usados – por empresas europeias – no Brasil. É o que Larissa chama de “colonialismo químico”, explica o Outras Palavras.

“A população rural no Brasil está cronicamente exposta a substâncias que são cancerígenas ou que provocam desregulação hormonal”, ressalta a geógrafa no Brasil de Fato. “Por estudos que temos, já sabemos que as áreas em que mais se utiliza agrotóxico são aquelas em que há maior prevalência de câncer.”

Em nota enviada à Repórter Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) relaciona o avanço das intoxicações ao peso econômico e político do agronegócio. Fato que, segundo a pasta, tem favorecido a adoção de medidas de interesse do setor.

ICL Notícias e Racismo Ambiental também repercutiram o assunto.

Em tempo: A gigante química alemã Bayer chegou a um acordo de US$ 7,25 bilhões (R$ 37 bilhões) com autores de ações judiciais para encerrar dezenas de milhares de processos que alegam que o herbicida Roundup causou linfoma não Hodgkin. As alegações são de que a Bayer falhou ao não alertar nos rótulos do produto sobre os supostos riscos carcinogênicos representados pelo glifosato. Segundo O Globo e UOL, o acordo foi submetido a um tribunal do Missouri, nos Estados Unidos, e visa resolver reivindicações atuais e futuras, criando um fundo financiado ao longo de até 21 anos.

Fonte: ClimaInfo





Brasil tem queda de 39% nas áreas queimadas no Brasil em 2025



As medidas dão continuidade à construção de uma nova governança do fogo, conduzida pelo Governo do Brasil desde 2023, para enfrentar os desafios da mudança do clima - Foto: João Stangherlin/ICMBio.

MMA apresenta queda de 39% nas áreas queimadas no Brasil em 2025 e conjunto de ações para prevenção e controle de incêndios florestais em 2026

Redução no ano passado ocorreu em comparação à média dos últimos oito anos; medidas anunciadas dão continuidade à execução de nova governança que amplia a resiliência do país ao fogo

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) detalhou, nesta quarta-feira (4/3), as ações de prevenção e controle dos incêndios florestais no país em 2026. O conjunto de medidas dá continuidade ao processo conduzido pelo Governo do Brasil desde 2023 para construção e implementação de uma nova governança do fogo à altura dos desafios impostos pela mudança do clima.

Em entrevista coletiva realizada na sede do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Prevfogo/Ibama), em Brasília (DF), o ministério também apresentou dados que indicam 39% de redução da área queimada no território nacional em 2025 na comparação à média dos oito anos anteriores (2017 a 2024), de acordo com informações do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA/UFRJ). No Pantanal, a queda foi de 91%; na Amazônia, de 75%; na Mata Atlântica, de 58%; e no Pampa, de 45% (veja quadro ao final).

Os resultados, segundo a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, decorrem da execução dessa nova governança, que vem sendo desenvolvida desde 2023 com base na ciência e tem como eixo central a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), criada pela Lei nº 14.944/2024, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em julho de 2024. Gerida pelo MMA, a PNMIF estabelece a coordenação entre governo federal, estados, municípios, setor privado, povos indígenas e comunidades tradicionais e sociedade civil para fortalecer e ampliar medidas de prevenção, preparação e controle de incêndios.

Entre as medidas anunciadas na coletiva de imprensa para enfrentar os incêndios em 2026, está a portaria que declara emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis, assinada no fim de fevereiro pela ministra. A norma identifica áreas em risco de incêndios em todo o país e os períodos de maior vulnerabilidade para viabilizar a contratação emergencial de brigadistas federais. A medida orienta ações preventivas e amplia a capacidade de resposta e mobilização dos órgãos ambientais.

Marina Silva enfatizou que a portaria estabelece as bases legais necessárias para que o poder público atue de forma preventiva e antecipada. “Confere a base não apenas para a atuação do governo federal, mas também para que os estados possam se organizar e agir de acordo com as dinâmicas e especificidades dos incêndios em suas regiões”, afirmou. "É planejar, prevenir e combater e, sobretudo, assegurar que essas iniciativas não sejam apenas reativas, acionadas quando a crise já está instalada, mas políticas permanentes, estruturadas e contínuas."

O instrumento foi elaborado a partir de um estudo técnico que analisou o déficit de precipitação em todo o país, o histórico de focos de calor, as projeções climáticas e as características das mesorregiões afetadas.

A ministra também pontuou que a redução do desmatamento nos últimos três anos foi decisiva para a queda da área queimada no país no ano passado. Em 2025 na comparação a 2022, o declínio foi de 50% na Amazônia e 32% no Cerrado, segundo o sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

“A ação integrada entre os diferentes níveis de governo, o setor privado e a sociedade civil são fundamentais. A eficiência da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo depende da identificação e da ação imediata”, afirmou o secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco. Ele salientou ainda que essa visão integrada foi essencial na elaboração da portaria, que orienta as áreas e os períodos ao longo do ano em situação de maior risco. Ele acrescentou que é necessário que a “sociedade esteja informada e preparada”, pois a medida oferece orientações para uma atuação preventiva.

Estrutura para operações

As medidas adotadas para o enfrentamento aos incêndios em 2026 envolvem, ainda, o emprego de 246 brigadas florestais federais – 131 do Ibama e 115 do ICMBio. Está prevista a contratação de 4.410 brigadistas florestais federais, aos quais se somarão 250 servidores efetivos dos dois órgãos, totalizando 4.660 profissionais mobilizados. O patamar se manterá em relação a 2025, quando foram contratados 4.358 brigadistas – um aumento de 25% em relação a 2024.

Serão utilizados nas operações prevenção e combate ao fogo 18 helicópteros, 2 aviões de transporte e 12 para lançamento de água, além de 89 embarcações. A estrutura operacional também conta com 973 caminhonetes, 408 veículos especializados, três bases logísticas e duas vilas operacionais. O planejamento inclui ainda 340 barracas de campanha, 3.100 equipamentos individuais motorizados e 4.358 conjuntos de equipamentos individuais de combate.

A ampliação da capacidade de monitoramento foi destacada pelo presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho. "Antes, contávamos basicamente com dados de focos de calor. Agora, passamos a ter monitoramento diário das áreas queimadas em todo o Brasil. Isso representa um ganho expressivo de qualidade e na capacidade de resposta", pontuou.

Perspectivas climáticas

O conjunto de ações integra a estratégia do Governo do Brasil, em parceria com estados, municípios, setor privado e sociedade civil, na preparação para a temporada de seca que se inicia em grande parte do país nos próximos meses. Em janeiro, o MMA promoveu reunião sobre as perspectivas climáticas e riscos de incêndios florestais com representantes do INPE, Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e LASA/UFRJ. No encontro, os especialistas apontaram para o final do fenômeno La Niña entre fevereiro e abril, com maior probabilidade de predominância e intensificação, a partir de julho, do fenômeno El Niño, que impacta o padrão de precipitação, com tendência de redução das chuvas nas regiões Norte e Nordeste e irregularidade na porção central do Brasil.

“Estamos trabalhando com a tendência de que, a partir do segundo semestre deste ano, o país enfrente uma situação mais crítica e intensa de seca e de ondas de calor, o que, consequentemente, eleva o risco e o perigo de incêndios florestais", alertou o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do MMA, André Lima.

O presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Mauro Pires, defendeu a criação e a ampliação de áreas protegidas como estratégia para o enfrentamento aos incêndios. De acordo com ele, o órgão realiza queimas prescritas no entorno das Unidades de Conservação como medida preventiva, reduzindo a carga de material combustível e diminuindo o risco de grandes incêndios. Essa lógica, explicou, também fundamenta o trabalho de ampliação das unidades de conservação no país. “Faz sentido, sim, trabalhar para a expansão dessas áreas. É por isso que temos realizado consultas públicas e atuado para ampliar o número de áreas protegidas no Brasil”, afirmou.

Além disso, medidas do Governo do Brasil para prevenção e enfrentamento aos incêndios desde 2023 incluem:
  • Sala de Situação para prevenção e controle dos incêndios e secas: colegiado que reúne 10 ministérios e órgãos vinculados, sob coordenação da Casa Civil, para monitoramento, resposta e liberação de recursos extraordinários;
  • Cinco resoluções do Comitê Nacional de Manejo de Fogo (COMIF) publicadas;
  • Cinco reuniões técnicas com meteorologistas (INPE, INMET, ANA, CEMADEN e Lasa/UFRJ) para prever e planejar ações para temporada de incêndios em 2025;
  • Decreto nº 12.189, de 20 de setembro de 2024, que aumentou as punições por incêndios florestais no país;
  • R$ 405 milhões do Fundo Amazônia para apoiar os Corpos de Bombeiros dos nove estados da Amazônia Legal na prevenção e combate a incêndios florestais (2024 e 2025);
  • R$ 150 milhões do Fundo Amazônia para os Corpos de Bombeiros dos estados do Cerrado e Pantanal – pela primeira vez, o Fundo financia ações de capacitação e compra de veículos e equipamentos fora da Amazônia (2025 e 2026);
  • Publicação de edital que prevê recursos no valor de R$ 32 milhões do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) em conjunto com o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD) para apoio a municípios prioritários na Amazônia e Pantanal na implementação de Planos Operativos de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (2025);
  • Anúncio dos Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas (PPCDs), pela primeira vez, para todos biomas brasileiros, com estratégias específicas para a preservação ambiental em diferentes eixos até 2027 (acesse aqui).
Acesse aqui a apresentação feita antes da entrevista coletiva.

Fonte: MMA